Um livro é um mudo que fala, um surdo que responde, um cego que guia, um morto que vive. (Padre Antônio Vieira)

quinta-feira, 8 de abril de 2010

A Estrela

Vi uma estrela tão alta,
Vi uma estrela tão fria!
Vi uma estrela luzindo
Na minha vida vazia.
 
Era uma estrela tão alta!
Era uma estrela tão fria!
Era uma estrela sozinha
Luzindo no fim do dia.
 
Por que da sua distância
Para a minha companhia
Não baixava aquela estrela?
Por que tão alta luzia?
 
E ouvi-a na sombra funda
Responder que assim fazia
Para dar uma esperança
Mais triste ao fim do meu dia.
 
 
 Bandeira, Manuel. Antologia Poética. 8 ed. Rio de Janeiro: Livraria José Olímpio, 1976. p. 110-111
 
 
 

Momento num café

Quando o enterro passou
Os homens que se achavam no café
Tiraram o chapéu maquinalmente
Saudavam o morto distraídos
Estavam todos voltados para a vida
Absortos na vida
Confiantes na vida.
 
Um no entanto se descobriu num gesto largo e demorado
Olhando o esquife longamente
Este sabia que a vida é uma agitação feroz e sem finalidade
Que a vida é traição
E saudava a matéria que passava
Liberta para sempre da alma extinta.
 
 Bandeira, Manuel. Antologia Poética. 8 ed. Rio de Janeiro: Livraria José Olímpio, 1976. p. 93

Poética

Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente protocolo e manifestações de apreço ao Sr. Diretor.
Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário o cunho vernáculo de um vocábulo

Abaixo os puristas
Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis

Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora de si mesmo.

De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário do manate exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes maneiras de agradar às mulheres, etc.

Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo do bêbedos
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clowns de Shakespeare

- Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.


Bandeira, Manuel. Antologia Poética. 8 ed. Rio de Janeiro: Livraria José Olímpio, 1976. p. 63-64

sábado, 3 de abril de 2010

O fim da lavadora de roupas

Máquina de lavar roupas é coisa do passado. Gasta muito tempo, água e energia elétrica. Ou seja, não é nem um pouco "ecofriendly". Veja aqui o método revolucionário que inventei, passo a passo:

1.Pegue um par de meias sujo. É melhor treinar com uma peça de roupa simples. Depois você pode fazer o mesmo com uma jaqueta
2.Jogue um pouco de sabão em pó dentro da privada. É importante e higiênico puxar a descarga antes
3.Coloque a meia dentro da privada. Mexa um pouco para fazer espuma
4.Puxe a descarga duas vezes. Uma para lavar e outra para enxaguar. Importante: segure a meia firmemente para que ela não entre pelo encanamento
5.Prontinho. Em segundos as meias estão limpinhas
6.Agora é só torcer e pendurar para secar.
 
 

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Madrigal Melancólico

O que eu adoro em ti,
Não é a tua beleza.
A beleza, é em nós que ela existe.
A beleza é um conceito.
E a beleza é triste.
Não é triste em si,
Mas pelo que já nela de fragilidade e de incerteza.
 
O que eu adoro em ti
Não é a tua inteligência.
Não é o teu espírito sutil,
Tão ágil, tão luminoso,
- Ave solta no céu matinal da montanha.
Nem é a tua ciência
Do coração dos homens e das coisas.
 
O que eu adoro em ti,
Não é a tua graça musical,
Sucessiva e renovada a cada momento,
Graça aérea como o teu próprio pensamento,
Graça que perturba e que satisfaz.
 
O que eu adoro em ti,
Não é a mãe que já perdi,
Não é a irmã que já perdi,
E meu pai.
 
O que eu adoro em tua natureza,
Não é o profundo instinto maternal
Em teu flanco aberto como uma ferida.
Nem a tua pureza. Nem a tua impureza.
O que eu adoro em ti - lastima-me e consola-me!
O que eu adoro em ti, é a vida.
 
Manuel Bandeira
11 de julho de 1920
 
Bandeira, Manuel. Antologia Poética. 8 ed. Rio de Janeiro: Livraria José Olímpio, 1976. p. 48-49

sexta-feira, 26 de março de 2010

Pelo direito de assistir à TV em paz

Por Ale Rocha . 26.03.10 - 16h30

Após tomar estádios de futebol e o trânsito, entre outros espaços de convivência, a TV é a bola da vez para a expressão da violência. Os telespectadores enlouquecem por qualquer motivo. Comentários sobre uma atração são transformados em algo ideológico. Se quem lê o que eu escrevo concorda, sou laureado com elogios. Se o leitor ou a leitora discorda, sou chamado de imbecil para pior.

Boa parte da população está à beira de um ataque histérico. Junte a isso o irritante comportamento politicamente correto e a inabilidade em lidar com o contraditório. Temos uma bomba-relógio.

É deplorável esta atitude de muitos telespectadores. Independe de classe social e econômica. O que deveria ser um entretenimento saudável virou combustível para ameaças e intolerância. O ringue preferido é a internet.

Há pouco mais de duas semanas, Hebe retornou à TV. Enquanto a apresentadora emocionava por sua garra contra o câncer, o humorista, Danilo Gentili, do "CQC", soltou uma piada no Twitter: "Assistam! O SBT está reprisando agora 'O Retorno da Múmia'."

Alguns apenas acharam a piada sem graça e tocaram a vida. Foi o que fiz, aliás. Outros decidiram colocar Danilo Gentili de cabeça para baixo na cruz. Ofensas pessoais e profissionais ao comediante foram publicadas aos montes. Surgiu até mesmo uma campanha para sua defenestração do "CQC".

Nesta semana, após denunciar o desvio de um televisor no quadro "Proteste Já", Danilo Gentili foi elevado à condição de justiceiro e salvador da pátria por muitos que o queriam na cruz dias antes.

 

As alianças mudam dentro do BBB 10

Como se pode observar, não há meio termo. Tudo é divido em forças opostas e incompatíveis.

Outro combustível para a violência é o "BBB 10″. Um elogio ou crítica a qualquer participante pode custar caro. Comentar uma atitude de Dourado ou Dicesar é perigoso. Dependendo da posição, rapidamente a análise será definida como homofóbica, hipócrita ou preconceituosa. Em alguns casos, até mesmo nazista (eu não escapei dessa).

Aqueles que defendem ou agridem não verão a cor do dinheiro em disputa. Sequer terão a oportunidade de conhecer o vencedor. Uma batalha inexpressiva que não leva a lugar algum.

Este comportamento agressivo e maniqueísta nada mais é do que a expressão de neuroses. Todos projetam em um programa de TV a harmonia que não têm em suas vidas. Grande parte da população vive angustiada em relacionamentos opressores, sejam eles profissionais ou pessoais. Predomina a frustração com o cotidiano.

Neste cenário, a internet surge como ferramenta de catarse. Sob o pretenso anonimato ou a falsa segurança de um botão que apaga o que foi escrito, muitos perdem a autocrítica. A sensação de impunidade, tão presente no mundo real, migra para o ambiente virtual. O terreno é fértil para quem prefere destruir a construir ou que, na falta de capacidade para formular argumentos, apela para a desqualificação do interlocutor.

 

Aqui fora, telespectadores levam adiante uma batalha onde não há vencedores

Infelizmente, a presença forte do Estado e os anos de ditadura impedem que diversos brasileiros saibam lidar com a democracia e a liberdade de expressão. Chegamos ao ponto em que muitos acreditam ser necessário autorizar a opinião de outro, sob o risco de uma campanha #ForaFulano.

Assim, o que deveria ser um passatempo prazeroso, acaba se tornando uma dor de cabeça. Nem mesmo assistir à TV em paz é possível atualmente.

 

http://colunistas.yahoo.net/posts/911.html

Perelman é doido, ou entendeu tudo?


O russo esquisito que resolveu um dos sete mistérios da matemática tem muito a ensinar
ELIO GASPARI


EM 2008, quando Lady Gaga gravou seu primeiro álbum, já se tinham passados seis anos do dia em que Grigori Perelman resolvera a Conjectura de Poincaré, um dos maiores mistérios da matemática. Num mundo que consome celebridades, a história de Perelman merece cinco minutos de atenção.
Ele é um matemático russo, de 43 anos, já passou meses sem trocar de roupa, raramente corta as unhas, a barba ou o cabelo. Vive com a mãe em São Petersburgo, tem horror a jornalistas e viveu sete anos praticamente recluso. Nem e-mails respondia. Quando esteve nos Estados Unidos, a base de sua alimentação era pão preto e iogurte. Recusou cátedras nas universidades de Princeton, Berkeley, Stanford e no MIT. É um excêntrico, mas é um excêntrico que tem bastante a ensinar. Até que ponto vive-se melhor parecendo maluco do que deixando-se bafejar pela celebridade?
Superando ciúmes, intrigas e rivalidades, Perelman acaba de conquistar o prêmio dos "Problemas do Milênio", com direito a um cheque de US$ 1 milhão, concedido por uma fundação americana, por ter decifrado um dos sete grandes mistérios da matemática. Em 2006, ofereceram-lhe um honraria considerada equivalente a um Nobel de matemática. Recusou-a.
Para os leigos (como o signatário), a Conjectura de Poincaré é algo incompreensível. Ainda assim, pode-se perceber que Poincaré, um matemático francês que morreu em 1912, deixou para o mundo uma conjectura. Mais difícil será entender o que significa o segundo mistério: "A existência de Yang-Mills e a falha na massa".
Perelman resolveu a conjectura em 2002. Em vez de mandar seu trabalho para uma revista científica, onde um painel de estudiosos estudaria a consistência dos argumentos, simplesmente jogou os textos na internet, num arquivo público de trabalhos acadêmicos. O trabalho não dizia que a conjectura havia sido resolvida, essa tarefa cabia a quem o lesse. (Um matemático gastou três meses para entendê-lo.) A comunidade dos sábios consumiu dois anos estudando, invejando e, em alguns casos, buscando uma falha na explicação. Perda de tempo.
Quando Perelman foi convidado por Princeton, pediram-lhe um currículo. Respondeu que, se não sabiam quem ele era, não deveriam convidá-lo. Como o MIT chamou-o depois que resolveu a Conjectura de Poincaré, recusou porque deveriam tê-lo chamado antes. Num último convite podia ganhar quanto quisesse e fazer o que quisesse durante o tempo que bem entendesse. Respondeu que estava comprometido com seus alunos do ensino médio de São Petersburgo, o que nem era verdade.
Perelman ofendeu-se quando o "New York Times" disse que ele sustentava que resolvera a conjectura para ganhar US$ 1 milhão. Afinal, estudava o problema muito antes de o prêmio surgir e não sustentava coisa alguma. Decifrara a Conjectura de Poincaré, ponto.
Perelman é um matemático excêntrico e, pensando-se bem, Lady Gaga é uma roqueira quase convencional. Assim as coisas ficam fáceis e pode-se ir em paz ao próximo show. Contudo o mundo fica mais interessante quando se sabe que o negócio de Perelman é outro. Os matemáticos podem viver num mundo de liberdade e rigor absolutos. Ele escolheu uma vida de total integridade, sem concessões a coisa alguma. Ninguém manda nele, só a matemática, num diálogo que dispensa outras vozes.
 

Arquivos Malucos