Um livro é um mudo que fala, um surdo que responde, um cego que guia, um morto que vive. (Padre Antônio Vieira)

sexta-feira, 29 de maio de 2015

Ensaio fotográfico mostra a verdade por trás do que você come

Fotógrafo confronta indústria e resolve mostrar o que de fato estamos comendo por trás dos apetitosos alimentos industrializados

http://www.pragmatismopolitico.com.br/2015/05/ensaio-fotografico-mostra-a-verdade-por-tras-do-que-voce-come.html

Você já parou para pensar do que são feitos os empanados de frango que estão em seu congelador? Se você desconfia que as iguarias não são "100% frango", está certo. Uma pesquisa realizada em Mississipi constatou que os empanados contém de 40% a 50% carne de frango. O restante é composto por cartilagens, gordura, nervos e fragmentos de ossos.

Tentando alertar para esta composição, um fotógrafo texano resolveu fazer uma campanha de conscientização. Em "Mysterious Meat" (Carne misteriosa, em tradução livre), Peter Augustus, que vive em Hong Kong, mostra a verdadeira composição dos pratos industrializados, e sobretudo a carne que eles contêm, em sua forma bruta.

"Ao chegar a Hong Kong pela primeira vez, as cenas que mais me marcaram foram os açougues (…)", explica Peter Augustus. "Como estrangeiros vindos de uma grande cidade do Ocidente, a maioria de nós nunca vê de perto com que se parece o animal que vamos comprar e comer – está sempre embalado adequadamente e apresentado em um supermercado climatizado", ele constatou.

"Ao ter de passar na frente desses açougues todos os dias, com as cabeças de porcos, os intestinos, os olhos e os pulmões pendurados de ganchos em pleno ar, isso me trouxe um desafio de encarar essas lojas como um lugar normal, de onde vem o verdadeiro alimento, que termian no cardápio de um restaurante local", afirma Peter.

"A maioria de nós raramente vê de perto que tipo de comida estamos comprando. Elas estão sempre embaladas, bonitas e arrumadas, exibidas em um refrigerador de supermercado", disse o fotógrafo.

Confira abaixo algumas imagens do ensaio "Mysterious Meat":

foto1
foto2
foto3
foto4

Hiper-realismo: parece fotografia, mas não é; surpreenda-se

Parece fotografia, mas não é: uma seleção de 15 incríveis artistas hiper-realistas. Seja pintando retratos, paisagens ou objetos, os quinze artistas a seguir criam obras tão realistas que são de tirar o fôlego. Conheça o trabalho desses mestres do hiper-realismo, e surpreenda-se

Fotografia? Não.

O hiper-realismo é derivado do fotorrealismo, e teve sua origem na segunda metade do século XX. Como o próprio nome indica, o realismo é levado ao extremo, ou seja, acrescentam-se muitos detalhes às obras de pintura, desenho ou escultura, para que esse se aproxime o máximo possível da realidade.

Os hiper-realistas utilizam-se das cargas sociais ou emocionais de suas obras, contextualizando-as de modo a criar narrativas singular e cheias de poesia.

É importante notar o componente paradoxal do hiper-realismo: apesar das obras aproximarem-se da realidade a ponto de serem quase idênticos, não são a realidade. Essa simulação de realidade cria a ilusão de uma nova realidade, mais complexa e, principalmente, mais subjetiva.

Roberto Bernardi: impessoalidade fria

O italiano Roberto Bernardi é tão real que podemos quase sentir a temperatura dos objetos que retrata. O artista, que começou a pintar telas com menos de 10 anos de idade, hoje domina o hiper-realismo. Suas obras mostram cenas da vida cotidiana de forma crítica, exibindo com impessoalidade e frieza a forma automatizada como vivemos.

1.

hiper-realismo foto

Por Roberto Bernardi

2.

hiper-realismo

Por Roberto Bernardi

Alyssa Monks: quando o realismo descontrói a si mesmo

"Quando comecei a pintar o corpo humano, me tornei tão obcecada com ele que precisava do máximo de realismo possível. Persegui realismo até que chegou a um extremo, e começou a desconstruir a si mesmo", explica Alyssa Monks, pintora de Nova Jérsei de 35 anos. "Estou explorando a possibilidade e potencial de representação, onde a pintura figurativa e abstrata encontram-se, onde coexistem."

E como fazer o abstrato e o hiper-realismo coexistirem? Alyssa utiliza-se de "filtros" que insere em suas pinturas – como a presença de água, vidro, vapor – que distorcem as figuras que representa.

(1)

hiper-realismo

Por Alyssa Monks

Juan Francisco Casas: só caneta Bic

Quem nunca rabiscou com uma caneta Bic? O espanhol Juan Francisco Casas, de 34 anos, cria desenhos tão realistas usando apenas as famosas canetas que parecem fotografias.

Tudo começou há seis anos, quando Casas começou a desenhar seus amigos divertindo-se. Um ano depois, o artista decidiu enviar um dos seus desenhos a uma competição nacional de arte – apesar de achar que os jurados, provavelmente, achariam que aquilo era piada. Ele levou o segundo lugar.

Seus trabalhos incríveis, alguns com vários metros de altura, consomem 14 canetas esferográficas cada, e podem levar até duas semanas para ficar prontos.

(1)

hiper-realismo

Por Juan Francisco Casas

(2)

hiper-realismo

Por Juan Francisco Casas

Gottfried Helnwein: verdades perturbadoras

Um dos mais famosos artistas hiper-realistas é o austríaco Gottfried Helnwein. Seus trabalhos geralmente são perturbadores, sensação que ganha ainda mais força pelo realismo chocante. Alguns temas recorrentes em seus trabalhos são a infância e a perda da inocência, mas o artista também fez diversos autoretratos hiper-realistas, além de vez ou outra, trabalhar com performances e instalações.

(1)

hiper-realismo

Por Gottfried Helnwein

(2)

hiper-realismo

(Imagem)

Henrik Aarrestad Uldalen: sonhos em realidade

É difícil acreditar que o norueguês Henrik Aarrestad Uldalen seja um autodidata. Ele cria obras hiper-realistas envoltas em uma aura mística, que remetem aos sonhos. As figuras desenhadas podem estar flutuando, voando ou nadando em grandes espaços vazios.

(1)

hiper-realismo

Henrik Aarestad

(2)

hiper-realismo

Henrik Aarestad (imagem)

Paul Lung: na ponta da lapiseira

Paul Lung, um artista de 38 anos de Hong Kong, faz desenhos tão incríveis que seus amigos começaram a duvidar que as obras não eram fotografias. O que é mais impressionante é que tudo que ele precisa são um grafite simples 0,5 mm, e uma folha sulfite A4!

(1)

hiper-realismo

Paul Lung

(2)

hiper-realismo

Paul Lung

Paul Cadden: carvão e giz branco

O artista escocês Paul Cadden utiliza apenas grafite, giz branco e carvão para criar seus retratos hiper-realistas. Ele dá destaque para os elementos mais sutis das cenas, do brilho nas gotas de água escorrendo às pequenas rugas que marcam o rosto de um idoso.

(1)

hiper-realismo

Paul Cadden

(2)

hiper-realismo

Paul Cadden

Rajacenna : talento aos 18 anos

(1)

hiper-realismo

Rajacenna

Dá para acreditar que o desenho acima foi feito por uma garota de 18 anos?

Rajacenna está acostumada a ser precoce. A holandesa, nascida em 1993, começou a trabalhar como modelo aos 4 anos de idade, e aos 5 fez suas primeiras aparições na televisão. Ela estrelou filmes, novelas e seriados e aos 12 anos tornou-se apresentadora do Kinderjournaal.

Porém, foi só em 2009 que Rajacenna decidiu dedicar-se aos desenhos, e começou a produzir ilustrações incríveis. Ela leva cerca de 40 horas para completar cada um dos desenhos. Ufa!

(2)

hiper-realismo

Rajacenna

Para os mais céticos, aqui está um vídeo de Rejacenna desenhando. Impressionante!

(Vídeo)

Steve Mills: simplicidade bucólica

O americano Steve Mills sempre foi obcecado pela busca do realismo em seus desenhos. Quando tornou-se pintor, durante seu estudos de paisagens, descobriu o hiper-realismo e apaixonou-se.

As obras de Steve Mills demonstram uma paixão pela vida e um gosto em encontrar a beleza nos pequenos detalhes. O próprio artista define seu tema favorito como "o comum incomum" ou "o ordinário extraordinário".

(1)

hiper-realismo

Steve Mills

(2)

hiper-realismo

Steve Mills

Hubert de Lartigue: a força da sensualidade

O francês Hubert de Lartigue já foi ilustrador de livros e desenhista de pin-ups. Não satisfeito, ele resolveu expressar todo seu deslumbramento pela beleza feminina, nas suas manifestações mais simples, através de suas pinturas hiper-realistas.

(1)

hiper-realismo

Hubert Lartigue

(2)

hiper-realismo

Hubert Lartigue

Hynek Martinec: a pessoa por trás da imagem

O tcheco Hynek Martinec captura em suas pinturas hiper-realistas as texturas da personalidade e psique dos retratados. Quase podemos compreender as pessoas que estão sobre a tela, com suas deficiências e medos. O artista já viajou por vários lugares do mundo, e pintou pessoas das mais diversas nacionalidades, crenças e idades – o que só fez crescer o seu talento.

(1)

hiper-realismo

Hynek Martinec

(2)

hiper-realismo

Hynek Martinec

Tjalf Sparnaay: para comer com os olhos

Difícil olhar para os quadros de Tjalf Sparnaay e não ficar com água na boca. O artista, influenciado por grandes pintores como Johannes Vermeer e Rembrant, nos apresenta alimentos cotidianos tão cheios de presença que podemos quase saboreá-los: os seus pães são crocantes, suas carnes, suculentas, e seus doces, apetitosos. Bon appetit!

(1)

hiper-realismo

Tjalf

(2)

hiper-realismo

Tjalf

Matteo Mezzetta: o cotidiano em branco e preto

Em suas telas, Matteo Mezzetta dedica-se a reproduzir cenas do cotidiano em preto e branco. Suas obras ganham força derivada tanto pelo excesso de realismo, quanto pela colocação de situações absolutamente comuns como arte, obrigando a expectador a refletir sobre a própria caracterização de obras de arte como tal.

(1)

hiper-realismo

Matteo

(2)

hiper-realismo

Matteo

Yigal Ozeri: mulheres etéreas

Yigal Ozeri, de Israel, prefere retratar jovens mulheres em conexão com a natureza, envoltas em um ar etéreo e misterioso. A feminilidade e a sensualidade emanam de sua obra, com toques renascentistas. Ozeri afirma que, sob as tintas de seus retratos, podemos encontrar um mundo de "romantismo, violência e liberdade".

(1)

hiper-realismo

Yigal Ozeri

Diego Gravinese: viva a vida

O argentino Diego Gravinese cria obras cheias de vitalidade e movimento. A sua mistura perfeita entre o mundano e o bizarro, além da evidente descontração dos retratados, gera uma energia e presença inconfundíveis em cada um de seus quadros.

(1)

hiper-realismo

Diego Gravinese

(2)

hiper-realismo

Diego Gravinese

Juliana Pacheco, FalaCultura Edição: Pragmatismo Politico

Parasitas na nossa assembleia

Assembleia Legislativa de SC tem a maior despesa com diárias do Sul e do Sudeste Jessé Giotti/Agencia RBS
Deputados e servidores da Alesc gastaram R$ 16,2 milhões com diárias em 2014 Foto: Jessé Giotti / Agencia RBS
 Nenhuma Assembleia Legislativa do Sul e do Sudeste do país teve despesa maior em diárias de viagem do que o Legislativo catarinense em 2014. Os 40 deputados e 1.984 servidores da AL de Santa Catarina gastaram R$ 16,2 milhões em despesas com o subsídio no ano passado. Se somados todos os demais Estados das regiões Sul e Sudeste – Rio Grande do Sul, Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Espírito Santo – o montante alcança menos da metade que em SC: R$ 7,5 milhões.

TCE questiona gastos com diárias na Assembleia Legislativa de SC
"O processo tem que tramitar", diz procurador sobre auditoria
Assembleia Legislativa de SC emite nota sobre auditoria do TCE

O levantamento feito pelo Diário Catarinense utilizou dados disponibilizados nos portais da transparência das assembleias e ainda informações obtidas através da Lei de Acesso à Informação.



Na comparação entre 2009, ano em que começou a investigação do Tribunal de Contas do Estado (TCE), que analisou os gastos com diárias de viagem na Assembleia Legislativa de Santa Catarina, e 2014, as despesas aumentaram 34%. O resultado desse crescimento é um gasto de mais de R$ 87 milhões em seis anos.

Para tentar conter as despesas, a atual presidência da Assembleia aprovou o Ato de Mesa 127, que passou a valer no dia 1º de março de 2015, estipulando limites para reembolso de servidores comissionados e deputados em diárias de viagens.

A existência de uma auditoria dos gastos com diárias entre janeiro de 2009 e junho de 2011 na Assembleia Legislativa de Santa Catarina foi revelada nesta quinta-feira pela reportagem do DC. O documento aponta brechas no controle de mais de R$ 31 milhões utilizados para reembolso de diárias para servidores e deputados em dois anos e meio.

A auditoria ficou parada no TCE durante 831 dias e só teve encaminhamento no dia 13 de maio de 2015, quando, após procurado pela reportagem do DC, o órgão comunicou a troca na relatoria do processo: Cesar Filomeno Fontes se declarou impedido e Gerson dos Santos Sicca assumiu o caso. A Assembleia foi comunicada em 20 de maio e recebeu 30 dias – até 20 de junho – para contestar as informações.

O atraso do TCE em analisar o processo resultou em uma representação penal contra o conselheiro Fontes, relator do caso por cerca de dois anos e quatro meses. Durante a sessão legislativa desta quinta, que contou com a presença de 10 deputados, nenhum parlamentar mencionou a auditoria do TCE.

A auditoria chegou à 12ª Promotoria de Justiça da Capital do Ministério Público de Santa Catarina (MPSC) através de uma denúncia, no dia 18 de março de 2015. Uma semana depois, o procedimento registrado como "notícia de fato" – quando um órgão público toma conhecimento sobre determinado assunto – foi encaminhado à Procuradoria-Geral de Justiça devido ao foro privilegiado do deputado estadual Gelson Merisio (PSD), citado na auditoria e atual presidente da Assembleia.

De acordo com a assessoria de imprensa do MPSC, o caso está sendo apurado e já foram feitas diligências pela promotoria. O presidente da Comissão de Moralidade Pública da Ordem dos Advogados do Brasil, seccional de Santa Catarina, Eduardo Capella, ficou surpreso com os valores desembolsados em diárias de viagem e comunicou um pedido de abertura de inquérito pela entidade para pedir explicações à Assembleia e também ao TCE, devido ao atraso no andamento do processo.

Homem é agredido em voo por ler CartaCapital

Homem de 65 anos não imaginava que a simples escolha de uma leitura para a viagem iria provocar uma agressão inusitada. "Esse tipo de postura revela um espírito obtuso e retrógrado, um pensamento autoritário que despreza a democracia, a liberdade de expressão e as diferenças de opinião", protestou Elbio Flores

cartacapital voo agressão homem
Comerciante relata agressão em voo por ler a CartaCapital (Divulgação/Sul21)

Marco Weissheimer, Sul 21

Quando embarcou em um voo em Porto Alegre rumo a Brasília, na manhã de quarta-feira (27), o comerciante Elbio de Freitas Flores, de 65 anos, não suspeitava que a escolha de uma leitura para a viagem iria provocar uma agressão inusitada. Quando o avião aterrissou em Brasília, um grupo de cerca de 20 pessoas, localizadas na parte de trás do avião, começou a entoar gritos contra Dilma, Lula e o PT. Esse grupo estava chegando em Brasília para participar do ato liderado pelo Movimento Brasil Livre peloimpeachment da presidenta Dilma Rousseff.

O comerciante relata que, enquanto aguardava a abertura das portas do avião para desembarcar, foi interpelado e agredido verbalmente por um desses homens pelo fato de estar carregando a CartaCapital, "uma revista idiota e lida por idiotas", segundo o agressor. Além disso, aos gritos, foi chamado de "bolivariano" e "do Foro de São Paulo".

Elbio Flores resolveu não ficar quieto diante do ataque e chamou o agressor de golpista, entreguista e integrante da TFP (Tradição, Família e Propriedade). "Eles se mostraram muito covardes e tentaram me intimidar com gritos e impedir que eu falasse, tudo porque eu estava lendo a Carta Capital", relatou ao Sul21. Um dos integrantes desse grupo gravou o ocorrido com um celular. Um trecho de 1min30seg foi publicado na página do deputado estadual Marcel Vam Hattem (PP-RS), com o seguinte texto: "La Banda Loka Liberal pousa em Brasília: faz um avião inteiro feliz e deixa um petista raivoso magoado".

O comerciante resolveu falar publicamente sobre o caso pois entende que estão ocorrendo agressões semelhantes a essas que devem ser respondidas. "Já ouvi vários relatos de casos semelhantes e não podemos ficar calados. Eles tinham o comportamento característico de covardes e despreparados. Estavam constrangendo as pessoas, agindo em bando, como uma matilha. Os partidos democráticos têm que reagir diante desse tipo de agressão. Tenho amigos no PP, no PSDB e em vários outros partidos e convivo com urbanidade e respeito com eles, sem agredir ninguém. Fui agredido e reagi".

Esse tipo de postura, acrescentou Elbio Flores, "revela um espírito obtuso e retrógrado, um pensamento obscurantista e autoritário que despreza a democracia, a liberdade de expressão e as diferenças de opinião".

E se os deputados estampassem na roupa os financiadores de campanha?

Deputado Chico Alencar (PSOL-RJ) quer que parlamentares exibam na roupa os 'patrocinadores' de campanha. "Entrarei com um projeto de lei para que deputados sejam obrigados a, tais quais jogadores de futebol ou pilotos de Fórmula 1, estamparem seus patrocinadores na roupa", afirmou

eduardo cunha deputado financiamento privado
Proposta sugere que deputados exibam nas roupas quem são os seus financiadores. Nesta semana, Eduardo Cunha (PMDB-RJ) conseguiu, através de manobra escabrosa, constitucionalizar o financiamento privado de campanhas (Reprodução/Facebook)

O deputado Chico Alencar (Psol-RJ) registrou post no Facebook, nesta quinta-feira (28), em provocação ao presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), e seus aliados com referência à proposta de emenda à Constituição que promove a reforma política. Contrário ao financiamento privado de candidatos e partidos políticos, um dos pontos da reforma, Chico diz que encaminhará uma proposição alternativa que obriga os parlamentares a estampar nos ternos os patrocinadores de suas campanhas, caso essa modalidade de financiamento seja aprovada.

"Entrarei com um Projeto de Lei para que os Deputados sejam obrigados a, tais quais jogadores de futebol ou pilotos de formula 1, estampem seus patrocinadores na roupa. Sai o paletó, entram as estampas! Nada mais justo do que divulgar seus patrocinadores", afirma Chico.

Durante as sessões que discutem a reforma política, os representantes do Psol na Câmara exibem cartazes com a seguinte frase "Empresa não doa, investe!". Chico ainda compartilhou no Facebook uma foto da Coalizão Reforma Política Democrática. A imagem mostra Eduardo Cunha vestido com um uniforme de piloto de Fórmula 1 tomado de logos de patrocinadores. O quadro informa que Cunha declarou R$ 6,8 milhões em sua campanha para a Câmara. "Me diga quem te financias, que te direi quem defendes", profere a coalizão.

A Câmara aprovou em primeiro turno na quarta-feira (27) a doação de recursos de empresas para partidos. Já os candidatos poderão receber financiamento apenas de pessoas físicas. O projeto recebeu 330 votos favoráveis e 141 contrários.

O fracasso da marcha liderada por um "pivete"

Liderada por um "pivete", a marcha que pretendia mobilizar 100 mil simpatizantes, atrair a adesão popular ao longo da caminhada e ser recepcionada por caravanas vindas de outras cidades não chegou a reunir 300 pessoas na rampa do Congresso, onde foi recebida apenas por figuras do porte de Marco Feliciano, Jair Bolsonaro e Ronaldo Caiado

marcha liberdade kim kataguiri
Ao centro, Kim Kataguiri, líder da "Marcha pela Liberdade". O jovem está acompanhado dos deputados Eduardo Bolsonaro (filho de Jair) e pastor Marco Feliciano | Divulgação)

Ricardo Kotscho, em seu blog

Eles programaram uma entrada triunfal em Brasília, esperando reunir milhares de pessoas nesta quarta-feira, ao final da "Marcha pela Liberdade", organizada pelo Movimento Brasil Livre, que saiu de São Paulo e levou 33 dias para percorrer 1.175 quilômetros a pé, com o objetivo de protocolar um pedido de impeachment da presidente Dilma Rousseff.

A Polícia Militar do Distrito Federal preparou uma operação especial para receber a multidão em frente ao Congresso Nacional. Coordenador da operação, o tenente coronel Frederico Santiago levou uma tropa de 150 homens e deixou de prontidão outros 2 mil militares. Quando a grande manifestação chegou, havia um PM para cada dois marchadeiros, segundo relato do repórter Leandro Prazeres.

"Nossa estimativa foi feita com base no que as organizações passaram para a Secretaria de Segurança Pública. Não entendo nada de política, mas não sei como eles chegaram a esse número. De qualquer forma, estamos a postos", anunciou o tenente coronel Santiago.

Liderada por um pivete, a marcha que pretendia mobilizar simpatizantes, atrair a adesão popular ao longo da caminhada e ser recepcionada por caravanas vindas de outras cidades não chegou a reunir 300 pessoas na rampa do Congresso, onde foi recebida apenas por alguns líderes da oposição do porte de Carlos Sampaio, Jair Bolsonaro e Ronaldo Caiado.

Foi um monumental fracasso, que só não acabou ignorado pela mídia porque alguns coordenadores do grupo conseguiram ser recebidos pelo presidente da Câmara, Eduardo Cunha, que este ano já havia recusado sumariamente outros três pedidos de impeachment, mas prometeu encaminhar o pedido do MBL "para análise técnica" da sua assessoria jurídica.

Quando saíram de São Paulo, os marchadeiros de Kim Kataguiri, estudante de 19 anos, sonhavam alto, como ele anunciou pelo "Facebook: "No dia 27 de maio ocupemos a frente da Câmara para que os congressistas se sintam pressionados a atender a nossa pauta".

O MBL logo ganharia a adesão do deputado suplente Roberto Freire, presidente do PPS, que escreveu em seu Twitter: "Vamos mobilizar todos os partidos de oposição e oposicionistas de todos os partidos para a Marcha e o ato em BSB".

Nada disso aconteceu. Nenhum grande cacique tucano foi visto dando apoio à tragicômica aventura dos marchadeiros. Só apareceu uma faixa empunhada por anônimos atrás da mesa onde Cunha se reuniu com os lideres do MBL, em que se lia: "O PSDB saúda a Marcha pela Liberdade – Vocês são exemplos da cidadania e esperança para um Brasil livre da corrupção".

Pois não é que poucas horas depois, por ironia do destino, dando um cavalo de pau na votação do dia anterior, Eduardo Cunha conseguiu aprovar a emenda que coloca na Constituição o financiamento privado de campanhas eleitorais? Parece ficção, mas é real, caros leitores.

E vamos que vamos.

Movimento Brasil Livre adota o mesmo gesto com o dedo do Estado Islâmico

Os paneleiros do Movimento Brasil Livre adotaram um gesto simbólico para sua principal demanda, o impeachment. O dedo em riste penetrou os salões do Congresso e foi usado nas fotos com os novos herois do grupo, Jair Bolsonaro e Eduardo Cunha.

A ideia foi inspirada em outra facção extremista, o Estado Islâmico. De acordo com especialistas ouvidos pela Bloomberg, quando o EI faz o gesto, ele está "afirmando uma ideologia que exige a destruição do inimigo, bem como qualquer forma de pluralismo. Para os potenciais recrutas em todo o mundo, também mostra a crença de que eles vão dominar o mundo".

Captura de Tela 2015-05-28 às 10.28.55

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Intentona conservadora e medo da mudança

Necessitamos de uma sociedade menos conservadora, com relações mais humanas, que priorize a convivência em harmonia, recheada de empatia, e para isso é essencial que as disparidades e distorções produzidas por séculos sejam atacadas.

direita conservadora fora dilma lula pt medo mudança

Cássio Garcia Ribeiro* e Mário Tiengo*,Pragmatismo Político

Quem são os barulhentos manifestantes que protestam pelas ruas, varandas e redes virtuais brasileiras em 2015? Defendem que tipo de Estado? Qual seu grau de politização? Como se informam sobre o que está acontecendo no Brasil? O que pensam sobre a desigualdade socialno Brasil? Defendem políticas afirmativas? Qual sua visão sobre o "Bolsa Família"? Advogam a favor da criação de um imposto sobre grandes fortunas, reforma tributária que elimine a regressividade da carga tributária brasileira? São partidários da reforma agrária? O que pensam sobre as ciclofaixas e faixas exclusivas para ônibus, no Brasil e no exterior? Como se posicionam acerca da união civil homoafetiva? Qual seu parecer sobre a regulação da imprensa? Possuem alguma posição a respeito da reforma política?

Não é difícil perceber que as respostas para cada uma dessas perguntas nos permitirão traçar um perfil conservador. São avessos a reformas estruturais, tanto na economia, quanto na sociedade. Estão indignados, mas sua indignação seleciona seus alvos. Defendem a alternância no poder, mas, descaradamente, mantém os tucanos no poder em São Paulo há duas décadas – e essa afirmação pode ser comprovada com base nas pesquisas feitas nasmanifestações de ruas, em que a grande maioria declarou voto nesse partido, mesmo que tenham suas ressalvas. Assim, o discurso de ódio propagado por parte da imprensa encontra terreno fértil entre essas pessoas.

De acordo com relatos, não foram poucos os episódios de desrespeito e intolerância presenciados nas passeatas que ocorreram em diversas cidades brasileiras neste ano. Há aqui um caldo de cultura perigoso, que flerta com o fascismo. Embora possamos traçar diferenças com as jornadas de junho de 2013, principalmente na sua origem, os "apolíticos" que tomaram conta daquele movimento e gritavam "sem bandeiras" e rejeitavam (muitas vezes violentamente) os militantes dos partidos de esquerda, voltaram com força, agora mais homogêneos, já que sem a presença de grupos identificados com as esquerdas – se naquela época, bandeiras e referências partidárias eram rechaçadas, hoje, qualquer camiseta vermelha torna o cidadão passível de ser agredido. Aqueles que foram aos estádios para cantar o hino nacional e em seguida ofender a presidenta da República diante do mundo descobriram que também podem ir às ruas; diante disso corremos o risco de ver a barbárie se instalar perigosamente em nossa sociedade.

Não raro, quando expomos nossas vozes ou nos exprimimos, por qualquer meio, ponderando o perigo do maniqueísmo e da disseminação de ódio, dialogando com a história de nosso próprio país, somos acusados, entre outras coisas, de sermos cegos aos fatos que abnegadamente tentam nos mostrar. Rebatidos, no campo individual, longe das turbas raivosas que descontam todas as suas frustrações na figura de uma pessoa, de um partido, ou de uma comunidade específica, dizem-se a favor do diálogo.

Mas como dialogar com um grupo que considera necessário combater os que pensam distintamente e que possuem outras visões de mundo? Que inferioriza o diferente? Que vocifera contra a legalização e formalização de direitos trabalhistas de empregadas domésticas, que vê na inclusão de toda ordem um mal e destila ódio e animosidade quando vê que perdeu sua (quase) exclusividade no uso de aeroportos? O que leva alguém a se indignar com programas de erradicação à pobreza, programas de inclusão nas universidades, programas que levam médicos a lugares carentes e aos rincões do país? Programas que tem sua iniciativa e execução elogiados (e até copiados) por toda parte, de países em desenvolvimento aos desenvolvidos? Quando são acusados de disseminarem o ódio, dizem que é indignação. Mas essa mesma indignação nos casos (e não são poucos) de corrupção envolvendo outros partidos que não o da presidenta e do seu criador e ex-presidente? Contra a corrupção sistemática no(s) Estado(s) brasileiro, a estrutura viciada da nossa administração pública, os nossos legislativos e judiciários? Da imensa sonegação de impostos colocada em prática por empresas privadas do país? Dos repetidos casos de trabalho escravo flagrado nas indústrias, nas grandes fazendas?

É preciso cuidado para que não se transforme em hegemonia a ideia de que o povo seja apenas uma agregação qualquer de homens ou uma sociedade mantida junta, com algum vínculo jurídico. Precisamos ir além disso, necessitamos de uma sociedade com relações mais humanas, que priorize a convivência em harmonia, recheada de empatia, e para isso é essencial que as disparidades e distorções produzidas por séculos sejam atacadas.

Desigualdade só se combate tratando os desiguais na medida de sua desigualdade. É pouco compreensível que aqueles que mais possuam, se incomodem ao ver ascender aqueles que, historicamente, pouco tiveram; é pouco aceitável que desconheçam, ou ignorem, propositalmente, a história da formação da sociedade brasileira. É como se o valor de seus bens (físicos, financeiros, culturais, etc) estivesse referenciado na exclusividade de possuí-los. As respostas às perguntas feitas acima podem nos dar um direcionamento nesse sentido, mas, vale pensar também, quem alimenta nossas insatisfações? Ou, o que as alimentam?

*Cássio Garcia Ribeiro é professor do Instituto de Economia da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e Mário Tiengo é especialista em Governança Pública e colaboram paraPragmatismo Político.

http://www.pragmatismopolitico.com.br/2015/05/intentona-conservadora-indignacao-ou-medo-da-mudanca.html

PSDB faz oposição ao nosso país

psdb aécio neves oposição direita elite brasil

Mailson Ramos*

O discurso foi latente e inflamado. Se não sufocou pela publicidade, exigiu dos telespectadores uma noção apurada do que está acontecendo. Na verdade está aí a chave mestra do entendimento sobre o programa do PSDB, exibido via rede nacional pela propaganda eleitoral gratuita, na noite de terça (19/05). A conjunção linear entre propaganda e sentimento mostrou expressões e rostos preocupados com o Brasil que vai do abismo abaixo. Cores negras, fundo cinza. Uma importante definição icônica da tragédia brasileira, porque como dizem os colunistas de uma revista oposicionista, isso aqui é a Banânia. Foi neste tom que o PSDB, através de seus políticos, atentou ao povo para a seguinte mensagem: não somos oposição ao Brasil; somos oposição ao governo e aos seus desmandos. Ora, que mentira mais ordinária.

O PSDB atira com as mesmas armas com que um dia foi alvejado. Não sabe, porém, que o marketing pode se voltar contra os seus políticos. Talvez a própria campanha do medo, desta feita, não obtenha bons resultados. O brasileiro não espera discursos e não está tão alheio à compreensão da política e da comunicação. O brasileiro precisa de uma oposição verdadeira que trabalhe em prol do país e não que o achincalhe no Waldorf Astoria, em Nova York. Estamos visualizando mais uma etapa da história brasileira em que o protagonismo da oposição foi trocado pela canalhice, afinal de contas, o governo brasileiro, um dia, já teve uma oposição ferrenha e não um arremedo como são PSDB e o DEM.

Leia aqui todos os textos de Mailson Ramos

"A presidente Dilma mentiu". O discurso da rejeição está nas entrelinhas do texto lido pelos tucanos. Mas quem mente mais? Quem não se satisfaz ao mentir o tempo inteiro? Quem andou com as mãos nas calças com medo de ser investigado em esquema de corrupção comprovado pela justiça? Os erros do governo e da presidente, se são graves, devem ser denotados e questionados pela população que a elegeu – e até por aqueles que não a elegeram -, mas não devem ser jamais bandeira de ordem de um partido cujos políticos estão enterrados até o pescoço em falcatruas de variados gêneros.

Se os partidários do PSDB tivessem moral para questionar os erros do governo e se a oposição viesse organizada de um partido ético, por exemplo, não haveria motivo algum para refutar o discurso. Mas como é possível confiar que um oposicionista está lutando contra a corrupção do governo se ele recebeu 5,5 milhões de propina de uma estatal? Como é possível defender que o discurso de um sujeito é ético e responsável se ele deixou um rombo de 7,7 bilhões nos cofres do Estado que governava? Em nome de poder, o PSDB vai brigar com o governo até o fim de suas forças. E depois, já sobrevive com a ajuda de aparelhos… Televisores.

O PSDB se mostrou, nesta noite de terça-feira, feroz contra a corrupção. Mas esqueceu-se de citar que apoia as investigações da CPI do HSBC e da Operação Zelotes. Aliás, o amigo navegante tem ouvido falar destas duas investigações? Evidente que não. Porque interessa a muita gente varrer o lixo de um lado e escondê-lo do outro. Quem está a favor do Brasil defende investigação onde quer que seja e não apenas do outro lado do muro. De mentiras e mentiras, os tucanos revelam suas faces e seus gostos. Nada parecido com o que de fato são. O Brasil precisa sim de uma oposição para brigar com o governo. Mas é preciso dizer de antemão que ela não deve ter os mesmos vícios encarnados de quem um dia quebrou o país por três vezes.

*Mailson Ramos é escritor, profissional de Relações Públicas e autor do blog Nossa Política. Escreve semanalmente para Pragmatismo Político.

http://www.pragmatismopolitico.com.br/2015/05/o-psdb-faz-oposicao-ao-brasil.html

terça-feira, 26 de maio de 2015

O desabafo de Mirian França: "Sou negra! E sou a prova!"

"Sou filha de uma negra solteira, pobre, costureira, que jogou uma negra doutora na cara da sociedade. Eu sou a prova viva de que a redução da maioridade no Brasil é pretexto pra prender criança negra. Sou a prova de que, pra polícia brasileira, culpa tem cor [...]" Leia a íntegra do desabafo de Mirian França, encarcerada por suspeita de assassinar uma turista italiana

mirian frança racismo brasil
Mirian França, encarcerada e considerada culpada de um crime que não cometeu (Divulgação)

Mirian França, MamaPress

Hoje acordei com vontade de gritar: SOU NEGRA!

Sou filha de uma negra solteira, pobre, costureira aposentada, que jogou uma negra doutora na cara da sociedade. Uma negra que estuda e trabalha pra caralho pra garantir o direito de ser livre e viver como quiser.

Essa sou eu, MIRIAN FRANÇA, a negra encarcerada no Ceará em Dezembro de 2014 por suspeita de assassinar uma turista italiana.

Graças aos amigos e a população, a policia foi obrigada a me libertar do meu cárcere. Cárcere, sim! Pois se tratando de uma prisão sem fundamentos, está configurada uma prisão ilegal. Uma prisão cometida por uma polícia despreparada e racista, que insiste em enxergar o negro como culpado mesmo quando não existem provas, evidências, motivação ou testemunha; que insiste em dizer que têm "CONVICÇÃO" de que somos culpados mesmo quando não há nenhuma prova da nossa culpa.

Quando se trata dos negros, a polícia se esquece do nosso direito básico de que somos inocentes até que ELES provem o contrário. Não somos nós que precisamos provar nossa inocência.

Aos 31 anos descobri o que é ser negra de verdade.

Ser negra é ser chamada de estranha quando você sai de férias e passa o dia na beira da piscina lendo, porque uma negra gostar de ler "é muito contraditório […] provavelmente está forjando um álibi".

Ser negra é ser questionada sobre como teria dinheiro para tirar férias no Ceará (um estado do MEU país, onde apenas turistas estrangeiros parecem ser bem vindos).

Ser negra é ter a obrigação de andar com um macho a tira colo; não poder viajar sozinha; não ter o direito de trepar com quem quiser sem ser chamada de puta (aliás, essa é a sina de todas nós mulheres).

Ser negra é ter medo de parir uma criança que já nasce como um alvo para o genocídio. Que precisa ser preparado para a violência policial, pra chacota na escola, no teatro, na vida toda.

O RACISMO no Brasil É UM CRIME PERFEITO. É o crime sem corpo, sem prova, sem testemunha. Mas é nítido quando a polícia tem "convicção de que você é culpado", apenas com base no seu "comportamento suspeito" (Gostar de ler? Gostar de escutar música? Gostar da introspecção? Gostar de viajar? Ser solteira?).

Não precisa chamar o negro de macaco pra ser racista, basta abrir os olhos e ver quem é preso por engano. Basta ver quem precisa provar a inocência (quando a lei é clara que se é inocente até que se prove o contrario).

Quem é assassinado nos autos de resistência nunca é um branco. Eu nunca soube de um branco preso em manifesto por portar uma garrafa de desinfetante (Daniel Braga). E nem uma branca ser arrastada por viatura policial (Claudia Ferreira).

SAIBA MAIS: Claudia Ferreira (1976-2014): tratada como um bicho!

Eu sou a prova viva de que a redução da maioridade penal no Brasil é pretexto pra prender criança negra.

Sou prova viva de que pena de morte no Brasil é consentimento jurídico para o Estado assassinar mais negros.

Eu sou a prova de que, pra polícia brasileira, a culpa tem cor.

A resposta do professor Christian Dunker a Rodrigo Constantino

Psicanalista e professor da USP Christian Dunker publicou uma resposta aos ataques do blogueiro da Veja, Rodrigo Constantino

Christian Dunker rodrigo constantino
Rodrigo Constantino (esq) e Christian Dunker | Pragmatismo Político

Christian Dunker, psicanalista e professor da Universidade de São Paulo (USP), foi convidado para debater a existência dos condomínios fechados no Brasil e o que motiva as pessoas a recorrerem a eles. O debate aconteceu no programa Café Filosófico, promovido pela TV Cultura e pela CPFL. O programa pode ser visto na íntegra aqui.

No dia seguinte ao debate, o blogueiro da revista Veja, Rodrigo Constantino, pincelou uma frase dita por Dunker e publicou um texto com o objetivo de depreciar o seu trabalho e a sua análise. Constantino chegou a tecer ataques pessoais contra o professor. "Psis' invejoso", "filósofo frustrado" e "escritor ressentido" foram algumas das expressões usadas pelo blogueiro para caracterizar Dunker.

A resposta de Dunker a Constantino você poderá ler a seguir:

A palavra perdida contra a bala perdida | Resposta de Dunker a Rodrigo Constantino

Lacan dizia que o equívoco é a essência da comunicação. É no deslize, na palavra que escapa, naquele tom de voz descompassado, é na incompreensão que o inconsciente trabalha gerando equívoco de sentido, posicionando os sujeitos mais além do que eles "queriam dizer" em seus devaneios e intenções mais ou menos conscientes. Recuperar a essência perdida da palavra, em meio à série dos equívocos que ela necessariamente acarreta talvez seja uma das tarefas mais importantes se quisermos constituir uma política sobre a violência que não seja ela mesma um exercício de violência, de guerra e de vandalização do outro. Acredito que esse tipo de consequência com a palavra – seja ela uma atitude ética ou rigorosa, seja ela uma atenção implicada ou cuidadosa – poderia tratar nosso atual pressuposto de que não é possível conversar e, portanto, reconhecer os que estão fora de nosso condomínio.

Trata-se, portanto, de uma espécie de experimento de casos mais simples mas em que se encontra em jogo um princípio maior. Muitos dizem que contra os irracionais, os incultos, os bárbaros os mal-intencionados não é desejável partilhar a palavra. Eles não se conformarão a nenhuma ideia e violarão permanentemente o que "nós" entendemos por debate público, por conversa ou por argumentação. "Eles" nos posicionam em uma pequena categoria diagnóstica e, a partir disso, repetem sempre a mesma ladainha de preconceitos sobre o tal inimigo imaginário nos quais nos tornamos, como um espantalho. Deles nós devemos nos afastar.

Tenho que admitir: "deixar secar", não se envolver em brigas com alguém que não seja de seu tamanho, manter a política da "caravana passa enquanto os cães ladram" é uma atitude salubre. Contudo, manter-se na zona de conforto seria um ideal simples e razoável, não fosse o fato de que o equívoco, sendo a essência da comunicação, torna a nossa zona de conforto uma zona de confronto. A palavra perdida, na comunicação com o outro, volta como uma bala perdida. E dela temos que nos proteger, com novos muros, objetivos e subjetivos. Quanto mais recusamos a reconhecer nossa palavra simbolicamente perdida, mais ela tende a voltar como bala no Real.

São duas tarefas: nos proteger da palavra e da bala perdida. Nisso nosso mundo vai ficando menor. Mal tratado, isso caminha até tornar-se impossível habitar o lugar onde estamos. É neste ponto que nos mudamos para Miami ou para a Austrália (o Brasil que deu certo). Por isso a conversa com os "impossíveis" é uma tentativa de explorar os limites da palavra perdida. Espero que aqui o equívoco ressoe conforme a escolha do leitor: perda de tempo, extravio da palavra, suspensão do diálogo, derrota na batalha verbal, inconsequência no uso do sentido, palavra mal-dita, palavra maledicente.

O caso que trago à consideração do leitor baseia-se em uma trivial sequencia de equívocos, semelhante à que vemos em filmes como Faça a coisa certa (1989, dir. Spike Lee), Babel (2006, dir. Alejandro Iñarritu) ou Cronicamente inviável(2000, dir. Sergio Bianchi). Neles os acontecimentos acumulam desencontros, desacertos e equívocos que terminam em bala perdida, que depois ninguém consegue entender como aconteceu.

Pois bem, na gravação do Café Filosófico da TV Cultura, que tem por tema meu livro Mal-estar, sofrimento e sintoma: uma psicopatologia do Brasil entre muros, afirmei que há duas linhas de afeto concorrendo para a experiência simbólica do condomínio no Brasil.

A primeira reproduz expectativas de segurança e de solução para o medo. Defendo-me do mundo perigoso lá fora, erguendo muros e criando uma lei interna para consumo próprio com meus síndicos e regulamentos. A segunda determinação afetiva da vida em forma de condomínio baseia-se na inveja. Uma vez guarnecido e protegido imagino que o meu sonho é também o dos outros. Mas só alguns conseguem realizar esta ambição de consumo. Há uma graça adicional em pensar que os outros desejam ter o que eu tenho, portanto, que os outros me invejam. Isso faz parte da mais banal lógica do consumo conspícuo. Minhas determinações de consumo não são dadas pela satisfação para minhas necessidades, ainda que sejam as mais básicas necessidades de proteção e segurança.

Uma consequência trivial da psicanálise para a teoria do consumo é pensar que este seja sobre-determinado pelo desejo do Outro. Isso torna o consumo um ato de palavra. Ao usar um tênis, pilotar um carro importado ou comprar uma casa em um condomínio não estou apenas satisfazendo necessidades, estou dizendo algo para os outros. Este ponto é crucial, pois se não levo isso em conta, se minha palavra é perdida neste ponto, posso não perceber que estou dizendo coisas agressivas, provocativas ou violentas. Posso não entender que para outras pessoas a minha opulência e ostentação possam causar desagradável inveja. E ao não reconhecer isso, a inveja, que é um dos nomes do desejo, pode virar ódio. Desta maneira, ao perder a dimensão a palavra, envolvida em meus gestos, inclusive os gestos de consumo, particularmente os que têm expressão pública, posso reforçar a mensagem de perigo e violência da qual tento fugir. Pois bem, o leitor pode verificar a pertinência deste resumo do que eu disse na gravação do Programa por si mesmo, afinal a tese é de que a palavra vem com o equívoco.

Mas qual não foi minha surpresa quando vejo a coluna de meu interlocutor Rodrigo Constantino comentando minha apresentação, redescrita por Francisco Razzo, da seguinte maneira:

"Nem me dei ao trabalho de quem é a pérola. Há fortes indícios de ser mais uma análise de um desses 'psicólogos sakamotianos' tomados pelo espírito de justiça social tentando realizar uma anatomia da alma dos opressores."

Ou seja, basta saber quem você é para que imediatamente possamos julgar a pertinência ou veracidade do que está sendo dito. A palavra está perdida para a pessoa. E assim, por ouvir dizer de outro, auto-declaradamente preguiçoso, Rodrigo Constantino comenta, não a tese, mas a pessoa que a enuncia:

"Esses psicanalistas parecem filósofos frustrados ou escritores ressentidos, e no fundo fazem de tudo para atacar os mais bem-sucedidos. […] Vivendo numa redoma, essas pessoas se blindam contra o 'real' e não querem se deparar com o Outro."

Atualmente vivendo em Miami, ele defende-se da crítica de que teria fugido do Brasil por covardia, dizendo que essa é uma atitude racional (para os que podem). "Eles" psicanalistas frustrados, ressentidos atacam a "nós" pessoas "mais bem sucedidas". Ou seja, se Constantino está certo eu (junto com toda minha classe) o invejo. Mas era exatamente isso que eu estava dizendo sobre a inveja e, portanto, ele me dá razão ao dizer que eu a perdi. Também quando diz que estou em uma "redoma blindada contra o real" reencontro meu argumento sobre a vida em forma de condomínio sendo empregado, desta vez contra mim. Ou seja, minhas palavras estão certas, minha pessoa é que está errada.

Este ponto é decisivo para entendermos como este discurso gera violência. O que vemos aqui é a transformação das diferenças sociais, da existência de pobres e ricos, da distribuição não equitativa de bens materiais e simbólicos, em um ressentimento de classe. Por isso os que estão na esquerda caviar são traidores, hipócritas e impostores. Eles não jogam no time dos ricos contra o time dos pobres. Pela regra do jogo os que perderam direito à palavra só podem se vingar por meio da bala. Por isso a coisa mais "lógica" a fazer é retirar-se para o condomínio, de preferência em Miami, e viver uma vida de refugiado sobrevivente.

Aqui encontramos o tradicional argumento da ameaça. Se você critica a vida em condomínio, e diz que ela envolve um tanto de inveja que pode causar nos que estão fora, você está apoiando o crime, o tráfico, os bandidos… enfim, os pobres que não podem ter condomínio. Mais uma vez os intelectuais (ou "pseudo-intelectuais") são traidores. Se eles defendem os pobres eles deveriam… ser pobres. Quem come caviar não pode querer que os de outros condomínios comam também. Isso é um contra senso, uma ameaça ao mais geral princípio da identidade.

(Aliás, por esta lógica de equívocos é bom lembrar que o melhor caviar é feito de ovas do esturjão, peixe que abunda o mar Cáspio, que circunda a Rússia, que por sua vez é parte da antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas… tá vendo? Caviar é da esquerda, você é que só sabe comer "x-burguêis"!)

Mas em outro sentido Constantino tem razão e suas palavras se ligam com sua pessoa. Somos traidores porque não aceitamos que a regra do jogo seja a da guerra de ricos contra pobres. Somos traidores porque acreditamos que as palavras recuperadas podem ser o meio para a suspensão das balas perdidas. Somos traidores porque acreditamos na regra da palavra, como meio de reconhecimento, entre ricos e pobres. E temos tanto medo quanto todos nós, pobres e ricos. Portanto estamos de acordo na medida em que:

"Não querem[os] encontrar o 'outro' mascarado e prestes a estuprar sua filha. Não querem[os], enfim, encontrar uma bala 'real'.

Mas estamos em desacordo que este medo:

"É só fuga."
(Rodrigo Constantino, "O gozo da inveja e o rancor dos pseudointelectuais", Blog da Veja)

O que o colunista da revista Veja, que acredita que estou parasitando sua audiência ao discutir com ele, não consegue perceber é que o condomínio é uma estrutura. Semelhante à prisão, ao Shopping Center ou à favela. Por não ter assistido ao programa, nem lido o livro, nem qualquer de suas resenhas e críticas (o que torna bastante prática esta lógica do 'basta saber quem você é'), Constantino simplesmente não entendeu o conceito de vida em forma de condomínio e acha que estou recriminando as pessoas que optam por este tipo de moradia, por bons e maus motivos.

Ele não entendeu que esta lógica toca a todos nós no Brasil de hoje. Não entendeu que ela concorre para a produção da violência da qual ele e todos nós nos queixamos. Um equívoco, gerado por outro equívoco, o do Sr. Razzo (e isso não é uma piada lacaniana!), que por sua vez engendra outros equívocos, que são soberbamente reproduzidos pelos leitores de Constantino. Esses sim são objeto de minha extrema preocupação (e 'inveja', dirá meu interlocutor). Como já havia verificado em outras ocasiões, nestes comentários encontramos uma mutação de tom, um aumento de virulência, uma acréscimo de gozo, que culminará na violência. Como se para agradar o mestre fosse preciso exagerar e amplificar seus métodos. Reproduzo as pérolas:

"Nosso suado dinheiro que banca as micaretas acadêmicas dessa corja."

"São simplesmente idiotas, imbuídos de má-vontade, tentando parecer importantes."

"O que um psicopata quer mesmo, principalmente se ele for de esquerda, não é ajudar os que ainda querem se arrumar na vida. Ele quer mesmo é atacar os que lutaram e conseguiram através do trabalho uma vida razoavelmente boa."

"Gozo através da inveja têm esses merdinhas que podem olhar debochadamente da nossa cara."

"Se Dunker mora em um prédio assim, é um hipócrita, como é a maioria dos intelectuais da Unicamp, USP., UERJ, UFF, PUC…"

"Na verdade, o que sustenta a suposta postura magnânima desta 'psicanalhada', é um profundo desrespeito pelo tal desejo do Outro, desejo de escolha, Liberdade para cada um decidir o seu próprio caminho, aspectos que ficam esquecidos no meio desta maldita Patrulha do Pensamento, que se instalou no campo da psicologia e da psicanálise neste país."

"Psicanalistas, psicólogos e semelhantes, na esmagadora maioria, sempre tiveram graves distúrbios mentais que os inclinaram a essas atividades em busca de aliviar seus próprios males!"

Ora, depoimentos como estes já são em si a prática da violência da qual se gostaria de fugir. Preconceitos contra professores, intelectuais, psicanalistas, psicólogos, uso de expressões ofensivas, declarações de ódio, como se o problema do país fossem seus… professores! O leitor deve ter percebido uma espécie de escalada discursiva, primeiro um comentário levemente depreciativo e desinformado do Sr. Razzo, depois uma incitação generalizada do Sr. Constantino, e ao final a força covarde de um grupo cantando o jogral do ódio contra outros grupos. Qual seria o próximo passo?

Acredito que uma parte substancial da violência não decorre das diferenças reais com as quais temos que lidar, mas como desprezo por seu reconhecimento enquanto diferenças de palavra. Uma série como a que apresentei acima é o retrato banal de como diferenças evoluem rapidamente numa somatória de equívocos para convergirem em uma violência, inicialmente verbal mas cujo passo seguinte todos sabemos bem qual é. Uma vez que as palavras do outro não importam, pois já sabemos o que ele vai dizer, basta classificar pessoas. Depois da classificação vem a segregação e finalmente a violência. A palavra perdida cria a bala perdida. É assim que funciona a lógica do condomínio, Sr. Constantino. Menos do que em sua moradia norte-americana ela está em suas próprias palavras.

Marcha da Maconha teve apoio de ativistas da cannabis medicinal

Marcha da Maconha defende legalização para acabar com guerra às drogas. Familiares de indivíduos que utilizam a erva para fins medicinais também participaram do ato. Não foram registrados conflitos e evento ocorreu em clima de paz

marcha da maconha são paulo
Marcha da Maconha ocorreu no último sábado em São Paulo. De acordo com organizadores, 15 mil participaram do ato (Imagem: Marlene Bergamo/Folhapress)

Manifestantes defenderam a legalização da maconha em uma marcha realizada no último sábado, 23, na avenida Paulista, pelas ruas da Augusta e da Consolação e por outras vias da região central. De acordo com os organizadores, 15 mil pessoas participaram do ato. A PM afirmou que cerca de 4 mil marcharam.

A Marcha da Maconha 2015 aconteceu em clima de paz e não foram registrados conflitos. Os manifestantes deixaram o vão-livre do Museu de Arte de São Paulo (Masp) e caminharam até o Largo São Francisco, onde fica a Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. A chegada ao largo ocorreu por volta de 18h50, e em sequência começaram a ser realizados shows de música.

O movimento foi focado na legalização da produção, circulação e uso de cannabis no Brasil, o que considera ser o primeiro passo rumo ao fim da "guerra às drogas".

Os manifestantes apresentaram faixas e cartazes em defesa da legalização da erva e para protestar contra prisões e mortes envolvendo o combate às drogas.

Texto publicado no site da marcha afirma que "a proibição já se mostrou ineficaz em cumprir seu papel anunciado, o de controlar o uso de substâncias e plantas ilícitas, que a cada ano estão mais acessíveis, como a maconha". E continua: "Então, por que insistir numa política que apenas leva a mortes e prisões, colocando o Brasil entre as três maiores populações carcerárias do mundo, com 715.655 presos? Por que não dar uma chance para a primavera verde florescer e provar que é possível construir uma política de drogas mais sensata e humana? Plantemos as sementes, quebremos as correntes".

Além de São Paulo, outras 32 cidades do Brasil realizaram a Marcha.

AbraCannabis

Ativistas da Associação Brasileira para Cannabis (AbraCannabis) também participaram da Marcha da Maconha 2015. A organização reúne familiares de indivíduos que utilizam a maconha medicinal.

Marcha da Maconha

A primeira marcha em São Paulo foi realizada em 2008, no parque Ibirapuera. Até 2011, os atos eram proibidos pelo Tribunal de Justiça sob a justificativa de que faziam apologia às drogas.

Os manifestantes continuaram indo às ruas, mas marcharam pelo direito à livre expressão. O STF (Supremo Tribunal Federal), então, liberou os atos, avaliando que sua proibição infringia o direito à liberdade de
expressão.

sábado, 23 de maio de 2015

Uma pessoa consulta o celular cerca de 1,5 mil vezes por semana

http://diariocatarinense.clicrbs.com.br/sc/economia/noticia/2015/05/uma-pessoa-consulta-o-celular-cerca-de-1-5-mil-vezes-por-semana-diz-especialista-em-tecnologia-4766905.html

"Uma pessoa consulta o celular cerca de 1,5 mil vezes por semana", diz especialista em tecnologia

Cristiano Nabuco é psicólogo membro do Grupo de Dependências Tecnológicas do Instituto de Psiquiatria da USP

"Uma pessoa consulta o celular cerca de 1,5 mil vezes por semana", diz especialista em tecnologia Divulgação/Divulgação
Cristiano NabucoFoto: Divulgação / Divulgação

O vício do smartphone é igual ao vício da internet?
Quando a gente começou a trabalhar com a dependência da internet, ela tinha características de estar colocada em uma mesa, em um computador maior. Não se tinha a perspectiva de ter a internet móvel, como passou a acontecer depois com a dependência de telefone celular. Existem algumas características que diferenciam, mas numa visão maior o princípio é o mesmo. 

O indivíduo acaba utilizando a tecnologia como forma de regular o que a gente chama de humor disfórico, ou seja, regular sensações desagradáveis, emoções que não são muito confortáveis. E, à medida que você faz uma, duas, três vezes o seu cérebro passa rapidamente a aprender. Ou seja, sempre que você vive alguma coisa que não é legal, você vai recorrer à tecnologia como uma forma de distrair ou para se sentir bem de novo. É uma forma de escape.

É uma forma de escape mais acessível do que cigarro e bebida, por exemplo?
São os chamados vícios. A gente tem, por exemplo, o vício do álcool, da droga. Depois de um uso recorrente, vai ocorrer a liberação de dopamina – um neurotransmissor que vai fazer com que o indivíduo tenha um aumento da motivação e da sensação de prazer. Durante um período se estudou quais seriam as semelhanças dessas dependências químicas com as comportamentais, como por exemplo o jogo patológico. Hoje já se sabe que a dependência em internet e do celular é comportamental. Uma pessoa que vê de fora vai dizer: "todos são diferentes". Mas, na verdade, é sim e não. Foi feito recentemente uma pesquisa em que avaliaram usuários pesados de álcool e drogas e se descobriu que esses indivíduos tinham desgaste da baia de mielina, uma substância branca que funciona como se fosse um fio plástico que encapa um condutor elétrico. A bainha de mielina tem a função de favorecer essa condutividade elétrica. Em usuários abusivos de álcool e drogas, é como se o fio estivesse queimado. Descobriram agora que usuários compulsivos de telefone celular também têm desgaste da bainha de mielina.

O fato de ele estar o tempo todo no bolso ou na bolsa complica mais?
Hoje há várias funções e parece que a que menos importa é telefonar. Porque o telefone funciona como um portal pessoal, além de ter máquina fotográfica, câmera filmadora, GPS, um monte de coisas. Em qualquer situação de recreação, tédio ou irritação, você saca o telefone do bolso. Uma pessoa chega a consultar o telefone celular cerca de 1,5 mil vezes por semana (o que dá 214 vezes por dia). Tem a função de distrair, mas começa a criar uma perspectiva progressiva e rápida de alienação.

Como funciona esse desgaste na bainha de mielina?
É o excesso. Vamos imaginar um aluno sentadinho ouvindo uma aula sobre a Revolução Francesa. O professor começa a falar de Robespierre e vibra o telefone celular na perna dele. É um amigo de duas cadeiras ao lado falando: "Você viu a saia da Marianinha?" Aí o cara manda um monte de positivo no Whatsapp e volta a olhar a professora: "...porque houve um problema com a burguesia francesa". Vibra de novo o celular: "O que você vai fazer hoje depois da aula?" E sem levar em conta que a mãe também mandou mensagem e a olhada no Facebook da namorada. Essa alternância contínua de operações mentais começa a criar um stress mental. E acredita-se que esse uso excessivo está ligado ao desgaste.

Como o vício no smartphone funciona no cérebro da pessoa? Tem a ver com, por exemplo, postar uma foto e receber 30 curtidas?
Isso fez eu me sentir bem. Aprendi então que tenho que postar uma outra foto para voltar a ter a sensação. Bom, mas na outra eu não tive 30 curtidas, tive cinco. Aí começo a ficar preocupado. Que porcaria, tenho que arranjar outra foto. E começo a procurar. Busco na minha galeria. Apago aquela que não tive curtidas. Opa, achei uma foto. Vinte curtidas. A vida passa a girar ao redor dessas questões que despertem a sensação de proximidade, de reconhecimento. E, quando ele passa a usar com mais frequência, leva à liberação de dopamina e cria esse mecanismo biológico que faz com que você fique sempre voltando, voltando e voltando.

Ser visto e admirado online não trazem benefícios ao mundo real, ao dia a dia no trabalho, por exemplo?
O que a gente entende é que as relações virtuais acabam se sobrepondo às relações concretas, do mundo real. E a preocupação que temos é que chegue um determinado momento em que essas pessoas não queiram mais se relacionar no cotidiano, pessoalmente, mas só nessas redes onde há o "controle", onde ele consegue ter maior manejo da situação. Até apagar se não gostar tanto. O que não dá para fazer na vida real.

Tem cura? Uma pessoa consegue começar a se tratar sozinha?
Acho que o primeiro passo é ter consciência de que alguma coisa não vai bem. Mas, dependendo do grau de dependência, aí não. Nos casos mais graves a pessoa vai precisar de ajuda especializada. Tem que compreender o quanto aquilo está fazendo mal.

O problema está aumentando?
Imaginamos que, quanto mais os indivíduos têm acesso à tecnologia, maior seja a perspectiva disso se manifestar. A gente tem, por exemplo, uma parcela de indivíduos que tem o telefone dado pelos pais, pelo fato de que, além da moda, virou um glamour: "Olha como meu filho consegue usar o telefone". 
Os pais estão favorecendo um tipo de acesso a uma população que ainda não tem controle total sobre o comportamento, abrindo uma porta perigosa.

Arquivos Malucos

Seguidores