Um livro é um mudo que fala, um surdo que responde, um cego que guia, um morto que vive. (Padre Antônio Vieira)

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Multinacional Chevron ganha prêmio de pior empresa do planeta


Segundo ONG, desde o início de suas ações de exploração na zona (1964) até agora, a Chevron tem o recorde de mais de 50 anos de uma prática imoral e anti-ética, que tem afetado, de maneira direta, as populações assentadas em províncias na selva equatoriana

26/01/2015

Sergio Ferrari*,

Da Suíça

A Declaração de Berna e o Greenpeace outorgaram à Chevron o "Prêmio Vergonha Superlativa". Os 64 mil votantes vía Internet elegeram a gigante petroleira estadunidense como a pior empresa do planeta, responsável, entre outras coisas, pelo desastre ecológico na selva virgem do norte do Equador. 

Esse premio, acordado na tarde da sexta-feira, 23 de janeiro, na cidade alpina helvética, é o de despedida do "Olho Público", após 15 anos de existência. O olhar cidadão, crítica contra o poder econômico e político mundial, considera que esse Foro não representa já o lugar mais adequado, nem o prêmio o método mais efetivo de denúncia. 

A partir de maio próximo, as organizações que promoveram até agora o "Olho Público", se lançarão com outras 50 associações de desenvolvimento, ecológicas, ambientais, de direitos humanos e sindicais, em uma campanha política em favor da Iniciativa Popular "Por multinacionais responsáveis". 

A mesma tentará com o apoio popular de dezenas de milhares de assinaturas, a aprovação de uma lei que obrigue as multinacionais helvéticas a respeitarem no estrangeiro – especialmente no Sul e no Leste – os direitos humanos e os estandartes meio ambientais, que devem cumplrir na Suíça mesmo.

Gigante "desumano" 

A organização Amazon Watch batizou a empresa Chevron, com sede em San Antonio, Estados Unidos da América do Norte, pelas contínuas e sistemáticas violações aos direitos humanos e ambientais na Amazônia norte do Equador. 

Segundo a ONG, desde o início de suas ações de exploração na zona (1964) até agora, a Chevron tem o recorde de mais de 50 anos de uma prática imoral e anti-ética, que tem afetado, de maneira direta, as populações assentadas nas províncias de Orellana e Sucumbíos, na selva equatoriana. 

A Amazon Watch recorda que a Chevron Corp. já foi sentenciada pela justiça do Equador a pagar 9,5 bilhões de dólares devido aos danos ambientais provocados por sua má operação, com impactos nefastos na saúde e no bem estar dos povos que habitam as zonas afetadas, ademais das implicações diretas para o aquecimento global e a destruição da Amazônia. 

"Apesar disso, ela tem usado todo o poder econômico e político para fugir da justiça mundial e colocar em andamento todo o sistema de impunidade frente ao abuso das transnacionais, o que tem levado os lutadores indígenas e camponeses equatorianos a recorrerem às Cortes da Argentina, Canadá, Brasil e, inclusive, à Corte Penal Internacional em Haia", lembra a organização acusadora.

Davos: entre o poder e a denúncia cidadã 

Muitos países destinam menos recursos públicos para educar as crianças dos segmentos mais pobres da população do que aos menores pertencentes às classes mais altas, revela um estudo do Fundo das Nações Unidas para a Infância. 

Em alguns casos, a destinação de fundos educativos aos 20% mais ricos chega a ser até 18 vezes maior do que os destinados aos 20% mais pobres, detalha o estudo recentemente elaborado e que foi apresentado no marco do Fórum Econômico Mundial de Davos, realizado na Suíça entre 21 e 24 de janeiro. Este Fórum reúne a cada ano os grandes patrões da economia mundial, assim como representantes de governos e instituições financeiras internacionais. 

O informe do Unicef defende um gasto mais equitativo na educação, chamando os governos a darem prioridade às necessidades das crianças mais marginalizadas. 

A diretora executiva adjunta do Unicef, Yoka Brandt, assinalou que, atualmente, há no mundo bilhões de crianças em idad de assistir ao primária ou secundário e que muitos deles não recebem uma educação de qualidade devido à pobreza, aos conflitos e à discriminação por questões de gênero, discapacidade ou etnicidade. 

"Para mudar essa situação necessitamos revisar a fundo nossas práticas, outorgando mais recursos e distribuindo-os igualitariamente", apontou. O Unicef indica que faltariam 26 bilhões de dólares para a provisão de educação universal básica em 46 países de renda baixa e alertou que, desde 2009, a assistência oficial à educação diminuiu 10%. Nesse sentido, urgiu governos, doadores e o setor privado a incrementar o gasto em educação e a garantir que os fundos sejam utilizados de maneira inteligente e equitativa.  

A concentração brutal da riqueza 

O documento crítico do Unicef se soma a outras vozes de denúncia sobre a má distribuição dos recursos naturais e da riqueza no mundo. 

Apenas horas antes de ser iniciada a 45ª edição do Fórum Econômico Mundial, a Oxfam Internacional apresentou às personalidades presentes em Davos um estudo que indica que, em 2016, 1% da população mundial acumulará mais riqueza do que os outros 99%. 

O Informe "Insaciável riqueza: sempre mais para os que já têm tudo" mostra que o patrimônio mundial que possui o 1% mais rico do planeta passou de 44%, em 2009, para 48 % em 2014, e superará 50% em 2016. Em 2014, cada membro adulto dessa elite internacional possuía em média 2,7 milhões de dólares. 

Esse pequeno grupo disporá de mais da metade do dinheiro do planeta a partir de 2016, em um marco internacional preocupante, no qual uma de cada nove pessoas carece hoje de alimentos suficientes e mais de 1 bilhão de pessoas vivem com menos de 1,25 dólar por dia.

No ano passado, um informe da Oxfam criou estupor em Davos. Revelava que as 85 pessoas mais ricas contavam com uma riqueza similar à metade mais pobre da população mundial. Em 2015, são 80 os multimilionários que têm o mesmo patrimônio que 3,5 bilhões de pessoas. É significativo recordar que, em 2010, tratavam-se de 388 multimilionários. Em termos absolutos, a riqueza das 80 pessoas mais enriquecidas do mundo duplicou entre 2009 e 2014, ressalta a Oxfam. 

A ONG internacional chama os Estados a adotarem um plano de sete pontos para lutarem contra as desigualdades crescentes. Entre as propostas: terminar com a evasão fiscal das grandes empresas e fortunas; investir em favor da gratuidade e da universalidade dos serviços públicos como a saúde e educação; repartir com justicia a carga fiscal; instaurar um salário mínimo e trabalhar em favor de um salário decente; instaurar uma legislação em favor da igualdade salarial; promover uma política de proteção social que favoreça os mais empobrecidos e internacionalizar e generalizar a luta contra a desigualdade. 

Sergio Ferrari, en colaboración con E-CHANGER/COMUNDO, organización helvética de cooperación solidaria integrante de la Asociación *Derecho sin Fronteras*.

*Texto retirado do site Adital.


http://www.brasildefato.com.br/node/31141

Livros FREE

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Por que Dilma escolheu a Bolívia e rejeitou a Suíça?

É fácil entender por que Dilma rejeitou o "sagrado" Fórum Econômico Mundial nos Alpes suíços para comparecer à posse do presidente reeleito Evo Morales, no altiplano da Bolívia

dilma posse evo morales bolívia
Além de Dilma, a posse de Evo Morales na Bolívia foi prestigiada por outros líderes mundiais e sul-americanos, como Tabaré Vázquez (sucessor de Mujica no Uruguai), Nicolás Maduro e Rafael Correa

Paulo Nogueira, DCM

Uma das tolices que estão sendo propagadas pelos suspeitos de sempre é que Dilma cometeu um desatino ao optar por ir à posse de Evo Morales na Bolívia e não a mais uma edição do Fórum Econômico Mundial, em Davos.

As críticas derivam de duas coisas. Uma é o preconceito em relação à Bolívia e Evo. Não há nada que se possa fazer a respeito. Augusto Nunes, o Brad Pitt de Taquaritinga, chama Evo de "Llama de Franja", e presume que está sendo espirituoso.

O segundo fator é a ignorância dos críticos em relação ao Fórum Econômico Mundial, que cobri duas vezes, já quando perdera o brilho.

O WEF, das iniciais em inglês, é agora uma espécie de Ilha de Caras da plutocracia global.

Teve num passado distante, quando a globalização era novidade, alguma relevância.

Nos dias de ouro, até estrelas do cinema como Angelina Jolie iam a Davos, nos Alpes suíços.

Não mais.

Agora, os organizadores têm que se contentar com subcelebridades como Paulo Coelho – sempre presente com tudo na faixa – para tentar promover o encontro.

O WEF, ao contrário do que muitos pensam, é um negócio privado e seu maior objetivo, longe de resolver os problemas do mundo, é proporcionar holofotes a seu dono, o alemão Klaus Schwab.

Como a Ilha de Caras vivia do prestígio de quem ia a ela, o WEF depende também dos políticos e empresários que se deslocam para Davos.

Tente encontrar Obama lá, por exemplo. Obama jamais foi ao WEF, e nenhum dos seus críticos encrencou com isso. Nem Bush compareceu uma única vez a Davos.

Clinton foi, em 2000. Mas estava se despedindo da presidência, e o WEF era um excelente lugar para arrumar palestras de 150 000 dólares ao redor do mundo.

Os líderes empresariais que vão ao WEF estão lá não por seu notório saber e charme inexcedível, mas porque pertencem a empresas patrocinadoras.

Você tem uma empresa e quer pontificar em Davos? Basta procurar o tesoureiro do WEF e verificar o preço de uma cota de patrocínio.

Hoje, 2015, Davos é, sobretudo, uma boca livre. Joaquim Levy provavelmente aproveitará os dois ou três dias lá para relaxar na paisagem deslumbrante de Davos.

É bom que ele relaxe mesmo porque, ao voltar, terá um trabalho duro pela frente.

Quanto a Dilma, fez a opção certa. Em vez de servir de escada para Schwab, foi para um compromisso em que teria a companhia de pessoas de quem gosta – e se livrou dos enfadonhos engravatados do WEC.

O resto, bem, o resto são choramingos de quem não tem a menor ideia do que seja Davos.

http://www.pragmatismopolitico.com.br/2015/01/por-que-dilma-escolheu-bolivia-e-rejeitou-suica.html

Que vergonha ein Brasil

Camisetas, calças e bermuda com símbolo da maconha foram recolhidos.
Outras três pessoas foram detidas nesta semana pelo mesmo crime.ACEBOOK

Polícia detém dono de loja por apologia às drogas (Foto: Diculgação / Polícia Militar)Polícia detém dono de loja por apologia às drogas
(Foto: Divulgação / Polícia Militar)

Uma operação da Força Tática da Polícia Militar apreendeu roupas com estampas de maconha no camelódromo de Marília (SP) na tarde de quinta-feira (22). O lojista que fazia a venda foi detido. Ele é a quarta pessoa apreendida nos últimos dias por fazer, segundo a polícia, apologia à droga.

Foram recolhidos pelos policiais 35 camisetas, sete calças e uma bermuda feminina. O proprietário da loja foi conduzido ao plantão policial, onde prestou depoimento e foi liberado

No fim de semana, duas adolescentes foram apreendidas por usarem camisetas com o símbolo da planta da maconha. Uma delas estava com uma porção de maconha. Elas foram levadas para a delegacia e liberadas na presença dos pais. A porção de maconha e as camisetas foram apreendidas.

Na terça-feira (20), um jovem de 26 anos foi detido por usar um boné com o mesmo símbolo. Ele foi preso por apologia às drogas, sem direito à fiança, já que tem passagem por tráfico e porte de entorpecentes.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Imbecil

Papa Francisco vira alvo dos fundamentalistas brasileiros

Extremistas da imprensa brasileira declaram guerra contra o Papa Francisco. Pontífice incomoda pelo discurso que afirma haver limites para a liberdade de expressão, além de condenar o machismo na sociedade atual e admitir os equívocos e crimes históricos da igreja. Se Francisco provoca a ira dos fundamentalistas, é sinal de que está certo

papa francisco mídia brasileira
O Papa Francisco não sabe (e se soubesse, provavelmente pouco se importasse), mas se transformou no alvo predileto dos fundamentalistas da imprensa brasileira (Imagem: AP/Gregorio Borgia)

Dois dias atrás, o papa Francisco fez declarações sensatas (relembre aqui) que, aos olhos de quatro fundamentalistas da imprensa brasileira, foram consideradas heréticas. "Não se pode ofender, ou fazer guerra, ou assassinar em nome da própria religião ou em nome de Deus", disse ele. "Acho que os dois são direitos humanos fundamentais, tanto a liberdade religiosa, como a liberdade de expressão", completou, antes de afirmar que "há, porém, um limite para a liberdade de expressão".

Foi o bastante para que quatro jihadististas, num movimento aparentemente concatenado, se unissem uma espécie de guerra santa contra o sumo pontífice. O primeiro foi Reinaldo Azevedo, ex-coroinha, que simplesmente mandou o papa calar a boca. Também sem nenhuma sofisticação, José Roberto Guzzo, diretor editorial de Veja, afirmou que o papa viajou na maionese, em entrevista… à Veja.

SAIBA MAIS: Papa Francisco critica sociedade machista em missa recorde para 6 milhões

Ricardo Noblat, do Globo, também usou uma metáfora para se referir ao caso. Disse que o papa Francisco "pisou feio na bola" (leia aqui). "Duvido que Francisco concorde com a morte como meio de se responder a uma ofensa. Mas foi a impressão que deixou", disse ele. Ou Noblat não leu o que o papa disse, ou foi mal-intencionado. Voltando à primeira declaração de Francisco, eis o que disse o pontífice: Não se pode ofender, ou fazer guerra, ou assassinar em nome da própria religião ou em nome de Deus".

Neste sábado, foi a vez de Guilherme Fiúza, também do Globo, que, para variar, misturou o assunto da semana com a política brasileira. "Talvez uma das figuras mais representativas deste momento esquisito seja o Papa Francisco. Sua Santidade tem provavelmente uma espécie de João Santana ao pé do ouvido, para soprar-lhe as últimas tendências do mercado", disse ele, condenando o que considerou uma defesa do Islã radical feita por Francisco.

Cartilha do Instituto Millenium

Nem todo mundo sabe, mas as famílias Civita e Marinho são sócias e mantenedoras do Instituto Millenium, um think tank criado para tentar organizar o "pensamento correto" da elite brasileira. É desse instituto, apoiado também por empresas como a Gerdau, que saem os Fiúzas, Mainardis, Magnolis, Guzzos, Constantinos e afins.

Pode-se imaginar que os quatro colunistas tenham tido a ideia simultânea de iniciar sua guerra santa contra o papa Francisco – hoje, uma das figuras mais populares e admiradas do mundo. Mas também não deve ser descartada a hipótese de uma blitz coordenada, como ocorreu em Paris com o ataque ao Charlie Hebdo e ao mercado judaico.

Se você não quiser refletir muito sobre as declarações do papa Francisco, nem é preciso. Basta olhar para quem levantou a voz contra suas declarações. Se os jihadistas da imprensa brasileira estão contra o papa, não tenha nenhuma dúvida: ele só pode estar certo.

Fwd: ecosol




quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Aécio nomeou desembargador que recebia dinheiro para soltar traficantes

Em reportagem de mais de 11 minutos, Rede Globo omitiu que desembargador que recebia dinheiro de traficantes foi nomeado por Aécio Neves


Tráfico de cocaína, familiares de Aécio e o aeroporto de Cláudio-MG

Desde o envolvimento direto do primo de Aécio Neves, passando por um laboratório de refino de pó em Cláudio-MG até o helicóptero dos Perrella. Entenda a polêmica da rota da cocaína em Minas Gerais: um escândalo que carece de investigação

aécio neves cocaína aeroporto helicóptero
As polêmicas de um escândalo com investigações pendentes. Aeroporto de Cláudio, helicóptero do pó e a rota do tráfico de drogas (Edição: Pragmatismo Político)

Uma distância de apenas 14 quilômetros separa os dois escândalos recentes da política nacional que envolvem dois senadores por Minas Gerais, o ex-presidente do Cruzeiro, Zezé Perrela (PDT) e o candidato a presidente Aécio Neves (PSDB).

A pista de pouso e decolagem construída durante o governo de Aécio Neves em Cláudio, no Centro-Oeste mineiro, em um terreno que pertenceu a fazenda do tio avô do candidato tucano fica distante 14 quilômetros de Sabarazinho, um povoado de Itapecerica, também no Centro-Oeste Mineiro, onde o helicóptero da empresa Limeira Agropecuária, da família do senador Zezé Perrela, fez uma parada para reabastecimento carregado com 445kg de pasta base de cocaína, em novembro do ano passado.

aeroporto aécio neves cocaína helicóptero

A parada em um ponto de Sabarazinho aconteceu três horas e meia antes da apreensão da aeronave por policiais militares e federais em um sítio em Afonso Cláudio, no Espírito Santo. O valor da carga é estimada em R$ 10 milhões, podendo multiplicar por dez com o refino. Segundo o inquérito da PF, o carregamento foi feito em Pedro Juan Cabalero, no Paraguai, e tinha como possível destino Amsterdam, na Holanda, o que configura tráfico internacional.

No dia 20 do mês passado, reportagem do jornalista Lucas Ferraz, da "Folha de S.Paulo", revelou que Aécio Neves construiu a pista na fazenda que pertenceu a seu tio-avô, além de ficar próxima a uma propriedade da família do candidato. Na última semana, Aécio Neves admitiu que já usou a pista, mesmo o espaço ainda não tendo sido homologado pela Agência Nacional de Aviação Civil.

VEJA TAMBÉM: Aécio Neves nomeou desembargador que recebia dinheiro para soltar traficantes

O investimento do governo mineiro para a construção da pista foi de R$ 14 milhões. Cláudio tem 25 mil habitantes e está distante 50 quilômetros de Divinópolis, onde já existia uma pista de pouso e decolagem.O cruzamento dos dois escândalos – do helicóptero e da pista – é comprovado pelos documentos considerados sigilosos do inquérito da Polícia Federal (PF), que este repórter teve acesso.

A PF constatou, com base no rastreamento do GPS do helicóptero e nas anotações do plano de vôo dos pilotos, ambos apreendidos e examinados pela perícia técnica, que o helicóptero carregado com quase meia tonelada de pasta base de cocaína parou em um ponto próximo ao povoado de Sabarazinho.

Segundo o inquérito da PF, no dia 24 de novembro de 2013, às 14h17, aproximadamente três horas e meia antes do helicóptero ser apreendido pela polícia no município de Afonso Cláudio, no Espírito Santo, a aeronave ficou parada por trinta minutos numa fazenda do povoado, onde duas pessoas aguardavam o pouso com galões de combustível.

A localidade fica a 14 quilômetros da pista de Cláudio e também das fazendas da família Tolentino, onde nasceu Risoleta Neves, esposa de Tancredo Neves e avó de Aécio Neves.O município de Cláudio chega, inclusive, a ser citado no inquérito na análise das mensagens telefônicas dos pilotos, que foram captadas pelas Estações de Rádio Base (ERB), que são os equipamentos que fazem a conexão entre os telefones celulares e a companhia telefônica.

Cidade de Cláudio tinha refino de cocaína

Uma informação publicada pelo portal G1 em novembro de 2013 revelou que a Polícia havia identificado e fechado um laboratório de refino de cocaína na cidade de Cláudio-MG. O local foi desarticulado após uma denúncia anônima e foram encontradas cocaína e maconha. Ninguém foi preso.

De acordo com reportagem da Folha de S.Paulo, parentes do senador Aécio Neves (PSDB-MG) ficavam com as chaves do aeroporto de Cláudio.

O primo de primeiro grau do senador tucano, Tancredo Tolentino, foi preso, junto com um desembargador nomeado pelo próprio Aécio, por vender liminares para tirar traficantes de droga da prisão (veja aqui).

Helicóptero do pó

O helicóptero do pó foi apreendido no dia 24 de novembro. Três dias depois, 27 de novembro, após a apreensão ganhar destaque na mídia, o proprietário da terra fez uma denúncia para a Polícia Militar de Divinópolis. Segundo a PM, tal denúncia foi feita de maneira "anônima". O proprietário afirma que avistou um helicóptero sobrevoando a região em baixa altitude e depois encontrou em suas terras 13 galões, de 20 litros cada, com substância semelhante a querosene.

Sabarazinho helicóptero aeroporto cláudio aécio neves
Distância entre o aeroporto de Cláudio e o povoado de Sabarazinho

Como o Boletim foi realizado após a apreensão do helicóptero, o delegado da Polícia Federal em Divinópolis, Leonardo Baeta Damasceno, afirma no inquérito não descartar o envolvimento de pessoas da região e recomenda uma diligência sigilosa no local.

Porém, ainda de acordo com o inquérito que esse repórter teve acesso a diligência não foi realizada. Em outra página do inquérito, o proprietário é inocentado sem explicação convincente, dessa vez por documento assinado pelo agente da PF, Rafael Rodrigo Pacheco Salaroli.

No final de abril, o copiloto do helicóptero dos Perrela confessou que estava com medo de morrer. "Estou acabado. Minha empresa quebrou e não consigo emprego", revelou José de Oliveira Júnior.

Toda a trama ainda carece de investigação mais aprofundada e é possível que muito pouco até agora tenha sido revelado.

SAIBA MAIS: Dono do helicóptero do pó ganhou 3 contratos sem licitação de Aécio Neves

informações de Leonardo Dupin, Brasil de Fato, Folha de S.Paulo e Jornal GGN

Médico brasileiro enviou mensagem para Joko Widodo pedindo o fuzilamento

É evidente que a mensagem do médico não teve influência nenhuma para o desfecho do caso e provavelmente sequer foi lida, mas a sua atitude sórdida suscita algumas questões macabras. O que leva alguém a torcer pelo fuzilamento de alguém, como se estivesse numa arquibancada acompanhando uma partida de futebol na expectativa de comemorar um gol? De onde surge a motivação para pedir a execução de um sujeito que tentou entrar com 13,5kg de cocaína em um outro país?

Será que o médico mineiro João Paulo Faria, que nas redes sociais e em seu blog faz questão de demonstrar todo o seu apreço pelo senador Aécio Neves, exigiria a mesma punição aos responsáveis pela carga de 500kg de cocaína encontrada dentro do helicóptero dos seus conterrâneos, os Perrella?

SAIBA MAIS: Aécio, o helicóptero dos Perrella e a rota da cocaína em Minas Gerais

Admirador de Rodrigo Constantino, crítico dos médicos cubanos e autor de um blog chamado 'Médico Liberal', João Paulo Faria não será capaz de diagnosticar a si próprio, mas está claro que sofre de indignação seletiva e falso moralismo.

Seus tuítes:

@JPauloMD: President @jokowi_do2, Mrs @dilmabr doesn't represent the will of the brazilians. We support the justice of Indonesia.

@JPauloMD: Presiden @jokowi_do2, @dilmabr tidak mewakili kehendak brazilians. Kami mendukung keadilan Indonesia.

Blogueira do Globo esculacha pobres em artigo espantoso

Silvia Pilz, colunista de O Globo, resolveu externar todo o seu nojo contra pobres em um texto que viralizou na internet e causou manifestações de repulsa nas redes sociais. Conteúdo é espantoso

Silvia Pilz globo pobres
A colunista de O Globo Silvia Pilz (reprodução)

Em artigo publicado na sua coluna de O Globo, a jornalista Silvia Pilz revela todo o seu nojo contra os pobres. Nele, Silvia descreve a relação entre pobres e saúde. Para a colunista, o pobre que frequenta consultórios médicos finge estar doente para se sentir em um cenário de novela. "O pobre quer ter uma doença" – como tireoide, é quase chique", diz. Silva afirma ainda que o principal objetivo do pobre é "procriar". Nas redes sociais, o texto provocou manifestações de repúdio. Confira abaixo a íntegra do texto:

O plano cobre

Todo pobre tem problema de pressão. Seja real ou imaginário. É uma coisa impressionante. E todos têm fascinação por aferir [verificar] a pressão constantemente. Pobre desmaia em velório, tem queda ou pico de pressão. Em churrascos, não. Atualmente, com as facilidades que os planos de saúde oferecem, fazer exames tornou-se um programa sofisticado. Hemograma completo, chapa do pulmão, ressonância magnética e etc. Acontece que o pobre – normalmente – alega que se não tomar café da manhã tem queda de pressão.

Como o hemograma completo exige jejum de 8 ou 12 horas, o pobre, sempre bem arrumado, chega bem cedo no laboratório, pega sua senha, já suando de emoção [uma mistura de medo e prazer, como se estivesse entrando pela primeira vez em um avião] e fica obcecado pelo lanchinho que o laboratório oferece gratuitamente depois da coleta. Deve ser o ambiente. Piso brilhante de porcelanato, ar condicionado, TV ligada na Globo, pessoas uniformizadas. O pobre provavelmente se sente em um cenário de novela.

Normalmente, se arruma para ir a consultas médicas e aos laboratórios. É comum ver crianças e bebês com laçarotes enormes na cabeça e tênis da GAP sentados no colo de suas mães de cabelos lisos [porque atualmente, no Brasil, não existem mais pessoas de cabelos cacheados] e barriga marcada na camiseta agarrada.

O pobre quer ter uma doença. Problema na tireoide, por exemplo, está na moda. É quase chique. Outro dia assisti um programa da Globo, chamado Bem-Estar. Interessantíssimo. Parece um programa infantil. A apresentadora cola coisas em um painel, separando o que faz bem e o que faz mal dependendo do caso que esteja sendo discutido. O caso normalmente é a dúvida de algum pobre. Coisas do tipo "tenho cisto no ovário e quero saber se posso engravidar". Porque a grande preocupação do pobre é procriar. O programa é educativo, chega a ser divertido.

Voltando ao exame de sangue, vale lembrar que todo pobre fica tonto depois de tirar o sangue. Evita trabalhar naquele dia. Faz drama, fica de cama.

Eu acho que o sonho de muitos pobres é ter nódulos. O avanço da medicina – que me amedronta a cada dia porque eu não quero viver 120 anos – conquistou o coração dos financeiramente prejudicados. É uma espécie de glamourização da doença. Faz o exame, espera o resultado, reza para que o nódulo não seja cancerígeno. Conta para a família inteira, mostra a cicatriz da cirurgia.

Acho que não conheço nenhuma empregada doméstica que esteja sempre com atacada da ciática [leia-se nervo ciático inflamado]. Ah! Eles também têm colesterol [leia-se colesterol alto] e alegam "estar com o sistema nervoso" quando o médico se atreve a dizer que o problema pode ser emocional.

O que me fascina é que o interesse deles é o diagnóstico.

O tratamento é secundário, apesar deles também apresentarem certo fascínio pelos genéricos.

Mesmo "com colesterol" continuam comendo pastel de camarão com catupiry [não existe um pobre na face da terra que não seja fascinado por camarão] e, no final de semana, todo mundo enche a cara no churrasco ao som de "deixar a vida me levar, vida leva eu" debaixo de um calor de 48 graus.

Pressão: 12 por 8

Como são felizes. Babo de inveja.

Boa sorte aos emigrantes!

Desejo aos emigrantes que tenham muita sorte, pois lá terão dificuldade para arrumarem empregos e problemas com a imigração. Terão que limpar suas próprias casas, lavar seus banheiros e fazer a própria comida

derrota aecio emigrantes vitoria dilma
(Imagem: Pragmatismo Político)

Cristina Luna*

Após 50 anos do golpe de 1964 e 29 anos depois do fim da ditadura, a nossa democracia avança aos tropeços, mas avança. Nosso sistema eleitoral é um dos mais eficientes do mundo e norte-americanos e europeus o analisam, a fim de resolver os seus problemas em época de eleições. Por isso, dói ver cidadãos brasileiros pregando impeachment logo depois do resultado e destilando ódio contra nordestinos, nortistas, pobres e negros.

Dizem que irão emigrar para os Estados Unidos ou Europa, talvez imaginando fundar uma comunidade a la Leblon, quem sabe presidida pelo Manoel Carlos…

Desejo a eles que emigrem e que tenham muita sorte, pois lá terão dificuldade para arrumarem empregos e problemas com a imigração. Terão que limpar suas próprias casas, lavar seus banheiros e fazer a própria comida. Talvez não tenham carros e nem montadores para os armários comprados nas lojas: terão que montá-los com as próprias mãos.

Talvez se surpreendam ao descobrirem que nesses países, desempregados e mais pobres recebem auxílio financeiro dos governos. Mesmo na Alemanha, uma das maiores potências capitalistas, há similares do bolsa família, pagos a indivíduos que não trabalham ou que exercem alguma atividade profissional, mas que têm renda reduzida.

Ah, existe também o dinheiro da criança: o "Kinder Geld".

Alerto também a esses brasileiros, que tenham cuidado: como já viveram os horrores dos fascismos e da Segunda Guerra esses países possuem leis contra a incitação ao ódio e têm a tolerância como um dos valores cultivados. Lá, a cidadania funciona melhor e os emigrados terão que lidar com isso.

Assim, gostaria muito que nós, brasileiros (os que votaram em Dilma e no Aécio), exercitássemos mais a tolerância e o respeito aos cidadãos e à democracia, que, ao meu ver, deve ser conservada e aprofundada, apesar da resistência de muitos patriotas que não conhecem sequer o significado de uma Res Pública.

*Cristina Luna é carioca, professora de História da Universidade do Estado da Bahia (UNEB) e colaboradora em Pragmatismo Político

Aos pobres, o direito à merda

Extrair água de fezes humanas é uma forma de erradicar a pobreza? Para além dessa "generosa contribuição", deve-se questionar as causas socioeconômicas responsáveis pela falta de água saudável para dois bilhões de pessoas. Afinal, uma tragédia como essa não começou hoje. O atual sistema econômico não teve nada a ver com isso? Quem, no mundo, mais compromete nascentes, polui, suja e contamina a água?

bill gates água fezes pobres
Bill Gates vai transformar excremento humano em água (reprodução)

Jacques Távora Alfonsin, IHU Unisinos

Bill Gates é uma das pessoas mais aclamadas pelas/os defensoras/os do sistema socioeconômico capitalista como exemplo e modelo da excelência desse sistema. O noticiário da última semana evidencia uma das razões surpreendentes para isso. Para Bill, a providência capaz de fornecer água saudável para mais de dois bilhões de pessoas pobres no mundo inteiro, sem acesso a um bem desse grau de necessidade humana, – conforme dados da sua própria Fundação – é aproveitar as próprias fezes. Financiou máquina adequada para isso e já há previsão de sua possível utilização no Senegal e na índia.

Aos muitos elogios que a sua "generosa contribuição" ao povo pobre tem sido feitos, para diminuir uma injustiça social responsável por doenças e epidemias em bilhões de pessoas, não se ouve quase nada sobre o evidente descalabro de ter-se chegado ao ponto de, para tomar um simples copo d'água, ter-se de aproveitar excremento humano. Ao que consta, como deve acontecer com a máquina do Bill, o inédito da sua lição ainda não conseguiu decantar toda a água das suas conseqüências para torná-las, no mínimo, palatáveis.

Porque parece fora de dúvida existir uma questão prévia inafastável para aceitar a lição dele. Que causas socioeconômicas têm sido responsáveis pela falta de água saudável para dois bilhões de pessoas pobres? Afinal, uma tragédia igual a essa não começou hoje. O sistema econômico representado pelo Bill não teve nada a ver com isso? Quem, no mundo, mais compromete nascentes, polui, suja e contamina a água?

O enfrentamento da pobreza, reduzido apenas aos seus efeitos, é uma fórmula certa de "sucesso" para quem o promove e de insucesso para quem dele é vítima. Um exemplo de repercussão universal, semelhante ao proposto pelo Bill envolvendo a água, pode ser lembrado como o da permanente crise de garantias, sofrida pelos direitos humanos fundamentais sociais, justamente os que, se fossem satisfeitas as necessidades humanas neles presentes (alimentação, moradia, saúde, etc…), atacariam as causas e não só os efeitos da pobreza e da miséria:

Em 1996, durante a Conferência do Habitat II, convocada pela ONU em Istambul, procurando discutir soluções nacionais e internacionais para garantir o direito de moradia a todas as pessoas, especialmente as mais pobres, um dos pontos mais polêmicos da documentação a ser enviada ao mundo, assinada pelos países lá representados, foi o de se alcançar consenso sobre se o direito à moradia poderia figurar aí como um direito já constituído ou não.

Ainda que a pressão externa dos movimentos populares e ONGs defensoras desse direito, paralelamente reunidos/as junto ao conclave, fosse muito forte – mesmo sem poder de voto – defendendo a posição de ele ser declarado como já constituído, não alcançaram sucesso. Na Agenda Habitat, capítulo II, parágrafo 13, ficou constando o reconhecimento (?) de que o direito à moradia "deve ser realizado progressivamente"…

Trata-se de uma redação apenas programática, portanto, e de execução futura sem prazo determinado para ser efetivada. A chamada progressividade para realização dos direitos sociais tem razões bastante discutíveis, para dizer o mínimo. Sabendo-se que esses dependem muito das administrações públicas, elas encontram nesse artifício uma saída para prorrogarem indefinidamente a efetividade das suas garantias, desrespeitando as prioridades que são devidas a esses direitos, por tão indispensáveis à vida de qualquer ser humano.

Há um esforço jurídico mundial no sentido de responder tais questões procurando dar a direitos sociais como o do acesso à água, à alimentação e à moradia, alguma forma de garantir-lhes a chamada justiciabilidade ou judiciabilidade, isto é, a possibilidade de serem reivindicados judicialmente. Isso já está acontecendo, por exemplo, com as ações judiciais propostas contra o Estado, relativas ao direito à saúde. Doenças necessitados de hospitalização inadiável, em regiões ou circunstâncias onde não há leitos disponíveis, acesso a remédios existentes somente no exterior, têm sido admitidas pelo Poder Judiciário.

Não falta base legal para isso, é bom lembrar. A Constituição Federal brasileira dispõe, por exemplo, de regras bem claras. No seus artigos 3º, inciso III (a erradicação da pobreza como fundamento da República), 23 inciso. X (competência da União, Estados e Municípios para "combater as causas da pobreza e os fatores de marginalização, promovendo a integração social dos setores desfavorecidos") e a Lei Complementar nº 111 de 2001 que criou um Fundo de Combate e erradicação da pobreza, com efeitos prorrogados por prazo indeterminado pela Emenda Constitucional nº 67, de 22 de dezembro de 2010, comprovam esse fato.

Mesmo assim, um objetivo de relevância como o da erradicação da pobreza, retirando efeito dessas normas, encontra obstáculos de toda a ordem para ser garantido. "Erradicar" a pobreza, como consta no inciso III do art. 3º da nossa Constituição, significa extrair pela raiz, eliminar as próprias causas dela como dispõe o art. 23, inciso X, ou seja, impedir até a possibilidade da sua criação e reprodução. Tanto para o poder econômico privado, contudo, sujeito a dar função social aos seus direitos, quanto para o Poder Público, só legitimado pela qualidade dos serviços prestados ao povo, isso dá muito mais trabalho do que simplesmente "podar" os efeitos daquelas causas.

E a poda, como se sabe, nas razões do poder econômico privado, procura justificar a sua suficiência, enfatizando apenas a liberdade de iniciativa, como se a função social que lhe é inerente não estivesse, igualmente, prevista em lei. Nas razões do Poder Público, a poda aparece pela resignada defesa das políticas compensatórias, seguindo uma tática de remendo: "vamos garantir alguma governabilidade. Se isso tiver de suportar alguma injustiça(?), a gente vê mais tarde".

No fundo, prevalecem as prioridades econômicas do capital, do tipo ilimitado lucro, concentração da riqueza, aumento da desigualdade social. não pela erradicação.

Ignacio Ellacuria, o reitor da UCA e mártir da defesa das/os pobres em El Salvador, por nós já lembrado em outras oportunidades neste espaço de opinião, fundava a possibilidade fática de se viabilizar meta tão ambiciosa como essa de erradicar a pobreza, no que ousou chamar de civilização da pobreza, baseada numa transformação radical da economia do mundo todo, atacando o "pecado" do capital e promovendo a "salvação" das suas vítimas. Em "A civilização da pobreza" (São Paulo: Paulinas, 2014) há quem lembre aquele pensador jesuíta:

"A civilização da pobreza é assim denominada em contraposição à civilização da riqueza, e não porque pretenda a pauperização universal como ideal de vida (…) O que aqui se quer sublinhar é a relaç~çao dialética riqueza-pobreza, e não a pobreza em si mesma. Em um mundo configurado pecaminosamente pelo dinamismo capital-riqueza, mister se faz suscitar um dinamismo diferente, que o supere salvificamente". Essa nova civilização está baseada em dois pilares: identificação e impulso de um novo motor fundamental da história sob um princípio de humanização:

"Na civilização da riqueza, o motor da história é o acúmulo do capital, e o princípio de (des)humanização é a posse-desfrute da riqueza. Na civilização da pobreza, o motor da história – as vezes chamado de princípio de desenvolvimento – é a satisfação universal das necessidades básicas e o princípio de humanização é a elevação da solidariedade partilhada."

Civilização da pobreza, satisfação universal de necessidades básicas, solidariedade partilhada? Para os ouvidos do capital isso é muito mais escandaloso do que extrair a água da merda, mas certamente é preferível à civilização baseada no excremento social que ele mesmo produz, reproduz e quer nos fazer beber como se fosse água boa.

Cantor Roger xinga jornalista e debocha de perseguidos pela ditadura

Vocalista do "Ultraje a Rigor" critica Marcelo Rubens Paiva, que teve o pai assassinado durante a ditadura: "Seu bosta". Cantor afirmou ainda que quem foi perseguido pelo regime militar é porque "fazia merda"

roger ultraje marcelo rubens paiva
Roger Moreira ataca Marcelo Rubens Paiva no twitter por comentário na Flip (Edição: Pragmatismo Político)

O vocalista Roger Moreira, do Ultraje a Rigor, usou o Twitter para atacar o jornalista e escritor Marcelo Rubens Paiva, que há dez dias citou o líder do Ultraje durante uma participação na 12ª Flip (Feira Literária Internacional de Paraty), em Paraty (RJ).

Paiva, que participava de uma mesa sobre os 50 anos do golpe militar, lamentou o fato de muitas pessoas não saberem sobre a ditadura que comandou o Brasil por mais de duas décadas. O escritor citou Roger como exemplo, questionando que se até o roqueiro, que antes escrevia músicas a respeito do movimento das Diretas Já e críticas ao regime militar, hoje se converteu ao conservadorismo, o que esperar de muitos jovens que não têm acesso à informação sobre o tema?

"É compreensível que você considere o comunismo legal. Mas daí a me usar de exemplo na Flip foi canalha de sua parte. E errado", escreveu Roger, em mensagem que foi posteriormente deletada no Twitter nesta terça-feira.

VEJA TAMBÉM:
A guinada conservadora dos roqueiros dos anos 80
Vergonha alheia: cantor Roger bate recorde brasileiro de idiotice

Irritado, o músico seguiu rebatendo as observações de Paiva e também publicou ofensas contra o jornalista. "E tem mais, seu bosta: minha família não foi perseguida pela ditadura. Porque não estava fazendo merda", concluiu.

Desaparecimento de Rubens Paiva

O jornalista Marcelo Rubens Paiva é filho do engenheiro civil e político brasileiro Rubens Paiva, desaparecido na época da ditadura militar.

Em um dos mais importantes e verossímeis depoimentos já prestados por agentes da ditadura, o coronel reformado Paulo Malhães confessou ter desenterrado em 1973 a ossada do desaparecido político Rubens Paiva.

No testemunho, o veterano da repressão também afirmou que ele e seus parceiros cortavam os dedos das mãos, arrancavam a arcada dentária e extirpavam as vísceras de presos políticos mortos sob tortura antes de jogar os corpos em rio onde jamais viriam a ser encontrados.

Ostracismo

Roger Moreira e sua banda caíram no ostracismo musical e não conseguiram emplacar mais nenhum sucesso desde meados da década de 90. O cantor, que se refere a Dilma Rousseff como 'terrorista' e dedica a maior parte do seu tempo para alardear na internet sobre os perigos da 'ascensão comunista no Brasil', trabalha hoje com o apresentador Danilo Gentili, no SBT. Ambos são admiradores confessos de Olavo de Carvalho – uma espécie de guru da nova direita brasileira.

Golpe, não! Intervenção. Hein?

intervencao militar golpe brasil
Imagem: Pragmatismo Político

André Falcão*

Passadas as eleições, impressionante sucessão de tolices — algumas inaceitáveis, porque crime —, mais ou menos histéricas, mais ou menos coletivas, vindas de parte da parte branquela do país, assolaram as redes sociais e televisivas, ensandecidas com a vitória da presidenta Dilma.

Leia aqui todos os textos de André Falcão

De cabeça, sem pensar muito, teve o vídeo da loura sebosa do sul, que irresignada (eufemismo para enlouquecidamente patética") com os nordestinos, pela acachapante vitória conferida à Dilma — para minha alegria e satisfação, até pela minha Maceió —, tachou-nos de toda a ordem de impropérios, para ao final, secundando-se em papai "rico" que moraria em Orlando (já comecei a rir), avisar que estaria deixando o Brasil.

Alguns dias depois, já com alguns processos nas costas, veio desculpar-se, dizendo que não foi bem assim, e que sequer pensa em deixar o país. Oh, que pena! Outra, esta do sudeste, cabelos lisos e negros cortados rente ao pescoço, esgoelava-se feito louca, dirigindo-nos os mais rasos adjetivos, ao tempo em que vaticinava (rindo mais), que a presidenta legitimamente reeleita do país não iria tomar posse em janeiro, ou porque sofreria impeachment, ou porque haveria intervenção militar. Mas não seria empossada!, gritava. Louco, aqui no texto, bem entendido, é como fdp. Você não xinga pensando na mãe do filho. O xingamento meio que já adquiriu identidade própria, entende?

Veja também: O ódio político-eleitoral no Brasil pela ótica de Slavoj Zizek

Aliás, na seara dos reclamos por novo golpe militar — que alguns mais "engraçados" ressalvam não se tratar de golpe, mas de "intervenção militar" (ai, Jesus, desculpa, eu rio muito quando os vejo realizando esse histriônico salvo-conduto) —, as mais estapafúrdias verbalizações foram produzidas. Tão impressionantemente surreais que se você não estivesse assistindo, ainda que não presencialmente, nem o mais arredio adversário de S. Tomé se atreveria a crer. Afinal, como se pode desejar a volta ao país do período mais terrível de sua história? Sem liberdade de expressão (os imbecis protestam pela volta de golpistas que jamais lhes deixariam fazer o que estão abiloladamente praticando), sem liberdade de ir e vir, sem imprensa verdadeiramente livre, sem garantias individuais e coletivas, sem combate à corrupção; mas com tirania, tortura, crueldade e covardia com os que pensam diferente.

Pirralho, meu avô Togo me dizia que educação vai muito além de estudar para ser um bom profissional. E que a ignorância era o pior dos defeitos. Passado algum tempo, entendi perfeitamente o que ele me queria dizer.

*André Falcão é advogado e autor do Blog do André Falcão. Escreve semanalmente para Pragmatismo Político

Aula de história para crianças de 6 anos

Sobre democracia: como uma mãe explicaria para a sua filha o sentido de se protestar em defesa da instauração de uma intervenção militar (e de como crianças de 6 anos são mais sábias que adultos golpistas)

impeachment dilma protesto intervenção militar
Líderes do PSDB, Geraldo Alckmin e Aécio Neves se posicionaram contra manifestantes que pediram "impeachment" de Dilma (Imagem: Pragmatismo Político)

Kika Castro, em seu blog

– Mamãe, por que esse povo todo tá gritando?

– Eles querem que a presidente que foi eleita na semana passada saia e o candidato que perdeu entre no lugar dela.

– Uai, mas se ele perdeu, não pode ganhar, né?

– Não pode mesmo, filhinha. Quando a gente joga um jogo e você perde, tem que aceitar. Tentar ganhar no próximo jogo. Se você força a barra pra ganhar de qualquer jeito, tá roubando.

– Então esse povo aí quer roubar no jogo?

– Mais ou menos isso… Eles pedem até que o Exército ajude a tirar a presidente eleita, pro candidato que perdeu entrar no lugar dela.

– Os soldados?!

– É. Isso a gente chama de "golpe". Aconteceu isso uma vez, há 50 anos atrás, exatamente. Tinha um presidente eleito chamado Jango. Bom, na verdade, ele era vice-presidente, mas na época os vices também eram eleitos, separadamente, sabe? Aí, quando o presidente renunciou (quis deixar o cargo, por livre e espontânea vontade), o Jango virou presidente. Depois de um tempo, acusado de ser comunista (não vou te explicar o que é isso agora, filhinha), ele foi tirado do poder pelos "soldados". Antes disso, tinha um povo, igual esses aí, que ficava fazendo marchas pela cidade, que eles chamavam de Marcha da Família com Deus pela Liberdade. Ficavam falando que o presidente era comunista, que o Brasil ia virar Cuba, que o governo não respeitava os "valores da família" etc. E pediam ajuda ao Exército para tirar o presidente na marra.

– E ele foi tirado?

– Foi. Os caras do Exército começaram a governar o país no lugar dele, e proibiram as eleições, o povo não pôde mais escolher quem governaria o país. E aí começou o que a gente chama de ditadura militar. Foi um período ruim no nosso país e demorou 21 longos anos. As pessoas eram presas, e eles machucavam elas de verdade (muitas vezes até matavam) só porque pediam o fim da ditadura. As pessoas não podiam escrever o que quisessem, até os discos tinham que passar pelos censores antes de serem lançados. Os censores trabalhavam para o governo e decidiam se as ideias das pessoas podiam ser publicadas do jeito que elas queriam ou não. As pessoas também não podiam se manifestar livremente, ir para a rua para fazer marchas e pedidos.

– Uai, mas então esse povo não ia conseguir marchar! Então por que esse povo quer a volta da ditadura hoje, mamãe?

– Por que são loucos! Ou não estudaram história. Se hoje vivêssemos numa ditadura militar, eles jamais poderiam estar aí, fazendo essas passeatas ridículas. Como vivemos em plena democracia, até esses maus perdedores têm liberdade pra sair por aí, pedindo coisas idiotas. Mal sabem eles que, na época da ditadura, além de poderem ser presos e torturados por saírem às ruas desse jeito, eles ainda iam viver numa economia com muito mais problemas que a de hoje, que depois deixou o Brasil quase falido. A educação e a saúde eram ruins e o país já era corrupto. Milhares de inocentes foram mortos.

– Mas por que eles não aceitam que a presidente foi eleita?

– Porque são maus perdedores. Ela foi eleita por poucos votos de diferença, mas foi a maioria do povo que escolheu, ponto. Eles dizem que o governo dela é corrupto e que é uma ditadura, que estamos virando Cuba e que os "valores da família" não estão sendo respeitados, porque ela apoia que quem machuque gays só por serem gays seja preso…

– Uai, mamãe, era a mesma coisa que falavam nas marchas que você citou antes?!

– Isso, a mesma coisa que falavam há 50 anos, contra o presidente Jango. E, depois, deu no que deu…

– Então xeu ver se entendi: esse povo aí reclama que a presidente, que deixa até eles pedirem a saída dela, é uma ditadora. Pra combater a ditadora, eles pedem ajuda do Exército, pra tirar ela à força e colocar um cara que nem foi eleito no lugar dela. E defendem a ditadura, que, se existir de verdade, nem vai deixar que eles saiam por aí fazendo marchas e vai sair machucando e matando as pessoas só por pensarem diferente?!

(É, filhinha, você só tem 6 anos, mas é mais esperta que todos eles juntos!)

Ps.: Já se passaram três dias desde o protesto que reuniu 2.500 pessoas em São Paulo, das quais uma parte pedia intervenção militar para retirada da presidente da República reeleita democraticamente. Dois dos principais líderes do PSDB, Geraldo Alckmin e Aécio Neves repudiaram os pedidos de impeachment contra a presidente Dilma. O músico Lobão, por sua vez, tentou amenizar o tom dos protestos afirmando que "qualquer ditadura é injustificável".

As viúvas intransigentes do pós-eleição

Lutar pelo Brasil não significa passar por cima da vontade da maioria e achincalhar a democracia; lutar pelo Brasil não é exigir a intervenção militar que arranque do seu posto uma presidente eleita com os votos da maioria; lutar politicamente pelo Brasil é fazer oposição ideológica e política baseada em debates claros e não em xingamentos e depreciações

pos eleicao viuvas intransigentes
Imagem: Pragmatismo Político

Mailson Ramos*

Viúvas cumprem com desvelo a tarefa de lamentar a morte dos maridos; os sufrágios pela alma do falecido representam uma maneira de não esquecê-lo e de mostrar a todos que naquele momento de dor ninguém deve fazê-lo. Por idealização da santidade, qualquer um é capaz de, à beira do túmulo, féretro sucumbindo, lançar em voz alta as últimas palavras de dignidade direcionadas a quem se vai.

Funérea esta introdução, mas autoexplicativa por exemplificar as atitudes de algumas pessoas que se colocam como grandes entendedoras de política e mal sabem o significado de democracia, melhor: mal sabem perder. Bom papel faz quem arrumou as malas e promete desistir do Brasil. É melhor partir para Miami do que permanecer engrossando o coro das viúvas da ditadura militar.

Pois nem mesmo o candidato derrotado Aécio Neves se posicionou a favor daquela meia dúzia de manifestantes que desejavam a volta dos militares, nas ruas de São Paulo. É que as viúvas atuais não devem ter ouvido falar das viúvas verdadeiras, mulheres que tiveram seus maridos assassinados por uma simples oposição ideológica e política ao militarismo. Imploram e pedem intervenção militar como se boa coisa fosse.

Todas as alternativas de protesto foram esgotadas desde o fatídico domingo, 26 de outubro, quando Dilma Rousseff foi reeleita presidente. Desde o assédio preconceituoso ao Nordeste às passeatas fascistas no centro paulistano, o repertório não muda, aos poucos se oxida.Vale ressaltar que as viúvas não se cansam e não devem se cansar nem mesmo quando as possibilidades democráticas, ainda que antidemocráticas em seu conteúdo, se extinguirem.

Existem duas possibilidades para o aumento das vozes das viúvas: o Congresso Nacional, especialmente o Senado, adquiriu uma perspectiva ainda mais conservadora após as eleições; parece cada vez mais o reduto das oligarquias cafeeira e leiteira do final do século XIX. Para completar, o PMDB assumiu de fato sua posição de mercador da política nacional. Sempre exerceu esta prática, mas agora é muito pior.

Leia aqui todos os textos de Mailson Ramos

Na Câmara Federal, a iminente vitória do candidato à presidência da casa, Deputado Eduardo Cunha, coloca sobre a relação PT/PMDB uma interrogação; Cunha faz crer que não terá fácil diálogo com as proposições do governo. E os deputados comemoraram, na última semana, a derrubada do decreto dos conselhos populares, sob a alegação de que ele feria as prerrogativas do Legislativo. Ode à participação popular, razão do conservadorismo.

Uma família paulista, segundo matéria da Folha de S. Paulo, parte para Miami em 15 de novembro; dizem desistir do Brasil e das dificuldades que o país vai enfrentar a partir de agora. Eleitores de Aécio, eles não esperavam que muita coisa fosse feita, mas pelo menos mudasse o panorama. Esta família tem todo o direito de ir embora, assim como aqueles que ficam tem o direito de protestar; eles só não têm o direito de desistir do Brasil.

E lutar por este país não significa passar por cima da vontade da maioria e achincalhar a democracia; lutar pelo Brasil não é exigir a intervenção militar que arranque do seu posto uma presidente eleita com os votos da maioria; lutar politicamente pelo Brasil é fazer oposição ideológica e política baseada em debates claros e não em xingamentos e depreciações.

Independente do pranto convulso das viúvas, a política nacional segue em frente, com desafios cada vez maiores. O país anseia por lutas cujo prêmio seja seu crescimento e desenvolvimento. Em vez de chorar, prantear uma vitória que não aconteceu, é hora de abrir caminho para auxiliar o governo eleito, que tem seus deméritos, mas ainda assim é aquele que está no poder.

*Mailson Ramos é escritor, profissional de Relações Públicas e autor do blog Opinião e Contexto. Escreve semanalmente para Pragmatismo Político.

Árvores ãnciãs

Democracia no Brasil avança, mas ainda 'sofre com baixa participação política'

(Reuters) Em 2014, Brasil subiu uma posição, para 44º lugar, em ranking que mede o estado da democracia no mundo; Noruega lidera lista

Na contramão do restante da América Latina, o Brasil viu uma melhora no panorama da sua democracia no ano passado - entretanto, o sistema ainda é considerado "falho" e sofre com baixa participação política, segundo um ranking divulgado nesta terça-feira pela Economist Intelligence Unit (EIU), consultoria ligada à revista britânica The Economist.

De acordo com o levantamento "Democracy Index 2014" (Índice de Democracia 2014), o Brasil foi considerado, no ano passado, o 44º país mais democrático do mundo entre 165 nações independentes e dois territórios. É também o quinto país da América Latina mais bem avaliado, atrás de Uruguai, Costa Rica, Chile e Jamaica. Em 2013, o Brasil ocupava a 45ª posição na lista.

O ranking geral é liderado pela Noruega, seguido de Suécia, Islândia, Nova Zelândia, Dinamarca e Suíça.

Apesar de ter sido o único país da América Latina que obteve, no ano passado, um melhor desempenho na comparação com 2013, o Brasil ainda tem uma democracia considerada "falha" e sofre com uma "desilusão popular sobre o estado da grande política", assinala o relatório.

Segundo a pesquisa, essa frustração "ficou evidente na vitória da presidente Dilma Rousseff nas eleições presidenciais de outubro, que ela conseguiu com margens apertadas".

Além disso, o Brasil obteve, no ano passado, a mesma nota ─ 7,38 ─ do que em 2006, quando o ranking, que está na sétima edição, foi publicado pela primeira vez. A escala varia de 0 a 10 (quanto mais próximo de 10, "mais democrático" é considerado o país avaliado).

Categorias

Índide de Democracia 2014

Por tipo de regime:

Democracias 'plenas': 24 países (12,5% da população mundial)

Democracias 'falhas': 52 países (35,5% da população mundial)

Regimes híbridos: 39 países (14,4% da população mundial)

Regimes autoritários: 52 países (37,65 da população mundial)

O levantamento é baseado em 60 indicadores agrupados em cinco categorias: "processo eleitoral e pluralismo"; "liberdades civis"; "funcionamento do governo"; "participação política" e "cultura política". Dependendo da nota que recebem em cada um desses quesitos, os países são divididos em quatro tipos de regime: "democracias plenas"; "democracias falhas"; "regimes híbridos" e "regimes autoritários".

Considerado "uma democracia falha" segundo o ranking, o Brasil obteve a menor pontuação na categoria "participação política" e a maior em "processo eleitoral e pluralismo".

De acordo com a EIU, as democracias consideradas "falhas" estão concentradas na América Latina e no leste europeu, e, em menor grau, na Ásia.

Na região, apenas Uruguai (17º lugar) e Costa Rica (24º lugar) são considerados "democracias plenas". O único país avaliado como "regime autoritário" é Cuba (127º lugar).

"Apesar do progresso na democratização da América Latina nas últimas décadas, muitos países da região têm democracias frágeis. Os níveis de participação política são geralmente baixos e as culturas democráticas, fracas. Tem havido também um retrocesso nos últimos anos em algumas áreas, como a liberdade de imprensa", sugere a pesquisa.

De acordo com o relatório, embora tenha havido "ganhos substanciais" no estabelecimento de uma "democracia eleitoral" nas últimas três décadas, o Brasil, assim como o restante do continente, vem tendo dificuldades em obter mais avanços na democratização.

"A região foi sacudida por ditaduras que abundaram nos anos 70 e 80 e eleições livres e justas estão agora bem estabelecidas por toda a América Latina e as liberdades civis são respeitadas", informa a pesquisa.

"No entanto, a pontuação da América Latina no Índice de democracia permaneceu largamente inalterada (...). Isso indica problemas profundamente enraizados envolvendo a cultura política, a participação política e o funcionamento do governo, que não vêm sendo abordados", acrescenta o estudo.

O relatório destaca que o avanço tímido nessa área contrasta com as "grandes melhorias econômicas" verificadas no continente na última década, "incluindo taxas de crescimento sólidas, desemprego em queda, aumento do salário mínimo e políticas sociais que reduziram a desigualdade de renda e retiraram milhões da pobreza".

Obstáculos

"No entanto, o crescimento da classe média na América Latina na última década lançou luz sobre as contínuas falhas dos governos da região em fornecer serviços básicos, falhas essas associadas com as persistentes fraquezas institucionais e a corrupção endêmica".

Segundo a pesquisa, as altas taxas de pobreza e as disparidades regionais e de renda vêm "complicando a governabilidade e alimentando a frustração pública".

"Essa frustração ficou evidente nos imensos protestos públicos no Brasil na metade de 2013, motivados pelo fracasso do Estado em fornecer serviços básicos adequados, e mais recentemente nos protestos no México contra violência e corrupção em 2014", afirma o relatório.

"Mas o engajamento com as políticas e as organizações políticas, por outro lado, se mantém baixo, em meio à baixa confiança no governo e à percepção de que as instituições públicas são corruptas e irresponsáveis."

"Esse é um reflexo, pelo menos em parte, das fraquezas institucionais que vão levar muitos anos para serem solucionadas e que, por enquanto, continuam a minar o fortalecimento dos fundamentos democráticos na América Latina", conclui a pesquisa.

Para Irene Mia, diretora para a América Latina da EIU, a baixa participação dos brasileiros na política é resultado da precariedade da educação formal, em linha com o restante do continente.

"O Brasil não está mal posicionado no ranking. Houve significativos avanços nos últimos anos. As instituições civis prosperaram, mas a população não se sente protegida pelo governo", disse ela à BBC Brasil.

"Além disso, apesar de os protestos que vimos recentemente, é preciso lembrar que a conscientização política ainda é muito limitada no país, especialmente entre os estudantes e nas grandes cidades."

"Há também uma dificuldade de acesso a fontes alternativas de informação e o baixo nível educacional restringe a participação mais ativa do brasileiro na política", afirmou.

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Os líderes da esquerda não ousam desafiar prioridades da elite. E isto é um perigo.

Do Nobel de Economia Paul Krugman, publicado no El País:

Krugman

Krugman

ADVERTISEMENT

Em 2014, a crescente desigualdade nos países desenvolvidos recebeu finalmente a atenção devida quando O Capital no século XXI, de Thomas Piketty, se transformou em um inesperado (e merecido) sucesso de vendas. Os desconfiados habituais insistem em sua lucrativa negação, mas é evidente para todos os demais que a renda e a riqueza estão mais concentradas no extremo superior do que jamais estiveram desde a Belle Époque, e que a tendência não dá mostras de atenuar.

Mas essa história fala do que ocorre dentro dos países, e portanto, é incompleta. A verdade é que é preciso completar a análise ao estilo Piketty com uma visão global, e eu diria que, ao fazê-lo, percebe-se melhor o bom, o mau, e o potencialmente muito ruim do mundo em que vivemos.

Deste modo, permitam-me sugerir-lhes que deem uma olhada em um excelente gráfico do aumento das rendas no mundo elaborado por Branko Milanovic, do Centro de Pós-Graduação da Universidade da Cidade de Nova York (à qual me incorporarei nesse verão).

O que Milanovic mostra é que aumento das rendas desde a queda do Muro de Berlim tem sido uma história de "torres gêmeas". É certo que as rendas cresceram muito a medida em que as elites do mundo ficavam mais e mais ricas. Mas também ocorreram benefícios enormes para o que podemos denominar de classe média mundial, formada em grande parte pelas cada vez mais numerosas classes médias da China e da Índia.

E digamos claramente: o aumento das rendas nos países emergentes gerou enormes melhorias no bem-estar humano, ao tirar centenas de milhões de pessoas da pobreza agonizante e dar-lhes uma oportunidade de ter uma vida melhor.

E agora, as más notícias. Entre essas duas torres gêmeas (a elite mundial cada vez mais rica e a crescente classe média chinesa) encontra-se o que podemos chamar do vale do desespero. Para as pessoas ao redor do percentual 20 da distribuição de renda mundial, as rendas cresceram, se tanto, a um ritmo lento. E quem é essa gente? Basicamente, as classes trabalhadoras dos países desenvolvidos. E ainda que os dados de Milanovic cheguem somente até 2008, podemos estar certos de que, desde então, esse grupo até mesmo piorou, golpeado pelos efeitos do elevado desemprego, o congelamento dos salários e as políticas de austeridade.

E mais, o esforço dos trabalhadores dos países ricos é, em vários importantes sentidos, a outra face das rendas por cima e por baixo deles. A competitividade das exportações das economias emergentes sem dúvida tem sido um fator para a queda dos salários nos países mais ricos, ainda que não tenha sido a força dominante. Mais importante é que o aumento da renda na parte de cima foi obtido em grande parte espremendo os que estão por baixo reduzindo os salários, cortando os benefícios sociais, esmagando os sindicatos e desviando uma parte cada vez maior dos recursos nacionais para as negociatas financeiras.

E, talvez ainda mais importante, os ricos exercem uma influência enormemente desproporcional sobre a política. As prioridades das elites – a preocupação obsessiva pelos déficits orçamentários, com a consequente suposta necessidade de cercear os programas públicos – contribuíram em grande parte para aumentar o vale do desespero.

Desse modo, quem defende os que ficaram para trás nesse mundo de torres gêmeas? Era de se esperar que os partidos convencionais de esquerda adotassem uma atitude populista em nome das classes trabalhadoras de seus países. Mas, pelo contrário, o que vimos – por parte de líderes que vão desde François Hollande na França a Ed Miliband na Grã-Bretanha, e, também, o presidente Obama – é um reles balbucio. (Obama, na verdade, fez muito pelos trabalhadores norte-americanos, mas é costumeiramente impedido na hora de vender suas conquistas).

Eu diria que o problema com esses líderes convencionais é que não se atrevem a desafiar as prioridades das elites, em particular sua obsessão pelos déficits públicos, por medo de serem considerados irresponsáveis. E isso deixa o campo livre aos líderes não-convencionais – alguns deles seriamente alarmantes – que estão dispostos a solucionar a indignação e o desespero das pessoas necessitadas.

Os esquerdistas gregos que podem chegar ao poder no final desse mês são provavelmente os menos perigosos de todos, ainda que suas exigências para o perdão da dívida e que se ponha fim à austeridade possam provocar tensão com Bruxelas. Em outros lugares, entretanto, observamos a ascensão de partidos nacionalistas e contrários aos imigrantes, como a Frente Nacional na França ou o Partido da Independência do Reino Unido (UKIP, na sigla em inglês) na Grã-Bretanha. E existem pessoas ainda piores esperando nos bastidores.

Tudo isso faz pensar em algumas analogias históricas desagradáveis. Recordemos que essa é a segunda vez que experimentamos uma crise financeira global seguida por uma recessão prolongada em todo o mundo. Na época, como agora, qualquer resposta eficaz à crise foi bloqueada pelas elites que exigiam orçamentos equilibrados e moedas estáveis. E o resultado final foi deixar o poder nas mãos de pessoas, por assim dizer, não muito agradáveis.

Não estou insinuando que estamos em vias de repetir ao pé da letra a década de 1930, mas afirmaria que os líderes políticos e de opinião precisam enfrentar o fato de que nosso sistema mundial atual não está funcionando bem para todos. É fantástico para a elite e tem sido muito positivo para os países emergentes, mas o vale do desespero é algo muito real. E vão acontecer coisas ruins se não fizermos algo a respeito.

Marinhos se movimentando contra a taxação das grandes fortunas

Nascidos para não pagar impostos

Roberto Marinho e os filhos

Algum tempo atrás, um grupo de milionários alemães se dirigiu ao governo de Angela Merkel com uma proposta: pagar mais impostos.

ADVERTISEMENT

Eles achavam que estavam pagando menos do que deveriam e poderiam. O dinheiro a mais taxado, argumentavam, poderia bancar programas sociais numa época de prolongada crise econômica.

Enquanto isso, no Brasil …

A família mais rica do país, os Marinhos, da Globo, entrou em 2015 com um editorial contra a taxação das grandes fortunas.

É o clássico caso em que o interesse pessoal se disfarça de interesse público.

Ou por determinação dos patrões ou por servilismo voluntário, jornalistas da casa trataram imediatamente de reproduzir o editorial em seus blogs. Foi o caso de Ricardo Noblat e Jorge Bastos Moreno.

Os argumentos da família Marinho são os de sempre. Taxar fortunas levaria seus donos a tirar seu dinheiro do país e colocá-lo a salvo de impostos.

Mas algumas perguntas nascem desse lugar comum.

Primeiro: onde os ricos vão encontrar guarida para seu dinheiro? Há um cerco crescente, comandado pelas economias mais poderosas, contra os paraísos fiscais.

Não há economia que resista quando suas principais empresas deslocam seu faturamento para países em que a taxa é zero ou perto disso.

O combate aos paraísos fiscais está no topo da agenda dos líderes globais mais importantes.

Isso quer dizer o seguinte: não vai ser fácil tirar o dinheiro do Brasil e encontrar um destino em que ele não seja taxado tanto ou mais que na terra de origem.

Há, também, uma questão de imagem.

Suponha que os Marinhos façam isso: tirem seu dinheiro do Brasil. Eles ganharam cada centavo aqui. Apenas o governo federal tem colocado em anúncios de estatais cerca de 600 milhões de reais por ano na Globo.

Qual seria o impacto de uma fuga de capital pelos Marinhos na imagem e nos negócios da Globo?

É difícil acreditar que o dinheiro de publicidade federal continuasse a jorrar na Globo caso seus donos retirassem sua fortuna do Brasil.

Há também questões mais prosaicas. Você tira o dinheiro de um país e acaba tendo que ir para o local que escolheu. Mas onde nossos milionários vão encontrar as mamatas que têm no Brasil?

Continuemos com os Marinhos. Eles têm enorme poder e influência no Brasil. Mas o que seriam nos Estados Unidos? Teriam lá o acesso que têm sobre os ministros da Suprema Corte, ou sobre o presidente, ou sobre os parlamentares?

Que aconteceria com a família Marinho se, na Alemanha, fosse encontrada uma fraude contábil como a realizada na aquisição de direitos da Copa de 2002?

A resposta cabe numa palavra: cadeia.

Ir embora é muito mais uma bravata e uma ameaça do que uma intenção. Um antigo presidente da Fiesp chegou a falar, anos atrás, que 800 mil empresários deixariam o Brasil caso Lula ganhasse.

Quantos deixaram quando Lula venceu?

Há no entanto que levar em consideração uma coisa. Taxar as grandes fortunas pode ficar para depois.

Urgente, mesmo, é cobrar o imposto devido e, frequentemente, sonegado. Mais uma vez, os Marinhos simbolizam essa verdade comezinha.

Tudo bem: não será cobrada taxa sobre fortuna da família. Mas amigos: paguem o que devem.

Arquivos Malucos

Seguidores