Um livro é um mudo que fala, um surdo que responde, um cego que guia, um morto que vive. (Padre Antônio Vieira)

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Brasileiro despreza identidade latina

que triste...

Brasileiro despreza identidade latina, mas quer liderança regional, aponta pesquisa

Thiago Guimarães - @thiaguima Da BBC Brasil em Londres
  • 21 dezembro 2015
  • 14 comentários
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Image copyright Usp Imagens Image caption Só 4% dos brasileiros se definem como "latino-americanos"

Uma pesquisa inédita de opinião pública confirmou o que a história e o senso comum já sugeriam: o brasileiro despreza a América Latina, mas ao mesmo tempo se vê como líder nato da região.

Apenas 4% dos brasileiros se definem como latino-americanos, ante uma média de 43% em outros seis países latinos (Argentina, Chile, Colômbia, Equador, México e Peru).

E mais: quem mora no Brasil avalia que o país seria o melhor representante da América Latina no Conselho de Segurança da ONU, mas não quer livre trânsito de latinos por suas fronteiras nem priorizar a região na política externa.

Os resultados estão na edição 2014/2015 do projeto The Americas and the World: Public Opinion and Foreign Policy (As Américas e o Mundo: Opinião Pública e Política Externa), coordenado pelo Centro de Investigação e Docência em Economia (Cide) do México, em colaboração com universidades da região.

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No Brasil, o responsável pela iniciativa é o Instituto de Relações Internacionais da USP (Universidade de São Paulo), que aplicou 1.881 questionários no país.

Em uma das questões, os entrevistados deveriam apontar os gentílicos e expressões com os quais mais se identificavam. A principal resposta foi "brasileiro" (79%), seguida por "cidadão do mundo" (13%), "latino-americano" (4%) e "sul-americano" (1%).

O Brasil foi o único entre os sete países da pesquisa em que o adjetivo pátrio ficou entre as três principais opções dos entrevistados.

Argentinos, chilenos, colombianos, equatorianos e peruanos indicaram "latino-americano", "sul-americano" e "cidadão do mundo". E a segunda e terceira opção dos mexicanos depois de "latino-americano" foram, respectivamente, "cidadão do mundo" e "norte-americano".

O estudo também fez a seguinte questão aos participantes: em qual região do mundo seu país deve prestar mais atenção?

Na mesma linha do item sobre identidade, o Brasil foi o único na pesquisa a não priorizar a América Latina. Na opinião dos entrevistados, o foco da política externa deve ser a África (24%), depois América Latina (16%), seguida de perto por Europa (13%) e América do Norte (9,5%).

Nos outros países a opção pela América Latina predominou, com percentuais de 57% (Argentina) a 30% (Chile e Peru).

'Tão distante, tão perto': Brasil e América Latina

Percepção do brasileiro sobre identidade nacional e regional

79%

se definem como "brasileiros"

  • 13% se dizem "cidadãos do mundo"

  • 4% se afirmam "latino-americanos"

  • 1% se dizem "sul-americanos"

  • 43% é a média de identificação com a definição "latino-americano" em outros seis países da região

IRI-USP
Thinkstock

Autoidentificação ambivalente

Para os autores da pesquisa, os resultados comprovam, com dados de opinião pública, o que historiadores e cientistas sociais já apontavam: a autoidentificação do brasileiro é tênue e ambivalente, marcada pela percepção de pertencer a uma nação diferente dos vizinhos, seja pela experiência colonial, língua ou processo de independência distinto.

"A primeira explicação é a colonização. América Latina sempre se associou à colonização espanhola, e isso já gera uma divisão com o passado português do Brasil", afirma o argentino Fernando Mourón, pesquisador do Centro de Estudo das Negociações Internacionais da USP e participante do estudo regional.

"Depois temos os processos de independência na região. Na América espanhola houve guerras contra a Coroa e o reforço de uma identidade cultural única, enquanto no Brasil o próprio regente português declarou a independência."

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A economia por muito tempo fechada aos vizinhos, a geografia continental que dificulta conexões físicas e o histórico diplomático também ajudam a explicar o "isolamento" brasileiro, avalia Mourón.

Sobre esse último ponto, em artigo ainda inédito sobre os resultados do estudo, Mourón e os colegas da USP Janina Onuki e Francisco Urdinez lembram que até o final da Guerra Fria diplomatas brasileiros acreditavam que a melhor estratégia para aprimorar a inserção internacional do país era manter distância de questões regionais.

"Uma das consequências foi que, até a metade dos anos 1980, as elites brasileiras e a população em geral viram a América Latina não como construção maior de identidade coletiva, mas apenas como a paisagem geográfica imediata em torno do país", escrevem os autores.

Image caption "A América Latina sempre se associou à colonização espanhola, e isso já gera uma divisão com o passado português do Brasil", afirmou Fernando Mourón

Liderança contraditória

Ao analisar os dados da amostra, que é representativa de toda a população dos países analisados, os pesquisadores concluem que os brasileiros enxergam seu país como líder regional, mas em geral resistem a possíveis implicações de assumir tal posição.

Questionados sobre qual país deveria assumir uma cadeira no Conselho de Segurança da ONU caso o órgão abrisse uma vaga para a América Latina, por exemplo, a maioria dos brasileiros (66%) indicou o próprio país.

O Brasil também foi a primeira opção dos entrevistados nos demais países do estudo, exceto as outras duas maiores economias, Argentina e México, onde os moradores também "elegeram" seus próprios países, com 60% e 54%, respectivamente.

Por outro lado, a maioria dos brasileiros (54%) discorda do livre movimento de pessoas na região sem controles fronteiriços. A maior fatia dos entrevistados também se opõe ao trabalho de sul-americanos no país sem visto (66%) e rejeita (65%) a possibilidade de intervenção brasileira em uma possível crise militar regional.

Quando o assunto é a "liderança pela carteira", ou seja, a ajuda financeira a países menos desenvolvidos da região, 65% dos entrevistados no Brasil disseram concordar com essa possibilidade.

Mas o índice do Brasil nesse item foi o menor de todos os países, e ademais os pesquisadores alertam que os altos índices nas respostas podem estar relacionados à tendência – identificada nos estudos de opinião pública – de participantes a responder perguntas de fundo moral baseados no que pensam ser algo social e politicamente correto.

Image copyright AP Image caption Cerca de 54% dos brasileiros discordam do livre movimento de pessoas na região sem controles fronteiriços

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Problemas na vizinhança

A partir do governo Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2010), a ênfase da diplomacia brasileira na integração regional, como foco na América do Sul, expõe o reconhecimento tácito da dificuldade do país em exercer influência em todo o "continente" latino, avaliam Mourón e os pesquisadores do Instituto de Relações Internacionais da USP.

Mas em geral, quando o assunto é opinião pública no Brasil, a América Latina é vista mais como preocupação e problema do que benefício, conclui o estudo.

Percepção que, afirma Mourón, acaba tendo respaldo na realidade, diante da série de percalços que o país enfrentou na última década com os vizinhos, como o episódio da nacionalização dos ativos da Petrobras na Bolívia, a expulsão da Odebrecht do Equador, as barreiras de comércio entre Brasil e Argentina e a frustrada sociedade com a Venezuela na construção da refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco.

http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/12/151217_brasil_latinos_tg

Golpismo naufragando

"Mesmo que as manobras continuem, ao sabor do revanchismo diário e oportunista do presidente da Câmara e da oposição, nosso país demonstrou que estamos mais fortes e unidos contra qualquer ato antidemocrático", destacou, em artigo, a deputada federal Jandira Feghali (PCdoB-RJ)

Por Jandira Feghali*

Os últimos dias de 2015 nos reservaram uma importante decisão a celebrarmos. A luta contra o golpe institucional teve uma enorme vitória com a decisão recente do Supremo Tribunal Federal. A ADPF protocolada pelo Partido Comunista do Brasil teve o desfecho que a democracia merece: impediu um rito do impeachment eivado de ilegalidades patrocinadas por quem deveria conduzi-lo com isenção e imparcialidade. Mesmo que as manobras continuem, ao sabor do revanchismo diário e oportunista do presidente da Câmara e da oposição, nosso país demonstrou que estamos mais fortes e unidos contra qualquer ato antidemocrático.

Intensas lutas foram travadas nas ruas e no Parlamento em defesa da democracia. Nossa brava juventude se rebelou contra a pauta imposta por uma Câmara dos Deputados de composição conservadora no debate da proposta de redução da maioridade penal. Se revoltou contra o fechamento de escolas. Um levante juvenil nos inspirou e comprovou o poder da mobilização.

Se em 2015 o atraso tomou o poder na Câmara, o ano também foi de unidade das mulheres que soltaram suas vozes nas ruas e nas redes sociais. De mãos dadas e em diversos tipos de coro, filhas, mães e avós tomaram o asfalto para exigir seus direitos. Estiveram perfiladas num dos momentos mais bonitos de nossa História: a Primavera das Mulheres.

A resistência não impediu a aprovação de algumas propostas atrasadas e na contramão do caráter cidadão de nossa Constituição Federal. Mas, pela ampliação do debate, gerou conscientização política e celebrou conquistas importantes, como o fim do financiamento privado de campanhas eleitorais e o direito de resposta.

Ao olhar para trás, vemos um campo onde batalhas legislativas, antes pacíficas e com lugar para o contraditório, deram lugar a ataques covardes, vis e até físicos. Restou a certeza de que é preciso, sim, continuar na luta em favor do Estado Democrático de Direito e da política de alto nível. Aquela que nos engrandece e promove a justa e necessária transformação social.

Se atitudes fascistas crescem de forma alarmante em setores da sociedade e dentro do Parlamento, repito: Mais democracia! Nada como uma grande injeção dela em nossa pátria para que o ódio ferrenho e a intolerância cega sejam neutralizados e extirpados de uma vez por todas. Somos plurais em nossa cultura e modo de enxergar o mundo, e nossas diferenças precisam ser respeitadas.

Entraremos em 2016 enlaçados à certeza de que é preciso seguir com nosso lado na política, defendendo um projeto político vitorioso nas urnas com seus mais de 54 milhões de votos. Aliás, um projeto constantemente atacado por forças oportunistas e sem autoridade moral e política alguma para tal. Sem credibilidade ou ética, eles marcham numa missão que fracassará fragorosamente.

Agradeço a todos que me acompanharam nesta caminhada e aos que incentivaram nosso mandato a prosseguir. As batalhas não foram fáceis, mas ter vocês ao meu lado fez toda a diferença. Vamos juntos!

* Jandira Feghali é médica, deputada federal (RJ) e líder do PCdoB

Foto de capa: Antonio Cruz / Agência Brasil

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

O povo não é bobo

Manifestações de ontem demonstram que Brasil é mais complexo do que parece

Negros, gays, pobres, movimentos sociais, estudantes, artistas, professores, entre outros. Manifestações desta quarta-feira contra o impeachment demonstraram que o Brasil é mais complexo do que querem fazer parecer. Maior mobilização de esquerda dos últimos tempos revela que o povo está disposto a ir às ruas para defender a democracia e que no País não há uma só voz

manifestações impeachment Dilma paulista
O Brasil não é "uma só voz". Seres humanos são políticos, culturais e ideológicos; por isso, complexos. Povo foi às ruas defender mandato de presidente eleita pela voto (Imagens: Manifestações do dia 16 e do dia 13)

Milhares de pessoas saíram às ruas 24 estados brasileiros e no Distrito Federal para protestar contra a tentativa de impeachment da presidenta Dilma Rousseff (PT), pedindo a cassação do presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ) e por mudanças na política econômica do governo federal.

"Nós não precisamos de pato inflável na manifestação, nós enchemos a Paulista de povo", provocou o coordenador do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST).

Em determinado momento, a organização do ato chegou a anunciar a presença de 100 mil pessoas. Segundo o Datafolha, foram 55 mil. Em termos comparativos, segundo o mesmo instituto, no último domingo (13), o ato a favor do impeachment reuniu 40 mil.

Vídeo:


Durante o ato, os manifestantes souberam da decisão do Procurador Geral da República Rodrigo Janot de afastar Cunha da Presidência da Câmara dos Deputados.

Rio de Janeiro

No Rio, artistas participaram do ato contra o impeachment. Bete Mendes esteve presente e gritou do palco, que não haverá impeachment. "Não vai ter golpe, chega de mídia golpista. Estamos todos juntos com Dilma, a primeira presidente mulher do Brasil."

O ator Osmar Prado também foi dizer não ao golpe. Ele afirmou ainda que todos os governos fizeram manobras fiscais como essas de que a presidenta está sendo acusada.

"Deixem Dilma governar e derrotem-na se o quiserem, democraticamente, em 2018, se o povo assim o permitir", afirmou o ator.

Maria Casadevall Osmar Prado
Maria Casadevall e Osmar Prado participaram dos atos contra o impeachment de Dilma Rousseff (reprodução)

Belo Horizonte

Belo Horizonte
Belo Horizonte (16/12)

Em Belo Horizonte, reduto do senador tucano Aécio Neves – que lidera a tentativa de golpe –, manifestantes queimaram caixões simbólicos do presidente da Câmara dos Deputados e do próprio Aécio.

Dólares impressos com o rosto de Cunha foram colados pelos muros. De acordo com números da PM, cerca de 5 mil pessoas participam do protesto, já a organização falou em 20 mil manifestantes. A atividade superou o ato contra Dilma, realizado no último domingo, quando a PM contabilizou 3 mil pessoas nas ruas.

Registro em vídeo da manifestação em Belo Horizonte:


Em Salvador, Fortaleza, Recife, João Pessoa, Manaus, Aracaju e Porto Alegre as manifestações também foram significativas, com muita gente nas ruas.

Av. Paulista:

Recife:

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Salvador:

salvador

Porto Alegre:

porto-alegre

Brasília:

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quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Chauí: Golpe agora fará 64 parecer pão doce

Chauí: Golpe agora fará 64 parecer pão doce; veja o vídeo em que ela ironiza FHC; Schwarz diz que estratégia da oposição foi tornar país ingovernável

publicado em 16 de dezembro de 2015 às 14:26

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por Luiz Carlos Azenha

Surpreendentemente, o auditório da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, no centro de São Paulo, estava superlotado de professores e alunos.

Mais de 7.500 pessoas já assinaram o manifesto.

Dentre os mil que tiveram as assinaturas confirmadas, 264 são professores da Universidade de São Paulo, 66 da Unicamp, 59 da Universidade Federal do Rio de Janeiro, mas há centenas de assinaturas de professores de universidades federais e privadas de todo o Brasil e até do exterior.

Muitos deles são críticos do governo Dilma e do Partido dos Trabalhadores, como o filósofo Paulo Arantes. Porém, todos reconhecem que o processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff é apenas um passo no processo de retirada de direitos sociais e da instalação de um governo oligárquico no Brasil, sob forte influência da extrema-direita. É, portanto, um golpe.

Na mesa, o neurocientista Miguel Nicolelis teve um flashback de 35 anos atrás, de quando o Brasil sofreu um golpe militar. "Quero evitar que meus filhos e meus netos tenham de voltar aqui para protestar contra uma ditadura", afirmou. "Não é uma presidência, uma pessoa, é a defesa do Estado de direito, da democracia, do império da lei".

A economista Leda Paulani relembrou que "nenhuma Nação passa impune por 25 anos de ditadura". Segundo ela, "é a construção democrática do Brasil" que está em jogo. Os que propõem o impeachment, segundo ela, "nunca foram democratas".

Outro economista, Luiz Gonzaga Beluzzo, também relembrou o passado. Disse que em 64, depois do golpe, apanhou do Comando de Caça aos Comunistas (CCC) defendendo o governo constitucional de João Goulart e que o faria de novo, agora, se necessário for.

O jurista Dalmo Dallari afirmou que nunca foi filiado a partido político, que estudou a proposta de impeachment de Hélio Bicudo, Janaina Paschoal e Miguel Reali Jr. e que não existem atos da presidente Dilma que configurem crime de responsabilidade.

"Eu não diria que são falsos juristas, mas que são juristas incompletos", afirmou. Nunca chegariam ao STF por terem demonstrado "notável ignorância jurídica", aduziu.

Paulo Arantes alegou que, por força da pergunta de um repórter, se sentia obrigado a explicar sua presença no ato, tendo em vista suas críticas recorrentes ao PT e ao governo Dilma.

"É em solidariedade às vítimas do processo em marcha. Saindo ou não saindo o impeachment, estamos diante de uma onda avassaladora que está se despejando sobre o Brasil", afirmou.

Ele relembrou a manifestação na avenida Paulista em 2013, quando a esquerda apanhou de militantes direitistas quando comemorava a vitória do Movimento Passe Livre. Para ele, designar os pró-impeachment como "coxinhas é fofo"; no outro extremo, poderiam ser chamados de "milícias fascistas".

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Para o fundador do PSDB, o economista Luiz Carlos Bresser Pereira, a democracia está ameaçada "pelos liberais", que não aceitam premissas básicas dela, como os direitos civis e o sufrágio universal. Ele acrescentou que uma "classe média orfã" da política econômica fornece a militância para o que chamou de golpe.

Para Bresser, o impeachment falhará porque o Brasil tem uma sociedade plural, uma classe trabalhadora ativa e intelectuais como os que se reuniam naquele momento.

O professor Roberto Schwarcz disse que o impeachment vai enfraquecer a democracia e lembrou que, desde a apuração dos votos em 2014, a oposição trabalha para tornar o Brasil ingovernável de maneira a poder dar o golpe alegando que o país está desgovernado.

Para ele, se o governo atual for derrubado o impeachment estará legitimado como forma de resolver crises institucionais, mas o campo popular não terá acesso à imprensa, ao rádio e à TV, nem ao apoio da Fiesp, que representam "os interesses do dinheiro".

O professor de Filosofia Marcos Nobre disse que a elite brasileira está "canalizando o sofrimento social" de uma crise econômica para dar o golpe. "É a energia sequestrada de uma sociedade", disse. "A autodefesa de um sistema estruturalmente podre e corrupto", segundo Nobre, resulta numa "enganação coletiva": colocar os de baixo para apoiar uma proposta que basicamente beneficia os de cima.

Marilena Chauí afirmou que o impeachment é apenas a "cereja no bolo" da direita, que banca uma pauta extremamente conservadora no Congresso, incluindo da redução da maioridade penal à lei antiterrorismo.

Segundo ela, o que está sendo preparado "é a vitória completa do capital na luta de classes". "Não é por acaso", frisou, que "o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso afirmou em entrevista que o mercado é favorável ao impeachment, como se o mercado fosse um ente metafísico". Para Chauí, a classe dominante conta com o apoio de uma classe média "proto fascista" para implantar um governo reacionário depois de derrubar Dilma Rousseff.

"Se o golpe vier, nós teremos uma ditadura que nos fará considerar 64 como um pão doce com bolacha", previu sobre o futuro.

Para o jurista Fábio Konder Comparato, que encerrou o evento, no Brasil vigem duas Constituições. A de 1988, nunca totalmente regulamentada, e a "real, ditada pela oligarquia". Para ele, o impeachment seria a vitória indiscutível desta constituição "de fachada", que privilegia os de cima às custas dos de baixo.

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

A Folha mostra o legado social do PT que ela própria sempre escondeu. Por Paulo Nogueira

Milhões de pobres  ascenderam à classe média e foram às compras nestes 13 anos

Milhões de pobres ascenderam à classe média e foram às compras nestes 13 anos

A Folha, depois de anos de pesquisas e levantamentos da mais extraordinária inutilidade, descobre enfim o seguinte.

Vou usar as palavras do próprio jornal: "Em 13 anos de PT no poder, o Brasil distribuiu sua renda como em nenhum período da história registrada pelo IBGE. Todos ganharam. Quanto mais pobre, melhor a evolução. Foram 129% de aumento real (acima da inflação) na renda dos 10% mais pobres. Nos 10% mais ricos, 32%."

Quer dizer: num país em que a desigualdade social é o maior e mais arraigado dos males, um real câncer, são números que merecem aplausos de pé.

Nenhum desafio para o país é maior do que o de reduzir a iniquidade. O abismo entre os poucos ricos e os muitos pobres é uma chaga muito mais deletéria do que a corrupção.

Quanto mais igualitária uma sociedade, menos corrupta ela é. Os países nórdicos estão invariamente na ponta nas listas de países com menor grau de corrupção, e o motivo é exatamente o igualitarismo. Você proporciona boa educação gratuita às crianças, ensina a elas noções vitais de ética, dá a todos boas oportunidades, protege os mais desfavorecidos e cria uma cultura segundo a qual praticar corrupção é um horror. Sonegar na Escandinávia, como faz abertamente a Globo, por exemplo, transforma você num pária.

Por mais pecados que o PT tenha cometido em 13 anos, e não são poucos, o fato de ter dado foco aos desvalidos o redime.

Você tira muitas conclusões dessa reportagem da Folha.

Uma é que isso – a redução – foi escondido estes anos todos, o que é um absurdo, quase um crime de lesa pátria, dado o tamanho abjeto e histórico da desigualdade.

Era algo que a Folha deveria ter feito na campanha de 2012, para ajudar seus leitores a entender melhor o que estava em jogo.

Outra é a inépcia do PT em se defender: como o partido não levantou, ele próprio, este tipo de coisa?

Estudos dessa natureza jogam luzes onde existem sombras, o que é a tarefa mais nobre do jornalismo.

Mas a imprensa brasileira faz exatamente o oposto, ou por má fé ou por incompetência: joga sombras até onde existe luz.

E então você entende o paradoxo do trabalho da Folha.

Mesmo com fatos acachapantes, apenas 31% dos brasileiros acreditam que sua vida melhorou nestes 13 anos de PT.

Ora, ora, ora.

Com o massacre cotidiano da imprensa sobre primeiro Lula e agora Dilma, a percepção das pessoas é que nestes 13 anos só houve corrupção.

Avanços sociais foram censurados numa mídia partidarizada, aparelhada pela direita e frequentemente desonesta.

E denúncias de corrupção, verdadeiras ou imaginárias, foram estupidamente ampliadas – não genericamente, mas contra um alvo específico: o PT.

Isso quer dizer o seguinte: é fácil, é simples explicar o paradoxo. As melhoras não são sentidas porque elas são soterradas por um noticiário envenenado.

E é exatamente pelo combate à desigualdade que a mídia – a voz da plutocracia predadora – tanto luta para derrubar o governo.

Não há propósitos moralistas na campanha da imprensa contra Dilma e Lula. O que existe é apenas a mesma lógica que a levou, no passado, a investir contra Getúlio e contra Jango.

A lógica das empresas de jornalismo é esta: defender seus interesses e os da classe que representa, a plutocracia.

Para sorte da sociedade, apareceu o jornalismo digital, com sites independentes e livres que funcionam como um contraponto potente ao esforço da mídia em manter o Brasil como um dos recordistas mundiais em desigualdade social.

Modestamente, nos orgulhamos de pertencer a este bloco de sites.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Reitores de instituições federais se manifestam contra impeachment


"Nosso braço erguido pela defesa da continuidade do governo da presidenta Dilma Rousseff, até o fim de seu mandato em 2018, pela democracia brasileira, legítimo e inalienável patrimônio de todos!", diz o documento; leia na íntegra

por Redação

Nesta quinta (10), reitores e pró-reitores de 41 universidades e institutos técnicos federais apresentaram uma nota de repúdio à abertura do processo de impeachment contra a presidenta Dilma Rousseff. A carta foi entregue ao ministro-chefe da Secretaria de Governo, Ricardo Berzoini, com a presença da senadora Fátima Bezerra (PT-RN) e dos deputados federais Sibá Machado (PT-AC) e Maria do Rosário (PT-RS).

O presidente eleito do Conselho Nacional das Instituições da Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica (Conif), Marcelo Machado, fez a leitura do texto, no qual consta:  "Democracia pressupõe acesso, justa partilha de renda e garantia de direitos a todos. Supõe, sobretudo, a dimensao, necessaria e imprescindivel, que é a do respeito ao poder legalmente constituido. Assistimos, portanto, a uma tentativa nao apenas de usurpar o mandato da presidenta do Pais, mas a de vilipendiar direitos históricos sociais adquiridos".

"Não é possível que o impeachment, um instrumento democrático e constitucional seja usado de forma leviana e irresponsável por aqueles que querem simplesmente tomar conta do Estado brasileiro para usá-lo ao seu bel-prazer", disse Berzoini, em resposta à entrega da carta.

A presidenta, que está na Argentina, já expressou seu contentamento pela iniciativa dos reitores em defender a legitimidade do governo.

Leia abaixo a íntegra do documento:
Reitores da Rede Federal em defesa do Estado Democrático de Direito

Nós, reitoras e reitores das instituições da Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica, diante das ameaças que, no atual momento, colocam em risco o Estado Democrático de Direito, fissuram importantes conquistas que marcam a política pública em nosso país no que se refere à construção de uma nação mais justa e inclusiva, embaçam as aspirações e a luta por uma pátria verdadeiramente livre e soberana, vimos a publico, revestidos do tônus republicano e democrático, manifestar veemente posição contra qualquer ipo de confisco à democracia e à República Brasileira.

Democracia pressupões acesso, justa partilha de renda e garantia de direitos a todos. Supõe, sobretudo, a dimensão, necessária e imprescindível, que é a do respeito ao poder legalmente constituído. Assistimos, portanto, a uma tentativa não apenas de usurpar o mandato da presidenta do Pais, mas a de vilipendiar direitos históricos sociais adquiridos.

Como dirigentes de instituições públicas, eleitos que fomos, e educadores que somos, com uma jornada profissional de reconhecida dedicação à Educação Profissional e Tecnológica, temos o dever de sempre pautar nossas ações pelo compromisso social, pela democratização e perenidade de Políticas Publicas voltadas para a Educação, pelo acesso aos bens e pela defesa da instituição publica.

Sendo assim, com a responsabilidade que nos é outorgada pela sociedade, temos o dever de vir a a público defender um ideário que responde aos anseios da população brasileira. Nossa bandeira é a da Educação e a nossa luta é pelas pessoas, pela grandeza do país! Evocamos o apoio popular para estancar esse golpe vergonhoso, que fragiliza os poderes da República e macula a imagem do povo brasileiro e de sua nação.

Nosso braço erguido pela defesa da continuidade do governo da presidenta Dilma Rousseff, até o fim de seu mandato em 2018, pela democracia brasileira, legítimo e inalienável patrimônio de todos!

Brasília, 10 de dezembro de 2015.

59 Reunião Ordinária do Conselho Nacional das instituições da Rede Federal de Educação profissional, Científica e Tecnológica (Conif)

* Foto de capa: Naiara Pontes/SG

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Sobre intolerância e política

                
A história nos oferece razões para a experiência e a sabedoria da prudência, algo que tem faltado à elite política
 

"Oh tempos, oh costumes!" Com essa frase, Marco Túlio Cícero encerra o seu primeiro discurso, de um total de 4, contra Catilina, em processo de julgamento no Senado de Roma, em 63 a.C.

Catilina foi julgado pelo crime de conspiração contra a República de Roma. As Catilinárias, que reúnem os discursos de Cícero contra Catilina, destacam um aspecto que foi crucial à história da derrocada política de Roma.

O processo contra Catilina revelava mais do que um caso isolado de conspiração. Representava um processo de corrupção daquilo que foi a República, em que, no lugar das virtudes políticas e do decoro, passou a conviver com uma luta vil pelo poder que, gradativamente, deslanchou-se para a violência. 

Para Cícero, a violência significava a morte da política e a derrocada de qualquer possibilidade de espírito público. Não apenas nas instâncias políticas centrais, mas na sociedade como um todo. A conspiração de Catilina obrigou Cícero, nobre senador romano, a juntar sua legião e lutar contra a derrocada da República.

Derrotou Catilina, porém mais tarde viu a decadência da República em 42 a.C., tendo morrido pouco tempo depois. A República esfacelou-se em guerras civis, encontrando uma solução para os conflitos que devastou suas conquistas apenas na força de um império que ascendeu.

O domínio da força foi a solução final e a morte da política, nas palavras de Cícero. Se a República era plural porque reunia em si diversas sociedades, o Império quis unificar a vida romana na homogeneidade religiosa do cristianismo. O império da lei deu lugar ao império da força e a política morreu com esta luta fratricida pelo poder. 

A história é importante porque nos oferece razões para a experiência e a sabedoria da prudência. Prudência que, no Brasil, tem faltado à elite política e tem contaminado a sociedade de modo devastador em nossos costumes.

"Oh tempos, oh costumes!" Resta a pergunta: que costumes? As representações sobre o Brasil sempre nos colocaram no lugar da cordialidade e do afeto. Não é o sentido inocente de uma simpatia natural do brasileiro, mas do fato de agirmos mais motivados com o coração e menos com a razão.

O Brasil de agora assemelha-se a uma Roma em ebulição. Se o processo de democratização sinalizou para a construção de uma sociedade democrática, plural em seus princípios, balizada no exercício da liberdade e da igualdade, nos vemos agora no desafio de afirmarmos estes princípios contra a possibilidade da força, das conspirações e do infortúnio.

O mensalão e a lava jato estão virando parcos detalhes em uma sociedade que tem namorado com a força e com a exceção, na impossibilidade do diálogo franco e transparente, nas soluções de consenso e no império da lei. A corrupção que nos assola agora não afeta apenas os recursos públicos.

Por esta razão a corrupção já é perniciosa em si. Mas também está afetando o regime democrático. No fundo desse processo está um fator oculto que tem afetado o Brasil: uma profunda intolerância política que caminha para a exceção.

Racismo, machismo, preconceitos regionais, violência crescente, desajustes políticos, vingança, conspirações, impossibilidade do diálogo, a falta de soluções comuns e um pedido ainda silencioso pela força são problemas relevantes, mas também são sintomas de uma política que cede ao jogo mais vil da luta pura e simples pelo poder e uma sociedade que se torna cada vez mais ávida pela intolerância.

Há de se notar que as duas coisas andam juntas e dilaceram qualquer ordem republicana. Assumimos discursivamente os diversos estereótipos da sociedade brasileira, sem qualquer tipo de reflexão acurada sobre os nossos problemas. Dispensamos a razão e buscamos a construção de sentimentos e afetos que nos aproxima de uma das emoções mais sequazes para a política: o ódio.

O ódio de classes, o ódio regional, o ódio contra os negros, o estereótipo das feminazis, o ódio oculto e não pronunciado contra os evangélicos, contra as religiões afrodescendentes, o ódio partidário, o ódio contra os gays. São todas expressões de uma irracionalidade que veta qualquer possibilidade de diálogo entre diferentes. 

Este ódio nos adorna como costume. Somos uma sociedade acostumada à intolerância e que é cega à igualdade. Uma sociedade intolerante não é apenas incapaz de conviver com as diferenças. É uma sociedade que cria hierarquias, as quais são constantemente pronunciadas e criam, por sua vez, uma enorme desigualdade de poder.

O ódio é o sentimento que nos cega, que destrói os costumes democráticos e que impossibilita a convivência dos diferentes. Uma sociedade intolerante é aquela em que os discursos pronunciados são aqueles dos vencedores e derrotados, certos e errados, sabujos e ignorantes. Sociedades que se dividem entre o bem e o mal e que toma a violência como método da política. 

Uma sociedade intolerante nega-se a si mesma. Projeta-se para fora, rejeitando seus próprios feitos. É uma sociedade que se apequena nos corações e obscurece as mentes. Uma sociedade intolerante é aquela que faz da conspiração um método, da luta pelo poder um fim e da corrupção uma forma de governar. Uma sociedade intolerante não consegue ser democrática, porque vê na força a solução final para os conflitos. Uma sociedade intolerante é autoritária por definição e espírito. 

Impeachment, mensalão, operação lava jato, trensalão, pixulecos e coisas que tais são apenas cenas de uma ópera bufa, em que estereótipos e opiniões ditos e repisados aos prantos à esquerda e à direita, entre progressistas e conservadores, valem mais do que conhecimento e racionalidade. Tivemos um surto de esperança.

Mas hoje nos resta apenas uma sociedade que clama pela força. Loquaz em suas expressões, tendo o ódio como expressão máxima, caminhamos por tempos obscuros, sem direção, sem razão, sem objetivo. Pelo simples método da corrupção como forma de governar uma sociedade intolerante em seus costumes.

O desarranjo nos exigirá paciência e prudência. Mas como sermos prudentes quando todos querem o ódio de forma loquaz?

Talvez Catilina fosse visto como herói no Brasil. Vá saber. Mas o fato é que estamos matando a política e a capacidade de estabelecermos igualmente uma sociedade democrática. Matando a igualdade, matamos a República.

Matando a República, nos resta apenas a possibilidade da força. Com isso, matamos a liberdade. O cenário que nos avizinha é o do esgotamento e do vazio, onde o ódio e a intolerância prosperam e crescem. Quem terá coragem de liderar um pacto pela democracia e pela República? O silêncio apenas nos invade. "Oh tempos, oh costumes!"

* Fernando Filgueiras é professor do Departamento de Ciência Política da UFMGhttp://www.cartacapital.com.br/politica/sobre-intolerancia-e-politica

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

O golpe contra Dilma é racista

Por que o golpe que está sendo armado pela oposição, com Cunha a frente, é racista? Muitos vão dizer, afinal Dilma não é negra. E outros, que as políticas de combate ao racismo desenvolvidas no seu governo e no de Lula são tímidas e insuficientes.

Assino embaixo. Dilma não é negra e, portanto, não é por conta da sua pessoa que querem tirá-la. E também esta coluna Quilombo tem criticado bastante as políticas de combate ao racismo desenvolvidas no governo pela sua timidez e falta de recursos.

Mas quem quer tirar Dilma do governo não o faz por conta disto. Faz justamente porque não aceita sequer as poucas políticas de inclusão social e racial feitas nos últimos anos.

O argumento do pedido de impeachment é a tais "pedaladas fiscais". Note-se que o argumento se centra no suposto uso indevido de recursos orçamentários para dar conta de programas sociais. O governo teria usado, indevidamente segundo o TCU, entre 2012 e 2014 , R$40 bilhões financiados por bancos públicos para pagamento de benefícios sociais e previdenciários, como o Bolsa Família seguro desemprego e subsídios a produção agrícola. 

Pergunta que não ofende: se estes recursos "indevidos" tivessem sido usados para salvar bancos falidos, esta polêmica estaria acontecendo? Duvido.

Para os golpistas, incomoda o fato de que 73% dos beneficiários do Bolsa Família são negros e que 68% das famílias beneficiadas são chefiadas por mulheres negras.

E também que 80% dos beneficiários do programa "Água para Todos" (construção de cisternas) são negros. No Programa Luz para Todos, o percentual de negros entre os beneficiários é também de 80%.

No Pronatec, 68% das matrículas contabilizadas em 2014 eram de jovens negros. O Programa "Minha Casa, Minha Vida" tem entre os seus contemplados, 70% de famílias negras.

Sem contar os programas de cotas raciais e o ProUni que também possibilitaram um acesso recorde de jovens negros ao ensino superior.

Avanços pequenos? Sem dúvida. Os problemas persistem, principalmente pelo fato de ainda não haver cristalizado no governo um efetivo programa de combate ao racismo, com o fortalecimento institucional dos órgãos responsáveis para tanto – aí, foi um retrocesso o fim da Seppir-ministério – o estabelecimento de planos de metas e avaliações constantes, o combate efetivo, para além da retórica, ao genocídio da juventude negra (o programa Juventude Viva pouco saiu de uma carta de intenções), entre outros.

Mas o golpe contra Dilma é racista porque é apoiado justamente por pessoas que se sentem incomodadas com estes pequenos avanços. São aqueles que ficam incomodados com pessoas negras frequentando os campus universitários e dividindo o espaço com os filhos da elite. Ou que encontram nas filas dos aeroportos aquelas mulheres negras que deveriam ser suas faxineiras. Ou então aqueles que bradam contra o "consumismo" principalmente ao ver o shopping center com muito mais caras pretas que ele gostaria.

Estes mesmos golpistas defendem a redução da maioridade penal. Defendem que mulher que aborta é criminosa e tem que ser presa. Que as favelas devem ser sitiadas por policiais.

Racismo não é só o comportamento explícito de não gostar de negro, Racismo é também atitude política que interdita inclusão social de negras e negros. Por isto, estes golpistas são racistas. E o golpe contra Dilma é racista.

 http://www.revistaforum.com.br/quilombo/2015/12/03/o-golpe-contra-dilma-e-racista/

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

O que esperar de fascistas?

Manifestante ferido na cabeça durante confronto com os acampados pró-ditadura militar em Brasília conta como a Marcha das Mulheres Negras acabou em racismo, covardia e pancadaria

Marcha Mulheres negras fascistas

O que essa roupa manchada de sangue revela (imagem acima) é a face truculenta de um movimento que clama pelo retorno à ditadura militar. O movimento está acampado em frente ao Congresso Nacional, e é o mesmo que tinha entre eles um policial civil, que há poucos dias foi preso por porte ilegal de arma, e que ontem foi flagrado disparando tiros para o alto quando a Marcha se manifestava em frente ao Congresso.

O grupo entrou em confronto com a grande Marcha das Mulheres Negras, que teve como bandeira ser "contra o racismo, a violência, e pelo bem viver". Num momento de tumulto, ocasionado pelo incômodo do grupo fascista ao ver as milhares de mulheres e homens negras(os) em marcha, o grupo passou a lançar rojões e bombas de efeito moral contra a marcha, e incitar o confronto. Um dos homens dizia "queria ver vocês era no 'pau de arara'!!".

Num outro momento um homem branco, vestido com roupas pretas e um boné preto, agredia mulheres e homens da Marcha com um guarda-chuva grande, que a cada golpe quebrava a estrutura metálica podendo furar alguém.

Um manifestante da Marcha (foto) se aproximou para somar esforços às mulheres e homens que estavam ali e gritou para o fascista "Ninguém aqui vai bater em mulher negra!". Essa era uma das bandeiras da Marcha: o fim da violência contra mulheres, e é sabido que as mulheres negras representam 60% do total de agressões de violência de gênero, e que o total de homicídios contra mulheres negras aumentou 54% em uma década.

O homem que defendia a ditadura militar e que estava sendo contido por mulheres da Marcha deixou de bater com o guarda-chuva nas pessoas ao seu redor e se voltou contra o militante negro para agredi-lo, ao que este reagiu, mas pouco depois foi derrubado por outros acampados defensores da ditadura.

Pelo visto, o que abriu o ferimento na cabeça do militante da Marcha foi o ferro do guarda-chuva, causando-lhe um ferimento leve, mas o bastante para provocar a hemorragia mostrada na foto. O rapaz, que prefere não se identificar, passa bem, e afirmou que barrar a violência, a ditadura e o racismo é um caminho necessário para um mundo igualitário, e que apesar de ser ferido na cabeça, os ideais defendidos na Marcha seguem agora mais fortes ainda.

Relato e imagem enviados a Pragmatismo Político por um manifestante que prefere não se identificar a fim de preservar sua integridade

http://www.pragmatismopolitico.com.br/2015/11/o-que-esperar-de-fascistas.html

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Brasil x Inglaterra

Tim Vickery: Minha primeira geladeira e por que o Brasil de hoje lembra a Inglaterra dos anos 60

Tim Vickery*Colunista da BBC Brasil
  • 13 novembro 2015
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Eduardo MartinoImage copyrightEduardo Martino

Acho que nasci com alguma parte virada para a lua. Chegar ao mundo na Inglaterra em 1965 foi um golpe e tanto de sorte. Que momento! The Rolling Stones cantavam I Can't Get no Satisfaction, mas a minha trilha sonora estava mais para uma música do The Who, Anyway, Anyhow, Anywhere.

Na minha infância, nossa família nunca teve carro ou telefone, e lembro a vida sem geladeira, televisão ou máquina de lavar. Mas eram apenas limitações, e não o medo e a pobreza que marcaram o início da vida dos meus pais.

Tive saúde e escolas dignas e de graça, um bairro novo e verde nos arredores de Londres, um apartamento com aluguel a preço popular – tudo fornecido pelo Estado. E tive oportunidades inéditas. Fui o primeiro da minha família a fazer faculdade, uma possibilidade além dos horizontes de gerações anteriores. E não era de graça. Melhor ainda, o Estado me bancava.

Olhando para trás, fica fácil identificar esse período como uma época de ouro. O curioso é que, quando lemos os jornais dessa época, a impressão é outra. Crise aqui, crise lá, turbulência econômica, política e de relações exteriores. Talvez isso revele um pouco a natureza do jornalismo, sempre procurando mazelas. É preciso dar um passo para trás das manchetes para ganhar perspectiva.

Será que, em parte, isso também se aplica ao Brasil de 2015?

Leia as colunas anteriores de Tim Vickery:

Como um aventureiro no Brasil da Era Vargas 'inspirou' James Bond

Três mitos falsos e ultrapassados sobre o Brasil

'Achei que fosse apanhar na rua por críticas ao Brasil'

Não tenho dúvidas de que o país é hoje melhor do que quando cheguei aqui, 21 anos atrás. A estabilidade relativa da moeda, o acesso ao crédito, a ampliação das oportunidades e as manchetes de crise – tudo me faz lembrar um pouco da Inglaterra da minha infância.

Por lá, a arquitetura das novas oportunidades foi construída pelo governo do Partido Trabalhista nos anos depois da Segunda Guerra (1945-55). E o Partido Conservador governou nos primeiros anos da expansão do consumo popular (1955-64). Eles contavam com um primeiro-ministro hábil e carismático, Harold Macmillan, que, em 1957, inventou a frase emblemática da época: "nunca foi tão bom para você" ("you've never had it so good", em inglês).

É a versão britânica do "nunca antes na história desse país". Impressionante, por sinal, como o discurso de Macmillan trazia quase as mesmas palavras, comemorando um "estado de prosperidade como nunca tivemos na história deste país" ("a state of prosperity such as we have never had in the history of this country", em inglês).

Arquivo PessoalImage copyrightArquivo PessoalImage captionVickery volta ao local onde passou sua infância

Macmillan, "Supermac" na mídia, era inteligente o suficiente para saber que uma ação gera uma reação. Sentia na pele que setores da classe média, base de apoio principal de seu partido, ficaram incomodados com a ascensão popular.

Em 1958, em meio a greves e negociações com os sindicatos, notou "a raiva da classe média" e temeu uma "luta de classes". Quatro anos mais tarde, com o seu partido indo mal nas pesquisas, ele interpretou o desempenho como resultado da "revolta da classe média e da classe média baixa", que se ressentiam da intensa melhora das condições de vida dos mais pobres ou da chamada "classe trabalhadora" ("working class", em inglês) na Inglaterra.

Em outras palavras, parte da crise política que ele enfrentava foi vista como um protesto contra o próprio progresso que o país tinha alcançado entre os mais pobres.

Mais uma vez, eu faço a pergunta – será que isso também se aplica ao Brasil de 2015?

Alguns anos atrás, encontrei um conterrâneo em uma pousada no litoral carioca. Ele, já senhor de idade, trabalhava como corretor da bolsa de valores. Me contou que saiu da Inglaterra no início da década de 70, revoltado porque a classe operária estava ganhando demais.

No Brasil semifeudal, achou o seu paraíso. Cortei a conversa, com vontade de vomitar. Como ele podia achar que suas atividades valessem mais do que as de trabalhadores em setores menos "nobres"? Me despedi do elemento com a mesquinha esperança de que um assalto pudesse mudar sua maneira de pensar a distribuição de renda.

Mais tarde, de cabeça fria, tentei entender. Ele crescera em uma ordem social que estava sendo ameaçada, e fugiu para um lugar onde as suas ultrapassadas certezas continuavam intactas.

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GettyImage copyrightGettyImage caption'Parte da crise política da Inglaterra foi vista como protesto contra o progresso entre os mais pobres', diz Vickery

Agora, não preciso nem fazer a pergunta. Posso fazer uma afirmação. Essa história se aplica perfeitamente ao Brasil de 2015. Tem muita gente por aqui com sentimentos parecidos. No fim das contas, estamos falando de uma sociedade com uma noção muito enraizada de hierarquia, onde, de uma maneira ainda leve e superficial, a ordem social está passando por transformações. Óbvio que isso vai gerar uma reação.

No cenário atual, sobram motivos para protestar. Um Estado ineficiente, um modelo econômico míope sofrendo desgaste, burocracia insana, corrupção generalizada, incentivada por um sistema político onde governabilidade se negocia.

A revolta contra tudo isso se sente na onda de protestos. Mas tem um outro fator muito mais nocivo que inegavelmente também faz parte dos protestos: uma reação contra o progresso popular. Há vozes estridentes incomodadas com o fato de que, agora, tem que dividir certos espaços (aeroportos, faculdades) com pessoas de origem mais humilde. Firme e forte é a mentalidade do: "de que adianta ir a Paris para cruzar com o meu porteiro?".

Harold Macmillan, décadas atrás, teve que administrar o mesmo sentimento elitista de seus seguidores. Mas, apesar das manchetes alarmistas da época, foi mais fácil para ele. Há mais riscos e volatilidade neste lado do Atlântico. Uma crise prolongada ameaça, inclusive, anular algumas das conquistas dos últimos anos. Consumo não é tudo, mas tem seu valor. Sei por experiência própria que a primeira geladeira a gente nunca esquece.

*Tim Vickery é colunista da BBC Brasil e formado em História e Política pela Universidade de Warwick

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Já era

Acabou-se o que era doce

vale mariana MG tragédia capitalismo

André Falcão*

Era uma vez uma empresa de nome poético como a região onde fazia morada: Vale do Rio Doce. Considerada a maior empresa de mineração do mundo, pertencia a um país chamado Brasil. Um dia, um príncipe, que reinava naquele país embora o regime não fosse oficialmente monárquico, tanto que nele havia um parlamento com vários representantes do povo, mas que ao povo não representavam, salvo uma minoria bastante minoritária, entendeu que o tal do Brasil, que estava devendo a deus e ao mundo, desrespeitado e desacreditado internacionalmente, deveria vender tudo o que tinha. Seu argumento, defendido pela grande mídia que lhe era subserviente, entre outras razões porque desfrutavam de muitas benesses, e deviam satisfação ao grande patrão, chamado EUA, todos escravos voluntários do seu deus, o capitalismo, era o de que o Brasil necessitava vender o que tinha para melhorar o emprego, educação, saúde, segurança, agricultura, representados pelos cinco dedos da mão de Sua Majestade.

Leia aqui todos os textos de André Falcão

Aí então o príncipe passou a vender o que via pela frente, inclusive a VRD. Vendia muito barato. E ainda ajudava os interessados, emprestando-lhes o dinheiro do país, em condições de pai para filho, para que esses comprassem o que o país oferecia. Alguns dizem que assim foi porque o príncipe era ruim de matemática. Outros, que houve muita ladroagem, comprovadas ou comprováveis, mas não deve ser verdade, já que as denúncias eram arquivadas pelo assessor geral do príncipe, que certamente o fazia porque deviam ser descabidas. A própria polícia do príncipe trabalhou muito pouco naqueles oito anos de reinado: apenas 48 operações, sinal de que estava tudo certo. Porém, os problemas do país, mesmo com a liquidação promovida, agravaram-se, inclusive aqueles dos cinco dedos.

Enquanto isto, a Vale do Rio Doce, antes orgulhosa de seu nome, homenagem às águas que eram e davam vida, sob novos donos entendeu de rebatizar-se, excluindo-o. Passou a chamar-se apenas Vale.

Leia também: Da lama à ordem: Mariana e o jornalismo que não dá nome aos bois

O que não se esperava, salvo para aqueles que conhecem bem de perto o deus capitalismo, é que a nova Vale iria extirpar o rio também da vida de toda a população daquela região daquele país. Sob os auspícios do seu deus, o Capitalismo, matou o rio Doce. Morreram também o Claudio, o Sileno, o Waldemir, a Emanuely (cinco aninhos, ela tinha), o Thiago, o Marcos Xavier, o Marcos Aurélio, a Maria Elisa, a Maria das Graças, o Antonio… Já são onze. Desaparecidos outros tanto. Foi no Brasil, essa tragédia. No Brasil.

*André Falcão é advogado e autor do Blog do André Falcão. Escreve semanalmente para Pragmatismo Político

http://www.pragmatismopolitico.com.br/2015/11/acabou-se-o-que-era-doce.html

Manifestantes pedem intervenção militar e apanham da Polícia Militar

Manifestantes que defendem a intervenção militar são colocados para correr por aqueles que consideravam heróis. Alguns chegaram a experimentar o gosto dos sprays de pimenta na cara. Muitos deles eram os mesmos que tiraram selfies com policiais e cachorros na Paulista e em Copacabana. Uma traição?

manifestantes Brasília intervenção militar

Kiko Nogueira, DCM

As milícias de extrema direita que estão acampadas em frente ao Congresso Nacional passaram por um vexame no 15 de novembro que faria qualquer pessoa normal enfiar a viola no saco.

Mas eles não são pessoas normais — são guerreiros do povo brasileiro, certo?

Menos de 2 mil se juntaram ao MBL e ao Vem Pra Rua (cuja líder é uma moça que se acorrentou numa pilastra) para pedir o impeachment de Dilma.

Sem pai (Cunha) nem mãe (Aécio), contaram com Joice Hasselmann, a ex-apresentadora da TV Veja que agora precisa se virar de algum jeito. Joice, que já não falava coisa com coisa, continuar sem falar coisa com coisa, exatamente o que seus fãs querem ouvir.

Renan Haas, o líder do MBL, mentiu dizendo que ônibus foram impedidos de chegar. Marcello Reis, dos Revoltados On Line, foi um pouco mais longe e colocou uma foto de 2013 para comprovar a "emboscada".

Marcellão, valente como sempre, surtou quando viu meia dúzia de índios e aproveitou para mais uma vez pedir dinheiro, desta feita para "contratar seguranças". Um ambulante entrevistado pelo Estadão estava triste. "Num dia bom, faço uns mil reais com a venda dos meus produtos. Hoje acho que vai ser meio difícil", disse Antônio de Souza.

No meio da chuva, enfim, veio o golpe de misericórdia nos golpistas: tomaram um cacete da PM.

Os doentes da intervenção militar invadiram o espelho d'água, tentaram um putsch e foram colocados para correr por aqueles que consideravam heróis. Alguns ainda experimentaram o gostinho dos sprays de pimenta na cara.

Muitos deles eram os mesmos que tiraram selfies com policiais e cachorros na Paulista e em Copacabana. Uma traição. Não bastasse, naquele dia seu guru Olavo de Carvalho, cada vez mais xarope, tomava uma invertida do Exército no Facebook.

intervenção militar
Manifestantes de Brasília chegaram a pedir intervenção militar para as forças armadas dos EUA

Chamou o general Eduardo Dias da Costa Villas Bôas, comandante da instituição, de "canalha", "traidor nojento", entrou outras ofensas pesadas. Foi avisado de que seus "xingamentos, acusações sem provas e publicações de boatos" seriam "analisados na esfera jurídica" e banido da página.

intervenção militar
Houve protesto também no Paraná (Imagem: divulgação)

Como a estupidez dessa corja não conhece limite, é possível que os gatos pingados continuem ali, em nome de uma entidade abstrata ("nosso povo", "gente de bem" e por aí vai), apanhando de quem eles consideravam aliados e prestando um favor enorme à democracia ao dar uma nova dimensão à expressão "vergonha alheia".

http://www.pragmatismopolitico.com.br/2015/11/manifestantes-pedem-intervencao-militar-e-apanham-da-policia-militar.html

terça-feira, 17 de novembro de 2015

A TV dos trouxas

The New York Times faz crítica-denúncia à Rede Globo: "TV irrealidade que ilude o Brasil"

Globo New York Times

A jornalista Vanessa Barbara apresentou uma dura crítica à Rede Globo em sua coluna no The New York Times na última terça-feira (10).

No artigo traduzido e veiculado no Brasil pelo UOL, a também colunista do Estadão e editora do site literário "A Hortaliça", analisou um dia de programações da emissora e descreveu o ato de assistir ao canal como "se acostumar a chavões e fórmulas cansadas".

As críticas vão dos telejornais aos talk shows e novelas.

Veja o texto na íntegra:

No ano passado, a revista "The Economist" publicou um artigo sobre a Rede Globo, a maior emissora do Brasil. Ela relatou que "91 milhões de pessoas, pouco menos da metade da população, a assistem todo dia: o tipo de audiência que, nos Estados Unidos, só se tem uma vez por ano, e apenas para a emissora detentora dos direitos naquele ano de transmitir a partida do Super Bowl, a final do futebol americano".

Esse número pode parecer exagerado, mas basta andar por uma quadra para que pareça conservador. Em todo lugar aonde vou há um televisor ligado, geralmente na Globo, e todo mundo a está assistindo hipnoticamente.

Sem causar surpresa, um estudo de 2011 apoiado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) apontou que o percentual de lares com um aparelho de televisão em 2011 (96,9) era maior do que o percentual de lares com um refrigerador (95,8) e que 64% tinham mais de um televisor. Outros pesquisadores relataram que os brasileiros assistem em média quatro horas e 31 minutos de TV por dia útil, e quatro horas e 14 minutos nos fins de semana; 73% assistem TV todo dia e apenas 4% nunca assistem televisão regularmente (eu sou uma destes últimos).

Entre eles, a Globo é ubíqua. Apesar de sua audiência estar em declínio há décadas, sua fatia ainda é de cerca de 34%. Sua concorrente mais próxima, a Record, tem 15%.

Assim, o que essa presença onipenetrante significa? Em um país onde a educação deixa a desejar (a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico classificou o Brasil recentemente em 60º lugar entre 76 países em desempenho médio nos testes internacionais de avaliação de estudantes), implica que um conjunto de valores e pontos de vista sociais é amplamente compartilhado. Além disso, por ser a maior empresa de mídia da América Latina, a Globo pode exercer influência considerável sobre nossa política.

Um exemplo: há dois anos, em um leve pedido de desculpas, o grupo Globo confessou ter apoiado a ditadura militar do Brasil entre 1964 e 1985. "À luz da História, contudo", o grupo disse, "não há por que não reconhecer, hoje, explicitamente, que o apoio foi um erro, assim como equivocadas foram outras decisões editoriais do período que decorreram desse desacerto original".

Com esses riscos em mente, e em nome do bom jornalismo, eu assisti a um dia inteiro de programação da Globo em uma terça-feira recente, para ver o que podia aprender sobre os valores e ideias que ela promove.

A primeira coisa que a maioria das pessoas assiste toda manhã é o noticiário local, depois o noticiário nacional. A partir desses, é possível inferir que não há nada mais importante na vida do que o clima e o trânsito. O fato de nossa presidente, Dilma Rousseff, enfrentar um sério risco de impeachment e que seu principal oponente político, Eduardo Cunha, o presidente da Câmara, está sendo investigado por receber propina, recebe menos tempo no ar do que os detalhes dos congestionamentos. Esses boletins são atualizados pelo menos seis vezes por dia, com os âncoras conversando amigavelmente, como tias velhas na hora do chá, sobre o calor ou a chuva.

A partir dos talk shows matinais e outros programas, eu aprendi que o segredo da vida é ser famoso, rico, vagamente religioso e "do bem". Todo mundo no ar ama todo mundo e sorri o tempo todo. Histórias maravilhosas foram contadas de pessoas com deficiência que tiveram a força de vontade para serem bem-sucedidas em seus empregos. Especialistas e celebridades discutiam isso e outros assuntos com notável superficialidade.

Eu decidi pular os programas da tarde –a maioria reprises de novelas e filmes de Hollywood– e ir direto ao noticiário do horário nobre.

Há dez anos, um âncora da Globo, William Bonner, comparou o telespectador médio do noticiário "Jornal Nacional" a Homer Simpson –incapaz de entender notícias complexas. Pelo que vi, esse padrão ainda se aplica. Um segmento sobre a escassez de água em São Paulo, por exemplo, foi destacado por um repórter, presente no jardim zoológico local, que disse ironicamente "É possível ver a expressão preocupada do leão com a crise da água".

Assistir à Globo significa se acostumar a chavões e fórmulas cansadas: muitos textos de notícias incluem pequenos trocadilhos no final ou uma futilidade dita por um transeunte. "Dunga disse que gosta de sorrir", disse um repórter sobre o técnico da seleção brasileira. Com frequência, alguns poucos segundos são dedicados a notícias perturbadoras, como a revelação de que São Paulo manteria dados operacionais sobre a gestão de águas do Estado em segredo por 25 anos, enquanto minutos inteiros são gastos em assuntos como "o resgate de um homem que se afogava causa espanto e surpresa em uma pequena cidade".

O restante da noite foi preenchido com novelas, a partir das quais se pode aprender que as mulheres sempre usam maquiagem pesada, brincos enormes, unhas esmaltadas, saias justas, salto alto e cabelo liso. (Com base nisso, acho que não sou uma mulher.) As personagens femininas são boas ou ruins, mas unanimemente magras. Elas lutam umas com as outras pelos homens. Seu propósito supremo na vida é vestir um vestido de noiva, dar à luz a um bebê loiro ou aparecer na televisão, ou todas as opções anteriores. Pessoas normais têm mordomos em suas casas, que são visitadas por encanadores atraentes que seduzem donas de casa entediadas.

Duas das três atuais novelas falam sobre favelas, mas há pouca semelhança com a realidade. Politicamente, elas têm uma inclinação conservadora. "A Regra do Jogo", por exemplo, tem um personagem que, em um episódio, alega ser um advogado de direitos humanos que trabalha para a Anistia Internacional visando contrabandear para dentro dos presídios materiais para fabricação de bombas para os presos. A organização de defesa se queixou publicamente disso, acusando a Globo de tentar difamar os trabalhadores de direitos humanos por todo o Brasil.

Apesar do nível técnico elevado da produção, as novelas foram dolorosas de assistir, com suas altas doses de preconceito, melodrama, diálogo ruim e clichês.

Mas elas tiveram seu efeito. Ao final do dia, eu me senti menos preocupada com a crise da água ou com a possibilidade de outro golpe militar –assim como o leão apático e as mulheres vazias das novelas.

http://www.pragmatismopolitico.com.br/2015/11/the-new-york-times-detona-a-globo-tv-que-ilude-o-brasil.html

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