Um livro é um mudo que fala, um surdo que responde, um cego que guia, um morto que vive. (Padre Antônio Vieira)

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Apelo em nome de nossos pombos

Quem salvará nossos pombos. Já fazem algumas décadas que os nossos pombos caminham para uma existência de insubmissão e miséria. Tudo começou com o advento dos correios, seguido do telégrafo, do telefone, e por fim a internet. O pombo perdeu sua mais ilustre e útil função: o de levar mensagens. Agora o pombo se entrega a miséria e a mendicância por toda a cidade. Nas praças e nos terminais de ônibus. Muitos com sérios problemas físicos. Desfigurados por conta de acidentes pela cidade. Obesos pelo consumo de alimentos industrializados, os pombos estão a ponto de não voarem mais. Vivem da mendicância e no ócio. Não se animam nem mesmo com uma minhoca. Preferem o sabor barbecue de alguns salgadinhos ou o apelo colorido da pipoca doce.

Lembro os leitores, para que se compadeçam, que estes pombos de Desterro são herdeiros de uma família com história. Seus avós e bisavós-pombos foram testemunhas de um tempo inigualável nesta ilha. O tempo do poeta Cruz e Souza. Os antigos pombos desta ilha certamente assediaram este grande poeta. Viram-no escrever em algum banco da praça, declamar em algum café, ler seu jornal e livros, reclamaram talvez por um alimento. Quem sabe mesmo não cagaram na sua cabeça. Se tão desafortunada foi a sua existência, como nos conta sua biografia, então não é um exagero pensar nesta possibilidade.

Os pombos estão entregues a indiferença humana. Porcalhões, transmissores de doença e impertinentes, são alguns dos adjetivos preconceituosos que se ouve pela cidade. Estas aves já foram assimilados pela cidade. Tornaram-se pequenos trabalhadores desta. Aparentemente inúteis no seu ofício, a presença do pombo é necessária. Ele é uma espécie de pequeno lixeiro a catar tudo o que caiba em seu pequeno bico. Além do que, o pombo é um adereço da paisagem em fotos turísticas e artísticas. De resto, estando morto, sua carne alguns comem. Nada mais de útil.

Como defensor dos pequenos é que suplico: Salvem nossos pombos!



Ass: Alexandre, o pequeno.






Neste natal atenção ao “egoísmo reflexo”

Quando damos um objeto na forma de presente ao outro simplesmente porque nós gostamos do presente, não importando o interesse do outro, então estamos praticando uma forma de egoísmo reflexo. O egoísmo reflexo está na minha atitude de dar a o outro o que eu gosto, o que eu gostaria de receber de presente se fosse eu o presenteado, o que eu gostaria de ver o outro possuindo. O outro não importa, ainda que o presente signifique justamente que o outro importa. Eu pago o presente, eu escolho. Portanto, não reclame!

Numa situação onde se presenteia alguém, o indivíduo se vê na impossibilidade de se negar a dar ao outro um objeto na forma de presente por conta do valor moral deste ato, vinculado a um rito ou prática social, que o obriga moralmente a tal. Assim, procurando escapar ao prejuízo, o indivíduo inverte o processo e presenteia a si mesmo, não materialmente - visto que a matéria é o objeto que é dado – mas simbolicamente, subjetivamente, satisfazendo seu ego com aquilo que é do seu gosto.

É o Natal um momento rico em exemplos de egoísmo reflexo. Pois esta data nos obriga moralmente a dar presentes ao outro. O que nem sempre nos garante recebermos algum. Isto certamente contribui para o egoísmo reflexo.

Certamente que o egoísmo reflexo se manifesta em outros ritos do tipo que se presenteia o outro, além do Natal. O aniversário, a páscoa, o dia das mães, etc, são exemplos típicos destes ritos e lugar comum para as manifestações de egoísmo reflexo.

Mas quando o ato de dar presentes se libera do rito e torna-se um dar por dar, sem data especial, então este ato mostra sua face mesquinha, sem a máscara do rito.

Tudo isso que escrevi é só para dizer a você, caro leitor, que neste natal presentes ao outro.



Ass.: A cruz de Souza


quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Dormita o poeta

Dormita o poeta, a sua força se esvai
Com o passar dos versos, com o andar da poesia...
O primeiro verso era belo, já o segundo, nem tanto,
Ó poeta, tenha força, não dormita tanto!

Dormita o poeta sobre sua poesia,
Está cansado, suas mãos vacilam,
Sua cabeça já não funciona direito,
Estava ansioso, queria escrever alguma coisa ao menos.

Outro dia vi um poeta chorando,
Perguntei: "Qual o motivo do seu pranto?"
E ele respondeu: "Dormitei na minha poesia".

E logo respondi para a sua alegria:
"Ó poeta, pare de chorar,
também dormitei na minha poesia".

Tia Neura

Trincheiras de vidro

Somos guerrelheiros por trás de uma trincheira de plástico e vidro,
Ás vezes olhando por entre a garrafa podemos ver melhor nosso inimigo.
E com uma mesa de plástico para apoiar as nossas idéias,
Somos mais letais do que todas as drogas e bactérias.

De noite fica mais perigoso,vestimos nosso traje vil,
Todo mundo se corrompe, "vá pra puta que lhe pariu".
Vamos cair na putaria, azucrinar, à todos apavorar,
Vamos encher o saco do dono do bar!

E quando chegar de manhã cedo
E o dono do bar não quiser mais nem vender a saideira,
Vamos correr para algum lugar escuro
Onde possamos continuar com a nossa bebedeira.

Tia Neura

sábado, 6 de novembro de 2010

O mito do lambisomem

Há muito que já se provou a existência de reais Lambisomens vivendo entre nós. Basta que se vá na Rua do Príncipe pela madrugada, no centro de Desterro, onde jaz entre prédios modernamente horrendos a secular igreja de Nossa Senhora do Parto que já não atrai nem espanta ninguém, que se diga os Lambisomens. Nos interstícios da cidade, nos meretrícios e hotéis baratos, lá estão eles, a espreita pela próxima vítima. Contudo, nos bares da ilha o Lambisomem ainda é um mito, pois temendo serem fustigados pelos normais vivem entre os frequentadores de bar anonimamente. O Lambisomem, descobriu-se, é parente próximo do famigerado Chupa-cabra. Este, no entanto, preferiu vitimar animais ao invés de humanos. Mas o Lambisomem tem um objetivo na sua vida mítica: encontrar o célebre Saci-pererê. Explicam os mitólogos que a razão de tal objetivo é que o Saci na verdade não tem perna alguma.

A Cruz de Souza

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Sobre multiplicar os bens que apreciamos

A única forma de multiplicar os bens que apreciamos, compatível com nosso contingência, é trocá-los, compartilhá-los, comunicá-los a nossos semelhantes, para que os rebatam a fim de que voltem a nós cheios de sentido renovado.
 
SAVATER, Fernando. A importância da escolha. Tradução Paulo Anthero Barbosa. São Paulo: Planeta do Brasil, 2004. p. 169

Sobre a alegria

Chamamos de alegria a [...] plena aceitação sem condições nem melindres da vida que se manifesta entre o piscar do ser e do não ser. A alegria não justifica nem rechaça nada: assume o irreproduzível e frágil que se lhe oferece como seu único campo de atuação. E com ele se deleita, com glória, com empenho, com generosidade que às vezes parece cruel, mas no fundo, pensando bem, é compassiva. A alegria é a força misteriosa que nos liga sem refutações à beleza na estética e ao bem na ética.
 
SAVATER, Fernando. A importância da escolha. Tradução Paulo Anthero Barbosa. São Paulo: Planeta do Brasil, 2004. p. 168-169.

Arquivos Malucos