Um livro é um mudo que fala, um surdo que responde, um cego que guia, um morto que vive. (Padre Antônio Vieira)

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

A humanidade ama porque ama falar no amor

Não me mace, nem me obrigue a ter pena!
Olhe: tudo é literatura.
Vem-nos tudo de fora, como a chuva.
A maneira? Se nós somos páginas aplicadas de romances?
Traduções, meu filho.
Você sabe porque está tão triste? É por causa de Platão,
Que você nunca leu.
E um soneto de Petrarca, que você desconhece, sobrou-lhe errado,
E assim é a vida.
Arregace as mangas da camisa civilizada
E cave terras exactas!
Mais vale isso que ter a alma dos outros.
A chuva cai por uma lei natural
E a humanidade ama porque ama falar no amor.
 
Pessoa, Fernando. Poesia. Álvaro de Campos. Edição Teresa Rita Lopes. São Paulo: Cia. das Letras, 2002. p. 377

Volta amanhã realidade!

Grandes são os desertos e as almas desertas e grandes -
Desertas porque não passa por elas senão elas mesmas,
Grandes porque de ali se vê tudo, e tudo morreu.
[...]
Não tirei bilhete para a vida,
Errei a porta do sentimento,
Não houve vontade ou ocasião que eu não perdesse.
[...]
Volta amanhã realidade!
 
 
Pessoa, Fernando. Poesia. Álvaro de Campos. Edição Teresa Rita Lopes. São Paulo: Cia. das Letras, 2002. p. 384-385.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Eu Demiti Um Amigo - Frank Jorge

Eu demiti um amigo, oh, meu Deus
Por que isto aconteceu comigo?
Eu era um subordinado
Cumprindo ordens de um desmiolado

Eu demiti um amigo, vejam só
O caso foi exonerado, juro que foi dolorido
E agora me sinto culpado
Por ter demitido um amigo

No fiel cumprimento da função
Ocorreu uma insubordinação
E ninguém pode então testemunhar
Para a barra do sujeito aliviar

O caso já foi concluído
Mas mesmo assim não estou convencido

Os homens acabam se matando
Sem ao menos saber o motivo
E outros demitirão seus amigos
Mesmo sendo muito mais qualificados

Sono dos justos adeus
O que vale é a lei do mercado

Eu demiti um amigo, já perdi a noção
Do que é certo ou errado
Espero um dia então
De sua voz possa ouvir o perdão
 
 
 

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

O livro é um presente

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Sou livre, contra a sociedade organizada e vestida

Ah a frescura na face de não cumprir um dever!
Faltar é positivamente estar no campo!
Que refúgio o não se poder ter confiança em nós!
Respiro melhor agora que passaram as horas dos encontros.
Faltei a todos, com uma deliberação do desleixo, [...]
Sou livre, contra a sociedade organizada e vestida.
Estou nu, e mergulho na água da minha imaginação.
 
[...] Se é um gesto,
Fique com os outros, que me esperam, no desencontro que é a vida.
 
 
Álvaro de Campos
 
 

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