Um livro é um mudo que fala, um surdo que responde, um cego que guia, um morto que vive. (Padre Antônio Vieira)

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

As mentiras do Banco Mundial sobre as universidades públicas

A comparação, de acordo com Lira Neto, "é escalafobética. Nas universidades públicas, ao contrário do que ocorre na maioria das instituições privadas, a vida acadêmica não se resume à sala de aula. Abrange o indissolúvel trinômio ensino, pesquisa e extensão, por meio de ações sistemáticas junto à comunidade. Daí a necessidade de investimentos sólidos em hospitais, clínicas, museus, teatros e laboratórios, entre outros equipamentos".

Logo adiante, cita o físico Peter Schulz, que em artigo no "Jornal da Unicamp", observou que "39% dos docentes da rede pública têm formação de doutorado, contra 22,5% da privada. Como dado extra, 85% dos professores das universidades públicas trabalham em regime de tempo integral. Nas privadas, 22,5%".

O relatório do Banco Mundial diz ainda: "os professores universitários brasileiros ganham muito acima dos padrões internacionais", dado negado pelo escritor de maneira espirituosa: "um gráfico contido no próprio documento desmente a pegadinha: mesmo o salário dos professores que atingem o topo da carreira, no Brasil, situa-se em nível bem inferior ao dos colegas estadunidenses, italianos, australianos e franceses, por exemplo".

O pior, no entanto, ainda estava por vir. O Banco Mundial repete "uma lenda urbana que cerca a academia": "Embora os estudantes de universidades federais não paguem por sua educação, mais de 65% deles pertencem aos 40% mais ricos da população", diz o relatório.

No entanto, pesquisas do Fonaprace (Fórum Nacional de Pró-Reitores de Assuntos Comunitários e Estudantis) e da Andifes (Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior), de acordo com o escritor, apontam o contrário. "Apenas 10,6% dos alunos das universidades públicas vêm de famílias com renda superior a dez salários mínimos. Com a democratização introduzida pelo sistema de cotas, o índice de estudantes oriundos de famílias com renda abaixo de três salários, atualmente em 51,4%, só tende a crescer".

Amparado no relatório, o Banco Mundial propôs ao governo dois caminhos: "limitar os gastos por aluno" e "introduzir tarifas escolares". Em bom português, sucatear a universidade e cobrar mensalidades.

Lira Neto ressalta que "ao longo das 17 páginas do documento relativas ao tema, em nenhum momento os repasses para o setor educacional são definidos como 'investimento'. Em contrapartida, a palavra 'gasto' aparece nada menos de 77 vezes".

No final, ele lembra que é "impossível dissociar a leitura do relatório e a escalada autoritária que busca criminalizar a arte e a cultura, bem como espezinhar qualquer manifestação do pensamento complexo e do espírito crítico. Virtudes que encontram na universidade pública um de seus últimos territórios de excelência".

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Manipulados


São sete da manhã e um rapaz de 18 anos liga o computador em sua casa em Vitória, no Espírito Santo, e dá início à sua rotina de trabalho. Atualiza o status de um dos perfis que mantém no Facebook: "Alguém tem um filme para recomendar?", pergunta. Abre outro perfil na mesma rede. "Só queria dormir a tarde inteira", escreve. Um terceiro perfil: "Estou com muita fome". Ele intercala esses textos com outros em que apoia políticos brasileiros.

Esses perfis não tinham sua foto ou nome verdadeiros, assim como os outros 17 que ele disse controlar no Facebook e no Twitter em troca de R$ 1,2 mil por mês. Eram, segundo afirma, perfis falsos com fotos roubadas, nomes e cotidianos inventados. O jovem relatou à BBC Brasil que esses perfis foram usados ativamente para influenciar o debate político durante as eleições de 2014. 

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Viva a Universidade pública brasileira!

Há quase um ano, no dia 9 de dezembro de 2016, a Polícia Federal invadiu a UFRGS, em vista de uma suspeita de fraude em um programa de extensão. A PF batizou todo o movimento de "Operação PhD". Pouco tempo depois, em 13 de fevereiro de 2017, algo semelhante aconteceu na própria UFPR. Em uma operação (batizada de "Research"), foram envolvidos mais de 180 agentes federais, cumprindo vários mandados de prisão e oito conduções coercitivas.

Mas o pior estava por vir: no dia 14 de setembro de 2017, numa operação batizada de "Ouvidos Moucos" (em alusão direta à suposta falta de respostas da universidade aos órgãos de controle), a polícia chegou na UFSC para cumprir sete mandados de prisão temporária e cinco de condução coercitiva. Mais de 115 policiais foram envolvidos na operação – que vieram inclusive de outros estados. Nesse caso, porém, houve um fato grave adicional: o próprio reitor da UFSC – Luis Cancellier de Olivo – foi preso "por obstruir investigações". Os supostos desvios (ainda em fase de investigação e apuração) teriam ocorrido na gestão anterior a dele. Levado a um presídio, algemado, submetido à revista íntima e solto logo depois, mas impedido por ordem judicial de colocar os pés na universidade que o elegeu, Cancellier cometeu suicídio no dia 02 de outubro de 2017.


Para quem imaginava que esta tragédia serviria para que a escalada contra as universidades fosse objeto de reflexão e cuidado, ontem, dia 6 de dezembro de 2017, veio outro grande choque: o alvo foi a UFMG. Outra operação policial, com 84 policiais federais, 15 auditores da CGU e dois do TCU cumpriu oito mandados de condução coercitiva e onze de busca e apreensão. A operação – não sem certo mal gosto irônico – foi intitulada "Esperança equilibrista" (numa referência direta a uma canção símbolo da época da redemocratização brasileira, "O bêbado e o equilibrista"). Foram conduzidos coercitivamente os atuais reitor e vice-reitora da UFMG (Jaime Ramirez e Sandra Almeida), além de servidores e dirigentes das gestões anteriores.

Como se viu, em pouco menos de um ano, 4 das maiores universidades federais do Brasil (UFMG, UFRGS, UFSC e UFPR), sofreram impactantes operações policiais, com quantidade de agentes (geralmente também acompanhados de auditores de órgão de controle) suficientes para um conflito armado. Todas com imensa e desmedida repercussão midiática. Em alguns desses casos, com prisão ou condução coercitiva das autoridades máximas – nos planos administrativo e simbólico – das instituições universitárias. Nunca se viu um cenário desses antes.

As universidades, seus professores, servidores técnicos e pesquisadores teriam se pervertido tanto assim em um ano? Teriam se transformado de repente em ninhos de bandidos? E se perceba: se está falando de instituições tradicionais – a nossa UFPR é centenária – que durante décadas foram vistas como celeiros do conhecimento brasileiro e da formação de gerações. As universidades não são perfeitas, como nenhuma instituição pública ou privada o é, mas seguramente não são esse antro de corrupção, descontrole e ineficiência que as ações policiais sugerem e que a mídia propaga.

Se é assim, é melhor olhar com certa frieza para o que há de comum nesse triste contexto. Primeiro, operações policiais e órgãos de controle têm elegido as universidades públicas como principais focos de sua atenção. Não são os ministérios, autarquias ou os demais órgãos federais – seguramente nenhum deles berços infalíveis de virtudes infinitas; agora os olhos do controle e da repressão se voltam para as universidades públicas.

Segundo: de repente – mais do que em qualquer outro tempo – a imprensa se concentra no que acontece nas Universidades. Mas não para falar sobre os milagres cotidianos que operamos (na formação das pessoas, na ciência, na tecnologia, na inovação ou na inclusão social), mas naquilo que, aos seus olhos, lhe parece suspeito, mesmo que ainda não haja investigação ou decisão definitiva sobre o que se noticia.

Terceiro: todas essas confusões – todas – são feitas sem que haja um juízo condenatório definitivo: o escarcéu repressivo e midiático acontece antes e a apuração de responsabilidades vem depois.

Quarto: parece que houve uma suspensão de alguns direitos no Brasil, como a presunção de inocência, o devido processo legal e a dignidade da pessoa humana. O clima policialesco e a mentalidade inquisitória parecem ter definitivamente suplantado uma cultura de direitos que valorizava a liberdade. Em nome de um certo moralismo administrativo e de uma sanha punitivista, garantias e direitos individuais são colocados como detalhes incômodos e inconvenientes.

Quinto: o princípio da autonomia universitária (prevista no art. 207 da Constituição), por todas as razões antes já mencionadas, hoje foi reduzido a pó e a letra morta.

O momento é de fato grave: enquanto deputados ou senadores filmados em flagrante delito por graves desvios são soltos pelos seus pares, reitores têm sua liberdade cassada. A sociedade deve, com muita premência, pensar que tipo de mundo pretende construir quando instituições como as universidades públicas (responsáveis por cerca de 90% da ciência e tecnologia do Brasil) são demonizadas, expostas, desrespeitadas e quando seus dirigentes são imolados publicamente.

O Brasil precisa pensar em que tipo de futuro quer apostar. E para mim a resposta só pode ser essa: é momento de resistir e defender a Universidade Pública. Viva a UFRGS! Viva a UFSC! Viva a UFMG! Viva a UFPR!

Ricardo Marcelo Fonseca
Reitor da UFPR

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

O teste do ácido do refresco elétrico

"todavia-nadavia-alucinada-alucitudo!" p. 413


WOLFE, Tom. O teste do ácido do refresco elétrico. Rio de Janeiro: Rocco, 1993., 439 p. 


quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Biblioteca do Futuro

China inaugura a biblioteca mais espetacular do mundo com 1,2 milhões de livros e o interior é de cortar a respiração

Ninguém gosta de ser observado enquanto lê um livro, mas estamos dispostos a abrir uma excepção se isso significar visitar essa incrível biblioteca na China, porque, como você pode ver abaixo, a incrível estrutura tem um gigante auditório esférico no meio que parece um olho gigante.

Localizada no distrito cultural de Binhai, em Tianjin, a biblioteca de cinco andares, projetada pela empresa de design holandesa MVRDV, em colaboração com o Instituto de Planejamento e Design Urbano de Tianjin (TUPDI) e desde então denominada "O olho de Binhai", cobre 34 mil metros quadrados e pode armazenar até 1,2 milhões de livros. Com a sua construção demorando apenas 3 anos, a biblioteca possui uma área de leitura no piso térreo, salas de estar nas secções do meio e escritórios, espaços de reunião e salas de informática / áudio no topo.

Nós não temos certeza se daria para estudar lá – nós estaríamos muito ocupados maravilhando-nos com a incrível arquitetura!

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Nomofobia

Como muitos de sua geração, o estudante L.L., 29 anos, ama computadores. Mas o apego à tecnologia começou a afetar os estudos, o trabalho, o relacionamento com a família e amigos. Virou uma forma de evitar as pessoas. Foi quando viu que precisava de ajuda (faça o teste e confira se também é hora de buscar ajuda).

L.L. sofre de dependência digital, ou nomofobia (do original "no mobile fobia"), uma patologia com consequências psíquicas, sociais e físicas.

Em setembro, ele iniciou o tratamento no Instituto Delete, o primeiro do Brasil especializado em detox digital e que presta atendimento gratuito.

Instalado no Instituto de Psiquiatria (Ipub) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o Delete foi criado em 2013 pela psicóloga Anna Lucia King e desde então avaliou 800 pessoas com algum tipo de dependência tecnológica.


fonte: https://g1.globo.com/bemestar/noticia/saiba-o-que-e-a-nomofobia-quando-o-uso-de-tecnologias-vira-doenca.ghtml

Burro de Facebook

Antônio Fagundes diz que redes sociais 'emburrecem' as pessoas e que hoje 'debate inteligente é revolucionário'

Veja o que ator aprendeu ao debater peça com plateia sem as 'palavras de ordem' e a 'agressão' da internet. Ele analisa Lei Rouanet, lembra 'Hair' com nudez em 1969 e vê 'moral do século 19' hoje.

Toda noite aos finais de semana, Antônio Fagundes faz uma coisa arriscada: abre um debate entre 700 desconhecidos sobre relações de gênero, família e questões morais espinhosas. No fim da peça "Baixa terapia", os espectadores são chamados para a conversa. Será que ainda é possível usar a arte para promover discussões civilizadas?
O ator ainda acha possível, mas nota as dificuldades. A comédia com final desconcertante estreou em março, com sessões cheias até hoje. Na noite presenciada pelo G1, uma jovem saiu chorando, horrorizada, e uma senhora elogiou, maravilhada. Mas a surpresa da noite foi o esforço por uma discussão aberta e não agressiva.
A partir desta e de outras experiências, o ator e produtor de 68 anos opinou sobre relação entre artistas e público e o mercado cultural hoje. A entrevista é dividida em três partes:
  1. No vídeo acima, ele explica porque acredita no debate a partir da arte numa era em que redes sociais nos 'emburrecem'.
  2. No vídeo abaixo, ele lembra a 'revolução' dos anos 60, como no musical 'Hair', com nudez no palco. Para ele, tentar censurar nudez na arte hoje é voltar à 'moral do século 19'.
  3. No terceiro vídeo, ele explica porque defende investimento cultural do Estado, mas não usa Lei Rouanet. Meta: 'Entrar em cena e falar o que quiser sem ninguém encher meu saco'.

  4. https://g1.globo.com/pop-arte/noticia/antonio-fagundes-diz-que-redes-sociais-emburrecem-as-pessoas-e-que-hoje-debate-inteligente-e-revolucionario.ghtml

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Um trilhão, imbecis!

Em pronunciamento no plenário, nesta segunda-feira (6), o senador Roberto Requião cobrou fortemente os operadores da Lava Jato que assistem passivamente a entrega do país e o desmantelamento do setor público sem qualquer reação. O Senador perguntou diretamente a Sérgio Moro, Deltan Dallagnoll, Carmem Lúcia, Raquel Dodge e a delegados da Polícia Federal porque nada fazem quando um governo absolutamente mergulhado na corrupção vende o Brasil a preço de banana.

Lava Jato, trair a Pátria não é crime? Vender o país não é corrupção?

Roberto Requião[1]

O juiz Sérgio Moro sabe; o procurador Deltan Dallagnol tem plena ciência. Fui, neste plenário, o primeiro senador a apoiar e a conclamar o apoio à Operação Lava Jato. Assim como fui o primeiro a fazer reparos aos seus equívocos e excessos.

Mas, sobretudo, desde o início, apontei a falta de compromisso da Operação, de seus principais operadores, com o país. Dizia que o combate à corrupção descolado da realidade dos fatos da política e da economia do país era inútil e enganoso.

E por que a Lava Jato se apartou, distanciou-se dos fatos da política e da economia do Brasil?

Porque a Lava Jato acabou presa, imobilizada por sua própria obsessão;

obsessão que toldou, empanou os olhos e a compreensão dos heróis da operação ao ponto de eles não despertarem e nem reagirem à pilhagem criminosa, desavergonhada do país.

Querem um exemplo assombroso, sinistro dessa fuga da realidade?

Nunca aconteceu na história do Brasil de um presidente ser denunciado por corrupção durante o exercício do mandato. Não apenas ele. Todo o entorno foi indigitado e denunciado. Mas nunca um presidente da República desbaratou o patrimônio nacional de forma tão açodada, irresponsável e suspeita, como essa Presidência denunciada por corrupção.

Vejam. Só no último o leilão do petróleo, esse governo de denunciado como corrupto, abriu mão de um trilhão de reais de receitas.

Um trilhão, Moro!

Um trilhão, Dallagnoll!

Um trilhão, Polícia Federal!

Um trilhão, PGR!

Um trilhão, Supremo, STJ, Tribunais Federais, Conselhos do Ministério Público e da Justiça.

Um trilhão, brava gente da OAB!

Um trilhão de isenções graciosamente cedidas às maiores e mais ricas empresas do planeta Terra. Injustificadamente. Sem qualquer amparo em dados econômicos, em projeções de investimentos, em retorno de investimentos. Sem o apoio de estudos sérios, confiáveis.

Nada! Absolutamente nada!

Foi um a doação escandalosa. Uma negociata impudica.

Abrimos mão de dinheiro suficiente para cobrir todos os alegados déficits orçamentários, todos os rombos nas tais contas públicas.

Abrimos mão do dinheiro essencial, vital para a previdência, a saúde, a educação, a segurança, a habitação e o saneamento, as estradas, ferrovias, aeroportos, portos e hidrovias, para os próximos anos.

Mas suas excelentíssimas excelências acima citadas não estão nem aí. Por que, entendem, não vem ao caso…

Na década de 80, quando as montadoras de automóveis, depois de saturados os mercados do Ocidente desenvolvido, voltaram os olhos para o Sul do mundo, os governantes da América Latina, da África, da Ásia entraram em guerra para ver quem fazia mais concessões, quem dava mais vantagens para "atrair" as fábricas de automóveis.

Lester Turow, um dos papas da globalização, vendo aquele espetáculo deprimente de presidentes, governadores, prefeitos a oferecer até suas progenitoras para atrair uma montadora de automóvel, censurou-os, chamando-os de ignorantes por desperdiçarem o suado dinheiro dos impostos de seus concidadãos para premiarem empresas biliardárias.

Turow dizia o seguinte: qualquer primeiroanista de economia, minimamente dotado, que examinasse um mapa do mundo, veria que a alternativa para as montadoras se expandirem e sobreviverem estava no Sul do Planeta Terra. Logo, elas não precisavam de qualquer incentivo para se instalarem na América Latina, Ásia ou África. Forçosamente viriam para cá.

No entanto, governantes estúpidos, bocós, provincianos, além de corruptos e gananciosos deram às montadoras mundos e fundos.

Conto aqui uma experiência pessoal: eu era governador do Paraná e a fábrica de colheitadeiras New Holland, do Grupo Fiat, pretendia instalar-se no Brasil, que vivia à época o boom da produção de grãos.

A Fiat balançava entre se instalar no Paraná ou Minas Gerais. Recebo no palácio um dirigente da fábrica italiana, que vai logo fazendo numerosas exigências para montar a fábrica em meu estado. Queria tudo: isenções de impostos, terreno, infraestrutura, berço especial no porto de Paranaguá, e mais algumas benesses.

Como resposta, pedi ao meu chefe de gabinete uma ligação para o então governador de Minas Gerais, o Hélio Garcia. Feito o contanto, cumprimento o governador: "Parabéns, Hélio, você acaba de ganhar a fábrica da New Holland". Ele fica intrigado e me pergunta o que havia acontecido.

Explico a ele que o Paraná não aceitava nenhuma das exigências da Fiat para atrair a fábrica, e já que Minas aceitava, a fábrica iria para lá.

O diretor da Fiat ficou pasmo e se retirou. Dias depois, ele reaparece e comunica que a New Holland iria se instalar no Paraná.

Por que?

Pela obviedade dos fatos: o Paraná à época, era o maior produtor de grãos do Brasil e, logo, o maior consumidor de colheitadeiras do país; a fábrica ficaria a apenas cem quilômetros do porto de Paranaguá; tínhamos mão-de-obra altamente especializada e assim por diante.

Enfim, o grande incentivo que o Paraná oferecia era o mercado.

O que me inspirou trucar a Fiat? O conselho de Lester Turow e o exemplo de meu antecessor no governo, que atraiu a Renault, a Wolks e a Chrysler a peso de ouro e às custas dos salários dos metalúrgicos paranaenses, pois o governador de então chegou até mesmo negociar os vencimentos dos operários, fixando-os a uma fração do que recebiam os trabalhadores paulistas.

Mundos e fundos, e um retorno pífio.

Pois bem, voltemos aos dias de hoje, retornemos à história, que agora se reproduz como um pastelão.

O pré-sal, pelos custos de sua extração, coisa de sete dólares o barril, é moranguinho com nata,, uma mamata só!

A extração do óleo xisto, nos Estados Unidos, o shale oil , chegou a custar até 50 dólares o barril;

o petróleo extraído pelos canadenses das areias betuminosas sai por 20 a 30 dólares o barril; as petrolíferas, as mesmas que vieram aqui tomar o nosso pré-sal, fecharam vários projetos de extração de petróleo no Alasca porque os custos ultrapassavam os 40 dólares o barril.

Quer dizer: como no caso das montadoras, era natural, favas contadas que as petrolíferas enxameassem, como abelhas no mel, o pré-sal. Com esse custo, quem não seria atraído?

Por que então, imbecis, por que então, entreguistas de uma figa, oferecer mais vantagens ainda que a já enorme, incomparável e indisputável vantagem do custo da extração?

Mais um dado, senhoras e senhores da Lava Jato, atrizes e atores daquele malfadado filme: vocês sabem quanto o governo arrecadou com o último leilão? Arrecadou o correspondente a um centavo de real por litro leiloado.

Um centavo, Moro!

Um centavo, Dallagnoll!

Um centavo, Carmem Lúcia!

Um centavo, Raquel Dodge!

Um centavo, ínclitos delegados da Policia Federal!

Esse governo de meliantes faz isso e vocês fazem cara de paisagem, viram o rosto para o outro lado.

Já sei, uma das razões para essa omissão indecente certamente é, foi e haverá de ser a opinião da mídia.

Com toda a mídia comercial, monopolizada por seis famílias, todas a favor desse leilão rapinante, como os senhores e as senhoras iriam falar qualquer coisa, não é?

Não pegava bem contrariar a imprensa amiga, não é, lavajatinos?

 

Renovo a pergunta: desbaratar o suado dinheiro que é esfolado dos brasileiros via impostos e dar isenção às empresas mais ricas do planeta é um ou não é corrupção?

Entregar o preciosíssimo pré-sal, o nosso passaporte para romper com o subdesenvolvimento, é ou não é suprema, absoluta, imperdoável corrupção?

É ou não uma corrupção inominável reduzir o salário mínimo e isentar as petroleiras?

Será, juízes, procuradores, policiais federais, defensores públicos, será que as senhoras e os senhores são tão limitados, tão fronteiriços, tão pouco dotados de perspicácia e patriotismo ao ponto de engolirem essa roubalheira toda sem piscar?

Bom, eu não acredito, como alguns chegam a acusar, que os senhores e as senhoras são quintas-colunas, agentes estrangeiros, calabares, joaquins silvérios ou, então, cabos anselmos.

Não, não acredito.

Não acredito, mas a passividade das senhoras e dos senhores diante da destruição da soberania nacional, diante da submissão do Brasil às transnacionais, diante da liquidação dos direitos trabalhistas e sociais, diante da reintrodução da escravatura no país.... essa passividade incomoda e desperta desconfianças, levanta suspeitas.

Pergunto, renovo a pergunta: como pode um país ser comandado por uma quadrilha, clara e explicitamente uma quadrilha, e tudo continuar como se nada estivesse acontecendo?

Responda, Moro.

Responda, Dallagnoll.

Responda, Carmem Lúcia.

Responda, Raquel Dodge.

Respondam, oh, ínclitos e severos ministros do Tribunal de Contas da União que ajudaram a derrubar uma presidente honesta.

Respondam, oh guardiões da moral, da ética, da honestidade, dos bons costumes, da família, da propriedade e da civilização cristã ocidental.

Respondam porque denunciaram, mandaram prender, processaram e condenaram tantos lobistas, corruptores de parlamentares e de dirigentes de estatais, mas pouco se dão se, por exemplo, lobistas da Shell, da Exxon e de outras petroleiras estrangeiras circulem pelo Congresso obscenamente, a pressionar, a constranger parlamentares em defesa da entrega do pré-sal,

e do desmantelamento indústria nacional do óleo e do gás?

Eu vi, senhoras e senhores. Eu vi com que liberdade e desfaçatez o lobista da Shell, semanas atrás, buscava angarias votos para aprovar a maldita, indecorosa MP franqueando todo o setor industrial nacional do petróleo à predação das multinacionais.

Já sei, já sei.... isso não vem, ao caso.

Fico cá pensando o que esses rapazes e essas moças, brilhantíssimos campeões de concursos públicos, fico pensando.....o que eles e elas conhecem de economia, da história e dos impasses históricos do desenvolvimento brasileiro?

Será que eles são tão tapados ao ponto de não saberem que sem energia, sem indústria, sem mercado consumidor, sem sistema financeiro público, para alavancar a economia, sem infraestrutura não há futuro para qualquer país que seja? Esses são os ativos imprescindíveis para o desenvolvimento, para a remissão do atraso, para o bem-estar social e para a paz social.

Sem esses ativos, vamos nos escorar no quê? Na produção e exportação de commodities? Ora.....

Mas, os nossos bravos e bravas lavajatinos não consideram o desbaratamento dos ativos nacionais uma forma de corrupção.

Senhoras, senhores, estamos falando da venda subfaturada –ou melhor, da doação- do país todo! Todo!

E quem o vende?

Um governo atolado, completamente submerso na corrupção.

E para que vende?

Para comprar parlamentares e assim escapar de ser julgado por corrupção.

Depois de jogar o petróleo pela janela, preparando assim o terreno para a nossa perpetuação no subdesenvolvimento, o governo aproveita a distração de um feriado prolongado e coloca em hasta pública o Banco do Brasil, a Caixa Econômica, a Eletrobrás, a Petrobrás e que mais seja de estatal.

Ladrões de dinheiro público vendendo o patrimônio público.

Pode isso, Moro?

Pode isso, Dallagnoll?

Pode isso, Carmem Lúcia?

Pode isso, Raquel Dodge?

Ou devo perguntar para o Arnaldo?

À véspera do leilão do pré-sal, semana passada, tive a esperança de que algum juiz intrépido ou algum procurador audacioso, iluminados pelos feéricos, espetaculosos exemplos da Lava Jato, impedissem esse supremo ato de corrupção praticado por um governo corrupto.

Mas, como isso não vinha ao caso, nada tinha com os pedalinhos, o tríplex, as palestras, o aluguel do apartamento, nenhum juiz, nenhum procurador, nenhum delegado da polícia federal, e nem aquele rapaz do TCU, tão rigoroso com a presidente Dilma, ninguém enfim, se lixou para o esbulho.

Ah, sim, não estava também no power point....

É com desencanto e o mais profundo desânimo que pergunto: por que Deus está sendo tão duro assim com o Brasil.


sábado, 4 de novembro de 2017

O que estamos esperando?

A publicação do Decreto nº 9188 no meio do feriadão enforcado pela ministra Carmen Lúcia põe a nu a desfaçatez do governo golpista e a pasmaceira que domina nossa sociedade. O Sr. Michel Temer, que conseguiu se manter na presidência usurpada graças a um leilão de ativos públicos a deputados, promove, agora, o leilão de todas as sociedades de economia mista numa penada só. Banco do Brasil, Eletrobrás, Petrobrás... a prata da casa pelas usuais misérias do mercado que "precifica" a ganância de governos corruptos. Foi assim na privatização de FHC, que rendeu míseros recursos não vistos por brasileiras e brasileiros, supostamente usados, em parte, para garantir a reeleição. Agora, com o caixa vazio, sem perspectiva de poder distribuir prebendas para parlamentares que aderem, desde que bem pagos, à liquidação de direitos, a venda das estatais é o derradeiro tiro na dignidade do Brasil.
 
Que a mídia comercial nada diga, é natural. O decreto teve que ser "prospectado" por assíduos leitores de diários oficiais. Mas o pior é que a sociedade não se move. Aceitou sem reclamar a derrubada da presidenta eleita por um legislativo ganancioso, vem aceitando arroubos malcriados de juízes e até ministros do STF fora dos autos, aceita a instalação de uma base americana na Amazônia, aceita a venda da estação de lançamento de foguetes de Alcântara aos mesmos americanos, aceita a entrega do pré-sal por preço de banana a multinacionais estrangeiras, aceita mudança na lei de diretrizes e bases por medida provisória, aceita a elevação da contribuição previdenciária de servidores públicos sem qualquer debate sério, aceita o perdão de dívidas a sonegadores endinheirados e bancos, aceita a reforma trabalhista que acaba com qualquer perspectiva de dignidade no emprego, aceita o perdão a trabalho indigno equiparado a escravo, aceita o aumento em mais de 50% do gás de cozinha, aceita provocações e mais provocações de um bando que se intitula governo sem qualquer legitimidade. Sem reagir. Como se fôssemos todos feitos de goma elástica, sem espinha dorsal.
 
Batemos palmas a um discurso idiota e mal elaborado de "combate à corrupção", que só tem logrado destruir o parque industrial estratégico do país e tirar o emprego de centenas de milhares de cidadãs e cidadãos. E deixamos estar tudo como está: o usurpador do executivo vendendo o que é nosso para se safar da justiça, ao mesmo tempo em que ricos delatores são, depois de confessados seus crimes e inculpados os alvos políticos da investigação, deixados em paz, a curtirem seu whisky de 30 anos no novembro tão azul quanto o rótulo da garrafa da ilustre bebida.
 
E così la nave và...
 
No Chile, em que o liberalismo chicaguiano venceu a esperança, foi preciso um sangrento golpe militar para a tarefa de que aqui se desincumbem com a tranquilidade do ladrão de cofre residencial que sabe a família de férias. Nada de gritos, choros ou ranger de dentes. E ainda fazem dancinha de bunda gorda na nossa cara, que nem o líder daquilo que ousam chamar de governo na Câmara dos Deputados.
 
Cadê nossa altivez, nossa honra, nossa autoestima? Será que valeu a pena sacar uma presidenta honesta por isso? Por essa pinguela para a barbárie? Será que não pensamos nas nossas filhas e nos nossos filhos, sem futuro, territorializados numa economia globalizada? Sem ativos nacionais, nosso País está perdido. Está condenado a ser um ator de terceira divisão nesse mundo de cão que se nos desenha para as próximas décadas.
 
O que falta fazer para tirar o traseiro do sofá, para tirar os dedos do smartphone e reagir? Quando nos atentarmos para o estrago, será tarde demais e o Sr. Temer nada pagará, porque estará descansando em paz com seu bilau televisado. Mas nós teremos saudades do tempo em que poderíamos ter dado um rumo diferente a nosso destino e não demos.
É melhor reagirmos. Antes tarde do que nunca.
 
Eugênio José Guilherme de Aragão
 

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

SENNETT, Richard. A cultura do novo capitalismo.

SENNETT, Richard. A cultura do novo capitalismo. 2 ed. Rio de Janeiro: Record, 2008. 189 p.

 

cultura [...] quais os valores e práticas capazes de manter as pessoas unidas no momento em que as instituições em que vivem se fragmentam. 13

prosperar em condições sociais instáveis [...] três desafios: tempo [...] talento [...] permitir que o passado fique para trás. 13-14

o mais fundamental dos problemas culturais: boa parte da realidade social moerna é ilegível para as pessoas. 20

Passar o tempo numa organização de funções preestabelecidas fixas é como rastejar lentamente escada acima, ou escada abaixo, numa casa que não concebemos. 35

postergar a realização plena torna-se um modo de vida. 36

em termos sociais, o trabalho de curto prazo por tarefa altera o funcionamento do trabalho em conjunto. 51

a desigualdade se traduz em termos de distância; quanto maior [...] quanto menos for sentido o vínculo de ambos os lados - maior a desigualdade social entre eles. 55-56

os três déficts da mudança estrutural são baixo nível de lealdade institucional, diminuição da confiança informal entre os trabalhadores e enfraquecimento do conhecimento institucional. 62

nas empresas de baixo capital social, a presão adquire vida própria e se torna embotadora. 64

[...] a miaoria dos programas de computação mais aplica que adapta normas. 67

uma pessoa de origemprivilegiada pode se dar a luxo da confusão estretégica, o que não acontece com um filho das massas. Oportunidades casuais podem oferecr-se ao filho do privilégio em virtude do meio familiar e das redes educacionais; o privilégio diminui a necessidade de traçar estratégias. 76

costuma-se dizer que as nova tecnologia pode de certa forma corrigir esta desigualdade (rede de contatos) [...] os jovens se apoderem da informação necessária para aproveitar as oportunidades. No mundo do trabalho [...] não é o que acontece. O contato pessoal é importante. Por isso é que os especialistas técnicos comparecem a tantas convenções [...] ficam fora dos processos decisórios informais. 76

o social foi minorado; o capitalismo permanece. A desigualdade torna-se cada vez mais vinculada ao isolamento. 77

os operários modernos finalmente estão enfrentando o fantasma da inutilidade automatizada. 89

quando adquirimos uma capacitação, não significa que dispomos de um bem durável. 91

a experiência vai perdendo valor à medida que aumenta [...] a extinção de capacitações é uma característica permanente do avanço tecnológico. A automação é indiferente á experiência. [...] mais barato comprar novas capacitações do que pagar pelo retreinamento. 94

Estaria a nova economia gerando uma nova política? 123

O modelo institucional do futuro não lhes fornece uma narrativa de vida em funcionamento [...] na sociedade de redes, as redes informais são tênues. 124

Na era do capitalismo social, as tensões do sistema econômico geravam ressentimento. [...] conjunto de emoções [...] crença de que pessoas comuns que jgaram conforme as regras não receberam um tratamento justo. [...] emoção intensamente social que tende a dissociar-se de suas origens econômicas; [...] gera mágoa, [...] raiva contra [...] inimigos internos que aparentemente roubam recompensas sociais a que não têm direito. No passado [...] a religião e o patriotismo tornaram-se as armas da vingança. Essa emoção não desapareceu [...] trabalhadores [...] centro-esquerda [...] para a extrema-direita, traduzindo as tensões materiais em símbolos culturais [...] uma forma excessivamente acanhada de equacionar economia com política, pis a insegurança material não acarreta apenas maneiras de demonizar os que representam a mudança, com todo o seu séquito de inseguranças. 124

A paixão autocomsumptiva. 127

a realização e a mestria são autoconsumptivas, desgastando-se os contextos e os conteúdos do conhecimento ao serem usados. 132

o que mobiliza o consumidor é a sua própria mobilidade e imaginação: o movimento e a incompletude energizam a imaginação; da mesma forma que a fixidez e a solidez a embotam. 138-139

consumidores de potência. 140

todas as máquinas [...] jogam com a identificação do comprador com o excesso de capacidade nelas contido. A máquina torna-se uma espécie de prótese médica. 142

progressista quero dizer que uma boa forma de organização política é áquela em que todos os cidadãos acreditam que estão juntos num projeto comum. [...] a nova ordem institucional se exime de responsabilidade, tantando apresentar sua própria indiferença como liberdade [...] o vício da política derivada do novo capitalismo é a indiferença. 150

estamos tão habituados à sobreposição dos comportamentos políticos e de consumo que perdemos de vista as consequências: a obsessão da imprensa e do público com os taços individuais de caráter dos políticos mascara a realidade da plataforma de consenso. [...] efeito de divorciar o poder da responsabilidade. 151

talvez a forma mais grave [...] na política moderna seja a recontextualização dos fatos. 151

Mas a facilidade para o usuário faz picadinho da democracia. Para esta, é necessário que os cidadãos estejam dispostos a se esforçar para descobrir como funciona o mundo ao seu redor. 155-156

a economia gera um clima político no qual os cidadãos têm dificuldade para pensar como artesãos. [...] a própria tecnologia [...] milita contra o engajamento. 156

o Ipod incapacita o usua´rio por seu próprio excesso de capacidade; de modo geral, o excessod e informação gerado pela tecnologia moderna ameaça tornar passivos seus destinatários

seely brown the social life of information, 2000

https://books.google.nl/books?id=2rgbwF6vn0EC&lpg=PA63&hl=pt-BR&pg=PP1#v=onepage&q&f=false

Uma transação do tipo texto-mensagem [...] muito pouco se assemelha a uma conversa; sua linguagem é mais primitiva, sendo eliminados na tecnologia os silêncios que indicam dúvida ou objeção, os gestos irônicos, as digressões momentâneas - tudo que faz a comunicação mútua. Sempre que vem a ser institucionalizada rigorosamente, a a tecnologia desabilita o artesanato da comunicação. 157

valores críticos: narrativa, utilidade e perícia. 168

as instituições de ponta, atuando em contextos temporais curtos e incertos, privam os indivíduos do sentido do movimento narrativo. O que significa [...] que os acontecimentos projetados no tempo se conectam, que a experiência se acumula. 169

a insegurança não acontece a um novo estilo de burocracia, ela é ativada. 172

As políticas giram em torno de um pivô cultural, que envolve a própria narrativa. Se na ficção o enredo bem urdido saiu de moda, na vida comum ele é uma raridade; as histórias de vida raramente são bem configuradas. Em etongrafia [...] tentativa de nossos entrevistados de fazer com que sua experiência faça sentido. E não é algo a ser resolvido de uma só vez. Muitas vezes, o entrevistado volta a relatar e reorganizar de outra maneira o mesmo acontecimento, às vezes fracionando uma história aparentemente lógica em pedaços desconexos, para tentar entender o que está sob a superfície. 172

iniciativa de narração [...] o narrador ativamente mobilizado na interpretação da experiência. 173

Nas instituições, os indivíduos muitas vezes podem sucumbir ao sentimento de que não dispõem de iniciativa narrativa; ou seja, de que carecem da possiblidade de interpretar o que lhes está acontecendo. 173

o que tentei explorar [...] foi um paradoxo: tentei mergulhar o mjais fundo possível num modo de vida cada vez mais superficial, uma cultura emergente que repudia o esforço e o compromisso corporificados na perícia artesanal. 179

é possível que a revolta contra essa cultura debilitada seja a próxima página que vamos virar. 180

 


Geração Beat

GINSBERG, Allen. A arte da poesia. In.: Geração Beat. Organização de Sérgio Cohn. Rio de Janeiro: Beco do Azougue, 2010. p. 124-165

A única forma de você se salvar pe cantando [...] de sair das profundezas desta depressão, de arrastar seu corpo ao êxtase e ao entendimento, é se dar completamente aos desejos do seu coração. A imagem é determinada pelo compasso do coração. Você fica de joelhos ou sentado ou apoiado na cabeça e canta preces e mantras até atingir um estado de êxtase e entendimento, e o êxtase transborda do seu corpo [...] o intelecto [...] não tem relevancia nenhuma para a flor que está viva agora. 141


segunda-feira, 30 de outubro de 2017

GLEIK, James. A informação

GLEIK, James. A informação: uma história, uma teoria, uma enxurrada. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.


O autor compara a palavra informação com a palavra energia, em que no sec. XIX foi trazida da filosofia para a matemática, conferindo à energia seu lugar fundamental na visão que os físicos têm da natureza. O mesmo ocorreu com a informação em que um ritual de purificação se tornou necessário. 16

A economia está se reorganizando nos moldes de uma ciência da informação, agora que o próprio dinheiro está concluindo um arco de desenvolvimento da matéria para os bits, armazenado na memória de computadores e em fitas magnéticas, e que as finanças mundiais correm pelo sistema nervoso global. Mesmo quando o dinheiro parecia ser um tesouro material, ocupando espaço nos bolsos, nos compartimentos de carga dos navios e nos cofres dos bancos, ele sempre foi informação. Moedas e notas [...] tecnologias de vida [...] curta para o registro da informação que determina quem é dono do quê. 17

Tudo aquilo que é físico tem uma origem informacional-teórica, e estamos num universo participativo. Wheeler apud 18

Todo universo passa [...] a ser visto como um computador - uma máquina cósmica de processamento de informações. 18

À medida que o papel desempenhado pela informação se expande para além dos limites da capacidade humana, ela se torna excessiva. 19

Cada novo suporte transforma a natureza do pensamento humano. No longo prazo, a História é a história da informação adquirindo consciência de si mesma. 20

Cortando o ar parado da noite sobre um rio, o bater do tambor podia chegar a uma distância de aproximadamente dez km. Transmitidas de vilarejo em vilarejo, as mensagens podiam percorrer mais de 150 km em questão de uma hora. 23

Os antigos não eram desprovidos de recursos. Os gregos usavam faróis de fogo na época da Guerra de Tróia, no séc. XII a.C. [...] uma fogueira armada no cume de uma montanha podia ser vista por postos de sentinelas a uma distância de mais de 30 km. 24

Uma escolha binária, alguma coisa ou coisa nenhuma: o sinal de fogo significava alguma coisa. [...] a transmissão desse único bit exigiu imenso planejamento, muito trabalho, vigilância atenta e lenha. 25

As pessoas tentaram bandeiras, cornetas, sinais de fumaça e troca de reflexos entre espelhos. Eles conjuraram espíritos e anjos para atender aos propósitos da comunicação- e os anjos são, por definição, mensageiros divinos. A descoberta do magnetismo parecia ser especialmente promissora [...] encarnavam poderes ocultos. 25

A ideia das agulhas sintonizadas aparecia sempre que se reuniam filósofos naturais e artistas e artistas ilusionistas. Na Itália um homem tentou vender a Galileu um método secreto para se comunicar com outra pessoa a [...] 3 mil km [...] por meio de uma certa propriedade das agulhas magnéticas. 25

Um produto do novo conhecimento da astronomia e da geografia do séc. XVII. Essa foi a primeira tentativa de estabelecer a então já mais sólida ideia da simultaneidade [...] naquela época, ninguém no mundo conseguia se comunicar tanto, nem tão rápido nem tão livremente, quanto os africanos e os seus tambores. 27

Vail e Morse se voltaram para a ideia de um alfabeto codificado, usando sinais [...] aqueles elementares sinais teriam de dar conta de todas as palavras da linguagem falada ou escrita. 28

Uma testemunha ficou impressionada com a maneira como os telegrafistas internalizavam essas habilidades. 29

John F. Carrington acabou percebendo que os batuques transmitiam não apenas informes e alertas, mas também preces, poesias e até piadas. Os percussionistas não estavam sinalizando, e sim falando: eles falavam num idioma especialmente adaptados para os tambores. 30

Para os percussionistas africanos, as mensagens tinham de ter cerca de oito vezes o comprimento de suas equivalentes faladas. 35

Em pouco tempo, surgiu uma geração de pessoas para quem o rumo da tecnologia da comunicação saltou diretamente do tambor falante para o celular, pulando os estágios intermediários. 36

Nos anos 60 e 70 Walter J. Ong declarou que a era eletrônica seria uma nova era da oralidade [...] com a palavra dita ampliada e difundida como nunca antes [...] As novas mídias pareciam ser o rádio, o telefone e a televisão. Mas estes eram apenas fracos raios de luz que despontavam no céu noturno, uma indicação da fonte de luminosidade que ainda estava além do horizonte [...] ele sem dúvida reconheceria sua qualidade transformadora: não apenas uma revitalização de formas mais antigas, mas algo inteiramente novo. Ele pode ter pressentido a descontinuidade que viria [...] poucos compreendiam melhor do que Ong a profundidade daquela descontinuidade. 38

Por ser uma tecnologia, a escrita exige premeditação e o domínio de uma certa arte. Já a linguagem não é uma tecnologia, independentemente de seu grau de desenvolvimento e de sua eficácia. Não dá para enxerga-la como algo distinto da consciência – ela é aquilo que a consciência produz [...] mais ou menos o mesmo pode ser dito a respeito da escrita – trata-se de um ato concreto – mas, quando a palavra é representada no papel ou na pedra, assume uma existência separada como artifício. Ela é o produto de ferramentas, e é ela própria uma ferramenta. E, como muitas tecnologias que se seguiram, imediatamente encontrou detratores. 39

A escrita passa a existir para possibilitar a retenção da informação ao longo do tempo e do espaço. Antes da escrita, a comunicação é temporária e local [...] o caráter temporário da palavra dita era um dado que dispensava reflexão. A fala era tão transitória que o raro fenômeno do eco, um som ouvido uma vez e então de novo, parecia ser um tipo de mágica. 41

O poder não está apenas no conhecimento, preservado e passado adiante, por mais valioso que seja, e sim na metodologia: indicações visuais codificadas, o ato da transferência, substituindo signos por coisas. E então, mais tarde, signos por signos. 41

A primeira vista, trata-se de algo insondável. Começa a fazer sentido ao ser considerado uma afirmação a respeito da linguagem e da lógica. 49

O conhecimento tem um valor e um custo de descoberta, que devem ser contabilizados e pesados. 95

Antes do telégrafo elétrico havia o telégrafo simples [...] eles eram ópticos [...] era uma torre para o envio de sinais para outras torres localizadas dentro de seu alcance visual. A tarefa consistia em desenvolver um sistema de sinais mais eficiente e flexível do que as fogueiras. 138

O Conde de Miot de Melito afirmou em suas memórias que Claude Chappe entregou entregou sua ideia ao Gabinete da Guerra sob o nome de tachygraphe (leitor ágil) e que ele, Mihot, propusera télégraphe. 138

Certos sinais eram reservados à correção de erros e ao controle: começo e fim, confirmação de recebimento, atraso, conflito [...] e falha. Outros eram usados aos pares, indicando para o operador determinadas páginas e números de linhas em livros de códigos com mais de 8000 verbetes potenciais: palavras e sílabas, bem como nomes próprios de pessoas e lugares. Tudo isso foi mantido como um segredo [...] as mensagens seria transmitidas pelo céu, a vista de todos. Chappe deu por certo que a rede telegráfica com a qual ele sonhava seria um departamento de Estado, propriedade do governo operada por funcionários públicos. Ele não a via como um instrumento de disseminação do conhecimento ou de geração de riqueza, e sim como um instrumento de poder. 140

Telégrafo significava escrita distante [...] em 1774 Georges-Louis Le Sage, de Genebra, dispôs 24 fios separados e designou a eles 24 letras [...] em 1787, um francês chamado Lomond passou um fio por todo o seu apartamento e disse ser capaz de sinalizar com letras distintas ao fazer uma esfera de metal dançar  em diferentes direções [...] em 1809, um alemão, Samuel Thomas von Sommerring criou um telégrafo de bolhas, cada jato de bolhas indicava uma única letra [...] conseguiu fazer com que a eletricidade soasse uma campainha [...] um norte-americano chamado Harrison Gray Dyer tentou enviar sinais por meio de faíscas criadas a partir do ácido nítrico que descoloria o papel de tornassol [...] então surgiram as agulhas [...] repelida pelo magnetismo. 147

Todos os aspirantes a inventores do telégrafo elétrico [...] trabalhavam com base no mesmo conjunto de ferramentas. Eles tinham fios e agulhas magnéticas. E possuíam baterias [...] não tinham luzes. Não contavam com motores. Dispunham apenas dos mecanismos que eram capazes de construir com a madeira e o latão: pinos, parafusos, rodas, molas e alavancas. E, em última análise, tinham um alvo em comum: as letras do alfabeto. 149

Peter Roget, autor de um Tratado de eletromagnetismo, bem como de um sistema de classificação verbal batizado por ele de Thesaurus. 150

Morse teve a ideia a partir da qual todo o restante fluiu. Sem saber nada a respeito de esferas metálicas, bolas e papel de tornassol, ele viu que um sinal poderia ser formado por algo mais simples, mais fundamental e menos tangível - o mais mínimo dos eventos, o fechamento e a abertura de um circuito. Não eram necessárias agulhas. A corrente elétrica fluía e era interrompida, e as interrupções poderiam ser organizadas para criar significado. 151

A relação entre o telégrafo e o jornal era simbiótica. As reações positivas ampliaram o efeito. O telégrafo, por ser uma tecnologia da informação, serviu como agente de seu próprio domínio. A expansão global do telégrafo continuou a surpreender até mesmo seus defensores. 156

Os conceitos mais elementares estavam agora atuando como consequência da comunicação instantânea entre pontos separados por grandes distâncias. Observadores culturais começaram a dizer que o telégrafo estava aniquilando o tempo e espaço [...] de fato parecia corromper ou encurtar o tempo num sentido [...] o tempo como obstáculo ou fardo para as relações humanas. [...] O mesmo ocorria com o espaço [...] antes todos os horários eram locais [...] agora o tempo podia ser local ou padrão, e essa distinção deixou perplexa a maioria das pessoas [...] quando lugares distantes foram coordenados no tempo [...] puderam [...] medir com precisão a própria longitude [...] horário certo [...] distância necessária [...] longe de aniquilar o tempo a sincronia ampliou seu domínio. A própria noção de sincronia e a consciência de que se tratava de uma ideia nova fizeram cabeças entrar em parafuso. 157

O telégrafo [...] representa uma nova era na transmissão das informações como também deu origem a toda uma nova classe de ideias, uma nova espécie de consciência. Nunca antes uma pessoa teve a consciência de saber com certeza aquilo que estava ocorrendo num determinado momento numa cidade longínqua. 157 Adam Frank apud

A história (e o fazer história) também mudou [...] levou a preservação de inúmeras minúcias relativas à vida cotidiana. Durante algum tempo [...] tentaram manter um registro de todas as mensagens. [...] um armazenamento de informações sem precedentes. 158

Andrew Winter (1863) fez uma previsão: não está distante [...] o dia em que todos poderão conversar com os demais sem ter de sair de casa. 160

Sob mais de um aspecto, usar o telégrafo significava escrever em código. O sistema Morse de pontos e traços não foi chamado inicialmente de código. Era chamado apenas de alfabeto. Alfabeto Telegráfico Morse [...] mas não se tratava de um alfabeto [...] ele não representava o som por meio de signos [...] tomou o alfabeto como ponto de partida e o incrementou, por substituição, trocando signos por novos signos. Tratava-se de um meta-alfabeto, um alfabeto de segundo grau. Esse processo – a transferência de significado de um nível simbólico a outro – já tinha um lugar na matemática. De certa forma, era a própria essência da matemática [...] passava a ser um presença constante na caixa de ferramentas do ser humano [...] por causa do telégrafo, no fim de século XIX as pessoas se [...] familiarizaram, com a ideia dos códigos [...] o movimento de um nível simbólico para outro podia ser chamado de codificação. 160

O telégrafo servia não apenas como um dispositivo, mas como um suporte – um meio, um estado intermediário. A mensagem passa por esse suporte. Além da mensagem, é preciso considerar também seu conteúdo. 162

George Boole [...] propôs que os únicos números permitidos fossem 0 e 1. Era tudo ou nada [...] até então, a lógica pertencera ao domínio da filosofia. Boole estava reivindicando sua posse em nome da matemática. 172

Três grandes ondas de comunicação elétrica formaram suas cristas em sequência: a telegrafia, a telefonia e o rádio. As pessoas começaram a ter a sensação de que era natural possuir máquinas dedicadas ao envio e ao recebimento de mensagens. 178

Aritmética binária. Bem ali, na tese de mestrado de um assistente de pesquisas, estava a essência da futura revolução dos computadores. 183

Leibnitz, Babage, Boole, todos acreditavam que a perfeição do raciocínio poderia advir da codificação perfeita do pensamento [...] com uma codificação desse tipo, as falsidades lógicas seriam denunciadas de forma instantânea.

A tão buscada linguagem universal, as característica universalis que Leibnitz quisera inventar, estivera bem ali o tempo todo, nos números [...] eram capazes de codificar todo o raciocínio. Podiam representar todas as formas de conhecimento. 193

Falta de imaginação diante de uma tecnologia radicalmente nova. O telégrafo estava aos olhos de todos, mas as lições trazidas por ele não tinham uma relação muito clara com esse novo aparelho. O telégrafo exigia alfabetização – o telefone abraçava a oralidade. Para ser enviada via telégrafo, uma mensagem tinha antes de ser escrita, codificada e transmitida por um intermediário treinado. Para usar o telefone, bastava falar. Justamente por esse motivo, parecia um brinquedo [...] não deixava registros permanentes [...] não tinha futuro [...] empresários e comerciantes o consideravam pouco sério. Se o telégrafo trabalhava com fatos e números, o telefone apelava as emoções. 198

Assim, emergem todos os tipos de previsões. Negativas e positivas, de simultaneidade e conexão global. Eu

Teoria da informação de Shannon. A informação é incerteza, surpresa, dificuldade, entropia. 227

Era necessário uma nova unidade de medida. Dígitos binários ou bits. Por ser a menor quantidade possível de informação, um bit representa a quantidade de incerteza que existe no arremesso de uma moeda. 237

Norbert Wiener [...] se preocupava muito com a compreensão dos distúrbios mentais, com as próteses mecânicas e com os deslocamentos sociais que poderia se seguir à ascensão das máquinas inteligentes [...] desvalorização do cérebro humano proporcional à desvalorização que o maquinário das fábricas tinha imposto à mão humana. 249

Von Neumann [...] ele havia desenvolvido recentemente uma teoria dos jogos [...] uma matemática da informação incompleta. 253

A unidade fundamental é um escolha binária. 262

Pc memoria, execução, controle instruções codificadas em números ou programas. Turing 263

A linguagem do estímulo e da resposta começou a dar lugar à transmissão e recepção de informação. 268

A teoria da codificação se tornou uma parte crucial da ciência da computação. 272

Do ponto de vista estatístico, tudo tende a máxima entropia. 283

Máquina de movimento perpétuo, perpetuum mobile 287

Para o teórico da informação, a entropia é uma medida da incerteza em relação a uma mensagem. 289

A nova biologia molecular começou a examinar (1940) a transmissão e o armazenamento de informação. 298 pensar além dos fluxos de energia e matéria e focar no fluxo da informação.

Os genes [...] não são concorrentes [...] seu sucesso ou fracasso ocorre por meio da interação. 315

As notas e o tempo marcados no papel não são a música. A música não é uma série de ondas de pressão ressoando pelo ar; nem os sulcos impressos em vinil nem as marcas queimadas em CDs; [...] A música é a informação. Da mesma forma [...] os genes em si são feitos de bits. 318

Fred Dretske (1981) no princípio havia a informação. O verbo veio depois. 332

Temos consciência de muitas espécies de informação. Nomeamos seus tipos sardonicamente, como se quiséssemos assegurar de que os compreendemos. lendas urbanas ou mentiras deslavadas. Nós os mantemos vivos em torres de servidores com ar-condicionado. Mas não podemos controla-los. Quando um jingle gruda em nosso ouvido, ou uma nova tendência vira o mundo da moda de cabeça para baixo, ou uma farsa domina o debate em escala mundial durante meses ou então desaparece com a mesma rapidez com que surgiu, quem é o senhor e quem é o escravo? 332

Rolf Landauer a informação é física. Exige objetos físicos e obedece as leis da física. 370

Não se deve chorar por descanso, assim como não se deve fazê-lo por uma fivela perdida [...] Deixamos para trás conforme reunimos novidades, como viajantes que precisam levar tudo nos braços, e aquilo que deixamos cair será apanhado por aqueles que vêm atrás. A procissão é muito longa e a vida, muito curta. Morremos na marcha. Mas nada existe fora da marcha e, por isso, nada pode ser perdido e afastado dela. As peças faltantes de Sófocles serão recuperadas pedaço por pedaço, ou serão escritas novamente em outro idioma. Sptimus. 388

O texto codifica números, e os números apontam para locais no ciberespaço, dividindo-se em redes, sub-redes e dispositivos. 400

Revolução da comunicação dura séculos e ainda está em marcha. 410

Depois que surgiu a teoria da informação, logo se seguiram a sobrecarga de informação, saturação da informação, ansiedade de informação e fadiga de informação [...] reconhecida pela OED em 2009 como síndrome atual. 412

Somos todos usuários da Biblioteca de Babel agora, e somos também os Bibliotecários. Oscilamos entre o êxtase e a perplexidade. 435

A Biblioteca perdurará - ela é o universo. Quanto a nós, nem tudo foi escrito, não estamos nos convertendo em fantasmas. Caminhamos pelos corredores, vasculhando as prateleiras e reorganizando-as, procurando linhas de conhecimento em meio a léguas de cacofonia e incoerência, lendo a história do passado e do futuro, reunindo nossos pensamentos e os pensamentos dos outros e, de vez em quando, olhando espelhos, nos quais podemos reconhecer criaturas da informação. 435


Arquivos Malucos

Seguidores