Um livro é um mudo que fala, um surdo que responde, um cego que guia, um morto que vive. (Padre Antônio Vieira)

domingo, 26 de setembro de 2010

A velocidade não é tão importante assim

Minha política sempre foi a de queimar as pontes depois de minha passagem. Estou sempre virado para o futuro. Se cometo um erro, é um erro fatal. Quando sou obrigado a recuar, volto até o ponto de partida, caio até o fundo. Minha única salvaguarda é minha capacidade de resistência. Até aqui, sempre consegui me recuperar. Às vezes dou a impressão de retornar em câmera lenta, mas aos olhos de Deus a velocidade não é tão importante assim.
 
 
MILLER, Henry. Sexus. Tradução de Sergio Flaksman. São Paulo: Companhia das Letas, 2004. p. 32

Escrever precisa ser um ato destituído de vontade.

Escrever, meditei, precisa ser um ato destituído de vontade. A palavra, como as correntes oceânicas profundas, precisam subir à superfície por seu próprio impulso. A criança não tem necessidade de escrever, é inocente. O homem escreve para livrar-se do veneno que acumula devido à falsidade do seu modo de vida. Está tentando recapturar sua inocência, mas ainda asssim tudo que consegue fazer (escrevendo) é inocular o mundo com o vírus de sua desilusão. Ninguém escreveria uma palavra sequer se tivesse a coragem de viver aquilo que acredita. Sua inspiração é desviada na fonte. Se é um mundo de verdade, de beleza e de mágica que deseja criar, por que interpõe milhões de palavras enter ele e a realidade desse mundo? Por que retarda ação? - a menos que, a exemplo dos outros homens, o que de fato deseje seja o poder, a fama, o sucesso.
 
MILLER, Henry. Sexus. Tradução de Sergio Flaksman. São Paulo: Companhia das Letas, 2004. p. 23-24

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Dionísio no Bar

http://www.baresdaufsc.com/artigos/dionisio.php

O álcool libera. Há no etilismo uma busca por esta liberalidade. Ao ser alcançada, rompe-se com a ordem. Suspende-se a norma. E essa suspensão é, sobretudo, imanente. Ou seja, ela se dá de dentro para fora do sujeito alcoolizado. Processa-se, através do álcool, o rompimento das amarras existenciais. É aí então que o ébrio se mostra como sujeito de caráter singular, único. Dá-se, assim, um cair sucessivo de suas personas.

O que resta desse desmascaramento engendrado pelo álcool é a singularidade do sujeito, verdadeiramente. A embriaguez não é simplesmente um beber movido por um hábito, vazio de sentido. Nela o sujeito morre como ser oprimido, castrado, cerceado, para renascer livre. Beber é, portanto, um rito. Um rito de passagem do homem acorrentado, amordaçado, para o homem liberto. E o lugar privilegiado para a execução deste rito é, indubitavelmente, o bar. Lugar onde o contexto de uma maior liberalidade incita a liberalidade do sujeito por meio do álcool.

No bar a imolação, ou melhor, o hecatombe se realiza no interior do próprio sujeito. Este, à medida que bebe, vai aos poucos sacrificando suas personas, construídas ao longo de uma vida para a convivência social no âmbito formal da vida, principalmente. Terminado o rito, findada a embriaguez, vinda a ressaca, o sujeito, agora renascido, pode novamente enfrentar a sociedade com suas forças renovadas. Até, pelo menos, a próxima hora feliz no bar.

A experiência com um fone de ouvido


Por A Cruz de Souza.

http://www.baresdaufsc.com/artigos/fone.php

Pretendo através do presente artigo alertar os bares vivendis sobre o risco de se ouvir música em fones de ouvido. Contudo, não falo do risco a saúde física apenas, como a diminuição gradual da acuidade auditiva. Clamo principalmente em razão do encolhimento da vivência. A miniaturização dos aparelhos e a competitividade dos preços de áudio portáteis em função do desenvolvimento tecnológico e o sua convergência para diversos outros aparelhos, como o celular, ocasionou uma explosão de vendas e o renascer de um hábito que parecia estar por morrer: o de ouvir música por meio de fones de ouvido em absolutamente qualquer lugar.

Forçosamente, o aparelho aniquila, no momento do seu uso, a audição do usuário e claramente afeta o seu comportamento. Deixa-se de contar com um importante aparelho sensorial que nos orienta, apreende e aprende o mundo ao nosso redor. A tão preciosa experiência como fonte fundamental e inesgotável de conhecimento é, sucessivamente, perdida, anulada, adiada jamais. A trilha sonora que emana no seu mundo idealizado torna o ouvinte um ser estéril entre os transeuntes abaloados em seus caminhares frenéticos e determinados. Nota-se sem dúvida uma exacerbação do individualismo e uma negação do outro, um se negar à ver. Portanto óculos escuros, fone de ouvido na orelha, boné cobrindo o rosto ou um capuz e, pronto, o indivíduo, por vontade própria, se converte em ser refratário a qualquer possibilidade de relação com o outro.

O que o indivíduo não se dá conta, porém, é que o melhor da vida e o próprio sentido dela são as relações, como mundo e com o outro. Só é possível pensar num eu em relação a um nós. Se isolado do mundo emergirá a questão: quem sou eu? Saberei quem sou e serei melhor se souber quem são os outros e o que é o mundo. Vivamos a experiência do mundo que se oferece!

Como ser simpático a todos

A Cruz de Souza

http://www.baresdaufsc.com/artigos/simpatico.php

Não só poetas são fingidores. Na vida podemos responder a interesses das pessoas de tal maneira que, na medida em que respondamos de forma correta, seremos aceitos. Trata-se de uma fórmula bastante conhecida e largamente utilizada a do ser afável. Contudo, o que é bom deve ser sempre lembrado. Vendedores e políticos são os que mais se beneficiam desta fórmula pela habilidade com que estes a manipulam. É preciso firmeza nos músculos da face para manter-se sempre agradável e alegre. Uma câimbra que seja pode comprometer toda a fórmula.

Para ser um sujeito aprazível é fundamental ser cortês e prazenteiro. Conquanto que se venha logo risonho. E que essa risada não seja por demais exagerada pra não parecer deboche. E que se seja simples, na medida. Uma apresentação em primeira instância sem mostrar os dentes o tornará um mal humorado e sério por demais para os outros. Mas não exagere, pois tolo é aquele que ri todo o tempo. Ao encontrar grupos de pessoas, a boa conduta pede que se cumprimente a todos, sem exceção. Saiba que aquele único sujeito que você não cumprimentar poderá lhe pesar mais tarde. Observe a vestimenta que deve ser sóbria, sem exageros.

Procure usar roupas independentes da moda. No entanto, em grupos inteirados com a moda vigente recomenda-se fazer o mesmo. O semblante deve estar fresco. Desde que não se exceda no frescor para não ser tomado por um vaidoso afetado, ou pior, uma bicha enrustida. Assim, barba e cabelo devem estar preferencialmente feitos ou então muito bem aparados. No diálogo, concorde com todos acredite em tudo e ria de todas as piadas. Argumento pouco, quase nada. Cuide, porém, para não deixar de argumentar algo para que não pareça um estúpido sem opinião que se deixa levar pelos outros como um barco que se entrega aos movimentos incertos das correntes marítimas. O elogio deve se prodigalizar a todos. Em momento algum permita o silêncio, rompendo-o no imediato instante em que ele se instale. A conversa não pode parar pois o silêncio é intolerável entre estranhos. Bem como é intolerável o sujeito calado. Temos, afinal, cinco sentidos, usemo-los, portanto. Assuntos suaves, que não provoquem divergências ideológicas são o ideal.

Prefira temas banais que gerem respostas uníssonas. Em refeições, beba e coma moderadamente. Querer-rás, pois, o epíteto de glutão? Certamente não. Quando de pouso em casa alheia, acorde cedo, mas também não madrugue para não acordar os outros. Jamais espere ser acordado. No caso de haver crianças por perto, considere que garotinhos impertinentes devem ser engolidos com doçura. Não mais, seja humilde, levemente curvado, porém, não medíocre. O humilde é admirado como valor do ser regrado, o medíocre não é tolerado pois é tomado como um incapaz. Mas, principalmente, tenha sempre o material fundamentalmente necessário para ser sempre simpático: Vaselina.

Certas Coisas

Composição: Lulu Santos / Nelson Motta

Tudo o que cala fala
Mais alto ao coração.
Silenciosamente eu te falo com paixão...

Eu te amo calado,
Como quem ouve uma sinfonia
De silêncios e de luz.

Nós somos medo e desejo,
Somos feitos de silêncio e som,
Tem certas coisas que eu não sei dizer...

 

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Dobrada à moda do Porto fria

Mas, seu eu pedi amor, porque é que me trouxeram
Dobrada à moda do Porto fria?
Não é prato que se possa comer frio,
Mas trouxeram-me frio.
Não me queixei, mas estava frio,
Nunca se pode comer frio, mas veio frio.
 
 
 
CAMPOS, Álvaro de. Poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2002. 595 p.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Sabedoria de ouriço

Ainda semelho ao galo em capoeira estranha, que até as galinhas bicam; mas não guardo rancor a essas galinhas. Cortês, sou eu com elas, bem como paciente com todos os pequenos aborrecimentos: espinhar-se com o que é pequeno parece-me sabedoria de ouriço. p. 204

 
NIETZSCHE, Friedrich W. Assim falou Zaratustra: um livro para todos e para ninguém. Tradução de Mário da Silva. 12. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003. 381 p.

Eu não sou daqueles aos quais se tem o direito de indagar de seu porquê

Por quê? [...] eu não sou daqueles aos quais se tem o direito de indagar de seu porquê. É, acaso, de ontem, a minha experiência de vida? Há muito que eu vivi as razões das minhas opiniões. Não deveria ser eu um tonel de memória, se quisesse ter comigo também as minhas razões? Já é muito, para mim, reter mesmo as minhas opiniões; e mais de um pássaro alça vôo e vai-se embora. p. 158
NIETZSCHE, Friedrich W. Assim falou Zaratustra: um livro para todos e para ninguém. Tradução de Mário da Silva. 12. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003. 381 p.

Guarda-te dos arroubos do teu amor

E guarda-te, ainda, dos arroubos do teu amor! Por demais rápido é o solitário em estender a mão a quem encontra. p. 90
NIETZSCHE, Friedrich W. Assim falou Zaratustra: um livro para todos e para ninguém. Tradução de Mário da Silva. 12. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003. 381 p.

Não nasceste para enxota-moscas

Contra eles não mais levantes o braço; inúmeros são eles e não nasceste para enxota-moscas. p. 79
NIETZSCHE, Friedrich W. Assim falou Zaratustra: um livro para todos e para ninguém. Tradução de Mário da Silva. 12. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003. 381 p.

Sobre a mulher libidinosa

Não é melhor ir parar nas mãos de um assassino do que nos sonhos de uma mulher libidinosa? p. 81
NIETZSCHE, Friedrich W. Assim falou Zaratustra: um livro para todos e para ninguém. Tradução de Mário da Silva. 12. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003. 381 p.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Perguntaram ao amigo quais são os frutos do amor...

Perguntaram ao amigo quais são os frutos do amor. Ele respondeu: "Prazeres, meditações, desejos, suspiros, angústias, trabalhos, perigos, tormentos, desfalecimentos. Sem tais frutos o amor não se deixa tocar pelos seus servos".

Muita gente encontrava-se diante do amigo que se queixava do seu amado, o qual fazia crescer os seus amores; e queixava-se do amor que lhe trazia trabalhos e dores. O amado desculpou-se, dizendo que os trabalhos de que acusava o amor eram multiplicações de amores.

LULL, Ramon. O livro do amigo e do amado. Tradução de Luiz Carlos Bambassaro. São Paulo: Escala, [19--]. 74 p.

Amar é honrar o amado naqueles lugares onde é mais desonrado

O amado cantava e dizia que o amigo pouco sabia do amor se tinha vergonha de louvar o seu amado e se tinha medo de o honrar naqueles lugares onde é mais desonrado; e pouco sabe amar aquele que se entristece de desgraça e quem desespera do seu amado não fa concordância de amor e esperança.


LULL, Ramon. O livro do amigo e do amado. Tradução de Luiz Carlos Bambassaro. São Paulo: Escala, [19--]. 74 p.

O amor está entre a crença e a inteligência

O amigo tanto amava o seu amado que acreditava em tudo o que lhe dizia e tanto desejava entendê-lo que tudo aquilo que ouvia dizer dele queria compreendê-lo pelas razões necessárias. E por isso o amor do amigo estava entre a crença e a intligência.


LULL, Ramon. O livro do amigo e do amado. Tradução de Luiz Carlos Bambassaro. São Paulo: Escala, [19--]. 74 p.

Vestido sou de tecido barato

O amigo dizia: "Vestido sou de tecido barato, mas o amor veste o meu coração de prazeres e pensamentos agradáveis e o corpo de choros, sofrimentos e paixões."


LULL, Ramon. O livro do amigo e do amado. Tradução de Luiz Carlos Bambassaro. São Paulo: Escala, [19--]. 74 p.

O amigo e o amado

O amigo e o amado se econtraram e o amigo disse: "Não precisas falar-me, mas faz-me sinal com os teus olhos que são palavras para o meu coração e eu te dou aquilo que pedires".


LULL, Ramon. O livro do amigo e do amado. Tradução de Luiz Carlos Bambassaro. São Paulo: Escala, [19--]. 74 p.

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