Um livro é um mudo que fala, um surdo que responde, um cego que guia, um morto que vive. (Padre Antônio Vieira)

terça-feira, 18 de novembro de 2008

As melhores condições para que o amor se realize

FREIRE, Roberto. Sem tezão não há solução. 11. ed. Rio de Janeiro: Guanabara, 1987. 193 p.
 
Eu, quando estou amando, não penso sobre o amor, eu busco saber quais são as melhores condições para que o amor se realize. [...] é um coisa que se produz no ser humano como manifestação fundamental do fato de ele estar vivo. Mas independe de outras pessoas. O amor é produto de minha vida. Ele é um pedaço do meu ser. [...] ninguém produz em mim o amor. O máximo que pode acontecer é a pessoa se habituar a esse amor. p. 131
: ) *:

Do amor só se pode fazer a necrópsia

FREIRE, Roberto. Sem tezão não há solução. 11. ed. Rio de Janeiro: Guanabara, 1987. 193 p.
 
Estamos hoje certos de que o amor não foi feito para ser compreendido, mas apenas vivido. [...] do amor só se pode fazer a necrópsia, jamais a biópsia. (Utopia e paixão) p. 131
 
 

Só a atitude herética

FREIRE, Roberto. Sem tezão não há solução. 11. ed. Rio de Janeiro: Guanabara, 1987. 193 p.
 
[...] só a atitude herética  posta em prática pela ciência revolucionária marginal pode "curar" a "doença" autoritária institucional e oficializada.
 
"O termo heresia deriva do grego heresis,  que originalmente significou escolha... Por extensão foi aplicado em seguida ao conjunto das teorias de um filósofo e à escola que as ensinava. O termo permaneceu neutro até que a Igreja Católica lhe conferiu um sentido desfavorável. De fato, a Igreja acreditava ser o único depositário da Verdade Revelada, reservando para si o direito de a fazer conhecer... Desde então qualquer outra interpretação diferente da versão autorizada tornava-se, pois, herética no sentido novo e pejorativo do termo" (Enciclopédia britânica, 1973) p. 86
 
 

Necessidade de poder

FREIRE, Roberto. Sem tezão não há solução. 11. ed. Rio de Janeiro: Guanabara, 1987. 193 p.
 
Não resta mais dúvida alguma para mim que a necessidade de poder absoluto corresponde sempre a uma impossibilidade de se viver os prazeres relativos da existência cotidiana. A perda do prazer expontâneo cria nas pessoas, por mecanismos psicopatológicos de compensação perversa, a necessidade compulsiva de poder. Todo tipo de poder: o físico, o psicológico, o afetivo, o sexual, o econômico, o político. A forma de prazer que ainda sobraria nestas pessoas seria o de natureza sadomasoquista e paranóica: necessidade da dor alheia ou própria para se alcançar o prazer, necessidade essa comandada pelo fato de se sentirem pessoas superiores, especiais, e que por isso devem estar em constante estado de defesa e ataque contra inimigos, usando para isso o máximo requinte e crueldade e extrema violência. Assim, o prazer-dor de dominar, de mandar, de se apropriar e de explorar corresponde à dor-prazer de ser dominado, de ser mandado, de ser apropriado e de ser explorado. p. 35

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Nem pense

Pensar e não chegar,
Ah conclusão...
Nenhuma!
Que conclusão?

Sem pensar
poderia
bastar...
Nem pense!

Não chegar
a conclusão
nenhuma....

Nem mesmo através dos versos
Nem mesmo através dos gestos,
Nem mesmo através da vida.


f. foresti
13/11/2008

Minha companhia

Pensar e pensar e pensar
Para não chegar
A conclusão nenhuma.
Toda decisão é prematura,

Não conseguimos perceber nada,
A realidade nos trespassa,
A vida zomba de nós
E dá risada quando acabamos sós.

Mas eu sei que nunca estamos sozinhos...
Não que acredite em Deus ou em sonhos,
Apenas sei que não posso sair de mim mesmo.

Em minha companhia sempre estarei com apreço,
Conversando comigo mesmo e com os mortos,
Sobre livros e livros e livros.


f. foresti
13/11/2008



quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Lisbon Revisited

Lisbon Revisited, de Álvaro de Campos
http://www.pessoa.art.br/?p=417

Não: Não quero nada.
Já disse que não quero nada.

Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.

Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!
Tirem-me daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) —
Das ciências, das artes, da civilização moderna!(*)

Que mal fiz eu aos deuses todos?

Se têm a verdade, guardem-na!

Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?

Não me macem, por amor de Deus!

Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?

Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja da companhia!

Ó céu azul — o mesmo da minha infância —
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflete!
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.

Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo…
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!

A recompensa de não existir

Porque a recompensa de não existir é estar sempre presente.
 
Álvaro de Campos

terça-feira, 11 de novembro de 2008

THIRTY-CHERQUES. Sobreviver ao trabalho

THIRTY-CHERQUES, Hermano Roberto. Sobreviver ao trabalho. Rio de Janeiro: FVG, 2004. 184 p.
 
[...] o verdadeiro problema de quem trabalha é como manter a humanidade num mundo hostil e refratário ao que há de exclusivo no ser humano: a razão, a consciência que dá sentido e alegria ao viver. p. 14



THIRTY-CHERQUES, Hermano Roberto. O golem laborioso. In: ______ .Sobreviver ao trabalho. Rio de Janeiro: FVG, 2004. cap. II, p. 21-44.


VIDA E SISTEMA

Não há vida fora do sistema

O MUNDO DO SISTEMA

Dá o sentido da vida

SOBREVIVE

Quem integra o sistema

TRAÇO

Mentalidade de gueto: sujeição como condição da existência


O trabalhador-golem está longe de ser um indivíduo cuja existência foi truncada pelas necessidades da sobrevivência. Tampouco é um rebelde domado. É alguém a quem nunca ocorreu se rebelar. Alguém tão associado ao sistema que a ele aliena integralmente o espírito. Alguém que ambiciona pertencer, que quer ser reconhecido como útil à produção. [...] esse tipo de trabalhador desenvolve uma conduta de aceitação e conformidade. Manipulando e sendo manipulado, mitificando e crendo, ele é um excluído, um exilado do mundo que existe para além do trabalho. p. 22


A configuração socioeconômica que aí está [...] induz o florescimento da disposição de espírito do golem e dos seus avatares – o robô, o andróide e o cyborg – e encoraja a proliferação daqueles que dependem do sistema para sobreviver não só física, mas mental e socialmente. p. 22


[...] se realiza através das realizações do sistema. p. 24


Pode-se lamentar que seres humanos tenham cancelado os valores e as virtudes individuais. Que a sua esperança individual tenha chegado a se confundir com a esperança coletiva, e a fortuna da sua existência com a fortuna da produção. Mas a sobrevivência, tal como aqui colocada – coerência pessoal e resistência da psique ante as pressões do sistema -, impõe, para que possa se efetivar, uma lógica, uma explicação do mundo e da vida. p. 25


São duas as características de sua constituição: a mentalidade conformista e o desejo de alienar á outra instância a vontade e a decisão sobre o viver – o anseio de estar identificado com alguma estrutura social, seja ela qual for. A primeira deriva da sujeição como condição da existência. A segunda, da convicção ou da sensação de que a individualidade só existe enquanto parte. Ambas, da idéia de que cada um de nós é o que é somente em relação aos outros, aos grupos, às instituições, às organizações. Trata-se de uma exacerbação da idéia hegeliana do reconhecimento. Para o trabalhador-golem, ser não é apenas ser reconhecido. Ser é ser reconhecido como parte funcional, como subsistema. 25


[...] uma mistura de mentalidade de gueto e de vontade de inclusão. 26


O gueto é uma situação extrema, mas a "mentalidade de gueto" não. É até bastante comum. A primeira característica dessa mentalidade é a recusa em ver. [...] A segunda característica [...] é a insensibilidade como tática de sobrevivência. 27


[...] o alheamento do sistema significa a perda cada vez mais pronunciada do sentido da própria vida. [...] Mais e mais essas pessoas fazem seus os valores das organizações. Para elas, há cada vez manos vida fora do sistema. [...] toda a perspectiva da vida está limitada ao "pertencimento". p. 27


Quando os valores do sistema são tidos como valores da vida, sobrevivência torna-se tão controlável quanto controláveis são os fatores de mercado e o progresso técnico para o trabalhador na linha de produção, de forma que os trabalhadores-golem são triplamente alienados: alienam a sua força de produção [...]; alienam sua vontade [...] às forças de mercado; e alienam sua vida espiritual ao fortuito, ao aleatório, ao acaso do seu destino material. 28


[...] o trabalhador robotizado não sofre com a prisão de ferro porque não a enxerga. Simplesmente a integra. p. 31


A instrumentalização – da qual o andróide é vítima e promotor – advém das práticas administrativas de recursos humanos e não de um interesse individualizado. Tal como as técnicas de auto-ajuda, muitas das formas atuais das práticas de RH exploram facetas do extinto de sobrevivência. Elas se fundam na ilusão de conhecer o futuro e na esperança de melhorar ou prolongar a vida. [...] recomendam estratégias de sobrevivência baseadas na vigilância e na desconfiança. Essas estratégias derivam da literatura psiquiátrica e médica sobre resistência às enfermidades. p. 32


Com a intelectualização do trabalho, ele vem se especializando em uma espécie particular de manejo: o governo dos demais. Ele é um manipulado que manipula os objetos, os processos e os outros tabalhadores. p. 37


A automação, a irreflexão, levada às últimas consequências, privou o trabalhador da sensação de utilidade. O tédio e a insatisfação anularam a individualidade, mataram o espírito. O trabalho um dia foi a vida. Se não é mais, pelo menos podemos fingir que é. Podemos nos iludir. Podemos condicionar a nós mesmos [...] meio programados, meio amestrados. p. 38




THIRTY-CHERQUES, Hermano Roberto. Kafka assalariado. In: ______ .Sobreviver ao trabalho. Rio de Janeiro: FVG, 2004. cap. III, p. 45-60.


VIDA E SISTEMA

Não existe vida no sistema

O MUNDO DO SISTEMA

Não faz sentido

SOBREVIVE

Quem se desliga do sistema

TRAÇO

Estranhamento: separação entre o percebido e o que parecia lógico


Para Brentano [...] só o mundo interior tem verdadeiramente um caráter de realidade. O mundo exterior, embora não se negue que exista, não tem realidade. p. 50


É comum esses trabalhadores recusarem promoções, cargos, renunciarem a todo deslocamento que os faça mover para cima, para os lados ou para qualquer ponto que não seja o que já ocupam na estrutura organizacional. p. 51


Estranho no mundo do trabalho, cindido entre o viver e o poder viver, conformado à engrenagem, o assalariado kafkaniano nem mesmo vê como possibilidade a ascensão, o reposicionamento dentro da máquina produtiva. Não se esforça para isso porque não lhe parece lógico aspirar a ser uma peça dominante, a ser um objeto essencial do sistema. Não lhe parece racional ser um subalterno graduado. Resignado ao plebeísmo, para sobreviver ele se vê compelido ao trabalho ignóbil. p. 52


[...] convergência de ofícios desqualifica o trabalho no que ele tem de mais precioso e ligado à vida: sua individualidade. p. 53


A indiferença moral manifesta-se de quatro maneiras diferentes: a não-reação às mudanças do mundo exterior; a passividade ante as ameaças representadas pelas mudanças tecnológicas e pelas novas formas de organização; a conformidade consciente aos constrangimentos impostos pelo sistema; a ética como obrigação exclusiva do mundo da vida, que cessa ante os valores do sistema. p. 56


A passividade ante as ameaças aos valores do mundo da vida é o segundo modo da indiferença. A aceitação [...] aparece aqui como uma fraqueza. p. 56


O silêncio do palavra, o silêncio dos desejos, o silêncio dos pensamentos. É uma disciplina que leva à aparência de gravidade e sabedoria, mas não passa de uma defesa ante a ininteligibilidade da vida. Em um mundo onde a fala é a chave do êxito ou da punição, defende-se melhor aquele que não se manifesta, aquele que aparenta não ter dúvidas sobre o que acontece e sobre o que faz, aquele que finge saber por que está sendo julgado. [...] no mundo do trabalho melhor calar, porque não há como distinguir entre o sábio que cala e a besta que não fala. p. 57



THIRTY-CHERQUES, Hermano Roberto. Weber profissional. In: ______ .Sobreviver ao trabalho. Rio de Janeiro: FVG, 2004. cap. IV, p. 61-86.



VIDA E SISTEMA

A vida e o sistema compõem-se mas não se integram

O MUNDO DO SISTEMA

Tem um sentido diferente da vida

SOBREVIVE

Quem tolera o sistema

TRAÇO

Sociabilidade: destreza social para sobreviver no sistema



[...] a habilidade de conviver com o diverso e o mutante – a sociabilidade – veio a se tornar mais essencial para a sobrevivência no trabalho do que a atualização tecnológica, do que o conhecimento. p. 65


[...] dar de si o mínimo pelo máximo de de recompensa que puder obter. As afinidades entre o trabalhador e o trabalho são resultantes de uma combinação de interesses, de uma eleição, não da empatia, muito menos do afeto. p. 67


No mundo desencantado da racionalidade, na sociedade MacDonald, onde o significado do trabalho é medido pelo produto ou pelo serviço que se entrega no balcão da economia, a ponte entre a vida e o sistema foi levantada. O que aí está é uma porta que se entreabre para o provedor de resultados, para o trabalhador plug-and-play, para o profissional hello-and-bye, para todo o mundo, para qualquer um. p. 84-85



THIRTY-CHERQUES, Hermano Roberto. Maquiavel funcionário. In: ______ .Sobreviver ao trabalho. Rio de Janeiro: FVG, 2004. cap. V, p. 87-124.


VIDA E SISTEMA Viver é dominar o sistema

O MUNDO DO SISTEMA Só faz sentido como relação de poder e sujeição

SOBREVIVE Quem domina o sistema

TRAÇO Métis: a sagacidade política para dominar o sistema


Para chegarem ao poder [...] valem-se de fórmulas legitimadas pelos sistemas organizacionais contemporâneos, em que a deslealdade e a bajulação são habilidades que contam. p. 89


A apologia da padronização, que beira a anulação completa da individualidade, em favor da eficácia dos sistemas está no cerne dos pacotes de técnicas gerenciais. Tal como os carmelitas, que devem obedecer imediata, voluntária e alegremente, o empregado "moderno" deve pensar com a organização, ou melhor, não pensar. p. 90


Adorno (1969) aponta como marca da personalidade autoritária a disposição para a obediência, a adulação dos superiores, a arrogância, o desprezo pelos inferiores, a rigidez, o conformismo. A personalidade autoritária é intolerante em relação á ambigüidade e se refugia na ordem estruturada, fazendo uso de estereótipos e aceitando as convenções do grupo. p. 91


Com o tempo, entretanto, toda elite se intelectualiza, perde a garra, pouco a pouco vai descuidando de reconquistar a submissão. [...] vão-se formando novos grupos de pressão, que, feito leões, irão render a guarda, alijar dos postos antigos dirigentes, fechar o círculo e iniciar sua própria luta para manter-se no poder. p. 92


Quando nos isentamos de preconceitos e examinamos a realidade da luta que se desenrola sem cessar, vemos que as belas fórmulas da administração científica, dos preceitos de competência técnica, da gestão compartilhada – perfeitas em seus torneios lógicos – não correspondem à realidade, têm o defeito de não existir. O prêmio, o graal do poder e, grande parte das organizações está, tem estado, na dependência da agressividade fronteiriça à violência e da torpeza erigida em sagacidade. p. 93


Só existe uma lógica – a da elite -, e só uma razão – a da força . Ascendem os mais bem preparados, não os mais aptos. p. 93


Denomino "sobrevivência política" a capacidade de algumas pessoas de ingressar e se manter no mundo do trabalho pela via das artimanhas, das aparências, das espertezas. São especialistas em tarefas inúteis, peritos no trabalho que é ou se tornou supérfluo. São pessoas que produzem pouco ou nada, que vivem do esforço alheio, cujo trabalho consiste principalmente em se manter empregadas. p. 95


A métis serve a muitos propósitos. É um dos fundamentos da ação política, da inteligência maquiavélica. Consiste, em grande parte, no exercício de artimanhas. Desde a antigüidade, os manuais de sobrevivência política aconselham os mesmos estratagemas: absorver as ameaças virtuais à sobrevivência (casar com astúcia), cooptar o adversário potencial [...] entravar burocraticamente o acesso dos outros (criar e fazer cumprir as regras), jogar com a insegurança alheia (aparentar conhecer o futuro). Os que sobrevivem no trabalho pela via da política usam este tipo de inteligência. p. 96


A melhor síntese das regras básicas para influenciar, obter e manter o poder nas organizações ainda é a construída por Cohen e March (1974) sobre a liderança nos ginásios e universidades norte-americanas:


  1. gaste tempo

  2. persista

  3. troque posição por substância (por exemplo, troque status por reconhecimento social, posto por auto-estima)

  4. facilite a participação dos oponentes (não crie nem cultive inimigos)

  5. sobrecarregue o sistema (não de espaço para ociosidade)

  6. proponha projetos com os quais todos estejam de acordo (evite polêmicas)

  7. prefira resultado do que visibilidade (evite áreas sensíveis)


Ao convencer os outros:

a) apresente as metas como hipóteses (não force)

b) use a intuição como se tivesse certeza

c) trate a hipocrisia como algo temporário (seja hipócrita)

d) trate a memória como inimiga (esqueça)

e) trate a experiência prática como se tivesse base teórica (o que todos sabemos)


p. 100


A métis permite aos que não produzem se manter nas organizações, mas também dá aos que produzem a condição de sobreviver à trama de frivolidade, ganância e inveja que traspassa as relações humanas no mundo do trabalho. p. 104


O terceiro componente de sustentação política no trabalho é um composto de fé e mistificação. Fé no sentido de crer no próprio destino, ou melhor, de crer que se tem um destino especial, que se está predestinado. Mistificação no sentido de fazer crer aos outros que se tem o controle do próprio destino e da organização. p. 104


A par dos esquemas de ascensão e sustentação no poder e da inteligência política, o modo de encarar a sorte e o azar e de se aproveitar da crença ou ingenuidade alheia é essencial à sobrevivência política. p. 105


As projeções declaradas pelas organizações latinas têm um caráter fortemente cultural, isto é, estão fundadas naquilo que tem acontecido, enquanto as projeções das organizações de outras linhagens – americanas, asiáticas – voltam-se para o que pode acontecer. p. 109


Fazer crer que o que se passa não tem uma causa ou que essa causa é inalcançável e ir contra os efeitos, ou fazer crer que se conhecem e se controlam as causas quando isso não é verdade. A vacuidade das declarações de dirigentes e especialistas tem muitas vezes raiz nesse engodo. p. 109


Haveria um conduta ideal para alcançarmos a segurança dos postos mais altos, outra para neles nos mantermos, outra para retardar o declínio e outra ainda para nos restaurarmos após a queda. A conduta ideal é, na prática, a conduta conveniente a quem detém o poder ou quer alcançá-lo. p. 113


O trabalho não é, nem nunca foi, uma fonte segura de auto-realização. Nem sempre os homens tabalharam e grande parte dos que trabalham tem como razão e objetivo de vida justamente parar de trabalhar. p. 117


O vulgo, dizia Maquiavel, é sempre seduzido pela aparência e pelo êxito, e é o vulgo que faz o mundo. A manipulação de conceitos é certamente a forma mais insidiosa e eficaz de dominação. Doma as consciências, induz uma aparência de concordância entre os interesses políticos e os de produção. p. 122-123.


Somos Sísifo, condenados eternamente ao trabalho sem sentido, e somos o sonho de Marx, transformando o mundo, a história e a nós mesmos. Somos também Maquiavel, um funcionário mal remunerado que lutou toda a sua vida por reconhecimento. Em vão. p. 124



THIRTY-CHERQUES, Hermano Roberto. Borges inspetor. In: ______ .Sobreviver ao trabalho. Rio de Janeiro: FVG, 2004. cap. VI, p. 125-160.



VIDA E SISTEMAViver é estar ausente do sistema

O MUNDO DO SISTEMA Tira o sentido da vida

SOBREVIVE Quem é autônomo em relação ao sistema

TRAÇO Ausência: a indiferença em relação ao sistema


[...] "tolerância repressiva" de Herbert Marcuse. Ele demonstrou, ou pretendeu demostrar, que a tolerância com os dissidentes da sociedade liberal tem o propósito de servir não para a emancipação de grupos e pessoas explorados, mas para adormecer os impulsos libertários. Com isso, torna-se repressiva, embora sob a aparência de libertadora. p. 131


O liberalismo no mundo político é isso: pessoas iguais com concepções diferentes, encontram uma forma de convivência. As organizações são outra coisa: São formadas por pessoas diferentes interessadas em um objetivo igual. p. 134


O respeito em filosofia política é uma reverência perante uma razão superior. O respeito na linguagem cotidiana das organizações medeia entre a adminiração e o temor. Respeitar um concorrente ou respeitar um parceiro é admirar o que ele fez ou temer o que ele possa fazer. A cooperação, se e quando existe nas organizações, é condição, não resultado de um interesse comum dos cooperantes. p. 134-135


[...] a linha que limita a tolerância política nas relações entre empregado e empregador é dada pela renúncia a cooperar (cooperação) devida à divergência de interesses, pela perda de confiança (a fé compartilhada), pelo descrédito do empregado ou do empregador, pela ilegitimidade do móvel da tolerância. p. 135


Existem quatro fatores principais de ordem psicológica que levam à ruptura:

a) a percepção do trabalhador de que a organização lhe extrai sobretrabalho;

b) os traços de personalidade que não se encaixam na vida organizacional;

c) a tensão provocada pela falta ou distorção de informações;

d) a emocionalidade nas relações entre dirigentes e empregados. p. 138


A gestão científica é, de fato, um passo decisivo para a nova percepção do trabalho. O princípio que reza que o trabalho cerebral deve ser concentrado na mão dos gerentes [...] cria a gerência científica e supera o estudo fisiológico. Seus argumentos: de que o trabalhador tentará guardar os "segredos do ofício" para si e para seus amigos; de que o simples controle e o incentivo direto à produção não funcionam, porque o trabalhador tende a defender o emprego, seu e de seus colegas; e de que a racionalização é um atributo gerencial [...] são não apenas lógicos, como verdadeiros. Os fatos de que o monopólio do conhecimento sobre o trabalho pelo gerente provoque uma concentração de conhecimento em uns poucos e a execução cega do trabalho por muitos e de que o princípio de ajustamento das pessoas ao trabalho, via adestramento e especialização por tarefas, terminam por retirar a iniciativa do trabalhador não invalidam a constatação de que a escolha de métodos baseados em conhecimentos tradicionais, em habilidades pessoais, na inteligência e na solidariedade tem uma produtividade menor do que os métodos da produção em massa. Mas a execução mecânica de tarefas, a não-participação no destino do que se ajuda a produzir são intoleráveis para grande número de pessoas. Elas ou se retiram do emprego ou reagem – agem politicamente. p. 138


Os que tem espírito livre, os que pretendem mais do que simplesmente jogar o jogo banal do dar e receber, são incompatíveis com a vida nas organizações. p. 140


Quem se sabe único não sobrevive à privação de ser ele mesmo. A par da tolerância política e da tolerância psicofísica, cujos limites são elásticos, temos a tolerância ética, que é inelástica. p. 141


Um marido complacente entre nós é objeto de pena ou zombaria. Por que não se dá o mesmo em outras instâncias que não a do poder machista é um mistério para os antropólogos resolverem. O fato é que, em nossas organizações, a queixa, a busca do direito, é considerada falta de respeito, e a falta de respeito não pode ser tolerada sob pena de fazer ruir a tola disciplina organizacional ou a honra infantil de quem não leva desaforo para casa. p. 141


Quanto mais formal é o meio, mais "interpretada" se torna a informação. O conteúdo da mensagem é sempre decidido pelo receptor. p. 153


O que estamos vivenciando [...] é [...] o surgimento de novos tipos de organizações, virtuais, abertas, informais. Organizações de vinculação rarefeita, que favorecem o trabalho extra-organizacional, que valorizam o trabalhador solitário. p. 153


A transmissão e o acesso à informação dependem hoje mais do procura do que da oferta. p. 156


O trabalhador solitário com chances de sobreviver deve ser autárquico, autodidata, particular, único. Um trabalhador que se vincule à organização o estritamente necessário ao repasse de sua contribuição. Que se conecte, mas não se uma. p. 156


Foi Carlyle quem notou o paradoxo de um progressista ser sempre um conservador – ele conserva, ou quer conservar, a direção do progresso -, enquanto um conservador, um reacionário, é geralmente um rebelde: ele se rebela contra a direção do progresso. p. 158


[...] no futuro próximo, sobreviver ao trabalho continuará a ser pelo menos tão difícil quanto sobreviver à falta de trabalho. p. 163



GOLEM

KAFKA

WEBER

MAQUIAVEL

BORGES

VIDA E SISTEMA

Não há vida fora do sistema

Não existe vida no sistema

A vida e o sistema compõem-se mas não se integram

Viver é dominar o sistema

Viver é estar ausente do sistema

O MUNDO DO SISTEMA

Dá o sentido da vida

Não faz sentido

Tem um sentido diferente da vida

Só faz sentido como relação de poder e sujeição

Tira o sentido da vida

SOBREVIVE

Quem integra o sistema

Quem se desliga do sistema

Quem tolera o sistema

Quem domina o sistema

Quem é autônomo em relação ao sistema

TRAÇO

Mentalidade de gueto: sujeição como condição da existência

Estranhamento: separação entre o percebido e o que parecia lógico

Sociabilidade: destreza social para sobreviver no sistema

Métis: a sagacidade política para dominar o sistema

Ausência: a indiferença em relação ao sistema

 

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Regras básicas para influenciar, obter e manter o poder nas organizações

THIRTY-CHERQUES, Hermano Roberto. Sobreviver ao trabalho. Rio de Janeiro: FVG, 2004. 184 p.

A melhor síntese das regras básicas para influenciar, obter e manter o poder nas organizações ainda é a construída por Cohen e March (1974) sobre a liderança nos ginásios e universidades norte-americanas:

  1. gaste tempo

  2. persista

  3. troque posição por substância (por exemplo, troque status por reconhecimento social, posto por auto-estima)

  4. facilite a participação dos oponentes (não crie nem cultive inimigos)

  5. sobrecarregue o sistema (não de espaço para ociosidade)

  6. proponha projetos com os quais todos estejamd e acordo (evite polêmicas)

  7. prefira resultado do que visibilidade (evite áreas sensíveis)


Ao convencer os outros:

a) apresente as metas como hipóteses (não force)
b) use a intuição como se tivesse certeza
c) trate a hipocrisia como algo temporário (seja hipócrita)
d) trate a memória como inimiga (esqueça)
e) trate a experiência prática como se tivesse base teórica (o que todos sabemos) p. 100

terça-feira, 4 de novembro de 2008

A tolerância repressiva

[...] "tolerância repressiva" de Herbert Marcuse. Ele demonstrou, ou pretendeu demostrar, que a tolerância com os dissidentes da sociedade liberal tem o propósito de servir não para a emancipação de grupos e pessoas explorados, mas para adormecer os impulsos libertários. Com isso, torna-se repressiva, embora sob a aparência de libertadora. p. 131
 THIRTY-CHERQUES, Hermano Roberto. Sobreviver ao trabalho. Rio de Janeiro: FVG, 2004. 184 p.

Respeito nas organizações

O respeito em filosofia política é uma reverência perante uma razão superior. O respeito na linguagem cotidiana das organizações medeia entre a admiração e o temor. Respeitar um concorrente ou respeitar um parceiro é admirar o que ele fez ou temer o que ele possa fazer. A cooperação, se e quando existe nas organizações, é condição, não resultado de um interesse comum dos cooperantes. p. 134-135

THIRTY-CHERQUES, Hermano Roberto. Sobreviver ao trabalho. Rio de Janeiro: FVG, 2004. 184 p.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

O lugar da leitura e do leitor

CERTEAU, Michel de. Ler: uma operação de caça. In: ______ . A invenção do cotidiano: artes de fazer. 6. ed. Rio de Janeiro: Vozes, 2001. cap. XII, p. 259-273.

Com efeito, a leitura não tem lugar: Barthes lê Proust no texto de Stendhal; o telespectador lê a paisagem de sua infância na reportagem da atualidade [...] O mesmo se dá com o leitor: seu lugar não é aqui ou , um ou outro, mas nem um nem outro, simultaneamente dentro e fora, perdendo tanto um como o outro misturando-os, associando textos adormecidos mas que ele desperta e habita, não sendo nunca o seu proprietário. Assim, escapa também à lei de cada texto em particular, como à do meio social. p. 270

Sobre a credibilidade

CERTEAU, Michel de. A economia escriturística. In: ______ . A invenção do cotidiano: artes de fazer. 6. ed. Rio de Janeiro: Vozes, 2001. cap. X, p. 221-246.


Uma credibilidade do discurso é em primeiro lugar aquilo que faz os crentes se moverem. Ela produz praticantes. Fazer crer é fazer fazer. Mas por curiosa circularidade a capacidade de fazer se mover – de escrever e maquinar os corpos – é precisamente o que faz crer. p. 241

A douta ignorância

CERTEAU, Michel de. Foucault e Bordieu. In: ______ . A invenção do cotidiano: artes de fazer. 6. ed. Rio de Janeiro: Vozes, 2001. cap. IV, p. 111-130.

O uso do termo "estratégia" é [...] limitado. [...] Bordieu repete ao mesmo tempo que não se trata de estratégias propriamente falando: não há escolhas entre diversos possíveis, portanto "intenção estratégica"., [...] Não há previsão mas apenas um "mundo presumido" como a repetição do passado. Em suma, "como os indivíduos não sabem, propriamente falando, o que fazem, o que fazem tem mais sentido do que sabem". "Douta ignorância", portanto, habilidade que se desconhece. p. 124 (BORDIEU, 1970 apud CERTEAU, 2001, p. 124)

CERTEAU, Michel de. Sobre a memória

CERTEAU, Michel de. O tempo das histórias. In: ______ . A invenção do cotidiano: artes de fazer. 6. ed. Rio de Janeiro: Vozes, 2001. cap. VI, p. 151-166.

A memória – presença em meio à pluraridade dos tempos - é um princípio de economia: com o mínimo de força conseguir o máximo de efeito, multiplicando os efeitos pela rarefação dos meios.
Esta memória calcula e prevê as vias múltiplas do futuro, combinando as particularidades antecedentes ou possíveis [...] se introduzindo uma duração na relação de forças capaz de modifica-la [...] ficando escondida até o momento oportuno [...] o resplendor dessa memória brilha na ocasião. (CERTEAU, 1994, p. 156).

Isto implica em primeiro lugar a medição de um saber que tem por forma a duração de sua aquisição (CERTEAU, 1994, p. 158).

De I a II quanto menos força, mais se precisa de saber-memória;
De II a III, quanto mais há saber-memória, menos se precisa de tempo;
De III a IV, quanto menos tempo há, mais aumentam os efeitos.


Na composição de lugar inicial (I) o mundo da memória (II) intervém no momento oportuno (III) e produz modificações no espaço (IV). P. 160

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