Um livro é um mudo que fala, um surdo que responde, um cego que guia, um morto que vive. (Padre Antônio Vieira)

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Falsas vítimas


16/12/2014 02h00

Depois de pressões vindas de vários setores da sociedade pelo reconhecimento dos excessos cometidos por ambos os lados, o governo alemão resolveu inaugurar um memorial aos oficiais da Gestapo mortos por militantes comunistas alemães.

"Devemos colocar o problema da ascensão do nazismo em seu contexto. Afinal, havia o medo da ameaça comunista, por pouco uma revolução comunista não eclodiu na Alemanha. Claro que ninguém apoia o nazismo, mas do outro lado não havia apenas santos", disse a chanceler Angela Merkel na inauguração.

Não, esta não é uma notícia verdadeira. Mas, guardada as devidas proporções, alguns querem nos levar a um raciocínio parecido diante das exigências postas pelo relatório da Comissão Nacional da Verdade.

Depois de dois anos e meio de trabalho, a CNV mostrou como o país foi governado, durante vinte anos, por governos que implementaram uma política sistemática e consciente de medo, assassinato, tortura, estupro e ocultação de cadáveres, não apenas contra militantes comunistas, mas contra todos os que podiam se apresentar como ameaça à perpetuação do regime. Durante vinte anos, o Brasil foi simplesmente um Estado ilegal governado por bandidos.

Diante disso, o mínimo que se poderia esperar era uma pressão nacional para que as Forças Armadas oferecessem à nação um mea-culpa, como foi feito em países como Argentina e Chile, entre tantos outros. As Forças Armadas brasileiras devem decidir se querem ser uma instituição à altura das exigências de uma sociedade democrática ou um clube de defesa de torturadores, estupradores e assassinos.

Mas, como não poderia deixar de ser, levantam-se vozes para falar sobre "as vítimas do outro lado". Então, militares aparecem com listas de vítimas das ações de grupos de luta armada (para variar, listas falsas com pessoas ainda vivas), filhos de torturadores escrevem cartas indignadas contra o governo. Pessoas que morreram por defender uma ditadura criminosa ou que são atualmente denunciadas por isso querem agora ser vistas como vítimas. Mas vítimas do quê? Do direito de resistência contra a tirania? Os colaboracionistas franceses mortos pela resistência foram "vítimas"?
Como se não bastasse, há de se lembrar que todos os membros da luta armada que participaram de crimes de sangue NÃO foram anistiados (por favor, leiam novamente, "não foram anistiados"). Eles ficaram na cadeia depois de 1979 e, por isso, pagaram suas penas. Os únicos que não pagaram nada foram os militares.

A Lei de Anistia, como aplicada no Brasil, é uma simples farsa imoral. Como é farsesca a ideia de, agora, dar voz àqueles que passaram à história brasileira eliminando as vozes dos descontentes.

Vladimir Safatle


quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Santa Catarina tem herança histórica de ideais propagados por Hitler

Passado histórico cultural deixam rastros do nazismo no Estado

Santa Catarina tem herança histórica de ideais propagados por Hitler Divulgação/Polícia Civil
Foto foi feita durante o deslocamento de uma aernave que participava de uma operação de resgateFoto: Divulgação / Polícia Civil

A antropóloga Adriana Dias, pesquisadora da Universidade de Campinas (Unicamp), mapeou grupos de neonazistas na internet concluiu que a maioria deles está emSanta Catarina. A pesquisa, de 2009, considerou apenas usuários que baixaram mais de cem arquivos de sites neonazistas no país.

Ao todo, 45 mil pessoas no Estado se encaixaram no perfil – número que acende o alerta entre especialistas. Na época em que foi feita a pesquisa havia mais de 20 mil sites que continham apologia ao nazismo no país. De lá para cá estima-se que o índice de arquivos baixados por simpatizantes tenha crescido 6% ao ano.

::: Imagens de suástica em piscina em Pomerode e em cartazes em Itajaí reacendem debate sobre nazismo no Vale do Itajaí 
::: Delegacia de Pomerode não irá investigar presença de suástica no interior de piscina
:::
 Pancho: Piloto registra piscina com suástica no Vale do Itajaí

Para o advogado e jornalista Aluízio Batista Amorim, autor do livro Nazismo em Santa Catarina, a colonização alemã que começou no século 19 pode ajudar a explicar os dados no Estado. O Vale do Itajaí teve a primeira sede brasileira do partido nazista, em Timbó, ainda na década de 1920. Espalhado pelo país, o partido chegaria a ter quase 3 mil filiados no Brasil.

::: Entenda qual a origem da suástica

A historiadora Marlene de Faveri, pesquisadora da Udesc, conta que se estimava, durante a 2ª Guerra Mundial, que 10% dos imigrantes no Sul do país eram nazistas. Na época, quem tivesse o nome na lista dos "quinta-coluna", os traidores, estava sujeito a perder bens e a liberdade. Campos de concentração na Capital e em Joinville reuniram os suspeitos de nazismo catarinenses — de gente simples a figurões, alguns deles com sobrenomes ainda hoje muito comuns por aqui, que foram detidos, interrogados e torturados sob a acusação de trabalhar pelo nazismo alemão. 

— Temos em Santa Catarina uma colonização europeia muito forte, imigrantes e descendentes que professaram e não aceitaram a derrota do nazismo. Há grupos no Estado que ainda se reúnem e festejam, por exemplo, o aniversário de Hitler — comenta Marlene.

— É uma tradição germanófila — diz o também historiador Viegas Fernandes da Costa, de Blumenau – a adoração a uma Alemanha que já não existe mais.

http://jornaldesantacatarina.clicrbs.com.br/sc/geral/noticia/2014/12/santa-catarina-tem-heranca-historica-de-ideais-propagados-por-hitler-4661083.html

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Testemunha coagida pela polícia

Logo depois de inocentar Kwame Ajamu, a juíza Pamela Barker desceu de seu assento na terça (9), debruçou-se sobre a mesa da defesa e deu um abraço nele.

Foram necessários quase 40 anos, mas Ajamu não era mais um assassino condenado.

Momentos antes, Barker tinha cancelado suas acusações e o promotor do condado, Tim McGinty, tinha transmitido uma mensagem através de um assistente, dizendo que Ajamu, seu irmão, Wiley Bridgeman, e o amigo deles, Ricky Jackson, "foram vítimas de uma terrível injustiça".

Os três tinham sido condenados e sentenciados à morte pelo assassinato de um executivo na saída de uma loja em um quente dia da primavera de 1975. O caso contra eles teve uma reviravolta no ano passado quando a principal testemunha de acusação retratou seu depoimento.

A testemunha, Eddie Vernon, tinha 12 anos quando Harry Franks foi morto e 13 quando testemunhou contra os três homens em seus julgamentos em 1975. Vernon disse na corte mês passado, e em uma declaração juramentada, que havia sido coagido pela polícia de Cleveland.

Kwame Ajamu recebe um abraço da juíza Pamela Barker após o final da sessão onde foi inocentado (Foto: AP Photo/Tony Dejak)Kwame Ajamu recebe um abraço da juíza
Pamela Barker após o final da sessão onde foi
inocentado (Foto: AP Photo/Tony Dejak)

Ajamu, na época conhecido como Ronnie Bridgeman, tinha 17 anos quando foi mandado para o corredor da morte. Jackson tinha 19 e Wiley Bridgeman tinha 20 anos. Suas sentenças foram mais tarde trocadas por penas de prisão perpétua.

Ajamu foi libertado da prisão em 2003. Jackson e Wiley Bridgeman ficaram presos até recentemente e foram liberados no dia 21 de novembro deste ano.

O gabinete de McGinty tinha feito poucos comentários sobre as exonerações. Mas, na terça, ele absolveu os três pelos crimes e disse que não iria se opor a qualquer declaração de inocência, o que irá acelerar o processo civil pelo qual os homens serão recompensados por terem sido presos injustamente.

A concessão do promotor pareceu impressionar o advogado de defesa Terry Gilbert, um antigo defensor dos direitos civis em Cleveland e que representa Ajamu e seu irmão, Wiley Bridgeman.

"Reconhecer uma injustiça... isso me dá fé e esperança no sistema judiciário criminal de que coisas boas podem sair de lá de vez em quando", Gilbert disse a Barker.

Ajamu, de 57 anos, reconstruiu sua vida. Ele se casou com uma mulher que conheceu no subúrbio de Cleveland em 2003, quando ela não conseguia encontrar o ônibus certo e ele a acompanhou até seu destino. Eles se casaram no ano seguinte. Ajamu chamou Lashaw Ajamu de sua melhor amiga e maior apoiadora.

Depois que Barker cancelou as acusações, Kwame Ajamu disse ao grupo de pessoas que ocupava a sala da corte que estava muito feliz e que "esta sala está iluminada pela verdade".

"Minha esperança é que avancemos e não tenhamos que esperar outros 40 anos pelos próximos Kwame Ajamu, Wiley Bridgeman, Ricky Jackson", ele disse. "Minha esperança é que a partir deste dia possamos parar de ignorar o que é óbvio no sistema judiciário criminal e seguir em frente com paz e amor".

Após a audiência, Ajamu deu crédito a Kyle Swenson, colunista da revista Scene, que em 2011 se debruçou sobre as histórias dos homens e expôs como a justiça tinha sido subvertida.

Ajamu disse que espera um dia se encontrar com Edddie Vernon, que hoje tem 52 anos, para poder dizer a ele que entende o que aconteceu e que não guarda rancores contra ele. Ajamu disse que sua total exoneração finalmente o torna livre para ir a qualquer lugar que queira, a qualquer momento que desejar.

"Posso até voltar a ser Ronnie Bridgeman, mas não irei", ele disse. "Eles mataram Ronnie Bridgeman. Mataram seu espírito. Eles mataram tudo em que ele acreditava, tudo que ele sempre quis. Eu queria ser algo também. Eu poderia possivelmente ter sido um advogado. Eu poderia ter sido Barack Obama. Quem sabe?"

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Ronnie Bridgeman (dir.), conhecido como Kwame Ajamu, se emociona após ser finalmente inocentado em uma corte de Cleveland, EUA, por um homicídio ocorrido em 1975. Ele e outros dois homens chegaram a receber a pena de morte pelo crime não cometido (Foto: Tony Dejak)Ronnie Bridgeman (dir.), conhecido como Kwame Ajamu, se emociona após ser finalmente inocentado em uma corte de Cleveland, EUA, por um homicídio ocorrido em 1975. Ele e outros dois homens chegaram a receber a pena de morte pelo crime não cometido (Foto: Tony Dejak)
http://g1.globo.com/mundo/noticia/2014/12/terceiro-homem-e-inocentado-39-anos-apos-condenacao-morte.html

Bolsonaro estuprador: não estupra deputada porque ela 'não merece'

Os deputados Jair Bolsonaro e Maria do Rosário (Foto: Gabriela Korossy e Luis Macedo / Câmara dos Deputados)Os deputados Jair Bolsonaro e Maria do Rosário (Foto: Gabriela Korossy e Luis Macedo / Câmara dos Deputados)

O deputad Jir Bolsonaro (PP-RJ) reagiu nesta terça-feira (9) a um discurso da deputada Maria do Rosário (PT-RS) contra a ditadura militar dizendo que ele só não a estupra porque ela "não merece". Ele repetiu ofensa dirigida à mesma deputada em 2003, quando os dois discutiram em um corredor da Câmara.

Em seu discurso, Maria do Rosário, que foi ministra da Secretaria de Direitos Humanos,  chamou a ditadura militar no Brasil (1964-1985) de "vergonha absoluta".

Bolsonaro, que é militar da reserva, foi à tribuna em seguida. No momento da fala do deputado, Maria do Rosário deixou o plenário.

"Fica aí, Maria do Rosário, fica. Há poucos dias, tu me chamou de estuprador, no Salão Verde, e eu falei que não ia estuprar você porque você não merece. Fica aqui pra ouvir", disse.

Ao discursar, Maria do Rosário tinha afirmado que "homens e mulheres (...) se colocaram de joelhos diante dela [da ditadura] para servirem ao interesse da tortura, da morte, ao interesse de fazer o desaparecimento forçado, o sequestro".

A ex-ministra criticou também as manifestações de rua que pedem a volta dos militares. Segundo ela, os manifestantes "deveriam ter consciência do escárnio que promovem indo às ruas pedir a ditadura, pedir o autoritarismo e o impeachment. Ora, figuras de linguagem desvalidas porque colocadas no pior lixo da história".

Maria do Rosário elogiou ainda o trabalho da Comissão Nacional da Verdade, que divulgará o relatório final nesta quarta-feira (10), Dia Internacional dos Direitos Humanos. No documento, haverá a recomendação para que responsáveis pela violação de direitos humanos sofram punição no âmbito civil, administrativo e criminal.

Jair Bolsonaro disse que, para ele, a data é o "Dia Internacional da Vagabundagem". "Os direitos humanos no Brasil só defendem bandidos, estupradores, marginais, sequestradores e até corruptos", declarou. E acrescentou ataques à presidente Dilma Rousseff:

"A Maria do Rosário saiu daqui agora correndo. Por que não falou da sua chefe, Dilma Rousseff, cujo primeiro marido sequestrou um avião e foi para Cuba, participou da execução do major alemão? O segundo marido confessou publicamente que expropriava bancos, roubava bancos, pegava armas em quarteis e assaltava caminhões de carga na Baixada Fluminense. Por que não fala isso?", indagou.

Bolsonaro ainda mencionou o caso do assassinato do prefeito Celso Daniel (PT), de Santo André, e chamou a deputada de "mentirosa, deslavada e covarde".

"Vá catar coquinho. Mentirosa, deslavada e covarde. Eu ouvi ela falando aqui as asneiras dela e fiquei aqui. Fale do teu governo, o governo mais corrupto da história do Brasil", afirmou.

'Peço que o mantenha longe'
Depois da sessão, a deputada Maria do Rosário disse que a atitude do Bolsonaro agredia não só a ela, mas a todas as mulheres, e fez um apelo à direção da Câmara para que o "mantenha longe". "Ele, de fato, agride a todas as mulheres [com o seu discurso]. Eu só quero poder vir para a Câmara dos Deputados, porque eu fui eleita, e trabalhar", afirmou.

E completou: "Eu não quero que os pronunciamentos sejam comentados, eu não quero ser agredida por esse senhor. Eu peço à Mesa da Câmara que o mantenha longe, que o mantenha distante. Essas ameaças são típicas de quem fala em tortura. Não aceito".

Conselho de Ética e Judiciário
O líder do PT na Câmara, Vicentinho (SP), leu uma nota em que confirmou que o partido vai tomar medidas judiciais contra Bolsonaro.

"No âmbito do Parlamento e do Judiciário, todas as iniciativas serão tomadas por nós, parlamentares da bancada do PT, já que as declarações, ameaças, de Bolsonaro demonstram total desrespeito à condição de representante do povo deste país", disse Vicentinho.

Ele classificou a atitude do deputado de "torpe" e "barbárie". "Tudo o que está em sua mente e em sua boca é maldade e depravação, marcas indeléveis do regime de usurpadores e torturadores que ele tanto defende", afirmou. Vicentinho estava rodeado de parlamentares mulheres, que chegaram a entoar um coro de "Fora, Bolsonaro".

O deputado Amauri Teixeira (PT-BA), que presidia a sessão nos momentos em que Maria do Rosário e Bolsonaro discursaram, disse que solicitará as notas taquigráficas e o áudio para, com o apoio da bancada feminina, entrar com uma representação contra Bolsonaro no Conselho de Ética por quebra de decoro parlamentar.

Segundo o deputado Geraldo Magela (DF), secretário-geral do PT, o partido também  decidiu entrar com uma representação no Conselho de Ética contra Bolsonaro e estuda outras medidas judiciais cabíveis. "Ele efetivamente quebrou o decoro parlamentar", disse.

A líder do PC do B na Câmara, deputada Jandira Feghali (RJ), disse que o partido estuda tomar medidas contra Jair Bolsonaro. Segundo ela, entre as possibilidades está entrar com representação no Conselho de Ética ou impetrar ação no Supremo Tribunal Federal. "Estamos avaliando qual o melhor caminho", disse.

O presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), criticou a atitude de Bolsonaro e afirmou que o Parlamento tem que "dar o exemplo" não só na política, mas no campo pessoal também.

"A Câmara não pode ter esse tipo de comportamento aqui. Tem que dar o exemplo aqui na relação não só política, mas pessoal também", afirmou. Ele observou ainda que a deputada tem como acionar a Casa para que o deputado se explique.

http://g1.globo.com/politica/noticia/2014/12/bolsonaro-repete-que-nao-estupra-deputada-porque-ela-nao-merece.html

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Fwd: ECOSOL





Por que o mundo presta atenção apenas no Estado Islâmico?

Também vimos muitos relatórios sobre o regime. O EI fez muito menos (do que Al-Assad). Cometeu, de fato, muitos crimes. Mas nada comparável a Ghouta (ataque químico em Ghouta, subúrbio de Damasco, atribuído ao regime e com estimativas de algumas dezenas até 1,7 mil mortos). Há também outros crimes cometidos pelo PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão, facção curda) e pelas milícias xiitas. Tudo isso levará mais e mais sunitas a apoiar o EI. Veja o PUD (Partido Democrático Unitário, outra facção curda): eles expulsaram milhares de árabes, e ninguém sequer os condena. Por que o mundo presta atenção apenas no EI?


É como acontece com um gato. Quando ele é apanhado num canto, pode se tornar um tigre. Em Burma, sob pressão, alguns burmaneses estão se juntando à Al-Qaeda. Se você fosse à Síria logo depois do início da revolução, não encontraria extremistas. As políticas erradas estão levando a onde estamos agora. Se o regime não cair, não haverá paz. E, se os ataques ao EI continuarem, isso aumentará o risco de ataques também na Europa, nos Estados Unidos, em toda parte.



[...]


Como analisa o papel dos Estados Unidos na crise síria? Os Estados Unidos são responsáveis diretos por essa crise na Síria. Como eu já disse, eles declararam para quem quisesse ouvir, em vários fóruns internacionais, que estão armando e financiando os terroristas na Síria. Assim como eles criaram a Al-Qaeda, eles criaram o Estado Islâmico. Eles o financiam, fornecem-lhe armas, treinam seus membros, dão suporte logístico e cobertura necessária para que esse grupo desestabilize não somente a Síria, mas toda a região do Oriente Médio, como forma de proteger Israel e dar prosseguimento às suas políticas expansionistas. Recentemente, em relatório feito pelo secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, a ONU reconheceu que Israel dá apoio e suporte aos terroristas na Síria, impede, ameaça e sabota o trabalho das forças de paz nas Colinas de Golã (Undof) e permite a entrada de terroristas através das fronteiras. Se os Estados Unidos e seus aliados na região, como a Arábia Saudita, a Turquia e o Catar, quisessem de fato acabar com o chamado Estado Islâmico, bastaria secar as fontes de financiamento deste grupo. Seria a melhor forma de sufocá-lo, mas eles não o fizeram.


https://diariocatarinense.creatavist.com/estadoislamico

sábado, 6 de dezembro de 2014

Papelão em SP

E aí direita fascista, onde está a força popular de vocês?
Acho que é só o Lobão...

Se  a campanha de Dilma Evergonhou o Diabo, a de Aécio envergonhou Deus... e continua...

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Bando de asno

#SalaSocial Em busca de popularidade, jovens 'negociam' elogios no Instagram

Ricardo Senra - @ricksenraDa BBC Brasil em São Paulo
  • 4 dezembro 2014
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Onda de selfies levou à popularização de hashtags como #trocolikes e #sigodevolta

Ana Paula acaba de postar uma "selfie" clássica no Instagram: close no rosto, óculos escuros, sorrisão e dedos em riste com um "V de Vitória". Resultado imediato: 101 curtidas e dezenas de comentários - "linda", "diva", "gata", "musa", "top".

Mas a boa repercussão não é fruto do ângulo escolhido em seu smartphone. A jovem está entre os milhões de brasileiros afeitos à autopromoção baseada em trocas nas redes sociais e acaba de aderir a uma novidade entre os usuários: a hashtag #trocoelogios.

A dinâmica é simples: Paula e seus amigos passam horas de seu dia comentando fotos de figuras populares, como Neymar, Valesca Popozuda e Mc Guimé. Por meio de hashtags, clamam por curtidas de outros usuários em suas publicações, prometem retribuí-las e, agora, também negociam frases positivas com quem elogia suas caras e bocas.

A meta é acumular o maior número possível de interações positivas e "atestar" sua popularidade online.

Imagem retrata o 'mercado' da troca de elogios e curtidas na rede social de fotografias

Capital social

Explica-se: a alma do negócio nas redes sociais, dizem especialistas, chama-se "capital social". O termo indica que a relevância digital de alguém será maior conforme a quantidade de curtidas e a qualiadde dos comentários que ela arrecadar na internet.

Adolescentes abusam da criatividade para atrair atenção para seus perfis

É esta a corrida que leva Ana Paula e outros jovens a transformarem a visibilidade de seus ídolos em escada para a própria fama digital.

Sempre de carona em perfis famosos, brasileiros já compartilharam mais de 5 milhões de vezes hashtags como #trocolikes e #sigodevolta só no Instagram.

Novidade, o escambo de adjetivos por meio da hashtag #trocoelogios vem rendendo variações curiosas, como #trocoelogiosinceros, #trocoelogiosnaultimafoto e #trocoelogiosnasduasultimas.

'Fórmula fast food'

Mutante a cada dia, o cardápio de estratégias para a multiplicação de fãs e curtidas lembra a fórmula "Peça pelo número" das redes de fastfood.

São populares hashtags como #trocolikes10, #trocolikes20 e #trocolikes30: a numeralha indica o número de fotos que receberá curtidas caso o interlocutor cumpra o trato e retribua o "favor" da repercussão artifical de postagens.

"Peço elogios só para interagir com outros usuários do Instagram", disse ao #SalaSocial a estudante Larissa, 16 anos, mais de 600 seguidores na rede - boa parte deles "negociada" por meio da sigla #SDV (ou "sigo de volta").

Internautas criam memes em busca de novos seguidores e curtidas

Ela não vê problemas com a prática dos "elogios combinados". "Eu gosto (de ver minhas fotos repercutindo). Acho normal."

Recompensas

"Há estudos consolidados mostrando que a maneira como nós produzimos conteúdo nas redes sociais é regida por um sistema de recompensas", explica Ana Freitas, especialista em tendências e comportamento em ambientes digitais. "Hoje posta-se assuntos pensando primeiro em popularidade e repercussão, e depois no conteúdo propriamente dito."

Para Freitas, o fenômeno apenas reproduz no meio online aquilo que sempre aconteceu nas ruas, escolas ou encontros familiares.

"As redes sociais são hoje um dos principais espaços de interação da molecada hoje em dia. A velha necessidade de ser aceito em diferentes grupos se mantém, só que agora no ambiente digital."

Mas os "caça-likes" podem ser uma pedra no sapato para CEOs e executivos do Instagram, Facebook e Twitter.

"Eles têm que quebrar a cabeça, né? Algoritmos existem para indicar quais conteúdos são mais importantes e quais são menos. Quando se subverte isso com pedidos de elogios ou likes, o algoritmo falha e dá visibilidade a tópicos que a princípio não mereceriam", explica. "Daí a necessidade de uma ginástica para que estes serviços voltem a atribuir valor àquilo que circula por aí."

http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2014/12/141125_salasocial_trocolikes_trocoelogios_rs

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Fascismo à Brasileira

Parece crescente e cada vez mais evidente no Brasil que importantes setores da classe média e classe alta simpatizam com ideais semelhantes aos que formaram o caldeirão social do fascismo

Historicamente a adesão inicial ao fascismo foi um fenômeno típico das classes dominantes desesperadas e das classes médias empobrecidas e apenas pontualmente conquistou os estratos mais baixos da sociedade, ideologicamente dominados pelo trabalhismo social-democrata ou pelo comunismo. Nos mais diversos cantos do mundo, dos nazistas na Alemanha e camisas-negras na Itália, aos integralistas brasileiros e caudilhistas espanhóis seguidores de Franco, as classes médias, empobrecidas pelas sucessivas crises do pós-guerra (1921 e especialmente 1929), formaram o núcleo duro dos movimentos fascistas.

Esse alinhamento ao fascismo teve como fundo principal uma profunda descrença na política, no jogo de alianças e negociatas da democracia liberal e na sua incapacidade de solucionar as crises agudas que seguiam ao longo dos anos 1910, 20 e 30. Enquanto as democracias liberais estavam estáveis e em situação econômica favorável, com certo nível de emprego e renda, os movimentos fascistas foram minguados e pontuais, muito fracos em termos de adesão se comparados aos movimentos comunistas da mesma época. Porém, uma vez que a democracia liberal e sua ortodoxia econômica mostraram uma gritante fraqueza e falta de decisão diante do aprofundamento da crise econômica nos anos 1920 e 30, a população se radicalizou e clamou por mudanças e ação.

Lembremos que, quando os nazistas foram eleitos em 1932, a votação foi bastante radical se comparada aos pleitos anteriores; 85% dos votos dos eleitores alemães foram para partidos até então considerados mais radicais, a saber, Socialistas (social-democracia), Comunistas e Nazistas (nacional-socialistas), os dois primeiros à esquerda e o último à direita. Os conservadores ortodoxos, anteriormente no poder, estavam perdidos em seu continuísmo e indecisão, sem saber o que fazer da economia e às vezes até piorando a situação, como foi o caso da Áustria até 1938, completamente estagnada e sem soluções para sair da crise e do desemprego, refém da ortodoxia de pensadores da escola austríaca, tornando-se terreno fértil para o radicalismo nazista (que havia fracassado em 1934).

Além disso, o fascismo se apresentava como profundamente anticomunista, o que, do ponto de vista das classes dominantes mais abastadas e classes médias mais estáveis (proprietárias) menos afetadas pelas crises, era uma salvaguarda ideológica, pois o "Perigo Vermelho", isto é, o medo de que os comunistas poderiam de fato tomar o poder, era um temor bastante real que a democracia liberal parecia incapaz de "resolver" pelos seus tradicionais métodos, especialmente após a crise de 1929. O fascismo desta maneira se apresentou como último refúgio dos conservadores (sejam de classe média ou da elite) contra o socialismo. Os intelectuais que influenciavam os setores sociais menos simpáticos ao fascismo, o viam como um mal menor "temporário" para proteger a "boa sociedade" das "barbáries socialistas", como o guru liberal Ludwig von Mises colocou, reconhecendo a fraqueza da democracia liberal face ao "problema comunista":

Não pode ser negado que o Fascismo e movimentos similares que miram no estabelecimento de ditaduras estão cheios das melhores intenções e que suas intervenções, no momento, salvaram a civilização européia. O mérito que o Fascismo ganhou por isso viverá eternamente na história. Mas apesar de sua política ter trazido salvação para o momento, não é do tipo que pode trazer sucesso contínuo. Fascismo é uma mudança de emergência. Ver como algo mais que isso, seria um erro fatal. (L. von Mises, Liberalism, 1985[1927], Cap. 1, p. 47)

Além da descrença na política tradicional e do temor do perigo vermelho num cenário de crise, houve ainda uma razão fundamental para as classes médias adentrarem as fileiras do fascismo: o medo do empobrecimento e a perda do status social.

Esse sentimento – chamado de declassemént ou declassê no aportuguesado, algo como "deixar de ser alguém de classe" – remetia ao medo de se proletarizar e viver a vida miserável que os trabalhadores, maior parte da população, viviam naquela época. Geralmente associava-se ao receio de que o prestígio social ou o reconhecimento social por sua posição econômica esmorecessem, mesmo para pequenos proprietários e profissionais liberais sem títulos de nobreza (ver Norbet Elias,Os Alemães). Esse medo entra ainda no contexto de uma evidente rejeição republicana, uma reação conservadora do etos nobiliárquico que dominava as classes altas e parte das classes médias urbanas nos países fascistas, à consolidação dos ideais liberais (mais igualitários) na estrutura social de poder e de privilégios, isto é, na tradição social aristocrática. Não foi por acaso que o fascismo foi uma força política exatamente onde os ideais liberais jamais haviam se arraigado, como Itália, Espanha, Portugal, Alemanha e Brasil.

Por fim, cumpre lembrar que os fascistas apelam à violência como forma de ação política. Como disse Mussolini: "Apenas a guerra eleva a energia humana a sua mais alta tensão e coloca o selo de nobreza nas pessoas que têm a coragem de fazê-la" (Doutrina do Fascismo, 1932, p. 7). A perseguição sem julgamento, campos de trabalho e autoritarismo não só vieram na prática muito antes do genocídio e da guerra, mas também já estavam em suas palavras muito antes de acontecerem. No discurso e na prática, a sociedade é (ou destina-se) apenas para aqueles que o fascista identifica como adequados; há um evidente elitismo e senso de pertencimento "correto" e "verdadeiro", seja uma concepção de nação ou de identidade de raça ou grupo. E essa identidade "verdadeira" será estabelecida à força se preciso.

Mas porque estamos falando disso?

Parece crescente e cada vez mais evidente no Brasil que importantes setores da classe média e classe alta simpatizam com ideais semelhantes  aos que formaram o caldeirão social do fascismo?

rolezinho shopping facismo brasil

Vimos em texto recente que a sociedade brasileira, em particular a classe média tradicional e a elite, carrega fortes sentimentos anti-republicanos (ou anticonstitucionais), herdados de nossa sucessão de classes dominantes sem conflito e mudança estrutural, sem qualquer alteração substancial de sua posição material e política, perpetuando suas crenças e cultura de Antigo Regime. Privilégios conquistados por herança ou "na amizade", contatos pessoais, indicações, nepotismos, fiscalização seletiva e personalista; são todas marcas tradicionais de nossa cultura política. A lei aqui "não pega", do mesmo jeito que para nazistas a palavra pessoal era mais importante que a lei. Há um paralelo assustador entre a teoria do fuhrerprinzip e a prática da pequena autoridade coronelista, à revelia da lei escrita, presente no Brasil.

Talvez por isso, também tenhamos, como a base social do fascismo de antigamente, uma profunda descrença na política e nos políticos. Enojada pelo jogo sujo da política tradicional, das trocas de favores entre empresas e políticos, como o caso do Trensalão ou entre políticos e políticos, como os casos dos mensalões nos mais variados partidos, a classe média tradicional brasileira se ilude com aventuras políticas onde a política parece ausente, como no governo militar ou na tecnocracia de governos de técnicos administrativos neoliberais. Ambos altamente políticos, com sua agenda definida, seus interesses de classe e poder, igualmente corruptos e escusos, mas suficientemente mascarados em discursos apolíticos e propaganda, seja pelo tecnicismo neoliberal ou pelo nacionalismo vazio dos protofascistas de 1964, levando incautos e ingênuos a segui-los como "nova política" messiânica que vai limpar tudo que havia de ruim anteriormente

Por sua vez, como terceiro ponto em comum, partes das classes médias tradicionais e a elite tem um ódio encarnado de "comunistas", e basta ler os "bastiões intelectuais" da elite brasileira, como Reinaldo Azevedo, Rodrigo Constantino ou Olavo de Carvalho ou mesmo porta-vozes do soft powerdo neoconservadorismo brasileiro, como Lobão e Rachel Sherazade. É curioso que o mais radical deles, Olavo de Carvalho, enxergue "marxismo cultural" em gente como George Soros (mega-especulador capitalista), associando-o ao movimento comunista internacional para subjugar o mundo cristão ocidental. Esse argumento em essência é basicamente o mesmo de Adolf Hitler: o marxismo e o capital financeiro internacional estão combinados para destruir a nação alemã (Mein Kampf, 2001[1925], p. 160, 176 e 181).

A violência fascista, por sua vez, é apresentada na escalada de repressão punitivista e repressora do Estado, apesar de – ainda – ser menos brutal que o culto à guerra dos fascistas dos anos 1920 e 30. Antes restritos apenas aos programas sensacionalistas de tv sobre violência urbana e aos apologistas da ditadura como Jair Bolsonaro, o discurso violento proto-fascista "bandido bom é bandido morto", que clama por uma escalada de repressão punitiva, sai do campo tradicionalmente duro da extrema direita e se alinha ao pensamento de economistas liberais neoconservadores que consideram que "o criminoso faz um cálculo antes de cometer seu crime, então é o caso de elevar constantemente o preço do crime (penas intermináveis, assédio, execuções), na esperança de levar aqueles que sentirem tentados à conclusão de que o crime já não compensa" (Serge Hamili, 2013). Assim, a apologia repressora se alinha à lógica do punitivismo mercantil de apologistas do mercado, mimetizando um Chile de Pinochet onde um duríssimo estado repressor, anticomunista, está alinhado com o discurso  neoliberal mais radical.

Rachel Sheherazade direita classe média
Rachel Sheherazade

E, ainda, somam-se a isso tudo o classismo e o racismo elitista evidentes de nossa "alta" sociedade. Da "gente diferenciada" que não pode frequentar Higienópolis, passando pelo humor rasteiro de um Gentili, ou o explícito e constrangedor classismo deRachel Sherazade, que se assemelha à "pioneira revolta" de Luiz Carlos Prates ao constatar que"qualquer miserável pode ter um carro", culminando com o mais vergonhoso atraso de Rodrigo Constantino em sua recente coluna, mostrando que nossos liberais estão mais inspirados por Arthur de Gobineau e Herbert Spencer do que Adam Smith ou Thomas Jefferson. A elite e a classe média tradicional (que segue o etos da primeira), não têm mais vergonha de expor sua crença no direito natural de governar e dominar os pobres, no "mandato histórico" da aristocracia sobre a patuléia brasileira. O darwinismo social vai deixando o submundo envergonhado da extrema direita para entrar nos nossos televisores diariamente.

Assim, com uma profunda descrença na política tradicional e no parlamento, somada a um anti-republicanismo dos privilégios de classe e herança, temperados por um anticomunismo irracional sob auspícios de um darwinismo social histórico e latente, aliado a uma escalada punitivista alinhada a "ciência" econômica neoliberal, temos uma receita perigosa para um neofascismo à brasileira. Porém, antes que corramos para as montanhas, falta um elemento fundamental para que esse caldeirão social desemboque em prática neofascista real: crise econômica profunda.

Apesar do terrorismo midiático, nossa sociedade não está em crise econômica grave que justifique esta radicalização filo-fascista recente. Pela primeira vez em décadas, o país vive certo otimismo econômico e, enquanto no final dos anos 1990, um em cada cinco brasileiros estava abaixo da linha da pobreza, hoje este número é um em cada 11. A Petrobrás não só não vai quebrar como captou bilhões recentemente. A classe média nunca viajou, gastou no exterior e comprou tanto quanto hoje, nem mesmo no auge insano do Real valendo 0,52 centavos de dólar. O otimismo brasileiro está muito acima da média mundial, mesmo que abaixo das taxas dos anos anteriores.

No entanto, apesar de tudo isso, parte das antigas classes médias e elites continuam se radicalizando à extrema direita, dando seguidos exemplos de racismo, intolerância, elitismo, suporte ao punitivismo sanguinário das polícias militares, aplaudindo a repressão a manifestações e indiferentes a pobres sendo presos por serem pobres e negros em shopping centers. Isso tudo com aquela saudade da ditadura permeando todo o discurso. Se não há o evidente declassmént, o empobrecimento econômico, ou mesmo um medo real do mesmo, como explicar esta radicalização protofascista?

Não é possível que apenas o tradicional anti-republicanismo, o conservadorismo anti-esquerdista e o senso de superioridade de nossas elites e classes médias tradicionais sejam suficientes para esta radicalização, pois estes fatores já existiam antes e não desencadeavam tamanha excrescência fascistóide pública.

Não.

O Brasil vive um fenômeno estranho. As classes médias tradicionais e elite estão gradualmente se radicalizando à extrema direita muito mais por uma sensação de declassmént do que por uma proletarização de fato, causada por alguma crise econômica. Esta sensação vem, não do empobrecimento das classes médias tradicionais (longe disso), mas por uma ascensão econômica das classes historicamente subalternas. Uma ascensão visível. Seja quando pobres compram carros com prestações a perder de vista; frequentam universidades antes dominadas majoritariamente por ricos brancos; ou jovens "diferenciados" e barulhentos frequentam shoppings de classe média, mesmo que seja para olhar a "ostentação"; ou ainda famílias antes excluídas lotando aeroportos para visitar parentes em toda parte.

Nossa elite e antiga classe média cultivaram por tanto tempo a sua pretensa superioridade cultural e evidente superioridade econômica, seu sangue-azul e posição social histórica; a sua situação material foi por tanto tão sem paralelo num dos mais desiguais países do mundo, que a mera percepção de que um anteriormente pobre pode ter hábitos de consumo e culturais similares aos dela, gera um asco e uma rejeição tremenda. Estes setores tradicionais, tão conservadores que são, tão elitistas e mal acostumados que são, rejeitam em tal grau as classes historicamente humilhadas e excluídas, "a gente diferenciada" que deveria ter como destino apenas à resignação subalterna ("o seu lugar"), que a ascensão destes "inferiores" faz aflorar todo o ranço elitista que permanecia oculto ou disfarçado em anti-esquerdismo ou em valores familiares conservadores. Não há mais máscara, a elite e a classe média tradicional estão mais e mais fazendo coro com os históricos setores neofascistas, racistas e pró-ditadura. Elas temem não o seu empobrecimento de fato, mas a perda de sua posição social histórica e, talvez no fundo, a antiga classe média teme constatar que sempre foi pobre em relação à elite que bajula, e enquanto havia miseráveis a perder de vista, sua impotência política e vazio social, eram ao menos suportáveis.

*Leandro Dias é formado em História pela UFF e editor do blog Rio Revolta. Escreve mensalmente para Pragmatismo Politico. (riorevolta@gmail.com)

Texto revisado por Carolina Dias

REFERÊNCIAS GERAIS:

ELIAS, Norbert. Os Alemães. Rio de Janeiro: Zahar, 1996

HAMILI, Serge. O laissez faire é libertário?. IN: Le Monde Diplomatique Brasil, número 71, 2013.

HITLER, Adolf. Mein Kampf. São Paulo: Centauro, 1925

HOBSBAWM, Eric. A Era dos Extremos. São Paulo: Cia das Letras,1996

MISES, Ludwig von. Liberalism.Irvington.The Foundation for Economic Education, 1985

MUSSOLINI, Benito. Doctrine of Fascism. Online World Future Fund. 1932

POULANTZAS, Nicos. Fascismo e Ditadura. Porto: Portucalense, 1972

SCHMIT, Carl. Teologia Política. Belo Horizonte: Del Rey, 2006


http://www.pragmatismopolitico.com.br/2014/01/fascismo-brasileira.html

O Reich tropical: a onda fascista no Brasil

O germe do ódio está às soltas no Brasil pronto para linchar física e moralmente todo aquele que não for branco, heterossexual, rico e cheio de bens de consumo
por Rosana Pinheiro-Machado — publicado 13/10/2014 13:35, última modificação 15/10/2014 17:58
A história do início do século 21 parece repetir a do século 20. De um lado, insurgências populares eclodem aqui e acolá. De outro, há o claro crescimento da extrema direita conservadora. Mas há uma diferença significativa, e profundamente preocupante, entre o passado e o presente. Desencantada de sua história e imersa em pequenos conflitos que causam grandes desgastes, a esquerda hoje está muito mais fraca do que há cem anos*.

O desequilíbrio entre uma esquerda enfraquecida e uma direita que detém o monopólio do capital financeiro e informacional, sem sombra de dúvidas, pesa para um único lado.

Se Celso Russomanno (PRB) e o Pastor Feliciano (PSC) não tivessem sido os deputados mais bem votados em São Paulo, e se o Rio de Janeiro não tivesse escolhido Jair Bolsonaro (PP) em primeiro lugar, eu poderia jurar que o deputado mais votado no Rio Grande do Sul, Luis Carlos Heinze (PP), que declarou que "quilombolas, índios, gays e lésbicas: tudo o que não presta" era um caso isolado de uma possível patologia gaúcha. Mas infelizmente não é.

Desde junho de 2013, muito tem se falado em guinada à direita ou da onda conservadora. O que poucos mencionam, no entanto, com a devida clareza necessária, é que tem emergido uma multidão raivosa e fascista. Essa hipótese se baseia nos fatos que elenco abaixo, os quais se indicam uma tendencia de violência física e moral a diferença e a diversidade.

Há uma sequência de eventos que não podem ser analisados separadamente. Primeiramente, logo após as Jornadas de Junho, veio o ódio e o racismo destilado aos integrantes do rolezinho – ódio este que senti na pele por ter sido agredida de todas as maneiras possíveis quando escrevi o Etnografia do Rolezinho. Não me surpreendeu, portanto, que 82% da população de São Paulo achassem que a força policial deveria agir para impedir o movimento dos jovens – segundo revelou uma pesquisa da época. Depois fomos brindados com o episódio da apresentadora do SBT Rachel Sheherazade, que defendeu publicamente o linchamento do adolescente negro e menor de idade que cometeu um assalto. Nessa linha, o aumento de casos de gays espancados no Brasil acontece paralelamente a torcidas de futebol que gritam "macaco, macaco", e que trazem à tona uma população que se solidariza mais com uma criminosa branca do que com o agredido negro.

Dando apoio ideológico a esse circo de horrores, angariando milhões de leitores com o sensacionalismo vulgar disfarçado de conteúdo, colunistas das piores – mas igualmente poderosas – revistas do Brasil aplaudem muitos desses eventos e estimulam a disseminação da mentira, ao inferir que, se nada for feito, a ditadura comunista irá imperar sob o reinado de pobres e gays. Controlando os aparatos hegemônicos da mídia e disseminando mentiras, os grupos dominantes elegeram a mais conservadora bancada de sua história – ato que não poderia ter sido plenamente realizado sem a eclosão incontrolável de ofensas criminosas aos nordestinos. Finalmente, mas não menos importante, o recente caso da suspeita de ebola desvelou crimes de racismo, xenofobia e intolerância humana de uma vez só.

O fascismo brasileiro é mais complexo do que o italiano ou o nazismo alemão. Ele é mais difícil de identificar, possui um ódio mais pulverizado direcionado uma massa ampla e difusa. É animado por uma mídia suja, uma polícia violenta, um movimento religioso fanático e uma elite sui generis que, na teoria, defende o liberalismo, mas na prática age para defender privilégios.

Ao passo que os italianos e alemães viam seu povo como superior, o fascismo idiossincrático à brasileira não idolatra a si próprio, mas sim aqueles países que lhes barra na imigração.

A semente do fascismo tropical está presente em todas as classes, em todas as regiões. Há quem diga que ele piorou após Junho de 2013. Há quem acredite que sempre foi assim e que ele apenas mostrou sua cara como tendência da polarização. Há quem diga que se trata apenas de um resultado das leves mudanças das estruturas da profunda desigualdade brasileira ou mesmo do limbo entre Junho de 2013 e as eleições de 2014. Em qualquer uma das hipóteses, o germe do ódio está às soltas no Brasil pronto para linchar física e moralmente todo aquele que não se enquadra establishment masculino, branco, heterossexual, rico, bem-sucedido e cheio de bens de consumo.

A ameaça comunista é uma mentira. A ameaça fascista é uma realidade.

Eu gostaria de encerrar minha coluna olhando para frente, elencando algumas atitudes que me parecem urgentes para a esquerda, ou para todos aqueles que entendem que a universalidade da humanidade está em sua capacidade de produzir a diferença.

Primeiro, me parece fundamental não eleger Aécio Neves (PSDB), que se alia às piores figuras dessa nova bancada. Isso não significa que as alianças de Dilma Rousseff (PT) sejam menos sórdidas. A diferença é que o PT ainda tem uma base forte calcada nos movimentos sociais. Para os petistas à esquerda, o dever de casa é, depois do susto, lutar para reconstruir suas antigas bandeiras. Para a esquerda não petista, partidária ou anarquista, é preciso ampliar sua base popular. Em ambos os casos, como eu disse há poucos dias nas minhas redes sociais, ficar xingando a tudo e a todos de coxinha me parece uma estratégia burra para quem é minoria neste País.

Contra a onda fascista, a esquerda precisa se fortalecer, se entender, reconhecer suas fragilidades, ocupar os meios de comunicação de massa, ampliar a base de diálogo, ouvir a população e falar para ela, reconstruir seus heróis e lembrar que nenhum aparato dominante é mais forte do que o genuíno sonho por justiça social.

*Agradeço a Bolívar Marcon Pinheiro Machado por este insight e a todos/as que comentaram este tema recentemente em minhas redes sociais.

http://www.cartacapital.com.br/sociedade/o-reich-tropical-a-onda-fascista-no-brasil-2883.html

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