Um livro é um mudo que fala, um surdo que responde, um cego que guia, um morto que vive. (Padre Antônio Vieira)

segunda-feira, 28 de abril de 2014

A Reflexão e a Criatividade

No final de novembro, estive na PUC-SP para o IV Seminário NEMES ( Núcleo de Estudos de Mística e Santidade da Pós-Graduação em Ciências da Religião), que acontece anualmente, encabeçado pelo filósofo Luiz Felipe Pondé. E aquele contexto me fez retomar uma questão importante, geralmente esquecida em nosso cotidiano: a importância do fundamento e da reflexão no ato criativo.
Não é novidade que vivemos em uma sociedade desfavorável à criatividade. Burocracia, stress, necessidade de trabalhar nos "moldes que funcionam"… e aquelas reclamações-clichê das pessoas no Happy Hour da sexta à noite não deixam de ser verdade. No entanto, habituados com esse modus operandi do nosso cotidiano, nos tornamos nosso maior adversário. Assim, como poder reivindicar a si mesmo criatividade, se, sob uma ilusão de 'movimento' estamos, de fato, estagnados?! E, uma vez assumido isso, como fugir dessa terrível inércia?
Talvez a história possa nos ajudar.
Na trajetória de alguns grandes artistas há dois pontos que sempre me chamaram a atenção: primeiro, eles são profundamente conhecedores da tradição da área escolhida. Buscam, pesquisam, vivenciam e têm uma base sólida. E como desdobramento disso, vem o segundo: eles refletem a respeito da própria criação, de seu próprio entendimento das coisas e sobre o meio onde tudo isso está inserido – como um diálogo entre eles e o mundo.
Aproveitando o post do Saulo Mileti, tomemos como exemplo o músico Miles Davis. Conhecido por estar sempre um passo à frente no que diz respeito à inovação, Miles era, antes de tudo, um conhecedor da tradição da música americana e do Bebop, gênero que surgia na época como  fundador do que seria chamado "Jazz moderno". Tamanho era o seu conhecimento sobre o assunto, que trabalhou e gravou com Charlie Parker (um dos criadores, senão "O" criador do Bebop) por alguns anos, e  uma vez dominada essa linguagem, passou a moldá-la à sua maneira (com o respaldo de já ser uma referência naquilo em que estava trabalhando) e também a se perguntar sobre as possibilidades ainda não exploradas naquele gênero em ascensão. O resto virou história, ou melhor, ele virou "A" história, tendo lançado as principais vertentes e músicos e sendo considerado o mais original artista de Jazz da segunda metade do Séc. XX.

O ponto onde quero chegar é: Quão consistente é seu conhecimento a respeito da sua área? Digo, história, conceitos, referências, ligações com outros campos, real compreensão desses outros campos, etc. Outra: Quanto tempo você dedica para nutrir, pela reflexão, o seu processo criativo pessoal e suas implicações (suas limitações,  pontos positivos, opiniões externas, seu trabalho em relação a outros profissionais/artistas, etc)? Talvez aqueles dias em que lhe falta criatividade tenham um correspondente nessas perguntas. Desperdiçamos tempo para saber qual o último "vídeo mais assistido do Youtube" (que amanhã será outro e o de hoje ninguém lembrará), ou para baixar os 64 discos, contando com os não oficiais, da sua banda preferida, dos quais metade você dificilmente ouvirá, mas esquecemos de olhar para trás, de pesquisar o fundamento das coisas, e para dentro (nós mesmos), o fundamento da nossa criatividade!
Um professor, compositor e esteta do século XX chamado Arnold Schönberg, em seu livro "Harmonia" (1911), já alertava sobre o perigo da falta de fundamentação, que ele chamava de "instrução", "preparação integral" (Durchbildung). Hoje, o excesso de informação, com sua velocidade assustadora, nos priva dessa formação sólida e desse tempo para refletir, ou seja, você acaba não sabendo nada sobre nada, mas já leu sobre tudo. E isso tem um efeito devastador no processo criativo, pois você não tem raiz em lugar nenhum.

O fato é que em última instância, nós permitimos que sejamos privados disso. Discordo daqueles que dizem que para ter criatividade é preciso estar 100% "antenado", vendo as "coisas novas", até porque faz tempo que não aparece algo realmente novo nesse planeta. E isso, acredito ser uma "mal do nosso tempo". Uma espécie de "Idade das Trevas" que passamos conceitualmente/artisticamente, fantasiada de "pura criatividade da geração YouTube". O texto "O fim do Futuro" (The End of the Future) de Peter Thiel(National Review) fala sobre isso de uma maneira global muito interessante e séria.
Para mim, ainda hoje, solidificar-se com um olhar voltado para a tradição e para a reflexão é acessar o que há de mais inovador e inexplorado. Seja na Filosofia, na Música ou nas Artes, o passado talvez fale mais sobre o "Ser criativo" que o Facebook. Isso me leva para outra pergunta: O que será da criatividade quando essa geração "Touch Screen-cabeça vazia" crescer?!

Esquenta de merda

Alguém falou umas palavrinhas contra os traficantes no especial do "Esquenta" em homenagem ao dançarino DG, morto na favela Pavão-Pavãozinho, em Copacabana? Contra Pitbull, um dos mais procurados do Rio – e que, segundo fontes da polícia civil, estava no mesmo churrasco do qual o dançarino fugiu pulando de uma laje ao muro de uma creche quando os seguranças do primeiro começaram a atirar contra a PM para "fazer contenção" e possibilitar a fuga do chefe? Algumas palavrinhas contra a pressa em culpar a polícia antes de concluídas as investigações (que,segundo o delegado, apontam que DG estava mesmo próximo e na direção dos traficantes em relação aos policiais)? Algo contra os "bicos" nas mãos dos "amigos"? O contrabando de armas? As más companhias? A ESCOLHA imoral dos bandidos pela criminalidade? Contra "microondas", "mulas", "aviões"? Contra o arruinamento das famílias de crianças e adolescentes viciados em drogas? Contra o sustento que os próprios artistas usuários dão ao império do crime? Contra a exploração política do caso por militantes profissionais como Sininho, alguns dos quais a polícia já suspeita de estar orientando a mãe de DG em "media coachings"? Contra a morte do comandante Leidson e dos soldados Alda e Rodrigo Paes Leme, enquanto trabalhavam nas UPPs?

Ou só mostraram o trecho de um curta-metragem em que um policial apontava a arma para o personagem de DG, para que a polícia fosse vaiada pela plateia e se chegasse à conclusão precoce de que a vida imita a arte? Ou ainda se limitaram a ecoar a tese de um "especialista" emluta de classes que afirmou no programa que "Não tem nada mais perigoso no Brasil do que ser negro, jovem e pobre", usando a velha estratégia esquerdista de mostrar os negros como vítimas predominantes de crimes violentos, sem perguntar se não são também predominantemente ou em grande parte os autores desses crimes?

PMs mortos

Anuário brasileiro de segurança pública (2013)

Alguém lembrou que o respaldo para essas meias verdades veio de outra pesquisa fajuta do famigerado IPEA, que tirou do número maior de vítimas negras a conclusão estapafúrdia sobre crimes raciais sem levar em conta a cor dos assassinos, sendo que, nos EUA, por exemplo, onde a esquerda utiliza a mesma estratégia, simplesmente 93%(!!!) dos negros assassinados foram mortos por outros negros? Alguém lembrou que a taxa de homicídios de policiais é o dobro da relativa à população negra e parda? Que a chance de ser morto sendo policial é 100,83% superior à chance de ser morto sendo negro ou pardo? Que a possibilidade de um policial brasileiro ser vítima por um crime de homicídio é 196,70% superior do que seria com qualquer outra pessoa? Que o risco de ser morto, sendo policial, é quase três vezes superior do que sendo outro não integrante das forças policiais? Que as taxas de PMs mortos em serviço é de 17,8 e FORA DE SERVIÇO(!!!) de 58,7(!!!) por grupo de 100 mil habitantes, sendo que a OMS considera taxas de homicídio acima de 10 por grupo de 100 mil já como sintomas de violência epidêmica? Alguém lembrou que a taxa de homicídios de PM e Policial Civil (em serviço e fora) chega a 72,1(!!!) por 100 mil habitantes, praticamente o triplo da taxa de homicídio nacional (de 24,3)? De quantas entrevistas, participações em programa de TV ou eventos em homenagem aos policiais mortos os especialistas e artistas convidados pelo "Esquenta" já participaram?

A-soldado-Alda,-que-foi-atingida-por-um-tiro-de-fuzil

Soldado Alda, da UPP do Parque Proletário, morta por traficantes. Por esta negra, a esquerda não chorou

(E de quantas por jovens como Victor Hugo Deppman, cujo assassinato por um "dimenó", protegido por leis endossadas pelo mesmo PSOL que explora a tragédia de DG, completa um ano neste mês?)

Será que o único minimamente sensato foi o coreógrafo Carlinhos de Jesus quando disse "Eu acredito na instituição policial", mas "é claro que há elementos que não merecem estar ali", ainda que ninguém tenha reiterado que até o momento não há provas conclusivas contra supostos "elementos" assim no caso DG?

Não é maravilhoso que, não bastasse a campanha "Eu não mereço ser estuprada" – baseada na pesquisa errada e embusteira do IPEA – ter dissuadido (aham…) milhares de estupradores de cometer seus crimes pelo irresistível apelo de moças seminuas cobertas com plaquinhas na internet, surja não somente outra como "Eu não mereço morrer assassinado", capaz de levar assassinos às lagrimas e ao divã, mas também a da hashtag "A vida é sagrada" [#avidaesagrada], proposta por Regina Casé ironicamente na mesma emissora cujas novelas fazem propaganda escancarada do aborto?

Captura de Tela 2014-04-27 às 19.39.55(E não era justamente a abortista Leandra Leal, outra "especialista" a palestrar sobre a "sociedade" no programa, aquela que dava uma forcinha aos Black Blocs no vídeo "Grito pela liberdade", culpando o Estado pela violência dos terroristas nas manifestações, violência esta que depois resultaria na morte do cinegrafista da Band Santiado Andrade, por cuja "vida sagrada" nenhum dos globais do vídeo fez campanha depois, pedindo desculpas à família pelo estímulo ao caos?)

Alguém da família "Esquenta" afinal mencionou o medo que os moradores de bem da favela sentem de abrir a boca para falar mal dos traficantes (ou mesmo para narrar o que sabem deste episódio), enquanto um bando de militantes "especialistas" usam a sua liberdade de expressão para falar em nome deles exclusivamente contra a polícia, fomentando o ódio às instituições que, a despeito dos erros, excessos ou mesmo crimes de alguns de seus integrantes, são as únicas que podem livrá-los daqueles marginais? Ou hashtag ganha de fuzil?

A dor de parentes e amigos de DG é legítima e deve ser respeitada, mas se nada justifica a sua morte como se deu, nada tampouco justifica tanto cinismo, tanta ignorância, tanta ideologia barata em função dela, como se viu no "Esquenta" deste domingo (e em todos os jornais).

Na TV aberta, a voz que se erguia contra o tráfico e lamentava a morte de policiais e o silêncio dessa turma dos "direitos humanos" quando isso acontecia era a de Rachel Sheherazade, a apresentadora censurada em pleno ano eleitoral pelo governo do PT (com testas-de-ferro do PSOL e do PCdoB) sob ameaça de corte de verbas da Caixa Econômica Federal ao SBT. O que resta na TV brasileira é isso: o programa de Regina Casé, a garota-propaganda da Caixa.

Os traficantes que lutam pelo fim das UPPs devem ter assistido a tudo comendo pipoca.


http://veja.abril.com.br/blog/felipe-moura-brasil/2014/04/27/traficantes-assistiram-ao-esquenta-comendo-pipoca/

As aventuras de Pinto: vamos brincar?


Lucas Mendes: maconhas douradas

Na data americana 4/20 é dia 20 de abril. O mês precede o dia. 20 de abril é o Dia da Maconha.

Há duas boas versões. Pela primeira, 420 seria o código da polícia da Califórnia para alertar sobre algum fumacê de maconheiros. Foi queimada. O número não existiu. Pela outra, four twenty, ou quatro e vinte, marcava a hora do encontro de cinco maconheiros conhecidos como os Waldos, todos atletas, que se reuniam depois do treino na escola secundária de San Rafael, norte de San Francisco, marco zero da contracultura americana.

A década dos Waldos era a de 70, idade dourada da maconha. Nos Estados americanos, ela era proibida e reprimida, mas ainda não era crime federal. Quem fosse apanhado fumando ou com maconha pagava uma multa.Num velho Impala, os cinco saíam em busca de uma plantação de maconha pequena e fabulosa que tinha sido abandonada pelo plantador na floresta de Point Reyes. Iam fumando maconha, fumavam na busca, voltavam fumando. Quem encontra tesouro com a cabeça cheia de fumo? Continua perdida, mas a história, embalada pelos roqueiros dos Grateful Dead, ganhou impulso nacional e 4 e 20, a hora, virou 20 de abril, dia da maconha.
O presidente Richard Nixon associou as drogas aos protestos dos hippies contra ele e a guerra do Vietnã. Passou o Controled Substances Acts. Maconha foi colocada na categoria 1, junto com heroína, com punições severas. A procura e os preços dispararam. 5% de jovens fumavam na década de 60, nos setenta foi para 50%. Puxar fumo era como uma medalha antiNixon e antiguerra.

O presidente Jimmy Carter tentou descriminalizar a maconha. Perdeu a parada. Ronald Reagan reforçou a guerra e mandou incendiar as plantações. Elas se mudaram para o México, Colômbia, guarda-roupas e áreas internas.

Na costa leste, o campeão dos traficantes era Tony Dokoupil. Só numa importação ele trouxe 17 toneladas de maconha da Colômbia, o suficente para um baseado para cada um dos 35 milhões de apreciadores americanos. Usava cargueiros, barcos à vela, a motor e caminhões.

Tony Dekoupil, o filho, conta a história do pai no livro The Last Pirate: A Father, His son and the Golden Age of Marijuana. Jornalista conhecido, Dokoupil trabalhou na revista Newsweek e escreve para o telejornalismo da NBC. Foi criança rica, cresceu nas melhores escolas, clubes, passou férias em barcos no Caribe. É grato aos maconheiros da época, mas o pai saiu de casa e depois dos 10 anos o filho passou quase vinte anos sem ter contato com ele.

O dinheiro secou, a adolescência foi pobre, a mãe nunca contou a ele a história do pai, mas ela sabia de tudo. Foi ela quem mentiu e conseguiu com o próprio pai o investimento inicial de US$ 2 mil para comprar os primeiros tijolos de maconha que o marido quebrava e vendia em concertos de rock.

Tony ouvia referências a maconha na mesa, mas achava que era conversa de hippies. Já jornalista, aos 30 anos, decidiu investigar o pai. Depois de buscas inúteis em vários Estados, foi ao Arquivo Nacional, em Washington. O papai estava lá no documentos, indiciado pelo transporte, importação e distribuição de maconha. Tinha sido denunciado pelo ex-sócio, melhor amigo, padrinho de casamento e que se casou com a ex-mulher, a mãe de Tony.

Diante das provas, papai maconheiro abriu o bico, entregou os outros piratas, mas teve a sorte de pegar um juiz camarada. Foi condenado a 18 meses de prisão. Outros piratas pegaram mais de dez anos pelo mesmo crime.

O pai hoje vive mal em Cambrigde, Massachussets, reabilitado de outras drogas pesadas, mas com a memória apagada por elas. Enterrou milhões de dólares em vários lugares do país, mas não sabe onde. Perdeu a memória e o mapa. Tony e a mãe acharam US$ 375 mil numa montanha em Albuquerque, no Novo México, mas o grosso continua sumido. O pirata viveu antes do tempo dele. Quando investiu em maconha, achava que seria legalizada, como prometia Carter na campanha presidencial.

O século 21 trouxe a segunda idade dourada da maconha nos Estados Unidos. No Colorado e no (Estado de) Washington, é legal comprar e fumar em casa. Em 18 Estados, é legal para uso medicinal. Uma guinada tão radical quanto o casamento gay em menos de vinte anos.

A droga maldita agora pode ser uma benção para a educação nos Estados com arrecadações milionárias de impostos e redução de bilhões nos custos de presos. Vários Estados já soltaram milhares deles por crimes menores ligados a drogas e esta semana o Ministério de Justiça indicou que o governo federal vai seguir o mesmo caminho.

Estamos no final de 80 anos de repressão à maconha, de milhões de vidas desperdiçadas, trilhões de dólares gastos em policias, tribunais e sistemas penitenciário, mas nesta viagem pelo mundo da nova idade dourada da maconha, ninguém tem o mapa do tesouro.

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Adeus Freire

Pesquisa mostra que bons profissionais sofrem bullying por parte dos colegas

Pessoas pró-ativas são cobradas negativamente por funcionários mais acomodados

Muitos acreditam que o assédio moral, ou até mesmo o bullying, tem uma só mão de direção nas empresas e vai sempre do chefe para o subordinado. No entanto, uma pesquisa realizada pelo Instituto de Bullying no Trabalho dos Estados Unidos, divulgada em 2014, mostra que o bullying no trabalho também é praticado entre colegas. De acordo com o levantamento, pelo menos 72% dos empregados norte-americanos foram vítimas, estão sendo alvo ou conhecem casos de assédio no trabalho. Do total de empregados pesquisados, ao menos 28% relataram que o bullying partiu de colegas de trabalho e não dos chefes.

— Esse é um fenômeno ainda invisível nas empresas, ou seja, quando as pessoas sofrem assédio por parte de colegas. E, por incrível que pareça, esse tipo de bullying tem geralmente a ver com o fato de a vítima ser um bom profissional, ter ótimo desempenho e começar a incomodar os funcionários, que se sentem ameaçados — explica Eduardo Carmello, diretor da Entheusiasmos, empresa especializada em gestão de talentos.

O consultor em liderança ainda assinala que em pelo menos em 90% das empresas brasileiras o empregado que faz mais, é pró-ativo e busca superar as expectativas é mal visto pelos colegas, o que leva a uma situação que fatalmente termina no bullying.

— Frequentemente escuto queixas de bons talentos nas empresas que raramente são reconhecidos e, pior, costumam ser perseguidos por outros grupos de empregados que deixam claro que o bom desempenho deles evidencia claramente o mau desempenho de todos os demais, daí porque costumam intimar os bons profissionais a "baixarem a bola" — alerta.

Outra informação surpreendente da pesquisa do instituto diz respeito ao perfil da vítima. De acordo com os dados, 37% daqueles que mais sofrem esse tipo de perseguição são considerados gentis e dotados de compaixão, outros 22% costumam ter jogo de cintura e atuam para alcançar um acordo e 19% são cooperativos. Ao contrário do que se imagina, os agressivos, com 15%, e os abusivos, com 6%, não são as principais vítimas.

— Esses dados são muito reveladores, pois evidenciam claramente as razões pelas quais muitos bons profissionais deixam as empresas, que é a falta de reconhecimento e perseguição por parte de colegas que buscam esconder sua incompetência perseguindo quem têm bom desempenho e uma visão mais humanitária da empresa — diz Carmello.

Para ele, quando um clima como esse se instala na empresa, os grandes derrotados são a própria organização e o empregado com desempenho excepcional, que se torna vítima do assédio. Nesse sentido, a empresa que não agir para conter esse problema vai perder as pessoas que fazem a diferença junto ao cliente e manter justamente aqueles acomodados, que são incapazes de gerar bons resultados. 

— Como evitar que isso aconteça? É fundamental que as empresas tenham sistemas de competência e de meritocracia que reconheçam os bons empregados, que ajudem a desenvolver as pessoas medianas e que gerem consequências para aqueles que têm baixo desempenho — assinala.

Além disso, para o bom profissional, ganhar o mesmo que todos os demais e ainda ter que fazer mais do que os outros é um fator de desmotivação e a principal razão para que essa pessoa deixe a organização.

FONTE: http://diariocatarinense.clicrbs.com.br/sc/economia/noticia/2014/04/pesquisa-mostra-que-bons-profissionais-sofrem-bullying-por-parte-dos-colegas-4474527.html

quinta-feira, 10 de abril de 2014

O livro

Jorge Luiz Borges

[...]

Penso que o livro é uma das possibilidades de felicidade que nós, humanos, temos.

Dizem que o livro desaparecerá, eu creio que é impossível. Perguntam: que diferença pode haver entre um livro e uma revista ou um disco? A diferença é que uma revista é para ser lida e esquecida, um disco se ouve, e mesmo assim, para o esquecimento, é uma coisa mecânica e portanto frívola. Um livro se lê para a memória. O conceito de livro sagrado, do Alcorão, da Bíblia e dos Vedas – e que também se diz que os Vedas criaram o mundo - pode estar ultrapassado, porém o livro tem uma espécie de santidade que devemos cuidar para que não se perca. Pegar um livro e abri-lo guarda a possibilidade do fato estético. Quais são as palavras inseridas no livro? O que são estes símbolos mortos? É simplesmente um cubo de papel e couro, com folhas. Porém se o lermos ocorre uma coisa rara, creio que ele muda a cada momento. Heráclito disse (e tenho repetido isto em demasia) que nada se banha duas vezes no mesmo rio. Nada se baixa duas vezes no mesmo rio porque as águas mudam porém, o mais terrível, é que nós mesmos não somos menos fluídos que um rio.

Cada vez que lemos um livro, o livro se modifica, a conotação das palavras é outra. Além disto, os livros estão carregados de passado. Tenho falado contra a crítica e vou aqui ser contraditório (porém o que me importa ser contraditório). Hamlet não é exatamente o Hamlet que Shakespeare concebeu no início do século 17. Hamlet é o Hamlet de Coleridge, de Goethe e de Bradley. O mesmo se passa com o Quixote. Igual se sucede com Lugones e Martínez Estrada, o Martin Fierro já não é o mesmo. Os leitores acabam enriquecendo o livro. Se lemos um livro antigo, é como se o tivéssemos lido durante todo o tempo transcorrido entre o dia que foi escrito e o nosso tempo. Por isto convém manter o culto ao livro. O livro pode estar cheio de erratas, podemos não concordar com as opiniões do autor, porém ele conserva algo de sagrado, de divino, não de modo supersticioso, mas com o desejo de encontrar a felicidade, de encontrar a sabedoria. Isto é o que queria dizer-lhes hoje.

 Buenos Aires, 24/05/1978

http://pci3101.zip.net/

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Modernidade líquida

BAUMAN, Zigmundt. Modernidade líquida. Tradução de Plínio Dentzien. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001. 258 p.

Ficha de citação: favor citar a fonte caso utilize em algum texto

.

O fim do panóptico é o arauto do fim da era do engajamento mútuo: entre supervisores e supervisados, capital e trabalho, líderes e seguidores, exércitos em guerra. As principais técnicas do poder são agora a fuga, a astúcia, o desvio e a evitação, a efetiva rejeição de qualquer confinamento territorial. p. 18

A força militar e seu plano de guerra de “atingir e correr”, prefigura, incorpora e pressagia o que de fato está em jogo no novo tipo de guerra na era da modernidade líquida: não a conquista de novo território, mas a destruição das muralhas que impediam o fluxo dos novos e fluidos poderes globais; expulsar da cabeça do inimigo o desejo de formar suas próprias regras, abrindo assim o até então inacessível, defendido e protegido espaço para a operação dos outros ramos, não-militares, do poder. A guerra hoje, pode-se dizer [...] parece  ada vez mais uma “promoção do livre comércio por outros meios”. P. 19

No estágio fluido da modernidade, a maioria assentada é dominada pela elite nômade e extraterritorial. . Manter as estradas abertas para o tráfego nômade e tornar mais distantes as barreiras remanescentes tornou-se hoje o meta propósito da política. P. 20

Numa notável reversão da tradição milenar são os grandes e poderosos que evitam o durável e desejam o transitório, enquanto os da base da pirâmide – contra todas as chances – lutam desesperadamente para fazer suas frágeis, mesquinhas e transitórias posses durante mais tempo. Os dois se encontram hoje em dia principalmente nos lados opostos dos balcões das mega-liquidações ou de vendas de carros usados. P. 21

Se essas tendências entrelaçadas se desenvolvessem sem freios, homens e mulheres seriam reformulados no padrão da toupeira eletrônica, essa orgulhosa invenção dos tempos pioneiros da cibernética imediatamente aclamada como arauto do porvir: um plugue em castores atarantados na desesperada busca de tomadas a que se ligar. P. 22

Sentir-se livre das limitações, livre para agir conforme os desejos, a  imaginação e a capacidade de agir: sentimo-nos livres na medida em que a imaginação não vai mais longe que nossos desejos e que nem uma nem os outros ultrapassam nossa capacidade de agir. O equilíbrio pode, portanto, ser alcançado e mantido de duas maneiras diferentes: ou reduzindo os desejos e/ou a imaginação, ou ampliando nossa capacidade de ação. P. 24

Ameaça mais sombria atormentava o coração dos filósofos: que as pessoas pudessem simplesmente não querer ser livres e rejeitassem a perspectiva da libertação pelas dificuldades que o exercício da liberdade pode acarretar. P. 25

O que está errado com a sociedade em que vivemos [...] é que ela deixou de se questionar. É um tipo de sociedade que não reconhece qualquer alternativa para si mesma e, portanto, sente-se absolvida do dever de examinar, demonstrar, justificar (e que dirá provar) a validade de suas suposições tácitas e declaradas. P. 30

E o que o homem faz o homem pode desfazer. Ser moderno passou a significar, como significa hoje em dia, ser incapaz de parar e ainda menos capacidade de ficar parado. P. 37

A consumação está sempre no futuro, e os objetivos perdem sua atração e potencial de satisfação no momento de sua realização, se não antes. Ser moderno significa estar sempre à frente de si mesmo [...] também significa ter uma identidade que só pode existir como projeto não-realizado. A esse respeito, não há muito que distinga nossa condição da de nossos avós. P. 37

Se a modernidade original era pesada no alto, a modernidade de hoje é leve no alto, tendo se livrado dos seus deveres “emancipatórios”, exceto o dever de cedera questão da emancipação às camadas médias e inferior, às quais foi relegada a maior parte do peso da modernização contínua. P. 38

A “individualização” agora significa uma coisa muito diferente do que significava há cem anos e do que implica nos primeiros tempos da era moderna – os tempos da exaltada “emancipação” do homem da trama estreita da dependência, da vigilância e da imposição comunitárias. P. 40

Os “estamentos” enquanto lugares a que se pertencia por hereditariedade vieram a ser substituídos pelas “classes” como objetivo de pertencimento fabricado. Enquanto os estamentos eram uma questão de atribuição, o pertencimento ás classes era em grande medida uma realização [...] devia ser buscado, e continuamente renovado, reconfirmado e testado na conduta diária. P. 41

Não se engane: agora, como antes – tanto no estágio leve e fluido da modernidade quanto no sólido e pesado -  a individualização é uma fatalidade, não uma escolha. Na terra da liberdade individual de escolher, a opção de escapar à individualização está decididamente fora da jogada. P. 43

Como Beck adequada e pungentemente diz “a maneira como se vive torna-se uma solução biográfica das contradições sistêmicas”. Riscos e contradições continuam a ser socialmente produzidos; são apenas o dever e a necessidade de enfrenta-los que estão sendo individualizados. P. 43

Pode-se dizer que desde o começo são moldadas de tal maneira que lhes faltam interfaces para combinar-se com o problema das demais pessoas. P. 44

A única vantagem que a companhia de outros sofredores pode trazer á garantir a cada um deles que enfrentar os problemas solidariamente é o que todos fazem diariamente – e portanto renovar e encorajar a fatigada decisão de continuar a fazer o mesmo [...] como lidar com crianças que pensam que são adolescentes e adolescentes que se recusam a se tornar adultos; como pôr a gordura e outros “corpos estranhos” indesejáveis “para fora do sistema”; como livrar-se de um vício que não dá mais prazer ou de parceiros que não são mais satisfatórios. P. 45

O “público” é colonizado pelo “privado”; o “interesse público” é reduzido à curiosidade sobre as vidas privadas de figuras públicas e a arte da vida pública é reduzida à exposição pública das questões privadas e a confissões de sentimentos privados (quanto mais íntimos, melhor). As “questões públicas” que resistem a essa redução tornam-se quase incompreensíveis. P. 46

O que emerge no lugar das normas sociais evanescentes é o ego nu, atemorizado e agressivo a procura de amor e de ajuda. Na procura de si mesmo e de uma sociedade afetuosa, ele facilmente se perde na selva do eu... Alguém que tateia na bruma de seu próprio eu não é mais capaz de perceber que esse isolamento, esse “confinamento solitário do ego”, é uma sentença de massa. (BECK, p. 47)

O impulso modernizante, em qualquer de suas formas, significa a crítica compulsiva da realidade. A privatização do impulso significa a compulsiva auto-crítica nascida da desafeição perpétua: ser um indivídua de jure significa não ter ninguém a quem culpar pela própria miséria, significa não procurar as causas das próprias derrotas senão na própria indolência e preguiça, e não procurar outro remédio senão tentar com mais e mais determinação. P. 47-48

Nosso tempo é propício aos bodes expiatórios – sejam eles políticos que fazem de suas vidas privadas uma confusão, criminosos que se esgueiram nas ruas e nos bairros perigosos ou “estrangeiros entre nós”. P. 48

Quanto ao poder, ele navega para longe da rua e do mercado, das assembleias e dos parlamentos, dos governos locais e nacionais, para além do alcance e do controle dos cidadãos para a extraterritorialidade das redes eletrônicas. Os princípios estratégicos favoritos dos poderes existentes hoje em dia são fuga, evitação e descompromisso, e sua condição ideal é a invisibilidade. P. 50

Quanto menos um pensamento puder ser explicado em termos familiares, que façam sentido para os homens e mulheres imersos em sua busca diária da sobrevivência, tanto mais próximo fica dos padrões da humanidade; quanto menos puder ser justificado em termos de ganhos e usos tangíveis ou das etiquetas de preço afixadas a ele no supermercado ou na bolsa de valores, tanto maior seu valor humanizante. São a busca ativa do valor de mercado e a urgência do consumo imediato que ameaçam o genuíno valor do pensamento. P. 52

Como sempre, o trabalho do pensamento crítico é trazer a luz os muitos obstáculos que devem ser examinados urgentemente estão ligados ás crescentes dificuldades de traduzir os problemas privados em questões públicas, de condensar problemas intrinsecamente privados em interesses públicos que são maiores que a soma de seus ingredientes individuais. P. 63

O líder foi um produto não intencional e um complemento necessário, do mundo que tinha por objetivo a boa sociedade, ou a sociedade certa e apropriada, e procurava manter as alternativas impróprias à distância. P. 77

A autoridade amplia o números de seguidores, mas, no mundo de fins incertos e cronicamente subdeterminados, é o número de seguidores que faz – que é – a autoridade. P. 80

A autoridade da pessoa que compartilha sua história de vida pode fazer com que os expectadores observem o exemplo com atenção e aumenta os índices de audiência. Mas a falta de autoridade de quem conta a sua vida, o fato de ela não ser uma celebridade, sua anonimidade, pode fazer com que o exemplo seja mais fácil de seguir e assim ter um potencial adicional próprio. P. 80

O que quer que seja nomeado, inclusive os sentimentos mais secretos, pessoais e íntimos, só o é propriamente se os nomes escolhidos forem de domínio público, se pertencerem a uma linguagem compartilhada e pública e forem compreendidos pelas pessoas que se comunicam nessa linguagem. P. 81

O desejo se torna seu próprio propósito, e o único propósito não contestado e inquestionável. P. 86

[...] a compulsão transformada em vício de comprar é uma luta morro acima contra a incerteza aguda e enervante e contra um sentimento de insegurança incômodo e estupidificante. [...] mas estão também tentando escapar da agonia chamada insegurança. Querem estar, pelo menos uma vez, livres do medo do erro, da negligência ou da incompetência. Querem estar pelo menos uma vez, seguros, confiantes; e a admirável virtude dos objetos que encontram quando vão às compras é que eles trazem consigo [...] a promessa de segurança. P. 95-96

Ainda que possa ser algo mais, o comprar compulsivo é também um ritual feito à luz do dia para exorcizar as horrendas aparições da incerteza e da insegurança que assombram as noites. P. 96

Em vista da volatilidade e instabilidade intrínsecas de todas ou quase todas as identidades, é a capacidade de ir às compras no supermercado das identidades, o grau de liberdade genuína ou supostamente genuína de selecionar a própria identidade e de mantê-la enquanto desejado, que se torna o verdadeiro caminho para a realização das fantasias de identidade. Com essa capacidade, somos livres para fazer e desfazer identidades à vontade. Ou assim parece. P. 98

Sua dependência não se limita ao ato da compra. [...] A vida desejada tende a ser a vida vista na TV. A vida na telinha diminui e tira o charme da vida vivida: é a vida vivida que parece irreal, e continuará a parecer irreal enquanto não for remodelada na forma de imagens que possam aparecer na tela. P. 99

A vida moderna é tão completamente mediada por imagens eletrônicas que não podemos deixar de responder aos outros como se suas ações - e as nossas – estivessem sendo gravadas e transmitidas simultaneamente para uma audiência escondida, ou guardadas para serem assistidas mais tarde. (Lasch, p. 99)

O velho sentido de identidade se refere tanto a pessoas como a coisas. Ambas perderam sua solidez na sociedade moderna, sua definição e comunidade. A implicação é que, nesse universal desmanchar dos sólidos, a iniciativa está com as coisas; e, como as coisas são os ornamentos simbólicos das identidades e as ferramentas dos esforços de identificação, as pessoas logo as seguem. (Lasch, p. 99-100)

O capitalismo não entregou os bens as pessoas; pessoas foram crescentemente entregues aos bens; o que quer dizer que o próprio caráter e sensibilidade das pessoas foi reelaborado, reformulado, de tal forma que elas se agrupam aproximadamente... com as mercadorias, experiências e sensações... cuja venda é o que dá forma e significado a suas vidas. (SEABROOK, p. 100)

No mundo pós-moderno todas as distinções se tornam fluidas, os limites se dissolvem, e tudo pode muito bem parecer seu contrário; a ironia se torna a sensação perpétua de que as coisas poderiam ser um tanto diferentes, ainda que nunca fundamental ou radicalmente diferentes. A idade da ironia foi substituída pela idade do glamour, em que a aparência é consagrada como única realidade... A modernidade, assim, muda de um período do eu autêntico para um período do eu irônico e para uma cultura contemporânea do que poderia ser chamado de eu associativo – um afrouxamento contínuo dos laços entre a alma interior e a forma exterior da relação social... As identidades são assim oscilações contínuas. (FERGUSON, p. 102)

A chegada, o fim definitivo de toda escolha, parece muito mais tediosa e consideravelmente mais assustadora do que a perspectiva de que as escolhas de amanhã anulem as de hoje. Só o desejar é desejável – quase nunca sua satisfação. P. 103

 

Quanto maior liberdade na tela e quanto mais sedutoras as tentações que emanam das vitrines, e mais profundo o sentido da realidade empobrecida, tanto mais irresistível se torna o desejo de experimentar, ainda que por um momento fugaz, o êxtase da escolha. Quanto mais escolhas parecem ter os ricos, tanto mais a vida sem escolha parece insuportável para todos. P. 104

O que é novo é que são os assaltantes (juntamente com os vagabundos e outros desocupados, personagens estranhos aos lugar em que se movem) que levam agora a culpa, representando o diabo, os íncubos, maus espíritos, duendes, mau-olhado, gnomos malvados, bruxas ou comunistas embaixo da cama. P.109

Os eleitores e as elites [...] poderiam ter enfrentado a escolha de apoiar a política governamental para eliminar a pobreza, administrar a competição étnica e integrar todos em instituições públicas comuns. Escolheram em vez disso, comprar proteção, estimulando o crescimento da indústria da segurança privada. Outra resposta é a privatização e militarização do espaço público – fazendo das ruas, parques e mesmo lojas lugares mais seguros, mas menos livres. (ZUKIN, p. 110)

Usar uma máscara é a essência da civilidade. As máscaras permitem a sociabilidade pura, distantes das circunstâncias do poder, do mal-estar e dos sentimentos privados das pessoas que as usam. A civilidade tem como objetivo proteger os outros  de serem sobrecarregados com nosso peso. (SENETT, p. 112)

[...] espaços que as pessoas possam compartilhar como personae públicas -  sem serem instigadas, pressionadas ou induzidas a tirar as máscaras e deixar-se ir, expressar-se, confessar seus sentimentos íntimos e exibir seus pensamentos, sonhos e angústias. P. 112

As formas refinadas (modernizadas) da estratégia êmica são a separação espacial, os guetos urbanos, o acesso seletivo a espaços e o impedimento seletivo ao seu uso. P. 118

Um não lugar é um espaço destituído das expressões simbólicas de identidade, relações e história: exemplos incluem aeroportos, auto-estradas, anônimos quartos de hotel, transporte público... Jamais na história da humanidade os não-lugares ocuparam tanto espaço. P. 120

O vazio do lugar está no olho de quem vê e nas pernas ou rodas de quem anda. Vazios são os lugares em que não se entra e onde se sentiria perdido e vulnerável, surpreendido e um tanto atemorizado pela presença de humanos. P. 122

Há outros que são mais outros do que outros, os estrangeiros. Excluir pessoas como estrangeiras porque não somos mais capazes de conhecer o outro indica uma patologia social. (BENKO, p. 127)

Pode ser uma patologia, mas não uma patologia da mente que tenta em vão forçar um sentido para um mundo destituído de significado estável e confiável; é uma patologia do espaço público que resulta numa patologia da política: o esvaziamento  e a decadência da arte do diálogo e  da negociação, e a substituição do engajamento e mútuo comprometimento pelas técnicas do desvio e da evasão.  P. 127

Não fale com estranhos – outrora uma advertência de pais zelosos a seus pobres filhos – tornou-se preceito estratégico da normalidade adulta. P. 127

[...] as armas dos fortes são... classificação, delineamento, divisão. Os fortes dependem da correção do mapeamento, note-se que todas as armar arroladas são operações realizadas sobre o espaço. Pode-se dizer que a diferença entre os fortes e os fracos é a diferença entre um território formado como no do mapa – vigiado de perto e estritamente controlado – e um território aberto á invasão, ao redesenho das fronteiras e à projeção de novos mapas. P. 131-132

Quem manda são as pessoas que conseguem manter suas ações livres, sem normas, e portanto imprevisíveis, ao mesmo tempo em que regulam normativamente (rotinizando e portanto tornando monótonas, repetitivas e previsíveis) as ações dos protagonistas. Pessoas com as mãos livres mandam em pessoas com as mãos atadas; a liberdade das primeiras é a causa principal da falta de liberdade das últimas – ao mesmo tempo em que a falta de liberdade das últimas é o significado último da falta de liberdade das primeiras. (CROZIER, p. 138-139)

A escolha racional da era da instantaneidade significa buscar a gratificação evitando as consequências, e particularmente as responsabilidades que essas consequências podem implicar. P. 148

O advento da instantaneidade conduz a cultura e a ética a um território não mapeado e inexplorado, onde a maioria dos hábitos aprendidos para lidar com os afazeres da vida perdeu sua utilidade e sentido. P. 149

Os homens se parecem mais com seus tempos que com seus pais. (DEBORD, 149)

O progresso não enobrece ou eleva a história. O progresso é uma declaração da crença de que a história não conta e da resolução de deixa-la fora das contas. P. 152

Raramente se espera que o trabalho enobreça os que o fazem, fazendo deles seres humanos melhores, e raramente alguém é admirado ou elogiado por isso. A pessoa é medida e avaliada por sua capacidade de entreter e alegrar, satisfazendo não tanto a vocação ética do produtor e criador quando as necessidades e desejos estéticos do consumidor, que procura sensações e coleciona experiências. P. 161

Arrisco afirmar que o fenômeno da desigualdade entre as nações é de origem recente; é produto dos últimos dois séculos. (COHEN, p. 162). E assim também a ideia do trabalho como fonte de riqueza, e a política nascida dessa suposição e criada por ela. (COHEN, P. 162)

A rotina pode diminuir, mas pode também proteger; a rotina pode decompor o trabalho, mas pode também compor uma vida. [...] o ingrediente crucial da mudança múltipla é a nova mentalidade de curto prazo. [...] casamentos até que a morte nos separe estão decididamente fora de moda e se tornaram uma raridade: os parceiros não esperam mais viver muito tempo juntos. P. 169

Os medos, ansiedades e angústias contemporâneas são feitos para serem sofridos em solidão. P. 170

A velocidade de movimento se tornou um fator importante, talvez o principal, da estratificação social e da hierarquia da dominação. P. 173

A organização de negócios de hoje tem um elemento de desorganização deliberadamente embutido: quanto menos sólida e mais fluida, melhor. Como tudo o mais no mundo, o conhecimento não pode deixar de envelhecer rapidamente e assim é a recusa a aceitar o conhecimento estabelecido, a seguir os precedentes e a reconhecer a sabedoria das lições da experiência acumulada que é agora vista como preceito básico da eficácia e da produtividade. P. 177

Essas pessoas são, como a maioria antes delas, dominadas e remotamente controladas; mas não dominadas e controladas de uma maneira nova. A liderança foi substituída pelo espetáculo: ai daqueles que ousem lhe negar entrada. Acesso à “informação” (em sua maioria eletrônica) se tornou o direito humano mais zelosamente defendido e o aumento do bem estar da população como um todo é hoje medido, entre outras coisas, pelo número de domicílios equipados com (invadidos por?) aparelhos de televisão. E aquilo que a informação mais informa é a fluidez do mundo habitado e a flexibilidade dos habitantes. O noticiário [...] está na estimativa de Bordieu entre os mais perecíveis dos bens em oferta; de fato, a vida útil dos noticiários é risivelmente curta se os compararmos às novelas, programas de entrevistas e programas cômicos. Mas a perecibilidade dos noticiários enquanto informação sobre o mundo real é em si mesma uma importante informação: a transmissão da notícia é a celebração constante e diariamente repetida da enorme velocidade da mudança, do acelerado envelhecimento e da perpetuidade dos novos começos. P. 178

A questão é, porém, que – pelo menos psicologicamente – todos os outros também são afetados. [...]. No mundo do desemprego estrutural ninguém pode se sentir verdadeiramente seguro. Empregos seguros em empresas seguras parecem parte da nostalgia dos avós. P. 185

Na falta de segurança de longo prazo, a satisfação instantânea parece uma estratégia razoável. O que quer que a vida ofereça, que o faça hic et nunc – no ato. Quem sabe o que o amanhã vai trazer?

Qualquer oportunidade que não for aproveitada aqui e agora é uma oportunidade perdida; não a aproveitar é assim imperdoável e não há desculpa fácil para isso, e nem justificativa. Como os compromissos de hoje são obstáculos para as oportunidades e amanhã, quanto mais forem leves e superficiais, menor o risco de prejuízos. [...] laços e parcerias tendem a ser vistos e tratados como coisas destinadas a serem consumidas, e não produzidas; estão sujeitas aos mesmos critérios de avaliação de todos os outros objetos de consumo. P. 187

Se a satisfação instantânea é a única maneira de sufocar o sentimento de insegurança (sem jamais saciar a sede de segurança e certeza), não há razão evidente para ser tolerante em relação a alguma coisa ou pessoa que não tenha óbvia relevância para a busca de satisfação, e menos ainda em relação a alguma coisa ou pessoa complicada ou relutante em trazer a satisfação que se busca. P. 189

Ao contrário da produção, o consumo é uma atividade solitária, mesmo nos momentos em que se realiza na companhia de outros. [...] A cooperação não é só desnecessária como é inteiramente supérflua. P. 189

Como observou amargamente Eric Hobsbawm, a palavra comunidade nunca foi utilizada tão indiscriminadamente quanto nas décadas em que as comunidades no sentido sociológico se tornaram difíceis de encontrar na vida real. P. 196

[...] exatamente quando a  comunidade entra em colapso, inventa-se a identidade. (YOUNG, p. 196)

[...] embora as pessoas tenham que escolher entre diferentes grupos de referência de identidade, sua escolha implica a forte crença de que quem escolhe não tem opção a não ser o grupo específico a que pertence. (HOBSBAWM apud PATTERSON, p. 197)

[...] estratégias antropofágicas [...] antropoêmica, de vomitar e cuspir aqueles que não são aptos a ser nós, seja isolando-os por encarceramento dentro dos muros visíveis dos guetos ou dos invisíveis [...] muros das proibições culturais. (LÉVI-STRAUSS, p. 201)

Não há afirmação que não seja auto-afirmação, nem identidade que não seja construída. P. 205

[...] é razoável que indivíduos mais fracos e mal armados procurem a força do número para compensar sua importância individual. P. 205

O nós, como insiste Richard Sennett, é hoje um ato de autoproteção. O desejo de comunidade é defensivo. P. 205

O corpo, pode-se dizer, se tornou o único abrigo e santuário da continuidade e da duração; o que quer dizer que possa significar o longo prazo, dificilmente excederá os limites impostos pela mortalidade corporal. P. 210

[...] a punição não se confina a medidas. Governos particularmente obstinados [...] recebem uma lição exemplar que tem por objetivo advertir e atemorizar seus imitadores potenciais. Se a demonstração diária e rotineira da superioridade das forças globais não for suficiente para forçar o Estado a ver a razão e cooperar com a ova ordem mundial, a força militar é exercida: a superioridade da velocidade sobre a lentidão, da capacidade de escapar sobre a necessidade de engajar-se no combate, da extraterritorialidade sobre a localidade, tudo isso se manifesta espetacularmente com a ajuda, desta vez, de forças armadas especializadas em táticas de atacar e correr e a estrita separação entre vidas a serem salvas e vidas que não merecem socorro. P. 213

O jogo da dominação na era da modernidade líquida não é mais jogado entre o maior e o menor, mas entre o mais rápido e o mais lento. P. 215

A globalização parece ter mais sucesso em aumentar o vigor da inimizade e da luta intercomunal do que em promover a coexistência pacífica das comunidades. P. 219

A falta de laços sociais com membros legítimos da comunidade (ou a proibição de estabelecer tais laços) tem uma vantagem adicional: as vítimas podem ser expostas a violência sem risco de vingança, pode-se puni-los com impunidade. P. 222

Não é tanto uma questão de quantos inimigos são mortos; é mais importante quantos são os assassinos. P. 225

Também é importante que os assassinatos sejam cometidos abertamente [...] que existam testemunhas do crime que conheçam os assassinos pelo nome. P. 225

Modernidade líquida. Tradução de Plínio Dentzien. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001. 258 p.

 

O fim do panóptico é o arauto do fim da era do engajamento mútuo: entre supervisores e supervisados, capital e trabalho, líderes e seguidores, exércitos em guerra. As principais técnicas do poder são agora a fuga, a astúcia, o desvio e a evitação, a efetiva rejeição de qualquer confinamento territorial. p. 18

A força militar e seu plano de guerra de “atingir e correr”, prefigura, incorpora e pressagia o que de fato está em jogo no novo tipo de guerra na era da modernidade líquida: não a conquista de novo território, mas a destruição das muralhas que impediam o fluxo dos novos e fluidos poderes globais; expulsar da cabeça do inimigo o desejo de formar suas próprias regras, abrindo assim o até então inacessível, defendido e protegido espaço para a operação dos outros ramos, não-militares, do poder. A guerra hoje, pode-se dizer [...] parece  ada vez mais uma “promoção do livre comércio por outros meios”. P. 19

No estágio fluido da modernidade, a maioria assentada é dominada pela elite nômade e extraterritorial. . Manter as estradas abertas para o tráfego nômade e tornar mais distantes as barreiras remanescentes tornou-se hoje o meta propósito da política. P. 20

Numa notável reversão da tradição milenar são os grandes e poderosos que evitam o durável e desejam o transitório, enquanto os da base da pirâmide – contra todas as chances – lutam desesperadamente para fazer suas frágeis, mesquinhas e transitórias posses durante mais tempo. Os dois se encontram hoje em dia principalmente nos lados opostos dos balcões das mega-liquidações ou de vendas de carros usados. P. 21

Se essas tendências entrelaçadas se desenvolvessem sem freios, homens e mulheres seriam reformulados no padrão da toupeira eletrônica, essa orgulhosa invenção dos tempos pioneiros da cibernética imediatamente aclamada como arauto do porvir: um plugue em castores atarantados na desesperada busca de tomadas a que se ligar. P. 22

Sentir-se livre das limitações, livre para agir conforme os desejos, a  imaginação e a capacidade de agir: sentimo-nos livres na medida em que a imaginação não vai mais longe que nossos desejos e que nem uma nem os outros ultrapassam nossa capacidade de agir. O equilíbrio pode, portanto, ser alcançado e mantido de duas maneiras diferentes: ou reduzindo os desejos e/ou a imaginação, ou ampliando nossa capacidade de ação. P. 24

Ameaça mais sombria atormentava o coração dos filósofos: que as pessoas pudessem simplesmente não querer ser livres e rejeitassem a perspectiva da libertação pelas dificuldades que o exercício da liberdade pode acarretar. P. 25

O que está errado com a sociedade em que vivemos [...] é que ela deixou de se questionar. É um tipo de sociedade que não reconhece qualquer alternativa para si mesma e, portanto, sente-se absolvida do dever de examinar, demonstrar, justificar (e que dirá provar) a validade de suas suposições tácitas e declaradas. P. 30

E o que o homem faz o homem pode desfazer. Ser moderno passou a significar, como significa hoje em dia, ser incapaz de parar e ainda menos capacidade de ficar parado. P. 37

A consumação está sempre no futuro, e os objetivos perdem sua atração e potencial de satisfação no momento de sua realização, se não antes. Ser moderno significa estar sempre à frente de si mesmo [...] também significa ter uma identidade que só pode existir como projeto não-realizado. A esse respeito, não há muito que distinga nossa condição da de nossos avós. P. 37

Se a modernidade original era pesada no alto, a modernidade de hoje é leve no alto, tendo se livrado dos seus deveres “emancipatórios”, exceto o dever de cedera questão da emancipação às camadas médias e inferior, às quais foi relegada a maior parte do peso da modernização contínua. P. 38

A “individualização” agora significa uma coisa muito diferente do que significava há cem anos e do que implica nos primeiros tempos da era moderna – os tempos da exaltada “emancipação” do homem da trama estreita da dependência, da vigilância e da imposição comunitárias. P. 40

Os “estamentos” enquanto lugares a que se pertencia por hereditariedade vieram a ser substituídos pelas “classes” como objetivo de pertencimento fabricado. Enquanto os estamentos eram uma questão de atribuição, o pertencimento ás classes era em grande medida uma realização [...] devia ser buscado, e continuamente renovado, reconfirmado e testado na conduta diária. P. 41

Não se engane: agora, como antes – tanto no estágio leve e fluido da modernidade quanto no sólido e pesado -  a individualização é uma fatalidade, não uma escolha. Na terra da liberdade individual de escolher, a opção de escapar à individualização está decididamente fora da jogada. P. 43

Como Beck adequada e pungentemente diz “a maneira como se vive torna-se uma solução biográfica das contradições sistêmicas”. Riscos e contradições continuam a ser socialmente produzidos; são apenas o dever e a necessidade de enfrenta-los que estão sendo individualizados. P. 43

Pode-se dizer que desde o começo são moldadas de tal maneira que lhes faltam interfaces para combinar-se com o problema das demais pessoas. P. 44

A única vantagem que a companhia de outros sofredores pode trazer á garantir a cada um deles que enfrentar os problemas solidariamente é o que todos fazem diariamente – e portanto renovar e encorajar a fatigada decisão de continuar a fazer o mesmo [...] como lidar com crianças que pensam que são adolescentes e adolescentes que se recusam a se tornar adultos; como pôr a gordura e outros “corpos estranhos” indesejáveis “para fora do sistema”; como livrar-se de um vício que não dá mais prazer ou de parceiros que não são mais satisfatórios. P. 45

O “público” é colonizado pelo “privado”; o “interesse público” é reduzido à curiosidade sobre as vidas privadas de figuras públicas e a arte da vida pública é reduzida à exposição pública das questões privadas e a confissões de sentimentos privados (quanto mais íntimos, melhor). As “questões públicas” que resistem a essa redução tornam-se quase incompreensíveis. P. 46

O que emerge no lugar das normas sociais evanescentes é o ego nu, atemorizado e agressivo a procura de amor e de ajuda. Na procura de si mesmo e de uma sociedade afetuosa, ele facilmente se perde na selva do eu... Alguém que tateia na bruma de seu próprio eu não é mais capaz de perceber que esse isolamento, esse “confinamento solitário do ego”, é uma sentença de massa. (BECK, p. 47)

O impulso modernizante, em qualquer de suas formas, significa a crítica compulsiva da realidade. A privatização do impulso significa a compulsiva auto-crítica nascida da desafeição perpétua: ser um indivídua de jure significa não ter ninguém a quem culpar pela própria miséria, significa não procurar as causas das próprias derrotas senão na própria indolência e preguiça, e não procurar outro remédio senão tentar com mais e mais determinação. P. 47-48

Nosso tempo é propício aos bodes expiatórios – sejam eles políticos que fazem de suas vidas privadas uma confusão, criminosos que se esgueiram nas ruas e nos bairros perigosos ou “estrangeiros entre nós”. P. 48

Quanto ao poder, ele navega para longe da rua e do mercado, das assembleias e dos parlamentos, dos governos locais e nacionais, para além do alcance e do controle dos cidadãos para a extraterritorialidade das redes eletrônicas. Os princípios estratégicos favoritos dos poderes existentes hoje em dia são fuga, evitação e descompromisso, e sua condição ideal é a invisibilidade. P. 50

Quanto menos um pensamento puder ser explicado em termos familiares, que façam sentido para os homens e mulheres imersos em sua busca diária da sobrevivência, tanto mais próximo fica dos padrões da humanidade; quanto menos puder ser justificado em termos de ganhos e usos tangíveis ou das etiquetas de preço afixadas a ele no supermercado ou na bolsa de valores, tanto maior seu valor humanizante. São a busca ativa do valor de mercado e a urgência do consumo imediato que ameaçam o genuíno valor do pensamento. P. 52

Como sempre, o trabalho do pensamento crítico é trazer a luz os muitos obstáculos que devem ser examinados urgentemente estão ligados ás crescentes dificuldades de traduzir os problemas privados em questões públicas, de condensar problemas intrinsecamente privados em interesses públicos que são maiores que a soma de seus ingredientes individuais. P. 63

O líder foi um produto não intencional e um complemento necessário, do mundo que tinha por objetivo a boa sociedade, ou a sociedade certa e apropriada, e procurava manter as alternativas impróprias à distância. P. 77

A autoridade amplia o números de seguidores, mas, no mundo de fins incertos e cronicamente subdeterminados, é o número de seguidores que faz – que é – a autoridade. P. 80

A autoridade da pessoa que compartilha sua história de vida pode fazer com que os expectadores observem o exemplo com atenção e aumenta os índices de audiência. Mas a falta de autoridade de quem conta a sua vida, o fato de ela não ser uma celebridade, sua anonimidade, pode fazer com que o exemplo seja mais fácil de seguir e assim ter um potencial adicional próprio. P. 80

O que quer que seja nomeado, inclusive os sentimentos mais secretos, pessoais e íntimos, só o é propriamente se os nomes escolhidos forem de domínio público, se pertencerem a uma linguagem compartilhada e pública e forem compreendidos pelas pessoas que se comunicam nessa linguagem. P. 81

O desejo se torna seu próprio propósito, e o único propósito não contestado e inquestionável. P. 86

[...] a compulsão transformada em vício de comprar é uma luta morro acima contra a incerteza aguda e enervante e contra um sentimento de insegurança incômodo e estupidificante. [...] mas estão também tentando escapar da agonia chamada insegurança. Querem estar, pelo menos uma vez, livres do medo do erro, da negligência ou da incompetência. Querem estar pelo menos uma vez, seguros, confiantes; e a admirável virtude dos objetos que encontram quando vão às compras é que eles trazem consigo [...] a promessa de segurança. P. 95-96

Ainda que possa ser algo mais, o comprar compulsivo é também um ritual feito à luz do dia para exorcizar as horrendas aparições da incerteza e da insegurança que assombram as noites. P. 96

Em vista da volatilidade e instabilidade intrínsecas de todas ou quase todas as identidades, é a capacidade de ir às compras no supermercado das identidades, o grau de liberdade genuína ou supostamente genuína de selecionar a própria identidade e de mantê-la enquanto desejado, que se torna o verdadeiro caminho para a realização das fantasias de identidade. Com essa capacidade, somos livres para fazer e desfazer identidades à vontade. Ou assim parece. P. 98

Sua dependência não se limita ao ato da compra. [...] A vida desejada tende a ser a vida vista na TV. A vida na telinha diminui e tira o charme da vida vivida: é a vida vivida que parece irreal, e continuará a parecer irreal enquanto não for remodelada na forma de imagens que possam aparecer na tela. P. 99

A vida moderna é tão completamente mediada por imagens eletrônicas que não podemos deixar de responder aos outros como se suas ações - e as nossas – estivessem sendo gravadas e transmitidas simultaneamente para uma audiência escondida, ou guardadas para serem assistidas mais tarde. (Lasch, p. 99)

O velho sentido de identidade se refere tanto a pessoas como a coisas. Ambas perderam sua solidez na sociedade moderna, sua definição e comunidade. A implicação é que, nesse universal desmanchar dos sólidos, a iniciativa está com as coisas; e, como as coisas são os ornamentos simbólicos das identidades e as ferramentas dos esforços de identificação, as pessoas logo as seguem. (Lasch, p. 99-100)

O capitalismo não entregou os bens as pessoas; pessoas foram crescentemente entregues aos bens; o que quer dizer que o próprio caráter e sensibilidade das pessoas foi reelaborado, reformulado, de tal forma que elas se agrupam aproximadamente... com as mercadorias, experiências e sensações... cuja venda é o que dá forma e significado a suas vidas. (SEABROOK, p. 100)

No mundo pós-moderno todas as distinções se tornam fluidas, os limites se dissolvem, e tudo pode muito bem parecer seu contrário; a ironia se torna a sensação perpétua de que as coisas poderiam ser um tanto diferentes, ainda que nunca fundamental ou radicalmente diferentes. A idade da ironia foi substituída pela idade do glamour, em que a aparência é consagrada como única realidade... A modernidade, assim, muda de um período do eu autêntico para um período do eu irônico e para uma cultura contemporânea do que poderia ser chamado de eu associativo – um afrouxamento contínuo dos laços entre a alma interior e a forma exterior da relação social... As identidades são assim oscilações contínuas. (FERGUSON, p. 102)

A chegada, o fim definitivo de toda escolha, parece muito mais tediosa e consideravelmente mais assustadora do que a perspectiva de que as escolhas de amanhã anulem as de hoje. Só o desejar é desejável – quase nunca sua satisfação. P. 103

 

Quanto maior liberdade na tela e quanto mais sedutoras as tentações que emanam das vitrines, e mais profundo o sentido da realidade empobrecida, tanto mais irresistível se torna o desejo de experimentar, ainda que por um momento fugaz, o êxtase da escolha. Quanto mais escolhas parecem ter os ricos, tanto mais a vida sem escolha parece insuportável para todos. P. 104

O que é novo é que são os assaltantes (juntamente com os vagabundos e outros desocupados, personagens estranhos aos lugar em que se movem) que levam agora a culpa, representando o diabo, os íncubos, maus espíritos, duendes, mau-olhado, gnomos malvados, bruxas ou comunistas embaixo da cama. P.109

Os eleitores e as elites [...] poderiam ter enfrentado a escolha de apoiar a política governamental para eliminar a pobreza, administrar a competição étnica e integrar todos em instituições públicas comuns. Escolheram em vez disso, comprar proteção, estimulando o crescimento da indústria da segurança privada. Outra resposta é a privatização e militarização do espaço público – fazendo das ruas, parques e mesmo lojas lugares mais seguros, mas menos livres. (ZUKIN, p. 110)

Usar uma máscara é a essência da civilidade. As máscaras permitem a sociabilidade pura, distantes das circunstâncias do poder, do mal-estar e dos sentimentos privados das pessoas que as usam. A civilidade tem como objetivo proteger os outros  de serem sobrecarregados com nosso peso. (SENETT, p. 112)

[...] espaços que as pessoas possam compartilhar como personae públicas -  sem serem instigadas, pressionadas ou induzidas a tirar as máscaras e deixar-se ir, expressar-se, confessar seus sentimentos íntimos e exibir seus pensamentos, sonhos e angústias. P. 112

As formas refinadas (modernizadas) da estratégia êmica são a separação espacial, os guetos urbanos, o acesso seletivo a espaços e o impedimento seletivo ao seu uso. P. 118

Um não lugar é um espaço destituído das expressões simbólicas de identidade, relações e história: exemplos incluem aeroportos, auto-estradas, anônimos quartos de hotel, transporte público... Jamais na história da humanidade os não-lugares ocuparam tanto espaço. P. 120

O vazio do lugar está no olho de quem vê e nas pernas ou rodas de quem anda. Vazios são os lugares em que não se entra e onde se sentiria perdido e vulnerável, surpreendido e um tanto atemorizado pela presença de humanos. P. 122

Há outros que são mais outros do que outros, os estrangeiros. Excluir pessoas como estrangeiras porque não somos mais capazes de conhecer o outro indica uma patologia social. (BENKO, p. 127)

Pode ser uma patologia, mas não uma patologia da mente que tenta em vão forçar um sentido para um mundo destituído de significado estável e confiável; é uma patologia do espaço público que resulta numa patologia da política: o esvaziamento  e a decadência da arte do diálogo e  da negociação, e a substituição do engajamento e mútuo comprometimento pelas técnicas do desvio e da evasão.  P. 127

Não fale com estranhos – outrora uma advertência de pais zelosos a seus pobres filhos – tornou-se preceito estratégico da normalidade adulta. P. 127

[...] as armas dos fortes são... classificação, delineamento, divisão. Os fortes dependem da correção do mapeamento, note-se que todas as armar arroladas são operações realizadas sobre o espaço. Pode-se dizer que a diferença entre os fortes e os fracos é a diferença entre um território formado como no do mapa – vigiado de perto e estritamente controlado – e um território aberto á invasão, ao redesenho das fronteiras e à projeção de novos mapas. P. 131-132

Quem manda são as pessoas que conseguem manter suas ações livres, sem normas, e portanto imprevisíveis, ao mesmo tempo em que regulam normativamente (rotinizando e portanto tornando monótonas, repetitivas e previsíveis) as ações dos protagonistas. Pessoas com as mãos livres mandam em pessoas com as mãos atadas; a liberdade das primeiras é a causa principal da falta de liberdade das últimas – ao mesmo tempo em que a falta de liberdade das últimas é o significado último da falta de liberdade das primeiras. (CROZIER, p. 138-139)

A escolha racional da era da instantaneidade significa buscar a gratificação evitando as consequências, e particularmente as responsabilidades que essas consequências podem implicar. P. 148

O advento da instantaneidade conduz a cultura e a ética a um território não mapeado e inexplorado, onde a maioria dos hábitos aprendidos para lidar com os afazeres da vida perdeu sua utilidade e sentido. P. 149

Os homens se parecem mais com seus tempos que com seus pais. (DEBORD, 149)

O progresso não enobrece ou eleva a história. O progresso é uma declaração da crença de que a história não conta e da resolução de deixa-la fora das contas. P. 152

Raramente se espera que o trabalho enobreça os que o fazem, fazendo deles seres humanos melhores, e raramente alguém é admirado ou elogiado por isso. A pessoa é medida e avaliada por sua capacidade de entreter e alegrar, satisfazendo não tanto a vocação ética do produtor e criador quando as necessidades e desejos estéticos do consumidor, que procura sensações e coleciona experiências. P. 161

Arrisco afirmar que o fenômeno da desigualdade entre as nações é de origem recente; é produto dos últimos dois séculos. (COHEN, p. 162). E assim também a ideia do trabalho como fonte de riqueza, e a política nascida dessa suposição e criada por ela. (COHEN, P. 162)

A rotina pode diminuir, mas pode também proteger; a rotina pode decompor o trabalho, mas pode também compor uma vida. [...] o ingrediente crucial da mudança múltipla é a nova mentalidade de curto prazo. [...] casamentos até que a morte nos separe estão decididamente fora de moda e se tornaram uma raridade: os parceiros não esperam mais viver muito tempo juntos. P. 169

Os medos, ansiedades e angústias contemporâneas são feitos para serem sofridos em solidão. P. 170

A velocidade de movimento se tornou um fator importante, talvez o principal, da estratificação social e da hierarquia da dominação. P. 173

A organização de negócios de hoje tem um elemento de desorganização deliberadamente embutido: quanto menos sólida e mais fluida, melhor. Como tudo o mais no mundo, o conhecimento não pode deixar de envelhecer rapidamente e assim é a recusa a aceitar o conhecimento estabelecido, a seguir os precedentes e a reconhecer a sabedoria das lições da experiência acumulada que é agora vista como preceito básico da eficácia e da produtividade. P. 177

Modernidade líquida. Tradução de Plínio Dentzien. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001. 258 p.

 

O fim do panóptico é o arauto do fim da era do engajamento mútuo: entre supervisores e supervisados, capital e trabalho, líderes e seguidores, exércitos em guerra. As principais técnicas do poder são agora a fuga, a astúcia, o desvio e a evitação, a efetiva rejeição de qualquer confinamento territorial. p. 18

A força militar e seu plano de guerra de “atingir e correr”, prefigura, incorpora e pressagia o que de fato está em jogo no novo tipo de guerra na era da modernidade líquida: não a conquista de novo território, mas a destruição das muralhas que impediam o fluxo dos novos e fluidos poderes globais; expulsar da cabeça do inimigo o desejo de formar suas próprias regras, abrindo assim o até então inacessível, defendido e protegido espaço para a operação dos outros ramos, não-militares, do poder. A guerra hoje, pode-se dizer [...] parece  ada vez mais uma “promoção do livre comércio por outros meios”. P. 19

No estágio fluido da modernidade, a maioria assentada é dominada pela elite nômade e extraterritorial. . Manter as estradas abertas para o tráfego nômade e tornar mais distantes as barreiras remanescentes tornou-se hoje o meta propósito da política. P. 20

Numa notável reversão da tradição milenar são os grandes e poderosos que evitam o durável e desejam o transitório, enquanto os da base da pirâmide – contra todas as chances – lutam desesperadamente para fazer suas frágeis, mesquinhas e transitórias posses durante mais tempo. Os dois se encontram hoje em dia principalmente nos lados opostos dos balcões das mega-liquidações ou de vendas de carros usados. P. 21

Se essas tendências entrelaçadas se desenvolvessem sem freios, homens e mulheres seriam reformulados no padrão da toupeira eletrônica, essa orgulhosa invenção dos tempos pioneiros da cibernética imediatamente aclamada como arauto do porvir: um plugue em castores atarantados na desesperada busca de tomadas a que se ligar. P. 22

Sentir-se livre das limitações, livre para agir conforme os desejos, a  imaginação e a capacidade de agir: sentimo-nos livres na medida em que a imaginação não vai mais longe que nossos desejos e que nem uma nem os outros ultrapassam nossa capacidade de agir. O equilíbrio pode, portanto, ser alcançado e mantido de duas maneiras diferentes: ou reduzindo os desejos e/ou a imaginação, ou ampliando nossa capacidade de ação. P. 24

Ameaça mais sombria atormentava o coração dos filósofos: que as pessoas pudessem simplesmente não querer ser livres e rejeitassem a perspectiva da libertação pelas dificuldades que o exercício da liberdade pode acarretar. P. 25

O que está errado com a sociedade em que vivemos [...] é que ela deixou de se questionar. É um tipo de sociedade que não reconhece qualquer alternativa para si mesma e, portanto, sente-se absolvida do dever de examinar, demonstrar, justificar (e que dirá provar) a validade de suas suposições tácitas e declaradas. P. 30

E o que o homem faz o homem pode desfazer. Ser moderno passou a significar, como significa hoje em dia, ser incapaz de parar e ainda menos capacidade de ficar parado. P. 37

A consumação está sempre no futuro, e os objetivos perdem sua atração e potencial de satisfação no momento de sua realização, se não antes. Ser moderno significa estar sempre à frente de si mesmo [...] também significa ter uma identidade que só pode existir como projeto não-realizado. A esse respeito, não há muito que distinga nossa condição da de nossos avós. P. 37

Se a modernidade original era pesada no alto, a modernidade de hoje é leve no alto, tendo se livrado dos seus deveres “emancipatórios”, exceto o dever de cedera questão da emancipação às camadas médias e inferior, às quais foi relegada a maior parte do peso da modernização contínua. P. 38

A “individualização” agora significa uma coisa muito diferente do que significava há cem anos e do que implica nos primeiros tempos da era moderna – os tempos da exaltada “emancipação” do homem da trama estreita da dependência, da vigilância e da imposição comunitárias. P. 40

Os “estamentos” enquanto lugares a que se pertencia por hereditariedade vieram a ser substituídos pelas “classes” como objetivo de pertencimento fabricado. Enquanto os estamentos eram uma questão de atribuição, o pertencimento ás classes era em grande medida uma realização [...] devia ser buscado, e continuamente renovado, reconfirmado e testado na conduta diária. P. 41

Não se engane: agora, como antes – tanto no estágio leve e fluido da modernidade quanto no sólido e pesado -  a individualização é uma fatalidade, não uma escolha. Na terra da liberdade individual de escolher, a opção de escapar à individualização está decididamente fora da jogada. P. 43

Como Beck adequada e pungentemente diz “a maneira como se vive torna-se uma solução biográfica das contradições sistêmicas”. Riscos e contradições continuam a ser socialmente produzidos; são apenas o dever e a necessidade de enfrenta-los que estão sendo individualizados. P. 43

Pode-se dizer que desde o começo são moldadas de tal maneira que lhes faltam interfaces para combinar-se com o problema das demais pessoas. P. 44

A única vantagem que a companhia de outros sofredores pode trazer á garantir a cada um deles que enfrentar os problemas solidariamente é o que todos fazem diariamente – e portanto renovar e encorajar a fatigada decisão de continuar a fazer o mesmo [...] como lidar com crianças que pensam que são adolescentes e adolescentes que se recusam a se tornar adultos; como pôr a gordura e outros “corpos estranhos” indesejáveis “para fora do sistema”; como livrar-se de um vício que não dá mais prazer ou de parceiros que não são mais satisfatórios. P. 45

O “público” é colonizado pelo “privado”; o “interesse público” é reduzido à curiosidade sobre as vidas privadas de figuras públicas e a arte da vida pública é reduzida à exposição pública das questões privadas e a confissões de sentimentos privados (quanto mais íntimos, melhor). As “questões públicas” que resistem a essa redução tornam-se quase incompreensíveis. P. 46

O que emerge no lugar das normas sociais evanescentes é o ego nu, atemorizado e agressivo a procura de amor e de ajuda. Na procura de si mesmo e de uma sociedade afetuosa, ele facilmente se perde na selva do eu... Alguém que tateia na bruma de seu próprio eu não é mais capaz de perceber que esse isolamento, esse “confinamento solitário do ego”, é uma sentença de massa. (BECK, p. 47)

O impulso modernizante, em qualquer de suas formas, significa a crítica compulsiva da realidade. A privatização do impulso significa a compulsiva auto-crítica nascida da desafeição perpétua: ser um indivídua de jure significa não ter ninguém a quem culpar pela própria miséria, significa não procurar as causas das próprias derrotas senão na própria indolência e preguiça, e não procurar outro remédio senão tentar com mais e mais determinação. P. 47-48

Nosso tempo é propício aos bodes expiatórios – sejam eles políticos que fazem de suas vidas privadas uma confusão, criminosos que se esgueiram nas ruas e nos bairros perigosos ou “estrangeiros entre nós”. P. 48

Quanto ao poder, ele navega para longe da rua e do mercado, das assembleias e dos parlamentos, dos governos locais e nacionais, para além do alcance e do controle dos cidadãos para a extraterritorialidade das redes eletrônicas. Os princípios estratégicos favoritos dos poderes existentes hoje em dia são fuga, evitação e descompromisso, e sua condição ideal é a invisibilidade. P. 50

Quanto menos um pensamento puder ser explicado em termos familiares, que façam sentido para os homens e mulheres imersos em sua busca diária da sobrevivência, tanto mais próximo fica dos padrões da humanidade; quanto menos puder ser justificado em termos de ganhos e usos tangíveis ou das etiquetas de preço afixadas a ele no supermercado ou na bolsa de valores, tanto maior seu valor humanizante. São a busca ativa do valor de mercado e a urgência do consumo imediato que ameaçam o genuíno valor do pensamento. P. 52

Como sempre, o trabalho do pensamento crítico é trazer a luz os muitos obstáculos que devem ser examinados urgentemente estão ligados ás crescentes dificuldades de traduzir os problemas privados em questões públicas, de condensar problemas intrinsecamente privados em interesses públicos que são maiores que a soma de seus ingredientes individuais. P. 63

O líder foi um produto não intencional e um complemento necessário, do mundo que tinha por objetivo a boa sociedade, ou a sociedade certa e apropriada, e procurava manter as alternativas impróprias à distância. P. 77

A autoridade amplia o números de seguidores, mas, no mundo de fins incertos e cronicamente subdeterminados, é o número de seguidores que faz – que é – a autoridade. P. 80

A autoridade da pessoa que compartilha sua história de vida pode fazer com que os expectadores observem o exemplo com atenção e aumenta os índices de audiência. Mas a falta de autoridade de quem conta a sua vida, o fato de ela não ser uma celebridade, sua anonimidade, pode fazer com que o exemplo seja mais fácil de seguir e assim ter um potencial adicional próprio. P. 80

O que quer que seja nomeado, inclusive os sentimentos mais secretos, pessoais e íntimos, só o é propriamente se os nomes escolhidos forem de domínio público, se pertencerem a uma linguagem compartilhada e pública e forem compreendidos pelas pessoas que se comunicam nessa linguagem. P. 81

O desejo se torna seu próprio propósito, e o único propósito não contestado e inquestionável. P. 86

[...] a compulsão transformada em vício de comprar é uma luta morro acima contra a incerteza aguda e enervante e contra um sentimento de insegurança incômodo e estupidificante. [...] mas estão também tentanto escapar da agonia chamada insegurança. Querem estar, pelo menos uma vez, livres do medo do erro, da negligência ou da incompetência. Querem estar pelo menos uma vez, seguros, confiantes; e a admirável virtude dos objetos que encontram quando vão às compras é que eles trazem consigo [...] a promessa de segurança. P. 95-96

Ainda que possa ser algo mais, o comprar compulsivo é também um ritual feito à luz do dia para exorcizar as horrendas aparições da incerteza e da insegurança que assombram as noites. P. 96

Em vista da volatilidade e instabilidade intrínsecas de todas ou quase todas as identidades, é a capacidade de ir às compras no supermercado das identidades, o grau de liberdade genuína ou supostamente genuína de selecionar a própria identidade e de mantê-la enquanto desejado, que se torna o verdadeiro caminho para a realização das fantasias de identidade. Com essa capacidade, somos livres para fazer e desfazer identidades à vontade. Ou assim parece. P. 98

Sua dependência não se limita ao ato da compra. [...] A vida desejada tende a ser a vida vista na TV. A vida na telinha diminiu e tira o charme da vida vivida: é a vida vivida que parece irreal, e continuará a parecer irreal enquanto não for remodelada na forma de imagens que possam aparecer na tela. P. 99

A vida moderna é tão completamente mediada por imagens eletrônicas que não podemos deixar de responder aos outros como se suas ações - e as nossas – estivessem sendo gravadas e transmitidas simultaneamente para uma audiência escondida, ou guardadas para serem assistidas mais tarde. (Lasch, p. 99)

O velho sentido de identidade se refere tanto a pessoas como a coisas. Ambas perderam sua solidez na sociedade moderna, sua definição e comunidade. A implicação é que, nesse universal desmanchar dos sólidos, a iniciativa está com as coisas; e, como as coisas são os ornamentos simbólicos das identidades e as ferramentas dos esforços de identificação, as pessoas logo as seguem. (Lasch, p. 99-100)

O capitalismo não entregou os bens as pessoas; pessoas foram crescentemente entregues aos bens; o que quer dizer que o próprio caráter e sensibilidade das pessoas foi reelaborado, reformulado, de tal forma que elas se agrupam aproximadamente... com as mercadorias, experiências e sensações... cuja venda é o que dá forma e significado a suas vidas. (SEABROOK, p. 100)

No mundo pós-moderno todas as distinções se tornam fluidas, os limites se dissolvem, e tudo pode muito bem parecer seu contrário; a ironia se torna a sensação perpétua de que as coisas poderiam ser um tanto diferentes, ainda que nunca fundamental ou radicalmente diferentes. A idade da ironia foi substituída pela idade do glamour, em que a aparência é consagrada como única realidade... A modernidade, assim, muda de um período do eu autêntico para um período do eu irônico e para uma cultura contemporânea do que poderia ser chamado de eu associativo – um afrouxamento contínuo dos laços entre a alma interior e a forma exterior da relação social... As identidades são assim oscilações contínuas. (FERGUSON, p. 102)

A chegada, o fim definitivo de toda escolha, parece muito mais tediosa e consideravelmente mais assustadora do que a perspectiva de que as escolhas de amanhã anulem as de hoje. Só o desejar é desejável – quase nunca sua satisfação. P. 103

 

Quanto maior liberdade na tela e quanto mais sedutoras as tentações que emanam das vitrines, e mais profundo o sentido da realidade empobrecida, tanto mais irresistível se torna o desejo de experimentar, ainda que por um momento fugaz, o êxtase da escolha. Quanto mais escolhas parecem ter os ricos, tanto mais a vida sem escolha parece insuportável para todos. P. 104

O que é novo é que são os assaltantes (juntamente com os vagabundos e outros desocupados, personagens estranhos aos lugar em que se movem) que levam agora a culpa, representando o diabo, os íncubos, maus espíritos, duendes, mau-olhado, gnomos malvados, bruxas ou comunistas embaixo da cama. P.109

Os eleitores e as elites [...] poderiam ter enfrentado a escolha de apoiar a política governamental para eliminar a pobreza, administrar a competição étnica e integrar todos em instituições públicas comuns. Escolheram em vez disso, comprar proteção, estimulando o crescimento da indústria da segurança privada. Outra resposta é a privatização e militarização do espaço público – fazendo das ruas, parques e mesmo lojas lugares mais seguros, mas menos livres. (ZUKIN, p. 110)

Usar uma máscara é a essência da civilidade. As máscaras permitem a sociabilidade pura, distantes das circunstâncias do poder, do mal-estar e dos sentimentos privados das pessoas que as usam. A civilidade tem como objetivo proteger os outros  de serem sobrecarregados com nosso peso. (SENETT, p. 112)

[...] espaços que as pessoas possam compartilhar como personae públicas -  sem serem instigadas, pressionadas ou induzidas a tirar as máscaras e deixar-se ir, expressar-se, confessar seus sentimentos íntimos e exibir seus pensamentos, sonhos e angústias. P. 112

As formas refinadas (modernizadas) da estratégia êmica são a separação espacial, os guetos urbanos, o acesso seletivo a espaços e o impedimento seletivo ao seu uso. P. 118

Um não lugar é um espaço destituído das expressões simbólicas de identidade, relações e história: exemplos incluem aeroportos, auto-estradas, anônimos quartos de hotel, transporte público... Jamais na história da humanidade os não-lugares ocuparam tanto espaço. P. 120

O vazio do lugar está no olho de quem vê e nas pernas ou rodas de quem anda. Vazios são os lugares em que não se entra e onde se sentiria perdido e vulnerável, surpreendido e um tanto atemorizado pela presença de humanos. P. 122

Há outros que são mais outros do que outros, os estrangeiros. Excluir pessoas como estrangeiras porque não somos mais capazes de conhecer o outro indica uma patologia social. (BENKO, p. 127)

Pode ser uma patologia, mas não uma patologia da mente que tenta em vão forçar um sentido para um mundo destituído de significado estável e confiável; é uma patologia do espaço público que resulta numa patologia da política: o esvaziamento  e a decadência da arte do diálogo e  da negociação, e a substituição do engajamento e mútuo comprometimento pelas técnicas do desvio e da evasão.  P. 127

Não fale com estranhos – outrora uma advertência de pais zelosos a seus pobres filhos – tornou-se preceito estratégico da normalidade adulta. P. 127

[...] as armas dos fortes são... classificação, delineamento, divisão. Os fortes dependem da correção do mapeamento, note-se que todas as armar arroladas são operações realizadas sobre o espaço. Pode-se dizer que a diferença entre os fortes e os fracos é a diferença entre um território formado como no do mapa – vigiado de perto e estritamente controlado – e um território aberto á invasão, ao redesenho das fronteiras e à projeção de novos mapas. P. 131-132

Quem manda são as pessoas que conseguem manter suas ações livres, sem normas, e portanto imprevisíveis, ao mesmo tempo em que regulam normativamente (rotinizando e portanto tornando monótonas, repetitivas e previsíveis) as ações dos protagonistas. Pessoas com as mãos livres mandam em pessoas com as mãos atadas; a liberdade das primeiras é a causa principal da falta de liberdade das últimas – ao mesmo tempo em que a falta de liberdade das últimas é o significado último da falta de liberdade das primeiras. (CROZIER, p. 138-139)

A escolha racional da era da instantaneidade significa buscar a gratificação evitando as consequências, e particularmente as responsabilidades que essas consequências podem implicar. P. 148

O advento da instantaneidade conduz a cultura e a ética a um território não mapeado e inexplorado, onde a maioria dos hábitos aprendidos para lidar com os afazeres da vida perdeu sua utilidade e sentido. P. 149

Os homens se parecem mais com seus tempos que com seus pais. (DEBORD, 149)

O progresso não enobrece ou eleva a história. O progresso é uma declaração da crença de que a história não conta e da resolução de deixa-la fora das contas. P. 152

Raramente se espera que o trabalho enobreça os que o fazem, fazendo deles seres humanos melhores, e raramente alguém é admirado ou elogiado por isso. A pessoa é medida e avaliada por sua capacidade de entreter e alegrar, satisfazendo não tanto a vocação ética do produtor e criador quando as necessidades e desejos estéticos do consumidor, que procura sensações e coleciona experiências. P. 161

Arrisco afirmar que o fenômeno da desigualdade entre as nações é de origem recente; é produto dos últimos dois séculos. (COHEN, p. 162). E assim também a ideia do trabalho como fonte de riqueza, e a política nascida dessa suposição e criada por ela. (COHEN, P. 162)

A rotina pode diminuir, mas pode também proteger; a rotina pode decompor o trabalho, mas pode também compor uma vida. [...] o ingrediente crucial da mudança múltipla é a nova mentalidade de curto prazo. [...] casamentos até que a morte nos separe estão decididamente fora de moda e se tornaram uma raridade: os parceiros não esperam mais viver muito tempo juntos. P. 169

Os medos, ansiedades e angústias contemporâneas são feitos para serem sofridos em solidão. P. 170

A velocidade de movimento se tornou um fator importante, talvez o principal, da estratificação social e da hierarquia da dominação. P. 173

A organização de negócios de hoje tem um elemento de desorganização deliberadamente embutido: quanto menos sólida e mais fluida, melhor. Como tudo o mais no mundo, o conhecimento não pode deixar de envelhecer rapidamente e assim é a recusa a aceitar o conhecimento estabelecido, a seguir os precedentes e a reconhecer a sabedoria das lições da experiência acumulada que é agora vista como preceito básico da eficácia e da produtividade. P. 177

[...] as comunidades explosivas são uma característica tão indispensável da paisagem da modernidade líquida [...] O admirável mundo novo de Huxley tomou emprestado ao 1984 de Orwell o estratagema dos cinco minutos de ódio (coletivizado), complementando-o esperta e engenhosamente com o expediente de cinco minutos de adoração. [...] A cada dia, as manchetes de primeira página da imprensa e dos cinco primeiros minutos da TV acenam com novas bandeiras sob as quais reunir-se e marchar ombro (virtual) a ombro. [...] Oferecem um objetivo comum (virtual) em torno do qual comunidades virtuais podem se entrelaçar, alternadamente atraídas e repelidas pelas sensações sincronizadas de pânico (às vezes moral, mas geralmente imoral ou amoral) e êxtase. P. 229

Um efeito das [...] comunidades de carnaval é que elas eficazmente impedem a condensação de comunidades genuínas (compreensivas e duradouras). P. 230

Para operar no mundo (por contraste a ser operado por ele) é preciso entender como o mundo opera. P. 242

Fazer sociologia e escrever sociologia têm por objetivo revelar a possibilidade de viver em conjunto de modo diferente, com menos miséria ou sem miséria: essa possibilidade diariamente subtraída, subestimada e não percebida. Não enxergar, não procurar e assim suprimir essa possiblidade é parte da miséria humana e fator importante em sua perpetuação. P. 246

 

 

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