Um livro é um mudo que fala, um surdo que responde, um cego que guia, um morto que vive. (Padre Antônio Vieira)

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Parcela 1% mais rica do mundo possui cerca de metade da riqueza global, revela estudo

Pesquisa do Credit Suisse confirma tendência crescente à desigualdade apontada pela Oxfam

POR O GLOBO
14/10/2014 15:05 / ATUALIZADO 14/10/2014 16:22
PUBLICIDADE


RIO - O Credit Suisse Research, o grupo de pesquisa do banco suíço, divulgou nesta terça-feira seu relatório global sobre renda, o Global Wealth Report 2014, confirmando o que o grupo Oxfam, em outros estudo, havia apontado no início do ano: a parcela 1% mais rica do mundo possui praticamente metade da riqueza global. O relatório também mostra que a desigualdade continua crescendo, ecoando a acusação de ONGs de que a recuperação econômica da crise de 2008 "beneficiou os mais ricos".


Morador da favela da Rocinha, no Rio, observa a cidade de uma laje com antena de satélite da Sky: desigualdade enganosa - Dado Galdieri / Bloomberg/28-11-2012
Segundo o estudo, o grupo 1% mais rico da população global possui mais de 48% da riqueza mundial. Os pesquisadores alertam que a crescente desigualdade poderá gerar recessão. Uma pessoa precisa de apenas US$ 3.650 — incluído neste cálculo o valor patrimonial de moradia — para estar na metade dos mais ricos do mundo. No entanto, é necessário mais de US$ 77 mil para pertencer aos 10% mais ricos; e US$ 798 mil, para estar no topo dos 1%.

"Considerado em conjunto, a metade mais pobre da população global tem menos de 1% da riqueza total. Num contraste agudo, os 10% mais ricos detêm 87% da riqueza do mundo, e o 1% do topo mais rico possui 48,2% dos ativos globais", ressalta o Global Wealth Report 2014.

O relatório mostra que a riqueza global cresceu para um novo recorde: US$ 263 trilhões — mais de o dobro dos US$ 117 trilhões calculados em 2000. O aumento da riqueza global de US$ 20 trilhões em relação ao ano passado é o maior já registrado desde 2007. Esse volume vem crescendo desde 2008 e está hoje 20% acima do pico alcançado antes da crise, mostrou o estudo.

BRASIL ADORMECIDO

O relatório faz uma apresentação geral, explica sua metodologia de pesquisa e analisa os processos de concentração de riqueza e desigualdade de renda. Depois analisa o caso específico de 16 países economicamente importantes, entre eles, os Estados Unidos, Reino Unido, França e Alemanha, assim como o Brics.

Com respeito ao Brasil — cujo título do capítulo foi "O gigante adormecido" — os pesquisadores afirmaram que a renda familiar triplicou entre 2000 e 2014, avançando de US$ 7.900 por adulto para US$ 23.400. Mas os extremos da pirâmide continuam muito desiguais, com os muito ricos cada vez mais ricos e a parcela da extrema pobreza cada vez mais miserável.

"Igual a outros países latino-americanos, o Brasil possui mais gente na faixa entre US$ 10 mil e US$ 100 mil na comparação com o resto do mundo, mas um número menor nos dois extremos. Isso pode dar uma impressão enganosa de que a desigualdade está abaixo da média", aponta o relatório. "Na verdade, a desigualdade está relativamente alta, conforme mostra o coeficiente de Gini de 82% e pelo fato de o Brasil ter 225 mil milionários e 296 mil adultos no topo dos 1% mais ricos. O nível relativamente alto de desigualdade de renda, que por sua vez se deve em parte ao padrão desigual de educação da população e a persistente divisão entre os setores formais e informais da economia."

DESIGUALDADE CRESCENTE

No início do ano, o grupo ativista contra a pobreza Oxfam publicou um estudo, no qual mostrava que as 85 pessoas mais ricas do mundo possuíam, juntas, uma riqueza acumulada equivalente aos 3,5 bilhões mais pobres da população global.

— Esses dados (o estudo do Credit Suisse) reforçam as provas de que a desigualdade é extrema e crescente, e de que a recuperação econômica após a crise financeira foi direcionada a favor dos mais ricos — disse Emma Seery, diretora de Desigualdade da Oxfam. — Nos países pobres, o aumento da desigualdade significa a diferença entre crianças que têm a chance de ir à escola e doentes que têm acesso a tratamento que lhes salva a vida.

Nos Estados Unidos, a riqueza cresceu até US$ 12,3 trilhões em relação ao ano passado, volume equivalente ao que o país perdeu durante a crise financeira.

PUBLICIDADE
 

Os analistas do Credit Suisse fizeram referência ao debate que emergiu na mídia global com a publicação do livro "O capital no século XXI", do economista francês Thomas Piketty, sobre as tendências a longo prazo à desigualdade. Segundo ele, enquanto a desigualdade havia crescido em muitos países fora do G-7 (o grupo dos sete países mais ricos do mundo), no grupo das economias mais desenvolvidas, apenas no Reino Unido a desigualdade crescera desde a virada do século.

"Apenas um deles, o Reino Unido, registrou aumento da desigualdade no período 2000-2014 e apenas três mostraram um aumento após 2007: França, Itália e Reino Unido", aponta o relatório.

A China, por sua vez, tem mais pessoas no grupo dos 10% mais ricos do mundo do qualquer outro país, à exceção de Estados Unidos e Japão, ocupando agora a terceira posição no ranking, superando França, Alemanha e o Reino Unido.



Nenhum comentário:

Postar um comentário

Arquivos Malucos

Seguidores