Um livro é um mudo que fala, um surdo que responde, um cego que guia, um morto que vive. (Padre Antônio Vieira)

segunda-feira, 24 de julho de 2017

O diploma tabajara do Moro

Professor diz que formação de Moro deve ser investigada


Marcos César Danhoni Neves, professor e pesquisador da Universidade Estadual de Maringá, publicou artigo na Revista Fórum alertando para a formação do juiz Sergio Moro. Segundo Neves, Moro teria concluído mestrado e doutorado em prazo inferior ao padrão. Além disso, critica as teorias de Deltan Dallagnol no caso triplex.

Neste sábado, Veja publicou reportagem com Rosângelo Moro, esposa do juiz de Curitiba, contando que conheceu a estrela da Lava Jato quando ele tinha "20 e poucos anos", mas já era juiz e dava aulas de Direito em uma universidade.

Por Marcos César Danhoni Neves

Na Revista Fórum

Sou professor titular de Física numa universidade pública (Universidade Estadual de Maringá-UEM) desde 2001 e docente e pesquisador há quase 30 anos. Sou especialista em história e epistemologia da ciência, educação científica, além de processos de ensino-aprendizagem e análise de discursos.

Orientei mais de 250 alunos de graduação, especialização, mestrado, doutorado e pós-doutorado, além de professores in-service. Conto tudo isso, como preâmbulo, não para me gabar, mas para salientar que li milhares de páginas de alunos brilhantes, medianos e regulares em suas argumentações de pesquisa.

Dito isso, passo a analisar duas pessoas que compõem o imaginário mítico-heróico de nossa contemporaneidade nacional: Sérgio Moro e Deltan Dallagnol.

Em relação ao primeiro, Moro, trabalhei ativamente para impedir, junto com um coletivo de outros colegas, para que não recebesse o título de Doutor honoris causa pela Universidade Estadual de Maringá.

Moro tem um currículo péssimo: uma página no sistema Lattes (do CNPq – Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico ligado ao extinto MCT – Ministério da Ciência e Tecnologia). Lista somente 4 livros e 5 artigos publicados.

Mesmo sua formação acadêmica é estranha: mestrado e doutorado obtidos em três anos. Isso precisaria ser investigado, pois a formação mínima regulada pela CAPES-MEC (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Ministério da Educação) é de 24 meses para Mestrado e 48 meses para o Doutorado.

Significa que "algo" ocorreu nessa formação apressada.. Que "algo" é esse, é necessário apurar com rigor jurídico.

Além de analisar a vida acadêmica de Moro para impedir que ele recebesse um título que não merecia, analisei também um trabalho seminal que ele traduziu: "O uso de um criminoso como testemunha: um problema especial", de Stephen S. Trott.

Mostrei que Moro não entendeu nada do que traduziu sobre delação premiada e não seguiu nada das cautelas apresentadas pelos casos daquele artigo.

Se seguirmos o texto de mais de 200 páginas da condenação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e guiando-me pela minha experiência em pesquisa qualitativa, análise de discurso e fenomenologia, notamos claramente que parte significativa do texto consiste em Moro tentar apagar suas digitais, sem sucesso, ao desdizer que agiu com imparcialidade.

Nestas páginas robustas lemos uma declaração clara de culpa: Moro considera a parte da defesa de Lula em menos de 1% do texto total! E dos mais de 900 parágrafos, somente nos cinco finais alinhava sua denúncia e sentença sem provas baseada num misto frankensteiniano de "explanacionismo" (uma "doutrina" jurídica personalíssima criada por Deltan Dallagnol) e "teoria do domínio do fato", ou seja, sentença exarada sobre ilações, somente.

Aqui uso a minha experiência como professor e pesquisador: quando um estudante escreve um texto (TCC, monografia, dissertação, tese, capítulo de livro, livro, ensaio, artigo), considero o trabalho muito bom quando a conclusão é robusta e costura de forma clara e argumentativa as premissas, a metodologia e as limitações do modelo adotado de investigação.

Dissertações e teses que finalizam com duas ou três páginas demonstram uma análise rápida, superficial e incompetente. Estas reprovo imediatamente. Não quero investigadores apressados, superficiais!

Se Moro fosse meu aluno, eu o teria reprovado com esta sentença ridícula e persecutória. Mal disfarçou sua pressa em liquidar sua vítima.

Em relação a outro personagem, o também vendedor de palestras Deltan Dallagnol, há muito o que se dizer. Angariou um título de doutor honoris causanuma faculdade privada cujo dono está sendo processado por falcatruas que o MP deveria investigar.

O promotor Dallagnol não seguiu uma única oitiva das testemunhas de defesa e acusação de Lula, além daquela do próprio ex-presidente.

Eu trabalho em pós-graduações stricto sensu de duas universidades públicas: uma em Maringá e outra em Ponta Grossa. Graças a isso fui contactado por meio de um coletivo para averiguar a dúvida sobre a compra por parte de Dallagnol de apartamentos do Programa Minha Casa Minha Vida em condomínio próximo à UEPG (Universidade Estadual de Ponta Grossa).

Visitei os imóveis guiado por uma corretora e me dirigi ao Cartório de Registro de Imóveis da cidade. Após algumas semanas, a resposta: os dois apartamentos modestíssimos, destinados a gente pobre, tinham sido adquiridos pelo Promotor e estavam à venda com um lucro líquido em menos de um ano de aquisição de 135 mil reais.

Reuni o material e disponibilizei para a imprensa livre (aqui a matéria do DCM). O promotor teve que admitir que comprou os apartamentos para ganhar dinheiro na especulação imobiliária, sem resquícios de culpa ou de valores morais em ter adquirido imóveis destinados a famílias com renda de até R$ 6.500,00 (Deltan chegou a ganhar mais de R$ 80.000,00 de salários – além do teto constitucional, de cerca de R$ 35.000,00; e mais de R$ 220.000,00 em suas suspeitosas palestras).

Bom, analisando os discursos de Dallagnol, notamos claramente a carga de preconceito que o fez construir uma "doutrina" de nome exótico, o "explanacionismo", para obter a condenação de um acusado sem prova de crime.

Chega a usar de forma cosmética uma teoria de probabilidade – o bayesianismo – que ele nem sequer conhece ao defender a relativização do conceito de prova: vale seu auto-de-fé a qualquer materialidade de prova, corrompendo os princípios basilares do Direito.

Como meu aluno, ou candidato a uma banca de defesa, eu também o teria reprovado: apressado, superficial e sem argumentação lógica.

Resumindo: Dallagnol e Moro ainda vestem fraldas na ciência do Direito. São guiados por preconceitos e pela cegueira da política sobre o Jurídico.

Quando tornei-me professor titular aos 38 anos, eu o fiz baseado numa obra maturada em dezenas e dezenas de artigos, livros, capítulos, orientações de estudantes e coordenações de projetos de pesquisa.

Infelizmente, estes dois personagens de nossa República contemporânea seriam reprovados em qualquer universidade séria por apresentar teses tão esdrúxulas, pouco argumentativas e vazias de provas. Mas a "Justiça" brasileira está arquitetada sobre o princípio da incompetência, da vilania e do desprezo à Democracia.

Neste contexto, Moro e Dallagnol se consagram como "heróis" de papel que ficariam muito bem sob a custódia de um Mussolini ou de Roland Freisler, que era o presidente do Volksgerichtshof, o Tribunal Popular da Alemanha nazista. Estamos sob o domínio do medo e do neo-integralismo brasileiro.

*Marcos César Danhoni Neves é professor titular da Universidade Estadual de Maringá e autor do livro "Do Infinito, do Mínimo e da Inquisição em Giordano Bruno", entre outras obras

quinta-feira, 18 de maio de 2017

Enjoy the silence

A autoimposição de "ser produtivo" marca a existência dos indivíduos nas grandes cidades. A calma das palavras e o ouvir o outro com atenção são comportamentos e gestos que se tornaram pouco importantes. Clichês como "o tempo urge" ou "tempo é dinheiro" pertencem à dimensão produtiva da vida. Por outro lado, também servem como desculpa para o adiamento do descanso, do ócio e do contato consigo próprio. A tecnologia que invade o cotidiano e o progresso material podem ser antagonistas do tempo para o nada fazer, o tempo da preguiça. Afinal, qual o lugar do ócio nos dias atuais?

Se a produtividade está no centro da vida dos habitantes dos centros urbanos, a inaptidão à quietude – verborragia, em oposição ao silêncio – é uma marca comportamental dos indivíduos. A falação tomou conta da realidade e passamos a nos importar com o que não importa. As redes sociais simbolizam um tipo de cacofonia, todos dando opiniões e falando ao mesmo tempo sem a capacidade de ouvir (ler) o outro. As mídias sociais também impossibilitam o estar só consigo mesmo, já que as pessoas estão conectadas dia e noite. O tempo para o vazio e para a solidão já não existe. Disso tudo, resta compreender qual é a relevância do silêncio para a reflexão e para a fala no mundo contemporâneo.

EU VIA, MAS NÃO SABIA O QUE VIA
Adauto Novaes, filósofo, diretor do Centro de Estudos Artepensamento, que em 2016 celebrou três décadas de suas séries anuais de conferências, organizou duas coletâneas de ensaios, Mutações – O elogio à preguiça e Mutações – O silêncio e a prosa do mundo, ambas voltadas ao pensamento sobre a preguiça e o silêncio. Em entrevista à Revista da Cultura, ele afirma que, para entender o sentido que o ócio (preguiça) e o silêncio têm, convém situá-los no momento atual: "Vivemos não em estado de crise, mas em uma mutação em todas as áreas da atividade humana: nos costumes, nas mentalidades, na ética, na política, na linguagem e, principalmente, nas ideias de espaço e tempo, tudo isso produzido pela revolução técnico-científica, biológica e digital. O silêncio e a fala, o trabalho do pensamento e a função da preguiça no trabalho do pensamento também estão sendo afetados por essa mutação".

O filósofo explica que "a negação da ideia de duração a partir do domínio do veloz e do volátil, em todas as áreas hoje", é fundamental para abordar a paciência (preguiça) e o silêncio. Novaes confere certa "materialidade" a essa ideia quando aborda a criação artística e intelectual em contraste com as plataformas digitais de difusão de conteúdo. "Uma pesquisa recente calculou que os usuários passam 1 bilhão de horas por dia no YouTube, e esse número tende a aumentar. Outra pesquisa revela um aumento exponencial de palavras faladas a partir da invenção das novas tecnologias digitais. O que isso significa? Sabemos que as criações de obras de arte e de obras de pensamento exigem tempo e hoje a velocidade abole todo o trabalho de criação. Elas exigem paciência e silêncio. A maneira pela qual a grande maioria lida com os novos meios é suspeita. A relação entre a suposta consciência e o objeto apresentado é feita sem a mediação do pensamento, ou melhor, sem o tempo que todo pensamento pede. A relação entre a suposta consciência e a coisa apresentada leva a certezas simples e imediatas. Os clássicos citam sempre uma velha máxima: 'Eu via, mas não sabia o que via'. Ver (ou ler) apenas não basta, é preciso tempo para pensar o que se leu e se viu", enfatiza ele, que ao longo dos 30 anos de conferências que idealizou (a partir de 2006, Ciclo Mutações) escreveu mais de 800 ensaios, todos publicados em livros.


"Estamos sendo comandados por formas de relacionamento com o mundo, sem pensamento e sem saber. Não se sabe o que se lê e não exagero quando digo isso. Li há pouco uma matéria que me impressionou muito. Como se não bastasse a rapidez e a volatilidade do mundo em que vivemos, surge agora a criação de aplicativos para acelerar não só os programas de TV, mas também a leitura, o que os criadores dessa coisa esquisita chamam de 'smart speed', que acelera 1,5 vez a velocidade do áudio. 'Cortar pausa entre palavras', como propõe a nova forma de leitura, é destruir o sentido de cada palavra: agindo assim, jamais vamos dar sentido aos conceitos de liberdade, preguiça, silêncio, prosa, mundo, substância, pensamento, espaço, tempo, memória, vida, etc.", conclui o filósofo.

A CONCORRÊNCIA
É comum elegermos os celulares e as redes sociais como concorrentes do ócio e do silêncio. Em tempos de realidade mediada pela tecnologia, os dispositivos digitais criam para os indivíduos um "ecossistema" viável para sua existência virtual. Em entrevista, Adriano Duarte Rodrigues, professor catedrático da Universidade Nova de Lisboa e um dos nomes mais importantes no estudo das ciências da comunicação de Portugal, alerta para o fato de se colocar as redes sociais e os celulares como vilões: "Tal postura deriva de uma das características da cultura, a tecnofobia, que é o nome que se dá ao medo dos dispositivos técnicos quando são inventados, antes de estarem assimilados na experiência das pessoas. Foi o que aconteceu com a invenção da escrita, da imprensa, do rádio e da televisão quando surgiram. As pessoas utilizam as redes sociais tanto para combaterem a solidão como para evitarem estar com os outros face a face. Como vê, não se pode generalizar".

Mirian Goldenberg, antropóloga e escritora, diz o seguinte sobre a tecnofobia: "Não gosto muito dessa expressão porque impede você de fazer qualquer tipo de crítica a um fenômeno social importante hoje, que é o uso dos celulares, da internet, do Facebook e do Instagram. O fato de eu ser crítica – e sou – não significa que tenho qualquer tipo de fobia à tecnologia". Professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro e colunista do jornal Folha de S.Paulo, ela destaca algo que pode ser observado na existência virtual ou concreta da população, o narcisismo. "As pessoas estão muito autorreferidas, elas já têm sua opinião e a defendem violentamente, têm pouca paciência para ouvir opiniões, mesmo que semelhantes. As pessoas estão voltadas para seu celular, falando via WhatsApp ou postando no Facebook, e, além de tudo, o que mais me deixa desanimada é ver a falta de interesse pelos outros."


Os resultados de uma realidade invadida pela tecnologia e de um campo comunicacional acelerado e causador de ruídos operam na contramão da paciência, do ócio e do silêncio. Novaes reflete e coloca questões a esse respeito: "O pensamento é uma paixão do intelecto, insensível às exigências apressadas. De que vale ter tanta informação se o leitor não tem tempo para combinação, compreensão e invenção? Como enfrentar o enigma do mundo sem recorrer ao silêncio, que dá sentido às palavras? O que resta no mundo da parlapatice e da busca da rapidez a não ser o legado de miséria intelectual? A conclusão a que chegamos é que resta pouca coisa, ou quase nada. A tarefa da linguagem, no sentido forte e originário do termo, não consiste em satisfazer necessidades de ordem prática. Não seria função da linguagem expressar o jogo supremo das mutações das ideias, formar pensamentos até então desconhecidos?".

Existe uma relação direta entre uma vida preenchida por atividades – que acabam invariavelmente nas redes sociais – e a rejeição do "tempo vazio", da solidão. Na opinião de Mirian, "essa verborragia é um retrato do nosso tempo. Pelo menos da grande maioria das pessoas que estão conectadas, mas também das que não estão; chega a ser um 'me, me, me', 'eu, eu, eu'. Sofremos uma influência muito grande dos Estados Unidos e de toda essa revolução cultural da internet, e nesse contexto o ócio é associado a um fracasso. O que você vai postar no Facebook se não está fazendo absolutamente nada, se você está simplesmente olhando para a paisagem ou dormindo? O que é complicado para a nossa cultura atual é viver o vazio. Você precisa sempre estar preenchendo o vazio com alguma coisa, que é para curtir. A curtida do Facebook não é só uma curtida, é uma forma de reconhecimento".

Para a antropóloga, autora de obras como Velho é lindo! e A bela velhice, à medida que as pessoas envelhecem, o tempo passa a ser um capital. "Até os 40 anos, você não tem a noção de que seu tempo vai embora, porque você acha que vai viver muito. Você gasta muito tempo para agradar, para satisfazer as demandas externas, por vaidade, porque você quer que todo mundo te ame. Ou então fazendo um trabalho que você odeia porque quer ganhar dinheiro. Seu tempo não é seu principal capital. Quando você começa a se aproximar dos 60 anos, pode ser antes, o tempo passa a ser uma riqueza. 'Antes o tempo era para os outros, agora o tempo é para mim. Sou a principal interessada no meu tempo.' Com essa revolução, o tempo passa a ser voltado para coisas que realmente dão significado a sua vida."

Embora sejamos seres sociais, a solidão é inerente ao ser humano e todos iremos desaparecer um dia, como salienta o professor português Adriano Duarte Rodrigues: "não devemos esquecer que, ao contrário das outras espécies, os seres humanos são animais solitários porque têm como horizonte fatal sua experiência solitária da morte. É essa experiência da solidão que alimenta as relações que as pessoas estabelecem umas com as outras e que define sua natureza social". Ainda que existam disputas simbólicas entre tecnologia, ócio e silêncio, esses elementos se fazem presentes na vida dos indivíduos. De maneira a subverter a técnica, a velocidade acelerada do digital e o "ser produtivo", vez ou outra pode ser agradável evocar a preguiça e o silêncio, e refletir sobre nosso bem-estar e sobre nossas relações com as pessoas e com o mundo.

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Clube de Engenharia contra o Golpe

O Clube de Engenharia manifesta sua apreensão em decorrência de sistemáticas propostas e ações do Governo Federal, a seguir listadas, posto que são comprometedoras da soberania nacional:

‣ as modificações realizadas na Lei e nos procedimentos que regulam a exploração das reservas de petróleo do Pré-Sal, e em especial, no protagonismo da Petrobrás, agora não mais participante obrigatória de todas as atividades, como operadora única, o que traz imensos prejuízos à cadeia produtiva de óleo e gás e à engenharia nacional;
‣ a descaracterização da Petrobras como petroleira integrada, através da venda de ativos importantes e do abandono de investimentos em exploração, em refino de petróleo e em petroquímica, de modo a torná-la mera e cadente produtora de petróleo bruto, o que já tem reflexo devastador na nossa engenharia;
‣ a realização, a toque de caixa, de novos leilões de blocos do Pré-Sal, projetando ritmo elevado e desnecessário de exploração das suas reservas, tornando o Brasil mais um exportador de petróleo bruto, sem agregar valor ao recurso natural explorado e também, além de abandonar a política de incorporação crescente de "conteúdo local", vigente desde a criação da Petrobrás;
‣ o retrocesso na atuação do BNDES, seja no volume dos recursos a ele alocado, seja nas políticas operacionais, especialmente na definição da taxa de juros aplicada aos contratos de financiamento, bem como na orientação atribuída ao Banco de se conduzir prioritariamente como auxiliar dos bancos privados – e do próprio mercado financeiro – em detrimento de seu histórico papel de propulsor do nosso desenvolvimento, com conseqüente repercussão na engenharia nacional;
‣ transferência, à iniciativa privada do monitoramento de atividades na Amazônia que, a mais de três décadas vem sendo executado pelo INPE – Instituto Nacional de Pesquisa Espacial;
‣ a extinção da RENCA (Reserva Nacional do Cobre), área estratégica preservada nos Estados do Pará e do Amapá, para entregá-la a grupos estrangeiros;
‣ transferência, à iniciativa privada, dos canais digitais do primeiro satélite geoestacionário do Brasil, recém lançado ao espaço;
‣ a mudança radical na orientação da política externa, de modo a subordinar a atuação geopolítica do Brasil aos interesses dos Estados Unidos da América - em contraposição ao seu alinhamento crescente com outros polos de poder mundial (BRICS), e com os países dos continentes sul americano (UNASUL) e africano, especialmente com Angola, África do Sul e Moçambique, o que tornará mais difícil a inserção da engenharia nacional nos mercados externos;
‣ o abandono da política de integração com as Forças Armadas dos países sul-americanos, institucionalizada pelo Conselho de Defesa da América do Sul e pela UNASUL, reintroduzindo a presença militar dos EUA em assuntos que dizem respeito apenas aos povos sul-americanos, consubstanciada no inédito convite feito ao Exército dos EUA para participar, em nossa Amazônia, de exercício militar com o Exército Brasileiro e os do Peru e da Colômbia.

O Brasil pertence a nós brasileiros. Nenhum governo tem mandato para alienar a nossa soberania, pelo que conclamamos as entidades da sociedade civil a se unirem a nós para solicitar ao Congresso Nacional que impeça a consumação de atos tão lesivos ao patrimônio nacional, amealhado com o sacrifício de muitas gerações de brasileiros.

Rio de Janeiro, 15 de maio de 2017

Pedro Celestino
Presidente

terça-feira, 16 de maio de 2017

Elite nacional podre: não se aliene

O desprezo a Lula é uma velha e consolidada tradição de certos grupos brasileiros e, se você tiver o cuidado de examinar que gente é esta que cultiva com esmero ódio tão arraigado, talvez você não vá se sentir muito confortável com a companhia que lhe cerca.

Em 1978 e 1980 você odiava Lula porque ele era baderneiro, grevista e provocador da Ordem Constituída.

Em 1989 você odiava Lula porque era um sapo barbudo, comunista e vagabundo.

Em 1994 você odiava Lula porque era um torneiro mecânico achando que merecia ser presidente mais do que o professor da Sorbonne que com ele concorria.

Em 1998 você odiava Lula porque era um urubu agourento contra o Plano Real e o Brasil que dá certo.

Em 2002 você tinha medo de Lula porque ele "tinha mudado muito" e porque, com ele, a inflação iria voltar.

Em 2006 você odiava Lula porque era um analfabeto, apedeuta e cachaceiro que recebia um monte de títulos de doutorado honoris causa de Universidades cujo nome você nem sequer conseguia pronunciar.

Em 2010 você odiava Lula porque ele havia hipnotizado multidões de desdentados, nordestinos e habitantes de grotões (desculpe a redundância) ao ponto de conseguir eleger um poste para o seu lugar.

Em 2014 você odiava Lula porque ele era uma enganação, uma farsa, ainda aclamado e respeitado no Brasil e no mundo, enquanto você tinha certeza de que ele não valia nada.

Em 2017 você odeia o Lula porque ele é corrupto, chefe de quadrilha, além de baderneiro, comunista, analfabeto, enganador e falso.

Meu amigo, há mais 40 anos o ódio que você professa a Lula se mantém idêntico. A única coisa que mudou, nesses anos todos, foram os argumentos que se usou para a autorização social do ódio. Bem sei que alguém poderá alegar que é mais jovem, que começou a odiar Lula mesmo apenas em 1998 ou em 2010, que um dia chegou até a gostar dele. Mas, meu amigo, se você entrou no vagão na 1ª estação ou na 8ª não faz a menor diferença em se tratando do mesmo trem. Você pode ser novo, mas este ódio que você professa é muito velho, vem de longe e vem dos mesmos.

O desprezo a Lula é uma velha e consolidada tradição de certos grupos brasileiros e, se você tiver o cuidado de examinar que gente é esta que cultiva com esmero ódio tão arraigado, talvez você não vá se sentir muito confortável com a companhia que lhe cerca. Não, não creio nem digo que Lula é um coitadinho perseguido, inocente, pela elite. O que digo é que o rancor contra Lula, nunca, nunquinha mesmo, precisou realmente de razão ou motivo: um bom pretexto sempre lhe foi o bastante. Meu amigo, eu acompanho há muito este ódio arcaico e sei bem qual é a fonte sombria de onde ele brota.


http://www.revistaforum.com.br/2017/05/16/desde-quando-voce-odeia-o-lula/

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Globo Lixo do Brasil

O jornalismo de guerra promovido contra mim e o presidente Lula é a prova de que a escalada autoritária contaminou radicalmente os formadores de opinião pública, como Merval Pereira, que hoje sugere, no Globo, a minha prisão.

A cobertura das Organizações Globo, defendendo o justiçamento de adversários políticos, quer substituir o Judiciário – e todas as demais instâncias operadoras do Direito – pelo escândalo midiático. Julgam e condenam.

Buscam se constituir numa espécie de poder judiciário paralelo sem as garantias da Justiça, base do Estado Democrático de Direito. Fazem, assim, verdadeiros linchamentos, tentando destruir a biografia e a imagem de cidadãos e cidadãs. Nesse processo, julgam sem toga e promulgam sentenças sem direito de defesa.

Ferem de morte a liberdade de imprensa pois não respeitam a diversidade de opinião e a Justiça. Selecionam alvos e minimizam malfeitos. Seu único objetivo é o maior controle oligopólico dos meios de comunicação, para impor um pensamento único: o seu.

Em outros tempos, em outros países, tais práticas resultaram na perseguição política e na destruição da democracia levando à escalada da violência e do fascismo.

Não adianta a intimidação. Não vou me curvar diante dessas ameaças e muito menos do jornalismo de guerra praticado pela Globo. Nem a tortura me amedrontou.

Repito o que tenho dito, dentro e fora do país: o Golpe de 2016 não acabou. Está em andamento. Não foi contra o meu governo, apenas. Foi contra o povo brasileiro e o Brasil. Está sendo executado todos os dias pela Globo, pelo governo golpista e todos que tentam desesperadamente consolidar o Estado de Exceção e a destruição de direitos.

Não vão me calar!

DILMA ROUSSEFF

segunda-feira, 8 de maio de 2017

O novo direito de Moro

Algumas novidades do direito introduzidas pelo pretor de Curitiba:

‣ intimação de advogado por SMS
‣ prazo de oito horas para apresentar defesa
‣ intimação de cia aérea para verificar se advogado viajou em dia de audiência não ocorrida
‣ televisionamento ao vivo de audiência sob sigilo legal
‣ prisão provisória de 3 anos
‣ grampo telefônico por mais de 8 meses em TODOS os advogados do escritório da defesa
‣ deferimento de ofício de condução coercitiva (não pedida pelo MP)
‣ apropriação indevida dos bens do acusado sem comprovação de prejuízo financeiro algum
‣ manifestações via Facebook
‣ pedidos de "apoio da mídia" para coagir réus
‣ aceitação de delações premiadas depois de exarada sentença
‣ vazamentos de conversas sigilosas para redes de televisão
‣ gravações ilegais e uso do material ilegal como base de decisão interlocutória
‣ obrigação da presença do réus nas oitivas de testemunha
‣ atração de competência "por conexão" de todos os processos relativos ao réu
‣ designação de parte da indenização a ser paga para entidades que não figuram nos pólos da ação e não foram lesadas (MP e PF)
‣ artigo "científico" afirmando que a "flexibilização dos direitos individuais é um preço pequeno a ser pago pelo combate à corrupção"
‣ acordos de cooperação judicial internacional sem o conhecimento ou anuência do Congresso ou Ministério da Justiça
‣ negação de acesso da defesa aos autos "para não comprometer acordo internacional sigiloso" feito entre o juiz e um país estrangeiro
‣ réus que recebem percentual sobre os valores reavidos em ação e mantém bens obtidos com dinheiro de ações ilícitas com a anuência do juízo
‣ o próprio juiz figura como "chefe de força tarefa" figurando, em realidade, no polo acusatório


No século XIX nossos juristas e nosso imperador emendaram o livro "O Espírito das Leis" e criaram um quarto poder (o poder moderador). "Jênios". Agora um juiz brasileiro "revoluciona" o direito no mundo... E sua corte superior chancela tudo, dizendo que "é um caso de exceção". O direito agora tem jurisprudência defendendo o casuísmo, a norma ad hoc e o "in dubio contra a esquerda".

Talvez você devesse ler sobre a "lei em movimento" e o juiz Roland Freisler que serviu ao nazismo.

sexta-feira, 5 de maio de 2017

“Não bati panela porque não sou imbecil”.

Em entrevista ao Blog do Paulo Sampaio, o deputado federal Paulo Maluf (PP-SP) comentou as acusações de que o ex-presidente Lula (PT) teria recebido vantagens indevidas da empreiteira OAS por meio de um triplex no Guarujá (SP).

Para o parlamentar, a situação criada em torno do assunto é "pura mesquinharia". "Aquilo não é um tríplex, são três Minha Casa, Minha Vida, um em cima do outro. Dona Marisa, coitada, que Deus a tenha, passaria o dia subindo e descendo escada. Da cozinha para a sala, da sala para o banheiro, do banheiro para o do banheiro para o quarto", afirmou.

O deputado, então, colocou um imóvel seu à disposição do petista. "Eu tenho uma casa de frente para o mar, com cinco suítes. É dele. Você acha que o Lula precisa daquele BNHzinho (triplex)? Aquele sítio em Atibaia é outra porcaria. Quem foi presidente durante oito anos, elegeu duas vezes sua sucessora, não precisa daquela miséria", prosseguiu.

Segundo Maluf, Lula é "uma pessoa do bem, honrada". "Se ele arrecadou dinheiro foi pra pagar marqueteiro, não para uso pessoal. E o marqueteiro é pago para diminuir o custo da campanha. Quem vai vender casa para pagar campanha?", questionou.

Apesar de ter votado pelo impeachment de Dilma Rousseff, ele disse que nunca bateu panela na janela durante os pronunciamentos da ex-presidente: "Não bati porque não sou imbecil". De acordo com Maluf, Dilma é "uma santa".

"Nunca locupletou, vive de sua aposentadoria", destacou, ressaltando que votou pela saída dela por causa da crise na economia. "A questão com a Dilma foi a má gestão e a perda de controle da situação. Mudava o ministro, mas não resolvia o problema", concluiu.

http://www.revistaforum.com.br/2017/05/05/maluf-sobre-imovel-atribuido-a-lula-aquilo-nao-e-um-triplex-sao-tres-minha-casa-minha-vida/

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Por que as galinhas são muito mais inteligentes do que você imagina

"Nós ainda não determinamos se as respostas comportamentais e fisiológicas que observamos nos pintinhos em situação de leve estresse indicam uma resposta emocional ou são apenas uma reação ao estímulo."

Se for comprovado que as galinhas demonstram empatia quando outras aves estão em situação de estresse, isso pode levantar questões sérias a respeito de como os frangos são mantidos em criadouros.

"Há uma série de situações em que animais em criação são expostos a visões, barulhos e cheiros de outros demonstrando dor e estresse", disse Edgar. "É importante determinar se o seu bem-estar é reduzido nesses momentos."

Marino também acredita que esteja na hora de discutir essas questões.

"A percepção de galinhas (como seres ignorantes) é motivada em parte pela tendência em diminuir sua inteligência e sensibilidade porque as pessoas as comem", diz ela.

A desconfortável verdade sobre galinhas é que elas são mais avançadas cognitivamente do que muitas pessoas pensam. Contudo, ainda não se sabe se os consumidores vão mudar seus hábitos alimentares por causa dessa informação.

quarta-feira, 26 de abril de 2017

A Globo é um partido político

E eu me lembrei de uma história que presenciei há muito tempo. Em 1992 eu fui à França e havia um seminário internacional sobre os Quinhentos Anos do Descobrimento e convidaram personalidades de toda a América Latina para estarem lá. Era o descobrimento evidentemente das Américas. E uma das personalidades que estava era o doutor Roberto Marinho, o condestável das organizações Globo. E quando ele tocou a falar, no teatro Odeon em Paris, ele sem nenhuma inibição, sem nenhuma cerimônia contou alguns episódios de sua intervenção na política e relatou que logo depois da democratização, mais concretamente em 89, ele havia patrocinado a candidatura presidencial do candidato Fernando Collor de Melo e diz: "Era filho de um amigo meu, um rapaz de boa aparência, falava línguas. Eu achei que daria um bom presidente."

Ora, se fosse apenas uma opção pessoal, tudo bem, cada um tem a sua. Mas em se tratando de alguém que detém um instrumento de tamanha penetração na sociedade, como é a Rede Globo, com televisão, com rádio, naquela época poucas, hoje muito mais com jornais, evidentemente, isso muda de figura. E depois, pensando bem, eu digo: mas isso não tem nada de surpreendente.

Em 1954 o que existia das organizações Globo se engajou na derrubada do presidente Getúlio Vargas. Em 1955 eles tentaram obstaculizar a candidatura de Juscelino e durante todo o governo JK fizeram ferrenha oposição muitas vezes abrigando nas páginas do Globo artigos que propugnavam o golpe de Estado. Obviamente em 1964 apoiaram o golpe de Estado, apoiaram o Regime Militar nos vinte anos. Anos depois fizeram uma autocrítica, um perdão muito discreto e insuficiente, evidentemente.

Eu me lembrei também ligando justamente esse pronunciamento do Roberto Marinho que a Globo teve um papel muito complicado na distorção daquele debate que houve entre o Lula e o Collor. Sobretudo na divulgação num momento em que a propaganda já estava encerrada. A propaganda eleitoral já estava encerrada.

Portanto havia sinais muito evidentes que essa organização se comportava efetivamente como um partido político. Com sua linha própria e mais do que isso: os treze anos e pouco dos governos Lula e Dilma demonstraram que mais do que um partido político, ele se transformou num verdadeiro guia das forças de oposição no país.

Assim que não é para nada surpreendente que tenham utilizado essa concessão pública (porque a televisão é uma concessão pública) para enveredar num caminho extremamente perigoso.

E eu vou explicar porque é um caminho extremamente perigoso. O que está em questão no momento nas famosas delações de membros da Odebrecht, dirigentes, altos funcionários, não é concretamente uma denúncia com o foro jurídico, com qualidade suficiente e credibilidade que possa efetivamente ser o instrumento de uma ação penal. Ali são delações, e delações de pessoas implicadas até o pescoço, a começar pelos altos dirigentes da Odebrecht e depois por aqueles que seguiram as suas instruções criminosas, delações com as quais eles pretendem salvar suas vidas. Não por acaso um deles disse: o que eu quero é sair disso rapidamente, poder tirar minha tornozeleira e aproveitar o que me resta de vida. Isto é, o muito de dinheiro que ganharam, entre outras coisas, sugando o Estado brasileiro.

Mas qual é o problema. O problema é que pelo menos duzentas pessoas e sabe-se lá quantas mais, ficaram com sua credibilidade questionada. É verdade que muitos que estão ali são delinquentes, são um bando de ladrões que se apossou durante muito tempo do poder político do país em benefício próprio, em benefício de suas corporações. No entanto, existe uma coisa chamada Estado de Direito e o Estado de Direito tem como um dos pilares a presunção de inocência. Aquilo é uma delação, é uma denúncia, que vai ser depois processada pelo Ministério Público e pelo poder Judiciário e só aí ganhará efetivamente foros de veracidade até o julgamento final, inclusive, julgamento recorrível.

Antes disso, fazer desses elementos e sobretudo de uma forma muito seletiva, atacando, mais de 60% do tempo de divulgação, ao Lula e ao PT, então isso aí é outra coisa. Isso é difamação. Mas essa difamação não é uma difamação movida somente por um certo ódio de classes desses setores pudentes da sociedade brasileira. Ela tem um outro objetivo que é atacar o sistema político brasileiro. Ainda que alguns digam: eles foram longe demais porque estão atacando todo mundo. Isso me fez pensar naquela fala do Roberto Marinho. Quando o Collor se apresentou como candidato ele era um outsider, ele era um homem fora do sistema. E havia, evidentemente, depois do colapso da ditadura brasileira, que não foi um colapso militar, foi um colapso político, havia, digamos, todo um desejo de reconstrução da vida democrática do país. Essa reconstrução, era provavelmente para a Rede Globo ameaçada por candidatos que tinham compromissos mais diferenciados. Como o Lula, o Brizola, o Covas, todos, mesmo os candidatos mais conservadores. E eles estavam em busca de alguém que fosse um pouco aparentemente antissistema, mas que fosse perfeitamente dócil a uma condução de uma grande organização empresarial como já era naquela época e hoje muito mais o é a Rede Globo.

Então, a minha pergunta é: não estará a Rede Globo tentando potencializar mais ainda aquele papel que teve no passado? Hoje numa configuração distinta, associada a uma parte do Ministério Público, a uma parte do poder Judiciário, a uma parte, até certo ponto, dessa quadrilha que frequenta o Congresso Nacional, que agora começou a ser vítima também. E obviamente, a setores empresariais que começam a se preocupar com os rumos desse governo. Não estarão eles tentando produzir um novo Collor, um novo aventureiro que possa ser dócil nas suas mãos? Se eu faço essa pequena análise é para chamar a atenção e quero com isso concluir: nós estamos vivendo uma situação, já em outras ocasiões tivemos oportunidade de conversar sobre isso, uma situação de grave estremecimento do sistema democrático brasileiro. Não é possível que efetivamente nós venhamos a ter como forma de superação da crise atual, que é profunda, simplesmente um apelo a homens providenciais e a destruição da democracia brasileira. Essa democracia tem de ser reconstruída, mas ela não pode ser reconstruída com instrumentos que são próprios de um Estado de exceção.

Nós estamos vivendo um Estado de exceção no Brasil, mas nós estamos vivendo a cada dia que passa incrustações de um Estado de exceção no que nos queda de democracia nesse país. Esse é o momento de reagir. E o momento de reagir com os olhos postos no ano próximo, em 2018, quando haverá eleições e quando essas eleições, as mais livres que seja possível e imaginável, nós teremos a oportunidade de refazer a democracia e sobretudo de entender as grandes demandas que a sociedade brasileira está começando a vocalizar, sobretudo, porque ela começa a sentir os efeitos gravíssimos dessa contrarreforma social e econômica impulsionada desde Brasília por esses tiranos que ocuparam o Palácio do Planalto e os Ministérios.

Por que a reforma trabalhista é tão urgente para a direita brasileira?

A reforma trabalhista não é uma obsessão de Temer e de seus comparsas por acaso. É parte de um conjunto de decisões de política econômica pautada num tripé: i) reestruturação produtiva, mercantilização do trabalho humano e fragmentação da solidariedade de classe; ii) desregulamentação financeira e laboral; iii) hegemonização ideológica neoliberal pautada no individualismo e na competitividade.

É a receita proposta como alternativa à crise de demanda da década de 1970. Esse receituário, somado a outras medidas previstas no Consenso de Washington, foi o responsável por 124 crises financeiras sistêmicas em mais de 90 países, no período de 1970 até 2007, conforme denuncia o estudo de Luc Laeven e Fabian Valencia, publicado pelo "insuspeito" FMI.

Em português: foi o receituário responsável pela maior crise financeira e monetária que o mundo moderno já viu. É a racionalidade que nos condena a uma desigualdade social irreversível acaso triunfe definitivamente.

Paradoxalmente – mas não por acaso – a saída sistêmica para a crise do próprio sistema capitalista tem sido radicalizar esse receituário. Países periféricos como Espanha, Grécia e Brasil, por exemplo, são obrigados por credores ocultos (poder transnacional, difuso e incontrolável), que se valem de políticos ilegítimos e apontados pela própria mídia como corruptos, a: i) desprezar a democracia; ii) privilegiar o pagamento da dívida pública, em detrimento de gastos primários (saúde, educação, seguridade social); iii) desregulamentar as relações de trabalho para reduzir salários diretos, indiretos (direitos sociais atrelados ao trabalho) e diferidos (pensões), bem como aniquilar a representação sindical; iv) ampliar os privilégios de uma classe social em detrimento da maioria da população; v) manter intocada a desregulamentação do mercado financeiro.

O que isso tem gerado?

Concentração de riqueza como nunca se viu. Empobrecimento crescente da maioria dos sete bilhões de seres humanos. Ampliação das tensões sociais e ressurgimento de movimentos populistas, xenófobos, racistas e antidemocráticos de extrema direita. Abandono de agendas de respeito ao meio-ambiente. Desprezo absoluto pela democracia e pelos Direitos Humanos. Em síntese: o capital está ganhando.

A reforma proposta por um governo ilegítimo, que é levada adiante por um parlamento composto por políticos eleitos com dinheiro de propina e Caixa 2 – antidemocraticamente eleito, portanto – retira a centralidade que o trabalho tem na sociedade brasileira.

Devolve as brasileiras – principalmente elas – e os brasileiros que ascenderam socialmente na última década ao estado de miséria e fome que os maculava historicamente.

A classe média brasileira – majoritariamente trabalhadora – experimentará um estado de instabilidade social e empobrecimento crescente e verá os "afortunados" cada vez mais ricos e poderosos. Não haverá investimento suficiente em "empregabilidade" – seja lá o que isso for – que seja capaz de alterar sistemicamente esse quadro.

As dúvidas são:

Estes trabalhadores perceberão que o problema é coletivo ou se enclausurarão na ideia equívoca de que o problema é individual, de que o insucesso e o infortúnio é problema de cada um?

Virão para as ruas, para o espaço público, e lutarão por direitos que lhes garantam dignidade ou permanecerão inertes, dominados pela paralisia decorrente da máxima thatcherista de que não há alternativa?

Parte significativa dos que vivem de sua força de trabalho já perceberam a magnitude do problema e estão lutando. Outros, todavia, ainda não. Para aqueles, há alternativa, e ela passa por radicalizar a democracia e os direitos humanos, bem como por desmercantilizar o trabalho humano, a natureza e o próprio dinheiro.

No caso brasileiro, passa por ir imediatamente às ruas. Posicionar-se contra os maiores ataques aos Direitos Sociais desde a CLT. Lutar agora, e não amanhã, contra a reforma trabalhista e contra a reforma da previdência.

A direita sabe disso e por isso tem pressa. Só em um Estado de Exceção como o que estamos vivendo é possível aprovar reformas como estas. Nas últimas quatro eleições presidenciais esse projeto foi rechaçado.

É hora de eleições gerais e diretas já. Do contrário o gosto amargo da derrota permanecerá por muito tempo na boca das trabalhadoras e trabalhadores brasileiros.

*Ricardo Nunes Mendonça é graduado em Direito pela UFPR. Mestre em Direito pela PUC-PR. Advogado sindical e membro do instituto DECLATRA. Professor de Direito do Trabalho do Centro Universitário do Brasil – UNIBRASIL. Membro do Grupo de Pesquisa Trabalho e Regulação no Estado Constitucional – GPTREC

Greve geral Já!

Se a classe que vive do trabalho tivesse a noção do que está para acontecer essa greve geral do dia 28 seria por tempo indeterminado.a "Acabei de ler o Substitutivo ao PL 6.787/16 que trata da reforma trabalhista. Se pudesse resumir o que está acontecendo, eu diria que o direito do trabalho, como direito tutelar, deixará de existir. Se a natureza tutelar deixa de existir, o próprio direito do trabalho perde o sentido. Todas as propostas foram elaboradas claramente com o intuito de defender os interesses do capital. Não se trata apenas de uma "molecagem" com o direito do trabalho, como pontuou de forma espirituosa um valoroso colega magistrado, nosso amigo aqui no Facebook. Trata-se da aplicação do aspecto mais perverso do neoliberalismo que é a redução do trabalhador a um ser isolado, numa luta infindável pela sobrevivência, de todos contra todos. Se a classe que vive do trabalho tivesse a noção do que está para acontecer essa greve geral do dia 28 seria por tempo indeterminado." Andre Machado, juiz da 6a. Região e membro da Amatra 6a. Região.

quarta-feira, 12 de abril de 2017

'Despreparada para a era digital, a democracia está sendo destruída'

Quando Martin Hilbert calcula o volume de informação que há no mundo, causa espanto. Quando explica as mudanças no conceito de privacidade, abala. E quando reflete sobre o impacto disso tudo sobre os regimes democráticos, preocupa.

"Isso vai muito mal", adverte Hilbert, alemão de 39 anos, doutor em Comunicação, Economia e Ciências Sociais, e que investiga a disponibilidade de informação no mundo contemporâneo.

Segundo o professor da Universidade da Califórnia e assessor de tecnologia da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, o fluxo de dados entre cidadãos e governantes pode nos levar a uma "ditadura da informação", algo imaginado pelo escritor George Orwell no livro 1984.

Vivemos em um mundo onde políticos podem usar a tecnología para mudar mentes, operadoras de telefonia celular podem prever nossa localização e algoritmos das redes sociais conseguem decifrar nossa personalidade melhor do que nossos parceiros, afirma.

Com 250 'likes'; o algoritmo do Facebook pode prever sua personalidade melhor que seu parceiro

Hilbert conversou com a BBC Mundo, o serviço em espanhol da BBC, sobre a eliminação de proteções à privacidade online nos EUA, onde uma decisão recente do Congresso, aprovada pelo presidente Donald Trump, facilitará a venda de informação de clientes por empresas provedoras de internet.

Confira os principais trechos da entrevista:


http://www.bbc.com/portuguese/geral-39535650

segunda-feira, 20 de março de 2017

A farsa da Operação Carne Fraca

O problema da Operação Carne Fraca é o seguinte.

A Polícia Federal, claramente, esqueceu que a sua função é proteger o cidadão, as empresas e o governo.

A PF, ao invés disso, inverteu seu papel: tornou-se uma espécie de agência adversária da sociedade. Sua meta tem sido agredir o cidadão, destruir empresas e derrubar governos.

Se a PF identificou, há mais de dois anos, que havia problemas no mercado de carne, deveria ter alertado o governo, as empresas e os cidadãos, para que ninguém tivesse prejuízo. O governo não seria vítima de mais um processo de instabilidade, as empresas não estariam sujeitas a prejuízos bilionários, e os cidadãos não se arriscariam a consumir produtos de qualidade duvidosa.

É o mesmo problema que vimos na Operação Lava Jato. Enquanto os serviços de segurança de outros países entendem que sua missão é proteger as empresas nacionais e defender os interesses do país, o nosso sistema de repressão vê tudo com as lentes de um agente inimigo.

Alguns protestaram contra as preocupações de ordem econômica levantadas por analistas: ora, disseram eles, vocês queriam que o brasileiro continuasse comendo carne estragada?

Em primeiro lugar, sem exageros. A PF encontrou problemas em 21 unidades, num total de quase cinco mil empresas, e suspeita de crimes praticados por 33 servidores, num universo de 11 mil funcionários do Ministério da Agricultura.

Não há notícia, até agora, de que a PF mandou recolher algum tipo de carne. As denúncias de "carne estragada", portanto, estão apenas no campo da especulação, com base em conversas reservadas entre executivos.

Uma das denúncias, de que uma empresa misturava "papelão" às carnes, parece já ter caído por terra. Foi "mal entendido" da PF, que divulgou uma gravação, em que um executivo falava, na verdade, da embalagem do produto.

Um mal entendido que pode custar vários bilhões de dólares à nossa economia…

Do jeito que a PF e a mídia noticiaram a operação, a população brasileira ficou alarmada e compradores da carne brasileira, do mundo inteiro, também.

Ficou parecendo que a gente passou dois anos comendo carne estragada, o que não é verdade.

Os frigoríficos brasileiros, em seu esforço para ganhar os mercados mais exigentes do mundo, fizeram investimentos bilionários para aprimorar a qualidade da produção brasileira de carne.

Ninguém é santo e não se deve pôr a mão no fogo de ninguém. Mas houve sensacionalismo irresponsável sim. A PF de Curitiba, notoriamente, queria dar "outro susto" no governo.

Em virtude da personalidade do delegado responsável pela operação, que já conhecemos da Lava Jato, não seria nenhuma surpresa se essa violência toda foi motivada pela obsessão política para pegar Lula. Há anos que circulava a mentira, na internet, de que o filho de Lula seria um dos proprietários ocultos da Friboi. É possível que o delegado tenha suspeitado de que havia alguma veracidade nesse boato.

Não houvesse o impeachment, a PF e a mídia estaria usando essa operação como mais um instrumento para "derrubar" o governo.

Levantar o impacto econômico da operação e criticar o seu sensacionalismo é, obviamente, importante. Sem economia, não há cultura, não há política, não há impostos, não há vida.

Sem economia, não teremos nem como pagar a fiscalização necessária para supervisionar a qualidade da nossa carne.

Pensando nisso, O Cafezinho fez uma ampla pesquisa, junto a órgãos oficiais do governo brasileiro e dos EUA, para a gente ter uma ideia da importância da carne para a economia brasileira.

Não se trata apenas de comércio exterior. Carne significa proteína, principal nutriente para a vida humana. Qualquer desorganização do setor poder trazer insegurança alimentar não apenas para os nossos 206 milhões de habitantes, mas para o planeta inteiro, visto que bilhões de seres humanos, em todo mundo, dependem da carne brasileira.

Além disso, a concorrência internacional é feroz. E o nosso concorrente mais direto é os Estados Unidos, país cujos órgãos de segurança trabalham afinados para defender os interesses econômicos de suas empresas. Se você ler os boletins do Departamento de Agricultura dos EUA, verá que ele está repleto de análises e sugestões sobre como as empresas americanas de carne podem superar os seus concorrentes.

Vamos às estatísticas, que trazem números atualizados, compilados com exclusividade pelo Cafezinho.

São três tabelas. A primeira mostra o ranking mundial de produção, exportação e consumo doméstico de carne. Note que o Brasil é líder nos três itens. É grande produtor, grande exportador e grande consumidor.

Com isso, o Brasil é, naturalmente, alvo da cobiça internacional pelos três motivos. Os nossos concorrentes querem reduzir a nossa exportação, para diminuir o nosso market share e aumentar o deles. Querem tomar conta da nossa produção, adquirindo nossas empresas. E querem dominar o nosso mercado interno, um dos maiores do mundo.

Não estamos falando, portanto, apenas da nossa exportação de carnes, que gerou $ 14 bilhões de dólares em 2016, ou mais de 42 bilhões de reais, mas também de um dos maiores mercados do mundo, que movimenta centenas de bilhões de reais.

Observe, na tabela 2, que as exportações brasileiras de carnes cresceram fortemente desde 2002: mais de 344%.

Considerando apenas a exportação brasileira de carnes industrializadas, houve um crescimento de mais de 200%.

Na terceira tabela, note que a carne é o nosso terceiro item de exportação mais importante. O primeiro é soja, que os estrangeiros querem dominar através da liberação, pelo governo Temer, de vendas de terras a estrangeiros.

O minério de ferro nos foi tomado pela privatização da Vale.

Falta agora dominar a indústria brasileira de carnes. Observe que o valor agregado da carne é um dos maiores entre os produtos básicos exportados. A nossa soja é vendida por 378 dólares a tonelada. O ferro é entregue lá fora a 41 dólares a tonelada. O ferro é mais barato que o contêiner onde ele vai guardado.

A carne, porém, foi vendida em 2016 pelo preço médio de $ 2.121 dólares a tonelada, se considerarmos também o produto  industrializado, e $ 2.053 dólares considerando apenas a carne em natura. É um produto caro, que gera muitos empregos, impostos e renda no Brasil.

A Polícia Federal e o Judiciário, por isso mesmo, deveriam tratar o setor com muito cuidado, protegendo suas empresas, defendendo o cidadão, e evitando transformar investigações importantes em mais um fator de desestabilização política.

O Judiciário, por sua vez, ao aprisionar R$ 1 bilhão das empresas, dificulta que elas resolvam seus problemas internos, o que pode levá-las a paralisar suas atividades, com consequências danosas para toda a cadeia produtiva da carne, o que irá se refletir no único setor da nossa economia que vínhamos mantendo longe da crise: a agropecuária.

Essa lógica da "pegadinha", que o MPF inclusive quer transformar em regra, onde o objetivo é produzir um vilão e subsidiar a mídia com um espetáculo, não é o papel da PF ou do Judiciário.

Não se espere, contudo, da imprensa brasileira, que deveria estimular um debate de ideias fundamental para evitarmos esse tipo de coisa, nenhum bom senso. A própria mídia fomentou a subversão da Polícia Federal, do MP e do Judiciário, que se tornaram agências inimigas do próprio país. A mídia só está pensando em como faturar com a crise.

A matéria mais lida na Folha trata do potencial lucro da mídia com as necessárias operações de marketing que as empresas terão de fazer para recuperar os terríveis danos causados à sua imagem…



segunda-feira, 6 de março de 2017

Perguntas a quem acha que o Moro quer combater a corrupção

É o Lula?


Lula recebeu 23 milhões na Suíça da Odebrecht?
Não, esse foi o Serra. Mais conhecido pelo codinome de "Careca", na lista de alcunhas da Odebrecht.

Lula estava pagando pensão de um filho fora do casamento com dinheiro de instituião mencionada em operações de lavagem?
Não. Esse era o FHC.

Lula recebeu um milhão de reais em dinheiro vivo dentro de uma garagem?
Não. Esse é mais parecido com o relator do impeachment (farsa), Antônio Anastasia.

Lula é o cara chato que cobrava propina da UTC?
Não. Esse é parecido com o Aécio.

Lula recebia 1/3 da propina de Furnas?
Não. Esse é mais parecido com o Aécio também.

Lula recebeu 3% das obras da cidade administrativa de MG quando era governador, totalizando mais de R$ 30 milhões em propina?
Não. Esse também é mais parecido com o Aécio.

O helicóptero com 450 kg de cocaína era do amigo do Lula?
Não. Era do amigo do Aécio.

Lula comandava o Estado que roubou 1 bilhão do Metrô e da CPTM?
Não. Esses são o Serra, o Careca; e o Santo, o Alckmin.

Lula tá envolvido no roubo de 2 bilhões da merenda?
Não. Parece que foram o Santo e um tal de Fernando Capaz.

Lula pegou emprestado o jatinho do Youssef?
Não. Esse era o Álvaro Dias.

Lula foi o cara que montou o esquema Petrobras com Cerveró, Paulo Roberto Costa e Delcídio?
Não. Esse era o FHC.

Lula nomeou o genro presidente da Agência que mandava na Petrobras?
Não. Foi o FHC também.

Lula é o compadre do banqueiro André Esteves?
Não. Esse era o Aécio, de novo, que passou a lua de mel no hotel Waldorf Astoria, em NY, por conta do André Esteves.

Lula é meio-primo de Gregório Marin Preciado, aquele que levou US$15 milhões na venda de Pasadena?
Não. Esse é o Serra (aquele que a Lava a Jato apresenta com tarja preta para a imprensa).

Lula construiu aeroportos em terras particulares de parentes com dinheiro público?
Não. Esse foi o Aecio, conhecido pelo codinome Mineirinho.

Lula foi descoberto com uma dezena de contas no exterior, ameaçou testemunhas, prejudicou alguma investigação?
Não. Esse é o Cunha, sócio do Temer nos jabutis das Medidas Provisórias, segundo o Ciro.

Lula levou grana da Companhia Docas de Santos?
Não. Esse é o Temer, conhecido na lista de alcunhas da Lava Jato como MT.

Lula recebeu uma grana na salinha da Base Aérea de Brasília?
Não. Esse foi MT, segundo o Sergio Machado.

Lula ameaçou empresários, exigiu 5 milhões de dólares, só de um deles?
Não. Esse também é o Cunha, o homem da farsa do impeachment.

O filho do Lula aparece numa roubalheira na Petrobras?
Não. Esse foi o filhinho do FHC.

Lula comprou um apartamentaço em Higienopolis numa operação com o banqueiro Safidie que o MP de São Paulo procura e nunca vai achar? Lula passa as ferias no apartamentinho do Jovelino na Avenue Foche, em Paris?
Não. Esse é o FHC.

Quando saiu do Governo, Lula tinha uma fazendola em Minas, comprada com o amigao Serjão?
Não. Esse é o FHC, o melhor amigo do Serjão.

O filho do Lula aparece na revista de milionários Forbes?
Não. É a filha do Serra...

Lula deixou prescrever o escândalo da corrupção do Banestado, onde só tinha tucano?
Não, esse é o juiz Moro.

Isso é para quem acha que Moro e sua turma querem combater a corrupção.

quinta-feira, 2 de março de 2017

Entrevista com de Masi


O sonho global do Brasil corresponde a se tornar uma nação capaz de dar um grande modelo de vida ao mundo. A sociedade pós-industrial, diferentemente das precedentes, é sem modelo. O Brasil há 500 anos vem imitando a Europa e os EUA. E não tem que copiar. É obrigado a criar um modelo. 

O Brasil é um pouco infantil. Porque no fim de 2014 Lula era um grande personagem e Dilma também. Passado 2014, Lula é um delinquente e Dilma também. Essa transição foi rápida, uma transição infantil. Não foi madura.

Por quê [isso ocorreu]? Não sei. Olhando da Europa, lembro que durante o período de Lula o Brasil era feliz. Ele era um mito, as pessoas choravam diante dele. Dilma era um mito também no primeiro mandato. Porém em dois meses Dilma passa a ser odiada. Quem olha de fora não entende. Só um povo infantil faria uma coisa dessa.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Tocqueville: o despotismo moderno...

Se tento imaginar o despotismo moderno, vejo uma multidão desmedida de seres parecidos e iguais, que dão voltas em torno de si mesmos, a fim de proporcionar-se pesquenos e mesquinhos prazeres com os quais satisfazem suas almas. Cada um deles é como um estrangeiro em relação aos demais. Os seus filhos e os seus poucos amigos constituem para ele toda a humanidade. O resto dos cidadãos está ali, ao lado dele, mas ele não os vê; vive somente para si e em si. Se existe ainda uma família, já não existe a pátria.

Acima dessa multidão vejo alçar-se um imenso poder tutelar, que sozinho ocupa-se em assegurar aos súditos o bem-estar e em zelar pela sua sorte. É absoluto, minucioso, metódico e até mesmo comedido. Pareceria com a autoridade paterna se tivesse como objetivo, como aquela, a preparação dos homens á virilidade. Mas, pelo contrário, busca somente mantê-los numa infância perpétua". 439

DE MASI, Domênico. Criatividade e grupos criativos. Rio de Janeiro: Sextante, 2003. 795 p.

 

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

entrevista com nossa presidenta

Marco Weissheimer
Quase seis meses depois da votação da última etapa do impeachment no Senado Federal, Dilma Rousseff olha para esse período não como uma página virada na sua história de vida ou na história política do país, mas sim como um processo em andamento. "O golpe não acabou", afirma, advertindo para os riscos que a democracia brasileira corre com o desenrolar do processo golpista. Em entrevista ao Sul21, concedida em seu apartamento em Porto Alegre, Dilma Rousseff fala sobre as raízes profundas e aparentes do golpe, denuncia o desmonte de políticas sociais e de setores estratégicos para o país, como as indústrias naval e petrolífera, e aponta as tarefas que ela considera prioritárias para a esquerda e para todas as forças progressistas do país:
"A questão democrática é fundamental para nós. Sempre ganhamos quando a democracia se aprofundou e sempre perdemos quando ela foi restringida. O que está em jogo hoje é o que vai ser a eleição de 2018. Essa será a pauta a partir da metade do ano. Acho que o Lula, nesta história, cumprirá um papel muito importante, concorrendo ou não. A segunda etapa do golpe pode ser muito mais radicalizada e propensa à repressão. Nossa missão é garantir o maior espaço democrático possível, denunciar todas as tentativas de restrição das liberdades democráticas e tentar garantir em 2018 um processo que seja construído por baixo", defende.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

O papel do STF no golpe de Estado de 2016

 
A correta decisão do juiz Celso de Mello mantendo a nomeação do "angorá" Moreira Franco atesta que a decisão do tucano Gilmar Mendes em 18 de março de 2016, que anulou a posse do ex-presidente Lula na Casa Civil, foi um ato de conspiração para desestabilizar o governo e derrubar a Presidente Dilma.
 
Numa decisão liminar e monocrática, Gilmar seqüestrou a competência privativa da Presidente Dilma de nomear e exonerar seus ministros [Artigo 84 da CF]. Apesar da extrema gravidade e da inconstitucionalidade do ato, a decisão não foi apreciada e revisada pelo plenário do Supremo para não atrapalhar a tramitação final da farsa do impeachment na Câmara.
 
Nenhuma voz no STF se levantou para interromper a consumação desta aberração jurídica que, evitada, teria mudado o curso da história a partir do protagonismo do Lula no governo.
 
A diferença abismal de posicionamento do STF em duas situações rigorosamente idênticas de nomeação de ministros não deriva de discrepâncias doutrinárias entre os juízes que integram o Supremo; mas evidencia, antes disso, que o STF é peça essencial da engrenagem golpista e que seus juízes decidem – ou retardam suas decisões – com o olho no tabuleiro do golpe, não na Constituição.
Nos embates em que o respeito ao Estado de Direito favorece a dinâmica golpista e o governo usurpador, o STF atua na legalidade e em consonância com a Constituição, como ocorreu na decisão sobre o "angorá" do Temer.
 
Naquelas circunstâncias, contudo, que podem afetar a empreitada golpista, o STF interpreta a Constituição no marco de um regime de exceção, em afronta ao Estado de Direito.
 
Decisões tardias e procrastinações também demonstram o comprometimento do STF com a perpetração e a continuidade do golpe. A demora de 140 dias para afastar Eduardo Cunha da presidência da Câmara dos Deputados, por exemplo, foi mortal para o governo Dilma.
 
O hoje presidiário foi mantido no cargo o tempo necessário para a consecução do roteiro do golpe. Ele só foi afastado 18 dias depois de presidir aquela sessão horripilante da Câmara de Deputados de 17 de abril de 2016 que aprovou o impeachment fraudulento.
 
A linguagem do voto-relatório do finado juiz Teori Zavascki para afastar o presidente da Câmara é chocante. Em 5/5/2016, Teori assim se pronunciou: "Cunha é um pejorativo que conspira contra a própria dignidade da instituição por ele liderada. Nada, absolutamente nada, se pode extrair da Constituição que possa, minimamente, justificar a sua permanência no exercício dessas elevadas funções públicas.  ... O exercício do cargo, nas circunstâncias indicadas, compromete a vontade da Constituição, ...".
 
É chocante que, apesar de tão categórica opinião sobre o pernicioso Eduardo Cunha, o STF decidiu afastá-lo só depois da votação do impeachment, embora Teori tivesse conhecimento dos elementos de acusação desde 15/12/2015, data em que recebeu o pedido de afastamento do MP.
 
Se o STF tivesse afastado Cunha antes da votação do impeachment, como corresponderia, certamente a marcha dos acontecimentos tomaria rumo distinto.
 
Outra demora marcante – e deliberada – foi quando da escuta ilegal e da divulgação criminosa que o juiz Sérgio Moro fez de conversas telefônicas da Presidente Dilma – episódio que foi cinicamente aproveitado por Gilmar Mendes para anular a posse do ex-presidente.
 
Embora entendendo que "a jurisprudência desta Corte é categórica acerca da inviabilidade da utilização da prova colhida sem observância dos direitos e garantias fundamentais previstas na Constituição", Teori somente se pronunciou sobre o assunto 88 dias depois do fato ocorrido, e não impôs nenhuma punição ao juiz Moro. Em qualquer país civilizado do mundo, o juiz que gravasse ilegalmente o presidente do país seria demitido e preso.
 
Assim como durante a ditadura, no golpe de 2016 o STF mandou a Constituição às favas. Com o falso pretexto de respeitar a independência dos poderes, o Supremo legitimou os poderes totalitários de uma maioria circunstancial no Congresso e se recusou a apreciar o mérito do impeachment; se recusou a constatar a ausência de fundamento jurídico, de fato determinado, de crime de responsabilidade para a instalação do impeachment da Presidente Dilma.
 
O STF é um simulacro de Corte Constitucional. É um mero garante do regime de exceção; o instrumento legitimador da oligarquia golpista que promoveu a grande farsa do século 21 que destruiu a democracia para atacar as conquistas do povo, entregar a soberania nacional e deixar o Estado brasileiro sob o comando de uma máfia criminosa.
 
O golpe só se consumou no Brasil porque o STF deu o suporte institucional e as garantias jurídicas para a sua concretização.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Big Data e a psicologia baseada em dados

Em 9 de novembro, por volta das 8h30, Michal Kosinski acordou no Hotel Sunnehus, em Zurique. O pesquisador de 34 anos foi palestrar no Instituto Federal Suíço de Tecnologia sobre os perigos do Big Data e da revolução digital. Kosinski dá palestras constantemente sobre esses temas no mundo inteiro. Ele é especialista em psicometria, um ramo da psicologia que lida com dados. Naquela manhã, quando ele ligou a TV, viu a bomba: contrariando previsões dos principais estatísticos do país, Donald J. Trump havia sido eleito presidente dos Estados Unidos.

No mesmo dia, uma empresa britânica ainda pouco conhecida com sede em Londres enviou um comunicado à imprensa: "Estamos muito felizes que nosso método revolucionário de comunicação baseada em dados tenha desempenhado um papel tão importante na vitória extraordinária do presidente eleito Trump", disse Alexander James Ashburner Nix, britânico, 41 anos, e CEO da Cambridge Analytica. Ele sempre aparece em público com ternos bem cortados e óculos de grife, com o cabelo loiro penteado para trás. E a sua empresa não era integrante apenas da campanha online de Trump, mas também do Brexit.

Desses três personagens – o reflexivo Kosinski, o cuidadosamente vestido Nix e o sorridente Trump – um deles permitiu a revolução digital, um deles executou e um outro se beneficiou.

Big Data e a psicologia baseada em dados

Psicometria

Psicometria é base de nova estratégia eleitoral

Qualquer pessoa que não tenha passado os últimos cinco anos vivendo em outro planeta já ouviu falar no termo Big Data. Ele significa essencialmente que tudo o que fazemos, online e offline, deixa vestígios digitais. Cada compra que fazemos com nossos cartões, cada busca que digitamos no Google, a cada lugar que vamos com o celular no bolso e cada curtida, tudo é armazenada – especialmente as curtidas. Por muito tempo, não estava claro como esses dados poderiam ser usados, exceto, talvez, ver anúncios de remédios de pressão logo depois de pesquisar "como reduzir a pressão arterial" no Google.

Em 9 de novembro, ficou claro que é possível usar o Big Data para algo muito maior. A empresa por trás da campanha on-line de Trump – a mesma empresa que trabalhou para a Leave.EU no começo do Brexit – era uma empresa de Big Data: a Cambridge Analytica.

Para entender o resultado da eleição e como a comunicação política pode funcionar no futuro, é preciso começar com um incidente estranho na Universidade de Cambridge em 2014, no Centro de Psicometria de Kosinski.

Psicometria, às vezes também chamada de psicografia, centra-se na medição de traços psicológicos, como a personalidade. Na década de 1980, duas equipes de psicólogos desenvolveram um modelo que buscava avaliar pessoas com base em cinco traços de personalidade – o modelo foi chamado de Big Five: abertura (a novas experiências), consenciosidade (perfeccionismo), extroversão (sociabilidade), condescendência (cooperatividade) e neuroticismo (temperamento). Com base nessas dimensões – conhecidas pela sigla em inglês OCEAN – é possível fazer uma avaliação relativamente precisa de qualquer pessoa. Isso inclui necessidades e medos e como eles devem se comportar. O Big Five tornou-se a técnica padrão de psicometria. Mas, por muito tempo, o problema com essa abordagem foi a coleta de dados. Isso porque era preciso preencher um questionário complicado com informações muito pessoais. Então veio a internet. E o Facebook. E Kosinski.

Michal Kosinski

Michal Kosinski co-criou método de psicometria via dados do Facebook

Michal Kosinski foi estudante em Varsóvia quando sua vida tomou uma nova direção em 2008. Ele foi aceito pela Universidade de Cambridge para fazer seu doutorado no Psychometrics Center, uma das instituições mais antigas do tipo em todo o mundo. Kosinski se juntou ao colega David Stillwell (hoje professor da Universidade de Cambridge) cerca de um ano depois de Stillwell ter lançado um pequeno aplicativo no Facebook, muito antes da rede social se tornar a gigante que é hoje. O app MyPersonality convencia usuários a preencher vários questionários psicométricos, incluindo um punhado de perguntas psicológicas do questionário Big Five ("entro em pânico facilmente", "contrario muito os outros"). Com base na avaliação, os usuários recebiam um "perfil de personalidade" – usando variáveis do Big Five – e a opção de compartilhar seus dados de perfil do Facebook com os pesquisadores.

Os seguidores de Lady Gaga eram provavelmente extrovertidos, enquanto aqueles que curtiam páginas de filosofia tendiam a ser introvertidos.

Kosinski esperava que algumas dezenas de colegas universitários preenchessem o questionário, mas, em pouco tempo, milhões de pessoas revelaram seus segredos mais íntimos. De repente, os dois estudantes de doutorado tiveram nas mãos um conjunto de dados gigante combinando pontuações psicométricas com perfis do Facebook prontos para coleta.

Deduções absurdamente confiáveis poderiam ser extraídas a partir de alguns poucos cliques online. Por exemplo, homens que curtiram a marca de cosméticos MAC eram ligeiramente mais propensos a serem gays. Por outro lado, um dos melhores indicadores para a heterossexualidade era curtir a página do Wu-Tang Clan. Os seguidores de Lady Gaga eram provavelmente extrovertidos, enquanto aqueles que curtiam páginas de filosofia tendiam a ser introvertidos. Embora essas informações sozinhas não tenham força para produzir uma previsão confiável, dezenas, centenas ou milhares de dados individuais combinados resultam em previsões altamente precisas.

Kosinski e sua equipe aprimoraram incansavelmente seus modelos. Em 2012, Kosinski provou que, com base em uma média de 68 likes do Facebook por usuário, era possível prever sua cor da pele (95% de precisão), sua orientação sexual (88%) e sua filiação aos partidos Democrata ou Republicano (85%). Mas, ele não parou por aí. Inteligência, afiliação religiosa, bem como uso de álcool, cigarro e drogas, tudo poderia ser determinado. Com esses dados era até possível deduzir se os pais de alguém eram divorciados.

A capacidade de prever a resposta de alguém era a principal demonstração de força do modelo. Kosinski continuou a trabalhar incansavelmente e, em pouco tempo, seu mecanismo já era melhor do que psicólogos para avaliar pessoas apenas com base em 10 curtidas de Facebook. 70 curtidas eram suficientes para saber mais até do que os amigos de alguém, 150 mais do que os pais. Para conhecer uma pessoa mais do que o seu parceiro, bastavam 300 curtidas. Com mais likes do que isso, era possível conhecer mais até do que a própria pessoa sabia sobre si. No dia em que Kosinski publicou essas descobertas, recebeu dois telefonemas. Uma ameaça de processo judicial e uma oferta de emprego. Ambas do Facebook.

Um verdadeiro 'Google de pessoas'

Big Data

O Big Data tem papel principal na estratégia política da nova década

Apenas algumas semanas depois, as curtidas se tornaram privadas por padrão no Facebook. Antes disso, a configuração normal permitia que qualquer pessoa na internet pudesse ver seus likes. Mas isso não era um obstáculo para os colecionadores de dados: enquanto Kosinski sempre pedia o consentimento dos usuários do Facebook, muitos aplicativos e questionários on-line hoje exigem acesso a dados privados como pré-condição para a realização de testes de personalidade. Qualquer pessoa que queira avaliar a si mesmo com base nos likes do Facebook pode fazer isso por meio do site de Kosinski, e depois comparar os seus resultados com os de um questionário OCEAN clássico, como o do Centro de Psicometria de Cambridge.

O smartphone é um vasto questionário psicológico preenchido constantemente, consciente e inconscientemente.

Mas não se tratava apenas de likes ou mesmo de Facebook: Kosinski e sua equipe agora podiam atribuir valores Big Five baseados simplesmente em quantas fotos de perfil uma pessoa tinha no Facebook, ou quantos contatos tinham (um bom indicador de extroversão). Mas muita coisa é revelada até quando se está offline. O sensor de movimento do celular diz a velocidade e para onde o usuário vai todos os dias. A informação pode ser usada para avaliar instabilidade emocional. O smartphone é um vasto questionário psicológico preenchido a toda hora, consciente e inconscientemente.

No entanto, acima de tudo, essa metodologia também funciona no sentido inverso: não só os perfis psicológicos podem ser criados a partir de seus dados, mas essas informações podem ser usadas ao contrário para procurar perfis específicos: todos os pais ansiosos, todos que sentem raiva e os introvertidos, por exemplo – ou todos os democratas indecisos. Essencialmente, o que Kosinski havia inventado era uma espécie de motor de busca de pessoas. Ele começou a reconhecer o potencial, mas também o perigo inerente de seu trabalho.

Para ele, a internet sempre parecia um presente dos céus. O que ele realmente queria era dar algo de volta. Os dados podem ser copiados, então por que não beneficiar o bem comum? Foi o espírito de toda uma geração, o início de uma nova era que transcendeu as limitações do mundo físico. Mas o que aconteceria, se perguntou Kosinski, se alguém abusasse de seu motor de busca de pessoas para manipulá-las? Ele começou a adicionar advertências à maioria de seu trabalho científico. "Pode representar uma ameaça ao bem-estar, à liberdade, ou mesmo à vida de um indivíduo", dizia um dos alertas. Mas, ninguém parecia entender o que ele queria dizer.

Nas mãos erradas

Cambridge Analytica trump

Cambridge Analytica é uma empresa contratada por Trump

Na mesma época, no início de 2014, Kosinski foi abordado por um jovem professor assistente no departamento de psicologia chamado Aleksandr Kogan. Ele disse que estava a mando de uma empresa interessada no método de Kosinski, e queria acessar o banco de dados MyPersonality. Kogan não tinha permissão de revelar a finalidade, pois era tudo secreto.

No início, Kosinski e sua equipe consideraram aceitar a oferta, que traria muito dinheiro para o instituto, mas então o pesquisador hesitou. Kosinski lembra que foi aí que Kogan revelou o nome da empresa: SCL, ou Strategic Communication Laboratories (Laboratório de Comunicação Estratégica, em português). Kosinski pesquisou a empresa: "[Somos] uma grande agência de gestão eleitoral", diz o site da empresa. A SCL vende marketing baseado em modelagem psicológica. Um de seus principais focos: influenciar eleições. Influenciar eleições? Perturbado, Kosinski navegou pelo site. Que tipo de empresa era essa? E o que essas pessoas estavam planejando?

O que Kosinski não sabia na época: a SCL é a mãe de um grupo de empresas. Os verdadeiros donos da SCL e outras empresas não são conhecidos graças a uma estrutura corporativa complicada, muito parecida com as Company Houses do Reino Unido, com o registro de empresas de Delaware e com os Panama Papers. Algumas das filiais da SCL se envolveram em eleições na Ucrânia e na Nigéria, ajudaram o monarca do Nepal contra os rebeldes, e desenvolveram métodos para a OTAN para influenciar cidadãos da Europa Oriental e do Afeganistão. Em 2013, a SCL abriu uma nova empresa para participar das eleições nos EUA: Cambridge Analytica.

Kosinski não sabia nada sobre isso, mas tinha um mau pressentimento. "A coisa toda começou a cheirar mal", ele lembra. Pesquisando mais, ele descobriu que Aleksandr Kogan havia registrado secretamente uma empresa ligada à SCL. De acordo com um artigo de dezembro de 2015 no The Guardian e com documentos internos da empresa nas mãos da Das Magazin, a SCL havia entrado em contato com o método de Kosinski por intermédio de Kogan.

Kosinski começou a suspeitar que a empresa de Kogan poderia ter copiado a ferramenta de análise de Big Five baseada em likes do Facebook, a fim de vendê-la para a Cambridge Analytica. Ele imediatamente interrompeu o contato com Kogan e informou o diretor do instituto, provocando um complicado conflito dentro da universidade. O instituto estava preocupado com a reputação da entidade. Aleksandr Kogan mudou-se para Singapura, casou-se e mudou seu nome para Dr. Spectre. Michal Kosinski terminou seu doutorado, conseguiu uma oferta de trabalho em Stanford e se mudou para os EUA.

Sr. Brexit

Brexit Trump

Trump e Brexit têm mais em comum do que se imagina

Não houve turbulências por cerca de um ano. Então, em novembro de 2015, a Leave.EU, a campanha mais radical pelo Brexit, apoiada por Nigel Farage, anunciou a contratação de uma empresa de Big Data para ajudar na campanha on-line: Cambridge Analytica. O principal produto da empresa: um inovador marketing político, baseado em microsegmentação, para avaliar a personalidade das pessoas a partir de pegadas digitais, tudo baseado no modelo OCEAN.

Após o resultado do Brexit, amigos e conhecidos escreveram para ele: olhe o que você fez.

Kosinski passou a receber e-mails perguntando o que ele tinha a ver com aquilo – as palavras Cambridge, personalidade e análise imediatamente fizeram muitas pessoas pensarem em Kosinski. Foi a primeira vez que ele ouviu falar da empresa, que teria ganhado o nome porque seus primeiros funcionários tinham sido pesquisadores da Universidade de Cambridge. Horrorizado, ele olhou para o site. Sua metodologia tinha mesmo sido usada em larga escala para fins políticos?

Após o resultado do Brexit, amigos e conhecidos escreveram para ele: "olhe o que você fez". Por toda parte, Kosinski era obrigado a explicar que não tinha nada a ver com essa empresa. Na verdade, até hoje, ainda não está claro até que ponto a Cambridge Analytica esteve envolvida na campanha pelo Brexit. A empresa não falou publicamente sobre isso.

Por alguns meses, as coisas ficaram relativamente calmas. Então, em 19 de setembro de 2016, pouco mais de um mês antes das eleições dos EUA, os riffs de "Bad Moon Rising" do Creedence Clearwater Revival encheram o corredor azul-escuro do Grand Hyatt, em Nova York. A Cúpula de Concordia é uma espécie de Fórum Econômico Mundial em miniatura. Foram convidados líderes do mundo todo, entre eles o presidente suíço Johann Schneider-Ammann. "Por favor, deem as boas-vindas a Alexander Nix, diretor executivo da Cambridge Analytica", anuncia uma voz feminina suave. Um homem magro em terno preto caminha até o palco. Todos se calam. Muitos já sabem que aquele é o novo encarregado da estratégia digital de Trump.

Algumas semanas antes, Trump tinha tuitado, de um jeito um tanto quanto enigmático, "logo você estará me chamando de Sr. Brexit". Analistas políticos notaram semelhanças entre a agenda de Trump e a do movimento de direita Brexit. Mas poucos tinham notado a conexão entre isso e a recente contratação da empresa de marketing Cambridge Analytica.

"Quase todas as mensagens publicadas por Trump foram baseadas em dados", disse o CEO da Cambridge Analytica, Alexander Nix.

A essa altura, a campanha digital de Trump havia consistido de mais ou menos uma pessoa: Brad Parscale, um empreendedor de marketing e fundador de startup fracassado que criou somente um site simples para Trump por US$ 1.500. Com 70 anos de idade, Trump não é nem um pouco "alfabetizado digitalmente" – não há sequer um computador no seu escritório. Sua assistente pessoal uma vez revelou que Trump não sabe nem mandar e-mails. Ela mesma o convenceu a ter um smartphone, um Galaxy S3 que ele gosta de usar para tuitar sem parar.

Hillary Clinton, por outro lado, dependia fortemente do legado do primeiro "presidente de mídias sociais", Barack Obama. Ela tinha as listas de endereços do Partido Democrata, trabalhou com os melhores analistas de dados como os do BlueLabs, e recebeu o apoio do Google e da DreamWorks. Quando foi anunciado em junho de 2016 que Trump havia contratado a Cambridge Analytica, os poderosos de Washington torceram o nariz. Estrangeiros vestidos em ternos de alfaiate que não entendem nada dos EUA e dos americanos? Sério?

"É meu privilégio falar hoje com vocês sobre o poder do Big Data e da psicografia no processo eleitoral". O logotipo da Cambridge Analytica – um cérebro composto de nós de rede, como um mapa, aparece atrás de Alexander Nix. "Há apenas 18 meses, o senador Cruz era um dos candidatos menos populares", explica o loiro com um sotaque britânico, algo que incomoda americanos. "Menos de 40% da população tinha ouvido falar dele", diz outro slide. A Cambridge Analytica tinha se envolvido na campanha eleitoral dos EUA quase dois anos antes, inicialmente por meio de uma consultoria para os republicanos Ben Carson e Ted Cruz. Esse último – e mais tarde Trump – foi financiado principalmente pelo multimilionário de software Robert Mercer, conhecido pela sua discrição. Juntamente com sua filha Rebekah, é tido como o maior investidor da Cambridge Analytica.

"Então, como Ted Cruz fez isso?". Até então, explica Nix, as campanhas eleitorais tinham sido organizadas com base em conceitos demográficos. "Uma ideia realmente ridícula, a ideia de que todas as mulheres devem receber a mesma mensagem por causa de seu sexo – ou todos os negros por conta de sua raça". O que Nix quis dizer é que, enquanto outras campanhas tinham lançado mão somente de demografia, a Cambridge Analytica estava usando a psicometria.

O EUA inteiro em análise psicográfica

Cambridge Analytica trump

Cambridge Analytica explica como usa Big Data e psicologia para conquistar eleitorado

Embora isso possa ser verdade, o papel da Cambridge Analytica dentro da campanha da Cruz é discutível. Em dezembro de 2015, a equipe do político de fato creditou seu crescente sucesso ao uso psicológico de dados e análises. Na publicação Advertising Age, membro da campanha disse que a Cambridge Analytica era "só uma ajuda a mais", mas considerou, mesmo assim, que sua modelagem de dados de eleitores era "excelente". A campanha iria pagar à empresa pelo menos US $ 5,8 milhões para ajudar a identificar eleitores nas convenções do estado de Iowa, nos quais Cruz venceu antes de cair fora da corrida pela Casa branca em maio de 2016.

O próximo slide de Nix mostrou cinco rostos, cada um correspondente a um perfil de personalidade. É o Big Five (ou o modelo OCEAN). "Em Cambridge, criamos um modelo que prevê a personalidade de cada adulto nos EUA". O salão é cativado na hora. De acordo com Nix, o sucesso do marketing da Cambridge Analytica baseia-se numa combinação de três elementos: ciência comportamental utilizando o modelo OCEAN; análise de Big Data; e segmentação de anúncios. A segmentação de anúncios é uma publicidade personalizada, alinhada com a maior precisão possível para corresponder à personalidade de alguém.

Nix explica abertamente como sua empresa faz isso. Em primeiro lugar, a Cambridge Analytica adquire dados pessoais de uma variedade de fontes diferentes, como registros de terras, dados automotivos, dados de compras, cartões de fidelidade, associações de clubes, revistas lidas, igrejas frequentadas. Nix exibe os logotipos de corretores de dados ativos globalmente como Acxiom e Experian – nos EUA, quase todos os dados pessoais estão à venda. Para saber onde mulheres judias moram, é possível simplesmente comprar essa informação, incluindo números de telefone. A Cambridge Analytica então agrega isso com dados online e os registros eleitorais do Partido Republicano e calcula um perfil de personalidade Big Five. Os traços digitais de repente se transformam em pessoas reais com medos, necessidades, interesses e endereços residenciais.

A metodologia parece bastante semelhante à que Michal Kosinski desenvolveu. A Cambridge Analytica também usa, segundo Nixa, "pesquisas em mídias sociais" e dados do Facebook. E a empresa faz exatamente o que Kosinski alertou: "Temos perfis de personalidade traçados para cada adulto nos Estados Unidos da América – cerca de 220 milhões de pessoas", diz Nix.

Ele mostra um print de tela. "Esse é um painel de dados que preparamos para a campanha de Ted Cruz". No centro, há um controle digital; à esquerda, diagramas; à direita, um mapa de Iowa, onde Cruz ganhou um número enrome de votos nas primárias. E no mapa há centenas de milhares de pequenos pontos vermelhos e azuis. Nix filtra os critérios: "Republicanos" – os pontos azuis desaparecem; "Ainda não convencidos" – mais pontos desaparecem; "Homens", e assim por diante. Finalmente, resta apenas um nome, incluindo idade, endereço, interesses, personalidade e orientação política. Agora basta que a Cambridge Analytica impacte essa pessoa com a propaganda política perfeita – e super segmentada.

Nix mostra como os eleitores categorizados psicologicamente podem ser abordados de maneira diferente, por exemplo, com base na 2ª Emenda (sobre o direito de porte de armas): "para uma audiência altamente neurótica, basta usar a ameaça de um roubo e a apólice de seguro de uma arma na mensagem". Na hora, uma imagem mostra a mão de um intruso esmagando uma janela. "Por outro lado, para um público que se preocupa com tradição, hábitos e família": outra imagem mostra um homem e uma criança de pé em um campo ao pôr do sol, ambos segurando armas, caçando patos.

Como manter os eleitores de Hillary longe das urnas

As absurdas inconsistências de Trump, algo muito criticado e resultante de uma série de mensagens contraditórias postadas online, de repente se tornaram seu grande trunfo. Ama mensagem diferente para cada eleitor. A noção de que Trump atuou como um algoritmo perfeitamente oportunista segundo reações do público é algo que a matemática Cathy O'Neil observou em agosto de 2016.

Posts patrocinados pelo Facebook que só podem ser vistos por usuários com perfis específicos incluíam vídeos dirigidos a afroamericanos nos quais Hillary Clinton se refere aos negros como "predadores".

"Quase todas as mensagens publicadas por Trump foram baseadas em dados", disse o CEO da Cambridge Analytica, Alexander Nix. No dia do terceiro debate presidencial entre Trump e Clinton, a equipe de Trump testou 175 mil variações de anúncios diferentes para seus argumentos. O objetivo era encontrar as versões corretas, principalmente por meio do Facebook. As mensagens diferiam na maior parte apenas em detalhes microscópicos, a fim de atingir os públicos de forma infalível psicologicamente: títulos, cores e legendas diferentes, com foto ou com vídeo. Esse nível de detalhamento visa atingir os menores públicos possíveis, explica Nix. "Nós podemos direcionar os anúncios para pequenos vilarejos ou blocos de apartamentos. OU até mesmo para pessoas individualmente".

No distrito de Little Haiti, em Miami, a campanha de Trump divulgou notícias sobre o fracasso da Fundação Clinton após o terremoto no Haiti. O objetivo era garantir que potenciais eleitores de Clinton (parte da esquerda, negros e mulheres jovens) "suprimissem". Um membro de campanha disse à Bloomberg semanas antes da eleição. Posts patrocinados pelo Facebook que só podem ser vistos por usuários com perfis específicos incluíam, por exemplo, vídeos dirigidos a afroamericanos nos quais Hillary Clinton se refere aos negros como "predadores".

Nix conclui sua palestra na Cúpula de Concordia afirmando que a publicidade tradicional está morta. "Meus filhos certamente nunca, nunca vão entender esse conceito de comunicação de massa". E, antes de deixar o palco, ele anunciou que, desde que Cruz havia deixado a disputa, a empresa estava trabalhando para um dos candidatos presidenciais restantes.

Trump apostou alto

trump

Trump investiu US$ 15 milhões em pesquisas da Cambridge Analytica

Era impossível saber àquela altura até os americanos eram alvos das tropas digitais de Trump. Eles atacavam menos na TV convencional e mais com mensagens personalizadas nas mídias sociais. A equipe de Clinton pensava que estava na liderança, com base em projeções demográficas. Ao mesmo tempo, a jornalista da Bloomberg Sasha Issenberg ficou surpresa ao notar em uma visita a San Antonio – onde estava baseada a equipe de campanha digital de Trump – que uma "segunda sede" estava sendo criada. O pessoal da Cambridge Analytica, aparentemente apenas uma dúzia de pessoas, recebeu US$ 100 mil de Trump em julho, US$ 250 mil em agosto e US$ 5 milhões em setembro.

De acordo com Nix, a empresa ganhou mais de US$ 15 milhões no total. Nos EUA, a empresa se beneficia de leis muito brandas sobre divulgação de dados pessoais. Enquanto na Europa dados de usuários só podem ser obtidos se os donos permitirem, nos EUA é o contrário. A não ser que um usuário diga "não", todos os dados podem ser aproveitados por empresas de diversos ramos.

As medidas foram radicais. Em julho de 2016, a equipe de Trump começou a usar um aplicativo para identificar visões políticas e personalidades. O programa foi criado pela mesma empresa contratada pelos políticos do Brexit. O pessoal de Trump só batia na porta quem o aplicativo classificava como receptivo às mensagens do candidato. Os membros da campanha iam preparados com guias de conversas adaptadas para o tipo de personalidade dos residentes. Após cada visita, eles alimentavam o app com as reações das pessoas, e os novos dados iam direto para os paineis da campanha de Trump.

Isso não chega a ser novidade. Os democratas fizeram coisa parecida, mas não há nenhuma evidência de que tenham lançado mão de perfis psicométricos. A Cambridge Analytica, entretanto, dividiu a população dos EUA em 32 tipos de personalidade, e focou apenas em 17 estados. E, assim como Kosinski descobriu que os homens que gostam de cosméticos MAC são ligeiramente mais propensos a serem gays, a empresa descobriu que a preferência por carros fabricados nos EUA era uma grande pista para um potencial eleitor de Trump. Entre outras coisas, essas descobertas agora mostravam para a equipe de Trump quais e onde certas mensagens funcionavam melhor. A decisão de focar em Michigan e Wisconsin nas últimas semanas da campanha veio da análise de dados. O candidato se tornou o instrumento para implementar um grande modelo de dados.

O que vem pela frente?

Mas, até que ponto os métodos psicométricos influenciaram o resultado da eleição? Questionada, a Cambridge Analytica não estava disposta a fornecer qualquer prova da eficácia da sua campanha. E é bem possível que a pergunta seja impossível de responder.

Mas, há alguns indícios fortes. Há a ascensão surpreendente de Ted Cruz durante as primárias. Também houve um aumento grande no número de eleitores de áreas rurais. Houve o declínio na presença de negros nos primeiros dias de votação. O gasto relativamente baixo de Trump pode ser explicado pela eficácia da publicidade baseada em perfis psicológicos. Ou simplesmente por ter investido muito mais em digital do na TV em comparação com Hillary. O Facebook provou ser a arma definitiva e o melhor militante, como explicou Nix e comentários de vários apoiadores de Trump.

Muitos alegaram que os estatísticos perderam a eleição porque suas previsões erraram o alvo. Mas e se os estatísticos ajudaram a vencer a eleição, mas apenas que usou o novo método? É uma ironia da história que Trump, que muitas vezes resmungou sobre pesquisas científica, tenham usado uma estratégia altamente científica em sua campanha.

Theresa May trump

Theresa May, primeira-ministra britânica, também teria se beneficiado do mesmo tipo de pesquisa que Trump

Outro grande vencedor é a Cambridge Analytica. Embora a empresa não comente, há supostas negociações em andamento com a primeira-ministra do Reino Unido, Theresa May. Alexander Nix afirma ainda que está reunindo clientes em todo o mundo, incluindo Suíça, Alemanha e Austrália. Sua companhia está viajando atualmente para conferências europeias que usam a empresa como case de sucesso nos Estados Unidos. Em 2017, três países centrais da União Europeia têm eleições com partidos populistas que ressurgem das cinzas: França, Holanda e Alemanha. Os sucessos eleitorais vêm em momento oportuno, quando a empresa se prepara para entrar na publicidade comercial.

Kosinski observou tudo isso em seu escritório em Stanford. Após a eleição dos EUA, a universidade está em tumulto. Kosinski está reagindo a tudo isso a melhor arma para um pesquisador: uma pesquisa científica. Junto com sua colega de pesquisa Sandra Matz, ele realizou uma série de testes, que em breve serão publicados. Os resultados iniciais são alarmantes. O estudo mostra a eficácia da segmentação de personalidade. Segundo novos levantamentos, profissionais de marketing podem atrair até 63% mais cliques e 1.400 mais conversões em campanhas no Facebook ao combinar produtos e mensagens com a personalidade dos consumidores. Eles ainda demonstram a escalabilidade do método, mostrando que a maioria das páginas de produtos ou marcas no Facebook são afetadas pela personalidade. Um grande número de consumidores podem ser segmentados com precisão a partir de uma única página do Facebook.

Após a publicação original deste artigo na alemã Das magazine, a Cambridge Analytica emitiu em comunicado. "A Cambridge Analytica não usa dados do Facebook, não teve relações com o Dr. Michal Kosinski, não subcontrata pesquisas e não usa a mesma metodologia. A psicografia praticamente não foi usada. A Cambridge Analytica não trabalhou de forma alguma para desencorajar norte-americanos a votarem nas eleições presidenciais. Nossos esforços foram direcionados unicamente para aumentar o número de eleitores".

O mundo foi virado de cabeça para baixo. A Grã-Bretanha está deixando a União Europeia, Donald Trump é presidente dos Estados Unidos da América. Kosinski queria alertar contra os perigos do direcionamento psicológico na política, mas está novamente recebendo e-mails ameaçadores. "Não", diz Kosinski, calmamente e balançando a cabeça. "Não é minha culpa, eu não construí a bomba, só mostrei ao mundo que ela existe".

O artigo original sobre a pesquisa do Dr. Michal Kosinski apareceu originalmente na Das Magazin, em dezembro. A versão em inglês deste artigo foi publicada antes no Motherboard.



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