Um livro é um mudo que fala, um surdo que responde, um cego que guia, um morto que vive. (Padre Antônio Vieira)

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Geografia de Santa Catarina

Posição geográfica

Totalmente na porção sul do hemisfério ocidental (subtropical)

OBS: Latitude = distância do equador e Longitude = distância de Greenwich


Amplitude com base nos pontos extremos:

  • latitude: 276,1 km

  • longitude: 543,5 km


  • Pontos extremos:

  • Norte: curva do rio Saí-Guaçú

  • Sul: nascente do rio Mampituba

  • Leste: ponta dos Ingleses

  • Oeste: confluência dos rio Peperi-Guaçú e Uruguai


Limites

  • Norte: Paraná, 756 km (rio Peperi ao saí-Guaçú)

  • Sul: RG, 958 km (Mampituba e Peperi)

  • Leste: Oceano Atlântico

  • Oeste: Argentina, 246 km (através do Peperi)


Núcleos originais

  • São Francisco do Sul, Desterro, Laguna e Lages.


  • Microrregiões (anexo 1)

São regiões de municípios que possuem identidade de ambiente físico, organização espacial, potencial produtivo e relações de produção. Existem 4 Mesoregiões: 1. Leste; 2. Florianópolis; 3. Sul e 4. Oeste que subdividem-se em 16 microrregiões:


Geologia (anexo 2)


Observação

  • Magmáticas: solidificação do magma, material ígneo resfriado (intrusiva = dentro da crosta. Ex: granito e extrusiva na superfície. Ex. basalto)

  • Metamórficas: da transformação de outras rochas dentro da crosta, devido á temperatura e pressão. Ex: gnaisses e mármore.

  • Sedimentares: erosão, restos de seres vivos e precipitação química de sais. Ex: arenito, carvão, calcário.


É diversificada pois seu território passou por diversos estágios de evolução. Do litoral para o interior surgem sucessivamente:

  1. faixa sedimentar descontínua do quaternário

  2. faixa de rochas magmáticas e metamórficas do pré-cambriano

  3. faixa de rochas sedimentares do paleozóico e mesozóico

  4. região coberta por derrames do mesozóico


  1. era Pré Cambriana (primitiva)

  • rochas mais antigas

  • próximo ao litoral

  • embasamento cristalino -> Complexo ou Plataforma Brasileira

  • rochas magmáticas intrusivas ou cristalinas

  • movimentos diastróficos (falhas, rebaixamento, etc.)


  1. era Paleozóica

  • Bacia sedimentar do Paraná (carvão)

  • Arenitos e folhelhos


  1. era Mesozóica (secundária)

  • região central e oeste (vulcanismo e fissura)

  • sorguimento e basculamento para Oeste (maiores altitudes = 2000 m)


  1. Cenozóico

  • principalmente litoral

  • áreas arenosas, mangues (São F. até Laguna), pântanos. = 2% área.


Relevo (anexo 3)


Características:

  • Maior altitude: contrafortes da serra geral com + 1400 m localizados no planalto de São Joaquim e arredores (1%)

  • Ponto culminante: 1808 m entre os municípios de Bom Jardim da Serra, Orleans e Urubici; temperaturas mais elevadas do país devido altura e afastamento entre os rios.

  • 89,9% entre 200 e 1400 m


  • Clima (anexo 4)


Observação: tempo = condição momentânea da atmosfera e clima = seqüência habitual de tipos de tempo

  • SC está em uma área de transição entre as regiões tropical e temperada propriamente dita, caracterizando-se pela subtropicalidade


Fator Maritimidade:

  • Correntes marítimas: a. do Brasil (quente): atua no litoral amenizando as temperaturas no período mais frio. b. Malvinas (fria): atua ocasionalmente provocando a queda da temperatura.


Fator Continentalidade:

  • principalmente no Centro-oeste, amenizando amplitudes térmicas (agravando as temperaturas)

  • por sua influência, no extremo oeste (mesmo não sendo a área mais ria) é onde ocorre as maiores amplitudes térmicas (máxima 40º e mínima –4º)


Fator circulação do ar:

  • Anticlone Tropical (reg. trop) = Oceano Atlântico

  • Anticlone Polar (reg. Subtropical) = AO -> surgem aqui massas de ar responsáveis pela dinâmica da atmosfera da região:

  1. Polar Atlântica (mPa): fria, seca, estável, no deslocamento adquire umidade do mar; temperaturas mais baixas.

  2. Tropical Atlântica (mTa): vento nordeste, chuvas orográficas e algumas trovoadas; temperaturas mais elevadas.


Do encontro destas duas surge a região Frontal (FPA) de grande instabilidade com ventos e queda da temperatura e tempo instável. Ocorre em todas as estações do ano.

Observação: atuam esporadicamente a Polar Pacífica (mPp) e Tropical Continental (mTc). Média anual -> Litoral (quente) + 20º e Planalto (moderada/fria) 15º.


Pluviosidade

  • distribuição uniforme

  • reflete atuação das massas mTa (velocidade) e mPa (umidade) regulando sua intensidade, volume e duração.

  • Média entre 1250 e 2000 mm; difere do Noroeste que supera 2000 mm e do litoral que é inferior 1250 mm.


  • Hidrografia (2 sistemas)

  1. Vertente do litoral: formada por bacias isoladas e rios que vcorrem diretamente para o mar; orientam-se no sentido Oeste-Leste; menores que os do interior; apenas a Bacia do Itajaí supera em área a do Iguaçú;


  1. Vertente do Interior (62,7%): formada pelas Bacias dos Rios Uruguai, Iguaçú (nasce em Curitiba) e afluentes; principal linha divisória é a escarpa da Serra Geral e Serra do Espigão, entre a Bacia do Iguaçú (norte) e rios da bacia do Uruguai;

  • maior Bacia Hidrográfica: Uruguai (formadores são Pelotas – nasce no Morro da Igraja - e Canoas – Campo dos Padres) com 51,65% território catarinense. Estância de águas termais em Chapecó, São Carlos, Piratuba, Palmitos, Caibí e Mondaí. (anexo 5)

  • a extensão, forma e número de afluentes do vale favorece as cheias;

  • represa de Pilões: Rio Vargem do Braço = maior reserva da capital

  • Rio Uruguai + Paraná + Paraguai = Rio da Prata

RADFAHRER, Luli. A arte da guerra para quem mexeu no queijo do pai rico.

RADFAHRER, Luli. A arte da guerra para quem mexeu no queijo do pai rico. São Paulo: Planeta do Brasil, 2004. 158 p.

O poder do pensamento negativo
A negação do ócio é a alma do negócio
Como ter muita sorte – muito rápido
A união faz a forca: nunca desdenhe a mediocridade
Diversões corporativas
Cara-de-pau e preguiça: como trabalhar em equipes
Os 7 hábitos dos puxa-sacos altamente eficazes
O que vale é a beleza exterior
O essencial do chic é ser elegante
O guia do assédio sexual impecável

[...] se você realmente acreditou nessa página, das duas uma: ou é estagiário ou precisa de ajuda médica urgente p. 15

É público e notório que uma grande corporação não é exatamente um lugar de gente muito inteligente. Você sabe muito bem o quanto seu chefe é burro, muito burro. Aquele colega que conseguiu a promoção no seu lugar, então, nem se fala. E aquele estagiário bonitão que dormiu com a chefa? Põe burro nisso! Sem contar os malditos gringos a quem você tem de se reportar, que, para serem burros, precisariam de um Ph. D. Ou nem isso, já que os consultores, com seus cartões de visitas cheios de letrinhas, não são melhores. p. 18

O burro só pode ser você, que estudou, se preparou, acreditou... well, my friend, duas notícias: uma boa e uma má. A boa é que seus colegas não estão tão bem assim, eles fingem. A má é que você realmente tem razão: o burro é você;. Sim, você – que não consegue arranjar outro emprego, que não consegue melhorar esse, que não consegue ser expatriado, não consegue ser demitido para montar um boteco ou uma pousada com o dinheiro da recisão e não consegue que o burro do seu chefe te entenda. p. 18-19

No fundo somos todos um pouco burros: no amor, nas mancadas com os amigos, nas compras por impulso, nos filmes que escolhemos sem ler a crítica, nos filmes que escolhemos porque lemos a crítica, quando nos sentimos espertos e achamos que isso é nossa exclusividade, quando acreditamos em soluções mágicas para emagrecer, combater a calvície, ficar rico, etc, etc, etc. p. 19

Neste instante toma consciência que as outras são ainda piores e que trabalho, se fosse bom, não seria remunerado. Como não pode nem tem paciência para fazer mais nada, você deixa os outros fazerem – e assume as glórias. É o ócio emocional. Com ele, somem as expectativas, angústias, estresse e culpa. As respostas ficam claras e a vida, muito mais simples. Pra que Budismo? p. 23

Benção? Sem dúvida. Já pensou se mudasse? Talvez você corresse o risco de ser um daqueles que gostam do trabalho. Que decoram suas baias, contam piadas sem graça e ficam no escritório muito depois do expediente, em atividades tão produtivas quanto arrumar gavetas, responder e-mails ou jogar games de mata-mata em rede. Que saem de lá e só contam coisas de lá. Até porque sua vida social se resume aos que vê lá – a tal ponto que, em muitas categorias profissionais, casais se formam dentro das empresas. Mais ou menos como animais que se reproduzem em cativeiro: um pouco doidos, mas tão bonitinhos nas suas jaulinhas... p. 24

[...] Se você foi demitido, não adianta nada pensar no que o seu guru de negócios predileto faria nessa situação, pois da mesma forma que top models nunca vão ao banheiro, gurus nunca são demitidos. Aliás, poucos deles chegaram a ser empregados. p. 30

Afinal, a única coisa que se leva do trabalho é o dinheiro. E nem é tanto assim. Por isso, não se incomode. p. 33

Sem necessidade, o jovem experimenta o trabalho por curiosidade, para se destacar em seu círculo social, sair do tédio, fugir da realidade. Ele sabe dos riscos que corre e não pode ignorar que, no início, o trabalho proporciona um prazer enorme – chega-se a situações de euforia e conforto que não seriam possíveis. Existe sempre alguém que pode oferecer trabalho de graça, sabe onde conseguir ou terceiriza, a fim de sustentar o próprio vício. p. 40

CLASSE DE SUBSTÂNCIA

LOCAL ENCONTRADO

EFEITOS

SUPERDOSAGEM: CONSEQUÊNCIAS

Alteradores de humor

Holerites

Derrubam o humor

Agressividade

Tranquilizantes

Conversas com chefes

Bocejos intermitentes

Aumenta o consumo de cafeína

Moderadores de apetite

Salas de reuniões, cantina

Não se permitem que se almoce

Gastrites e úlceras, queda da pressão arterial

Indutores do sono

Salas de reuniões

Sono profundo, narcoléptico

Atrofia cerebral

Estimulantes

Baias de estagiários

Equipes mais animadas

Intoxicação grave

Euforizantes

Salas de chefes

Sensação de poder, excitação e euforia

Paranóia e convulções

Relaxantes

Happy-hours

Indiscrições e confidências

Tentativas de suicídio

Alucinógenos

Salas de chefes

Visões (em casos raros, missões e valores)

Bad Trips, delírios, ansiedade e desorientação

p. 44

Nunca reconheça que você tem sorte quando o que aconteceu foi pura sorte. O máximo que receberá como reconhecimento é ser considerado algum tipo de imbecil sortudo. Entretanto, se negar o acaso, assumir as glórias fortuita se afirmar veementemente que coincidências não existem – apelando para Cabala ou a sincronicidade de Jung quando necessário – é possível que acabe por convencer alguém que o fato de chover no dia da apresentação foi resultado de sua irreconhecida habilidade. Nesses termos você se livra de algo vulgar ou corriqueiro como sorte. Se é para apelar para o esotérico, diga que é predestinado. p. 53

Entenda de uma vez por todas: quem gosta de trabalhar é estagiário, pessoas normalmente muito jovens, sem nada mais produtivo para fazer. Como elas têm uma energia inesgotável, as empresas, em atitude filantrópica, as tiram das ruas, onde gastariam sua força motriz em pensamentos fúteis, como amor, esportes, ética, cidadania, compaixão e educação e as recolhem para um abrigo acarpetado, com ar condicionado e, se derem sorte, um computador com impresora e acesso á internet. Assim ajudam a trocar o insalubre trinômio "sexo, drogas e rock'n roll" por elementos mais saudáveis como "rancor, antidepressivos, new age". p. 59

Mas dizer que as pessoas são simples não quer dizer que sejam simplórias, nem burras. Ou até que precisem de alguém para educá-las. Mesmo que precisassem, certamente não seria você. Muita gente mais culta, rica e inteligente que nós não faz a menor idéia de quem tenha sido Aristóteles nem que o Discurso sobre o método não tem nada a ver com a ABNT, e vive muito bem sem isso. p. 60

O homem simples e social sabe instinticvamente que a união faz a Força. Quando algum fator ameaça a vida em comunidade, seus membros unidos o combaterão e, provavelmente, o vencerão. Em termos corporativos, a união DELES pode fazer a SUA forca [...] a meritocracia é só uma bela embalagem para a mediocracia, a democracia da média. Ela funciona mais ou menos assim: se ninguém pensa, ninguém tem que pensar e as reuniões se tornam lugares agradáveis em que nada acontece. Por isso você precisa reconhecer certas particularidades dos seus colegas, compreender seus desejos e necessidades e aprender de uma vez por todas a conviver com eles, já que a única lei que realmente parece ser cumprida é a da selva. Não se prenda a forma como falam, se vestem ou até mesmo com o cargo que ocupam. A forma mais eficiente de defesa é identificá-los [...] pelas esquisitices que os fazem funcionar. p. 61



REUNIÃO COM O TÍTULO:

NORMALMENTE SE PRETENDE A:

Reunião (sem objetivo definido)

Matar tempo

Apresentação a supervidores / acionistas

Puxar o saco dos gringos

Apresentação de metas realizadas

Fingir que se trabalha

Definição de novas estruturas

Estabelecer relações de poder

Reunião de follow-up

Reafirmar relações de poder

Reunião de contexto estratégico

Mudar relações de poder

Alinhar as lideranças da empresa

Saber aonde levará tamanha incompetência

Expor estratégias corporativas

Mostrar que a Presidência vive em outro planeta

Apresentar projetos

Morrer de tédio

Fazer announcements

Cortar muitas cabeças

Comitê operacional

Cortar (ainda mais) custos

Reunião de feedback

Ter certeza de que se fez bobagem

Definição de metas

Estipular prazos irreais

Prestação de contas

Cortar seu projeto

Reunião com fornecedores

Testar sua capacidade de ser bajulado

Reunião com clientes

Testar sua capacidade de bajular

Reunião com a imprensa

Culpá-lo de qualquer palavra que sair na mídia

Reunião de departamento

Contar as cabeças para cortá-las

Integração

Constranger pessoas

Socialização

Constranger mais pessoas

Recursos humanos

Constranger muito mais pessoas e deixar marcas em sua reputação

Tranquilizar a equipe e definir rumos

Negar até a morte que a casa caiu

Reunião com seu chefe direto

Você está despedido

Reunião com o chefe do seu chefe

Seu chefe será despedido. E não haverá promoção

Acompanhamento de Grupos de Pesquisa

Ouvir desconhecidos falarem dos seus direitos

Introduzir novos membros na equipe

Apresentar gente que você já conhece ou não precisa conhecer

Comemorar metas

Cobrar mais metas de você

Apresentar programas de incentivo

Cobrar muito mais metas de você

Apresentar programas de motivação

Cobrar muito mais metas de você e obrigá-lo a atingi-las sorrindo

Reunião cancelada

Pare de enrolar e trabalhe

p. 80-82


Independente de seu estilo, a cultura popular das firmas não deixa dúvidas: chefe bom é chefe morto e as exceções só confirmam a regra. Histórias de controle, dominação, agressividade, insensibilidade, teimosia, insegurança, rigidez, autoritarismo, manipulação, sarcasmos, arrogância e outros sinais de uma vida sexual insatisfatória justificam uma postura tão radical de seus comandados. Mas o verdadeiramente engraçado é que aqueles que não suportam ter chefes sonham com o dia em que montarão seu próprio negócio, realizarão seu desejo de ser chefe e de construtir sua própria estrutura de criadagem e vassalagem. p. 107


Por mais que se mude o discurso, design e vistas das janelas, firmas são ambientes tão apolíticos quanto o Congresso e tão democráticos quanto o Exército. Quanto maior seu tamanho, mais estáveis serão suas instituições, em especial a mediocracia, a burocracia, o fisiologismo e o nepotismo. Em outras palavras, quase nada mudou desde a Idade das Trevas. Por isso nem pense em reclamar, na melhor das hipóteses você não será ouvido. p. 107


[...] por mais que possa parecer o contrário, a profissão mais velha do mundo é a de acompanhante – não a de consultor. Seu segredo convertido em hábito é a empatia. Pouco importa o dia ou o estresse, para elas o cliente sempre é tão bonito quanto a mãe o vê, tem tanto dinheiro quanto o filho desconfia, conquista tantas mulheres quanto a esposa suspeita e – acima de tudo – é realmente tão bom de cama quanto acredita. Tanto que sempre o saúdam com alguma variante de "olá, campeão". p. 114


[...] Sempre vale lembrar que algumas características são essenciais àquele que pretende ser um cara-de-pau exemplar: segurança, firmeza, sorriso constante, educação e gentileza. Se ameaçado, aparente grande ingenuidade e eterna indignação. p. 115


MASCULINO

SIGNIFICA

FEMININO

SIGNIFICA

Cão

O melhor amigo do homem

Cadela

Puta

Bonequinho

Brinquedo

Bonequinha

Puta

Vagabundo

Aquele que não trabalha

Vagabunda

Puta

Pistoleiro

Quem mata pessoas

Pistoleira

Puta

Boi

Gordo, forte

Vaca

Puta

Dado

Pessoa de bom trato

Dada

Puta

Aventureiro

Desbravador, viajante

Aventureira

Puta

Ambicioso

Visionário, enérgico, idealista

Ambiciosa

Puta

Garoto de rua

Menino pobre, que vive na rua

Garota de rua

Puta

Mascarado

Quem oculta sua identidade (como super-herói)

Mascarada

Puta

Atirado

Aventureiro, sempre disponível

Atirada

Puta

Homem da vida

Pessoa letrada pela sabedoria adquirida ao longo da vida

Mulher da vida

Puta

Homem público

Aquele que se consagra à vida pública

Mulher pública

Puta

Puto

Nervoso, irritado, bravo

Puta

Puta

p. 153


O trabalhador Golem

 por Thiry Cherques, Sobreviver ao trabalho 

O trabalhador-golem está longe de ser um indivíduo cuja existência foi truncada pelas necessidades da sobrevivência. Tampouco é um rebelde domado. É alguém a quem nunca ocorreu se rebelar. Alguém tão associado ao sistema que a ele aliena integralmente o espírito. Alguém que ambiciona pertencer, que quer ser reconhecido como útil à produção. [...] esse tipo de trabalhador desenvolve uma conduta de aceitação e conformidade. Manipulando e sendo manipulado, mitificando e crendo, ele é um exlcuído, um exilado do mundo que existe para além do trabalho. p. 22


A configuração socioeconômica que aí está [...] induz o florescimento da disposição de espírito do golem e dos seus avatares – o robô, o andróide e o cyborg – e encoraja a proliferação daqueles que dependem do sistema para sobreviver não só física, mas mental e socialmente. p. 22


[...] se realiza através das realizações do sistema. p. 24


Pode-se lamentar que seres humanos tenham cancelado os valores e as virtudes individuais. Que a sua esperança individual tenha chegado a se confundir com a esperança coletiva, e a fortuna da sua existência com a fortuna da produção. Mas a sobrevivência, tal como aqui colocada – coerência pessoal e resistência da psique ante as pressões do sistema -, impõe, para que possa se efetivar, uam lógica, uma explicação do mundo e da vida. p. 25


São duas as características de sua constituição: a mentalidade conformista e o desejo de alienar á outra instância a vontade e a decisão sobre o viver – o anseio de estar identificado com alguma estrutura social, seja ela qual for. A primeira deriva da sujeição como condição da existência. A segunda, da convicção ou da sensação de que a individualidade só existe enquanto parte. Ambas, da idéia de que cada um de nós é o que é somente em relação aos outros, aos grupos, às instituições, às organizações. Trata-se de uma exacerbação da idéia hegeliana do reconhecimento. Para o trabalhador-golem, ser não é apenas ser reconhecido. Ser é ser reconhecido como parte funcional, como subsistema. 25


[...] uma mistura de mentalidade de gueto e de vontade de inclusão. 26


O gueto é uma situação extrema, mas a "mentalidade de gueto" não. É até bastante comum. A primeira característica dessa mentalidade é a recusa em ver. [...] A segunda característica [...] é a insensibilidade como tática de sobrevivência. 27


[...] o alheamento do sistema significa a perda cada vez mais pronunciada do sentido da própria vida. [...] Mais e mais essas pessoas fazem seus os valores das organizações. Para elas, há cada vez manos vida fora do sistema. [...] toda a perspectiva da vida está limitada ao "pertencimento". p. 27


Quando os valores do sistema são tidos como valores da vida, sobrevivência torna-se tão controlável quanto controláveis são os fatores de mercado e o progresso técnico para o trabalhador na linha de produção.de forma que os trabalhadores-golem são triplamente alienados: alienam a sua força de produção [...]; alienam sua vontade [...] às forças de mercado; e alienam sua vida espiritual ao fortuito, ao aleatório, ao acaso do seu destino material. 28

Thiry Cherques, Sobreviver ao trabalho 

HOCK, Dee. Nascimento da era caórdica

HOCK, Dee. Nascimento da era caórdica. Tradução de Carlos A. L. Salum e Ana Lucia Franco. São Paulo: Cultrix, 1999. 295 p.



Em épocas como esta, não é um fracasso deixar de realizar tudo o que podemos sonhar - fracasso é deixar de sonhar tudo o que podemos realizar. p. 15


A criação de uma organização [...] se inicia com uma intensa busca pelo

Propósito/Princípios/Pessoas/Conceito/Estrutura/Prática. p. 19


[...] propósito é uma afirmação de intenções claras e simples, que identifica e une a comunidade como algo que vale a pena buscar. É mais do que queremos realizar. É uma expressão inequívoca do que as pessoas querem se tornar. Deve falar a elas de maneira tão poderosa que todas digam com convicção: "Se nós pudéssemos fazer isso, minha vida teria significado." Obter lucro não é um propósito. Pode ser um objetivo, pode ser uma necessidade, pode ser uma gratificação, mas não é um propósito! p. 19-20


[...] princípio é uma aspiração da comunidade no âmbito do comportamento, uma afirmação [...] de uma crença fundamental sobre como o todo e todas as partes pretendem se conduzir na busca do propósito. Um princípio é um preceito pelo qual todas as estruturas, decisões, ações e resultados serão julgados. Um princípio sempre tem conteúdo ético e moral. Ele nunca prescreve a estrutura nem o comportamento: ele só os descreve. p. 20


[...] é improvável que as formas existentes de organização permitam que as pessoas atinjam os propósitos de acordo com seus princípios. Algo novo deve ser imaginado, um novo conceito de organização. p. 22


Conceito é uma visualização das relações entre todas as pessoas que lhes permita buscar o propósito de acordo com seus princípios. Um conceito organizacional é a percepção de uma estrutura que todos consideram eqüitativa, justa e eficiente. p. 22


Cada fase desse processo ilumina todas as fases precedentes e subsequentes, permitindo que cada uma delas seja constantemente revisada e melhorada. p. 22


É impossível descrever como é difícil imaginar todas as permutações e possibilidades de relações humanas que surgem quando se aceita o fato de que as organizações existem apenas na mente [...] sair da antiga casa de ovo para ficar molhado e tremendo num novo mundo de possibilidades é apavorante. Especialmente porque voltar para dentro é claramente uma opção. Descobertas incríveis se dão quando se percebe que qualquer conceito de relações que se imagine pode ser codificado, passando a existir legalmente. p. 22


Estrutura é a materialização de propósito, princípios, pessoas e conceito num documento escrito capaz de criar realidade legal. p. 23


Um propósito ampliado e enriquecido vai ampliar e enriquecer em conceito uma espiral ascendente cada vez mais ampla de complexidade, diversidade, criatividade e harmonia – a evolução para usar o termo certo. E o lucro? Pela minha experiência, o lucro se transforma num cachorro que late, pedindo para entrar. p. 25


A vida não é conseguir, não é ter, não é saber, não é nem mesmo ser. Vida é um eterno vir-a-ser ou não é nada. O vir-a-ser não é algo a ser conhecido ou controlado. È uma odisséia magnífica e misteriosa a ser experimentada. p. 35


Só adianta ser idiota quando dá para mostrar. p. 54


O procedimento não é mais importante que os propósitos nem o método mais importante do que os resultados.


Os níveis mais altos de todas as organizações [...] são agora formados basicamente de uma elite cognitiva intercambiável, entrelaçada num complexo de apoio mútuo com imenso interesse na preservação das atuais formas hierárquicas de organização e na crescente concentração de poder e riqueza que elas inevitavelmente acarretam. p. 63


Pois a prosperidade revela antes o vício e a adversidade revela antes a virtude.

Sir Francis Bacon apud HOCK. p. 69


Um verdadeiro líder não pode ser obrigado e liderar e um verdadeiro seguido não pode ser obrigado a seguir [...] Os termos líder e seguidor envolvem liberdade e pensamento independente de ambas as partes. Se o comportamento é forçado [...] a relação passa a ser de superior/subordinado, administração/empregado, patrão/criado ou dono/escravo. p. 73


O comportamento forçado é a essência da tirania. O comportamento induzido é a essência da liderança. Os dois podem ter o mesmo objetivo, mas um tende para o mal, o outro para o bem. p. 74


Qual a maior responsabilidade de qualquer administrador? [...] A administração está sempre relacionada ao exercício da autoridade. [...] Essa noção é equivocada. p. 74


A primeira e suprema responsabilidade de quem pretende administrar é administrar a si mesmo: integridade, caráter, ética, conhecimento, sabedoria, temperamento, palavras e atos. É uma tarefa complexa, interminável, incrivelmente difícil, muitas vezes evitada. A administração do eu é algo a que dedicamos pouco tempo e raramente dominamos, pois é muito mais difícil do que determinar e controlar o comportamento dos outros. p. 74


A Segunda responsabilidade é administrar os que têm responsabilidade sobre nós: patrões, supervisores, diretores, ad infinitum. [...] Precisamos do seu consentimento e apoio para nos deixar guiar pela convicção. p. 74


A terceira responsabilidade é administrar seus iguais [...] os iguais podem tornar a nossa vida um céu ou um inferno. p. 75


A Quarta responsabilidade é administrar os subordinados [...] basta selecionar pessoas decentes, apresentá-las ao conceito, induzi-las a praticá-lo e desfrutar o processo. Se aqueles sobre quem temos autoridade administram bem a si mesmos, nos administram, administram seus iguais e repetem o processo com aqueles que empregam, só resta lhes assegurar o reconhecimento e as recompensas que merecem. E deixá-los em paz. p. 75


Surge então a pergunta óbvia. Como administrar os superiores? A resposta é igualmente óbvia. Não dá. Mas dá para entendê-los? [...] Persuadi-los? [...] Motivá-los? [...] Inquietá-los, influenciá-los, perdoá-los? [...] lhes dar um exemplo? A palavra certa vai acabar surgindo. p. 75


Lidere a si mesmo, seus superiores, seus iguais, empregue boas pessoas e deixe-as livre para fazer o mesmo. O resto é trivialidade. p. 75


O sucesso incentiva, aumenta a confiança e é agradável, mas ensina uma lição insidiosa, eleva demais a opinião que temos de nós mesmos. É do fracasso que geralmente vem o desenvolvimento e o mérito, contanto que sejamos capazes de reconhecê-lo, de admiti-lo, de aprender com ele, de nos elevar acima dele e de tentar de novo. Não há motivo para desanimar com as falhas [...] a alegria e a satisfação estão na busca de um objetivo, não em sua realização. p. 76


Dá para aprender muito com o que as pessoas dizem, mas mais é revelado com o que elas não dizem. Ouça com o mesmo cuidado o silêncio e o som. p. 87


Chegar ao acordo é um processo contínuo, tão vivo quanto as pessoas envolvidas. Não admite certeza nem eternidade, especialmente nos detalhes A relação [...] é tão complexa que não permite qualquer acordo além do intento, da direção e dos princípios de conduta. Isso revela outros elementos essenciais do acordo. Tolerância e confiança. [...] nenhum acordo pode prever todos os detalhes e os detalhes nunca vão corresponder ao acordo, no entanto [...] a sociedade foi organizada para tentar criar a certeza e a conformidade. p. 92


A vida nunca vai entregar seus segredos a uma fita métrica. p. 116


Compreender exige domínio de quatro maneiras de ver as coisas – como foram, como são, como podem ser e como devem ser. p. 117


Dominar essas quatro perspectivas e sintetizá-las num conceito de um futuro pacífico e construtivo é o verdadeiro trabalho do gênio que se esconde em todos nós. p. 130


São milhões de instituições, de todos os tamanhos e descrições, aceitas com a naturalidade com que aceitamos as estações, Mas as instituições podem nos aviltar, prejudicar e destruir de maneira infalível e caprichosa [...] e o fazem com instrumentos tecnológicos, psicológicos e econômicos. p. 117


As instituições não são uma lei da natureza [...] na longa curva da história elas são, com todo o seu tamanho e complexidade, recém nascidas, primitivas, aberrantes e geralmente incivilizadas. As pessoas não são criaturas das instituições, as instituições são criações das pessoas, mas parecem cada vez mais fora de controle [...] vivemos suportando seus abusos, mas será que compreendemos a natureza intrínseca da besta institucional? p. 118


Não muito bem. O problema vem de um hábito universal : ver as instituições como realidades físicas palpáveis, como um prédio ou uma máquina [...] p. 118


Exercício para os teimosos:


Com certeza você já a viu. De que cor é? De que cheiro? Qual o gosto? É quente ou fria? Dá para perceber a empresa em que trabalha [...] por meio de algum dos sentidos? [...] a verdade é que uma empresa [...] não passa de uma idéia. p. 118


O sucesso de uma organização tem muito mais relação com a clareza do propósito compartilhado, com princípios comuns e com a força da crença nesse propósito e nesses princípios do que com dinheiro [...] quando uma organização perde sua visão, seus princípios, seu senso de comunidade, seu significado e seus valores, já está em processo de decadência e dissolução [...] os negócios - como as pessoas - se extinguem [...] quando perdem o entusiasmo e a esperança em relação ao futuro. p. 119


Em algum lugar da percepção está a casa de espelhos da perspectiva. Ela distorce e descolore tudo o que sabemos, pensamos, acreditamos ou imaginamos. Assim, quando consideramos o futuro, são de suma importância as nossas referências, o nosso ponto de vista, o nosso modelo interior de realidade, ou seja, a perspectiva que a experiência implanta em cada um de nós. p. 131


[...]


Com a madeira das coisas que aprendemos, com o cascalho e o cimento da experiência, com os pregos da exterioridade que observamos e com o projeto que imaginamos, erigimos lentamente um edifício interno, nosso templo interior de realidade, enchendo-o aos poucos com a mobília dos hábitos, dos costumes, das preferências, das crenças e dos preconceitos. Sentimo-nos bem ali. É nosso santuário. Através de suas janelas, por menores e mais empenadas que sejam, vemos a sociedade e o mundo. Nosso modelo interior de realidade é a maneira de dar sentido ao mundo. Mas ele pode ser um lugar muito mal construído. E mesmo que seja magnificamente construído, pode ter ficado arcaico. Tudo o que deu origem a ele pode ter mudado. p. 131


Quando se torna necessário desenvolver uma nova percepção das coisas, um novo modelo interior de realidade, o problema nunca é fazer com que as novas idéias entrem, mas com que as velhas saiam. A mente está sempre cheia de mobília velha. É familiar. É confortável. [...] é só abrir espaço na mente, retirando antigas perspectivas, que as novas percepções entram correndo. No entanto, isso é o que mais tememos. p. 131-132


Nós somos os nossos conceitos, idéias e percepções. Abandonar qualquer parte do nosso modelo interior de realidade é pior do que perder um dedo ou um olho. p. 132


O que é um homem bom além de um professor de um homem mau? O que é um homem mau além de tarefa de um homem bom? Se você não compreende isso estará perdido, por mais inteligente que seja. Este é o grande segredo. LAO-TSE. p. 139


O céu é o propósito, o princípio e as pessoas. O purgatório é o papel e a norma. O inferno são as regras e o regulamento. p. 140


Até alguém dizer não e se recusar categoricamente a continuar falando no assunto, está na verdade em vias de dizer sim, só que não sabe. p. 143


As organizações socializam o custo e capitalizam os ganhos. p. 159


Informação é uma diferença que faz uma diferença.

Gregory Bateson. p. 184


O impossível não pode ser estabelecido por opiniões, mas somente pela tentativa. p. 187


Começos uma discussão intensa e inovadora. Havia um número mais que suficiente de pessoas entusiasmadas e leais, mas o "especialista" não estava entre elas. p. 189


As pessoas descobriram quer receber decorre inexoravelmente de dar [...] as poucas pessoas que não conseguiram se ajustar à diversidade, complexidade e incerteza foram embora [...] Ninguém articulou o que estava acontecendo. Ninguém registrou. Ninguém mediu. Mas todo mundo sentiu, compreendeu e amou. p. 191


Capacidade de receber, Utilizar, Armazenar, Transformar e Transmitir informação = CRUATTI, quanto maior, mais diversa e complexa é a entidade. Talvez seja um princípio fundamental da evolução. p. 192


Apertem os cintos, a turbulência mal começou. A menos que a evolução tenha modificado radicalmente os seus métodos, estamos diante de uma explosão de diversidade e complexidade societária centenas de vezes maior do que a que estamos vivendo ou que podemos imaginar. Quem pensa em perpetuar as velhas maneiras, que procure lembrar da última vez que a evolução telefonou para pedir licença. p. 195


O dedo que se move escreve, e tendo escrito prossegue. Nem toda a sua piedade e sabedoria vão fazê-lo voltar para cancelar meia linha, nem todas as suas lágrimas vão apagar uma palavra que seja. OMAR KHAYYAM. p. 197


O medo é um narcótico interior que paralisa a mente, o corpo e o espírito. O poder das coisas que tememos está apenas na nossa opinião sobre elas. p. 202


A raiva, a culpa, a condenação e todas as emoções negativas são alimentadas por reações equivalentes. Têm menor probabilidade de durar quando deparam coma indiferença e a calma. p. 203


O ruído se transforma em dados quando transcende o puramente sensual e tem padrão cognitivo, quando pode ser discernido e diferenciado pela mente.

Os dados, por sua vez, se transformam em informação quando são reunidos num todo coerente que possa ser relacionado a outras informações de maneira a acrescentar sentido [...]

A informação se transforma em conhecimento quando é integrada a outras informações numa forma que serve para decidir, agir ou compor um novo conhecimento.

O conhecimento se transforma em compreensão quando é relacionado a outro conhecimento de uma maneira que serve para conceber, antecipar, avaliar e julgar.

A compreensão se transforma em sabedoria quando é informada pelo propósito, pela ética, pelo princípio, pela lembrança do passado e pela projeção no futuro.

(HOCK, 1999, p. 204)


As sociedades nativas [...] tiveram tempo para desenvolver a compreensão e a sabedoria numa proporção muito elevado aos dados e informações. Talvez não soubessem muita coisa pelos padrões de hoje, mas compreendiam muito bem o que sabiam. Eram imensamente sábias com relação a informação que tinham, e essa informação era condicionada por uma proporção muito alta de valor espiritual. [...] Nossa sociedade, ao contrário, compreende muito pouco o que sabe. E tem ainda menor sabedoria em relação a informação que domina. p. 205-206


Liderança não é fazer bons julgamentos e agir com sabedoria quando se tem todos os dados, todos os fatos e todo conhecimento. Isso não é nem sequer administração. É escrituração. . Liderança é a capacidade de tomar decisões sábias e de agir com responsabilidade tendo apenas um claro senso de direção e valores corretos. p. 215


Os números não são valores e nem a medida de todas as coisas [...] todo conhecimento é uma aproximação. p. 216-217.


A mudança é o ladrão da identidade. Nunca temos certeza de nosso lugar ou valor numa nova ordem de coisas. p. 217


Quando o modelo interior de realidade está em conflito com a realidade exterior [...] há três maneiras fundamentais de reagir:

  1. nós nos agarramos ao velho modelo interior e tentamos impô-lo às condições externas;

  2. entregamo-nos à negação;

  3. tentamos compreender e modificar nosso modelo interior de realidade. p. 217


Diante de situações difíceis, sempre tive o hábito de recuar para depois abordá-la de maneira bem-humorada e pouco ortodoxa. p. 222


O dinheiro não motiva as melhores pessoas e nem o melhor nas pessoas. Ele consegue mexer com o corpo e influenciar a mente, mas não consegue tocar o coração nem mexer com o espírito. p. 230


A vida é um contrato sagrado entre os mortos, os vivos e os não-nascidos. p. 235


As pessoas devem realizar as coisas no próprio ritmo, da própria maneira, pelas próprias razões, ou nunca realizarão nada de verdade. p. 236


Não dá para fazer cócegas em si mesmo. Este é um ato social. p. 255


SEMPRINI, Andrea. Multiculturalismo

 SEMPRINI, Andrea. Multiculturalismo. Tradução de Laureano Pelegim. São Paulo: EDUSC, 1999. 178 p. ISBN 85-86259-78-0



O aumento de poder da direita republicana aconteceu essencialmente por causa das problemáticas pós-políticas, emprestando temas da cruzada moral e espiritual. 42


... o multiculturalismo coloca a questão da diferença. Pode-se igualmente afirmar que ele lança a problemática do lugar e dos direitos da minoria com relação a maioria. Poderíamos finalmente argumentar que ele discute o problema da identidade e seu reconhecimento. 43


Uma Segunda interpretação do multiculturalismo privilegia sua dimensão especificamente cultural. Ela concentra sua atenção sobre as reivindicações de grupos que não têm necessariamente uma base "objetivamente" étnica, política ou nacional. Eles são mais movimentos sociais, estruturado em torno de um sistema de valores comuns, de um estilo de vida homogêneo, de um sentimento de identidade ou pertença coletivos, ou mesmo de uma experiência de marginalização. Com freqüência é esse sentimento de exclusão que leva os indivíduos a se reconhecerem [...]. 44


De acordo com uma perspectiva culturalista [...] os conflitos culturais podem ser resumidos em três áreas problemáticas: a educação; a identidade sexual e as relações interpessoais; as reivindicações identitárias. 45


As virtudes atribuídas à educação permitem compreender por que a escola transformou-se no centro de controvérsias multiculturais violentas. As polêmicas concentram-se em dois aspectos: a reforma dos textos e da grade curricular e a admissão de minorias à educação superior. 46


Os resultados da ação afirmativa mostraram-se medíocres. Admitidos por força da lei, sem todavia satisfazer todas as exigências, parte desses estudantes se adapta com dificuldades ao ambiente universitário e abandona os campi logo nos primeiros anos. A política de quotas não conseguiu aumentar significativamente o número de diplomados entre as minorias e restringiu o acesso de outros estudantes.

As conseqüências humanas e sociais dessa política são igualmente objeto de crítica. Para alguns estudantes, as condições facilitadoras de sua admissão na universidade criaram falta de confiança e perda de auto-estima. Elas podem também resultar em certa condescendência por parte de outros estudantes, que acabam considerando os membros das minorias mais como pessoas assistidas do que pessoas iguais a si. Esta imagem de estudantes "de segunda classe" difunde-se no mercado de trabalho e desvaloriza diplomas que são, na maioria dos casos, perfeitamente válidos. 49


Uma simples política administrativa não pode resolver o problema da auto-estima, nem substituí o estímulo dos pais, o apoio do grupo social e o encorajamento dos demais grupos. 51


O movimento feminista acusa a cultura dominante não somente de ter criado uma sociedade dominada por valores masculinos, mas de ter mascarado seu caráter sexuado, para assim fabricar valores gerais e "neutros". Paralelamente ao processo de objetivação da subjetividade masculina, a opinião e a contribuição das mulheres foram marginalizadas, reduzidas ao silêncio e por vezes ativamente reprimidas. 51-52


É precisamente seu caráter vago, quase impalpável, que torna difícil, na ausência de provas fatuais, a resolução de numerosos casos de assédio. 53


Na ausência destes últimos, o que se julga é a personalidade das partes em causa, que são intimadas a "objetivar" sua boa fé fazendo uma exibição dos aspectos mais íntimos de suas vidas particulares.

O assédio sexual é, antes de tudo, uma forma de importunação, ou seja, uma prática de submissão e humilhação cujo objetivo é naturalmente o sexo, mas é também o meio. 54


Enquanto a geração anterior havia se batido para eliminar toda forma de regulamento e instaurar uma liberdade absoluta nos campi, assiste-se atualmente ao ressurgimento dos códigos de conduta formulado e aplicado pelos próprios estudantes. 55


... esses códigos ilustram as mesmas tendências operantes na sociedade americana. Em primeiro lugar, uma dificuldade crescente em negociar as relações interpessoais, estabelecer um correto distanciamento entre os indivíduos. Em segundo lugar, uma tendência paralela a recorrer a instrumentos formais, códigos de conduta ou simplesmente o código civil, para resolver esses problemas de distanciamento. Enfim, a tendência a moralizar os problemas de relação e a individualizar os problemas sociais, procurando no vocabulário da ética e na regulação das relações interpessoais a solução para uma crise que é de âmbito cultural e de civilização. 56


Outros grupos não são redutíveis a qualquer base étnica. É principalmente o caso dos homossexuais e lésbicas, grupos religiosos e seitas e, mais geralmente, associações de indivíduos portadores de algum estigma físico ou social. 58


A emergência de uma minoria depende não somente do fato, para o grupo em questão, de chegar a se perceber como uma "minoria", ou seja, como uma formação social apresentando suficientes traços comuns para adquirir homogeneidade e uma visibilidade interna aos olhos de seus membros, mas igualmente pelo fato de conquistar uma visibilidade externa e chegar a ser percebido como "minoria" pelo espaço social circundante. 59


A expressão "politicamente correto" (politically correct) ou "pc", foi tomada do jargão stalinista dos anos 50, que designava a obediência irrestrita à linha política ditada pelo comitê central. [...] A referência ao stalinismo não é sem razão e contribui para o sucesso da expressão, conferindo-lhe conotações detestáveis. Qualificar uma atitude ou comportamento de "pc" subentende um julgamento de intolerância, o endossamento irrefletido de valores e escolhas feitas por outros, limitação da liberdade de expressão e de qualquer manifestação de uma atitude contraditória. O "pc" tornou-se assim um sinônimo de conformismo e de indolência e utiliza-se com convicção a expressão "politicamente incorreto" para distinguir as propostas originais e pessoais que não temem incomodar ou ofender se preciso for. 61


O acúmulo desses excessos alertou numerosos intelectuais contra esse novo "patrulhamento lingüístico" que ameaçava, a seus olhos, questionar o intocável princípio da liberdade de expressão. 63


O movimento estudantil dos anos 60 havia sido, naquele tempo, acusado de todos os horrores: orgias sexuais, "viagens" psicodélicas, promiscuidade, subversão moral, simpatia pelo comunismo... Hoje ele é lamentado por muitos como uma experiência única de mobilização e engajamento social. 64


Ela apenas registra uma situação. Ela é, por definição, neutra e se situa além do campo ideológico. Pensar que a linguagem é cúmplice ou responsável pelas situações que ela apenas designa significa enganar-se de direção na cadeia de causas e preocupar-se mais com os efeitos do que com as causas. [...] Não é modificando-se à força a linguagem que se conseguirá modificar as realidades sociais que ela simplesmente reproduz. Quando as relações reais de poder se modificarem, o instrumento lingüístico as registrará "naturalmente" e sem demora. 66


A linguagem é um instrumento que afeta profundamente o nosso conhecimento e representações do mundo. [...] é identificada não apenas como lugar onde as relações de dominação e exclusão se cristalizam, mas também onde essas relações são negociadas, produzidas e reproduzidas. 67


Longe de se limitar a registrar as realidades, a linguagem contribui para sua produção, modelando a percepção que uma sociedade tem de si mesma e dos grupos que a compõem. A cristalização do sentido operada pela linguagem tem uma historicidade. Esta passa por questionamentos a todo momento, nas ações cotidianas que permitem às personagens sociais produzirem versões mais ou menos conflitantes da realidade. A alteração de uma palavra pode influenciar a cognição das personagens para outras direções. Pode fazer surgir diferentes descrições ou relatos alternativos. Ela pode, finalmente, dirigir a atenção para zonas do campo social que ficam na sombra. 67





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