Um livro é um mudo que fala, um surdo que responde, um cego que guia, um morto que vive. (Padre Antônio Vieira)

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Mal amei, bebi bem, sonhei muitíssimo

Os galos cantam e estou bebedíssimo.
Não fiz nada da vida senão tê-la.
Mal amei, bebi bem, sonhei muitíssimo.
Minha intenção não foi minha estrela
 
Álvaro de Campos

Toda despedida é uma morte

 [...]
Toda despedida é uma morte...
Sim, toda despedida é uma morte.
Nós, no comboio a que chamamos vida
Somos todos casuais uns para os outros,
E temos todos pena quando por fim desembarcamos.
Tudo o que é humano me comove, porque sou homem.
Tudo me comove, porque tenho,
[...]
Vasta fraternidade com a humanidade verdadeira.
[...]
Tudo [...] vive, porque morre, dentro do meu coração.
E o meu coração é um pouco maior que o universo inteiro.
 
Álvaro de Campos

terça-feira, 23 de junho de 2009

Schopenhauer, A arte de escrever

É possível a qualquer momento sentar e ler, mas não sentar e pensar.
 
Schopenhauer, A arte de escrever, p. 47

Goethe

O que herdaste de teus pais,
 Adquire, para que o possua.
 
Goethe, apud Schopenhauer, A arte de escrever

For ever reading, never to be read.

For ever reading, never to be read.
 
Pope, Dunciad, III, 194, apud, Schopenhauer, A arte de escrever, p. 41

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Ausência - Vinicius de Moraes

Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne como uma nódoa do passado.
Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos portos silenciosos
Mas eu te possuirei mais que ninguém porque poderei partir
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.



Rio de Janeiro, 1935

O gênio Rafael Sica

fonte: http://rafaelsica.zip.net/

O Amor em Paz - Vinicius de Moraes

Eu amei,
E amei ai de mim muito mais
Do que devia amar
E chorei
Ao sentir que iria sofrer
E me desesperar

Foi então
Que da minha infinita tristeza
Aconteceu você
Encontrei em você
A razão de viver
E de amar em paz
E não sofrer mais,
Nunca mais
Porque o amor
É a coisa mais triste
Quando se desfaz
O amor é a coisa mais triste
Quando se desfaz
 
 
 
 

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Os homens - Relato do vinil "o amor o sorriso e a flor" por Jobim

Em janeiro, não aguentei mais e subi a serra. Todos sabem como foram as águas em 60. Como choveu! Cheguei à fazenda, meti-me numas calças velhas e esperei a chegada daquela burrice calma que nos dá nove horas de sono sem sonhos.
    O mau tempo e o barro mantinham a todos presos em casa. Bom era quando odia amanhecia melhorzinho e eu e meu filho, ainda de pijama, íamos ver o trabalho das formigas cortando as roseiras do jardim. Mas qual! Quando o sol começava a querer esquentar vinha logo a chuva e nós corríamos para dentro.
    Uma noite, já ia apagar os lampiões, quando ouvi o motor de um carro que pelejava para subir a rampa. João Gilberto e Sra. estavam chegando. Tínhamos combinado que ele viria, mas, devido ao mau tempo já não acreditávamos que Joãozinho chegasse, e logo de taxi!
    Depois ele me contou que, atolado na lama, esperou um trator puxar o carro. Vinha cansado e descansou uns dois dias.
    Então começamos a trabalhar. Fugíamos da sala onde brincavam as crianças prêsas pela chuva. Íamos para um dos quartos vazios, com fôrro de madeira, que aliás dão boa acústica. Lá, longe da cidade e do telefone, trabalhamos sossegados uns dez dias. De vez em quando o trabalho era interrompido pelas crianças que irrompiam no quarto trazendo algum filhote de tico-tico ou de coleiro "caído" do ninho. Nessa época do ano a trepadeira da varanda fica cheia desses ninhos de passarinhos pequenos. Às vêzes também as patroas entravam com um café cheiroso, biscoitos, e ficavam alí um pouco.
    Quando o tempo melhorava vinha o sol quente. Tomávamos banho de cachoeira e íamos flanar um pouco pelas redondêzas.
    Aí Joãozinho partiu. Dias depois recebo um recado; o disco estava atrazado e o Aloysio havia marcado a gravação. Desci também e começou a correria: estúdio, cópias, músicos.
    E tudo foi feito num ambiente de paz e passarinhos.

P. S. - As criancas adoraram "O Pato".

Assentamento - Chico Buarque

Quando eu morrer, que me enterrem na
beira do chapadão
-- contente com minha terra
cansado de tanta guerra
crescido de coração
Tôo
(apud Guimarães Rosa)

Zanza daqui
Zanza pra acolá
Fim de feira, periferia afora
A cidade não mora mais em mim
Francisco, Serafim
Vamos embora

Ver o capim
Ver o baobá
Vamos ver a campina quando flora
A piracema, rios contravim
Binho, Bel, Bia, Quim
Vamos embora

Quando eu morrer
Cansado de guerra
Morro de bem
Com a minha terra:
Cana, caqui
Inhame, abóbora
Onde só vento se semeava outrora
Amplidão, nação, sertão sem fim
Ó Manuel, Miguilim
Vamos embora

quinta-feira, 4 de junho de 2009

É Preciso Perdoar - João Gilberto

Composição: Carlos Coqueijo

Intro: Cm7.9...

Cm7.9
Ah, madrugada já rompeu

G#6
Você vai me abandonar

G#maj7 G#m6 Gm7
Eu sinto que o perdão você não mereceu

F#dim F7.11+ Fm7.11+ Cm7 Cm7.9
Eu quis a ilusão agora a dor sou eu

Cm7.9
Pobre de quem não entendeu
que a beleza de amar é se dar

Bbm7 Bbm6 Bbm7 Bbm6 G7.b13
e só querendo pedir nunca soube o que é perder pra encontrar

Cm7.9
Eu sei... que é preciso perdoar

G#6 G#maj7
Foi você quem me ensinou que um homem como eu

G#m6 Gm7
Que tem por que chorar

F#dim F7.11+ Fm7.11+ Cm7 Cm7.9
Só sabe o que é sofrer se o pranto se acabar
 
 

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Insensatez - Tom Jobim

Composição: Antonio Carlos Jobim / Vinicius de Moraes

A insensatez que você fez
Coração mais sem cuidado
Fez chorar de dor
O seu amor
Um amor tão delicado
Ah, porque você foi fraco assim
Assim tão desalmado
Ah, meu coração que nunca amou
Não merece ser amado

Vai meu coração ouve a razão
Usa só sinceridade
Quem semeia vento, diz a razão
Colhe sempre tempestade
Vai, meu coração pede perdão
Perdão apaixonado
Vai porque quem não
Pede perdão
Não é nunca perdoado

Meditação - Tom Jobim

Composição: Tom Jobim e Newton Mendonça

Quem acreditou
No amor, no sorriso e na flor
Entao sonhou, sonhou...
E perdeu a paz
O amor, o sorriso e a flor
Se transformam depressa demais

Quem, no coração
Abrigou a tristeza de ver tudo isto se perder
E, na solidão
Procurou um caminho e seguiu,
Já descrente de um dia feliz

Quem chorou, chorou
E tanto que seu pranto já secou
Quem depois voltou
Ao amor, ao sorriso e à flor
Então tudo encontrou
E a própria dor
Revelou o caminho do amor
E a tristeza acabou


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