Um livro é um mudo que fala, um surdo que responde, um cego que guia, um morto que vive. (Padre Antônio Vieira)

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Aos pobres, o direito à merda

Extrair água de fezes humanas é uma forma de erradicar a pobreza? Para além dessa "generosa contribuição", deve-se questionar as causas socioeconômicas responsáveis pela falta de água saudável para dois bilhões de pessoas. Afinal, uma tragédia como essa não começou hoje. O atual sistema econômico não teve nada a ver com isso? Quem, no mundo, mais compromete nascentes, polui, suja e contamina a água?

bill gates água fezes pobres
Bill Gates vai transformar excremento humano em água (reprodução)

Jacques Távora Alfonsin, IHU Unisinos

Bill Gates é uma das pessoas mais aclamadas pelas/os defensoras/os do sistema socioeconômico capitalista como exemplo e modelo da excelência desse sistema. O noticiário da última semana evidencia uma das razões surpreendentes para isso. Para Bill, a providência capaz de fornecer água saudável para mais de dois bilhões de pessoas pobres no mundo inteiro, sem acesso a um bem desse grau de necessidade humana, – conforme dados da sua própria Fundação – é aproveitar as próprias fezes. Financiou máquina adequada para isso e já há previsão de sua possível utilização no Senegal e na índia.

Aos muitos elogios que a sua "generosa contribuição" ao povo pobre tem sido feitos, para diminuir uma injustiça social responsável por doenças e epidemias em bilhões de pessoas, não se ouve quase nada sobre o evidente descalabro de ter-se chegado ao ponto de, para tomar um simples copo d'água, ter-se de aproveitar excremento humano. Ao que consta, como deve acontecer com a máquina do Bill, o inédito da sua lição ainda não conseguiu decantar toda a água das suas conseqüências para torná-las, no mínimo, palatáveis.

Porque parece fora de dúvida existir uma questão prévia inafastável para aceitar a lição dele. Que causas socioeconômicas têm sido responsáveis pela falta de água saudável para dois bilhões de pessoas pobres? Afinal, uma tragédia igual a essa não começou hoje. O sistema econômico representado pelo Bill não teve nada a ver com isso? Quem, no mundo, mais compromete nascentes, polui, suja e contamina a água?

O enfrentamento da pobreza, reduzido apenas aos seus efeitos, é uma fórmula certa de "sucesso" para quem o promove e de insucesso para quem dele é vítima. Um exemplo de repercussão universal, semelhante ao proposto pelo Bill envolvendo a água, pode ser lembrado como o da permanente crise de garantias, sofrida pelos direitos humanos fundamentais sociais, justamente os que, se fossem satisfeitas as necessidades humanas neles presentes (alimentação, moradia, saúde, etc…), atacariam as causas e não só os efeitos da pobreza e da miséria:

Em 1996, durante a Conferência do Habitat II, convocada pela ONU em Istambul, procurando discutir soluções nacionais e internacionais para garantir o direito de moradia a todas as pessoas, especialmente as mais pobres, um dos pontos mais polêmicos da documentação a ser enviada ao mundo, assinada pelos países lá representados, foi o de se alcançar consenso sobre se o direito à moradia poderia figurar aí como um direito já constituído ou não.

Ainda que a pressão externa dos movimentos populares e ONGs defensoras desse direito, paralelamente reunidos/as junto ao conclave, fosse muito forte – mesmo sem poder de voto – defendendo a posição de ele ser declarado como já constituído, não alcançaram sucesso. Na Agenda Habitat, capítulo II, parágrafo 13, ficou constando o reconhecimento (?) de que o direito à moradia "deve ser realizado progressivamente"…

Trata-se de uma redação apenas programática, portanto, e de execução futura sem prazo determinado para ser efetivada. A chamada progressividade para realização dos direitos sociais tem razões bastante discutíveis, para dizer o mínimo. Sabendo-se que esses dependem muito das administrações públicas, elas encontram nesse artifício uma saída para prorrogarem indefinidamente a efetividade das suas garantias, desrespeitando as prioridades que são devidas a esses direitos, por tão indispensáveis à vida de qualquer ser humano.

Há um esforço jurídico mundial no sentido de responder tais questões procurando dar a direitos sociais como o do acesso à água, à alimentação e à moradia, alguma forma de garantir-lhes a chamada justiciabilidade ou judiciabilidade, isto é, a possibilidade de serem reivindicados judicialmente. Isso já está acontecendo, por exemplo, com as ações judiciais propostas contra o Estado, relativas ao direito à saúde. Doenças necessitados de hospitalização inadiável, em regiões ou circunstâncias onde não há leitos disponíveis, acesso a remédios existentes somente no exterior, têm sido admitidas pelo Poder Judiciário.

Não falta base legal para isso, é bom lembrar. A Constituição Federal brasileira dispõe, por exemplo, de regras bem claras. No seus artigos 3º, inciso III (a erradicação da pobreza como fundamento da República), 23 inciso. X (competência da União, Estados e Municípios para "combater as causas da pobreza e os fatores de marginalização, promovendo a integração social dos setores desfavorecidos") e a Lei Complementar nº 111 de 2001 que criou um Fundo de Combate e erradicação da pobreza, com efeitos prorrogados por prazo indeterminado pela Emenda Constitucional nº 67, de 22 de dezembro de 2010, comprovam esse fato.

Mesmo assim, um objetivo de relevância como o da erradicação da pobreza, retirando efeito dessas normas, encontra obstáculos de toda a ordem para ser garantido. "Erradicar" a pobreza, como consta no inciso III do art. 3º da nossa Constituição, significa extrair pela raiz, eliminar as próprias causas dela como dispõe o art. 23, inciso X, ou seja, impedir até a possibilidade da sua criação e reprodução. Tanto para o poder econômico privado, contudo, sujeito a dar função social aos seus direitos, quanto para o Poder Público, só legitimado pela qualidade dos serviços prestados ao povo, isso dá muito mais trabalho do que simplesmente "podar" os efeitos daquelas causas.

E a poda, como se sabe, nas razões do poder econômico privado, procura justificar a sua suficiência, enfatizando apenas a liberdade de iniciativa, como se a função social que lhe é inerente não estivesse, igualmente, prevista em lei. Nas razões do Poder Público, a poda aparece pela resignada defesa das políticas compensatórias, seguindo uma tática de remendo: "vamos garantir alguma governabilidade. Se isso tiver de suportar alguma injustiça(?), a gente vê mais tarde".

No fundo, prevalecem as prioridades econômicas do capital, do tipo ilimitado lucro, concentração da riqueza, aumento da desigualdade social. não pela erradicação.

Ignacio Ellacuria, o reitor da UCA e mártir da defesa das/os pobres em El Salvador, por nós já lembrado em outras oportunidades neste espaço de opinião, fundava a possibilidade fática de se viabilizar meta tão ambiciosa como essa de erradicar a pobreza, no que ousou chamar de civilização da pobreza, baseada numa transformação radical da economia do mundo todo, atacando o "pecado" do capital e promovendo a "salvação" das suas vítimas. Em "A civilização da pobreza" (São Paulo: Paulinas, 2014) há quem lembre aquele pensador jesuíta:

"A civilização da pobreza é assim denominada em contraposição à civilização da riqueza, e não porque pretenda a pauperização universal como ideal de vida (…) O que aqui se quer sublinhar é a relaç~çao dialética riqueza-pobreza, e não a pobreza em si mesma. Em um mundo configurado pecaminosamente pelo dinamismo capital-riqueza, mister se faz suscitar um dinamismo diferente, que o supere salvificamente". Essa nova civilização está baseada em dois pilares: identificação e impulso de um novo motor fundamental da história sob um princípio de humanização:

"Na civilização da riqueza, o motor da história é o acúmulo do capital, e o princípio de (des)humanização é a posse-desfrute da riqueza. Na civilização da pobreza, o motor da história – as vezes chamado de princípio de desenvolvimento – é a satisfação universal das necessidades básicas e o princípio de humanização é a elevação da solidariedade partilhada."

Civilização da pobreza, satisfação universal de necessidades básicas, solidariedade partilhada? Para os ouvidos do capital isso é muito mais escandaloso do que extrair a água da merda, mas certamente é preferível à civilização baseada no excremento social que ele mesmo produz, reproduz e quer nos fazer beber como se fosse água boa.

Árvores ãnciãs

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Por que a culpa aumenta o prazer?

David Robson Da BBC Future 14 janeiro 2015   

Em 2015, minhas resoluções são bem diferentes das que tomei em outros anos. Em vez de prometer beber menos, me alimentar melhor e fazer uma atividade física, decidi que só vou desistir de uma coisa este ano: a minha culpa por fazer coisas que me dão prazer.

Não estou sendo do contra. Estou apenas me baseando no que dizem os psicólogos. Eles descobriram que aquele sentimento de culpa que temos quando saímos da dieta ou adotamos uma vida mais desregrada não nos ajuda a ser saudável. Em vez de nos desviar das tentações, a culpa frequentemente nos leva diretamente a nossos vícios.

Essa ironia parece ter vários motivos. Uma teoria é de que formas culpáveis de prazer estão tão enraizadas em nossa psique que os sentimentos de remorso detonam pensamentos de desejo em nosso cérebro. Ou seja, nossos vícios são tentadores em parte porque sabemos que eles nos fazem mal.

Para mostrar como nosso subconsciente realmente funciona de maneira masoquista, Kelly Goldsmith, da Northwestern University, no Estado americano de Illinois, apresentou alguns jogos de palavras a um grupo de voluntários. Eles primeiro tinham que reordenar algumas frases, algumas com palavras como "pecado", "culpa" e "remorso", e outras com termos mais neutros.

Na segunda parte do experimento, eles recebiam duas letras e tinham que completar as palavras. Aqueles que antes ordenaram as frases com as palavras condenadoras apresentaram muito mais tendência a criar palavras associadas com desejo. Ou seja, em vez de desviar os pensamentos do pecado, o subconsciente culpado começou a pensar de maneira mais luxuriosa.

Goldsmith descobriu ainda que esses sentimentos se traduziam em experiências realmente sensoriais. Os voluntários que foram incitados com ideias de culpa admitiram mais compulsão por doces ou ter mais prazer em olhar as fotos de um site de encontros.

 

O efeito 'dane-se' (ou FODA-SE*) 

Para cientistas, a culpa 'enfraquece' a força de vontade para fazer algo saudável

Mas a ironia da culpa não para por aqui. Além de aumentar a atração pelas tentações, o sentimento também pode lançar o chamado efeito "dane-se". Esse fenômeno psicológico tão bem estudado é o motivo pelo qual você não consegue parar de comer quando se prometeu "só uma" fatia de bolo – ao acharmos que fracassamos em algo, logo concluímos que é melhor se entregar completamente.

Roeline Kuijer e Jessica Boyce, da Universidade de Canterbury, na Nova Zelândia, recentemente estudaram os hábitos alimentares de um grupo de voluntários que tentava perder peso. Elas perceberam que aqueles que naturalmente associavam um bolo de chocolate a um sentimento de culpa acreditavam menos em seu autocontrole do que as pessoas que associavam o alimento com sentimentos mais positivos, como uma festa.

Nos meses que se seguiram, aquilo se tornou uma profecia auto-realizável: apesar das intenções serem as mesmas, as pessoas que se sentiam mais culpadas ao pensar em chocolate conseguiam perder menos peso em comparação àquelas que viam o chocolate com animação.

O mesmo aconteceu com outro grupo que estava tentando manter um peso saudável. Em um período de 18 meses, aqueles que inocentemente desfrutavam de sua comida tinham menos tendência a engordar.

 

Utilidade pública

Campanhas de saúde pública poderiam surtir o efeito contrário ao desejado

As descobertas podem evidenciar um problema que ocorre em algumas campanhas de saúde pública. "Quando você pega uma atividade que não era associada com a culpa e, de repente, a faz parecer imprópria, o prazer parece aumentar", diz Goldsmith. Sendo assim, um aviso de "É proibido fumar" pode aumentar a vontade dos fumantes.

Kuijer e Boyce argumentam que não deve ser coincidência o fato de os Estados Unidos apresentarem uma maior taxa de obesidade que a França, apesar de os americanos se sentirem mais culpados do que os franceses em relação a sua alimentação.

Apesar de nenhuma campanha pública ter sido alterada para experimentar essas teorias, Goldsmith acredita que seria mais eficiente se concentrar nos aspectos positivos, por exemplo, enfatizando os benefícios de escolhas mais saudáveis.

Outros estudos concluíram que a liberdade de sentir pequenos prazeres uma vez ou outra é essencial para manter a força de vontade em relação a objetivos de vida maiores. "Quando usamos nosso auto-controle para resistir a uma tentação ou para continuar com uma tarefa pouco interessante, esgotamos a força desse 'músculo'", explica Leonard Reinecke, da Universidade de Mainz, na Alemanha. "Consequentemente, é mais difícil resistir a desejos em outras situações."

O cientista descobriu que formas de entretenimento menos intelectuais são uma ótima maneira de dar um descanso ao que ele chama de "músculo da força de vontade" e de recarregar o auto-controle. Mas quem sucumbir a esse tipo de lazer não pode se sentir culpado por isso, senão não há benefícios.

Em outras palavras, perdoar-se por um pouco de diversão ou por se entregar a uma guloseima deve servir para recuperar uma atitude saudável mais rapidamente e, assim, direcionar a força de vontade a algo mais positivo no dia seguinte.

fonte: http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2015/01/150113_vert_fut_culpa_prazer_ml

* essa é minha

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Facebook dos mortos



 
O empresário brasiliense Thiago Vinícius Corrêa, de 24 anos, resolveu driblar as consequências da morte e criar uma maneira de manter vivas e ativas as experiências de pessoas que já partiram. Ele criou uma rede social exclusiva para falecidos, com direito a fotos, músicas, biografia e a localização via satélite da lápide no cemitério. O Memorial Online traz ainda semelhanças ao extinto Orkut: familiares e amigos podem deixar testemunhos em um mural particular de tributos.
O serviço entrou em vigor em 2 de novembro, Dia de Finados. Com menos de um mês, já tinha mais de 300 inscrições. A ideia surgiu do trabalho com empresas funerárias e ficou mais forte após experiências pessoais. Foram necessários 12 meses para colocá-la em prática.
"Em uma de minhas visitas aos familiares em Minas [Gerais], estávamos conversando e trocando lembranças sobre minha bisavó. Quanto mais o papo seguia, mais nos divertíamos com as lembranças. Minha avó pegou uma caixa antiga, e de lá saíram várias fotos, a maioria eu nem sabia que existia", conta o rapaz.
De acordo com o empresário, são pelo menos dez pessoas trabalhando no memorial, incluindo o diretor comercial e o de arte. A página é, em geral, criada e administrada pela própria família do homenageado. O custo varia entre R$ 90 e R$ 290, dependendo das opções escolhidas pelo cliente. Há, ainda, uma taxa anual de R$ 2,99 para a retirada de um banner de patrocínio e de R$ 20 para aviso de missa de sétimo dia e aniversário de morte.
"[O que eu queria era] Tornar a memória acessível de qualquer lugar, criar um banco de memórias onde todos pudessem compartilhar um pouquinho da lembrança que guardam e manter a história do ente querido viva, protegida do desgaste do tempo", explica Corrêa. "Com a lápide digital que é adquirida junto ao serviço, quem visita o túmulo tem mais que uma lápide fria para contemplar. Pode ter acesso às memórias, fotos e vídeos e às homenagens deixadas por outras pessoas."
Corrêa diz ter intenção de ampliar os serviços oferecidos pelo memorial, que atualmente conta com 15 funerárias parceiras. Para montar o perfil, que não tem prazo para expirar, são necessárias informações básicas: nome do homenageado, datas de nascimento e morte, biografia, foto e local do enterro.
Sentindo falta do irmão, morto em 1998 após uma descarga elétrica, a biomédica Eloiza Helena Ferreira da Silva foi uma das pessoas que decidiu contratar o serviço. Ela soube do memorial quando ajudou uma amiga que perdeu um tio recentemente.
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Perfil de Jorge de Araújo Ferreira, criado pela irmã e biomédica Eloiza Helena (Foto: Memorial Online/Reprodução)Perfil de Jorge de Araújo Ferreira, criado pela irmã e
biomédica Eloiza Helena (Foto: Memorial Online/Reprodução)
"Posso escrever as emoções que vivemos juntos, demonstrar todo amor que tenho por ele e o quão importante ele é em minha vida. A saudade fica mais doce quando escrevo sobre ele. A ausência permanece, porém mais suave, quando falo dele e relembro nossos momentos juntos", explica a moradora de Taguatinga.
Eloiza conta que a ideia foi bem recebida pela família e que pretende fazer o mesmo no futuro, caso perca outra pessoa próxima. Ela também diz que gostaria de ser prestigiada da mesma forma.
"Já fazia essas homenagens em minha rede social. Agora, com uma rede específica, fica mais fácil de os amigos compartilharem suas emoções e, quando forem visitar o túmulo dele, conseguem localizar pelo aplicativo com auxilio do GPS do celular", afirma a mulher.
O fundador do serviço diz que ainda não há um padrão entre as pessoas que o procuram. O mais novo entre os membros da rede social morreu aos 2 anos, e o mais velho, aos 83. O próprio empresário criou perfis de famosos para divulgar o trabalho, incluindo o do ex-governador Eduardo Campos e o do ator Robin Williams.
[O objetivo era] criar um banco de memórias onde todos pudessem compartilhar um pouquinho da lembrança que guardam e manter a história do ente querido viva protegida do desgaste do tempo"
Thiago Vinícius Corrêa,
fundador do Memorial Online
Segundo ele, o tempo médio para criação de uma conta é de 30 minutos. Os clientes têm levado, no entanto, entre 5 dias e 3 semanas para reunir as fotos e montar a biografia. "Nem sempre todas as informações se concentram com apenas um membro da família", explica Corrêa.
O jovem conta que chega a receber cem pedidos de informações por semana sobre as atividades prestadas pelo memorial. Entre os objetivos futuros do empresário está a criação de uma área do site dedicada apenas a animais domésticos.
Luto e superação
Para a psicóloga Cynthia Carvalho, a opção por criar um perfil vem da necessidade de "preencher um vazio". "[Funciona] Como uma forma de enganar a si mesmo sobre uma realidade difícil de ser enfrentada, um mecanismo de defesa para suportar a dor gerada com essa morte."
A profissional defende que o saudável é que as pessoas aprendam a lidar com esse sofrimento, inclusive buscando ajuda em terapias convencionais. Ela também destaca a importância da web nos dias atuais para que as pessoas se comuniquem e se expressem a respeito do que vivem.
"A necessidade em utilizar esse serviço é de quem busca, de alguma forma, suportar ou pensar que está aliviando um sofrimento. É complicado definir se isso faz bem ou mal", diz. "Costumo dizer que o luto vivido por motivos da morte de um ente querido é eterno. Porém, o que não se pode prolongar é o sofrimento. Esse sim paralisa o ser humano e pode levar à depressão, síndrome do pânico, ansiedade e outras patologias que são interferentes na saúde das pessoas."
O 'lado de lá' da família, sentiu-se preterido por termos feito de um avô [materno] sendo que o avô [paterno] também já é falecido, só que mais recentemente. Então agora a família toda está empenhada em reunir fotografias e histórias para compor a biografia do outro avô. Agora temos o dever, em respeito ao princípio da igualdade, de criar o perfil do avô Elias.Após esse, quero ficar pelo menos 50 anos sem nenhum sinistro na família"
Felismino Alves Ferreira Junior,
advogado que administra o perfil do avô
Morador de uma cidade do Entorno do DF, o advogado Felismino Alves Ferreira Junior, de 26 anos, tem uma ideia diferente. Ele administra o perfil do avô materno, que morreu em agosto de 2000 de parada cardiorrespiratória. Na época, o idoso fazia tratamento contra um câncer no esôfago.
"O perfil serve para reunir histórias, fotografias, demonstrar que a dor não passou e que a saudade apenas amenizou. O memorial ajuda a conviver com a saudade, ajuda a preservar as histórias. Serve também para contar aos mais jovens da família, de uma forma que eles gostam, online, quem foram os indivíduos atores da história da família. Em outras palavras, é uma árvore genealógica moderna. Penso que cada um tem sua forma de lidar com a dor da perda, da saudade. Nosso modo é tratar com naturalidade, falar da pessoa e nos referirmos a ela como sempre fizemos, sem qualquer traço de sombra ou tristeza. Mas é claro, isso demanda algum tempo", explica o jovem.
O advogado conta que alguns conhecidos estranharam a homenagem no início, mas que a maioria das pessoas aprovou a ideia. No fim, o lado paterno da família sentiu ciúmes e quis ser contemplado com a mesma atitude, já que o outro avô também já havia morrido.
"O 'lado de lá' da família, sentiu-se preterido por termos feito de um avô [materno] sendo que o avô [paterno] também já é falecido, só que mais recentemente. Então agora a família toda está empenhada em reunir fotografias e histórias para compor a biografia do outro avô. [...] Agora temos o dever, em respeito ao princípio da igualdade, de criar o perfil do avô Elias. Após esse, quero ficar pelo menos 50 anos sem nenhum sinistro na família", brinca.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Recomendo


terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Fotógrafo mescla imagens do Rio antigo com o atual

Foram usados registros de Augusto Malta do início do século 20.
Marcello Cavalcanti achou mesmos ângulos para clicar e fazer a montagem.

Lívia Torres Do G1 

Vista do Vidigal, na Zona Sul do Rio (Foto: Augusto Malta / Marcello Cavalcanti)Vista do Vidigal contrasta o Leblon inabitado do início do século passado com a Ipanema tomada por edificações de hoje (Foto: Augusto Malta e Marcello Cavalcanti / Divulgação)

Da demolição de cortiços à abertura da Avenida Rio Branco. Fotógrafo oficial do Rio de Janeiro, então Distrito Federal, o alagoano Augusto Malta documentou, a pedido do prefeito Pereira Passos, as transformações da capital no início do século 20. Quase 100 anos depois, o fotógrafo e designer Marcello Cavalcanti, de 34 anos, decidiu juntar o antigo e o novo mesclando a obra de Augusto com fotografias atuais da cidade, prestes a completar 450 anos.

Praia do Leblon há 100 anos e atualmente (Foto: Augusto Malta / Marcello Cavalcanti)Praia do Leblon atualmente e há 100 anos (Foto:
Augusto Malta e Marcello Cavalcanti / Divulgação)

Marcello conta que a ideia nasceu a partir de sua paixão pela imagem fotográfica da cidade onde nasceu e cresceu. Conhecedor do trabalho de Augusto Malta em feiras de antiguidades, diz que o projeto não tem fins lucrativos e que foi uma "feliz coincidência" ser divulgado próximo à data de aniversário. Para expor as montagens, ele abriu há 3 semanas uma conta no Instagram (@augustomaltarevival), onde contrasta as paisagens de antes e de agora.

"É uma benção para os cariocas ter acesso a este trabalho do Augusto. Ele foi muito objetivo no seu propósito: retratar as mudanças que a capital passava na época, com um olhar bastante pragmático, documental. Ver estas imagens e viver na mesma cidade onde isso ocorreu é incrível, passar pelas mesmas ruas, ver que ainda existem prédios da época... Para mim, Augusto Malta e o Marc Ferrez [fotógrafo franco-brasileiro que registrou a transição do século 19 para o 20] são os que melhor traduzem essa imagem do Rio antigo."

Avenida Vieira Souto, em Ipanema, na década de 30 e nos dias de hoje (Foto: Augusto Malta / Marcello Cavalcanti)Av. Vieira Souto nos dias de hoje e na década de 30 (Foto: Augusto Malta e Marcello Cavalcanti / Divulgação)

Dificuldades
O designer, que para começar as montagens buscou fotos de Augusto na internet, conta que muitas imagens são de propriedade do Museu da Imagem e do Som (MIS), da Prefeitura do Rio e da Light, entre outros. Para expor essas fotografias, ele tenta apoio dessas instituições. Por enquanto, o material funciona apenas nas redes sociais.

Para construir as montagens, quanto mais referências antigas ainda existirem no local, mais fácil é o trabalho.

"Escolhida a foto que quero reproduzir, faço uma pesquisa sobre ela em blogs e sites sobre o assunto para tentar ter o máximo de certeza sobre a sua localização exata e detalhes sobre os prédios retratados. Vou até a localidade, com a foto impressa ou no celular, e tento reproduzir com a minha câmera, o mesmo ângulo, ou o mais próximo possível, analisando a foto original, tentando entender como foi feita, distância focal etc. Faço algumas fotos variando ângulo e distância. Depois, no computador, é feito um minucioso trabalho de tratamento", explica.

Retrato da Lagoa Rodrigo de Freitas nos dias de hoje e antigamente (Foto: Augusto Malta / Marcello Cavalcanti)Retrato da Avenida Vieira Souto (Foto: Augusto Malta e Marcello Cavalcanti / Divulgação)

Cidade menos arborizada
A ausência de verde no Rio antigo chamou a atenção do designer. Segundo ele, nas fotos é possível ver uma cidade muito menos densa e edificações mais baixas.

"As fotos antigas têm poucas árvores. Por outro lado, fotos em ruas que pareciam supertranquilas, como a Rua Riachuelo, na Lapa, com poucas pessoas na calçada e o trilho do bonde no chão, foram difíceis de reproduzir porque o movimento de carros e ônibus hoje é caótico. As fotos no Centro ainda conservam muitos prédios da época, então fica mais fácil acertar o local", revela ele, acrescentando sua opinião sobre o produto final: "É como se a foto final fosse uma reprodução da passagem do tempo, que não vemos, apenas vivemos".

Posto 8 de Ipanema fotografado em 1929 e em 2014 (Foto: Augusto Malta / Marcello Cavalcanti)Posto 8 de Ipanema fotografado em 2014 e 1928 (Foto: Augusto Malta e Marcello Cavalcanti / Divulgação)
Augusto Malta (Foto: Augusto Malta / Marcello Cavalcanti)Augusto Malta registrou os Arcos da Lapa há quase 100 anos, quando ainda havia linha de bonde nas ruas (Foto: Augusto Malta e Marcello Cavalcanti / Divulgação)

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