Um livro é um mudo que fala, um surdo que responde, um cego que guia, um morto que vive. (Padre Antônio Vieira)

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

A promoção da publicidade como “a arte oficial do capitalismo”

Seguindo Mandel (1975), ele alega que passamos para uma nova era a partir do início dos anos 60, quando a produção da cultura “tornou-se integrada à produção de mercadoiras em geral: a frenética urgência de produzir novas ondas de bens com aparência cada vez mais nova (de roupas a aviões), em taxas de transferência cada vez maiores, agora atribui uma função estrutural cada vez mais essencial à inovação e à experimentação estéticas”. As lutas antes travadas exclusivamente na arena da produção se espalharam, em conseqüência disso, tornando a produção cultural uma arena de implacável conflito social. p. 65

A promoção da publicidade como “a arte oficial do capitalismo” traz para arte estratégias publicitárias e introduz a arte nessas mesmas estratégias […] mudança estilística […] com relação às forças que emanam da cultura do consumo de massa: a mobiliação da moda, da pop arte, da televisão e de outras formas de mídia de imagem, e a verdade dos estilos de vida urbana (enraizamento na vida cotidiana). p. 65

HARVEY, David. Condição pós-moderna: uma pesquisa sobre as origens da mudança cultural. 9. ed. Tradução de Adail Ubirajara Sobral e Maria Stela Gonçalves. São Paulo: Loyola, 2000.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Minissaia indecente

fonte: o genio adão, é claro

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Evidencia dos corpos mortos - POESIA

Morrer está sempre à mão
Essa é uma verdade suprema
Aprendi desde criança
Basta uma arma, uma corda, um facão
Se a escolha é o longo prazo
Tem o cigarro,a nicotina o alcatrão

A morte de gente amada
Traz sempre um grande pesar
Descabela, faz chorar
Tem gente que não aguenta
O encerramento da vida
Apela pro seu vigário
Faz promessa suicida

Mas no fim tudo se ajeita
Se encomenda o caixão
Faz reza pro falecido
Nessa hora a crença é sorte
Ajuda a esquecer a dor
Com promessas de pós-morte
 
 
l. manzoni

Evidência dos corpos mortos

Contra a evidência dos corpos mortos, imagina fantasmas, demônios. Chega ao extremo de imaginar uma entidade supracorpórea - a alma - e a separar a individualidade em alma e corpo. As idéias de vida após a morte, seja a da transmissão ou da reencarnação, ou ainda a da eternidade da alma, tira da morte o significado de término de vida e se transformam em uma convenção da civilização. O homem se convence da sua imortalidade. Mas não é só isso. Para além da ambiguidade de sentimentos entre a morte do inimigo e a do ser amando, Freud chama a atenção para uma ambivalência de sentimentos do homem primitivo, mas subjacente no homem civilizado, em relação à morte. Cada ser amado faz parte de nós, do nosso ego. Quando morre, mata em nós essa parte. Mas cada pessoa, mesmo amada, é outro ser, com alguma coisa estranha e hostil. Nasce dessa ambivalência ante a morte do ser amado, que, simultaneamente, somos nós e é um estranho, um sentimento de culpa que torna impronunciável, ou pelo menos de mal gosto, a idéia de morte. (Freud, 1968)
 
apud THIRTY-CHERQUES, Hermano Roberto. Sobreviver ao trabalho. Rio de Janeiro: FVG, 2004. p. 17

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Tragam-me o esquecimento em travessas!

Tragam-me o esquecimento em travessas!
Quero comer o abandono da vida!
Quero perder o hábito de gritar para dentro.
Arre, já basta!
[…]
Que gargalhadas daria quem pudesse rir!
[…]
Que náusea […] que é a alma consciente!
Que sono bom ser outra pessoa qualquer...
 
PESSOA, Fernando. Poesia. Álvaro de Campos. Edição Teresa Rita Lopes. São Paulo: Cia. das Letras, 2002. p. 361

Pensar faz mal às emoções

Estou cansado da inteligência.
Pensar faz mal às emoções.
Uma grande reacção aparece.
Chora-se de repente, e todas as tias mortas fazem chá de novo
Na casa antiga da quinta velha.
Pára, meu coração!
[…]
Quem me dera nunca ter sido senão o menino que fui...
[…]
Meu horizonte de quintal e praia!
Meu fim antes do princípio!
 
Estou cansado da inteligência.
Se ao menos com ela se percebesse qualquer coisa!
Mas só percebo um cansaço no fundo, como baixam na taça
Aquelas coisas que o vinho tem e amodorram o vinho.
 
 
PESSOA, Fernando. Poesia. Álvaro de Campos. Edição Teresa Rita Lopes. São Paulo: Cia. das Letras, 2002. p. 364

O Universo é negro, sobretudo de noite

Sim, é claro.
O Universo é negro, sobretudo de noite.
Mas eu sou como toda a gente,
Não tenha eu dores de dentes [...] e as outras dores passam.
Com as outras dores fazem-se versos.
Com as que doem, grita-se.
[...]
Deixem-me dormir.
 
PESSOA, Fernando. Poesia. Álvaro de Campos. Edição Teresa Rita Lopes. São Paulo: Cia. das Letras, 2002. p. 372

A humanidade ama porque ama falar no amor

Não me mace, nem me obrigue a ter pena!
Olhe: tudo é literatura.
Vem-nos tudo de fora, como a chuva.
A maneira? Se nós somos páginas aplicadas de romances?
Traduções, meu filho.
Você sabe porque está tão triste? É por causa de Platão,
Que você nunca leu.
E um soneto de Petrarca, que você desconhece, sobrou-lhe errado,
E assim é a vida.
Arregace as mangas da camisa civilizada
E cave terras exactas!
Mais vale isso que ter a alma dos outros.
A chuva cai por uma lei natural
E a humanidade ama porque ama falar no amor.
 
Pessoa, Fernando. Poesia. Álvaro de Campos. Edição Teresa Rita Lopes. São Paulo: Cia. das Letras, 2002. p. 377

Volta amanhã realidade!

Grandes são os desertos e as almas desertas e grandes -
Desertas porque não passa por elas senão elas mesmas,
Grandes porque de ali se vê tudo, e tudo morreu.
[...]
Não tirei bilhete para a vida,
Errei a porta do sentimento,
Não houve vontade ou ocasião que eu não perdesse.
[...]
Volta amanhã realidade!
 
 
Pessoa, Fernando. Poesia. Álvaro de Campos. Edição Teresa Rita Lopes. São Paulo: Cia. das Letras, 2002. p. 384-385.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Eu Demiti Um Amigo - Frank Jorge

Eu demiti um amigo, oh, meu Deus
Por que isto aconteceu comigo?
Eu era um subordinado
Cumprindo ordens de um desmiolado

Eu demiti um amigo, vejam só
O caso foi exonerado, juro que foi dolorido
E agora me sinto culpado
Por ter demitido um amigo

No fiel cumprimento da função
Ocorreu uma insubordinação
E ninguém pode então testemunhar
Para a barra do sujeito aliviar

O caso já foi concluído
Mas mesmo assim não estou convencido

Os homens acabam se matando
Sem ao menos saber o motivo
E outros demitirão seus amigos
Mesmo sendo muito mais qualificados

Sono dos justos adeus
O que vale é a lei do mercado

Eu demiti um amigo, já perdi a noção
Do que é certo ou errado
Espero um dia então
De sua voz possa ouvir o perdão
 
 
 

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Sou livre, contra a sociedade organizada e vestida

Ah a frescura na face de não cumprir um dever!
Faltar é positivamente estar no campo!
Que refúgio o não se poder ter confiança em nós!
Respiro melhor agora que passaram as horas dos encontros.
Faltei a todos, com uma deliberação do desleixo, [...]
Sou livre, contra a sociedade organizada e vestida.
Estou nu, e mergulho na água da minha imaginação.
 
[...] Se é um gesto,
Fique com os outros, que me esperam, no desencontro que é a vida.
 
 
Álvaro de Campos
 
 

Quasi

Arrumar a vida, pôr prateleiras na vontade e na ação...
[...]
Produtos românticos, nós todos...
E se não fôssemos produtos românticos, se calhar não seríamos nada.
 
Assim se faz a literatura...
Coitadinhos Deuses, assim até se faz a vida!
 
 
Álvaro de Campos, Quasi

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Ah, abram-me outra realidade

Ah, abram-me outra realidade [...]
Quero encontrar as fadas na rua!
Quero desimaginar-me desse mundo feito com garras,
Desta civilização feita com pregos.
Quero viver como uma bandeira a brisa,
Símbolo de qualquer coisa no alto de uma coisa qualquer.
 
Depois encerrem-me onde queiram.
Meu coração verdadeiro continuará velando
[...]
No alto do mastro das visões
Aos quatro ventos do mistério.
 
Álvaro de Campos
 

Não ter deveres, nem horas certas, nem realidades...

Não ter deveres, nem horas certas, nem realidades...
Ser uma ave humana
Que passe haleiónica sobre a intransigência do mundo [...]
Faz tudo triste
No coliseu com lágrimas
 
Farnando Pessoa

Tudo que foi é a mesma morte

Que grande vantagem trazer a alma virada do avesso!
Ao menos escrevem-se versos. [...]
Passa-se por doido...
[...]
Porque todas as recordações são a mesma recordação,
Tudo que foi é a mesma morte,
Ontem, hoje, quem sabe até amanhã?
 
Fernando Pessoa

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Eu e meu coração - João Gilberto

Composição: Inaldo Vilarim / Antonio Botelho

O meu coração apaixonado
De sofrer vive abafado
Sem saber porquê
Reclama, coitadinho,
Tão baixinho
Que às vezes penso até
Que ele vai parar

Tudo foi por causa de alguém
Que sem ter razão
Me fez chorar de dor

Não chore coração apaixonado
Esquece teu passado
Arranje outro amor

fonte: http://letras.terra.com.br/joao-gilberto/618228/

 

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Tudo me comove

[...]
toda despedida é uma morte...
Sim, toda despedida é uma morte.
Nós, no comboio a que chamamos vida
Somos todos casuais uns para os outros,
E temos todos pena quando por fim desembarcamos.
Tudo o que é humano me comove, porque sou homem.
Tudo me comove, porque tenho,
[...]
vasta fraternidade com a humanidade verdadeira.
[...]
tudo [...] vive, porque morre, dentro do meu coração.
E o meu coração é um pouco maior que o universo inteiro.

Álvaro de Campos

quinta-feira, 30 de julho de 2009

A primeira vez

Alcebíades Barcelos Bide - Armando Marçal / arr. Joao Gilberto

Bmaj7 G#7/+5 G#m6 F#7/6 Bmaj7 F#13
Bmaj7 G#7/+5 Db7/9 Dbm7/G# F#7/+5 B6/9
A primeira vez que eu te encontrei, alimentei a ilusao de ser feliz
G#m7 Bb7/+5 Ebm7 F/Db
Eu era triste, sorri peguei no pinho e cantei
F7/C Bdim Dbm7 Em6 Bbdim
Tantos versos eu fiz em meu peito guardei
Bmaj7 G#7/+5 Dbm7 Em6 Bbdim Bmaj7 G#m6 Dd7/G# Gdim B6/9
Um dia voce partiu, meu pinho emudeceu e a minha voz na gargan- ta morreu
Bmaj7 G#7/+5 Dbm7 F#7 F#9/+5 Bmaj7 G#7
Procuro esquecer a dor, nao sou capaz, meu violao nao toca mais
Dbm7 Bb7 Ebm7 G#7 Db7/G# Em6 F#7/+5
Eu vivo triste a meditar, nao canto mais, meu consolo é chorar
Bmaj7 G#7/+5 ... ... Bmaj7 G#m6 Dd7/G# Gdim Bm7/F# Bm9/F#
A primeira vez ... ... a minha voz na gargan- ta morreu


fonte>: http://www.bossanovaguitar.com/joao_gilberto/chords_lyrics/a_primeira_vez.html

Pode-se aprender três coisas de uma criança

"Nesta vida, pode-se aprender três coisas de uma criança: estar sempre alegre, nunca ficar inativo e chorar com força por tudo o que se quer."

 
Paulo Leminski
 
 

segunda-feira, 27 de julho de 2009

quinta-feira, 23 de julho de 2009

terça-feira, 14 de julho de 2009

Ecce Homo: Ecce Homo: de como a gente se torna o que a gente é

NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. Ecce Homo: de como a gente se torna o que a gente é. Porto Alegre: L&PM, 2002. 208 p. 17 cm


Pág 17 – linha 15

Derribar ídolos (a minha palavra para "ideais") – isso sim é que faz parte de meu ofício. A realidade foi despojada de seu valor, de seu sentido, de sua veracidade justamente no mesmo grau em que foi falsificado um mundo ideal... O "mundo verdadeiro" e o "mundo aparente" – em alemão: o mundo falsificado e a realidade... A mentira do ideal foi, até agora, a blasfêmia contra a realidade; a própria humanidade foi enganada por ela e tornou-se falsa até o mais baixo de seus instintos – a ponto de adorar os valores inversos como se fossem aqueles com os quais ela poderia garantir para si a prosperidade, o futuro, o direito altivo ao futuro.

Pág. 18 – linha 16

A filosofia, assim como a entendi até agora, é a vida espontânea no gelo e nas montanhas mais altas – a procura de tudo que é estranho e duvidoso na existência, de tudo aquilo que até agora foi excomungado pela moral.

Pág 18 – linha26

Quanta é a verdade que um espírito humano suporta, quanta é a verdade que ele ousa? Essa foi, para mim, e cada vez mais, a tábua para medir valores. Engano ( - a crença no ideal - ) não é cegueira, engano é covardia...Toda conquista, todo passo adiante no conhecimento é conseqüência da coragem, da dureza em relação a si mesmo...Eu não refuto os ideais, eu apenas visto luvas diante deles...Nitimur in vetitum: 4 é sob esse signo que a minha filosofia sai vitoriosa, pois até agora sempre foi proibida fundamentalmente apenas a verdade...

Pág. 27 – linha 2

(...) Pois é preciso que se dê atenção a isso: os anos em que minha vitalidade foi mais débil foram os anos em que deixei de ser pessimista: o instinto do auto-reestabelecimento me proibiu uma filosofia da miséria e do desanimo... E é nisso que se reconhece, no fundo, a vida-que-deu-certo! No fato de um homem bem educado fazer bem aos nossos sentidos: no fato de ele ser talhado em uma madeira que é dura, suave e cheirosa ao mesmo tempo. A ele só faz gosto o que lhe é salutar; seu prazer, seu desejo acabam lá onde as fronteiras do salutar passam a estar em perigo. Ele adivinha meios curativos contra lesões, ele aproveita acasos desagradáveis em seu próprio favor; o que não acaba com ele, fortalece-o. Ele acumula por instinto tudo aquilo que vê, ouve e experimenta à sua soma: ele é um princípio selecionador, ele reprova muito. Ele está sempre em sua própria companhia, mesmo que esteja em contato com livros, pessoas ou paisagens: ele honra pelo ato de selecionar, pelo ato de permitir, pelo ato de confiar. A todo o tipo de estímulo ele reage lentamente, com aquela lentidão que uma longa cautela e um orgulho desejado inculcaram nele – ele testa o estímulo que se aproxima; ele está longe de ir ao encontro dele. Ele não acredita nem no "infortúnio" nem na "culpa": ele se dá conta de si mesmo e dos outros; ele sabe esquecer...Ele é forte o suficiente a ponto de fazer com que tudo tenha de vir para o seu bem...Vá lá, eu sou o antípoda de um décadent: pois acabei de descrever a mim mesmo.

Pág. 35 – linha 11

Para mim o "amor ao próximo" é nada mais que uma fraqueza, um caso isolado que demonstra a incapacidade de opor resistência a um estímulo – a piedade é uma virtude apenas entre os décadents.

Pág 36 – linha 15

O meu método de desforra consiste em mandar, o mais rápido possível, uma atitude inteligente atrás de uma burrice: assim, talvez a mesma ainda possa ser alcançada. Para falar numa comparação: eu mando um pote de confeites para me livrar de uma história azeda... Basta que me façam algo de mau, que eu vou à "desforra" por causa disso, isso é certo: em pouco tempo encontro uma oportunidade de expressar meu agradecimento ao "malfeitor" (inclusive agradecendo-lhe o mal-feito) – ou de pedir algo a ele, o que pode ser mais cortês do que dar alguma coisa... A carta mais grosseira, ainda é mais bondosa, mais honesta do que o silêncio. Àqueles que silenciam quase sempre lhes falta algo em fineza e polidez de coração; silenciar é uma falta objeção; engolir sapos faz, irremediavelmente, um mau caráter – e inclusive estraga o estômago... Todos aqueles que silenciam são dispépticos. – Vede bem, eu não pretendo ver a grosseria sendo desprezada, ela é, de longe, a forma mais humana da objeção e, em meio à suavização moderna, uma de nossas maiores virtudes. Se a gente é rico o suficiente, é até mesmo uma ventura não ter razão. Um deus, que viesse à terra, por certo não haveria de fazer nada a não ser injustiças – tomar não o castigo, mas sim a culpa sobre as costas, isso é que seria divino.

Pág 38 – linha 12

(...) Porque a gente se consumiria com demasiada rapidez, caso reagisse, a gente passa a não reagir mais: essa é alógica. E nada é capaz de nos haurir de modo mais rápido do que as emoções da mágoa. O desgosto, a suscetibilidade doentia, a impotência para a vingança, o desejo, a sede de vingança, o ato de mexer nos venenos da alma em todos os sentidos – por certo é, para os esgotados, a pior maneira de reagir: um consumo rápido da força nervosa, uma elevação doentia de desejos nefastos, por exemplo da bílis do estômago, são condicionados por essas coisas. A mágoa, o ressentimento, é proibido em si para os enfermos – sua propensão malévola, mas, lamente-se, também a sua propensão mais natural. Tudo isso já foi compreendido por aquele psicólogo profundo: Buda. Sua "religião", que poderia ser melhor classificada como uma higiene, a fim de não mistura-la a coisas tão altamente dignas de pena como o cristianismo, fazia seus efeitos dependerem do triunfo sobre o ressentimento: libertar a alma disso – eis o primeiro passo para o restabelecimento. "Não é através da hostilidade que se põe um fim à hostilidade, é através da amizade que se põe um fim à hostilidade": é isso que está no princípio dos ensinamentos de Buda – e assim não fala a moral, assim fala a psicologia. O ressentimento, nascido da fraqueza, não é prejudicial a ninguém mais do que o próprio fraco – no caso inverso, em que uma natureza rica é o pressuposto, ele é um sentimento desnecessário, um sentimento que, dominado, já concede, por assim dizer, a prova da riqueza de quem o domina.

Pág 40

(...) o pháthos 3 agressivo faz parte, necessariamente, da força, assim como os sentimentos da vingança e da revanche fazem parte da fraqueza. A mulher, por exemplo, é vingativa: isso é condicionado por sua fraqueza tanto quanto pelo seu interesse pela penúria alheia. – A força daquele que ataca tem na resistência, que ele necessita, uma espécie de medida; todo crescimento se revela na procura de um inimigo – ou de um problema – poderoso: pois o filósofo que é guerreiro também desafia os problemas a duelar com ele. A tarefa não é, absolutamente, se tornar senhor sobre as resistências comuns, mas sim sobre aquelas que exigem que a gente acione toda a força, toda a flexibilidade e a maestria nas armas – subjugar inimigos iguais...Igualdade ante o inimigo – o primeiro pressuposto de um duelo honesto. Onde a gente despreza, não se pode fazer guerra; onde a gente ordena, onde a gente vê alguma coisa abaixo de si, não se pode fazer guerra. – Minha práxis na guerra pode ser resumida em quatro sentenças. Primeiro: eu apenas ataco coisas que são vitoriosas – caso for necessário eu espero até que elas sejam vitoriosas. Segundo: eu apenas ataco coisas as quais jamais encontraria aliados, contra as quais tenho de me virar sozinho – contra as quais tenho de me compreender sozinho...Jamais dei um passo em público que não comprometesse: é esse o meu critério de ação correta. Terceiro: eu jamais ataco pessoas – eu apenas me sirvo da pessoa como uma poderosa lente de aumento, através da qual é possível tornar manifesta uma situação de necessidade comum, mas furtiva e pouco tangível.

Pág 42

(...) minha humanidade não consiste em sentir junto com a pessoa como ela é, mas sim em suportar o fato de senti-la...

Pág 45

A gente perde mui facilmente o olhar correto para aquilo que a gente fez quando o desfecho é ruim: um sentimento de culpa me parece uma espécie de "olhar maldoso". Guardar na honra aquilo que acaba dando errado, tanto mais pelo fato de ter dado errado – isso está bem mais perto de fazer parte da minha moral...

Pág 50

(...) Sentar o menos possível; não acreditar em nenhum pensamento que não tenha nascido ao ar livre e em livre movimentação – quando também os músculos estiverem participando da festa. Todos os preconceitos vêm das vísceras...A vida sobre as nádegas – eu já disse uma vez – é que é o verdadeiro pecado contra o espírito santo...

Pág 51

A influência climática sobre o metabolismo, sua redução e seu aumento, vai tão longe que uma escolha errada no que diz respeito ao lugar e ao clima pode não apenas alienar alguém de sua tarefa, como também chegar ao ponto de evitar que ele chegue até ela: e então ele jamais fica cara a cara com ela.

(...) A velocidade do metabolismo está intimamente ligada à capacidade de movimento ou à capenguice dos pés do espírito; o próprio "espírito" na verdade não passa de uma forma desse metabolismo.

Pág. 54

A gente tem que sair do caminho do acaso, do estímulo externo tão rápido quanto for possível: uma espécie de construir-um-muro-em-volta-de-si-mesmo faz parte das primeiras sagacidades instintivas da gravidez espiritual. Haverei de permitir que um pensamento estranho escale em segredo o muro?...Isso significa ler...Ao tempo do trabalho e da frutificação segue o tempo do recreio: vinde, pois, vós, os livros agradáveis, espirituosos e argutos!

Pág. 58

O grande poeta bebe apenas de sua própria realidade (...)

Pág. 65

Uma outra mostra de inteligência e autodefesa consiste em reagir tão raramente quanto possível e em evitar lugares e condições nas quais se estaria condenado a suspender de imediato sua "liberdade", sua iniciativa, para se tornar um simples reagente. Eu tomo a relação com os livros como parâmetro comparativo. O erudito, que no fundo apenas se limita a "moer" livros – o filólogo de atividade mediana, cerca de duzentos por dia -, ao fim das contas acaba perdendo por completo a capacidade de pensar por si mesmo. Quando ele não mói, ele não é capaz de pensar. Ele responde a um estímulo (um pensamento lido) quando ele pensa...ao fim e ao cabo ele apenas reage. O erudito gasta toda sua força em dizer sim e não, na crítica do já pensado – ele mesmo não pensa mais... O instinto da autodefesa tornou-se frouxo nele; pois se assim não fosse ele iria se precaver contra os livros.

(...) Ler um livro de manhã bem cedo, ao nascer do dia, em todo o frescor, na aurora de suas forças – isso eu chamo de vicioso!...

Pág. 67

Expressado moralmente: amor ao próximo, viver para os outros e outras coisas pode ser a medida de defesa para a manutenção do mais duro dos egocentrismos.

Pág. 69

Aquilo que a humanidade ponderou seriamente até o presente momento nem sequer são realidades, são puras ilusões, ou, para dize-lo de um modo mais duro, mentiras advindas dos instintos ruins de naturezas enfermas, prejudiciais no mais profundo dos sentidos – toda essa série de noções: "Deus", "alma", "virtude", "pecado", "além", "verdade", "vida eterna"... Mas nelas se procurou a grandeza da natureza humana, seu "caráter divino" – todas as questões relativas à política, à ordem social, à educação são, por isso, falsificados até a raiz, de modo que foram tomados por grandes os homens mais perniciosos... De modo que se ensinou a desprezar as "pequenas" coisas, quero dizer, as questões fundamentais da vida...

Pág. 75

Para aquilo que a gente não alcança através da vivência, a gente também não tem ouvidos.

Pág. 80

A gente não deve jamais poupar a si mesmo.

Pág. 81

Comunicar um estado, uma tensão interna de páthos (3) através de sinais, incluída a velocidade desses sinais – esse é o sentido de todo o estilo.

Pág. 90

(...) precisamente tão longe quanto a coragem pode ousar adiantar-se é o que determina a medida das forças comas quais a gente se aproxima da verdade. O discernimento, o dizer-sim à realidade é, para o forte, uma necessidade tão grande quanto a covardia e a fuga da realidade – o "ideal" – o é para o fraco, subjugado sob a inspiração da fraqueza... (...) os décadents têm necessidade da mentira; a mentira é uma das condições de sua conservação...

Pág. 114

Que sentido têm aqueles conceitos mentirosos, os conceitos auxiliares da moral, da "alma", do "espírito", do "livre-arbítrio", de "Deus", se não o de arruinar fisiologicamente a humanidade?...Quando se desvia a seriedade da autoconservação, da fortificação do corpo, quer dizer, da vida, quando se faz da anemia um ideal, quando se constrói "a salvação da alma" sobre o desprezo ao corpo, o que é isso se não uma receita para a décadence? – A perda do equilíbrio, a resistência contra os instintos naturais, em uma palavra, a "ausênsia-de-si" – tudo isso foi chamado de moral até agora...

Pág 161

Homens bons jamais falam a verdade. Falsos portos e certezas ensinaram-vos os bons; nas mentiras dos bons fostes nascidos e mantidos. Tudo foi distorcido e mentido até o âmago pelos bons.

Pág 162

Se a falsidade reivindica a toda custa a palavra "verdade" para a sua ótica, o verdadeiro de fato deverá ser encontrado sob os piores nomes.

Gostos de classe e estilos de vida

BOURDIEU, Pierre. Gostos de classe e estilos de vida. In: Ortiz, Renato (org.). Ática, São Paulo, 1983. (Grandes Cientistas Sociais, 39)

Gostos de classe e estilos de vida.

Às diferentes posições no espaço social correspondem estilos de vida, sistemas de desvios diferenciais que são a retradução simbólica de diferenças objetivamente inscritas nas condições de existência. P. 82.

Constituído num tipo determinado de condições materiais de existência, esse sistema de esquemas geradores, inseparavelmente éticos e estéticos, exprime segundo sua lógica própria a necessidade dessas condições em sistemas de preferências cujas oposições reproduzem, sob uma forma transfigurada e muitas vezes irreconhecível, as diferenças ligadas à posição na estrutura da distribuição dos instrumentos de apropriação, transmutadas, assim, em distinções simbólicas. P. 83

A sistematicidade e a unidade só estão no modus operatum porque elas estão no modus operandi: elas só estão no conjunto das "propriedades", no duplo sentido do termo, de que se cercam os indivíduos ou grupos – casas, móveis, quadros, livros, automóveis, alcoóis, cigarros, perfumes, roupas – e nas práticas em que se manifesta sua distinção – esportes, jogos, distrações culturais – porque estão na unidade originariamente sintética do habitus, princípio unificador e gerador de todas as práticas. O gosto, propensão e aptidão à apropriação (material e/ou simbólica) de uma determinada categoria de objetos ou práticas classificadas e classificadoras, é a fórmula generativa que está no princípio do estilo de vida. O estilo de vida é um conjunto unitário de preferências distintivas que exprimem, na lógica específica de cada um dos subespaços simbólicos, mobília, vestimentas, linguagem ou héxis corporal, a mesma intenção expressiva, princípio da unidade de estilo que se entrega diretamente à intuição e que a análise destrói ao recortá-lo em universos separados. P 83.

Do mesmo modo que a oposição entre bebida e abstinência, intemperança e sobriedade, o bar e o lar simboliza todo um aspecto da oposição entre as classes populares e a pequena burguesia, que identifica suas ambições de ascenção e suas preocupações de respeitabilidade na ruptura com tudo o que associa ao universo repudiado, no interior do universo dos connasseurs, (...) a oposição entre champanhe e uísque condensa o que separa a burguesia tradicional da nova burguesia (...). p 84

O luxo e a necessidade

O mais importante das diferenças na ordem do estilo de vida e, mais ainda, da "estilização da vida", reside nas variações da distância com o mundo – suas pressões materiais e suas urgências temporais – distância que depende, ao mesmo tempo, da urgência objetiva da situação no momento considerado e da disposição para tomar suas distâncias em relação a essa situação. P. 84

Não há profissão pequeno-burguesa de ascetismo, nem elogio do limpo, do sóbrio, do bem-cuidado, que não encerre uma condenação tácita à sujeira, à inconveniência, nas palavras ou nas coisas, à intemperança, à imprevidência ao impudor ou à imprudência, como se os agentes só pudessem reconhecer seus valores naquilo que os valorizam, na última diferença que é também, muitas vezes, a última conquista, na distância genética e estrutural que propriamente os define. P. 86.

Quanto às chamadas de ordem ("por quem você se toma?", "não é para pessoas como nós") onde se enuncia o princípio da conformidade, única norma mais ou menos explícita do gosto popular, e que visam encorajar as escolhas "modestas" em todo caso impostas pelas condições objetivas, elas próprias encerram uma ameaça contra a ambição de identificar-se com outros grupos, de se distinguir, portanto, e se distanciar do grupo; pretensão particularmente condenada nos homens, todo refinamento em matéria de linguagem ou de vestuário sendo imediatamente percebido não somente como um sinal de aburguesamento mas também, inseparavelmente, como o indício de disposições efeminadas. P. 86.

A própria disposição estética, que, com a competência específica correspondente, constitui a condição da apropriação legítima da obra de arte, é uma dimensão de um estilo de vida no qual se exprimem, sob uma forma irreconhecível, as características específicas de uma condição. P 87.

O consumo material ou simbólico da obra de arte constitui uma das manifestações supremas do desembaraço, no sentido de, ao mesmo tempo, condição e disposição que a língua ordinária dá a essa palavra. O desprendimento do olhar puro não pode ser dissociado de uma disposição geral ao gratuito, ao desinteressado, produto paradoxal de um condicionamento econômico negativo que engendra a distância com relação à necessidade. P. 87.

Na medida em que cresce a distância objetiva com relação à necessidade, o estilo de vida se torna, sempre, cada vez mais o produto de uma "estilização da vida", decisão sistemática que orienta e organiza as práticas mais diversas, escolha de um vinho e de um queijo ou decoração de uma casa de campo. Afirmação de um poder sobre a necessidade dominada, ele encerra sempre a reivindicação de uma superioridade legítima sobre aqueles que, não sabendo afirmar esse desprezo pelas contingências no luxo gratuito e no desperdício ostentatório, permanecem dominados pelos interesses e as urgências mundanas: os gostos de liberdade só podem se afirmar enquanto tais com relação aos gostos de necessidade e, passando por aí para a ordem da estética, constituídos como vulgares. Essa pretensão tem menos chances que qualquer outra de ser contestada, posto que a relação sobre a qual ela se funda, da disposição "pura" e "desinteressada" com relação às condições que a tornam possível, isto é, as condições matérias de existência mais raras porque mais liberadas da necessidade econômica, tem todas as chances de passa despercebida. O privilégio mais classificador tem, assim, o privilégio de aparecer como o mais fundado na natureza. P. 87.

Nada distingue, com efeito, mais rigorosamente as diferentes classes do que as disposições e as competências objetivamente exigidas pelo consumo legítimo de obras legítimas; e, mais rara do que essa capacidade relativamente comum, de adotar um ponto de vista propriamente estético sobre objetos já constituídos esteticamente – designados, portanto, à admiração daqueles que aprenderam a reconhecer os sinais – é a capacidade reservada aos "criadores" de constituir esteticamente objetos quaisquer ou mesmo "vulgares" (porque apropriados, esteticamente ou não, pelo vulgar) ou a aptidão para engajar os princípios de uma estética "pura" nas escolhas mais ordinárias da existência ordinária, em matéria de cozinha, de vestimenta ou decoração, por exemplo. P. 89.

Os gostos obedecem, assim, a uma espécie de lei de Engels generalizada: a cada nível de distribuição, o que é raro e constitui um luxo inacessível ou uma fantasia absurda para os ocupantes no nível anterior ou inferior, torna-se banal ou comum, e se encontra relegado à ordem do necessário, do evidente, pelo aparecimento de novos consumos, mais raros e, portanto, mais distintivos. P. 85

A aptidão para pensar objetos quaisquer e ordinários (como uma casca, uma armação metálica, repolhos) espontaneamente "odiosos" (como uma cobra) ou tabus sociais (como uma mulher grávida ou um acidente automobilístico), enquanto belos, ou melhor, enquanto justificáveis de uma transfiguração artística (...), está fortemente ligado ao capital cultural herdado ou adquirido escolarmente. P. 90.

As distâncias entre as classes não são menos marcadas quando consideramos a competência específica que é uma das condições (tácitas) do consumo de bens de cultura legítimos. P. 91.

Distância respeitosa e familiaridade

A verdade, à primeira vista paradoxal, é que, quanto mais elevamos a hierarquia social, mais a verdade dos gostos reside na organização e funcionamento do sistema escolar, encarregado de inculcar o programa (no sentido da Escola e da Informática) que governa os espíritos "cultos" até na procura do "toque pessoal" e na ambição da "originalidade". P 95.

Não seria necessário demonstrar que a cultura é adquirida ou que essa forma particular de competência a que chamamos gosto é um produto da educação ou que nada é mais banal do que a procura da originalidade se todo um conjunto de mecanismos sociais não viessem dissimular essas verdades primeiras que a ciência deve restabelecer, estabelecendo em acréscimo as condições e as funções de sua dissimulação. É assim que a ideologia do gosto natural, que repousa na negação de todas essas evidências, tira sua aparência e sua eficácia daquilo que, como todas as estratégias ideológicas que se engendram na luta de classes cotidianas, ela naturaliza das diferenças reais, convertendo em diferenças de natureza diferenças no modo de aquisição da cultura. P. 95.

Assim, o que a ideologia do gosto natural opõe, através de duas modalidades de competência cultural e de sua utilização, são dois modos de aquisição da cultura: o aprendizado total, precoce e insensível, efetuado desde a primeira infância no seio da família, e o aprendizado tardio, metódico, acelerado, que uma ação pedagógica explícita e expressa assegura. P. 97.

(...) todo aprendizado racional supõe um mínimo de racionalização que deixa sua marca na relação, mais intelectual, com os bens consumidos. P. 97.

O desapossamento cultural

O estilo de vida das classes populares deve suas características fundamentais, compreendendo aquelas que podem parecer como sendo as mais positivas, ao fato de que ele representa uma forma de adaptação à posição ocupada na estrutura social: encerra sempre, por esse fato, nem que seja sob a forma do sentimento da incapacidade, da incompetência, do fracasso ou, aqui, da indignidade cultural, uma forma de reconhecimento dos valores dominantes. P. 100.

Esse desapossamento da capacidade de formular seus próprios fins (e a imposição correlativa de necessidades artificiais) é, sem dúvida, a forma mais sutil de alienação. É assim que o estilo de vida popular se define tanto pela ausência de todos os consumos de luxo (...), quanto pelo fato de que esses consumos nele estão, entretanto, presentes sob a forma de substitutos tais como os vinhos gasosos no lugar do champanhe ou uma imitação no lugar do couro, indícios de um desapossamento de segundo grau que se deixa impor a definição dos bens dignos de serem possuídos. P. 100.

Excluídos da propriedade dos instrumentos de produção, eles (classes populares) são também desapossados dos instrumentos de apropriação simbólica das máquinas a que eles servem, não possuindo o capital cultural incorporado que é a condição da apropriação conforme (ao menos na definição legítima) do capital cultural objetivado nos objetos técnicos. P. 100.

Dominados pelas máquinas a que eles servem e por aqueles que detêm os meios legítimos, isto é, teóricos, de dominá-los, eles reencontram a cultura (na fábrica como na escola, que ensina o respeito pelos saberes inúteis e desinteressados) como um princípio de ordem que não tem necessidade de desmontar sua utilidade prática para ser justificado. P. 102.

O operário e o pequeno-burguês

Mas aqueles que acreditam na existência de uma "cultura popular" – verdadeira aliança de palavras através da qual impomos, queiramos ou não, a definição dominante da cultura – devem esperar encontrar, se eles forem lá ver, nada mais que uma forma mutilada, diminuída, empobrecida, parcial, da cultura dominante e não o que eles chamam de contracultura, cultura realmente dirigida contra a cultura dominante, conscientemente reivindicada como símbolo de um estatuto ou profissão de existência separada. P 106.

(...) A tomada de consciência política é freqüentemente solidária de um verdadeiro empreendimento de restauração da dignidade cultural que, vivida como libertadora (o que ela sempre é também), implica uma forma de submissão aos valores dominantes e aos princípios sobre os quais a classe dominante funda sua dominação, como o reconhecimento das hierarquias ligadas aos títulos escolares ou às capacidades que a Escola supostamente garante. P. 107.

Tudo leva a pensar que a fração de classe mais consciente da classe operária permanece muito profundamente submissa, em matéria de cultura e de língua, às normas a aos valores dominantes: logo, profundamente sensível aos efeitos de imposição de autoridade que pode exercer, inclusive na política, todo detentor de uma autoridade cultural sobre aqueles em que o sistema escolar – sendo esta uma das funções sociais do ensino primário – inculcou um reconhecimento sem conhecimento. P. 108.

A boa vontade cultural

A aparência disparatada dos sistemas de preferências, a confusão de gêneros e de hierarquias, opereta e ópera, vulgarização e ciência, imprevisibilidade dos conhecimentos e das ignorâncias, o vínculo que reúne os saberes não sendo senão a seqüência dos acasos biográficos, tudo remete às particularidades de um modo de aquisição. P. 110.

O ecletismo forçado e inconsciente dessa cultura objetivamente sistemática da qual o princípio unificador é a boa vontade cultural (...), é, para qualquer um que interiorizou os sistemas de classificação legítimos (quer dizer, é preciso lembrá-lo, arbitrários e desconhecidos enquanto tais), o oposto do ecletismo erudito dos estetas que podem encontrar na mistura de gêneros e na subversão das hierarquias uma ocasião de manifestar a onipotência da disposição estética: à maneira do bilingüismo culto, que domina os dois códigos, isto é, as distinções entre os códigos, o estetismo supõe o domínio consciente e explícito de uma espécie de código dos códigos, de uma gramática dos gêneros e dos estilos que permite aplicar conscientemente a disposição erudita fora de seu campo de aplicação ordinário. P. 111.

Para ficar ao abrigo dessas interferências que traduzem o gosto pouco seguro do autodidata, é preciso possuir os sistemas de classificação e as técnicas de identificação dos símbolos de distinção, o domínio prático dos índices de "classe", da hierarquia social das pessoas e dos objetos, que define o que se chama bom gosto (...). P. 111.

Essa mistura de gêneros, essa confusão de ordens, esse espécie de bricabraque onde se alinham os produtos legítimos "fáceis" ou "ultrapassados", fora de moda, desclassificados, portanto, desvalorizados – posto que um símbolo de distinção apropriado com atraso perde tudo o que faz seu valor distintivo – e os produtos "médios" – do campo da produção em massa, é a imagem objetivada de uma cultura pequeno-burguesa. P. 112.

Mas essa cultura vivida lacunar, descontínua e inconexamente, protege mal contra a ansiedade permanente da ignorância inconfessável ou do engano imperdoável. A tudo que lhe aparece como sendo uma prova de "cultura geral", no sentido escolar do termo, o pequeno-burguês, que se sente obrigado a mostrar-se experiente, não pode opor nem a indiferença daqueles que não estão na corrida, nem o desprendimento liberado daqueles cujos títulos autorizam a confessar ou mesmo a reivindicar suas lacunas. P. 112.

O modo de aquisição, perpetuando-se sempre na modalidade das aquisições, sempre se arrisca a ser traído pela qualidade de seus saberes e pela maneira de se servir deles (...). É assim que, na luta de classes simbólica que o opõe aos detentores dos diplomas de qualificação cultural o pretendente "pretensioso", enfermeira confrontada como médico, técnico oposto ao politécnico, quadro que entrou pela "porta dos fundos" em concorrência com o quadro que saiu da "porta da frente", tem todas as chances de ver seus saberes e suas técnicas desvalorizados, como sendo muito estreitamente subordinados a fins práticos, "interessados" demais, demasiado marcados, em sua modalidade, pela pressa e pelo ardor de sua aquisição, em proveito de conhecimentos mais fundamentais, e também mais gratuitos (no sentido também que deles não se vê nenhum efeito sensível, senão o efeito de legitimidade, à prova concreta) por aqueles mesmos que devem sua posição dominante a seus certificados de cultura. P. 113.

(...) Suas carências, suas lacunas, suas classificações arbitrárias, só existem em relação a uma cultura escolar capaz de fazer desconhecer o arbitrário de suas classificações e de se fazer reconhecer até em suas lacunas. P. 114.

É manifesta a relação entre ânsia de conformidade cultural que determina uma busca ansiosa de autoridades e de modelos de conduta e que leva à escolha de produtos seguros e certificados (como os clássicos e os prêmios literários) e a tendência à hipercorreção lingüística, espécie de rigorismo que leva a fazer demais pelo medo de não fazer o bastante e a perseguir, em si e nos outros, as incorreções – como em outros campos a incorreção e o erro moral – ou, ainda, a sede quase insaciável de técnicas ou de regras de conduta que levam a submeter toda a existência, em matéria de alimentação, por exemplo, a uma disciplina rigorosa, e a governar-se em todas as coisas por princípios e preceitos. P. 115.

A pretensão e a distinção

Só nos reta introduzir a distinção dos nativos da arte de viver legítimos, detentores do monopólio do desembaraço e da segurança dados pela familiaridade e competência que os aprendizados mais precoces e os mais prolongados asseguram, para colocar em marcha a dialética da pretensão e da distinção, princípio da transformação permanente dos gostos. Nesse jogo de recusas recusando outras recusas, de superações superando outras superações, estão engajadas as disposições fundamentais do estilo de vida que, no momento mesmo em que elas se constituem em sistemas de princípios estéticos explícitos, permanecem enraizados numa arte de viver. P. 115.

A legitimidade da disposição pura é tão totalmente reconhecida que tudo leva a esquecer que a definição da arte e, através dela, da arte de viver, é um lugar de luta entre as classes; e isso tanto mais que as artes de viver antagonistas têm muito poucas chances de conseguirem se exprimir, tendo vista as condições das quais elas são o produto. P. 117.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

quinta-feira, 9 de julho de 2009

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Não foi verdade eu amar-te

Neste dia de tristeza
em que a chuva começou,
quero dizer-te a verdade
porque mentir acabou.

Não foi verdade eu amar-te
quando disse que te amava,
mas amo agora deveras,
sou hoje quem se enganava.

Juras falsas as que fiz.
Mas hoje verdades são.
Eu quero ser infeliz
p'ra saber que há coração.
Fernando Pessoa

Pesam em ti as algemas que aceitaste

E o rei disse: "memora estes dois lemas:
tem fé, não sonho. O sonho é um abrigo
que não um escudo. Nem, receando, temas,
que o medo é a maior parte do perigo.
Pesam em ti as, que aceitaste, algemas,
mais que as impostas. Não há querer antigo.
Ousa, vendo. Abdica – antes que abdiques,
sabe ficar, se força é que fiques.
 
Fernando Pessoa

Minha mulher, a solidão

Minha mulher, a solidão,
consegue que eu não seja triste.
Ah, que bom é ao coração
ter este lar que não existe!

Recolho a não ouvir ninguém,
Não sofro o insulto de um carinho,
E falo alto sem que haja alguém:
nascem-me os versos no caminho.

Senhor, se há bem que o céu conceda
submisso à opressão do Fado,
dá-me eu ser só, - veste de seda -,
e falar só – leque agitado.
Fernando Pessoa

Coração que não se queixa é coração que morreu

A terra, que a noite fecha,
O sol a abriu e aqueceu.
Coração que se não queixa
É coração que morreu.
Porque o sol volta ao que deixa
E a ninguém o que perdeu.
 
À haste tornam as flores,
E são todas como iguais,
Mas não há iguais amores.
A nós não tornamos mais.
Somos nós, nós, os verdores
(E só vós, hastes, ficais)
 
O sol vem todos os dias,
Vê a terra que deixou.
Ah, mas estas alegrias
Não são as que alumiou.
Cobre a terra só vidas frias
A que ele crê que voltou.
 
Tudo aquilo que não somos
Para nós é sempre igual.
Colhemos os mesmos pomos.
 
Fernando Pessoa, 28/11/1924

Amor ideal, tens chagas sob a túnica

Ah, como o sono é a verdade, e a única
Hora suave é a de adormecer!
Amor ideal, tens chagas sob a túnica.
Esperança, és a ilusão a apodrecer.
 
Os deuses vão-se como forasteiros.
Como uma feira acaba a tradição.
Somos todos palhaços estrangeiros.
A nossa vida é palco e confusão.
 
Ah, dormir tudo! Pôr um sono à roda
Do esforço inútil e da sorte incerta!
Que a morte virtual da vida toda
Seja, sono, a janela que, entreaberta,
 
Só vaga sombra e som do mundo deixe
Chegar à sonolência que se sente.
E a alma se desfaça como um feixe
Atados pelos dedos de um demente...
 
Fernando Pessoa

Rasga, uma a uma, as cartas

Rasga, uma a uma, as cartas. As que foram
Flores, murchadas, deixa pelo chão.
Inúteis rememoram,
Não o que foi, mas a recordação.
Basta a memória, que é do que existiu.
Estas da sua auréola apagada
São a sombra que passa e que fugiu.
 
Fernando Pessoa

terça-feira, 7 de julho de 2009

Soneto, em tese - Fabiano Foresti

Atrás da banca botando banca
Para a numerosa audiência fantasma
A renomada e sisuda orientanda
Ataca a tese da orientada,

De quem a vida em tese anda.
Quanta tese emudece na estante
De tantas vidas vividas em tese
Por quem não foi cavaleiro andante.

Anos em tese embebidos no café
Pelo fátuo fogo do louvor, em tese,
Enquanto a vida é posta de ré.

A tese é do tesão a antítese
De quem vivendo no rodapé
Vê seus anos passarem em síntese.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

LIPOVETSKY, Gilles. A felicidade paradoxal

 LIPOVETSKY, Gilles. A felicidade paradoxal: ensaio sobre a sociedade do hiperconsumo. Tradução de Maria Lucia Machado. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. 402 p.



[...] a ambiência de estimulação dos desejos, a euforia publicitária, a imagem luxuriante das férias, a sexualização dos signos e dos corpos. Eis um tipo de sociedade que substitui a coerção pela sedução, o dever pelo hedonismo, a poupança pelo dispêndio, a solenidade pelo humor, o recalque pela liberação, as promessas do futuro pelo presente. p. 35


[...] a publicidade passou de uma comunicação construída em torno do produto e de seus benefícios funcionais a campanhas que difundem valores e uma visão que enfatiza o espetacular, a emoção, o sentido não literal, [...] significantes que ultrapassam a realidade objetiva dos produtos. p. 46


A ansiedade está [...] na origem do novo gosto dos jovens adolescentes pelas marcas. [...] Ostentar um logotipo, para um jovem, não é tanto querer alçar-se acima dos outros quanto não parecer menos que os outros. [...] levando à recusa de apresentar uma imagem de si maculada de inferioridade desvalorizada. [...] é por isso que a sensibilidade às marcas é exibida tão ostensivamente nos meios desfavorecidos. Por uma marca apreciada, o jovem sai da impessoalidade, pretende mostrar não uma superioridade social, mas sua participação inteira e igual nos jogos da moda, da juventude e do consumo. p. 50


Na sociedade de hiperconsumo, mesmo a espiritualidade é comprada e vendida. [...] Eis que a espiritualidade se tornou mercado de massa, produto a ser comercializado, setor a ser gerido e promovido. O que constituía uma barreira à explosão da mercadoria metamorfoseou-se em alavanca de seu alargamento. p. 132


O que antigamente era vivido como um destino de classe é experimentado como uma humilhação, uma vergonha individual. É assim que, no coração do planeta beestar, aumenta o sentimento de ser inútil no mundo, de ter sido usado e depois jogado fora, de ter falhado em tudo. p. 169


Uma nova etapa é transposta a partir dos anos 1920. Enquanto os suportes se multiplicam, os anúncios exploram temáticas e registros inéditos, que continuam em vigor em nossos dias: elogio da mulher moderna, maquiada e sedutora, culto da auto-realização, do conforto e dos lazeres, sacralização da juventude. p. 173


[...] a publicidade criou uma nova cultura cotidiana baseada numa visão mercantilizada da vida. p. 174


[...] o desaparecimento dos espaços desprovidos de signos comerciais. p. 175


[...] os objetivos da publicidade mostram-se mais ambiciosos; esta já não se contenta em ser o realce dos produtos, ei-la que exalta visões do mundo, passa mensagens, valores e idéias com vista à fidelização dos clientes. p. 175-176


A publicidade propõe, o consumidor dispõe: ela tem poderes, mas não tem todos os poderes. E, se ela provoca frustrações, é apenas nos limites do que corresponde aos gostos do consumidor. p. 178


A publicidade reflexo:


[...] alfabetizadas nas linguagens dos bens mercantis, alimentadas com o leite da mercadoria-espetáculo, as massas são de imediato consumistas, espontaneamente sedentas de compras e de evasões, de novidades e de maior bem-estar. p. 180


[...] a publicidade hipermoderna procura menos celebrar o produto que inovar, comover, distrair, rejuvenescer a imagem, interpelar o consumidor. p. 181-182


Ela educava o consumidor, agora o reflete. p. 182


[...] as prioridades do fazer vêm relativizar ou compensar as frustrações do ter. p. 189


Não existe mais subcultura análogo à dos guetos e da pobreza tradicional. Mesmo excluída do universo do trabalho, a população dos centros de cidade e dos subúrbios desqualificados partilha os valores individualistas e consumistas das classes médias, a preocupação com a personalidade individual e auto-realização. [...] importa cada vez mais, para o indivíduo, não ser inferiorizado, atingido em sua dignidade. É assim que a sociedade de hiperconsumo é marcada tanto pela progressão do sentimentos de exclusão social quanto pela acentuação dos desejos de identidade, de dignidade e de reconhecimento individual. p. 192


Desprezando a cultura operária e a cultura do trabalho, rejeitando a política e o sindicalismo, os jovens "marginalizados" constroem sua identidade em torno do consumo e da "grana", da fanfarronada e da vigarice. p. 193


Se os desvios juvenis são uma das conseqüências da falência dos movimentos sociais, são também resultado de um mundo social desestruturado e privatizado pelo império do consumo mercantil, por novos modos de vida centrados no dinheiro, pela vida no presente, pela satisfação imediata dos desejos. p. 193


[...] os excluídos do consumo são eles próprios uma espécie de hiperconsumidores. Privados de verdadeira participação no mundo do trabalho, atormentados pela ociosidade e pelo tédio, os indivíduos menos favorecidos buscam compensações no consumo, na aquisição de serviços ou de bens de equipamento, mesmo que seja, [...] em detrimento do que é mais útil. p. 194


[...] não se sentem pobres apenas porque subconsomem bens e lazeres, mas também porque superconsomem as imagens da felicidade mercantil. p. 194


[...] o desemprego mudou de sentido: não sendo mais assimilado a um destino de classe, ele remete a um fracasso ou a uma insuficiência pessoal, freqüentemente acompanhada de auto-estigmatização. [...] Quanto mais as condições materiais gerais melhoram, mais se intensifica a subjetivização-psicologização da pobreza. p. 199-200


Em uma cultura entregue aos prazeres sensoriais e aos desejos de gozo aqui e gora, é toda a vida social e individual que, ao que nos dizem, está envolta num halo "orgiástico" [...] esgotamento do princípio de individualização e escalada correlativa da tribalização afetiva, das emoções vividas em comum, das sensibilidades coletivas. p. 209


Não é as novas epifanias do Mestre dos prazeres que nos é dado assistir, mas à encenação lúdico-hedonista de seus funerais. Nada de reencarnação dos valores orgiásticos, mas a invenção do cosmo paradoxal da hipermodernidade individualista. p. 211


O universo do lazer contemporâneo [...] é o da privatização dos prazeres, da individualização e da comercialização do tempo livre [...] a lógica que triunfa é a do tempo individualista do lazer-consumo. p. 212


O hiperindivíduo não é dionisíaco; consome ambiência dionisíaca instrumentalizando o coletivo com vista a satisfações privadas. p. 212


[...] se o lazer pode reafirmar coesão comunitária, é importante sublinhar-lhe o caráter lábil, efêmero, muitas vezes epidérmico. [...] o que o lazer refabrica é menos a preeminência do coletivo sobre o individual que uma divisão pacífica do social, feita de dispersão individualista dos gostos e dos comportamentos. p. 212-213


Os lazeres e os templos do consumo são fatores de comunhão? A verdade é que eles relacionam mais o indivíduo consigo mesmo do que provocam a união dos membros de uma mesma comunidade. p. 216


A felicidade não é, evidentemente, uma "idéia nova". Nova é a idéia de ter associado a conquista da felicidade às "facilidades da vida", ao Progresso, à melhoria perpétua da existência material. p. 217


Com os modernos, a felicidade da humanidade identifica-se com o progresso das leis, da justiça e das condições materiais de existência [...] não é mais a mudança de si que aparece como o caminho certo da felicidade, mas a transformação do mundo, a atividade fabricadora capaz de aliviar as penas, embelezar a vida, proporcionar cada vez mais satisfações materiais. p. 217


Centrado na acumulação dos bens, na eletrificação e na mecanização do lar, esse modelo de conforto é de tipo tecnicista-quantitativo e é sonhado como o que apaga as sujeições, como prótese miraculosa que traz higiene e intimidade, ganho de tempo e facilidade de vida, distração e entretenimento passivos. [...] Depois do conforto-luxo [...] o [...] conforto-liberdade ("a técnica liberta mulher") [...] Vitrine do progresso técnico e da racionalização do cotidiano, instrumento de uma vida melhor, o conforto tornou-se a figura central da felicidade-repouso, dos gozos fáceis possibilitados pelo universo técnico-mercantil. p. 218-219


Alastra-se uma nova espécie de conforto que se identifica com a abundância informacional, as interações virtuais, a acessibilidade permanente e ilimitada. p. 227


[...] o design contemporâneo exibe uma nova predileção pelos objetos gordinhos, de linhas ovóides, criando um universo suave, maternal, acolhedor. [...] reconcilia-se com os arredondados. p.230


[...] a ambição do design não é mais tanto de erigir símbolos de modernidade triunfal quanto um meio ambiente acolhedor e reconfortante, um conforto hipermoderno que concilia o funcional e a experiência vivida emocional, a eficácia e as necessidades psíquicas do homem. p. 232


[...] Já não se fazem comilanças, fazem-se regimes. As prateleiras dos supermercados estão carregadas de alimentos biodinâmicos, de produtos com pouca gordura, "pró-bióticos" e outros alimentos saudáveis. Quanto as intermináveis refeições de domingo, elas nos causam horror. Comer com fartura [...] deixou de ser uma paixão popular, a época aprova as refeições equilibradas, a alimentação leve benéfica à saúde e à magreza. [...] Cada vez mais a alimentação é considerada como um meio de prevenção ou mesmo de tratamento de certas doenças: a saúde, a longevidade, a beleza tornaram-se os novos referenciais que enquadram a relação com a mesa. p. 233


No entanto, é nesse exato momento que se propagam como um maremoto as bulimias e outras anarquias alimentares. De um lado, os valores da magreza, de saúde e de equilíbrio alimentar [...] do outro, multiplicam-se as compulsões e frenesis do neocomedor. p. 235


Mas nada disso acena à alegria dionisíaca. Bem ao contrário. Os excessos à mesa eram de origem coletiva, os nossos são individuais; eram festivos, são neuróticos; constituíam uma figura da felicidade coletiva, agora culpabilizam os indivíduos, tomando um caráter vergonhoso e patológico em uma cultura que reconhece apenas o controle de si. p. 235


[...] vemos a alimentação conquistada, por sua vez, pela forma-moda, que transforma a refeição em [...] divertimento total, co comidas inéditas, [...] decoração design, música ao gosto do dia. p. 236


O emocionalismo hipermoderno não é dionisíaco, é onifóbico. p. 238


A que se deve semelhante "moderação" libidinal? Como é possível que, em uma sociedade hipersexualista, a errância dos corpos não seja mais difundida? […] Trata-se, em primeiro lugar, do peso do ideal relacional-afetivo e, em seguida, da exigência primordial de reconhecimento subjetivo. p. 246


A despeito das incitações perpétuas a "curtir", Narciso venceu Dionísio. p. 248


Por toda parte, as festas são dominadas pela lógica dos lazeres, dos espetáculos e do consumo: a festa tradicional ou memorial foi substituída pela festa consumista ou frívola centrada no presente. p. 253


Na sociedade de hiperconsumo, triunfa a festa sem passado nem futuro, a hiperfesta auto-suficiente, presenteísta, no grau zero do sentido, apenas alimentada pelas paixões de distração e de consumo. p. 254


Prazer de encontrar-se "entre si", atar laços cúmplices e conviviais com semelhantes, declarar um orgulho identitário, a festa funciona como instrumento de autodefinição e de afirmação de si num tempo em que as identidades coletivas já não estão dadas e admitidas de uma vez por todas. O indivíduo se busca muito mais do que se perde: eis o princípio da festa reativado por uma exigência de "orgulho" neo-individualista, de enraizamento e de reidentificação de si. p. 256


Construir-se, destacar-se, aumentar suas capacidades, a "sociedade do desempenho" tende a tornar-se a imagem prevalente da hipermodernidade. p. 260


As antigas utopias estão mortas, o que "inflama" a época é um estilo de existência dominado pela "vitória", o sucesso, a competição, o eu de alto rendimento. Ser o melhor, destacar-se, superar-se: eis a sociedade democrática "convertida" ao culto do desempenho, "vetor de um desenvolvimento pessoal de massa". p. 264


O que torna o esporte-espetáculo altamente mobilizador de afeto, é, de um lado, sua capacidade de criar suspense entre quase iguais que se enfrentam; do outro, seu poder de criar ou de intensificar sentimentos de inclusão grupal. p. 274


Mais o que à desencarnação dos prazeres, assiste-se ao advento de uma nova cultura do corpo e do bem estar. O bem-estar sensação. O bem estar moderno era funcional, objetivista, mecanicista: o da fase III aparece como um bem-estar qualitativo e reflexivo, centrado no corpo vivido, na atenção a si próprio, no aumento do registro das sensações íntimas (relaxamento, respiração, visualização, forma, calma e equilíbrio). O balanço é pouco duvidoso: na sociedade de hiperconsumo, o "heroísmo" da superação de si é suplantado de modo bastante amplo pelas paixões narcísicas de saborear os prazeres do maior bem-estar, de sentir-se, muito simplesmente, bem. p. 283



Para além da desmaterialização do mundo, progride o que se poderia chamar um erotismo ampliado, polissensualista e estético, ávido de deleites qualitativos e de sensações renovadas em domínios cada vez mais vastos da vida. Quanto mais se propaga um certo "ascetismo" higienista, mais se intensifica uma dinâmica de psicologização e de estetização dos prazeres. p. 286


Nos períodos anteriores, predominava a norma da pudicícia; agora teríamos uma "liberdade imposta", uma "perseguição" inédita que nada mais é que a sexualidade e o "orgasmo obrigatório". p. 292


O imperativo de desempenho não está mais limitado à empresa e ao esporte, apoderou-se do planeta sexo. p. 293


Não é tanto a desimbolização e o colapso afetivo quanto a psicologização de massa da sexualidade e da vida de casal. […] não é tanto o sexo pelo sexo e o aumento relativo dos parceiros sexuais quanto a multiplicação das próprias histórias amorosas. Afinal, vai-se menos de aventura sexual em aventura sexual que de história amorosa em história amorosa. p. 296


Consumismo sentimental que é tudo, salvo eufórico, uma vez que acompanhado de sentimento de vazio, de decepção, de rancor, de feridas íntimas. Então, se há um consumo hedonista, existe também uma dimensão sismográfica do hiperconsumo dominado pela alternância repetida da felicidade e da tristeza, da exaltação e do abatimento. p. 296-297


A novidade estaria menos na promoção do sexo-proeza narcísico que na de um novo ideal de virilidade, forçado a levar em conta a dimensão do desejo feminino. […] a satisfação feminina é prescrita. p. 297-298


Mais que uma injunção ao desempenho, é um ideal de reciprocidade hedonista, acompanhado de um modelo de comunicação interpessoal, que qualifica a cultura erótica na hipermodernidade. p. 298


Nesse universo hiperconcorrente, apenas alguns tiram proveito da liberalização dos costumes, sendo a maioria condenada ao isolamento, à frustração, à vergonha de si. Como se o "horror econômico" não bastasse, eis que agora ele é simultaneamente horror libidinal. […] Longe de ter favorecido a felicidade dos sentidos, a revolução sexual provocou um impressionante desenvolvimento das frustrações e do mal estar. Liberação dos corpos, derrelição dos seres. p. 300


O universo das mídias […] não para de exibir insolentemente e em imensa escala tudo que existe de invejável neste mundo. p. 312


Não se consomem apenas coisas, superconsome-se o espetáculo hiperbólico da felicidade de personagens celebróides. p. 313



Tudo que é agressivo é eliminado em favor do "frescor de viver" e das volúpias a serem colhidas sem a preocupação com outrem. A publicidade […] funciona como […] instrumento de legitimação e de exacerbação dos gozos individualistas. Não nos focaliza no outro, mas em nós mesmos. Ninguém é ameaçado, ninguém é magoado, todo mundo tem o direito de aspirar à felicidade por intermédio dos bens mercantis. p. 313


Na sociedade do hiperconsumo, a felicidade de outrem tornou-se um formidável objeto de consumo de massa aliviado dos tormentos da inveja. p. 315


Como observaram Adam Smith e Nietzsche, nada é mais insuportável que tomar consciência de que se é o único a sofrer. p. 315


As conversas da vida comum mostram […] essa suspensão do temor da inveja dos outros. […] Exibir as alegrias ganhou direito de cidadania: as férias podem ser "geniais", nossos filhos, "os mais bonitos", nossa profissão, "apaixonante", o que se viveu, "fantástico, fabuloso, incrível". Afinal, temos menos medo de desencadear os sentimentos de cobiça e de inveja que de fazer supor que não somos felizes. Se quiséssemos despertar deliberadamente a inveja de outrem, não agiríamos de maneira diferente. […] Ganhamos o direito de viver ignorando a inveja de outrem. p. 316


Com a extrema individualização dos costumes, prevalece o sentimento de que "eu sou passavelmente feliz, os outros não o são". p. 319


O medo da inveja dos próximos que pesava sobre as antigas culturas foi substituído por uma tendência ao aumento do sentimento de confiança mútua. p. 321


O "novo paradigma" é construído segundo o seguinte esquema silogístico: o que nos acontece é o espelho de nossa atitude interior; ora, podemos mudar e controlar nossa consciência; portanto, a felicidade nos pertence, é aprendida, está integralmente em nossas mãos, podemos ser tão felizes quanto decidimos sê-lo: esse é o credo incansavelmente repetido pelos mestres em espiritualidade e desenvolvimento pessoal. p. 352

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