Um livro é um mudo que fala, um surdo que responde, um cego que guia, um morto que vive. (Padre Antônio Vieira)

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Rainer Maria Rilke

Minha vida não é essa hora abrupta
Em que me vês precipitado.
Sou uma árvore ante meu cenário;
Não sou senão uma de minhas bocas:
Essa, dentre tantas, que será a primeira a fechar-se.

Sou o intervalo entre as duas notas
Que a muito custo se afinam,
Porque a da morte quer ser mais alta…

Mas ambas, vibrando na obscura pausa,
Reconciliaram-se.
E é lindo o cântico.

[...]

As folhas caem como se do alto
caíssem, murchas, dos jardins do céu;
caem com gestos de quem renuncia.

E a terra, só, na noite de cobalto,
cai de entre os astros na amplidão vazia.

Caimos todos nós. Cai esta mão.
Olha em redor: cair é a lei geral.

E a terna mão de Alguém colhe, afinal,
todas as coisas que caindo vão. 
                     

domingo, 23 de setembro de 2012

THOREAU, Henry. A desobediência civil

THOREAU, Henry. A desobediência civil. Tradução de Sérgio Karam. Porto Alegre:L & PM, 2011.


Na melhor das hipóteses, o governo não é mais do que uma conveniência, embora a maior parte deles seja, normalmente, inconveniente – e, por vezes, todos os governos o são. (p. 7)


As objeções levantadas contra a existência de um exército permanente– e elas são muitas e fortes e merecem prevalecer – podem afinal ser levantadas contra a existência de um governo permanente. (p. 8)


O governo em si, que é apenas a maneira escolhida pelo povo para executar sua vontade, está igualmente sujeito ao abuso e à perversão antes que o povo possa agir por meio dele. (p. 8)


[…]o governo é uma conveniência pela qual os homens conseguem, de bom grado, deixar-se em paz uns aos outros, e, como já disse, quanto mais conveniente ele for, tanto mais deixará em paz seus governados. (p. 9)


Deixemos que cada homem faça saber que tipo de governo mereceria seu respeito e este já seria um passo na direção de obtê-lo. (p. 10)


Afinal, a razão prática por que se permite que uma maioria governe, e continue a fazê-lo por um longo tempo, quando o poder finalmente se coloca nas mãos do povo, não é a de que esta maioria esteja provavelmente mais certa, nem a de que isto pareça mais justo para a maioria, mas sim a de que a maioria é fisicamente mais forte. Mas um governo no qual a maioria decida em todos os casos não pode se basear na justiça, nem mesmo na justiça tal qual os homens a entendem. Não poderá existir um governo em que a consciência e não a maioria, decida virtualmente o que é certo e o que é errado? Um governo em que as maiorias decidam apenas aquelas questões as quais se apliquem as regras de conveniência? (p. 10)


Deve o cidadão, sequer por um momento, ou minimamente, renunciar à sua consciência em favor do legislador? Então por que todo homem tem uma consciência? Penso que devemos ser homens, em primeiro lugar, e depois súditos. (p. 11)


Não é desejável cultivar pela lei o mesmo respeito que cultivamos pelo direito. A única obrigação que tenho o direito de assumir é a de fazer a qualquer tempo aquilo que considero direito. (p. 11)


É com razão que se diz que uma corporação não tem consciência, mas uma corporação de homens conscientes é uma corporação com consciência. (p. 11)


A lei jamais tornou os homens mais justos, e, por meio de seu respeito por ela, mesmo os mais bem-intencionados transformando-se diariamente em agentes da injustiça. (p. 11)


Uns poucos – como os heróis, os patriotas, os mártires, os reformadores no melhor sentido e os homens – servem ao Estado também com sua consciência, e assim necessariamente resistem a ele, em sua maioria, e são comumente tratados como inimigos. (p. 13)


Todos os homens reconhecem o direito de revolução, isto é, o direito de recusar lealdade ao governo, e opor-lhe resistência, quando sua tirania ou sua ineficiência tornam-se insuportáveis. (p. 14)


[…]um povo, tanto quanto um indivíduo, deve fazer justiça, custe o que custar. (p. 16)


Não é tão importante que a maioria seja tão boa quanto vós, mas sim que exista a bondade absoluta em alguma parte, pois isto fará fermentar toda a massa. (p. 18)


Um homem sábio não deixará o direito à mercê do acaso, nem desejará que ele prevaleça por meio do poder da maioria. Não há senão uma escassa virtude na ação e multidões de homens. (p. 19)


Se me dedico a outras ocupações e projetos, devo ao menos verificar, inicialmente, se não o faço sentado sobre os ombros de outro homem. Devo sair de cima dele, antes de mais nada, para que também ele possa ocupar-se de seus projetos. (p. 22)


Aqueles que, embora desaprovando o caráter e as medidas do governo, dão a ele sua lealdade e seu apoio, são indubitavelmente seus defensores mais conscienciosos e frequentemente tornam-se os mais sérios obstáculos à reforma. (p. 24)


Como pode um homem ter apenas ma opinião e deleitar-se com ela? Haverá nela algum deleite se sua opinião for a de que ele se sente lesado? (p. 24)


Um homem não tem que fazer tudo, mas algo, e não é porque não pode fazer tudo que precisa fazer este algo de maneira errada. (p. 27)


Qualquer homem mais justo que seus semelhantes já constitui uma maioria de um. (p. 28)


[…]aquilo que é benfeito uma vez está feito para sempre. (p. 29)


Num governo que aprisiona qualquer pessoa injustamente, o verdadeiro lugar de um homem justo é também a prisão. (p. 30)


Uma minoria é impotente enquanto se conforma à maioria, nem chega a ser uma minoria então, mas torna-se irresistível quando se põe a obstruir com todo o seu peso. (p. 31)


[…]o homem rico […] está sempre vendido à instituição que o faz rico. (p. 32)


O melhor que um homem pode fazer por sua cultura, quando enriquece, é tentar pôr em prática os planos que concebeu quando pobre. (p. 34)


[…]o Estado nunca enfrenta intencionalmente a consciência intelectual ou mora de um homem, mas apenas seu corpo, seus sentidos. Não está equipado com inteligência ou honestidade superiores, mas com força física superior. (p. 39)


Existem oradores, políticos e homens eloquentes aos milhares, mas ainda não abriu a boca para falar aquele interlocutor capaz de resolver as questões mais discutidas do momento. Amamos a eloquência pela eloquência e não por qualquer verdade que possa exprimir ou por qualquer heroísmo que possa inspirar. (p. 55)


Jamais haverá um Estado realmente livre esclarecido até que este venha a reconhecer o indivíduo como um poder mais alto e independente, do qual deriva todo seu próprio poder e autoridade, e o trate da maneira adequada. (p. 57)

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Identificação e Biologia das Brocas

São besouros, portanto insetos, e têm vida isolada e pertencem à ordem COLEOPTERA. Temos mais de 300 mil espécies (maior ordem do reino animal). Esses besouros furam a madeira em busca de alimento e abrigo.

Apresentam os seguintes estágios; ovo, larva, pupa e adulto. São as larvas que atacam as madeiras para se alimentar. Preferem peças de vime ou cipó, que são menos resistentes. O seu ciclo de vida pode durar um ano e a fase larval é a mais longa. O dano que causam é um orifício no móvel para a saída do besouro adulto que dura apenas poucas semanas. Mas em um móvel podemos ter várias infestações por brocas. Algumas brocas depositam seus ovos na superfície da madeira ou fendas. Dos ovos saem às larvas que se alimentam da madeira. Como não são animais sociais, eles cavam galerias individuais. Essas galerias são fechadas pelas fezes do animal. Às vezes podemos observar resíduos igual uma serragem, que saem pelos orifícios deixados. Muitas vezes confundimos com cupim.

Para evitarmos os cupins e as brocas temos que evitar colocar em nossas casas, móveis que apresentem furos dos quais saiam resíduos. A peroba dificilmente é atacada por esses insetos por ser dura naturalmente. Para combater podemos fazer a fumigação (exposição do material em local fechado sob ação de gás tóxico) usando os serviços de técnicos especializados. Peças pequenas, podemos colocar no congelador por 48 a 72 horas, para que os insetos morram. Esses tratamentos não impedem que sejam infestados novamente. A melhor forma é a prevenção, que consiste em fechar as janelas na época das revoadas (primavera), apagar as luzes e verificar periodicamente os móveis da casa para eliminarmos os focos desses insetos.

Móveis, molduras, batentes, estruturas, livros são seus alvos. Na sua fase larval destrói a madeira perfurando grandes extensões de galerias. Pode-se identificar o ataque através de depósitos de pó próximo de orifícios. Por trás dos furinhos pode existir uma destruição incalculável. Para prevenir: o ideal é aplicar Inseticidas de uso profissional nos orifícios e após aplicação tapar os buracos para identificar novos ataques. Ação em todas as superfícies de todas as peças da madeira antes da construção. Utilize pincéis ou mergulhe as peças para maior proteção. Para combater: identifique os furinhos das brocas. Alguns estarão abertos outros tampados com o resíduo (pó) gerado pelas brocas. Injete cuidadosamente em todos os furos e pincele por toda a extensão da madeira. Observe por uma semana, se persistir reaplique o produto.

Ovos
A multiplicação destas espécies é sexuada. A fêmea deposita mais de mil ovos durante sua existência, os quais são difíceis de serem identificados, graças ao seu tamanho reduzido, e por estarem no interior dos materiais a serem consumidos. Geralmente a fêmea deposita um único ovo por vez, e em seguida a cavidade é fechada devido á uma secreção gelatinosa produzida pela fêmea.

Larvas
Em poucos dias, os ovos se transformam em larvas, que imediatamente começam a alimentar-se, cavando uma galeria no interior dos materiais (cereais ou vegetais). Dotada de um aparelho mastigador bem desenvolvido, em pouco tempo ocasionam grandes danos, além do mais, suas excreções comprometem o material, abrindo caminho para fungos, ácaros e outros insetos, deterioradores de madeira. O desenvolvimento da larva passa por diversas fases de ecdises (troca de casca para o inseto crescer), até chegar á fase de pupa.

Pupa
É nesta fase que se produzem as mudanças fisiológicas que irão dar origem a um novo inseto adulto. A pupa permanece imóvel, em estado de repouso, e não se alimenta até completar a mudança.

Inseto Adulto
Este não realiza mais crescimento devido o fato de seu exoesqueleto apresentar uma ecdise muito resistente.

Os coleópteros são insetos polífagos (alimentam-se de tudo), e apresentam considerável importância agrícola, dado o elevado número de espécies filófagas (alimentam-se de vegetal).

Por outro lado, encontram-se entre eles muitas espécies benéficas, que atacam plantas daninhas e outros insetos.
 
 

terça-feira, 18 de setembro de 2012

O amor romântico e outras ligações

Giddens, Anthony. O amor romântico e outras ligações. In: A transformação da intimidade: sexualidade, amor & erotismo nas sociedades modernas. São Paulo: Editora da Universidade Estadual Paulista, 1993.

O AMOR ROMÂNTICO E OUTRAS LIGAÇÕES

"O Amor", observa Bronislaw Malinowski em seu estudo sobre habitantes da Ilha Trobriand, "é uma paixão, tanto para o melanésio quanto para o europeu, e atormenta a mente e o corpo em maior ou menor extensão; conduz muitos a um impasse, um escândalo ou uma tragédia; mais raramente, ilumina a vida e faz com que o coração se expanda e transborde de alegria".

Bronislaw Malinowski, The Sexual Life of Savages, London: Routledge, 1929, p. 69.

Numerosos exemplos de poesia de amor sobrevivem entre as relíquias do Antigo Egito, alguns remontando a antes de 1000 a.C. O amor é ali retratado como um esmagamento do eu, e, portanto, é semelhante a uma espécie de doença, embora também possua poderes ocultos...p. 47

Embora o uso secular da palavra "paixão" - distinto de sua utilização mais antiga, significando paixão religiosa - seja relativamente moderno, faz sentido considerar-se o amor apaixonado, amour passion, como a expressão de uma conexão genérica entre o amor e a ligação sexual. O amor apaixonado é marcado por uma urgência que o coloca à parte das rotinas da vida cotidiana, com a qual, na verdade, ele tende a se conflitar. O envolvimento emocional com o outro é invasivo - tão forte que pode levar o indivíduo, ou ambos os indivíduos, a ignorar as suas obrigações habituais. O amor apaixonado tem uma qualidade de encantamento que pode ser religiosa em seu fervor. Tudo no mundo parece de repente viçoso, embora talvez ao mesmo tempo não consiga captar o interesse do indivíduo que está tão fortemente ligado ao objeto do amor. O amor apaixonado é especificamente perturbador das relações pessoais, em um sentido semelhante ao do carisma; arranca o indivíduo das atividades mundanas e gera uma propensão às opções radicais e aos sacrifícios. Por esta razão, encarado sob o ponto de vista da ordem e do dever sociais, ele é perigoso. Dificilmente surpreende que o amor apaixonado não tenha sido em parte alguma reconhecido como uma base necessária ou suficiente para o casamento, e na maior parte das culturas tem sido refratário a ele. p. 48

O amor apaixonado é um fenômeno mais ou menos universal. Devo dizer que ele deveria ser diferenciado do amor romântico, muito mais culturalmente específico.

Casamento, sexualidade e amor romântico

Na Europa pré-moderna, a maior parte dos casamentos eram contraídos, não sobre o alicerce da atração sexual mútua, mas o da situação econômica. Entre os pobres, o casamento era um meio de organizar o trabalho agrário. Era impossível que uma vida caracterizada pelo trabalho árduo e contínuo conduzisse à paixão sexual. Tem sido relatado que, entre os camponeses da França e da Alemanha do século XVII, o beijo, a carícia e outras formas de afeição física associadas ao sexo eram raros entre os casais casados...p.49

Somente entre os grupos aristocráticos, a licenciosidade sexual era abertamente permitida entre as mulheres "respeitáveis". A liberdade sexual acompanha o poder e é uma expressão do poder; em certas épocas e locais, nas camadas aristocráticas, as mulheres eram suficientemente liberadas das exigências da reprodução e do trabalho rotineiro para poderem buscar o seu prazer sexual independente. p. 49

A diferenciação entre a sexualidade "casta" do casamento e o caráter erótico ou apaixonado dos casos extraconjugais era absolutamente comum entre outras aristocracias, além daquelas da Europa. (...) A idealização temporária do outro, típica do amor apaixonado, aqui se associou a um envolvimento mais permanente com o objeto do amor, e uma certa reflexividade já estava presente, mesmo anteriormente. p. 50

O amor romântico, que começou a marcar a sua presença a partir do final do século XVIII, utilizou tais ideais e incorporou elementos do amour passion, embora tenha-se tornado distinto deste. O amor romântico introduziu a ideia de uma narrativa para uma vida individual - fórmula que estendeu radicalmente a reflexividade do amor sublime. Contar uma história é um dos sentidos do "romance", mas esta história tornava-se agora individualizada, inserindo o eu e o outro em uma narrativa pessoal, sem ligação particular com os processos sociais mais amplos. O início do amor romântico coincidiu mais ou menos com a emergência da novela: a conexão era a forma narrativa recém-descoberta. p. 50

Nas ligações de amor romântico, o elemento do amor sublime tende a predominar sobre aquele do ardor sexual. A importância deste ponto dificilmente pode ser muito enfatizada. A ideia do amor romântico é, neste aspecto, tão historicamente rara quanto os traços que Max Weber encontrou associados na ética protestante. O amor rompe com a sexualidade, embora a abarque; a "virtude" começa a assumir um novo sentido para ambos os sexos, não mais significando apenas inocência, mas qualidades de caráter que distinguem a outra pessoa como "especial". p. 51

Frequentemente, considera-se que o amor romântico implica atração instantânea -"amor à primeira vista". Entretanto, na medida em que a atração imediata faz parte do amor romântico, ela tem de ser completamente separada das compulsões sexuais/eróticas do amor apaixonado. O "primeiro olhar" é uma atitude comunicativa, uma apreensão intuitiva das qualidades do outro. É um processo de atração por alguém que pode tornar a vida de outro alguém, digamos assim, "completa". p. 51

O gênero e o amor

(...) A imagem da "esposa e mãe" reforçou um modelo de "dois sexos" das atividades e dos sentimentos. As mulheres eram reconhecidas pelos homens como sendo diferentes, incompreensíveis - parte de um domínio estranho aos homens. A ideia de que cada sexo é um mistério para o outro é antiga, e tem sido representada de várias maneiras nas diferentes culturas. O elemento novo, aqui era a associação da maternidade com a feminilidade, como sendo qualidades da personalidade - qualidades estas que certamente estavam impregnadas de concepções bastante firmes da sexualidade feminina. p. 54

O consumo ávido de novelas e histórias românticas não era em qualquer sentido um testemunho de passividade. O indivíduo buscava no êxtase o que lhe era negado no mundo comum. Vista deste ângulo, a realidade das histórias românticas era uma expressão de fraqueza, uma incapacidade de se chegar a um acordo em a auto-identidade frustrada na vida social real. Mas a literatura romântica era (e ainda é hoje) também uma literatura de esperança, uma espécie de recusa. Frequentemente rejeitava a ideia da domesticidade estabelecida como único ideal proeminente. Em muitas histórias românticas, após um namoro com outros tipos de homens, a heroína descobre virtudes do indivíduo íntegro, sólido, que se torna um marido confiável. Entretanto, pelo menos com a mesma frequência, o verdadeiro herói é um brilhante aventureiro que se distingue por suas características exóticas e ignora a convenção em sua busca de uma vida errante. p. 55

O amour passion jamais foi uma força social genérica da maneira que tem sido o amor romântico, desde o final do século XVIII até períodos relativamente recentes. Juntamente com outras mudanças sociais, a difusão de ideias de amor romântico estava profundamente envolvida com transições importantes que afetaram o casamento e também outros contextos da vida pessoal. O amor romântico presume algum grau de autoquestionamento. Como eu me sinto em relação ao outro? Como o outro se sente a meu respeito? Será que os nossos sentimentos são "profundos" o bastante para suportar um envolvimento prolongado? Diferente do amour passion, que extirpa de modo irregular, o amor romântico desliga o indivíduo de situações sociais mais amplas de uma maneira diferente. Proporciona uma trajetória de vida prolongada, orientada para um futuro previsto, mas maleável; e cria uma "história compartilhada" que ajuda a separar o relacionamento conjugal de outros aspectos da organização familiar, conferindo-lhe uma prioridade especial. p. 56

Desde suas primeiras origens, o amor romântico suscita a questão da intimidade. Ela é incompatível com a luxúria, não tanto porque o ser amado é idealizado - embora esta seja parte da história -, mas porque presume uma comunicação psíquica, um encontro de almas que tem um caráter reparador. O outro, seja quem for, preenche um vazio que o indivíduo sequer necessariamente reconhece - até que a relação de amor seja iniciada. E este vazio tem diretamente a ver com a auto-identidade: em certo sentido, o indivíduo fragmentado torna-se inteiro. p.56

No amor romântico, a absorção pelo outro, típica do amour passion, está integrada na orientação característica da "busca". A busca é uma odisséia em que a auto-identidade espera a sua validação a partir da descoberta do outro. Possui um caráter ativo e, neste aspecto, o romance moderno contrasta com as histórias românticas medievais, em que a heroína em geral é relativamente passiva. p. 57

Se o ethos do amor romântico é simplesmente compreendido como o meio pelo qual uma mulher conhece o seu "príncipe", isso parece realmente superficial. Embora na literatura, como na vida, às vezes as coisas se passem deste modo, a conquista do coração do outro é na verdade um processo de criação e uma narrativa biográfica mútua. A heroína amansa, suaviza e modifica a masculinidade supostamente intratável do seu objeto amado, possibilitando que a afeição mútua transforme-se na principal diretriz de usas vidas juntos. p. 57

O caráter intrinsecamente subversivo da ideia do amor romântico foi durante muito tempo mantido sob controle pela associação do amor com o casamento e com a maternidade; e pela ideia de que o amor verdadeiro, uma vez encontrado, é para sempre. Quando o casamento, para a maioria da população, efetivamente era para sempre, a congruência estrutural entre o amor romântico e a parceria sexual estava bem delineada. O resultado pode, com frequência, ter sido anos de infelicidade, dada a conexão frágil entre o amor como fórmula para o casamento e as exigências para progredir posteriormente. Mas um casamento eficaz, ainda que não particularmente compensador, pode ser sustentado por uma divisão do trabalho entre os sexos, com o marido dominando o trabalho remunerado e a mulher, o trabalho doméstico. Podemos ver neste aspecto como o confinamento da sexualidade feminina ao casamento era importante como um símbolo da mulher "respeitável". Isto ao mesmo tempo permitia aos homens conservar distância do reino florescente da intimidade e mantinha a situação do casamento como um objetivo primário das mulheres. p. 58

domingo, 16 de setembro de 2012

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Estais ouvindo o alarido que fazem esses livros?

"Estais ouvindo o alarido que fazem esses livros? Falam ao mesmo tempo em todas as línguas. Discutem sobre tudo: Deus, a natureza, o homem, o tempo, o espaço,o bem, o mal, o conhecido e o desconhecido. Examinam tudo, contestam tudo, afirmam tudo, negam tudo. Raciocinam e divagam. Uns são graves, outros frívolos; uns são alegres, outros tristes; uns são prolixos, outros, concisos. São 800 mil nesta sala, e não há dois deles que pensem exatamente da mesma forma".

(Anatole France, "As sete mulheres de Barba Azul")

terça-feira, 11 de setembro de 2012

De tal maneira que hoje...

[...]
 
De tal maneira que hoje, eu desgostoso e azedo
Com tantas crueldades e tantas injustiças,
Se inda trabalho é como os presos no degredo,
Com planos de vingança e idéias insubmissas.
 
E agora, de tal modo a minha vida é dura,
Tenho momentos maus, tão tristes, tão perversos,
Que sinto só desdém pela Literatura,
E até desprezo e esqueço os meus amados versos!
 
 
JOSÉ JOAQUIM, Cesário verde, 1855-1886. O livo do Cesário Verde. Porto Alegre: L&M, 2010.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Escrever para morrer

Escrevo estes versos frouxos
Para esquecer os gestos mesquinhos,
Toda a estupidez e falta de carinho
Que meu coração lhe deu.

Escrevo para esquecer quem sou
E para esquecer outro alguém.
Para lembrar das boas ações 
Que eu fiz pra ninguém.

Escrevo pois quero morrer
Com calma, de mansinho,
Com as mãos de um demônio -

Feio, mal e pequenino -
Nas minhas mãos,
Conduzindo-me devagarinho.

f. foresti

Aniversário

No meu aniversário,
Dia triste e sombrio,
Senti-me muito sozinho.
Ganhei um vinho.
 
Chorei ao acordar,
Como um desterrado
Com saudades do lar.
Perdi outro amor.
 
Ora, mas e a festa?
E o dia colorido e alegre?
Ganhei uma lata cabeça.
Infeliz: beba logo o vinho.
 
f. foresti

Deslumbramentos

Milady, é preciso comtemplá-la,
Quando passa, aromática e normal,
Com seu tipo tão nobre e tão de sala,
Com seus gestos de neve e de metal.

[...]

Eu ontem encontrei-a, quando vinha,
Britânica, e fazendo-me assombrar;
Grande dama fatal, sempre sozinha,
E com firmeza e música no andar!

[...]

E enfim prossiga altiva como a Fama,
Sem sorrisos, dramática, cortante;
Que eu procuro fundir na minha chama
Seu ermo coração, como um bilhante.

Mas cuidado, milady, não se afoite,
Que hão de acabar os bárbaros reais,
E os povos humilhados, pela noite,
Para a vingança aguçam os punhais.

E um dia, ó Flor do Luxo, nas estradas,
Sob o cetim azul e as andorinhas,
Eu hei de ver errar, alucinadas,
E arrastando farrapos, as rainhas!



JOSÉ JOAQUIM, Cesário verde, 1855-1886. O livo do Cesário Verde. Porto Alegre: L&M, 2010.

Fado de poeta

Conheço bem o cheiro da poesia:
Chega assim como chega
O cheiro de um cadáver.
A poesia é uma cidade
 
Onde todos morreram,
Onde se vive de saudade,
Onde as crianças só fazem chorar
E os amantes só fazem matar.
 
Pode explodir coração,
Nesta cidade não existe ressureição,
Não se acredita em Deus ou religião,
 
Apenas há gente morta por todos lados,
Gente que gente não esquece.
Revele-me o motivo deste fado.
 
 
f. foresti
 

terça-feira, 4 de setembro de 2012

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