Um livro é um mudo que fala, um surdo que responde, um cego que guia, um morto que vive. (Padre Antônio Vieira)

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Soneto espiritual

Mas que vida! Este mundo é o inferno!
Odeio trabalhar, o escritório é uma jaula
Onde ficam presos todos aqueles que não tem alma.
Deveríamos trazer conosco um cutelo

E ao final do expediente um ao outro atacar,
Para acabar com essa tortura que dizem que enobrece,
Este sentimento masoquista que a muitos apetece,
Esta coisa chata que é trabalhar.

Outro dia estava lendo sobre o mundo espiritual
E fiquei atordoado, pasmo de espanto:
Descobri que nem após a morte temos descanso.

No mundo espiritual também existe classe social,
Existem os menos e os mais evoluídos...
Apaguem a luz que eu não quero ser espírito!

f. foresti

Poema sem vontade

Um poema no início da tarde,
Uma poesia sem vontade,
Sem nada para dizer
Às treze e dezesseis...

Sim, é vera!
Não tenho nada a dizer,
Apenas quero escrever,
Assim, sem nada para contar.

f. foresti

LIPOVETSKY, Gilles. A felicidade paradoxal

LIPOVETSKY, Gilles. A felicidade paradoxal: ensaio sobre a sociedade do hiperconsumo. Tradução de Maria Lucia Machado. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. 402 p.


[...] a ambiência de estimulação dos desejos, a euforia publicitária, a imagem luxuriante das férias, a sexualização dos signos e dos corpos. Eis um tipo de sociedade que substitui a coerção pela sedução, o dever pelo hedonismo, a poupança pelo dispêndio, a solenidade pelo humor, o recalque pela liberação, as promessas do futuro pelo presente. p. 35

[...] a publicidade passou de uma comunicação construída em torno do produto e de seus benefícios funcionais a campanhas que difundem valores e uma visão que enfatiza o espetacular, a emoção, o sentido não literal, [...] significantes que ultrapassam a realidade objetiva dos produtos. p. 46

A ansiedade está [...] na origem do novo gosto dos jovens adolescentes pelas marcas. [...] Ostentar um logotipo, para um jovem, não é tanto querer alçar-se acima dos outros quanto não parecer menos que os outros. [...] levando à recusa de apresentar uma imagem de si maculada de inferioridade desvalorizada. [...] é por isso que a sensibilidade às marcas é exibida tão ostensivamente nos meios desfavorecidos. Por uma marca apreciada, o jovem sai da impessoalidade, pretende mostrar não uma superioridade social, mas sua participação inteira e igual nos jogos da moda, da juventude e do consumo. p. 50

Na sociedade de hiperconsumo, mesmo a espiritualidade é comprada e vendida. [...] Eis que a espiritualidade se tornou mercado de massa, produto a ser comercializado, setor a ser gerido e promovido. O que constituía uma barreira à explosão da mercadoria metamorfoseou-se em alavanca de seu alargamento. p. 132

O que antigamente era vivido como um destino de classe é experimentado como uma humilhação, uma vergonha individual. É assim que, no coração do planeta beestar, aumenta o sentimento de ser inútil no mundo, de ter sido usado e depois jogado fora, de ter falhado em tudo. p. 169

Uma nova etapa é transposta a partir dos anos 1920. Enquanto os suportes se multiplicam, os anúncios exploram temáticas e registros inéditos, que continuam em vigor em nossos dias: elogio da mulher moderna, maquiada e sedutora, culto da auto-realização, do conforto e dos lazeres, sacralização da juventude. p. 173

[...] a publicidade criou uma nova cultura cotidiana baseada numa visão mercantilizada da vida. p. 174

[...] o desaparecimento dos espaços desprovidos de signos comerciais. p. 175

[...] os objetivos da publicidade mostram-se mais ambiciosos; esta já não se contenta em ser o realce dos produtos, ei-la que exalta visões do mundo, passa mensagens, valores e idéias com vista à fidelização dos clientes. p. 175-176

A publicidade propõe, o consumidor dispõe: ela tem poderes, mas não tem todos os poderes. E, se ela provoca frustrações, é apenas nos limites do que corresponde aos gostos do consumidor. p. 178

A publicidade reflexo:
[...] alfabetizadas nas linguagens dos bens mercantis, alimentadas com o leite da mercadoria-espetáculo, as massas são de imediato consumistas, espontaneamente sedentas de compras e de evasões, de novidades e de maior bem-estar. p. 180

[...] a publicidade hipermoderna procura menos celebrar o produto que inovar, comover, distrair, rejuvenescer a imagem, interpelar o consumidor. p. 181-182

Ela educava o consumidor, agora o reflete. p. 182

[...] as prioridades do fazer vêm relativizar ou compensar as frustrações do ter. p. 189

Não existe mais subcultura análogo à dos guetos e da pobreza tradicional. Mesmo excluída do universo do trabalho, a população dos centros de cidade e dos subúrbios desqualificados partilha os valores individualistas e consumistas das classes médias, a preocupação com a personalidade individual e auto-realização. [...] importa cada vez mais, para o indivíduo, não ser inferiorizado, atingido em sua dignidade. É assim que a sociedade de hiperconsumo é marcada tanto pela progressão do sentimentos de exclusão social quanto pela acentuação dos desejos de identidade, de dignidade e de reconhecimento individual. p. 192

Desprezando a cultura operária e a cultura do trabalho, rejeitando a política e o sindicalismo, os jovens “marginalizados” constroem sua identidade em torno do consumo e da “grana”, da fanfarronada e da vigarice. p. 193

Se os desvios juvenis são uma das conseqüências da falência dos movimentos sociais, são também resultado de um mundo social desestruturado e privatizado pelo império do consumo mercantil, por novos modos de vida centrados no dinheiro, pela vida no presente, pela satisfação imediata dos desejos. p. 193

[...] os excluídos do consumo são eles próprios uma espécie de hiperconsumidores. Privados de verdadeira participação no mundo do trabalho, atormentados pela ociosidade e pelo tédio, os indivíduos menos favorecidos buscam compensações no consumo, na aquisição de serviços ou de bens de equipamento, mesmo que seja, [...] em detrimento do que é mais útil. p. 194

[...] não se sentem pobres apenas porque subconsomem bens e lazeres, mas também porque superconsomem as imagens da felicidade mercantil. p. 194

[...] o desemprego mudou de sentido: não sendo mais assimilado a um destino de classe, ele remete a um fracssso ou a uma insuficiência pessoal, freqüentemente acompanhada de auto-estigmatização. [...] Quanto mais as condições materiais gerais melhoram, mais se intensifica a subjetivização-psicologização da pobreza. p. 199-200

Em uma cultura entregue aos prazeres sensoriais e aos desejos de gozo aqui e gora, é toda a vida social e individual que, ao que nos dizem, está envolta num halo “orgiástico” [...] esgotamento do princípio de individualização e escalada correlativa da tribalização afetiva, das emoções vividas em comum, das sensibilidades coletivas. p. 209

Não é as novas epifanias do Mestre dos prazeres que nos é dado assistir, mas à encenação lúdico-hedonista de seus funerais. Nada de reencarnação dos valores orgiásticos, mas a invenção do cosmo paradoxal da hipermodernidade individualista. p. 211

O universo do lazer contemporâneo [...] é o da privatização dos prazeres, da individualização e da comercialização do tempo livre [...] a lógica que triunfa é a do tempo individualista do lazer-consumo. p. 212

O hiperindivíduo não é dionisíaco; consome ambiência dionisíaca instrumentalizando o coletivo com vista a satisfações privadas. p. 212

[...] se o lazer pode reafirmar coesão comunitária, é importante sublinhar-lhe o caráter lábil, efêmero, muitas vezes epidérmico. [...] o que o lazer refabrica é menos a preeminência do coletivo sobre o individual que uma divisão pacífica do social, feita de dispersão individualista dos gostos e dos comportamentos. p. 212-213

Os lazeres e os templos do consumo são fatores de comunhão? A verdade é que eles relacionam mais o indivíduo consigo mesmo do que provocam a união dos membros de uma mesma comunidade. p. 216

A felicidade não é, evidentemente, uma “idéia nova”. Nova é a idéia de ter associado a conquista da felicidade às “facilidades da vida”, ao Progresso, à melhoria perpétua da existência material. p. 217

Com os modernos, a felicidade da humanidade identifica-se com o progresso das leis, da justiça e das condições materiais de existência [...] não é mais a mudança de si que aparece como o caminho certo da felicidade, mas a transformação do mundo, a atividade fabricadora capaz de aliviar as penas, embelezar a vida, proporcionar cada vez mais satisfações materiais. p. 217

Centrado na acumulação dos bens, na eletrificação e na mecanização do lar, esse modelo de conforto é de tipo tecnicista-quantitativo e é sonhado como o que apaga as sujeições, como prótese miraculosa que traz higiene e intimidade, ganho de tempo e facilidade de vida, distração e entretenimento passivos. [...] Depois do conforto-luxo [...] o [...] conforto-liberdade (“a técnica liberta mulher”) [...] Vitrine do progresso técnico e da racionalização do cotidiano, instrumento de uma vida melhor, o conforto tornou-se a figura central da felicidade-repouso, dos gozos fáceis possibilitados pelo universo técnico-mercantil. p. 218-219

Alastra-se uma nova espécie de conforto que se identifica com a abundância informacional, as interações virtuais, a acessibilidade permanente e ilimitada. p. 227

[...] o design contemporâneo exibe uma nova predileção pelos objetos gordinhos, de linhas ovóides, criando um universo suave, maternal, acolhedor. [...] reconcilia-se com os arredondados. p.230

[...] a ambição do design não é mais tanto de erigir símbolos de modernidade triunfal quanto um meio ambiente acolhedor e reconfortante, um conforto hipermoderno que concilia o funcional e a experiência vivida emocional, a eficácia e as necessidades psíquicas do homem. p. 232

[...] Já não se fazem comilanças, fazem-se regimes. As prateleiras dos supermercados estão carregadas de alimentos biodinâmicos, de produtos com pouca gordura, “pró-bióticos” e outros alimentos saudáveis. Quanto as intermináveis refeições de domingo, elas nos causam horror. Comer com fartura [...] deixou de ser uma paixão popular, a época aprova as refeições equilibradas, a alimentação leve benéfica à saúde e à magreza. [...] Cada vez mais a alimentação é considerada como um meio de prevenção ou mesmo de tratamento de certas doenças: a saúde, a longevidade, a beleza tornaram-se os novos referenciais que enquadram a relação com a mesa. p. 233

No entanto, é nesse exato momento que se propagam como um maremoto as bulimias e outras anarquias alimentares. De um lado, os valores da magreza, de saúde e de equilíbrio alimentar [...] do outro, multiplicam-se as compulsões e frenesis do neocomedor. p. 235

Mas nada disso acena à alegria dionisíaca. Bem ao contrário. Os excessos à mesa eram de origem coletiva, os nossos são individuais; eram festivos, são neuróticos; constituíam uma figura da felicidade coletiva, agora culpabilizam os indivíduos, tomando um caráter vergonhoso e patológico em uma cultura que reconhece apenas o controle de si. p. 235

[...] vemos a alimentação conquistada, por sua vez, pela forma-moda, que transforma a refeição em [...] divertimento total, co comidas inéditas, [...] decoração design, música ao gosto do dia. p. 236

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Um livro é

Um livro é um mudo que fala, um surdo que responde, um cego que guia, um morto que vive.

VIEIRA, Padre Antônio

 

Eu desconfio de quem fala com a boca cheia

SANTOS, Joaquim Ferreira dos. Papo-Furado. Segundo Caderno. O Globo. Rio de Janeiro, 28 mar. 2005. Segundo Caderno. Disponível em: www.folha.com.br

Eu desconfio de quem fala com a boca cheia. Não de comida, que tem umas crianças lindas assim. Mas de boca cheia de palavras. Aprendi com o poeta que é preciso usar a faca afiada e enxugar a gordura verborrágica que, por nossa ignorância atávica, fomos acostumados a curtir nos deputados baianos, nos advogados paulistas, nos camelôs cariocas e nos pastores das universais do reino disso e daquilo. Uma das glórias nacionais é o sujeito que "fala bonito". Geralmente não passa de um perdulário das palavras. Gosta do volume que elas fazem na orelha do próximo. Dá preferência às mais complicadas do dicionário e gosta de juntá-las, uma atrás da outra, nem aí para o fato de não estarem significando senso algum. Então, o que que acontece?!... A grande platéia brasileirinha, que tem como requinte estético o malabarista de circo equilibrando garrafas, reconhece o pseudo-artista do verbo com a nova sardinha no focinho — e vibra invejosa de tanta falsa cultura.


Shinyashiki: Cuidado com os burros motivados

Em Heróis de verdade, o escritor combate a supervalorização da aparência e diz que falta ao Brasil é competência, e não auto-estima.

Roberto Shinyashiki
Report. Camilo Vannuchi (Isto é, 15/10/05)

"Hoje, como as pessoas não conseguem nem ser nem ter, o grande objetivo de vida se tornou parecer "

Observador contumaz das manias humanas, Roberto Shinyashiki está cansado dos jogos de aparência que tomaram conta das corporações e das famílias. Nas entrevistas de emprego, por exemplo, os candidatos repetem o que imaginam que deve ser dito. Num teatro constante, são todos felizes, motivados, corretos, embora muitas vezes pequem na competência. Dizem-se perfeccionistas: ninguém comete falhas, ninguém erra. Como Álvaro de Campos (heterônimo de Fernando Pessoa) em Poema em linha reta, o psiquiatra não compartilha da síndrome de super-heróis. "Nunca conheci quem tivesse levado porrada na vida (...) Toda a gente que eu conheço e que fala comigo nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho, nunca foi senão príncipe", dizem os versos que o inspiraram a escrever Heróis de verdade. Farto de semideuses, faz soar seu alerta por uma mudança de atitude. "O mundo precisa de pessoas mais simples e verdadeiras."

ISTOÉ - Quem são os heróis de verdade?
Roberto Shinyashiki - Nossa sociedade ensina que, para ser uma pessoade sucesso, você precisa ser diretor de uma multinacional, ter carro importado, viajar de primeira classe. O mundo define que poucas pessoas deram certo. Isso é uma loucura. Para cada diretor de empresa, há milhares de funcionários que não chegaram a ser gerentes. E essas pessoas são tratadas como uma multidão de fracassados. Quando olha para a própria vida, a maioria se convence de que não valeu a pena porque não conseguiu ter o carro nem a casa maravilhosa. Para mim, é importante que o filho da moça que trabalha na minha casa possa se orgulhar da mãe. O mundo precisa de pessoas mais simples e transparentes. Heróis de verdade são aqueles que trabalham para realizar seus projetos de vida, e não para impressionar os outros. São pessoas que sabem pedir desculpas e admitir que erraram.

ISTOÉ - O sr. citaria exemplos?
Shinyashiki - Dona Zilda Arns, que não vai a determinados programas de tevê nem aparece de Cartier, mas está salvando milhões de pessoas. Quando eu nasci, minha mãe era empregada doméstica e meu pai, órfão aos sete anos, empregado em uma farmácia. Morávamos em um bairro miserável em São Vicente (SP) chamado Vila Margarida. Eles são meus heróis. Conseguiram criar seus quatro filhos, que hoje estão bem. Acho lindo quando o Cafu põe uma camisa em que está escrito "100% Jardim Irene". É pena que a maior parte das pessoas esconda suas raízes. O resultado é um mundo vítima da depressão, doença que acomete hoje 10% da população americana. Em países como Japão, Suécia e Noruega, há mais suicídio do que homicídio. Por que tanta gente se mata? Parte da culpa está na depressão das aparências, que acomete a mulher que, embora não ame mais o marido, mantém o casamento, ou o homem que passa décadas em um emprego que não o faz se sentir realizado, mas o faz se sentir seguro.

ISTOÉ - Qual o resultado disso?
Shinyashiki - Paranóia e depressão cada vez mais precoces. O pai quer preparar o filho para o futuro e mete o menino em aulas de inglês, informática e mandarim. Aos nove ou dez anos a depressão aparece. A única coisa que prepara uma criança para o futuro é ela poder ser criança. Com a desculpa de prepará-los para o futuro, os malucos dos pais estão roubando a infância dos filhos. Essas crianças serão adultos inseguros e terão discursos hipócritas. Aliás, a hipocrisia já predomina no mundo corporativo.

ISTOÉ - Por quê?
Shinyashiki - O mundo corporativo virou um mundo de faz-de-conta, a começar pelo processo de recrutamento. É contratado o sujeito com mais marketing pessoal. As corporações valorizam mais a auto-estima do que a competência. Sou presidente da Editora Gente e entrevistei uma moça que respondia todas as minhas perguntas com uma ou duas palavras. Disse que ela não parecia demonstrar interesse. Ela me respondeu estar muito interessada, mas, como falava pouco, pediu que eu pesasse o desempenho dela, e não a conversa. Até porque ela era candidata a um emprego na contabilidade, e não de relações públicas. Contratei na hora. Num processo clássico de seleção, ela não passaria da primeira etapa.

ISTOÉ - Há um script estabelecido?
Shinyashiki - Sim. Quer ver uma pergunta estúpida feita por um presidente de multinacional no programa O aprendiz? "Qual é seu defeito?" Todos respondem que o defeito é não pensar na vida pessoal: "Eu mergulho de cabeça na empresa. Preciso aprender a relaxar." É exatamente o que o chefe quer escutar. Por que você acha que nunca alguém respondeu ser desorganizado ou esquecido? É contratado quem é bom em conversar, em fingir. Da mesma forma, na maioria das vezes, são promovidos aqueles que fazem o jogo do poder. O vice-presidente de uma das maiores empresas do planeta me disse: "Sabe, Roberto, ninguém chega à vice-presidência sem mentir." Isso significa que quem fala a verdade não chega a diretor?

ISTOÉ - Temos um modelo de gestão que premia pessoas mal preparadas?
Shinyashiki - Ele cria pessoas arrogantes, que não têm a humildade de se preparar, que não têm capacidade de ler um livro até o fim e não se preocupam com o conhecimento. Muitas equipes precisam de motivação, mas o maior problema no Brasil é competência. Cuidado com os burros motivados. Há muita gente motivada fazendo besteira. Não adianta você assumir uma função para a qual não está preparado. Fui cirurgião e me orgulho de nunca um paciente ter morrido na minha mão. Mas tenho a humildade de reconhecer que isso nunca aconteceu graças a meus chefes, que foram sábios em não me dar um caso para o qual eu não estava preparado. Hoje, o garoto sai da faculdade achando que sabe fazer uma neurocirurgia. O Brasil se tornou incompetente e não acordou para isso.

ISTOÉ - Está sobrando auto-estima?
Shinyashiki - Falta às pessoas a verdadeira auto-estima. Se eu preciso que os outros digam que sou o melhor, minha auto-estima está baixa. Antes, o ter conseguia substituir o ser. O cara mal-educado dava uma gorjeta alta para conquistar o respeito do garçom. Hoje, como as pessoas não conseguem nem ser nem ter, o objetivo de vida se tornou parecer. As pessoas parece que sabem, parece que fazem, parece que acreditam. E poucos são humildes para confessar que não sabem. Há muitas mulheres solitárias no Brasil que preferem dizer que é melhor assim. Embora a auto-estima esteja baixa, fazem pose de que está tudo bem.

ISTOÉ - Por que nos deixamos levar por essa necessidade de sermos perfeitos em tudo e de valorizar a aparência?
Shinyashiki - Isso vem do vazio que sentimos. A gente continua valorizando os heróis. Quem vai salvar o Brasil? O Lula. Quem vai salvar o time? O técnico. Quem vai salvar meu casamento? O terapeuta. O problema é que eles não vão salvar nada! Tive um professor de filosofia que dizia: "Quando você quiser entender a essência do ser humano, imagine a rainha Elizabeth com uma crise de diarréia durante um jantar no Palácio de Buckingham." Pode parecer incrível, mas a rainha Elizabeth também tem diarréia. Ela certamente já teve dor de dente, já chorou de tristeza, já fez coisas que não deram certo. A gente tem de parar de procurar super-heróis. Porque se o super-herói não segura a onda, todo mundo o considera um fracassado.

ISTOÉ - O conceito muda quando a expectativa não se comprova?
Shinyashiki - Exatamente. A gente não é super-herói nem superfracassado. A gente acerta, erra, tem dias de alegria e dias de tristeza. Não há nada de errado nisso. Hoje, as pessoas estão questionando o Lula em parte porque acreditavam que ele fosse mudar suas vidas e se decepcionaram. A crise será positiva se elas entenderem que a responsabilidade pela própria vida é delas.

ISTOÉ - É comum colocar a culpa nos outros?
Shinyashiki - Sim. Há uma tendência a reclamar, dar desculpas e acusar alguém. Eu vejo as pessoas escondendo suas humanidades. Todas as empresas definem uma meta de crescimento no começo do ano. O presidente estabelece que a meta é crescer 15%, mas, se perguntar a ele em que está baseada essa expectativa, ele não vai saber responder. Ele estabelece um valor aleatoriamente, os diretores fingem que é factível e os vendedores já partem do princípio de que a meta não será cumprida e passam a buscar explicações para, no final do ano, justificar. A maioria das metas estabelecidas no Brasil não leva em conta a evolução do setor. É uma chutação total.

ISTOÉ - Muitas pessoas acham que é fácil para o Roberto Shinyashiki dizer essas coisas, já que ele é bem-sucedido. O senhor tem defeitos?
Shinyashiki - Tenho minhas angústias e inseguranças. Mas aceitá-las faz minha vida fluir facilmente. Há várias coisas que eu queria e não consegui. Jogar na Seleção Brasileira, tocar nos Beatles (risos). Meu filho mais velho nasceu com uma doença cerebral e hoje tem 25 anos. Com uma criança especial, eu aprendi que ou eu a amo do jeito que ela é ou vou massacrá-la o resto da vida para ser o filho que eu gostaria que fosse. Quando olho para trás, vejo que 60% das coisas que fiz deram certo. O resto foram apostas e erros. Dia desses apostei na edição de um livro que não deu certo. Um amigão me perguntou: "Quem decidiu publicar esse livro?" Eu respondi que tinha sido eu. O erro foi meu. Não preciso mentir.

ISTOÉ - Como as pessoas podem se livrar dessa tirania da aparência?
Shinyashiki - O primeiro passo é pensar nas coisas que fazem as pessoas cederem a essa tirania e tentar evitá-las. São três fraquezas. A primeira é precisar de aplauso, a segunda é precisar se sentir amada e a terceira é buscar segurança. Os Beatles foram recusados por gravadoras e nem por isso desistiram. Hoje, o erro das escolas de música é definir o estilo do aluno. Elas ensinam a tocar como o Steve Vai, o B. B. King ou o Keith Richards. Os MBAs têm o mesmo problema: ensinam os alunos a serem covers do Bill Gates. O que as escolas deveriam fazer é ajudar o aluno a desenvolver suas próprias potencialidades.

ISTOÉ - Muitas pessoas têm buscado sonhos que não são seus?
Shinyashiki - A sociedade quer definir o que é certo. São quatro loucuras da sociedade. A primeira é instituir que todos têm de ter sucesso, como se ele não tivesse significados individuais. A segunda loucura é: "Você tem de estar feliz todos os dias." A terceira é: "Você tem que comprar tudo o que puder." O resultado é esse consumismo absurdo. Por fim, a quarta loucura: "Você tem de fazer as coisas do jeito certo." Jeito certo não existe. Não há um caminho único para se fazer as coisas. As metas são interessantes para o sucesso, mas não para a felicidade. Felicidade não é uma meta, mas um estado de espírito. Tem gente que diz que não será feliz enquanto não casar, enquanto outros se dizem infelizes justamente por causa do casamento. Você precisa ser feliz tomando sorvete, levando os filhos para brincar.

ISTOÉ - O sr. visita mestres na Índia com freqüência. Há alguma parábola que o sr. aprendeu com eles que o ajude a agir?
Shinyashiki - Quando era recém-formado em São Paulo, trabalhei em um hospital de pacientes terminais. Todos os dias morriam nove ou dez pacientes. Eu sempre procurei conversar com eles na hora da morte. A maior parte pega o médico pela camisa e diz: "Doutor, não me deixe morrer. Eu me sacrifiquei a vida inteira, agora eu quero ser feliz." Eu sentia uma dor enorme por não poder fazer nada. Ali eu aprendi que a felicidade é feita de coisas pequenas. Ninguém na hora da morte diz se arrepender por não ter aplicado o dinheiro em imóveis. Uma história que aprendi na Índia me ensinou muito.

O sujeito fugia de um urso e caiu em um barranco. Conseguiu se pendurar em algumas raízes. O urso tentava pegá-lo. Embaixo, onças pulavam para agarrar seu pé. No maior sufoco, o sujeito olha para o lado e vê um arbusto com um morango. Ele pega o morango, admira sua beleza e o saboreia. Cada vez mais nós temos ursos e onças à nossa volta. Mas é preciso comer os morangos.

Formas de pesquisa na web

CUNHA, Murilo Bastos da. Para saber mais: fontes de informação em ciência e tecnologia. Brasília: Briquet de Lemos, 2001. 168 p.
  1. BUSCA BOOLEANA (boolean search): tipo de busca que permite a utilização dos operadores E (AND, + ou &), NÃO (NOT, ou!), OU (OR) ou PRÓXIMO (NEAR ou ~) no sentido de incluir ou excluir documentos que contenham determinadas palavras ou termos;


  1. BUSCA DIFUSA (fuzzy search): busca de grafias alternativas de palavras fazendo combinações mesmo quando as palavras estão grafadas erradamente;


  1. BUSCA POR CONCEITO (concept search): busca de documentos que não contenham uma palavra específica mas que esteja relacionado conceitualmente com esta palavras;


  1. BUSCA POR FRASE (phrase search): busca por documentos que contenham uma frase ou sentença exata ou específica;


  1. BUSCA POR PALAVRA-CHAVE (keyword serach): estratégia de busca que requer que o resultado final contenha uma ou mais palavras especificadas;


  1. BUSCA POR PROXIMIDADE (proximity search): busca por documentos que contenham certas palavras perto de outra;


  1. ÍNDICE (índex): a lista de resultados da busca criado pelo macanismo de busca quando analisa sítios na web;


  1. RELEVÂNCIA (relevance): valor ou porcentagem de qualidade informativa de documentos recuperados de acordo com os termos de busca especificados previamente.


  1. BUSCA POR TRUNCAMENTO.


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