Um livro é um mudo que fala, um surdo que responde, um cego que guia, um morto que vive. (Padre Antônio Vieira)

quinta-feira, 14 de julho de 2016

5 maneiras de como o idiota fascista é produzido historicamente

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Por Douglas Rodrigues Barros[1]

 

Quando Adorno escreveu Educação após Auschwitz, ele tinha como objetivo prevenir a catástrofe fascista. O crítico chamava a atenção para a importância da análise sociológica como aquela que informaria "sobre o jogo de forças localizado por trás da superfície das formas políticas". Com efeito, um sintoma de proto-fascismo se evidencia quando a sociologia é posta em dúvida, ou é alvo de piadas em alguns centros de risadas forçadas e irreflexivas.

Não é à toa que o que se oculta no interior do programa Escola sem Partido é, na verdade, aquele incomodo sexagenário gerado pelo retorno da filosofia e da sociologia à "grade" curricular. Os defensores de tais programas revelam assim seus inconfessáveis desejos de ver a velha Educação Moral e Cívica que, subserviente a interesses escusos, – esta sim – doutrinava e excluía de si toda a dúvida. O que estes temem de fato é a potencialidade crítica da dúvida que essas matérias promovem no interior da sala de aula, gerando inclusive o inconformismo dos estudantes ante a total desagregação da educação pública no país. Mas isso será tema de um próximo artigo.

Por enquanto falemos da gravidade da situação política que se espalha não só pelo Brasil, mas pelo mundo como um todo. O fascismo sem dúvida é uma idiotice. No entanto, é uma idiotice que não se pode, em hipótese nenhuma, ser subestimada. Quando um aloprado deputado, que cospe reacionarismo, se joga, tal como um rockstar, da carroceria de um caminhão e se estabaca no chão sobre o aplauso e histeria de centenas de seguidores, apesar da grotesca cena e da babaquice em questão, é um sintoma para ser levado a sério.

Uma das questões mais importantes que o fascismo nos legou é que, apesar das formas grotescas de sua expressão, ele deve ser objeto de denuncia constante. Afinal, na Alemanha pré-nazista ninguém levava a sério um baixinho de bigode raspado, com estandartes ridículos que esbravejava impropérios contra a civilização, querendo romanticamente uma sociedade na qual o super-homem nietzschiano – obviamente integrado e desvirtuado pela ideologia nazista – teria espaço.

Nesse sentido, o que apresento aqui é uma síntese cabível neste espaço sobre como o fascismo é produzido na oficina da história pela crise e falta de perspectiva. Aqueles que se interessarem pelo tema e quiserem se aprofundar podem pesquisar não apenas Adorno e os escritos da, vulgarmente chamada, Escola de Frankfurt, como também, um dos livros mais sagazes e profundos sobre o fascismo: Labirintos do Fascismo de João Bernardo.

Vamos às cinco características:

1 – O fascismo é uma revolta dentro da ordem

Ele aparece como uma potencialidade de transformação, mas esbarra nos limites de uma mudança feita para nada mudar. Isso porque seus adeptos geralmente esbarram em questões que pairam na superficialidade dos problemas. Numa moralização unilateral que evidencia somente os aspectos mais pragmáticos e, por isso, propagandísticos nas crises políticas e econômicas. Por exemplo:o principal motor da xenofobia em 1930 e na presente fascitização europeia e paulista é enxergar o problema do desemprego no imigrante e não na crise estrutural pelo qual passa a economia. Do mesmo modo, a propaganda contra a corrupção se torna unilateral. Ela não denuncia que a própria engrenagem político-econômica fomenta a corrupção como algo necessário para sua própria manutenção.

2 – O fascismo é fenômeno de crise e falta de perspectiva de mudanças profundas

O fascismo nasce de alguns desastres históricos. Não apenas de uma profunda crise econômica, mas de uma crise político-social que lá atrás arrastou a Europa para a Grande Guerra. E o horizonte hoje com o começo da dissolução da zona do euro e ressentimentos de toda ordem não se apresenta tão diferente. Do mesmo modo, a crise estrutural no Brasil fomenta atividades e ressentimentos de classe e posições altamente conservadoras e reacionárias. Separatismo e paixões provincianas, além do nacionalismo tacanho, marcam também algumas de suas características fundadas na falta de perspectivas reais de melhorias.

3 – As instituições democráticas são irrelevantes para o fascista

Já em 1921 Benito Mussolini discursava marcando algumas características que permeariam a noção do ser fascista: "Estaremos com o Estado e a favor do Estado sempre que ele se mostrar um guarda intransigente" dizia o idealizador fascista, "mobilizar-nos-emos contra o Estado se ele vier a cair nas mãos de quem ameaça a vida do país e atenta contra ela". Com certeza, uns cem números de leitores dessa revista devem ter gostado e simpatizados com a fala do líder, Mussolini, que muito tem em comum com aquele outro que deu de cara no chão.De um lado, o respeito pelas instituições democráticas só é feito tendo em vista a participação dos próprios fascistas na partilha do poder. Por outro lado, o fascismo pretende substituir o poder estatal quando a democracia não compartilhar de suas crenças.

4 – O fascismo avança quando os progressistas retrocedem

A partir dos duros golpes sofridos e no retrocesso da tentativa de superar a desigualdade histórica; a ideia de uma revolução dentro da ordem, para salvaguardar a sociedade do comunista comedor de criancinhas, se consolida e ganha aos poucos as mentes e os corações.A assim chamada "revolta dentro da ordem" como uma das características centrais do fascismo assume muitos dos aspectos tradicionais da luta dos trabalhadores, mas para colocá-lo na perspectiva da ordem da economia imperante. Assim, quando uma massa amorfa de verde-amarelo sai as ruas e utiliza palavras de ordem e formas de luta tradicionalmente de esquerda (como por exemplo a ocupação da Paulista) ela não está sendo original, esse caminho já é conhecido.

5 – O ser fascista detém a capacidade de maquinar, remodelar e recriar fatos históricos e corriqueiros

Nenhuma outra corrente política recorreu tanto a estetização da política como forma de impor seu pensamento, em termos mais simples, nenhuma outra corrente recorreu tanto a possibilidade de ludibriar, mentir e persuadir aqueles que querem. Como nos mostra João Bernardo (2015): a versatilidade das palavras, a possibilidade de moldá-las a seu favor e unir isso a uma propaganda massiva foi um dos grandes atributos do fascismo, assim como; escrachar figuras públicas, criar factoides e manipular dados.

Qualquer semelhança com nossa época atual não será mera coincidência.Os números oficiais indicam que todos os dias morrem duas pessoas por erros policiais. A cada dez minutos uma pessoa é assassinada no Brasil, o Anuário de segurança pública revela ainda que, por dia, seis pessoas foram assassinadas por policiais no Estado de São Paulo em 2013. Acaba de sair uma matéria no New York Times indicando que o Brasil é o país mais perigoso do mundo para os homossexuais. De tal maneira, qualquer estudo mínimo sobre as estatísticas da guerra particular no Brasil revela os horrores instaurados e provenientes de uma ditadura não encerrada.

Não faz muito tempo, entretanto, que tal violência, pelo menos no nível do discurso, era combatida, mesmo pelos meios hegemônicos de comunicação de massa.Atualmente, porém, parece que algo se alterou no quadro de interesses da elite sempre conservadora do país. Agora a carnificina diária apreciada e difundida pelos programas policialescos instaura um sentimento de terror que se orienta na criação de um inimigo comum. Aonde isso vai dar, eis a questão, se é fascismo ou não, é um problema a se pensar. Talvez seja algo ainda pior, posto que não identificado, mas, já amplamente naturalizado.

 

[1]Escritor e mestre em filosofia, atualmente é doutorando em ética e filosofia política pela Universidade Federal de São Paulo.

quinta-feira, 7 de julho de 2016

Festa mico

Por Flávia Martinelli e Adolfo Várzea para os Jornalistas Livres

Kim Kataguiri até parecia animadinho no vídeo em que convocava sua galera para o Arraial do MBL, o auto-denominado Movimento Brasil Livre, um dos grupelhos que organizou atos pró-impeachment com a conversa fiada de que era apartidário e apolítico.

            "Vai ser no domingão, dia em que você não vai fazer absolutamente nada além ficar vendo Faustão!", convidava o garoto-propaganda de 19 anos. Famoso pelo mullet no cabelo e por usar o repertório da série infanto-juvenil Power Rangers para convocar militantes pró-impeachment em sua coluna no jornal "Folha de S.Paulo", Kim anunciava as celebridades do evento: "Vai ter Ronaldo Caiado! Vai ter Danilo Gentilli! Vai ter o Pauderney, o líder do DEM na Câmara dos Deputados!". Kim contava que também haveria comida e bebida. "Mas não alcóolica!", ressaltava.

Ao seu lado, no vídeo, aparecia Fernando Silva, de 19 anos, que escolheu Holiday como sobrenome. Silva ficou famoso por vociferar impropérios contra negros. Diz que "por ter mais melanina", não precisa "roubar vagas dos outros na universidade". O rapaz já comparou os negros que lutam pela política de cotas a "vermes", "porcos no chiqueiro fuçando a lama do resto do Estado" e "parasitas atrás do Estado querendo corroer cada vez mais e mais, com esse discurso de merda, com esse discurso lixo".

Numa sessão solene da Câmara dos Deputados, Silva rasgou o "Hino à Negritude". Era o Dia Internacional de Luta contra a Discriminação Racial. O deputado Vicentinho (PT-SP), presente na ocasião, apenas lamentou ver "um jovem negro sendo usado pela direita branca desse país." No vídeo em que convidava para a festa junina do MBL, Silva sorria, simpaticão, e dizia que a quermesse seria um momento para "bater um papo bem legal e, claro, curtir a fogueira de São João"

Da fogueira à promessa de animação, tudo era falso no arraial do grupelho que se dizia apartidário e hoje tem candidatos pelo DEM e PMDB

Endinheirados no palco dos estupradores

O evento foi aberto a todos que se dispusessem a pagar R$ 25 pelo convite comprado pela internet ou no local do evento que, por sinal, merece destaque. A festinha do MBL aconteceu na Associação Atlética Acadêmica Oswaldo Cruz (AAAOC), a Atlética da Medicina da USP, o curso mais concorrido da universidade mais prestigiosa do Brasil.

Na piscina da AAAOC, um calouro de 22 anos foi morto durante a festa de recepção dos bichos em 1999. De lá para cá, o local também apareceu no noticiário como cenário de inúmeras denúncias de casos graves de abusos sexuais, incluindo estupros (alguns coletivos), castigos físicos, humilhações, machismo, racismo e discriminação social que ganharam investigação do Ministério Público (MP-SP) e da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa de São Paulo.

O MBL pagou R$ 6.625 pelo aluguel do distinto local – num acordo em que depois do centésimo ingresso vendido o valor dos bilhetes era repartido entre a Atlética e os promotores da festa. Compareceram 170 pessoas, metade dos convivas estimados para o evento ou 25% dos que haviam manifestado interesse em participar no Facebook, o que representa menos de 5% dos 4 mil convidados. A bilheteria arrecadou módicos R$ 2.500.

Sobrou vaga... pra estacionar na ciclofaixa.

Sobrou vaga… pra estacionar na ciclofaixa.

Foi prejuízo pra todo mundo. Até para os prestadores de serviços das quatro ou cinco barraquinhas de comida. "Perdi a chance de faturar numa festa grande, em pleno Dia de São João, porque eles falaram que ia ter gente de grana nesse evento", contou um dos fornecedores que não sabia o que é MBL.

            Os carros estacionados ilegalmente na ciclofaixa que fica na rua do clube tornavam evidente que os convidados (alguns endinheirados) desprezam a lei e as coisas públicas. "Eles não gastaram muito, não. Vendi pouco. Isso aqui tá muito ruim", completou o vendedor.

O MBL pagou R$ 6.625 pelo aluguel do distinto local – num acordo em que depois do centésimo ingresso vendido o valor dos bilhetes era repartido entre a Atlética e os promotores da festa. Compareceram 170 pessoas, metade dos convivas estimados para o evento ou 25% dos que haviam manifestado interesse em participar no Facebook, o que representa menos de 5% dos 4 mil convidados. A bilheteria arrecadou módicos R$ 2500.

Foi prejuízo pra todo mundo. Até para os prestadores de serviços das quatro ou cinco barraquinhas de comida. "Perdi a chance de faturar numa festa grande, em pleno Dia de São João, porque eles falaram que ia ter gente de grana nesse evento", contou um dos fornecedores que não sabia o que é MBL.

A contar pelos cerca de 20 carrões na estacionados ilegalmente na ciclofaixa que fica na rua do clube, era evidente que os convidados eram endinheirados, sim. "Mas eles não gastaram muito, não. Vendi pouco. Isso aqui tá muito ruim", completou o vendedor.

Caneca Moro Caneca Moro

Vinho clandestino na caneca "Somos todos Moro"

Numa tentativa de se infiltrar no rolezinho da direita, dois Jornalistas Livres foram conferir a quermesse. A expectativa era de, ao menos, participar das rodinhas de conversa para saber como comemoram os que se dizem arautos do golpe. Mas nem isso deu.

Depois horas entediantes no evento, a conclusão foi uma só: assim como o próprio MBL, quase tudo o que se viu naquela festa junina foi de mentira. Da promessa vazia de uma evento animado ao papinho furado de que não teria bebida alcoólica no convescote, passando pela decoração gourmetizada de espantalhos limpinhos e estilizados. Até a fogueira do MBL era fake, feita de panos esvoaçantes iluminados com luzes fluorescentes…

Teve álcool na festinha, sim, senhor! Vinho quente adocicado de garrafão. Circulou no bar por R$ 6. Uma diminuta fila de espera, de não mais do que 10 pessoas, aguardava ansiosa para ser servida. Cada um tinha sua própria caneca com os dizeres "Somos todos Moro". Essa, por sua vez, era vendida por R$ 40 na barraquinha do MBL – "no site custa R$ 50, viu? Leva a sua já", propagandeou a militante que já tem como certa a candidatura do juiz à presidência.

            Arraial MBL   Arraial MBL

Mas, ah, por que diabos até o vinho tinha que ser escondido, clandestino, na festa junina do MBL? "Houve um suposto estupro aqui nesse clube e por isso o pessoal da faculdade não deixa vender bebida no bar", contou outra militante que, com perspicácia, fez questão de dar ênfase, muita ênfase, no suposto do estupro. Ela também fez o gesto de aspas no ar com dois dedos das mãos. E logo completou: "Mas a gente está comprando vinho e o clube tá fazendo vista grossa", revelou.

Cada um no seu quadrado

O local é capaz de recepcionar 500 pessoas. Sendo otimista, contava com no máximo 50 visitantes às 19 horas, horário de pico de qualquer quermesse de condomínio. Até o fim do evento, às 22 horas, nenhum sorriso foi retribuído e ninguém bateu nenhum "papo legal" com os repórteres que se dispuseram a fazer amigos e conhecer pessoas num verdadeiro esforço de reportagem. O máximo que ganhamos foram olhares ressabiados.

Arraial MBL Arraial MBL

            Um rapaz grandão de jaqueta com os dizeres "POLI USP" em letras garrafais deu uma boa encarada quando passamos a tirar fotos. Foi um vacilo. Aquele cenário, nem de longe, merecia registro. Também sentimos desconfiança quando nos aproximamos das pessoas. Pudera. As rodinhas de conversa, em geral, estavam separadas por gênero: de homens ou mulheres. Quanto aos casais, todos héteros, era cada um no seu quadrado. Apenas uma dupla desajeitada prestigiou o sanfoneiro Ismar. Ele ficou feliz, até caprichou no forró e o DJ aumentou o som. Mas a estratégia não atraiu mais ninguém para o arrasta-pé.

Para piorar o clima, o sanfoneiro foi embora antes do fim da festa e a caneca Somos Todos Moro custava R$ 40

Nem a quadrilha completa apareceu

           Pra piorar, pobre Kim, nem a quadrilha completa de "celebridades" apareceu no seu arraial. Não teve Danilo Gentilli, o humorista que chamou a senadora Regina Souza, mulher negra do Piauí, de tia do café e já humilhou uma seguidora do Twitter por ser gorda. O senador ruralista Ronaldo Caiado (DEM), que responde a denúncias de campanhas financiadas pelo bicheiro Carlinhos Cachoeira em Goiás, também deu o cano.

            Das estrelas alardeadas por Kim, o único que deu as caras foi padrinho político do MBL, o deputado Pauderney Avelino (DEM-AM) que apoia o jovem Fernando Silva, ops, Holiday, em sua pré-candidatura a vereador pelo DEM. Puxa… Ele chegou cedo e saiu rápidinho. Os Jornalistas Livres perderam! !

Arraial MBL Arraial MBL

            O congressista é velho conhecido das listas de escândalos políticos e corrupção. Em março, foi condenado a devolver cerca de R$ 4,6 milhões desviados em contratos ilegais e superfaturados de aluguéis de imóveis para escolas quando foi secretário de Educação de Manaus. Pauderney ainda foi denunciado pela revista Veja, aquela considerada pelo MBL como excelente fonte de informações, como beneficiário do recebimento de R$ 250 mil de empresas citadas na Lava Jato para sua campanha de 2014.

Apesar de menos prestigiado – por nem sequer ser citado como destaque do dia no vídeo do MBL ­–, outro político que deu o ar da graça foi o deputado federal Darcisio Perondi do PMDB-RS. Se ficha suja era requisito, ele cumpriu o protocolo. Perondi teve as contas de sua eleição de 2002 rejeitadas pelo Tribunal Regional Eleitoral do Rio Grande do Sul. Médico, ficou conhecido em todo o Brasil por ter cobrado consultas de pacientes pelo Sistema Único de Saúde (SUS) quando era presidente de um hospital em Ijuí (RS). Em parceria com outros 13 indiciados, foi acusado de enriquecimento ilícito, prejuízo ao erário, atentado contra os princípios da administração pública, estelionato e formação de quadrilha. O arraial adorou.

Lider "abafado" do MBL na foto com padrinho político

Na única foto do arraial do MBL que foi divulgada no facebook, Kim e Silva, ops, Holiday, aparecem com Pauderney e um outro integrante do grupelho, Renan Antônio Ferreira dos Santos. O rapaz de 33 anos andava sumido. Apresentado como o terceiro tripé de liderança o MBL, a imagem de Renan não é mais usada em fotos, vídeos em materiais de divulgação desde que ele foi flagrado em áudio que assume o recebimento de dinheiro do PSDB, PMDB, DEM e Solidariedade para organizar manifestações contra Dilma.

Postagem na página de Facebook do MBL

Seu nome também foi apontado em problemas na Justiça. Nome, aliás, que ele tentou escamotear. Diretor nacional do MBL, já assinou um artigo na Folha de S.Paulo (sempre ela) como Renan Henrique Ferreira dos Santos. No facebook, era Renan Haas e num pedido de impeachment da presidenta Dilma – entregue a Eduardo Cunha – rubricou como Renan Antônio. O despiste não deu certo. Mas tinha motivo.

            Réu em pelo menos 60 processos, Renan é acusado em ações que incluem fechamento fraudulento de empresas, dívidas fiscais, fraude contra credores, calote em pagamento de dívidas e fornecedores, ações de danos morais e trabalhistas, etc. São processos que envolvem R$ 4,9 milhões. Suas empresas e de sua família tem negócios tão variados como os relacionados à venda de lâmpadas, distribuição e logística, esquadrias e materiais metálicos, estamparia, filmagens, panificação, engenharia e viagens e turismo.

Uma dessas empresas, investigada numa reportagem da revista "Carta Capital", cuida de negócios vultosos em comércio de produtos de siderurgia, mas possui sede numa portinhola em Jundiaí (SP) com correspondência entregue num modesto bazar onde ninguém nunca ouviu falar de Renan e família. É tudo bem estranho.

Mas passa a fazer sentido quando se sabe que Renan é de Vinhedo (SP), cidade dos condomínios fechados que fica na região de Campinas, e onde o MBL nasceu em meio a grupos políticos dominados por investigados em corrupção. Só para se ter uma ideia, foi lá que o ex-prefeito Milton Serafim (PTB) renunciou para não ser cassado depois da sentença de 32 anos de cadeia por receber propina em troca de facilitação de licenças de loteamentos imobiliários. Antes de suas quatro gestões, Vinhedo tinha três condomínios de luxo. Depois de Serafim, quarenta.

            Renan, do MBL, já ganhou até homenagem na Câmara de Vinhedo. Recebeu as horarias do presidente da casa, Rubens Nunes, pai de outro aguerrido militante do MBL, Rubinho Nunes que é o responsável pelos assuntos jurídicos do MBL. Rubinho virou pré-candidato a prefeito de Vinhedo pelo PMDB e é bem próximo de… Aécio Neves. Literalmente. Rubinho fez escolta para o senador que é campeão nas citações da Lava Jato em uma das manifestações golpistas. Eita, mundo pequeno!

Vendedor de pamonha teve prejuízo e ainda pagou R$42 ao MBL

Mas nem toda essa influência, todas essas teias de relações envoltas em poder e tráfico de influências mudou o destino melancólico do arraial do MBL. Por volta das 21hs, uma hora antes do fim da festa, o pipoqueiro já tinha ido embora. O vinho clandestino, acabado. O churrasqueiro nem se deu ao trabalho de reacender a brasa úmida. Pizza? Só se fosse um pedaço daquela que estava pronta, ainda nem na metade, de mozzarella. Dava para reaquecer na beira do forno.

Tristeza maior, no entanto, veio do carrinho de milho e de pamonha. Pelo acordo com os organizadores da festa, de cada produto vendido a R$ 5, R$ 1 iria para o MBL. Uma moça alta, então, passou na carrocinha para recolher a parte que lhe cabia. Colocou no bolso R$ 42. "É… não vendi nem 50 pamonhas", disse o micro empresário que chegou a levar um ajudante na expectativa de bom faturamento. "Não sei dessa crise aqui, não. Mas se eu tivesse ido na quermesse do meu bairro ia faturar no mínimo umas 200 vendas. Qualquer festa dá isso… E o pior é que pamonha estraga, vai pro lixo", contou, inconsolável, pouco antes do sanfoneiro Ismar parar de tocar e botar sua sanfona no saco. Um DJ visivelmente entediado, então, colocou um forrozinho na esperança de protelar o derradeiro fim.

Arraial MBL

            Foi então que os Jornalistas Livres observaram uma cena curiosa: uma garota chamou Kim Kataguiri para dançar. Foi olho no olho. Ele disse que não sabia nada de forró. "Eu também, não, mas vem cá", disse ela, rindo, já conduzindo as mãos do rapaz em sua cintura. "Eu sei que precisa dar uns pulinhos e requebrar a bundinha, Kim, vamos!" O líder supremo do MBL não gostou da brincadeira. Soltou a mão da menina, deu um passo pra trás e falou: "Ah, não, sem essa de requebrar bundinha!" E ela ficou ali, de mãos abanando, meio rindo, meio nervosa. Depois dessa, só mesmo indo embora.

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