Um livro é um mudo que fala, um surdo que responde, um cego que guia, um morto que vive. (Padre Antônio Vieira)

sábado, 28 de março de 2015

O Paraguai e o golpe

Você verá poucos meios brasileiros comentarem sobre a perseguição a jornalistas no Paraguai, muito diferente da cobertura sobre os países latinos que ousam romper com a hegemonia midiática de algumas empresas, seja com Lei de Meios ou apoio a criação de veículos alternativos ou comunitários, que possam mostrar outra visão do mundo. A SIP (Sociedade Interamericana de Imprensa), dedicada somente aos interesses dos empresários da mídia, se cala diante de casos como o que mostraremos abaixo, mas o nosso blog não, e também se solidariza com Paulo López, razão pela qual solicitamos esta colaboração especial a Mariana Serafini, uma das jornalistas brasileiras que melhor conhece o Paraguai, além de ser editora de Movimentos do Portal Vermelho, e uma profissional comprometida com questões sociais dos povos da América Latina. Em seu relato, podemos observar no que o país se transformou após o golpe de Estado e posterior chegada ao poder de Horacio Cartes, um dos articuladores da derrubada de Fernando Lugo, com especial foco no tema da liberdade de expressão e na situação que vivem os jornalistas que se dedicam a denunciar as injustiças sociais.

Violação aos Direitos Humanos e censura, a política do governo Cartes

Por Mariana Serafini

Paulo López tem vinte e poucos anos, milhares de sonhos e um comprometimento notável com as questões sociais. Trata-se de um jovem que estudou Filosofia na Universidade Nacional de Assunção (UNA) e escolheu dar ênfase na grade de Jornalismo. Leva uma vida modesta, trabalha no lugar onde muitos jovens gostariam de estar no Paraguai, no portal de notícias E'a, um veículo alternativo, íntegro e comprometido com a verdade.

O jornalista paraguaio Paulo López, quando foi preso pela últuma vez, semanas atrás, enquanto tentava regressar ao seu país. O caso revela a forma como o Paraguai pós-Lugo persegue jornalistas que criticam o atual governo. (Foto: Agência E'a)

O jornalista paraguaio Paulo López, quando foi preso pela últuma vez, semanas atrás, enquanto tentava regressar ao seu país. O caso revela a forma como o Paraguai pós-Lugo persegue jornalistas que criticam o atual governo. (Foto: Agência E'a)

Conheci Paulo em uma situação bastante peculiar, nos encontramos no espaço de visitas da penitenciária de Tacumbú, em Assunção. Isso mostrou, imediatamente, que tínhamos algumas coisas em comum, entre elas o comprometimento com as questões sociais. Estávamos lá para visitar os presos políticos de Curuguaty, fizemos nossas entrevistas e ao sair conversamos um pouco, ele repórter do E'a, eu freelancer. Desde então trocamos alguns e-mails e sempre que possível colaboramos com reportagens um do outro em nossos respectivos países.

Há tempos não via Paulo na internet, e sabendo da situação em que se encontra o Paraguai – o país passa por um período brutal de violação aos Direitos Humanos e perseguições – sabia que havia motivos para me preocupar. Enviei uma mensagem e não tive resposta. Há pouco mais de uma semana vi um comunicado do coletivo de Buenos Aires, Movimento 138, onde pediam ajuda para dar visibilidade à atual situação do jovem jornalista do E'a. Imediatamente entrei em contato, Paulo está em perigo.

Desde janeiro de 2014, quando uma grande manifestação contra o aumento da tarifa do transporte coletivo balançou o Paraguai, Paulo vem sendo perseguido por policiais. Na ocasião, o oficial Edgar Galeano impediu o jornalista de realizar seu trabalho de cobertura das manifestações e apreendeu sua câmera, uma dessas pequenas que as famílias costumam levar em viagens, a mesma que ele havia usado para registrar nossa visita ao Tacumbú.

De lá pra cá, Paulo vem sendo constantemente importunado por policiais, diversas vezes foi preso por exercer a profissão e se posicionar claramente em favor do povo, e não do governo de Horácio Cartes. Eu, do lado de cá da fronteira, diversas vezes via notícias sobre as prisões, agressões e perseguições, percebi que a coisa do lado de lá não iam bem.

Recentemente Paulo viajou para fora do país e ao tentar ingressar novamente, pela Argentina, foi detido, teve seus documentos e ferramentas de trabalho apreendidos, foi torturado e passou alguns dias preso. O mesmo policial das manifestações, Edgar Galeano, estava envolvido nesta operação novamente. Por motivos de segurança, Paulo se afastou do E'a, num país onde o Estado de Direito é exceção, jornalistas não são ameaçados duas vezes, na segunda morrem.

Para dar visibilidade a este caso o Movimento 138 realiza uma campanha de solidariedade a Paulo, para participar basta enviar um e-mail para movimiento138@gmail.com com o título "Eu me solidarizo com Paulo". O objetivo é dar visibilidade a esta questão e proteger o jornalista que está sendo sistematicamente perseguido pelo Estado paraguaio por desempenhar sua profissão.

Vários departamentos (estados) do Norte do Paraguai vivem em Estado de Exceção desde que a Lei de Militarização foi aprovada pelo presidente Horácio Cartes e entrou em vigor. A polícia persegue e reprime os movimentos sociais, os líderes camponeses e agora também os jornalistas que tentam dar voz a esses grupos. A questão é urgente e latente. O Estado paraguaio persegue e oprime. Paulo está em perigo.


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