Um livro é um mudo que fala, um surdo que responde, um cego que guia, um morto que vive. (Padre Antônio Vieira)

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Hannah Arendt na Av. Paulista

por Dante Donatelli

O conceito de Ralé em Hannah Arendt e as manifestações - Publicado em 2015

Hannah Arendt (1906-1975) alemã de nascimento, fugiu para os Estados Unidos em razão do nazismo e da perseguição aos judeus. Pensadora das maiores da história ocidental, tem uma vasta obra dedicada a filosofia política, a ética e a entender como chegamos a isto que hoje somos. A maioria da suas obras está traduzida para o português, porém, é pouco lida e pouco estuda por estas bandas, até porque, vivendo e produzindo em pleno século XX não é uma pensadora fácil de se classificar nos rótulos disponíveis no mercado de ontem e de hoje. É mais fácil dizer o que ela não é do que a enquadrar em algum modelo ideológico.

Lendo e relendo suas obras, em especial A Origem do Totalitarismo (2012, Cia das Letras, SP) imagino o como ela leria as manifestações de ódio que brotam em nossa sociedade hoje, e lendo o artigo do escritor Bernardo Carvalho Tolerância Zero, Discurso de Ódio se propaga em meio a mudanças sociais, políticas e ideológicas no país. (Folha de São Paulo, Ilustríssima, 09/07/2015 p. 6-7) como seria possível se posicionar diante da estupidez que nos assola e promete tomar conta ainda mais da vida brasileira depois do dia dezesseis. Imagino Hannah, olhando a Av. Paulista e a fauna que dela se ocupará em êxtase, clamando pelo fim da política e da democracia.

Antes de mais, quando falo da Av. Paulista e da fauna que lá estará penso inicialmente, nestes "líderes" de Revoltados OnLine, Movimento Brasil Livre, Vem pra Rua, SOS Forças Armadas e grupelhos de extrema direita fomentados por figuras como Olavo de Carvalho e endossados por uma trupe de jornalistas descabeçados e, evidentemente a parte da população que os seguem e se orientam pelas suas chamadas e crenças, gente que parece odiar tudo o que seja democrático, ou lembre o que é uma democracia, partindo do princípio elementar ao achar que todos que não estão lá, na Av. Paulista ou não os apoiam, são comunista empertigados e devem ser defenestrados da vida pública brasileira.

Ao buscar entender como o nazismo se apossou da Alemanha, Arendt formula a tese de que a Ralé chegou ao poder, como ela define o que seja esta Ralé? Ela se funda em grupos residuais de todas as classes sociais, por esta razão lembra Hannah, é fácil confundi-la com o povo (op. citada p.159) é como se fosse um grande resto, uma porção das mais diferentes classes sociais que tem em comum negar a política e a contradição como instâncias da vida social, por isso sua aversão a política e as práticas de equalização ou equilíbrio social e as diferentes instâncias da vida democrática; a ralé tem o ódio como missão e a violência como seus motores.

A Ralé é um "refugo" (p229) nascido dentro da sociedade burguesa que busca o despotismo como meio de superar todo e qualquer diferença, a força despótica pode e dá a ralé a oportunidade de se ver representada e legitimada, é força e negação constantes de qualquer ambiente político ordenado, porque ordem para ralé é o fim das contradições, é a não política, o cinismo, assim como a violência, como nota Hannah, norteia as suas práticas. Ver na Avenida Paulista senhoras e senhores brancos todos emproados ao lado de negros, mulatos e pobres em nada assusta, é o refugo se fazendo ouvir.

Arremessar bombas caseiras, atentados contra estrangeiros, ofender com baixo calão, seja onde for, e como for, os opositores e mesmo as figuras públicas é praxe, é parte da práxis da ralé, a leitura do artigo de Bernardo Carvalho tratando, entre outros, do imbecil que ofendeu e proferiu palavrões a presidente na Universidade de Stanford na Califórnia, é sintomático e expõe com clareza o que estamos afirmando. O dito que fez isto ainda declara, poderia ter feito pior. Pior aqui se subentende agredir fisicamente ou mesmo perpetrar um atentado contra a vida da presidente. A ralé é cínica e covarde, as práticas dos grupos paramilitares nazistas na pré-guerra são reveladoras.

A Ralé não deseja o diálogo, ela quer a barbárie, o confronto, a força impiedosa sobre todos que estão fora do seu espectro de convencimento e conivência, querem mais polícia, mais força e ação com o outro. Os mais radicalizados querem mais militares e mais repressão. A força é o único mote da ralé. Não basta prender o que é corrupto ou condenar o meliante, é preciso mais força, a humilhação pública, o achincalhe. As práticas do juiz Moro é um refresco aos olhos da ralé, policiais armados conduzindo velhos corruptos de cabeça baixa e mãos para trás como em um reformatório, o ato em si já é uma ação condenatório. Mas é preciso mais, a ralé deseja mais.

A ralé não crê na justiça, ela acredita antes na força, na violência, porque entre a força e a justiça há inteligência, e a ralé tem repulsa odiosa ao intelectual e a seu saber.Dúvidas quanto a isso, o juiz da Lava Jato ou os do STF somente serão bons se condenarem, não importa se não houver provas ou amparo legal, só se condenarem. Para ralé o direito é uma falácia todas as vezes que se opõe aquilo que ela crê a priori como verdade. Estado de Direito, é só estado, o direito é conveniência, exemplo, nas manifestações de março muitos diziam em cartazes, Sonegar não é crime.

No domingo veremos forcas, gritos de morte, paredão e guerra santa contra todos que não somos nós, a ralé quer o fim da política. A outra parte, a massa que lá comparece se ressente do vocabulário, da necessidade violenta que tem a ralé em se impor, e como são eles os "organizadores" da manifestação, a massa que deseja uma política melhor se horroriza ou deveria.

Um dado que Arendt chama a atenção, é o recrudescimento do discurso nacionalista, somos nós os puros, maculados pela sujeira que vem de fora, o ódio contra haitianos e congêneres é sintomático deste estado doentio da ralé, veremos na avenida um punhado de menções a esta sujeira vinda no além fronteiras, e mesmo em uma sociedade forjada por imigrantes, a insanidade nacionalista estará presente, em fim de contas, a nacionalidade é uma das poucas certezas e alívios da ralé, não há classe, isto é coisa de comunista, eu sou brasileiro, a ralé, como notamos, é o refugo das classes sociais, o pertencimento se dá neste contexto, um tirano, Bolsonaro cabe como uma luva neste universo, nos une, pela nacionalidade representada metaforizada na farda e no galardão e nos defende contra a praga fétida que vem do exterior pois ela tem nome, sobrenome e cor.

A ralé se apossa da nacionalidade como única instância possível de se ver representada em meio a crença de que a vida pública não precisa de e da política, ela necessita da violência higienizadora das nossas vidas, e mantenha bem longe toda e qualquer forma de contradição social, ninguém é confiável para ralé até que se prove o contrário, o judiciário, a imprensa, as instituições sociais estão em risco porque nela estão muitos que não são um de nós. Não é à toa que a família se torna o bastião das garantias sociais, e é defendida, pois é ela o último lugar de resistência e refúgio seguro da ralé. É preciso encontrar um homem, um tirano que nos conduza na direção da homogeneização plena e ao mesmo tempo alimente nosso ódio diário contra o outro. A Ralé, como lembrou Hannah, se alimenta do ódio cego e doentio, odiar judeus era uma missão no nazismo, odiar negros era um dever na África do Sul, odiar os diferentes (estrangeiros, os que não pensam igual etc...) é o dever da nossa Ralé.

Em março, na última manifestação, a ralé acreditou que o governo não duraria duas semanas, agora, com menos pessoas na rua e um discurso mais radicalizado esperam que não dure uma semana, porém sem uma parte da política viva e ativa da sociedade, dificilmente isto irá ocorrer, será preciso convencer uma parte do mundo político estabelecido para que isso ocorra, e mesmo assim, a parte expressiva e decisiva, não os oportunistas de plantão. Collor caiu porque ao lado das ruas havia uma parte expressiva da vida política nacional legitimando sua saída. A Ralé, por enquanto só comoveu o substrato mais fraco e sujo deste mundo. Sem dúvida há sempre a opção da força e do golpe, resta saber se a ralé tem esta força.

Quem são os responsáveis pelo ódio que avança: um 1964 em câmera lenta

A direita comemora essa imagem: mas e quando outros pescoços forem para a forca?

por Rodrigo Vianna

Não é exagero afirmar que estamos em meio à maior ofensiva conservadora no Brasil, desde 1964.

A violência verbal de blogueiros como Reinaldo Azevedo transbordou para as ruas. Isso desde 2013, quando brucutus de academia e falanges de direita tentaram impedir militantes de movimentos sociais de marchar na avenida Paulista.

Em 2015, o tom subiu: pregou-se abertamente o golpe e a volta da ditadura, atacou-se gente ligada ao PT em restaurantes, hospitais e até na rua. Panelas batem nas varandas da classe média – que está à beira de um ataque de nervos.

O adversário não deve ser ouvido, nem levado em conta. Deve ser esmagado, preso, proscrito. É nesse pé em que estamos.

O músico Tico Santa Cruz recebe ameaças pelo telefone. Alinhado com as políticas sociais de Lula, ele virou alvo de gente que (em chamadas covardes, pelo telefone) fala em atacar os filhos adolescentes de Tico. Ouvi o aúdio de uma das ligações: o homem que ameaça sabe os nomes dos filhos do músico, e diz falar em nome de Eduardo Cunha. Tico pede que o aúdio não seja divulgado, por enquanto, já que está buscando apoio da polícia contra as ameaças – clique aqui para ver o que Tico Santa Cruz conta sobre as ameaças.

Miriam Dutra, que denunciou os esquemas da Globo com FHC, também recebe uma ameaça nada velada: a ex-amante de FHC, que a família Marinho escondeu na Europa para não gerar um escândalo, está internada num hospital espanhol – com grave crise emocional. Enquanto isso, invadem a conta dela no Facebook "anunciando" que Miriam está morta. Sim, são esses os métodos.

A Globo também ameaça blogueiros. Vai citar extra-judicialmente todos aqueles que fizeram referência à emissora. É o poder da Casa Grande que, diante da tibieza do governo, percebe a avenida aberta para uma restauração completa.

Os que se resistem contra o avanço conservador recebem uma dupla mensagem: da direita, vem o aviso de que não estamos mais no terreno dos debates, mas da guerra total; do governo eleito com os votos da esquerda e da centro-esquerda, por outro lado, chegam sinais de rendição e derrota.

A tabelinha mídia/Judiciário avança e aperta o torniquete. Estamos diante de um 1964 em câmera lenta. E não há outro caminho, a não ser enfrentar as ameaças.

Passei os últimos anos estudando a Colômbia, numa pesquisa de Mestrado. Desde o século XIX, o país tem eleições regulares, mas a característica básica do regime colombiano é ser uma democracia restrita: a esquerda e os movimentos sociais foram sempre excluídos do jogo político. Conservadores e Liberais se revezam no poder, enquanto setores populares sofrem com assassinatos, exclusão, perseguição.

Enquanto Brasil e Argentina incorporaram as massas ao jogo político, com o peronismo e o varguismo, a Colômbia viu ser assassinado o líder popular que se apresentava para liderar os trabalhadores: no dia 9 de abril de 1948, Jorge Gaitán foi morto no centro de Bogotá; era favorito para virar presidente nas eleições seguintes.

A morte de Gaitán mostrou a amplos setores que o caminho institucional estava fechado. Por todo o país, pipocaram guerrilhas que nem eram de esquerda, mas "liberais". De uma dessas guerrilhas, surgiria alguns anos depois, no início da década de 1960, as FARC.

Não adianta dizer que as FARC são apenas uma "narco-guerrilha". Claro, na Colômbia quase todos os entes têm relação com os interesses do tráfico. Mas as FARC não são filhas da droga. São filhas da exclusão social e do ambiente político excludente.

A democracia restrita jogou parte da população para fora do jogo político. Nunca houve na Colômbia um partido trabalhista. Nunca. O caminho foi o das armas.  

Hora dessas falo um pouco mais sobre a Colômbia. Mas o que me assusta é ver que o Brasil pode, muito tempo depois, seguir caminho parecido.

Tudo leva a crer que setores do Judiciário e da elite política e midiática tomaram a decisão de expurgar a esquerda (e mesmo a centro-esquerda) do jogo político.

Se isso ocorrer, estará aberto o caminho para que a política seja feita por outras vias.

Por enquanto, é a direita que toma a iniciativa de usar a violência. Mas, ao fechar as portas do sistema político para um partido com quase 2 milhões de filiados, e com pelo menos 30 ou 40 milhões de simpatizantes, a direita abre as portas para a guerra política.

Desde já é possível apontar 3 personagens e 2 famílias com responsabilidade pelo clima de ódio que avança:

Reinaldo Azevedo, que cunhou o termo "petralha", e há anos é pioneiro em espalhar o ódio pelas redes sociais, sempre com patrocínio do tucanato;

José Serra, que na eleição de 2010 trouxe esse ódio das redes para as ruas, com uma campanha feita na base do preconceito e da pregação conservadora;

Ali Kamel, que colocou a máquina da Globo, de forma discreta mas persistente, numa campanha de criminalização da esquerda;

e as famílias Marinho e Civita, pela permanente semeadura do ódio.

Quando o caldo entornar de vez, cada um pagará sua cota por levar o país para um clima de confrontação e ódio. Por enquanto, eles comemoram, porque só um lado bate.

Em breve, talvez, essa gente vai perceber que quem apanha sem parar não esquece jamais os nomes de seus algozes.

A história vai dar o troco. Não tenham dúvidas.

Chega de Lulinha paz e amor: agora é pá fudê!

No aniversário dos 36 anos do PT, no "Armazém da Utopia", no Rio, nesse sábado 27/2, Lula falou quase uma hora.

Eis alguns trechos, aqui reproduzidos não literalmente (não deixe de ler também a carta que Dilma enviou do Chile: mexeu com Lula, mexeu comigo".


O PT são milhões de brasileiros.

Vasco é o meu time no Rio e eu continuo vascaíno.

O Vasco não está bem mas eu continuo vascaíno.

Foi o primeiro time brasileiro a ter negro.

Há uma fragilidade de lideranças no mundo inteiro.

Tem crise desde 2007 e não se resolveu depois de aplicarem 32 trilhões de dólares.

Porque querem resolver primeiro o problema do mercado e depois o do povo.

Se a Economia não vai bem a coisa não vai bem.

E a culpa não é do nosso Governo, mas de uma conjuntura mundial.

Se quiser resolver a crise tem que olhar para o pobre outra vez: pobre não é problema, mas solução !

Se tivessem financiado novas tecnologias, máquinas modernas,  Alemanha vendia máquina à África, os Estados Unidos vendiam tecnologia para a África e América Latina e a crise não existiria.

Se acovardaram, reduziram consumo, o empréstimo e a economia se atrofiou.

A dívida bruta americana em 2007 era de 64% do PIB, e agora chegou a 114% do PIB.

Dilma sozinha não vai resolver esse problema.

Esse Governo é nosso !

E nós temos responsabilidade de ajudar, discutir, de compartilhar e encontrar saídas.

O militante do PT não pode virar as costas e dizer o problema  não é meu.

O problema é nosso !

Meu, seu e da Dilma !

Dilma tem que ter certeza de que, por mais que tenha discordância, o lado dela é esse ! Ela precisa de nós para enfrentar os ataques que sofre do Congresso.

O país tem um potencial extraordinário: é possível resolver os problemas desse país !

Não podemos ter medo nem dúvida.

Vamos assumir a responsabilidade, como assumimos, em 2004, 2007, 2012.

Temos mercado interno !

Vamos divergir o que tiver que divergir, falar o que tem que falar !

Partido não tem que concordar com tudo o que o Governo quer e o Governo não tem concordar com tudo o que Partido quer.

Mas estamos juntos. É como um casal.

Você pode brigar com a tua mulher mas ela é tua mulher.

Vai ter que dormir junto !

Dilma, eu estou na frente de milhares e milhares de homens e mulheres que são soldados.

Guerreiros e guerreiras para defender o seu mandato até as últimas consequências.

(Na plateia: "não vai ter golpe !")

Não tem partido de oposição.

Tem um partido chamado Globo, um chamado Veja, outro chamado outros jornais.

Essa é a Oposição.

E bom eles saberem: se eles quiserem voltar ao Poder vão ter que aprender a ser democratas, disputar eleição e respeitar o resultado.

Sacanagem não aceitamos. Golpe não vamos aceitar !

Afiem as suas garras e vamos disputar democraticamente em 2018.

Debater projeto.

Qual o projeto que interessa a esse pais ?

Qual o projeto que colocou mais pobre na universidade e comida na mesa do brasileiro, que mais investiu em educação e fez 40 milhões de pessoas ascenderem na escala social e levou energia elétrica a milhões e milhões de brasileiros ?

Gente do céu !

Se durante 500 anos não souberam cuidar desse povo e nos em doze anos ensinamos que é possível tratar esse povo com dignidade.

Uma menina negra da periferia chegar à universidade e ser doutora.

E o moleque da periferia não ser trombadinha mas ser doutor !

Eles passaram quatrocentos anos para fazer a primeira universidade.

Em doze anos colocamos mais jovens na universidade que eles colocaram em cem anos.

Eles não precisavam porque faziam pós-graduação na Sorbonne, em Harvard e não sei mais aonde.

Eles não sabiam que pobre também é inteligente.

Ou eles acham que a gente nasceu para ser pedreiro ?

Acabou !

Foi o PT que mudou isso !

Quando eu cheguei lá não era um presidente, era um trabalhador que sabia o que era o chão da fabrica, o que era a fome !

O Rio só não é mais bonito que Garanhuns.

Eu ando de saco cheio com o comportamento de nosso inimigos na imprensa.

Nos brigamos na Constituinte para ter um Ministério Público forte e independente e tem um Ministério Público fazendo jogo da Veja e do Globo.

Não merecem o cargo de quem esta no cargo para fazer Justiça.

Prometi a mim mesmo não tocar nesse assunto.

Sou acusado de ter um apartamento.

Um triplex minha casa minha vida.

200 metros quadrados.

Quero ver omo é que vai ficar essa história.

Digo que não é meu, a empresa diz que não é meu, mas um cidadão que obedece à Globo … e a rede globo diz que o triplex é meu .

Quero saber quem é que vai me dar esse maldito apartamento !

Como Deus escreve certo por linhas tortas, inventaram uma offshore no Panamá – offshore, não sei o que é isso, deve ser coisa para enganar pobre.

Disseram que a empresa veio do Panamá para ser dona do meu apartamento e é dona do triplex da Globo em Paraty é dona do helicóptero (da Globo).

E a Globo notificou os blogueiros pra tirar o nome da Globo.

(Leia "Brito notifica notificação da Globo")

Então vamos notificar a Globo para tirar o nome do PT como ela usa todo dia.

Todo mundo aqui conhece o Jacó Bittar, meu companheiro de 40 anos, fundador do PT, da CUT e prefeito de Campinas.

O Jacó Bittar inventou de comprar uma chácara para eu usar quando deixasse a Presidência.

A chácara não é minha.

Ela foi comprada com cheque administrativo.

O Jacó deu ao filho Fernando.

Eles dizem que a chácara é minha.

Quando acabar esse processo, vão ter que me dar um apartamento e uma chácara.

Todo santo dia, levantam dúvidas e mais dúvidas.

O PT não nasceu pra ficar calado !

Se um companheiro do PT cometeu erro, vai pagar pelo erro.

Mas não podemos culpar milhões de jovens que ascenderam na política por causa do PT.

Já fui prestar vários depoimentos.

A partir de segunda feira vão quebrar meus sigilos fiscal, telefônico, tudo, meu da Marisa, da minha netinha e até da minha mãe.

Esse é o preço ?

Eu pago !


Mas, eu duvido que tenha um mais honesto do que eu !

É processo em que a Policia Federal e o Ministério, essas instituições não podem fazer como esse procurador que fala primeiro com a revista e a globo e depois com o advogado !

Pessoas para estarem presas tem que ser julgadas !

Não podemos criminalizar qualquer pessoa pela manchete da imprensa.

Juizes têm medo de votar com medo da manchete do jornal !

Me contaram que ouviram um Ministro dizer: passou uma passeata na porta da minha casa e eu fiquei com medo !

Um Ministro da Supremo Corte não pode agir com medo da opinião pública.

Se quer disputar a opinião publica não pode ter emprego vitalício e ficar sob a pressão da imprensa.

Dispute uma eleição e seja deputado.

Hoje, a Veja, a Época, o Globo e a Globo determinam: Jandira (Feghali), você é criminosa e aí eu vou procurar que crimes você cometeu !

Eu tenho 70 anos de idade.

Quando eu tive um câncer na garganta, muita gente disse: acabou: esse peão vai embora !

Quero dizer a Ministro da Suprema ao Juiz mais simples, da televisão maior à menor: não vão me derrotar mentindo !

Vão ter que me enfrentar na rua !

Eles pensam que fazendo essa perseguição vão me tirar da luta.

O PT é um movimento que em doze anos fez o mundo admirar esse país extraordinário !

Eles têm ódio.

Já tiveram muito cientista politico, usineiro governando esse país e nenhum deles participou de uma reunião do G8 e participei de todas.

O que eu tenho e que eles não tem é vergonha na cara e compromisso com o povo.

Quero lançar um desafio.

Pensei em sair do Brasil e deixar a Dilma governar.

Se for necessário, quero dizer alto e bom som: terei 72 anos com tesão de trinta para ser candidato a Presidente !

(Plateia: "Lula, guerreiro, do povo brasileiro")

Nem a morte apaga a vida do homem de verdade.

Se você tem uma causa, a causa fica pairando na cabeça de milhões de pessoas.

Se ele fossem honestos eles faziam uma investigação na conta de outros partidos políticos para ver quem financia eles – e o PT.

Não vão nos destruir.

Nós sairemos mais fortes dessa luta.

Se eu cometer um erro não vai ser a Globo que vai anunciar a vocês: vou ser eu !

Vocês sabem o que ele fazem contra a gente todo santo dia.

A gente vai vencê-los com a nossa verdade.

Tem uma senhora aí na plateia que diz que ainda bem que a Globo está falando mal de mim.

Porque no dia em que me elogiar, ela não acredita.

Vale pro PCdoB, pro PDT, pro PSB: temos que utilizar a tribuna da Câmara e do Senado.

A gente tem imunidade, tem mandato.

Não podemos levar desaforo pra casa.

Se falarem merda contra a gente vamos falar duas.

Esse partido não tem medo de coxinha.

Se tivesse, não comia tanto frango.

Lavei minha alma !

Daqui pra frente, é pão, pão, queijo, queijo.

Lulinha não vai ser mais Lulinha paz e amor !





sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

A economia brasileira está sob a dominância jurídica

Economistas discutem se a economia está ou não sob a dominância fiscal – termo para descrever situações em que o quadro fiscal assume tal risco que a economia não responde mais aos impulsos monetários. Na realidade, a economia brasileira está sob a dominância jurídica

economia brasileira sob dominação jurídica mídia

Luis Nassif, GGN

Os economistas discutem se a economia está ou não sob a dominância fiscal – termo para descrever situações em que o quadro fiscal assume tal risco que a economia não responde mais aos impulsos monetários.

Objetivamente, a economia brasileira está sob a dominância jurídica.

Durante boas décadas o país foi governado pela teocracia dos economistas. A inflação elevada, mais a globalização dos mercados, conferiu-lhes poder político acima dos partidos.

A perda do discurso econômico e a erosão da credibilidade presidencial provocaram um vácuo na opinião pública, uma perda de rumo, do discurso e das propostas aglutinadoras, enfim, de um projeto de país. E a dominância econômica cedeu lugar á dominância jurídica.

É nesse vácuo que a besta foi liberada – o sentimento de manada irracional, alimentado pelo ódio e pela intolerância, que acomete países que perderam o rumo.

Quem consegue cavalgar a besta, assume o controle do discurso público. Torna-se um deus ex-machina.

A besta foi alimentada com um foco claro: a corrupção política.

De repente, a opinião pública perdida encontra um discurso unificador, a enorme vendetta política contra a corrupção dos outros, como se todos os problemas do país fossem resolvidos meramente com uma gigantesca caça às bruxas.

A besta traz consigo a balbúrdia de informações. Os alertas sobre a necessidade de prender os culpados sem desmontar a economia são ignorados. Basta os novos oráculos brandirem frases de senso comum. Tipo, basta limpar a corrupção para a economia ficar saudável. Ou, se quebrar uma empresa, outra surgirá no lugar.

Na era das banalidades, dos factoides das redes sociais, e do empobrecimento do discurso econômico, a descrença em relação às chamadas "opiniões técnicas" permite toda sorte de demagogia do senso comum.

Com a falta de ação do Executivo, a sombra da besta vai se impondo sobre todos os setores. Há a banalização das prisões e o recuo das figuras referenciais. Por receio de enfrentar a besta, Ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), que se supunha guardiões impávidos dos direitos civis – abolem a apelação à Terceira Instância.

Para prender o vilão símbolo – Luiz Estevão -, em vez de atuar sobre outros fatores de protelação, liquidam com a possibilidade da terceira instância, sujeitando outros tipos de réus às idiossincrasias e influências políticas nos tribunais estaduais.

É só acompanhar o que ocorreu no Maranhão e no Amapá de José Sarney, com políticos eleitos perdendo o mandato em cima de acusações risíveis: compra de um voto por R$ 15,00. Ou no Rio de Janeiro, com as ações da Globo contra jornalistas críticos.

A caça às bruxas atual será refresco perto do que virá pela frente.

Nem se pense em uma dominância jurídica impessoal pairando acima das paixões políticas. A besta tem lado e se prevalece das imperfeições jurídicas e políticas.

O modelo político universalizou as práticas ilegais. Todos os partidos se valeram disso. O jogo político consiste em investir contra um lado apenas – blindando e fortalecendo o outro. Ou então, valer-se das dificuldades processuais para proteger aliados. Jackson Lago foi deposto acusado de ter comprado um eleitor com R$ 20,00.

É nítida a aliança entre Ministério Público Federal e grupos de mídia. O bater bumbo da mídia ajuda a superar obstáculos, quando os alvos são adversários da mídia. Quando o suspeito é a própria mídia, obviamente não há bumbo, e não há vontade política de avançar.

É o que explica o caso das informações sobre a Globo, enviadas pelo FBI, estarem paradas há um ano nas mãos de uma juíza de primeira instância.

Culpa das imperfeições jurídicas, é claro.

Quando a besta sai às ruas, os valentes tremem, os crentes abjuram, os referenciais se escondem.

A besta reescreve biografias, reputações, reavalia caráteres, pois é um teste de estresse, no qual muitos grandes se apequenam, e alguns pequenos se agigantam.

A besta passa imperial, despejando fogos pelas ventas e farejando de longe o cheiro do medo. Os medrosos, ela espanta com seus uivos. Os que resistem, ela ataca, rasga reputações, destrói histórias, promove grandes orgias públicas expondo os recalcitrantes em praça pública.

É só conferir o que está acontecendo com advogados que ousam criticar a operação. Ou o que irá acontecer com a esposa do publicitário João Santana que, algemada, ousou dizer que não baixará a cabeça. Como não? Será isolada, a prisão será prorrogada, mensagens pessoais serão divulgadas, sua vida será devassada até que baixe a cabeça. Esse Deus vingador não admite esses arroubos.

No Brasil, a besta intimidou até donos de grandes biografias, como o Ministro Luís

A pior parte da história é que a besta não resolve problemas econômicos. E não quer abrir mão do protagonismo político. Há uma crise perigosíssima no horizonte. A cada tentativa da presidente de avançar em um acordo com o Congresso ou com a sociedade civil, a besta irrompe de Curitiba e promove um novo festival de factoides, paralisando completamente o discurso público.

Nesse clima irracional, há a desmoralização total dos partidos políticos, do PT ao PSDB. Nas últimas pesquisas de opinião, o único segmento que cresceu foi o dos anti-petistas – denominação para os que querem a volta dos militares e acham que os terroristas árabes vão invadir o Brasil. Hoje em dia, tem 18% da opinião pública, mais do que qualquer outro partido.

Não se sabe até onde irá essa loucura coletiva.

Resta o consolo de saber que, mesmo impotentes, ainda existem juízes que colocam suas convicções acima do medo.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Abaixo a mídia golpista e subserviente: VIVA O POVO BRASILEIRO!

Por Altamiro Borges

Não foi só Aécio Neves, o cambaleante tucano, que até hoje não engoliu a surra nas urnas em outubro de 2014 - a quarta consecutiva da oposição neoliberal no país. A mídia monopolista, controlada por sete famílias feudais, também não se conforma com a derrota. Ela fez de tudo para desgastar o governo Dilma e para blindar o senador mineiro-carioca, mesmo desconfiando do seu estilo playboy. A capa criminosa da "Veja", a revista do esgoto, na véspera do segundo turno, foi o ápice desta cruzada para evitar a reeleição da petista, servindo de panfleto aos cabos eleitorais do presidenciável do PSDB. O nível das baixarias da campanha eleitoral já indicava que a guerra midiática era um caminho sem volta, que a partidarização da mídia chegara a um ponto de não-retorno.

A expressão de desalento de Willian Bonner ao confirmar a derrota de Aécio Neves na telinha da TV Globo foi a senha do que viria na sequência. Desde a sua posse para o segundo mandato, em janeiro de 2015, Dilma Rousseff não teve um segundo de paz e tranquilidade. A mídia partidarizada pautou as siglas da oposição, que se transformaram em meros apêndices – sem vida própria, sem rumo e sem projeto para o Brasil. O show pirotécnico da Operação Lava-Jato, com suas prisões arbitrárias, suas "delações premiadas e premeditadas" e seus vazamentos seletivos, virou o aríete dos moralistas sem moral. Não é para menos que o juiz-carrasco Sergio Moro ganhou as capas das revistonas e foi premiado como "o brasileiro do ano" pela imaculada famiglia Marinho.

A mídia ressuscitou o moribundo Tribunal de Contas da União (TCU), que nunca teve espaço em seus veículos, com o intento de fustigar o governo reeleito. Ela também deu guarita aos ministros do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para questionar as contas da campanha vitoriosa. Além de utilizar os aparatos de hegemonia do Estado, ela instigou os recalcados com os avanços sociais a rosnarem pelo impeachment de Dilma e pela volta dos militares ao poder. Jornais, revistas e emissoras de rádio e televisão convocaram escancaradamente as quatro marchas golpistas do ano passado. Após chocar o ovo da serpente durante vários anos, a mídia conseguiu tirar os fascistas do armário e lotar as ruas numa cruzada conservadora e de ódio sem precedentes na história recente do país.

"Sangrar" Dilma e "matar" Lula

Essa cavalgada golpista, porém, não conseguiu depor o governo democraticamente eleito pela maioria dos brasileiros. No final do ano, a oposição midiática e partidária sofreu duros revezes. O herói dos fascistas mirins, o correntista suíço Eduardo Cunha, foi desmascarado na sua manobra diversionista para escapar da cassação e da prisão. A Procuradoria-Geral da República (PGR) finalmente pediu seu afastamento da presidência da Câmara Federal. Já o Supremo Tribunal Federal (STF), atendendo a uma solicitação da bancada do PCdoB, abortou a sua "comissão especial do impeachment". Para fechar o ano goleando a mídia e os "midiotas", os movimentos sociais demonstraram maturidade e unidade e organizaram gigantescos atos contra o golpismo e em defesa da democracia.

Mas, como já foi dito, a mídia monopolista chegou a um ponto de não-retorno. Com o desgaste temporário da tese do impeachment, ela adota uma nova tática, que consiste em "sangrar" Dilma e "matar" Lula. Atuando como um partido coeso e centralizado, que lembra a rígida disciplina militar, ela agora pauta a sua linha editorial no esforço para desgastar diuturnamente o governo, inclusive jogando no pessimismo e na paralisação econômica do país, e para evitar o risco do retorno do carismático líder petista nas eleições presidenciais de 2018. Nesta cruzada insana, a imprensa nativa bate recordes mundiais de cretinice e imundices. Vale tudo: o tríplex que não é de Lula, a sítio do amigo, os pedalinhos, o "iate" de latão comprado por R$ 4 mil pela ex-primeira-dama.

Eduardo Cunha, o correntista suíço, é poupado pela mídia falsamente moralista e segue com suas tramoias para evitar a cassação e a prisão. Aécio Neves, o "chato" que recebeu "um terço" do esquema de propina de Furnas, é tratado como santo. Geraldo Alckmin, o governador paulista que espanca estudantes e frauda merendas escolares, desaparece das páginas dos jornais e das telinhas da televisão. A forte blindagem aos tucanos confirma uma piada que circula pelas redes sociais: basta se filiar ao PSDB para não ser investigado, julgado, condenado e, muito menos, preso! Mas o contexto de adversidades não permite brincadeiras. A tática midiática de "sangrar" Dilma e "matar" Lula tem impacto no imaginário popular e terá reflexos das próximas contentas eleitorais.

As razões da partidarização da mídia

O que explica tamanha radicalização da mídia na sua partidarização direitista? Afinal, os governos Lula e Dilma não promoveram transformações estruturais no Brasil, não afetaram os interesses econômicos das elites dominantes. No máximo, eles realizaram um "reformismo brando", com alguns avanços sociais e a ampliação da democracia. Apesar da neurose dos "midiotas", o país não tem nada de "bolivariano" e, muito menos, de socialista. Os ricos seguem ganhando muito dinheiro – que o digam os três filhos de Roberto Marinho, que figuram no topo do ranking da revista Forbes como os maiores bilionários brasileiros. Eles também mantêm seus privilégios, suas contas secretas em paraísos fiscais e a sua sonegação criminosa de imposto – inclusive os barões da mídia.

O ódio visceral dos barões da mídia têm razões políticas e econômicas. Ele já se manifestou em outros momentos da história do Brasil – como na cruzada que levou ao suicídio do "trabalhista" Getúlio Vargas, na campanha contra o "desenvolvimentista" Juscelino Kubitschek ou no golpe militar que derrubou João Goulart em 1964. A chamada "grande imprensa" nunca aceitou governos comprometidos com os anseios populares e com o projeto de desenvolvimento da nação – mesmo os oriundos de dissidências na burguesia. Ela sempre se comportou como um instrumento partidário da oligarquia mais reacionária, egoísta e entreguista. Daí sua histórica defesa do receituário ultraliberal, sua satanização dos movimentos sociais e seu doentio complexo de vira-lata diante dos EUA.

No caso do ex-presidente Lula, a este fator político é preciso acrescentar uma razão de classe. Os barões da mídia nunca toleraram a chegada ao Palácio do Planalto de um retirante nordestino, peão e líder grevista. Na sua mentalidade escravocrata, o trabalhador é para trabalhar. Não é para pensar e muito menos para governar um país da dimensão do Brasil. Para eles, é natural – quase sagrado – que FHC frequente a mansão de um "amigo" em Paris e seja proprietário de um apartamento de luxo em Higienópolis; é justo que Aécio Neves use um jatinho oficial para dar carona para celebridades globais e que até construa um aeroporto na fazenda do seu tio-avô no interior mineiro. Já o peão não pode ter um apartamento na praia e nem um pedalinho ou canoa de metal. Já no caso da presidenta Dilma Rousseff, é preciso acrescentar a questão do machismo – tão presente na sociedade brasileira deformada pela mídia.

O fator político, porém, não é o único motivo da imprensa para a sua radicalização partidária. Os barões da mídia não dão ponto sem nó. Eles seguem com as suas fortunas, alienando os brasileiros e explorando a mão de obra barata de seus jornalistas – inclusive daqueles que chamam o patrão de companheiro. Mas eles percebem que seu modelo de negócios está em declínio, em decorrência da explosão da internet e da própria perda de credibilidade dos seus veículos. Muitos jornais já faliram ou tiveram quedas vertiginosas de tiragem. A Folha de S.Paulo, o maior diário do Brasil, despencou de um milhão para menos de 200 mil exemplares. As revistas estão em decadência, inclusive a asquerosa "Veja". As audiências da tevê derretem a cada dia. No ano passado, por exemplo, a TV Globo perdeu 7% do seu faturamento em publicidade. Diante deste cenário dramático, a eleição de um "governo-amigo" seria vital para reerguer o setor!

O que fazer diante do golpismo da mídia?

Em função da crescente monopolização do setor, da sua perigosa fascistização e das próprias mutações em curso na área da comunicação, a questão do papel estratégico da mídia é hoje um dos temas mais debatidos em todo o planeta. Nos EUA, por exemplo, o presidente Barack Obama se recusou a dar entrevista a Fox, do "imperador" Rupert Murdoch, tratada como um "aparelho" do Partido Republicano. No Reino Unido, a "bolivariana" rainha Elizabeth aprovou uma lei duríssima contra as calúnias e difamações dos jornais privados. Já na América Latina, os governos progressistas tiveram que se defrontar com os barões da mídia, que substituíram os decadentes partidos conservadores nas suas campanhas de desestabilização política e econômica. A "Ley Resorte" da Venezuela, a "Ley de Medios" da Argentina e as novas Constituições da Bolívia e do Equador representaram momentos decisivos desta batalha comunicacional.

Já no Brasil, paraíso dos banqueiros, dos latifundiários e dos barões da mídia, o debate sobre o tema está interditado. A legislação que rege o setor é de 1962, antes da existência do satélite, da tevê a cores ou da internet. Neste longo período, 19 projetos foram elaborados para regulamentar o setor, inclusive pelos generais e pelo servil FHC, mas nenhum saiu do papel. A ditadura da mídia se impôs, esbravejando cinicamente pela liberdade de expressão. Os governos Lula e Dilma também não enfrentaram as aberrações deste setor e pagam um alto preço pela falta de coragem política. Na atual correlação de forças do Congresso Nacional – dominado pelas bancadas da bala e da bíblia, filhas pródigas dos monopólios midiáticos –, o debate sobre o tema ficou ainda mais difícil.

Mas o balanço da correlação de forças nunca deve servir para o acovardamento político, mas sim para a análise concreta da situação concreta e para definir as melhores estratégias de superação das adversidades. Com a mídia cada vez mais monopolizada e partidarizada não é apenas o governo Dilma que corre riscos; não é somente o ex-presidente Lula que sofre a desconstrução do seu legado. É a própria democracia que está em perigo; é o projeto de soberania e desenvolvimento que fica contido; é a luta dos trabalhadores pela superação da barbárie capitalista que esbarra em obstáculos intransponíveis. A batalha pela democratização da comunicação é hoje estratégica e não pode ser subestimada. E ela se dá em duas frentes, que se articulam e se complementam.

A primeira é por mudanças na legislação e nas políticas públicas que fragilizem os monopólios midiáticos e estimulem maior pluralidade e diversidades nos meios. A proposta da "lei da mídia democrática", elaborada pelo Fórum Nacional de Democratização da Comunicação (FNDC), que congrega os principais movimentos sociais brasileiros, segue na ordem do dia. É uma bandeira de propaganda política que serve para pressionar o governo e o parlamento. Como fruto desta mobilização é possível conquistar, inclusive, algumas vitórias parciais. A lei do direito de resposta, aprovada pelo Senado e sancionada por Dilma, demonstra que isto é possível. Outras "pequenas" conquistas ajudam a reforçar a luta maior por um novo marco regulatório das comunicações no Brasil.

Ao mesmo tempo, é urgente fortalecer todos os veículos da mídia contra-hegemônica. Das rádios e tevês comunitárias, que continuam sendo perseguidas pelos poderes públicos, ao sistema público de comunicação e às novas formas de comunicação da era da internet. A imprensa sindical, com seus milhões de exemplares, a assessoria dos mandatos parlamentares, com sua estrutura mais profissional, e as centenas de blogs, sites progressistas e redes sociais jogam papel decisivo na atualidade no enfrentamento à mídia golpista. Eles não podem ser encarados como gastos, mas sim como investimentos na batalha de ideias, na luta pela hegemonia na sociedade. Os desafios estão lançados e são urgentes!

* Contribuição apresentada à bancada do PCdoB na Câmara Federal.
http://www.conversaafiada.com.br/politica/miro-mostra-ao-pcdob-como-enfrentar-o-pig

Os grileiros mais ricos do Brasil

publicado 11/02/2016         
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Paraíso particular: mansão triplex encravada no melhor point da Mata Atlântica

O Conversa Afiada reproduz admirável reportagem de Renan Antunes de Oliveira, do Diário do Centro do Mundo, que o amigo navegante jamais veria no PiG.

(Muito menos a denuncia do The Guardian sobre a discriminação de que a Globeleza foi vítima).

EXCLUSIVO: nosso repórter foi ao verdadeiro triplex – o dos Marinhos

Por Renan Antunes de Oliveira, de Paraty (RJ)

A mansão de veraneio dos herdeiros do magnata da Globo Roberto Marinho também é um triplex e também está sendo investigada pelo Ministério Público Federal, mas num processo em ritmo bem mais light e sem publicidade.

Os arquitetos que a projetaram e os engenheiros que a ergueram zombaram das leis ambientais: ela está totalmente irregular.

Das fundações ao teto, localiza-se em área desmatada de um parque federal. E parte sobre terra pública, grilada logo por quem não precisa – a família mais rica do Brasil.

A mansão tem um andar quase subterrâneo e outros dois empilhados de forma engenhosa, parece que não se tocam. Fica na baía de Paraty, na costa do Rio.

Ela foi alvo de fiscais do Ministério de Meio Ambiente (MMA) desde o início da construção, em 2008.

A batalha parecia terminada quando a Vara Federal de Angra dos Reis mandou demolir a mansão, em 2010, poucos meses depois de concluída.

Mas, os Marinhos não se curvaram à Justiça.

Seus advogados recorreram e fugiram das intimações. Eles a mantiveram em pé por seis anos e vão lutar para que fique assim até o último juiz.

Como um caso tão pequeno se arrasta no Judiciário por mais tempo do que o da Lava Jato só pode ser explicado pela nova teoria do "abuso do direito de defesa".

A sentença da primeira instância não tem previsão pra sair, mas os desembargadores do TRF já devem estar se acotovelando pra ver quem terá a sorte de pegar o caso na segunda.

É surpreendente que o MPF não tenha deixado escapar vazamentos. Partes do processo ainda estão sob segredo de justiça. Para vê-lo, use o código 201051110009517, no site.

MAMUTE DE CONCRETO

O terreno onde está a mansão é duas vezes maior do que o daquele sitio de Atibaia que tem aparecido no noticiário da Globo nos últimos dias.

Seu tamanho original era menor, apenas 50 mil m². Corretores da cidade disseram que os Marinhos compraram mais áreas lindeiras, para evitar que gente comum quebre a privacidade da mansão acessando por morros e costões.

A mansão é tão pesadona e forte que parece ter sido feita para durar mil anos. Tem 1.300m² de concreto, capaz de resistir a um tsunami.

Caberiam dentro dela três daqueles triplex do Guarujá – veja detalhes no site dos arquitetos.

Aviso: quem não gosta de luxo e ostentação deve evitar as fotos.

Além de estar sobre natureza morta, a mansão se projeta das pedras para o mar. Se arquitetura quer dizer alguma coisa, ela parece um navio de conquistadores, senão uma frota inteira.
Apesar de localizada na praia de Santa Rita, na costa do Rio de Janeiro, é mais conhecida no circuito dos ricos e famosos por seu nome em inglês: "Paraty House".

A mansão é tida como jóia da arquitetura moderna tupiniquim desde a prancheta. Assim que abriu as portas para os primeiros convivas foi premiada por uma revistinha inglesa de design, a Wallpaper.

A Paraty House oferece aos seus ocupantes uma espetacular imersão na natureza intocada – quer dizer, está intocado o que eles deixaram depois de desmatar uma parte, dar uma raspada nas pedras e cortar o cocuruto do morro para ela ser erguida.

Mesmo assim, o terreno ainda é um naco magnífico da Mata Atlântica, dentro da área de preservação de Cairuçu – puro verde, como no tempo das caravelas. Só se vê a casa quando se chega perto, por mar ou voando. Veja no site do MMA.

Por estes dias quem mais está usando a mansão são netos e bisnetos do magnata.

Uma faxineira, casada com o irmão de um jardineiro, contou ao DCM que os três filhos de Marinho, donos do Grupo Globo, se afastaram dela – da mansão, não da faxineira – devido à publicidade negativa provocada pelo processo do MPF.

Os procuradores investigam tão rigorosamente quanto possível o crime ambiental de desmatamento para erguer mansão, piscina, parquinho, aquashow e heliponto.

Ao centro, a mansão. Direita, trapiche para iates. À esquerda, heliponto na mata.

O encarregado do inquérito trocou várias vezes porque o caso não tem força-tarefa, nem procuradores exclusivos, atrasando as coisas.Foi no andar do processo que se descobriu a grilagem de uma área pública: os donos da mansão privatizaram na marra a pequena praia de Santa Rita, reservada para uso exclusivo de seus pimpolhos.

A piscina foi erguida direto na areia da praia – é show de bola, mas ilegal, sem falar na idéia de jerico de ter uma piscina salgada a 30 passos do mar.

Os Marinhos ergueram na Santa Rita também aquashow tubular, ancoradouro para jetski, mansãozinha de árvore, combo balanço-gangorra-escorregador e um depósito para as pranchas de surf e bananaboats – assim a criançada e papais se poupam do complicado leva e traz dos brinquedos. Tudo ilegal.

Para manter os brinquedos na praia sem que ninguém se sinta tentado a usá-los, os Marinhos contrataram seguranças armados. São dois homens em turnos de 12 horas, 7x30x365. Eles intimidam quem desembarca na areia, mas não há registro de violência. Só botam o povão para correr, coisa que ninguém ousaria fazer no Leblon.

Guindaste para jetski e escorregador tubular, no costão norte

Se a luta pela praia tem alguma justificativa deve ser pela qualidade da água. Este repórter esteve lá na semana do Carnaval e ela estava simplesmente deliciosa.

Morninha, limpa, transparente, calma. O fundo tem areia igual de limpa – dá vontade de juntar alguns punhados e levar para aquários, afinal, a areia é do povo.

A prainha é pequena, 83 passos largos de costão a costão, entre o trapiche de jetski e o ancoradouro dos iates. Tem brisa permanente, garante quem conhece a região. Ela está de frente para o noroeste, pega todo sol da manhã e sombra ao entardecer, com o fresquinho de graça, oferta da Mata Atlântica.

Os ricaços que a desfrutam não precisam passar aquele abafamento e sol quente que o povão enfrenta em locais apinhados, nem arrastar guarda-sol: amendoeiras frondosas e palmeiras garantem sombra eterna.

A praia é farofeiros free – uma lancha cobra até 350 reais pelo percurso de 15 minutos entre o cais histórico de Paraty e a House. De vez em quando algum desavisado salta nela, só para ser corrido pelos guardinhas.

As crianças dos Marinhos e seus amiguinhos não sentem falta dos vendedores ambulantes. Elas podem beber água de coco colhido no pé. Claro que não tem o agito de Copacabana, mas pelo menos a areia está sempre varrida e sem papel de picolé.

Parquinho privado na praia grilada: proibido para turistas

Como se não bastasse desfrutar deste pedaço do paraíso, a vida intramuros é de um conforto que a gente comum pode apenas sonhar – preste atenção nas suítes feitas com lascas de árvores e fotos completas da cozinha naquele site dos arquitetos.

Óbvio que tal cozinha não é para alguém fritar um ovo com arroz. Sempre que a family vai veranear provoca azáfama – correria com atrapalhação – entre os empregados, para abastecer freezers e prateleiras. Em geral, um chef escolhido entre os melhores do país acompanha a comitiva.

A House dispõe de várias embarcações de serviço e recreio. O Indiana X que estava atracado lá no dia da reportagem era apenas para os seguranças e domésticos. Vale 200 mil reais, na avaliação do comandante da lancha deste repórter.

A família, quando não voa direto para seu heliponto, usa um tremendo iatezinho compacto Ferretti 40 – os modelos antigos à venda no Mercado Livre valem um triplex.Os iates mais novos, bem equipados, podem valer até 10 cotas daquela cooperativa imobiliária. O Ferretti dos Marinhos não estava no porto e não pode ser avaliado.

O Ferretão, como foi apelidado pelo comandante Bradock, que já prestou serviços à família, é usado quando a prainha privatizada está sob ataque de farofeiros ou sofrendo das raras fiscalizações federais – aí ele navega para outros points privados.
Não se sabe pra onde porque a prefeitura de Paraty, ao imprimir mapas para turistas e escuneiros, fez a cortesia de omitir a (as) praia (s) dos Marinhos. O repórter marcou a Santa Rita com uma seta, na foto abaixo.

Cortesia da prefeitura: praia Santa Rita fora do mapa dos farofeiros

MOTOSSERRA

O problema da Paraty House na Justiça é que para ser construída, premiada e desfrutada pelos pimpolhos dos bilionários, alguns operários tiveram que derrubar árvores protegidas por lei federal – todo verde hoje esmagado pelo concreto da mansão era original até eles desembarcarem no pedaço.

Não foi possível apurar o nome dos carinhas que passaram a motosserra nas árvores.

Assim, eles não poderão ser responsabilizados.

Mas, na outra ponta, nenhum Marinho jamais será punido ou multado – eles usaram uma empresa de fachada para erguer a House.

A empresa aparece como ré no processo do MPF. Chama-se Agropecuária Veine. O responsável é um tal de Celso Campos – ele conseguiu a proeza de ficar de outubro de 2011 a abril de 2014 sem ser localizado por um oficial de justiça.

Alguém no infalível MPF errou o endereço dele da Avenida Copacabana XXX para XYY, apenas 30 metros, o suficiente para Campos nunca ser encontrado. O truque funcionou bem até uma recente troca de procuradores, que descobriram a patacoada.

Os procuradores que se debruçaram sobre o caso disseram à revista americana Bloomberg que "os ricos brasileiros usam as praias públicas como se fossem sua propriedade" – só não deram entrevista pra Globo.

Nos bastidores, eles dizem horrores dos Marinhos, mas sem jamais citá-los oficialmente, já que o réu de fachada é o tal Celso Campos. Este, procurado em Copa, não falou ao DCM.

O que talvez tenha faltado para andar rápido uma ação tão simples – casa erguida irregularmente, praia ocupada na marra, tudo documentado pelo MMA – tenha sido um juiz como aquele paranaense, com seu apetite por enfrentar poderosos.

Na Vara de Angra dos Reis, o processo da Veine se arrasta porque é uma batata quente que ninguém quer segurar. Até o porteiro sabe quem está por trás dela – e não é o Celsinho.

UMA AVÓ COMBATIVA

Quem levantou a lebre foi uma servidora pública federal, concursada, Graziela de Moraes Barros, fiscal do Instituto Chico Mendes (ICMBio), órgão do MMA.

Ela tem apenas 39 anos e já é avó. Mora num sítio escondido numas quebradas e implora pra que o repórter não diga onde é, porque teme represálias.De quem? "Quando fiz a denúncia da casa dos Marinhos, alguém atacou a minha e incendiou meu carro", conta, sem acusar ninguém.

A Polícia Federal investigou o caso, óbvio que sem sucesso. Hoje, ela anda sempre em carro oficial e acompanhada de uma colega.

Graziela não é mais fiscal. Deu entrevista, na semana do carnaval, em seu escritório na APA Tamoios, no alto de um morro do qual se vê Angra dos Reis e Paraty – a House agora está fora de sua jurisdição.

"Desisti porque passei cinco anos dando murro em ponta de faca. O Estado e a Justiça não enfrentam e nem punem os poderosos. Minha função acaba sendo fazer o papel de polícia contra pescadores e pequenos posseiros", resmunga, amargurada.

Ela aponta o processo contra os Marinhos como um exemplo de desrespeito: "Eles poderiam ter erguido uma casa menor, de até 200m², o que seria permitido pela lei. Mas fizeram aquele monstrengo de concreto derrubando mata. Foi uma afronta à lei e à natureza".

Graziela é a estrela da acusação. Ela inspecionou a praia Santa Rita uma vez durante a construção e outra depois que a mansão ficou pronta: "Heliponto e casa devem ser derrubados. A piscina está na praia…" e ela despeja os argumentos que estão no processo iniciado pelo procurador Fernando Lavieri, tim tim por tim tim.

Ela quer os Marinhos fora do pedaço: "Eles entram com recursos e vão rolando. Pagam multas e continuam ocupando a área, esperando tudo cair no esquecimento. Calculo que gastem mais de um milhão em multas e advogados, mas vão continuar lá, porque podem tudo".

Graziela enumera uma lista de milionários que cometeram crimes ambientais na mesma região. Está desiludida: "Nada vai mudar".

Na hora da fotografia, Graziela entra em pânico: "Tenho medo de ser exposta", diz preocupada com sua segurança como se vivesse no meio de uma guerra de gangues. Pede que a foto seja tirada pelas costas, solicitação atendida.

Graziela Moraes Barros: fiscal do ICMBio que primeiro denunciou crime ambiental na obra da Paraty House

A Paraty House foi desenhada pelo arquiteto paulista Márcio Kogan e sua equipe. Não foi possível localizá-lo para saber se ele nunca ouviu falar da proibição de derrubar Mata Atlântica. Se não ensinaram na faculdade dele, consola saber que já existe preservação ambiental até no currículo da escola fundamental.

O projeto original sempre esteve em desacordo com a lei de máximo 200m² porque saiu da prancheta com 840. Aí foram mexendo e subiram para os 1.300.

Como a construção daquele bruto bloco de concreto foi premiada, as opiniões variam de maravilha arquitetônica a monstrengo – no prêmio Wallpaper 2010 os jurados analisaram apenas a arquitetura, sem avaliar o prejú ambiental que ela causou.

Um arquiteto de Paraty, ligado à Organização Caiçara e defensor de quanto mais verde melhor, acha que "a mansão é até bonitinha, mas está totalmente deslocada do entorno. Na mata é um horror. Ficaria bem na Avenida Paulista. Por que tanto concreto no meio da mata"?

O arquiteto diz que "caberiam ali vários chalés de madeira, rústicos, bem mais leves, com o mesmo grau de conforto. Seria de bom gosto e estaria dando sinal de respeito à sociedade". O homem não quer ver seu nome citado, temendo represálias.

De quem? O arquiteto fica de bico calado – deve temer a mesma gangue que aterroriza Graziela.
O dono de uma pousada – nome omitido porque teme represálias – contou que sua ex namorada, a bióloga Xis, fez um plano de manejo de pesca em cativeiro nas águas da Santa Rita: "Na verdade, o objetivo deles não era pescar, e sim lançar o emaranhado de bóias para demarcar o cativeiro, impedindo atracação de barcos".


Bóias amarelas para impedir navegação na praia de Santa Rita

Ele disse que moça ficou seis meses só assinando papéis, até que se fartou do negócio e foi morar na Bélgica: "Por favor, não bote o nome dela na reportagem".

VIAGEM AO PARAÍSO PRIVADO

Depois de realizar várias entrevistas em terra firme, decidi ir à praia dos Marinhos, sem ser convidado, para conferir alguns dados do processo – no final do ano passado um juiz determinou diligências para saber se os parquinhos ainda estavam de pé.

Contratei uma lancha. O simpático comandante não quis ver seu nome aqui, temendo represálias: "Eu vivo do turismo e eles…sabe como é", disse, parecendo assustado.

Minha lancha zarpou e por alguns minutos da viagem me senti inebriado com toda aquela beleza da baía de Paraty – mas logo veio o medo de enfrentar os tais seguranças armados.

Torci para que um Marinho, com quem troquei cumprimentos anos atrás quando era repórter de O Eco, estivesse tomando café na beira da piscina.

Quase 10 da manhã e eu estava na lancha, com o mar às costas e a mata na frente, temperatura de 22 graus, céu azul – até aquele ponto tudo ia bem.

Pedi para o comandante apagar o motor para gozar o silêncio, mas a barulheira de outros navegantes quebrou o encanto.

Dez e pouco começamos a nos aproximar da mítica Paraty House.

Fui fazendo fotos à distância. Ninguém à vista. Fiquei com aquela sensação de filmes quando vai surgir um dinossauro na praia deserta e só o mocinho não sabe.

Desviamos das bóias fajutas da bióloga da Bélgica e pulei na água – morninha, como contei antes.

Já estava na areia quando, do meio das amendoeiras, surge um guardinha.

Ele veio falando qualquer coisa, de longe, com a mão escondendo o logotipo da empresa e o nome na farda, assim como fazem os PMs quando batem em jornalistas.

Aí, parou na minha frente e me intimou: "Vá embora, você não pode tirar fotos da casa".

Não vi o segundo guarda e avaliei o perigo: apenas alerta amarelo.

Então, dei um patético carteiraço nele: "Sou jornalista e posso tirar fotos porque esta praia é pública" – e estendi minha carteira da Federação dos Jornalistas.

Na mesma hora contive o riso pela ironia de invocar este direito num solo supostamente sagrado à liberdade de imprensa. Ele nem deu bola pro documento.

O guardinha me mandou embora outra vez, desta vez com a mão na coronha da arma.

Mas, ele não sacou. Ponto para mim. Senti a fraquejada e blefei: "Tá vendo aquela lancha? Tem uma câmera filmando nós dois. Você não manda aqui e só pode ficar dentro da propriedade, não pode nem andar armado na praia" – aí apontei minha Nikon pra ele.

Vapt vupt e o guardinha se esfumaçou. Entendeu que eu não era turista, virou pra esquerda e saiu dando pulinhos na areia – sinal que ele sabia que ali os guardas privados podem ser presos em flagrante por porte ilegal de arma, se não estiverem no perímetro da mansão.

Minutos depois, ele voltou, mais gentil, apelando: "Por favor, é meu trabalho". Concordamos que eu poderia fotografar tudo, menos entrar na casa – uma banalidade, já que estava vazia.

O guardinha contou que "faz pouco avisaram que o helicóptero vai chegar com a patroa". Ele não disse o nome, talvez temendo represálias. Trata-se de uma neta de Roberto Marinho. Meu único conhecido não estava na lista de passageiros, ia ser mais difícil me aproximar dela.

Outro problema: quem chega pelo heliponto, atrás da linha da praia e acima da mansão, pode entrar nela por um caminho de espelhos de cristal sobre um lago artificial. Eu não teria acesso àquela área.

Decidi não esperar um improvável convite para o almoço.

Mandei o guardinha sumir da minha frente, ele obedeceu.

E como meu nome não é trabalho, me joguei naquela pintura de água.

Repórter do DCM na praia Santa Rita
http://www.conversaafiada.com.br/brasil/dcm-vai-ao-verdadeiro-triplex-o-dos-marinho

Mal voltei do primeiro mergulho e o dono da lancha me lembrou que o taxímetro estava correndo.
Zarpei, com a certeza de que aquela não é minha praia.

sábado, 6 de fevereiro de 2016

Notas escalas

C
Escala Diatônica maior: C, D, E, F, G, A, B, C
Escala Diatônica maior sustenido: C#, D#, F, F#, G#, A#, C, C#
Escala Diatônica menor: C, D, D#, F, G, G#, A#, C
Escala Diatônica menor sustenido: C#, D#, E, F#, G#, A, B, C#
Escala Pentatônica maior: C, D, E, G, A
Escala Pentatônica maior sustenido: C#, D#, F, G#, A#, C#
Escala Pentatônica menor: C, D, F, G, A
Escala Pentatônica menor sustenido: C#, D#, F#, G#, A#
Escala de blues: C, D#, F, F#, G, A, A#, C
Escala de blues sustenido: C#, E, F#, G, G#, A#, B, C#
Escala Espanhola: C, C#, E, F, G, G#, A#, C
Escala Espanhola sustenido: C#, D, F, F#, G#, A, B, C#
Escala cigana: C, C#, E, F, G, G#, B, C
Escala cigana sustenido: C#, D, F, F#, G#, A, C, C#
Escala Melódica menor: C, D, D#, F, G, A, B, C
Escala Melódica menor sustenido: C#, D#, E, F#, G#, A#, C, C#
Escala Harmônica menor: C, D, D#, F, G, G#, B, C
Escala Harmônica menor sustenido: C#, D#, E, F#, G#, A, C, C#

D
Escala Diatônica maior: D, E, F#, G, A, B, C#, D
Escala Diatônica menor: D, E, F, G, A, A#, C, D
Escala Diatônica maior sustenido: D#, F, G, G#, A#, C, D, D#
Escala Diatônica menor sustenido: D#, F, F#, G#, A#, B, C#, D#
Escala Pentatônica maior: D, E, F#, A, B, D
Escala Pentatônica menor: D, E, G, A, B
Escala Pentatônica maior sustenido: D#, F, G, A#, C, D#
Escala Pentatônica menor sustenido: D#, F, G#, A#, C
Escala de blues: D, F, G, G#, A, B, C, D
Escala de blues sustenido: D#, F#, G#, A, A#, C, C#, D#
Escala Espanhola: D, D#, F#, G, A, A#, C, D
Escala Espanhola sustenido: D#, E, G, G#, A#, B, C#, D#
Escala cigana: D, D#, F#, G, A, A#, C#, D
Escala cigana sustenido: D#, E, G, G#, A#, B, D, D#
Escala Melódica menor: D, E, F, G, A, B, C#, D
Escala Melódica menor sustenido: D#, F, F#, G#, A#, C, D, D#
Escala Harmônica menor: D, E, F, G, A, A#, C#, D
Escala Harmônica menor sustenido: D#, F, F#, G#, A#, B, D, D#

E
Escala Diatônica maior: E, F#, G#, A, B, C#, D#, E
Escala Diatônica menor: E, F#, G, A, B, C, D, E
Escala Pentatônica maior: E, F#, G#, B, C#, E
Escala Pentatônica menor: E, F#, A, B, C#
Escala de blues: E, G, A, A#, B, C#, D, E
Escala Espanhola: E, F, G#, A, B, C, D, E
Escala cigana: E, F, G#, A#, B, C, D#, E
Escala Melódica menor: E, F#, G, A, B, C#, D#, E
Escala Harmônica menor: E, F#, G, A, B, C, D#, E

F
Escala Diatônica maior: E, F#, G#, A, B, C#, D#, E
Escala Diatônica menor: F, G, G#, A#, C, C#, D#, F
Escala Diatônica maior sustenido: F#, G#, A#, B, C#, D#, F, F#
Escala Pentatônica maior: E, F#, G#, B, C#, E
Escala Pentatônica menor: F, G, A#, C, D
Escala Pentatônica maior sustenido: F#, G#, A#, C#, D#, F#
Escala de blues: E, G, A, A#, B, C#, D, E
Escala de blues sustenido: F#, A, B, C, C#, D#, E, F#
Escala Espanhola: E, F, G#, A, B, C, D, E
Escala Espanhola sustenido: F#, G, A#, B, C#, D, E, F#
Escala cigana: E, F, G#, A#, B, C, D#, E
Escala cigana sustenido: F#, G, A#, C, C#, D, F, F#
Escala Melódica menor: F, G, G#, A#, C, D, E, F
Escala Harmônica menor: F, G, G#, A#, C, C#, E, F

G
Escala Diatônica maior: E, F#, G#, A, B, C#, D#, E
Escala Diatônica menor: G, A, A#, C, D, D#, F, G
Escala Diatônica maior sustenido: G#, A#, C, C#, D#, F, G, G#
Escala Diatônica menor sustenido: G#, A#, B, C#, D#, E, F#, G#
Escala Pentatônica maior: E, F#, G#, B, C#, E
Escala Pentatônica menor: G, A, C, D, E
Escala Pentatônica menor sustenido: G#, A#, C#, D#, F
Escala Pentatônica maior sustenido: G#, A#, C, D#, F, G#
Escala de blues: E, G, A, A#, B, C#, D, E
Escala de blues sustenido: G#, B, C#, D, D#, F, F#, G#
Escala Espanhola: E, F, G#, A, B, C, D, E
Escala Espanhola sustenido: G#, A, C, C#, D#, E, F#, G#
Escala cigana: E, F, G#, A#, B, C, D#, E
Escala cigana sustenido: G#, A, C, D, D#, E, G, G#
Escala Melódica menor: G, A, A#, C, D, E, F#, G
Escala Melódica menor sustenido: G#, A#, B, C#, D#, F, G, G#
Escala Harmônica menor: G, A, A#, C, D, D#, F#, G
Escala Harmônica menor sustenido: G#, A#, B, C#, D#, E, G, G#

A
Escala Diatônica maior: A, B, C#, D, E, F#, G#, A
Escala Diatônica menor: A, B, C, D, E, F, G, A
Escala Diatônica maior sustenido: A#, C, D, D#, F, G, A, A#
Escala Diatônica menor sustenido: A#, C, C#, D#, F, F#, G#, A#
Escala Pentatônica maior: A, B, C#, E, F#, A
Escala Pentatônica menor: A, B, D, E, G
Escala Pentatônica maior sustenido: A#, C, D, F, G, A#
Escala Pentatônica menor sustenido: A#, C, D#, F, G
Escala de blues: A, C, D, D#, E, F#, G, A
Escala de blues sustenido: A#, C#, D#, E, F, G, G#, A#
Escala Espanhola: A, A#, C#, D, E, F, G, A
Escala Espanhola sustenido: A#, B, D, D#, F, F#, G#, A#
Escala cigana: A, A#, C#, D#, E, F, G#, A
Escala cigana sustenido: A#, B, D, E, F, F#, A, A#
Escala Melódica menor: A, B, C, D, E, F#, G#, A
Escala Melódica menor sustenido: A#, C, C#, D#, F, G, A, A#
Escala Harmônica menor: A, B, C, D, E, F, G#, A
Escala Harmônica menor sustenido: A#, C, C#, D#, F, F#, A, A#

B
Escala Diatônica maior: A, B, C#, D, E, F#, G#, A
Escala Diatônica menor: B, C#, D, E, F#, G, A, B
Escala Pentatônica maior: A, B, C#, E, F#, A
Escala Pentatônica menor: B, C#, E, F#, G#
Escala de blues: A, C, D, D#, E, F#, G, A
Escala Espanhola: A, A#, C#, D, E, F, G, A
Escala cigana: A, A#, C#, D#, E, F, G#, A
Escala Melódica menor: B, C#, D, E, F#, G#, A#, B
Escala Harmônica menor: B, C#, D, E, F#, G, A#, B

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Quase a metade dos deputados são herdeiros de familiares...

Quase a metade dos deputados são herdeiros de familiares cujo poder político, em alguns casos, remonta ao período colonial

Conhecida por debates acalorados quando se trata de discussões sobre a "família tradicional", a Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJ) da Câmara foi cenário de um debate inusitado sobre outros tipos de famílias – as de políticos – no fim de outubro, durante a votação do Projeto de Lei nº 6.217, de 2013. Proposta pelo deputado Esperidião Amin (PP-SC), a iniciativa pretende chamar a BR-101 em Santa Catarina de Rodovia Doutora Zilda Arns, excluindo naquele trecho a homenagem ao ex-governador Mário Covas. O nome do paulista batiza todos os quase 5 mil quilômetros da estrada desde setembro de 2001, seis meses após o falecimento do político.

O clima ficou tenso na CCJ. Ninguém diminuía a importância de Zilda Arns, brasileira indicada ao Prêmio Nobel da Paz em 1999, mas muitos se mostravam incomodados com a retirada do nome de um político de uma obra. Durante as discussões, houve exemplos – críticos ou elogiosos – de pontes no Piauí e em Santa Catarina com dois nomes: cada sentido da via para um cacique local. "Há certamente novas rodovias, novas obras que serão construídas em Santa Catarina e a que, de forma consensual, o nome da Zilda Arns poderia ser definido. Se começarmos a abrir aqui um precedente de ratear uma rodovia, uma estrada, para homenagear vários nomes, vai se criar, além de uma atitude desagradável, até um conflito para quem vai pegar o endereço", protestou o deputado Mainha (SD-PI).

José de Andrade Maia Filho, o Mainha, é filho de José de Andrade Maia, que foi prefeito de municípios do Piauí e suplente de senador. Em Itainópolis, a herança paterna na prefeitura garantiu a Mainha o início da carreira política, em 1996, quando também se elegeu prefeito do município, aos 22 anos. Mas, justiça seja feita, ele não foi o único membro da CCJ a protestar, o que levou ao adiamento da apreciação do projeto. Deputado mais votado na Paraíba em 2014, aos 25 anos, Pedro Cunha Lima (PSDB-PB), filho do ex-governador e hoje senador Cássio Cunha Lima (PSDB-PB), foi um dos que também se posicionaram contra a medida.

A discussão ilustra um mecanismo muito antigo da política nacional e especialmente significativo na atual legislatura na Câmara. De teor fortemente conservador, ela é também a que possui maior porcentual de deputados com familiares políticos desde as eleições de 2002. Um estudo da Universidade de Brasília (UnB) publicado no segundo semestre de 2015 analisou os 983 deputados federais eleitos entre 2002 e 2010 para concluir que, no período, houve um crescimento de 10,7 pontos percentuais no número de deputados herdeiros de famílias de políticos, atingindo 46,6% em 2010 – número próximo aos 44% encontrados pela Transparência Brasil no mesmo ano. Logo após a última disputa eleitoral, a ONG divulgou outro levantamento que concluiu que 49% dos deputados federais eleitos em 2014 tinham pais, avôs, mães, primos, irmãos ou cônjuges com atuação política – o maior índice das quatro últimas eleições.

O deputado Mainha (SD-PI), filho de ex-prefeito de cidades do Piauí Foto: Lucio Bernardo Jr/Câmara dos Deputados

Atualmente, o estado que ilustra melhor o poder das dinastias nas eleições é o Rio Grande do Norte, onde 100% dos oito deputados eleitos se encaixam no perfil das pesquisas. A lista contempla Fábio Faria (PSD), filho do atual governador do estado, Robinson Faria (PSD); Felipe Maia (DEM), filho do senador José Agripino (DEM); Antônio Jácome (PMN), pai de Jacó Jácome (PMN), eleito deputado estadual em 2014 aos 22 anos; Rogério Marinho (PSDB), neto do ex-deputado federal Djalma Marinho (UDN, Arena, PDS); Zenaide Maia (PR), esposa do prefeito de São Gonçalo do Amarante, Jaime Calado (PR); Walter Alves (PMDB), de um dos clãs mais tradicionais do estado, com ex-ministros, ex-governador e o ex-presidente da Câmara dos Deputados Henrique Eduardo Alves (PMDB); Rafael Motta (PSB), filho do deputado estadual Ricardo Motta (PROS); e Betinho Segundo (PP), da família Rosado, que domina a segunda maior cidade do estado, Mossoró, é neto de governador e bisneto de intendente – nome que se dava aos prefeitos até 1930. E os elos familiares com o poder podem ser, em alguns casos, ainda mais antigos. A descendência de José Bonifácio de Andrada e Silva (1763-1838), por exemplo, se sucede em postos nas estruturas de poder desde o período colonial e conta, até hoje, com um representante na Câmara, o deputado federal Bonifácio de Andrada (PSDB-MG), no décimo mandato consecutivo.

Coordenador do levantamento que analisou as três primeiras eleições deste século, o professor de ciência política da UnB Luis Felipe Miguel observa que em diversas áreas é comum que os filhos sigam a carreira dos pais. O problema no caso da política é que ela não deveria ser considerada uma profissão. "Na política, isso é mais sério, pois ela deveria ser uma atividade aberta a todos os cidadãos", diz. Diferentemente de outras áreas, continua o professor, nem sempre há isso de os filhos se aproximarem pela familiaridade com as profissões dos pais. "Há, sim, estratégias das próprias famílias para manter os espaços de poder, com filhos ou parentes que são muitas vezes empurrados para ocupar essas posições, quem sabe até contra as próprias inclinações. Isso é sim ruim pra democracia."

Para Miguel, as estratégias de manutenção dos clãs no poder acabam por torná-los uma espécie de empreendimento – uma vez que a política também é vista em muitos casos como forma de enriquecimento pessoal –, com projetos bem definidos para a ocupação até mesmo de espaços que credenciam para a disputa eleitoral. Um exemplo é a carreira de Paulo Bornhausen (PSB-SC), filho do ex-governador e cacique do DEM catarinense Jorge Bornhausen. "O Paulo, que seria o herdeiro, foi deputado estadual, federal, candidato a senador [derrotado em 2014], mas antes de ser lançado candidato ele ocupou durante alguns anos um programa de rádio de apelo popular numa rádio de bastante audiência de Florianópolis", explica Miguel.

Para o professor da UnB, como o processo eleitoral brasileiro é marcado pela desinformação e despolitização, pontos como o discurso e as propostas dos candidatos e mesmo a reputação ou a probidade do familiar que pede os votos não fazem diferença. "O que as famílias políticas controlam e legam na verdade são os contatos com financiadores, com controladores de currais eleitorais, com uma teia de apoiadores que disputam outros cargos, esse savoir-faire e esses recursos que dão aos herdeiros uma série de vantagens nas disputas eleitorais", explica Miguel.

Pedro Cunha Lima (PSDB-PB), deputado federal mais votado na Paraíba, aos 25 anos e na primeira candidatura

Conservadorismo

Nas eleições de 2002, 2006 e 2010, a diferença do número de beneficiados pelo parentesco na direita e na esquerda aumentou. Os herdeiros conservadores ampliaram a margem numérica sobre os progressistas, antes de 13 pontos percentuais, para quase o dobro (22,5 pontos porcentuais) em 2010, acompanhando o progressivo aumento de bancadas como a ruralista e a evangélica na Câmara no mesmo período. Em 2014, segundo uma análise feita pelo Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap), os brasileiros elegeram o Congresso Nacional mais conservador desde 1985 – o que acabou resultando, em 2015, no avançar de pautas como a redução da maioridade penal, o Estatuto da Família e a revogação do Estatuto do Desarmamento, todas na Câmara.

Para Ricardo Costa Oliveira, cientista político e sociólogo da Universidade Federal do Paraná (UFPR), os elos de parentesco "são um fenômeno social e político do atraso" e estão intimamente ligados ao conservadorismo. "É uma relação direta. A maioria dos deputados federais com menos de 40 anos é de família política. Eles herdam não só o capital, mas a visão de mundo e as pautas conservadoras. Assim, temos jovens que defendem o que os avôs já defendiam", explica. Em 2010, segundo o estudo da UnB, mais da metade (52,1%) dos deputados que ocuparam na Câmara o primeiro cargo público da carreira tinham o capital político familiar como herança. E, em 2014, apenas 15% dos deputados que chegaram à Câmara com até 35 anos não receberam o empurrãozinho de um sobrenome político, segundo a Transparência Brasil.

"Historicamente essas dinastias políticas tendem a se formar mais à direita do que à esquerda. Aqueles que ocupam posições na elite política pertencem aos segmentos privilegiados da sociedade, estão numa posição de elite, com as vantagens materiais e simbólicas associadas a isso, e quem ocupa essas posições tem mais incentivos para ser conservador", analisa Miguel. Quando as novas gerações tentam se adaptar aos novos tempos, em geral não fazem nada mais do que modernizar velhos discursos. "Vamos supor que em 2018 elejamos uma Câmara mais arejada, mais progressista. Ela não terá metade dos integrantes oriundos de famílias políticas, como é hoje."

Mais que isso, o sistema eleitoral e político é estruturado de tal forma que muitos partidos novos acabam se moldando ao modo de funcionamento das velhas oligarquias. "O perfil de representação parlamentar petista, por exemplo, mudou muito. As primeiras bancadas eram compostas em grande parte por lideranças vindas diretamente dos sindicatos. Depois, chegou o padrão de carreira eleitoral mais gradativa – com eleições sucessivas de um candidato a vereador, depois deputado estadual e federal. E já começam a surgir famílias políticas no PT."

Entre as dinastias que começaram a se organizar no partido nas últimas décadas estão a dos irmãos Viana, no Acre, Jorge – duas vezes governador e hoje senador – e Tião, recém-reeleito para o governo estadual; do clã paulista dos Tatto, com Jilmar, Ênio, Arselino, Jair e Nilto, que acumulam cargos como vereadores, deputados estaduais e federais; dos Dirceu, com o ex-prefeito de Cruzeiro do Oeste (PR) e hoje deputado federal Zeca Dirceu, filho de José Dirceu, nome histórico do PT e condenado por integrar o núcleo político do mensalão; os Genro, com o ex-governador gaúcho Tarso Genro e a filha Luciana, que migrou para o Psol; os irmãos José Genoino, ex-deputado federal e ex-presidente da sigla, condenado no mensalão, e José Guimarães (CE), líder do governo federal na Câmara; e os Lula, com a neta do ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva, Bia Lula, na secretaria de juventude do PT em Maricá (RJ).

Zeca Dirceu (PT-PR), filho de José Dirceu, está no segundo mandato na Câmara Foto: Luis Macedo/Câmara dos Deputados

Na Câmara, ainda de acordo com o levantamento da Transparência Brasil, o Nordeste encabeça a lista das regiões com mais herdeiros (63%), seguida pelo Norte (52%), Centro-Oeste (44%), Sudeste (44%) e Sul (31%). No Senado, entretanto, Sul, Sudeste e Centro-Oeste estão à frente (67%), seguidos pelo Nordeste (59%) e Centro-Oeste (42%). "Esse é um fenômeno nacional. Tenho um doutorando pesquisando o poder no Paraná. Acham que aqui, como o estado é novo, de imigração europeia, poderia ser diferente; mas constatamos a mesma estrutura hereditária de mandonismos familiares que vemos na Paraíba ou no Maranhão", comenta o professor Ricardo Oliveira, da UFPR.

Apesar de se evidenciar em locais de difícil acesso a posições eleitorais privilegiadas por outros meios – como a mídia, os sindicatos e as igrejas –, os índices de parentesco no Senado mostram que a transferência de votos entre familiares é um fenômeno generalizado. "Nos Estados Unidos, onde o sistema eleitoral é por voto distrital, as taxas de reeleição são altíssimas, na casa dos 90%. É muito frequente, quando um deputado morre, a vaga ser ocupada pela viúva. Também lá, tivemos pai e filho na Presidência nos últimos 30 anos [George H. W. Bush e George W. Bush] e agora uma candidata [Hillary Clinton] que é esposa de outro ex-presidente", observa Miguel. Para o pesquisador, as dinastias se enfraquecem onde os debates são mais programáticos, como em algumas democracias europeias, embora também lá as famílias contribuam, em menor escala.

Tentáculos

Estudioso de genealogia e poder há duas décadas, Oliveira diz que a oligarquização da política se reflete não só no Congresso Nacional, mas em assembleias estaduais, câmaras de vereadores, nos poderes Executivo e Judiciário e na mídia. "Aí você fecha o cerco. É aquela rádio no interior onde você [o candidato] tem a sua base garantida", diz. O estudo coordenado por Luis Felipe Miguel, da UnB, constatou que, entre 2002 e 2010, um em cada quatro dos eleitos (23,6%) que tinham parentes políticos apresentava vantagem também no capital midiático, quase 50% a mais do que entre aqueles sem elos familiares (16,5%).

Como esse cenário atinge todas as esferas de poder da sociedade, o professor da UFPR não crê em mudanças senão no longo prazo. "Precisamos rediscutir o sistema político e partidário. Escrevi há 20 anos que haveria essa concentração de poderes familiares", afirma. Miguel defende como mais necessárias mudanças em dois dos principais sustentáculos da política e do modo de praticá-la pelas dinastias. "A sua relação com o poder econômico – não só o financiamento eleitoral de campanha [derrubado pelo Supremo Tribunal Federal e que já deixa de valer para os pleitos municipais de 2016], mas também os lobbies e a corrupção – e a questão dos meios de comunicação de massa. Se a gente não mexer nisso, podemos virar o sistema eleitoral do avesso que os grandes eixos de enviesamento e manipulação estarão presentes", diz.

Foto de capa: Gustavo Lima/Câmara dos Deputados

MP militante, isso pode?

A estratégia é conhecida. De um lado, delegados e procuradores criam fatos políticos novos, através de novas ações, novas denúncias ou vazamentos. A imprensa ecoa. A parceria visa recriar o clima pró-impeachment com vistas às manifestações marcadas para inicio de março

Por Luis Nassif, no Jornal GGN

Ainda haverá uma nova enxurrada política este mês, tentando reavivar o fantasma do impeachment, antes que o país recobre a normalidade política e a disputa governo oposição volte ao trilho das críticas e propostas.

A estratégia é conhecida.

De um lado, delegados e procuradores criam fatos políticos novos, através de novas ações, novas denúncias ou vazamentos. A imprensa ecoa. A parceria visa recriar o clima pró-impeachment com vistas às manifestações marcadas para inicio de março.

***

Os dois focos principais dessa parceria oposição-procuradores são a Lava Jato e o Ministério Público Federal do Distrito Federal. Durante a julgamento do "mensalão", como se recorda, entre outros feitos o MPF do Distrito Federal valeu-se do álibi de uma denúncia anônima para rastrear até os telefones do Palácio do Planalto.

Do lado da Lava Jato, o aquecimento atual são as notícias sobre o o tal tríplex de Guarujá e o sítio de Atibaia.

De Brasília, os procuradores agitaram a questão da Medida Provisória da indústria automobilística, uma prorrogação de prazo de outra MP, dos tempos de Fernando Henrique Cardoso, que contou com o endosso de todos os partidos políticos no Congresso.

Gastou-se esforço, recursos e tempo em uma clara mudança de foco, deixando para segundo plano o ponto central das denúncias, a corrupção no CARF (Conselho Administrativo de Recursos Fiscais).

***

A próxima ofensiva será sobre a licitação FX, na qual o governo optou pela sueca Saab-Scania, em detrimento da Dassault francesa e do F-18 norte-americano. Depois disso, provavelmente farão denúncias sobre a compra de submarinos, sobre acordos comerciais, sobre o Plano Brasil Maior, sobre o Bolsa Família, sobre a compra de flores pelo Palácio em uma lista infindável destinada a congestionar o debate político.

Pouco importa se o processo FX foi tratado pelas Três Armas, se a própria Força Aérea Brasileira havia optado pelos suecos. A exemplo da Medida Provisória, quem propõe a ação não visa resultados jurídicos, mas políticos.

***

De representação em representação, de processo em processo vai-se ampliando a interferência do Ministério Público no jogo político, através da ação individual de procuradores militantes ou meramente exibicionistas.

Não se trata de uma ação de poder. Institucionalmente, desde a Constituição de 1988 o Ministério Público Federal foi responsável por grandes avanços civilizatórios, ajudando a concretizar princípios delineados na Carta Magna. Medidas relevantes em favor das minorias, dos direitos sociais, dos direitos humanos, contra a corrupção, em todos esses avanços identifica-se a ação institucional do MPF.

Mas em que pese a respeitabilidade de muitos de seus membros, não logrou impedir a ação aventureira de jovens procuradores, a partir do momento que a Lava Jato ganhou protagonismo político e que a cúpula do MPF passou a aceitar passivamente a parceria procuradores-mídia.

As prerrogativas dos procuradores acabaram sendo utilizadas para ingressarem de cabeça no jogo político.

***

Trata-se de questão delicada para a própria independência futura do Ministério Público. Não é possível a qualquer democracia conviver com tal nível de interferência política, de facciosismo, que vai muito além da apuração da corrupção.

Mais cedo ou mais tarde, o MPF e o CNMP (Conselho Nacional do Ministério Público) terão que encarar essa questão, antes que o tema seja apropriado por seus adversários.

Fotomontagem: Jornal GGN

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