segunda-feira, 6 de dezembro de 2010
domingo, 5 de dezembro de 2010
Sois fortes em sua fraqueza
O corpo paga pelo espírito fraco. Mas a fraqueza é humana, pois o ser humana é o único animal que fraqueja. Fraquejar, no sentido que escrevo aqui, significa adoecer no enfrentamento com a vida, retrocedendo por vezes frente ao conflito ou embate. Aquele que fraqueja é um ser dotado de grande sensibilidade, em oposição com a atitude grosseira do espírito forte que no ardor do enfrentamento deixa passar as sutilezas da vida, as coisas miúdas e ao mesmo tempo grandiosas. A atitude grosseira do espírito forte é própria do guerreiro e a atitude sensível do espírito fraco é própria do filósofo e do artista. A filosofia e a arte só podem nascer de um espírito sensível, afeito as pequenas coisas, perspicaz com as sutilezas.
Não pense, contudo, o leitor que eu pretenda elevar o espírito fraco como exemplo, modelo ou norma padrão. Nem que cada sujeito está condicionado a ter um destes dois espíritos: o fraco ou o forte. Quero apenas dizer que o espírito fraco é tão necessário para a sociedade humana quanto o espírito forte. É necessário que existam guerreiros, mas também é necessário que existam filósofos e artistas. O que não exclui a possibilidade que estes dois espíritos tem de misturarem-se, fundirem-se em diferentes quantidades. Emergirem e submergirem em situações diversas na vida do indivíduo. Portanto, assim como um guerreiro pode fraquejar, um fraco pode se fortalecer diante da batalha.
sexta-feira, 3 de dezembro de 2010
Amem a si mesmos
embora pareça que Vocês devem pôr seu foco e sua atenção
no mundo e em todos os problemas dele, isto é O QUE VOCÊS
NÃO DEVEM FAZER.
mente, e os pensamentos que Vocês têm é o que Vocês VEEM
no seu mundo.
terça-feira, 30 de novembro de 2010
Observações de um formigueiro.
Como filósofo das pequenas coisas eu observo o que é invisível aos olhos. E nesta prática constante de observar procuro dali abstrair alguma experiência válida e não apenas um objetivo pré-fixado.
Deparei-me, numa destas observações minuciosas, com uma estranha transformação que vem ocorrendo na sociedade. Imperceptível por pequena que é, só um filósofo do pequeno é capaz de perceber. Mas não é na sociedade humana que esta micro-transformação está se dando. Ainda que seja na sociedade, é a das formigas que me dirijo.
Pois bem, notei com espanto que algumas formigas iniciaram uma ação de se separar do grupo. Elas ainda viviam bem próximas. Ao lado mesmo do grande formigueiro. Contudo este grupo excluso de formigas começaram a construir cada uma seu próprio formigueiro. Todos os formigueiros se ergueram próximos uns aos outros e do formigueiro mãe. Cada vez mais este fato vem ocorrendo com as formigas, vos alerto!
No decurso de muitos meses continuei observando com interesse esta estranha mudança na sociedade das formigas. Cada qual no seu próprio formigueiro começou então a trabalhar por si. Por sua própria conta. As formigas individualistas passaram a fazer seu próprio horário de trabalho que variava muito de formiga para formiga. Houve mudanças na preferência por alimentos também. Algumas preferiram insetos, outras folhas. Algumas delas preferiram dormir até mais tarde e coletar alimentos próximo ao pôr do sol, quando o dia estava mais fresco. Outras formigas coletavam muito cedo o alimento para então ter o restante do dia livre de responsabilidades. Com algum tempo livre, sem as responsabilidades coletivas, algumas passaram a exercer atividades de lazer como caçar, nadar e brincar. Elas por vezes se encontravam para o lazer, mas mantinha-se seus muros.
Eis que uma grande briga por espaço de coleta e morada se formou entre elas devido ao crescimento de formigueiros individuais, e então – veja que estranho – as formigas ergueram barricadas de areia, demarcando áreas.
Nas últimas semanas tenho visto uma mudança ainda mais drástica. As formigas estão perdendo a solidariedade entre os seus iguais. Quando a aldeia de formigas – pois já não é mais um formigueiro coletivo - é atacada por insetos ou animais, cada formiga procura se proteger por si só. Entram em fuga, escondem-se, fingem-se de mortas. Se olham uma formiga irmã ser atacada cruelmente por um inseto, ignoram o crime e se dão por contentes por terem a sorte de não ter sido com elas.
Cada formiga tem vivido por conta própria, porém elas mantém uma dependência mútua. Não sobrevivem sozinhas, isoladas umas das outras. Como filósofo me pergunto: porque então insistem nesse modo de vida individualista, mesmo sabendo que assim serão levadas a decadência e por fim a extinção?
Toda essa observação da natureza e sua dinâmica me fez temeroso. Então eu corri em direção a segurança da minha casa e passei a escrever o relato que gravei. Aviso aos leitores incrédulos que tenho todos estes fatos registrados em meu gravador de voz, logo posso provar. Eu gravava o meu relato ao mesmo tempo em que via ocorrer toda essa mudança com a sociedade das formigas.
Ass.: Alexandre, o pequeno.
Aos desterrados
Decerto que Desterro desterrou muita gente. Desterrou primeiro os índios, depois a natureza para fazer o pasto e a plantação. Desterro desterra agora aos poucos os desterrenses açorianos que antes desterraram os "meinbipenses".
Desterro anda desterrando até o que não é terra. Desterrou o mar para o aterro. E no mar que não virou aterro, desterram os peixes e toda a vida marinha enterrando merda onde deveria brotar vida.
A proclamada desteridade das autoridades não provou ainda sua validade. O que fazem, e sem dúvida com destreza, é desterneirar os desterrenses. Separam as crias - pobres desterrados condenados a serem criados - dos que criam, as gordas vacas suíças. O desterrado, alienado da terra, é condenado a servir o desterrador. E assim o desterrense é aos poucos lançado ao degredo de uma Desterro degradada.
Mas o próprio desterrense também se desterra. Gerações de filhos de pescadores e pequenos agricultores desterrenses desterram-se aos poucos da tradição na busca do que acreditam ser um terreno seguro. Terras de Desterro, que lhe foram herdadas ao longo de gerações, aterram-se para que se ergam casarões ostensivos. Ternamente a terra parte. Internamente ela é partida. O desterrense desterra-se e subdesterra-se. Muitos afundam no que pensavam ser o solo firme do capitalismo e se enterram na miséria, enquanto os muros abundam. O vento terral já não se sente como se sentia a tempos atrás, antes de haver muralhas de concreto que hoje o interrompem.
A viciosa Desterro se (des)configura assim: desterrenses desterram desterrenses que por sua vez são desterrados pelo capital que por sua vez o desterram de si e do outro.
Enquanto isso nossa ilha Desterro vai virando um grande aterro. E a ambiciosa ínsula um dia vira península.
Ass: Alexandre, o pequeno.