Um livro é um mudo que fala, um surdo que responde, um cego que guia, um morto que vive. (Padre Antônio Vieira)

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Belo Horizonte, capital do terror durante a ditadura militar│

Belo Horizonte, capital do terror durante a ditadura militar│Livro desnuda o DNA do terrorismo de direita em Minas.
O dossiê escrito por Betinho Duarte elenca mais de 100 atentados terroristas feitos pela direita em Minas Gerais desde 1961, quando o jornal Binômio foi empastelado, até 1995. "Belo Horizonte é a capital dos atentados de direita", enfatiza o autor.

O livro, que será distribuído gratuitamente, foi coordenado pelo jornalista Fernando Miranda e contou com apoio cultural da Cemig. Colaboraram com textos vários jornalistas, cientistas sociais e políticos. O ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas Paulo Lott escreveu sobre os atentados sofridos pela Casa do Jornalista. A educadora Samira Zaidan, ex-presidente do Diretório Central dos Estudantes (DCE) da UFMG, escreveu sobre os atentados que atingiram o movimento estudantil.

No trabalho, Betinho consolidou um levantamento iniciado em 1978, quando era diretor da sucursal belo-horizontina do Em Tempo. "O livro apresenta ao leitor fatos e episódios desconhecidos de nossa história recente, relatados com humor e pitadas de sarcasmo", informa o autor, acrescentando que o dossiê faz uma analogia entre o passado e o presente. Um dos textos, "Fascismo hoje e ontem", é assinado pelo sociólogo Otávio Dulci.

Participam também do livro, além dos citados, Patrus Ananias, Durval Ângelo, Aloísio Morais, Geraldo Elísio Machado Lopes, Gilney Viana, Bizoca Greco, Ivan Cláudio Marx, José Carlos Alexandre, José Maria Rabêlo, Juarez Guimarães, Manoel Conegundes, Márcio Metzker, Otaviano Lage, Regina Helena Alves Silva, Robinson Ayres Pimenta, Zélia Castilho Rogedo e Emamuel de Oliveira César.


DITADURA NUNCA MAIS
Num momento em que grupos políticos de extrema-direita vão às ruas, nas principais capitais brasileiras defender a volta da ditadura, o livro organizado pelo ativista dos direitos humanos e ex-vereador em Belo Horizonte, Betinho Duarte, mostra-se não só necessário como oportuno.

"Estamos vivos. A volta será pior. O DNA do terrorismo de direita em Minas", título da publicação, foi lançado na sexta-feira (28/08) durante ato público no Sindicato dos Jornalistas de Minas Gerais, oportunidade em que foram homenageados os militantes de esquerda Ângelo Pezzuti, Gildo Macedo Lacerda e José Carlos Mata Machado, mortos em 1973, vítimas do golpe civil-militar no Brasil.

Para viabilizar o livro, Betinho Duarte fez uma espécie de mergulho em sua própria militância e contou também com a participação de 19 pessoas que tiveram atuação destacada na luta contra a ditadura, a exemplo de Juarez Guimarães, José Maria Rabelo, Samira Zaidan, Paulo Lott, Aloísio Morais, Geraldo Elísio, Zélia Castilho Rogedo e Otávio Dulci. Neste mergulho, Betinho teve uma desconcertante surpresa. "Descobri que, naquela época, eu estivera no meio de um grande furação. Isto porque torturadores, terroristas, generais de pijama – ou sem, estavam contra a 'abertura' pregada pelo ditador Figueiredo e seu guia-mor, Golbery do Couto e Silva. E fizeram de tudo para que essa abertura não acontecesse". É exatamente a historia desta luta contra a ditadura que ele e os demais relatam e analisam.

Na década de 1970, como diretor das sucursais dos jornais alternativos Movimento e Em Tempo e também presidente do Comitê Brasileiro Pela Anistia, Betinho não se deixou intimidar pelos vários atentados terroristas que aconteceram em Minas Gerais, a exemplo do que foi alvo o jornal Em Tempo. Até porque, atentados contra jornais não eram novidade em Minas, como prova o que aconteceu com o semanário Binômio, dirigido por José Maria Rabelo, antes mesmo da vitória do golpe de 1964.

Apesar da luta sem tréguas de Betinho Duarte e de todos os integrantes do Comitê Mineiro pela Anistia, os responsáveis pelo terrorismo em Minas Gerais nunca foram punidos. Motivo pelo qual o deputado estadual Durval Ângelo (PT), vice-presidente da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa de Minas Gerais, considera que "esta é uma ferida ainda aberta em nossa história que muitos prefeririam manter encoberta".

Um dos textos mais instigantes deste livro é o do cientista político Juarez Guimarães, que procura entender as razões pelas quais "Belo Horizonte foi a capital do terror na ditadura militar". A título de exemplo, ele lembra que entre 1961 e 1995, aconteceram cerca de 114 atentados terroristas, sendo que em Belo Horizonte o número foi bem maior do que em qualquer outra cidade do Brasil. A hipótese central de Juarez Guimarães é que a violência na capital mineira foi maior exatamente porque aqui desenvolvia-se de forma muito intensa a luta em prol da anistia. Luta que mantinha uma relação intima com a vigorosa ascensão dos movimentos democrático-populares. Em outras palavras, estava-se construindo publicamente uma hegemonia dos princípios da Justiça de transição críticos à pactuação negociada entre a ditadura e os setores liberais-conservadores, que dirigiam nacionalmente a oposição parlamentar ao regime.

É importante salientar que nos final dos anos 1970, Belo Horizonte abrigava uma das maiores lideranças nacionais da luta pela anistia ampla, geral e irrestrita, Helena Greco, e sediava um dos Comitês Brasileiros de Anistia mais atuantes do pais, sob a direção de Betinho Duarte. E é este movimento vigoroso em prol da anistia ampla, geral e irrestrita que vai se tornar, naqueles anos, o alvo central dos ataques dos terroristas.

Ao contrário de países como a Argentina, onde um consistente trabalho de recuperação da memória e da verdade foi e continua sendo colocado em prática pelos governos de Néstor e Cristina Kirchner, com o julgamento e a condenação à prisão de mais de uma centena de militares e agentes da ditadura que cometerem violações contra os direitos humanos entre 1973 e 1985, no Brasil a democracia continua pagando um alto preço por não ter publicamente repudiado a impunidade da ditadura. Em que pese críticas que setores de direita tenham em relação aos governos do casal Kirchner, nenhum deles teve coragem de se apresentar publicamente em defesa do retorno da ditadura. Mais ainda: se o fizesse, seria alvo de uma indignação sem tamanho que os levaria a processos e prisões, tal o compromisso assumido pelos argentinos com a democracia.

Razão pela qual este livro é tão importante, pois cumpre a função de impedir que a lembrança daqueles tempos sombrios se apague e permita que desinformados e mal-intencionados possam vir a público defender o indefensável.

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