Um livro é um mudo que fala, um surdo que responde, um cego que guia, um morto que vive. (Padre Antônio Vieira)

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Poesia do ímpeto e do giro...

Poesia do ímpeto e do giro,
Da vertigem e da explosão,
Poesia dinâmica, sensacionista, silvando
Pela minha imaginação fora em torrentes de fogo,
Em grandes rios de chama, em grandes vulcões de lume.
 
 
 
PESSOA, Fernando. Poesia. Álvaro de Campos. Edição Teresa Rita Lopes. São Paulo: Cia. das Letras, 2002. p. 213

Faz partir, que eu quero partir...

Meu amor perdido, não te choro mais, que eu não te perdi!
Porque posso perder-te na rua, mas não posso perder-te no ser,
Que o ser é o mesmo em ti e em mim.
 
Muito é ausência, nada é perda!
Todos os mortos - gente, dias, desejos,
Amores, ódios, dores, alegrias -
Todos estão apenas em outro continente...
 
Chegará a vez de eu partir e ir vê-los.
De se reunir a família e os amantes e os amigos
Em abstracto, em real, em perfeito
Em definitivo e divino.
 
Reunir-me-ei em vida e morte
Aos sonhos que não realizei
Darei os beijos nunca dados,
Receberei os sorrisos, que me negaram,
Terei em forma de alegria as dores que tive...
 
Ah, comandante, quanto tarda ainda
A partida do transatlântico?
Faz tocar a banda de bordo -
Músicas alegres, banais, humanas, como a vida -
Faz partir, que eu quero partir...
 
 
 
PESSOA, Fernando. Poesia. Álvaro de Campos. Edição Teresa Rita Lopes. São Paulo: Cia. das Letras, 2002. p. 208-209

A morte é nada

Que a vida é tudo, e que a morte é nada, e que o abismo é só a cegueira de ver, que tudo isto não pode existir e deixar de existir, porque existir é ser, e ser não se reduz ao nada. Ah, se todo este mundo claro, e estas flores e luz, se todo este mundo com terra e mar e casas e gente, se todo este mundo natural, social, intelectual, estes corpos nus por baixo das vestes naturais, se isto é ilusão, porque é que isto está aqui? Ó mestre Caieiro, só tu é que tinha razão! Se isto não é, por que é que é?
Se isto não pode ser, então porque pôde ser?
 
 
PESSOA, Fernando. Poesia. Álvaro de Campos. Edição Teresa Rita Lopes. São Paulo: Cia. das Letras, 2002. p. 207

E só no erro

E só no erro e no olhar há dor e dúvida e sombra.
 
PESSOA, Fernando. Poesia. Álvaro de Campos. Edição Teresa Rita Lopes. São Paulo: Cia. das Letras, 2002. p. 204

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

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