Um livro é um mudo que fala, um surdo que responde, um cego que guia, um morto que vive. (Padre Antônio Vieira)

domingo, 19 de dezembro de 2010

Pata de Elefante

Fui no show, puta banda
tem os discos pra baixar na faixa
 
 

domingo, 5 de dezembro de 2010

Sois fortes em sua fraqueza

O corpo paga pelo espírito fraco. Mas a fraqueza é humana, pois o ser humana é o único animal que fraqueja. Fraquejar, no sentido que escrevo aqui, significa adoecer no enfrentamento com a vida, retrocedendo por vezes frente ao conflito ou embate. Aquele que fraqueja é um ser dotado de grande sensibilidade, em oposição com a atitude grosseira do espírito forte que no ardor do enfrentamento deixa passar as sutilezas da vida, as coisas miúdas e ao mesmo tempo grandiosas. A atitude grosseira do espírito forte é própria do guerreiro e a atitude sensível do espírito fraco é própria do filósofo e do artista. A filosofia e a arte só podem nascer de um espírito sensível, afeito as pequenas coisas, perspicaz com as sutilezas.

Não pense, contudo, o leitor que eu pretenda elevar o espírito fraco como exemplo, modelo ou norma padrão. Nem que cada sujeito está condicionado a ter um destes dois espíritos: o fraco ou o forte. Quero apenas dizer que o espírito fraco é tão necessário para a sociedade humana quanto o espírito forte. É necessário que existam guerreiros, mas também é necessário que existam filósofos e artistas. O que não exclui a possibilidade que estes dois espíritos tem de misturarem-se, fundirem-se em diferentes quantidades. Emergirem e submergirem em situações diversas na vida do indivíduo. Portanto, assim como um guerreiro pode fraquejar, um fraco pode se fortalecer diante da batalha.

A beleza do espírito fraco está em converter seus conflitos em criação. A criação é a solução, ou uma solução, para o conflito. O indivíduo de espírito fraco, então, devolve ao mundo o que o mundo lhe ofereceu e a forma como ele o compreendeu. O espírito forte assimila facilmente e aceita incondicionalmente a ordem. O espírito fraco vê na ordem incoerência, impossibilidade. O lugar do espírito fraco é no caos. A sua luta é com o gigante da razão. Nessa luta ele se torna forte. Por tudo isso, forte também é o fraco.
 
Alexandre, O Pequeno

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Amem a si mesmos

AMEM A SI MESMOS... OLHEM PARA DENTRO DE SI E CUREM-SE... QUANDO VOCÊS DESCOBRIREM QUEM VOCÊS SÃO, SUA VIBRAÇÃO MUDARÁ E SE ELEVARÁ A UM ESTADO SUPERIOR DE CONSCIÊNCIA. QUANDO VOCÊS ELEVAM SUA PRÓPRIA VIBRAÇÃO PESSOAL, VOCÊS ELEVAM A VIBRAÇÃO DO TODO, E ISTO INCLUE A MÃE TERRA, A AMADA LADY GAIA!
 
A hora da massa crítica está se aproximando, Queridos, e
embora pareça que Vocês devem pôr seu foco e sua atenção
no mundo e em todos os problemas dele, isto é O QUE VOCÊS
NÃO DEVEM FAZER.
 
O mundo que Vocês veem é uma projeção da sua própria
mente, e os pensamentos que Vocês têm é o que Vocês VEEM
no seu mundo.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Observações de um formigueiro.

Como filósofo das pequenas coisas eu observo o que é invisível aos olhos. E nesta prática constante de observar procuro dali abstrair alguma experiência válida e não apenas um objetivo pré-fixado.

Deparei-me, numa destas observações minuciosas, com uma estranha transformação que vem ocorrendo na sociedade. Imperceptível por pequena que é, só um filósofo do pequeno é capaz de perceber. Mas não é na sociedade humana que esta micro-transformação está se dando. Ainda que seja na sociedade, é a das formigas que me dirijo.

Pois bem, notei com espanto que algumas formigas iniciaram uma ação de se separar do grupo. Elas ainda viviam bem próximas. Ao lado mesmo do grande formigueiro. Contudo este grupo excluso de formigas começaram a construir cada uma seu próprio formigueiro. Todos os formigueiros se ergueram próximos uns aos outros e do formigueiro mãe. Cada vez mais este fato vem ocorrendo com as formigas, vos alerto!

No decurso de muitos meses continuei observando com interesse esta estranha mudança na sociedade das formigas. Cada qual no seu próprio formigueiro começou então a trabalhar por si. Por sua própria conta. As formigas individualistas passaram a fazer seu próprio horário de trabalho que variava muito de formiga para formiga. Houve mudanças na preferência por alimentos também. Algumas preferiram insetos, outras folhas. Algumas delas preferiram dormir até mais tarde e coletar alimentos próximo ao pôr do sol, quando o dia estava mais fresco. Outras formigas coletavam muito cedo o alimento para então ter o restante do dia livre de responsabilidades. Com algum tempo livre, sem as responsabilidades coletivas, algumas passaram a exercer atividades de lazer como caçar, nadar e brincar. Elas por vezes se encontravam para o lazer, mas mantinha-se seus muros.

Eis que uma grande briga por espaço de coleta e morada se formou entre elas devido ao crescimento de formigueiros individuais, e então – veja que estranho – as formigas ergueram barricadas de areia, demarcando áreas.

Nas últimas semanas tenho visto uma mudança ainda mais drástica. As formigas estão perdendo a solidariedade entre os seus iguais. Quando a aldeia de formigas – pois já não é mais um formigueiro coletivo - é atacada por insetos ou animais, cada formiga procura se proteger por si só. Entram em fuga, escondem-se, fingem-se de mortas. Se olham uma formiga irmã ser atacada cruelmente por um inseto, ignoram o crime e se dão por contentes por terem a sorte de não ter sido com elas.

Cada formiga tem vivido por conta própria, porém elas mantém uma dependência mútua. Não sobrevivem sozinhas, isoladas umas das outras. Como filósofo me pergunto: porque então insistem nesse modo de vida individualista, mesmo sabendo que assim serão levadas a decadência e por fim a extinção?

Toda essa observação da natureza e sua dinâmica me fez temeroso. Então eu corri em direção a segurança da minha casa e passei a escrever o relato que gravei. Aviso aos leitores incrédulos que tenho todos estes fatos registrados em meu gravador de voz, logo posso provar. Eu gravava o meu relato ao mesmo tempo em que via ocorrer toda essa mudança com a sociedade das formigas.



Ass.: Alexandre, o pequeno.


Aos desterrados

Decerto que Desterro desterrou muita gente. Desterrou primeiro os índios, depois a natureza para fazer o pasto e a plantação. Desterro desterra agora aos poucos os desterrenses açorianos que antes desterraram os "meinbipenses".

Desterro anda desterrando até o que não é terra. Desterrou o mar para o aterro. E no mar que não virou aterro, desterram os peixes e toda a vida marinha enterrando merda onde deveria brotar vida.

A proclamada desteridade das autoridades não provou ainda sua validade. O que fazem, e sem dúvida com destreza, é desterneirar os desterrenses. Separam as crias - pobres desterrados condenados a serem criados - dos que criam, as gordas vacas suíças. O desterrado, alienado da terra, é condenado a servir o desterrador. E assim o desterrense é aos poucos lançado ao degredo de uma Desterro degradada.

Mas o próprio desterrense também se desterra. Gerações de filhos de pescadores e pequenos agricultores desterrenses desterram-se aos poucos da tradição na busca do que acreditam ser um terreno seguro. Terras de Desterro, que lhe foram herdadas ao longo de gerações, aterram-se para que se ergam casarões ostensivos. Ternamente a terra parte. Internamente ela é partida. O desterrense desterra-se e subdesterra-se. Muitos afundam no que pensavam ser o solo firme do capitalismo e se enterram na miséria, enquanto os muros abundam. O vento terral já não se sente como se sentia a tempos atrás, antes de haver muralhas de concreto que hoje o interrompem.

A viciosa Desterro se (des)configura assim: desterrenses desterram desterrenses que por sua vez são desterrados pelo capital que por sua vez o desterram de si e do outro.

Enquanto isso nossa ilha Desterro vai virando um grande aterro. E a ambiciosa ínsula um dia vira península.



Ass: Alexandre, o pequeno.


Apelo em nome de nossos pombos

Quem salvará nossos pombos. Já fazem algumas décadas que os nossos pombos caminham para uma existência de insubmissão e miséria. Tudo começou com o advento dos correios, seguido do telégrafo, do telefone, e por fim a internet. O pombo perdeu sua mais ilustre e útil função: o de levar mensagens. Agora o pombo se entrega a miséria e a mendicância por toda a cidade. Nas praças e nos terminais de ônibus. Muitos com sérios problemas físicos. Desfigurados por conta de acidentes pela cidade. Obesos pelo consumo de alimentos industrializados, os pombos estão a ponto de não voarem mais. Vivem da mendicância e no ócio. Não se animam nem mesmo com uma minhoca. Preferem o sabor barbecue de alguns salgadinhos ou o apelo colorido da pipoca doce.

Lembro os leitores, para que se compadeçam, que estes pombos de Desterro são herdeiros de uma família com história. Seus avós e bisavós-pombos foram testemunhas de um tempo inigualável nesta ilha. O tempo do poeta Cruz e Souza. Os antigos pombos desta ilha certamente assediaram este grande poeta. Viram-no escrever em algum banco da praça, declamar em algum café, ler seu jornal e livros, reclamaram talvez por um alimento. Quem sabe mesmo não cagaram na sua cabeça. Se tão desafortunada foi a sua existência, como nos conta sua biografia, então não é um exagero pensar nesta possibilidade.

Os pombos estão entregues a indiferença humana. Porcalhões, transmissores de doença e impertinentes, são alguns dos adjetivos preconceituosos que se ouve pela cidade. Estas aves já foram assimilados pela cidade. Tornaram-se pequenos trabalhadores desta. Aparentemente inúteis no seu ofício, a presença do pombo é necessária. Ele é uma espécie de pequeno lixeiro a catar tudo o que caiba em seu pequeno bico. Além do que, o pombo é um adereço da paisagem em fotos turísticas e artísticas. De resto, estando morto, sua carne alguns comem. Nada mais de útil.

Como defensor dos pequenos é que suplico: Salvem nossos pombos!



Ass: Alexandre, o pequeno.






Neste natal atenção ao “egoísmo reflexo”

Quando damos um objeto na forma de presente ao outro simplesmente porque nós gostamos do presente, não importando o interesse do outro, então estamos praticando uma forma de egoísmo reflexo. O egoísmo reflexo está na minha atitude de dar a o outro o que eu gosto, o que eu gostaria de receber de presente se fosse eu o presenteado, o que eu gostaria de ver o outro possuindo. O outro não importa, ainda que o presente signifique justamente que o outro importa. Eu pago o presente, eu escolho. Portanto, não reclame!

Numa situação onde se presenteia alguém, o indivíduo se vê na impossibilidade de se negar a dar ao outro um objeto na forma de presente por conta do valor moral deste ato, vinculado a um rito ou prática social, que o obriga moralmente a tal. Assim, procurando escapar ao prejuízo, o indivíduo inverte o processo e presenteia a si mesmo, não materialmente - visto que a matéria é o objeto que é dado – mas simbolicamente, subjetivamente, satisfazendo seu ego com aquilo que é do seu gosto.

É o Natal um momento rico em exemplos de egoísmo reflexo. Pois esta data nos obriga moralmente a dar presentes ao outro. O que nem sempre nos garante recebermos algum. Isto certamente contribui para o egoísmo reflexo.

Certamente que o egoísmo reflexo se manifesta em outros ritos do tipo que se presenteia o outro, além do Natal. O aniversário, a páscoa, o dia das mães, etc, são exemplos típicos destes ritos e lugar comum para as manifestações de egoísmo reflexo.

Mas quando o ato de dar presentes se libera do rito e torna-se um dar por dar, sem data especial, então este ato mostra sua face mesquinha, sem a máscara do rito.

Tudo isso que escrevi é só para dizer a você, caro leitor, que neste natal presentes ao outro.



Ass.: A cruz de Souza


quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Dormita o poeta

Dormita o poeta, a sua força se esvai
Com o passar dos versos, com o andar da poesia...
O primeiro verso era belo, já o segundo, nem tanto,
Ó poeta, tenha força, não dormita tanto!

Dormita o poeta sobre sua poesia,
Está cansado, suas mãos vacilam,
Sua cabeça já não funciona direito,
Estava ansioso, queria escrever alguma coisa ao menos.

Outro dia vi um poeta chorando,
Perguntei: "Qual o motivo do seu pranto?"
E ele respondeu: "Dormitei na minha poesia".

E logo respondi para a sua alegria:
"Ó poeta, pare de chorar,
também dormitei na minha poesia".

Tia Neura

Trincheiras de vidro

Somos guerrelheiros por trás de uma trincheira de plástico e vidro,
Ás vezes olhando por entre a garrafa podemos ver melhor nosso inimigo.
E com uma mesa de plástico para apoiar as nossas idéias,
Somos mais letais do que todas as drogas e bactérias.

De noite fica mais perigoso,vestimos nosso traje vil,
Todo mundo se corrompe, "vá pra puta que lhe pariu".
Vamos cair na putaria, azucrinar, à todos apavorar,
Vamos encher o saco do dono do bar!

E quando chegar de manhã cedo
E o dono do bar não quiser mais nem vender a saideira,
Vamos correr para algum lugar escuro
Onde possamos continuar com a nossa bebedeira.

Tia Neura

sábado, 6 de novembro de 2010

O mito do lambisomem

Há muito que já se provou a existência de reais Lambisomens vivendo entre nós. Basta que se vá na Rua do Príncipe pela madrugada, no centro de Desterro, onde jaz entre prédios modernamente horrendos a secular igreja de Nossa Senhora do Parto que já não atrai nem espanta ninguém, que se diga os Lambisomens. Nos interstícios da cidade, nos meretrícios e hotéis baratos, lá estão eles, a espreita pela próxima vítima. Contudo, nos bares da ilha o Lambisomem ainda é um mito, pois temendo serem fustigados pelos normais vivem entre os frequentadores de bar anonimamente. O Lambisomem, descobriu-se, é parente próximo do famigerado Chupa-cabra. Este, no entanto, preferiu vitimar animais ao invés de humanos. Mas o Lambisomem tem um objetivo na sua vida mítica: encontrar o célebre Saci-pererê. Explicam os mitólogos que a razão de tal objetivo é que o Saci na verdade não tem perna alguma.

A Cruz de Souza

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Sobre multiplicar os bens que apreciamos

A única forma de multiplicar os bens que apreciamos, compatível com nosso contingência, é trocá-los, compartilhá-los, comunicá-los a nossos semelhantes, para que os rebatam a fim de que voltem a nós cheios de sentido renovado.
 
SAVATER, Fernando. A importância da escolha. Tradução Paulo Anthero Barbosa. São Paulo: Planeta do Brasil, 2004. p. 169

Sobre a alegria

Chamamos de alegria a [...] plena aceitação sem condições nem melindres da vida que se manifesta entre o piscar do ser e do não ser. A alegria não justifica nem rechaça nada: assume o irreproduzível e frágil que se lhe oferece como seu único campo de atuação. E com ele se deleita, com glória, com empenho, com generosidade que às vezes parece cruel, mas no fundo, pensando bem, é compassiva. A alegria é a força misteriosa que nos liga sem refutações à beleza na estética e ao bem na ética.
 
SAVATER, Fernando. A importância da escolha. Tradução Paulo Anthero Barbosa. São Paulo: Planeta do Brasil, 2004. p. 168-169.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Não tenhas

Não tenhas nada nas mãos
Nem uma memória na alma,
Que quando te puserem
Nas mãos o óbolo último,
Ao abrirem-te as mãos
Nada te cairá.
Que trono te querem dar
Que Átropos to não tire?
Que louros que não fanem
Nos arbítrios de Minos?
Que horas que te não tornem
Da estatura da sombra
Que serás quando fores
Na noite e ao fim da estrada.
Colhe as flores mas larga-as,
Das mãos mal as olhaste.
Senta-te ao sol. Abdica
E sê rei de ti próprio.

http://www.pessoa.art.br/?p=166

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Pedido por cãozinho

http://tpbf.wordpress.com/page/3/

10 estratégias de manipulação

"10 estratégias de manipulação", segundo Noam Chomsky

1- A ESTRATÉGIA DA DISTRAÇÃO.

O elemento primordial do controle social é a estratégia da distração que consiste em desviar a atenção do público dos problemas importantes e das mudanças decididas pelas elites políticas e econômicas, mediante a técnica do dilúvio ou inundações de contínuas distrações e de informações insignificantes. A estratégia da distração é igualmente indispensável para impedir ao público de interessar-se pelos conhecimentos essenciais, na área da ciência, da economia, da psicologia, da neurobiologia e da cibernética. "Manter a atenção do público distraída, longe dos verdadeiros problemas sociais, cativada por temas sem importância real. Manter o público ocupado, ocupado, ocupado, sem nenhum tempo para pensar; de volta à granja como os outros animais (citação do texto Armas silenciosas para guerras tranqüilas)".

2- CRIAR PROBLEMAS, DEPOIS OFERECER SOLUÇÕES.

Este método também é chamado "problema-reação-solução". Cria-se um problema, uma "situação" prevista para causar certa reação no público, a fim de que este seja o mandante das medidas que se deseja fazer aceitar. Por exemplo: deixar que se desenvolva ou se intensifique a violência urbana, ou organizar atentados sangrentos, a fim de que o público seja o mandante de leis de segurança e políticas em prejuízo da liberdade. Ou também: criar uma crise econômica para fazer aceitar como um mal necessário o retrocesso dos direitos sociais e o desmantelamento dos serviços públicos.

3- A ESTRATÉGIA DA GRADAÇÃO.

Para fazer com que se aceite uma medida inaceitável, basta aplicá-la gradativamente, a conta-gotas, por anos consecutivos. É dessa maneira que condições socioeconômicas radicalmente novas (neoliberalismo) foram impostas durante as décadas de 1980 e 1990: Estado mínimo, privatizações, precariedade, flexibilidade, desemprego em massa, salários que já não asseguram ingressos decentes, tantas mudanças que haveriam provocado uma revolução se tivessem sido aplicadas de uma só vez.

4- A ESTRATÉGIA DO DEFERIDO.

Outra maneira de se fazer aceitar uma decisão impopular é a de apresentá-la como sendo "dolorosa e necessária", obtendo a aceitação pública, no momento, para uma aplicação futura. É mais fácil aceitar um sacrifício futuro do que um sacrifício imediato. Primeiro, porque o esforço não é empregado imediatamente. Em seguida, porque o público, a massa, tem sempre a tendência a esperar ingenuamente que "tudo irá melhorar amanhã" e que o sacrifício exigido poderá ser evitado. Isto dá mais tempo ao público para acostumar-se com a idéia de mudança e de aceitá-la com resignação quando chegue o momento.

5- DIRIGIR-SE AO PÚBLICO COMO CRIANÇAS DE BAIXA IDADE.

A maioria da publicidade dirigida ao grande público utiliza discurso, argumentos, personagens e entonação particularmente infantis, muitas vezes próximos à debilidade, como se o espectador fosse um menino de baixa idade ou um deficiente mental. Quanto mais se intente buscar enganar ao espectador, mais se tende a adotar um tom infantilizante. Por quê?"Se você se dirige a uma pessoa como se ela tivesse a idade de 12 anos ou menos, então, em razão da sugestionabilidade, ela tenderá, com certa probabilidade, a uma resposta ou reação também desprovida de um sentido crítico como a de uma pessoa de 12 anos ou menos de idade (ver "Armas silenciosas para guerras tranqüilas")".

6- UTILIZAR O ASPECTO EMOCIONAL MUITO MAIS DO QUE A REFLEXÃO.

Fazer uso do aspecto emocional é uma técnica clássica para causar um curto circuito na análise racional, e por fim ao sentido critico dos indivíduos. Além do mais, a utilização do registro emocional permite abrir a porta de acesso ao inconsciente para implantar ou enxertar idéias, desejos, medos e temores, compulsões, ou induzir comportamentos…

7- MANTER O PÚBLICO NA IGNORÂNCIA E NA MEDIOCRIDADE.

Fazer com que o público seja incapaz de compreender as tecnologias e os métodos utilizados para seu controle e sua escravidão. "A qualidade da educação dada às classes sociais inferiores deve ser a mais pobre e medíocre possível, de forma que a distância da ignorância que paira entre as classes inferiores às classes sociais superiores seja e permaneça impossíveis para o alcance das classes inferiores (ver 'Armas silenciosas para guerras tranqüilas')".

8- ESTIMULAR O PÚBLICO A SER COMPLACENTE NA MEDIOCRIDADE.

Promover ao público a achar que é moda o fato de ser estúpido, vulgar e inculto…

9- REFORÇAR A REVOLTA PELA AUTOCULPABILIDADE.

Fazer o indivíduo acreditar que é somente ele o culpado pela sua própria desgraça, por causa da insuficiência de sua inteligência, de suas capacidades, ou de seus esforços. Assim, ao invés de rebelar-se contra o sistema econômico, o individuo se auto-desvalida e culpa-se, o que gera um estado depressivo do qual um dos seus efeitos é a inibição da sua ação. E, sem ação, não há revolução!

10- CONHECER MELHOR OS INDIVÍDUOS DO QUE ELES MESMOS SE CONHECEM.

No transcorrer dos últimos 50 anos, os avanços acelerados da ciência têm gerado crescente brecha entre os conhecimentos do público e aquelas possuídas e utilizadas pelas elites dominantes. Graças à biologia, à neurobiologia e à psicologia aplicada, o "sistema" tem desfrutado de um conhecimento avançado do ser humano, tanto de forma física como psicologicamente. O sistema tem conseguido conhecer melhor o indivíduo comum do que ele mesmo conhece a si mesmo. Isto significa que, na maioria dos casos, o sistema exerce um controle maior e um grande poder sobre os indivíduos do que os indivíduos a si mesmos.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

O ego morre em sua própria gaiola de vidro

Num mundo tão ávido de amor, não admira que homens e mulheres fiquem cegados pelo glamour e pelo brilho de seus próprios egos refletidos. Não admira que o tiro de revólver seja a última intimação. Não admira que as rodas ferozes do metrô, embora reduzam o corpo a pedaços, não consigam precipitar o elixir do amor. No prisma egocêntrico, a vítima indefesa é emparedada pela própria luz que ela refrata. O ego morre em sua própria gaiola de vidro...


MILLER, Henry. Sexus. Tradução de Sergio Flaksman. São Paulo: Companhia das Letas, 2004. p. 265

Aux armes, citoyens

Nosso hino nacional ufana o destino do brasileiro viver "deitado eternamente em berço explêndido", o oposto ao verso mais marcante do hino da França, "aux armes, citoyens", conclamando sua população a pegar em armas sempre que o sangue impuro do inimigo merecer encharcar seu solo pátrio. Sou desprovido de inveja, mas confesso que vejo com olhar de "desejo cidadão" essa coisa de uma população se manifestar com todas as armas que pode contra aquilo que considera tirania. Não vai aqui análise do mérito sobre o que está acontecendo na França hoje, mas apenas o fato da população se indignar e partir pro pau em defesa de seus interesses, deixando claro ao mundo que nenhuma decisão governamental passará incólume, sem apoio popular, isso já basta para nós brasileiros fazermos uma reflexão.

Quando aquele lacaio da Avenida Paulista, o FHC, chamou de vagabundos -com todas as letras- os trabalhadores brasileiros que contribuíram por toda suas vidas para a previdência e, numa paulada só detonou todo o sistema aumentando o tempo de serviço, de contribuição e faixa etária para aposentadoria, o que foi que aconteceu nesse país mesmo? Nada. Assim como nada aconteceu quando o mesmo safardana -que tem 3 aposentadorias gordas- quase dobrou os impostos, elevando a carga tributária aos patamares que se encontram na atualidade. Só pra lembrar, pelo simples aumento de impostos sobre o preço do chá, os americanos do norte se uniram em estados e fizeram uma revolução tornando-se independentes da Inglaterra. Como é que temos coragem de chamar esse amontoado de nação? Que raio de cidadãos são esses que só se ufanam na hora de xingar um treinador de seleção, que não teve qualquer culpa pela saída atrapalhada do goleiro que permitiu o gol contra de um defensor e nos retirou da Copa do Mundo?

Brasileiro só se indigna quando está em buteco. Quem se organiza pra sair à rua e bradar contra safadezas ou decisões questionáveis deste, ou aquele governo? Desde os "caras pintadas", manobra orquestrada que envergonhou uma geração, ninguém sai às ruas pra reclamar de nada. Não vale os mesmos de sempre; aqueles que só se manifestam quando estão na oposição, tipo UNE, CUT ou Cepergs e coisa e tal. Quando muito os cordeiros brazucas aplaudem ao fim de uma sessão de Tropa de Elite 2.
 

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Os homens mais profundamente envolvidos com a vida

Nas poucas leituras que fiz, pude observar qe os homens mais profundamente envolvidos com a vida, os homens que moldavam a vida, os homens que eram a própria vida, comiam pouco, dormiam pouco, possuíam pouco ou quase nada. Não tinham ilusões acrca do dever, da perpetuação e sua família e seus amigos ou da preservação do Estado. Estavam interessados na verdade, e só a verdade. Reconheciam um único tipo de atividade - a criação. Ninguém podia requisitar seus serviços porque já se tinham comprometido, por conta própria, a dar tudo. E a dar gratuitamente, que é a única maneira de dar. Era esse o modo de vida que me atraía; fazia todo sentido. Era a própria vida - e não o simulacro idolatrado pelos que me cercavam.
 
MILLER, Henry. Sexus. Tradução de Sergio Flaksman. São Paulo: Companhia das Letas, 2004. p. 238-239

Devemos nos transformar em nós mesmos

O mundo só teria alguma coisa valiosa a receber de mim a partir do momento em que eu deixasse de ser um membro sério da sociedade e me transformasse em - mim mesmo. O Estado, a nação, as nações unidas do mundo, não passavam de um imenso agregado de indivíduos a repetir os erros de seus ancestrais. Eram presos à roda assim que nasciam, e nela persisitiam até a morte - e esse moinho, tentavam dignificar dando-lhe o nome de "vida".

MILLER, Henry. Sexus. Tradução de Sergio Flaksman. São Paulo: Companhia das Letas, 2004. p. 238

Ostentar seriedade

O que mais me desagradava [...] era a seriedade que ostentavam. A pessoa realmente séria é jovial, quase despreocupada. E eu desprezava as pessoas que, por carecerem de lastro próprio, carregavam o peso dos problemas do mundo. O homem que vive preocupado com a condição humana ou não tem problemas próprios ou se recusa a enfrentá-los. Estou falando da grande maioria, não dos raros emancipados que, depois de muito refletir sobre tudo, têm o privilégio de indentificar-se com toda a humanidade e, assim, desfrutar o maior de todos os luxos: servir.
 
 
MILLER, Henry. Sexus. Tradução de Sergio Flaksman. São Paulo: Companhia das Letas, 2004. p. 237

domingo, 17 de outubro de 2010

Já era

Era uma noite
De carnaval.
Ela ia bem.
Eu ia mal.
Ela na rua à pular.
Eu sentado no bar.
Eu na frieza da dor.
Ela alegria e calor.
Ela e aquele sujeito.
Eu em bêbado feito.
Eu na rua caído.
Ela meu sonho varrido.
Ela minha cura.
Eu na amargura.
Eu com asia.
Ela poesia.
Eu e ela.
O que nunca foi
E que, porém, já era.

poesia de fabiano foresti
http://fabianoforesti.blogspot.com/

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

A arte não é um número solo

Nenhum artista pode aproveitar sua vida fugindo da sua tarefa [...] A arte não é um número solo; é uma sinfonia no escuro, com milhões de participantes e milhões de ouvintes [...] na verdade é quase totalmente impossível deixar de dar expressão a uma grande idéia. Somos apenas instrumentos de um poder maior. Somos autores licenciados [...] Ninguém cria sozinho, por si e para si mesmo. O artista é um instrumento que registra algo que já existia, uma coisa que pertence ao mundo todo e que, se ele for mesmo um artista, irá sentir-se compelido a devolver ao mundo.
 
 
 
MILLER, Henry. Sexus. Tradução de Sergio Flaksman. São Paulo: Companhia das Letas, 2004. p. 160

domingo, 26 de setembro de 2010

A velocidade não é tão importante assim

Minha política sempre foi a de queimar as pontes depois de minha passagem. Estou sempre virado para o futuro. Se cometo um erro, é um erro fatal. Quando sou obrigado a recuar, volto até o ponto de partida, caio até o fundo. Minha única salvaguarda é minha capacidade de resistência. Até aqui, sempre consegui me recuperar. Às vezes dou a impressão de retornar em câmera lenta, mas aos olhos de Deus a velocidade não é tão importante assim.
 
 
MILLER, Henry. Sexus. Tradução de Sergio Flaksman. São Paulo: Companhia das Letas, 2004. p. 32

Escrever precisa ser um ato destituído de vontade.

Escrever, meditei, precisa ser um ato destituído de vontade. A palavra, como as correntes oceânicas profundas, precisam subir à superfície por seu próprio impulso. A criança não tem necessidade de escrever, é inocente. O homem escreve para livrar-se do veneno que acumula devido à falsidade do seu modo de vida. Está tentando recapturar sua inocência, mas ainda asssim tudo que consegue fazer (escrevendo) é inocular o mundo com o vírus de sua desilusão. Ninguém escreveria uma palavra sequer se tivesse a coragem de viver aquilo que acredita. Sua inspiração é desviada na fonte. Se é um mundo de verdade, de beleza e de mágica que deseja criar, por que interpõe milhões de palavras enter ele e a realidade desse mundo? Por que retarda ação? - a menos que, a exemplo dos outros homens, o que de fato deseje seja o poder, a fama, o sucesso.
 
MILLER, Henry. Sexus. Tradução de Sergio Flaksman. São Paulo: Companhia das Letas, 2004. p. 23-24

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Dionísio no Bar

http://www.baresdaufsc.com/artigos/dionisio.php

O álcool libera. Há no etilismo uma busca por esta liberalidade. Ao ser alcançada, rompe-se com a ordem. Suspende-se a norma. E essa suspensão é, sobretudo, imanente. Ou seja, ela se dá de dentro para fora do sujeito alcoolizado. Processa-se, através do álcool, o rompimento das amarras existenciais. É aí então que o ébrio se mostra como sujeito de caráter singular, único. Dá-se, assim, um cair sucessivo de suas personas.

O que resta desse desmascaramento engendrado pelo álcool é a singularidade do sujeito, verdadeiramente. A embriaguez não é simplesmente um beber movido por um hábito, vazio de sentido. Nela o sujeito morre como ser oprimido, castrado, cerceado, para renascer livre. Beber é, portanto, um rito. Um rito de passagem do homem acorrentado, amordaçado, para o homem liberto. E o lugar privilegiado para a execução deste rito é, indubitavelmente, o bar. Lugar onde o contexto de uma maior liberalidade incita a liberalidade do sujeito por meio do álcool.

No bar a imolação, ou melhor, o hecatombe se realiza no interior do próprio sujeito. Este, à medida que bebe, vai aos poucos sacrificando suas personas, construídas ao longo de uma vida para a convivência social no âmbito formal da vida, principalmente. Terminado o rito, findada a embriaguez, vinda a ressaca, o sujeito, agora renascido, pode novamente enfrentar a sociedade com suas forças renovadas. Até, pelo menos, a próxima hora feliz no bar.

A experiência com um fone de ouvido


Por A Cruz de Souza.

http://www.baresdaufsc.com/artigos/fone.php

Pretendo através do presente artigo alertar os bares vivendis sobre o risco de se ouvir música em fones de ouvido. Contudo, não falo do risco a saúde física apenas, como a diminuição gradual da acuidade auditiva. Clamo principalmente em razão do encolhimento da vivência. A miniaturização dos aparelhos e a competitividade dos preços de áudio portáteis em função do desenvolvimento tecnológico e o sua convergência para diversos outros aparelhos, como o celular, ocasionou uma explosão de vendas e o renascer de um hábito que parecia estar por morrer: o de ouvir música por meio de fones de ouvido em absolutamente qualquer lugar.

Forçosamente, o aparelho aniquila, no momento do seu uso, a audição do usuário e claramente afeta o seu comportamento. Deixa-se de contar com um importante aparelho sensorial que nos orienta, apreende e aprende o mundo ao nosso redor. A tão preciosa experiência como fonte fundamental e inesgotável de conhecimento é, sucessivamente, perdida, anulada, adiada jamais. A trilha sonora que emana no seu mundo idealizado torna o ouvinte um ser estéril entre os transeuntes abaloados em seus caminhares frenéticos e determinados. Nota-se sem dúvida uma exacerbação do individualismo e uma negação do outro, um se negar à ver. Portanto óculos escuros, fone de ouvido na orelha, boné cobrindo o rosto ou um capuz e, pronto, o indivíduo, por vontade própria, se converte em ser refratário a qualquer possibilidade de relação com o outro.

O que o indivíduo não se dá conta, porém, é que o melhor da vida e o próprio sentido dela são as relações, como mundo e com o outro. Só é possível pensar num eu em relação a um nós. Se isolado do mundo emergirá a questão: quem sou eu? Saberei quem sou e serei melhor se souber quem são os outros e o que é o mundo. Vivamos a experiência do mundo que se oferece!

Como ser simpático a todos

A Cruz de Souza

http://www.baresdaufsc.com/artigos/simpatico.php

Não só poetas são fingidores. Na vida podemos responder a interesses das pessoas de tal maneira que, na medida em que respondamos de forma correta, seremos aceitos. Trata-se de uma fórmula bastante conhecida e largamente utilizada a do ser afável. Contudo, o que é bom deve ser sempre lembrado. Vendedores e políticos são os que mais se beneficiam desta fórmula pela habilidade com que estes a manipulam. É preciso firmeza nos músculos da face para manter-se sempre agradável e alegre. Uma câimbra que seja pode comprometer toda a fórmula.

Para ser um sujeito aprazível é fundamental ser cortês e prazenteiro. Conquanto que se venha logo risonho. E que essa risada não seja por demais exagerada pra não parecer deboche. E que se seja simples, na medida. Uma apresentação em primeira instância sem mostrar os dentes o tornará um mal humorado e sério por demais para os outros. Mas não exagere, pois tolo é aquele que ri todo o tempo. Ao encontrar grupos de pessoas, a boa conduta pede que se cumprimente a todos, sem exceção. Saiba que aquele único sujeito que você não cumprimentar poderá lhe pesar mais tarde. Observe a vestimenta que deve ser sóbria, sem exageros.

Procure usar roupas independentes da moda. No entanto, em grupos inteirados com a moda vigente recomenda-se fazer o mesmo. O semblante deve estar fresco. Desde que não se exceda no frescor para não ser tomado por um vaidoso afetado, ou pior, uma bicha enrustida. Assim, barba e cabelo devem estar preferencialmente feitos ou então muito bem aparados. No diálogo, concorde com todos acredite em tudo e ria de todas as piadas. Argumento pouco, quase nada. Cuide, porém, para não deixar de argumentar algo para que não pareça um estúpido sem opinião que se deixa levar pelos outros como um barco que se entrega aos movimentos incertos das correntes marítimas. O elogio deve se prodigalizar a todos. Em momento algum permita o silêncio, rompendo-o no imediato instante em que ele se instale. A conversa não pode parar pois o silêncio é intolerável entre estranhos. Bem como é intolerável o sujeito calado. Temos, afinal, cinco sentidos, usemo-los, portanto. Assuntos suaves, que não provoquem divergências ideológicas são o ideal.

Prefira temas banais que gerem respostas uníssonas. Em refeições, beba e coma moderadamente. Querer-rás, pois, o epíteto de glutão? Certamente não. Quando de pouso em casa alheia, acorde cedo, mas também não madrugue para não acordar os outros. Jamais espere ser acordado. No caso de haver crianças por perto, considere que garotinhos impertinentes devem ser engolidos com doçura. Não mais, seja humilde, levemente curvado, porém, não medíocre. O humilde é admirado como valor do ser regrado, o medíocre não é tolerado pois é tomado como um incapaz. Mas, principalmente, tenha sempre o material fundamentalmente necessário para ser sempre simpático: Vaselina.

Certas Coisas

Composição: Lulu Santos / Nelson Motta

Tudo o que cala fala
Mais alto ao coração.
Silenciosamente eu te falo com paixão...

Eu te amo calado,
Como quem ouve uma sinfonia
De silêncios e de luz.

Nós somos medo e desejo,
Somos feitos de silêncio e som,
Tem certas coisas que eu não sei dizer...

 

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Dobrada à moda do Porto fria

Mas, seu eu pedi amor, porque é que me trouxeram
Dobrada à moda do Porto fria?
Não é prato que se possa comer frio,
Mas trouxeram-me frio.
Não me queixei, mas estava frio,
Nunca se pode comer frio, mas veio frio.
 
 
 
CAMPOS, Álvaro de. Poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2002. 595 p.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Sabedoria de ouriço

Ainda semelho ao galo em capoeira estranha, que até as galinhas bicam; mas não guardo rancor a essas galinhas. Cortês, sou eu com elas, bem como paciente com todos os pequenos aborrecimentos: espinhar-se com o que é pequeno parece-me sabedoria de ouriço. p. 204

 
NIETZSCHE, Friedrich W. Assim falou Zaratustra: um livro para todos e para ninguém. Tradução de Mário da Silva. 12. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003. 381 p.

Eu não sou daqueles aos quais se tem o direito de indagar de seu porquê

Por quê? [...] eu não sou daqueles aos quais se tem o direito de indagar de seu porquê. É, acaso, de ontem, a minha experiência de vida? Há muito que eu vivi as razões das minhas opiniões. Não deveria ser eu um tonel de memória, se quisesse ter comigo também as minhas razões? Já é muito, para mim, reter mesmo as minhas opiniões; e mais de um pássaro alça vôo e vai-se embora. p. 158
NIETZSCHE, Friedrich W. Assim falou Zaratustra: um livro para todos e para ninguém. Tradução de Mário da Silva. 12. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003. 381 p.

Guarda-te dos arroubos do teu amor

E guarda-te, ainda, dos arroubos do teu amor! Por demais rápido é o solitário em estender a mão a quem encontra. p. 90
NIETZSCHE, Friedrich W. Assim falou Zaratustra: um livro para todos e para ninguém. Tradução de Mário da Silva. 12. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003. 381 p.

Não nasceste para enxota-moscas

Contra eles não mais levantes o braço; inúmeros são eles e não nasceste para enxota-moscas. p. 79
NIETZSCHE, Friedrich W. Assim falou Zaratustra: um livro para todos e para ninguém. Tradução de Mário da Silva. 12. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003. 381 p.

Sobre a mulher libidinosa

Não é melhor ir parar nas mãos de um assassino do que nos sonhos de uma mulher libidinosa? p. 81
NIETZSCHE, Friedrich W. Assim falou Zaratustra: um livro para todos e para ninguém. Tradução de Mário da Silva. 12. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003. 381 p.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Perguntaram ao amigo quais são os frutos do amor...

Perguntaram ao amigo quais são os frutos do amor. Ele respondeu: "Prazeres, meditações, desejos, suspiros, angústias, trabalhos, perigos, tormentos, desfalecimentos. Sem tais frutos o amor não se deixa tocar pelos seus servos".

Muita gente encontrava-se diante do amigo que se queixava do seu amado, o qual fazia crescer os seus amores; e queixava-se do amor que lhe trazia trabalhos e dores. O amado desculpou-se, dizendo que os trabalhos de que acusava o amor eram multiplicações de amores.

LULL, Ramon. O livro do amigo e do amado. Tradução de Luiz Carlos Bambassaro. São Paulo: Escala, [19--]. 74 p.

Amar é honrar o amado naqueles lugares onde é mais desonrado

O amado cantava e dizia que o amigo pouco sabia do amor se tinha vergonha de louvar o seu amado e se tinha medo de o honrar naqueles lugares onde é mais desonrado; e pouco sabe amar aquele que se entristece de desgraça e quem desespera do seu amado não fa concordância de amor e esperança.


LULL, Ramon. O livro do amigo e do amado. Tradução de Luiz Carlos Bambassaro. São Paulo: Escala, [19--]. 74 p.

O amor está entre a crença e a inteligência

O amigo tanto amava o seu amado que acreditava em tudo o que lhe dizia e tanto desejava entendê-lo que tudo aquilo que ouvia dizer dele queria compreendê-lo pelas razões necessárias. E por isso o amor do amigo estava entre a crença e a intligência.


LULL, Ramon. O livro do amigo e do amado. Tradução de Luiz Carlos Bambassaro. São Paulo: Escala, [19--]. 74 p.

Vestido sou de tecido barato

O amigo dizia: "Vestido sou de tecido barato, mas o amor veste o meu coração de prazeres e pensamentos agradáveis e o corpo de choros, sofrimentos e paixões."


LULL, Ramon. O livro do amigo e do amado. Tradução de Luiz Carlos Bambassaro. São Paulo: Escala, [19--]. 74 p.

O amigo e o amado

O amigo e o amado se econtraram e o amigo disse: "Não precisas falar-me, mas faz-me sinal com os teus olhos que são palavras para o meu coração e eu te dou aquilo que pedires".


LULL, Ramon. O livro do amigo e do amado. Tradução de Luiz Carlos Bambassaro. São Paulo: Escala, [19--]. 74 p.

domingo, 18 de julho de 2010

Deus criou-me para criança, e deixou-me sempre criança

Deus criou-me para criança, e deixou-me sempre criança. Mas por que deixou que a Vida me batesse e me tirasse os brinquedos, e me deixasse só no recreio, amarrotando com as mãos tão fracas o bibe azul sujo de lágrimas compridas? Se eu não poderia viver senão acarinhado, por que deitaram fora o meu carinho? Ah, cada vez que vejo nas ruas uma criança a chorar, uma criança exilada dos outros, dói-me mais que a tristeza da criança o horror desprevenido do meu coração exausto. Doo-me com toda a estatura da vida sentida, e são minhas as mãos que torcem o canto do bibe, são minhas as bocas tortas das lágrimas verdadeiras, é minha a fraqueza, é minha a solidão, e os risos da vida adulta que passa usam-me como luzes de fósforos riscados no estofo sensível do meu coração.

PESSOA, Fernando. Livro do desassossego: composto por Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa. 2. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1999. p. 364-365

O conhecimento da felicidade é infeliz

Não há felicidade senão com conhecimento. Mas o conhecimento da felicidade é infeliz. porque conhecer-se feliz é conhecer-se passando pela felicidade, e tendo, logo já, que deixá-la atrás. Saber é matar, na felicidade como em tudo. Não saber, porém, é não exisitir.
 
PESSOA, Fernando. Livro do desassossego: composto por Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa. 2. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1999. p. 364

A vida seria insuportável se tomássemos consciência dela

A vida seria insuportável se tomássemos consciência dela. Felizmente o não fazemos. Vivemos com a mesma inconsciência dos animais, do mesmo modo fútil e inútil, e se antecipamos a morte, que é de supor, sem que seja certo, que eles não antecipam, antecipamo-la atavés de tantos esquecimentos, de tantas distrações e desvios, que mal podemos dizer que pensamos nela.
 
PESSOA, Fernando. Livro do desassossego: composto por Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa. 2. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1999. p. 363

terça-feira, 13 de julho de 2010

A desconfiança em relação às grande filosofias

Filósofos são déspotas que não possuem nenhum exército, por isso submetem o mundo todo encerrando-o num sistema. Provavelmente por isso, nos tempos dos tiradnos houve grandes filósofos, enquanto nos tempos de civilização mais avançada e democrática não se consegue produzir nenhuma filosofia convincente [...] reina desconfiança em relação às grande filosofias.
 
MUSIL, Robert. O homem sem qualidades. Tradução de Lya Luft e Carlos Abbenseth. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1989. p. 182-183

domingo, 11 de julho de 2010

Iliúcha


Achei estas fotos do meu cachorrinho. Acho que são as únicas.
 
f.f.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

quarta-feira, 23 de junho de 2010

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Trabalho voluntário

Tava filmando uma pessoa singular, uma mulher que faz faxima mas
escreve um monte de livros, faz teatro, musica, etc.

terça-feira, 8 de junho de 2010

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Estás só. Ninguém o sabe.

Estás só. Ninguém o sabe. Cala e finge.
Mas finge sem fingimento.
Nada 'speres que em ti já não exista,
Cada um consigo é triste.
Tens sol se há sol, ramos se ramos buscas,
Sorte se a sorte é dada.
 
Farnando Pessoa (Ricardo Reis)

Atrás Não Torna

Atrás não torna, nem, como Orfeu, volve
Sua face, Saturno.
Sua severa fronte reconhece
Só o lugar do futuro.
Não temos mais decerto que o instante
Em que o pensamos certo.
Não o pensemos, pois, mas o façamos
Certo sem pensamento.
 
 
Fernando Pessoa

Antes de Nós

Antes de nós nos mesmos arvoredos
Passou o vento, quando havia
E as folhas não falavam

De outro modo do que hoje.

Passamos e agitamo-nos debalde.
Não fazemos mais ruído no que
Do que as folhas das árvores
Ou os passos do vento.
Tentemos pois com abandono assíduo
Entregar nosso esforça à Natureza
E não querer mais vida
Que a das árvores verdes.
Inutilmente parecemos grandes.
Salvo nós nada pelo mundo fora
Nos saúda a grandeza
Nem sem querer nos serve.
Se aqui, à beira mar, o meu indício
Na areia do mar com três ondas o apaga,
Que fará na alta praia
Em que o mar é o Tempo?
Fernando Pessoa (Ricardo Reis)

quinta-feira, 20 de maio de 2010

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Já não vivi em vão se escrevi bem uma canção

Já não vivi em vão
Se escrevi bem
Uma canção.
 
A vida o que tem?
Estender a mão
A alguém?
 
Nem isso, não.
Só o escrever bem
Uma canção.
 
 
Pessoa, Fernando. Poesia: 1918-1930. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. p. 279

Supõe

Chico Buarque

Supõe que já cruzamos pela vida
Mas nos deixamos sempre para trás
Porque eu andava sempre na avenida
E tu corrias pelas transversais

Supõe que num comício colorido
A praça, enfim, vai nos conciliar
Supõe que somos do mesmo partido
Supõe a praça a se inflamar
Bandeiras soltas pelo ar
E tu começas a cantar
Supõe que eu vibro, comovida
E supõe que eu sou tua canção

Supõe que te apresentas como amigo
E me perguntas nome e profissão
Comentas que faz sol, ou tem chovido
Ou outro comentário sem razão
Supõe que eu te observo, compreensiva
Porém não tenho nada a acrescentar
Supõe que falas coisas dessa vida
Como querendo aparentar
Que tu tens muito o que contar
Que és um tipo original
Supõe que rio, divertida
E supõe que eu sou tua canção

Supõe que nós marcamos um cinema
Mas chegas lá pro meio da sessão
Pois teu trajeto tem algum problema
Que só te leva numa direção
Supõe que agora a tela me ilumina
Tu ficas assistindo ao meu perfil
Supõe a minha mão tão recolhida
Que não percebe a tua mão
Que não percebe a minha mão
Que não é sim, que não é não
Supõe que eu sigo distraída
E supõe que eu sou tua canção

Supõe que a boa sorte é nossa amiga
E que das 3 às 5 pode ser
Meu pai acaba que dobrar a esquina
E tu vens me encontrar, enfim mulher
Supõe que sem pensar nos abraçamos
Supõe que tudo está como previmos
É a primeira vez que nos amamos
Supõe que falas sem parar
Supõe que o tempo vem e vai
Supõe que és sempre original
Supõe que nós não nos despimos
E supõe que eu sou tua canção

fonre: http://letras.terra.com.br/chico-buarque/86056/

sexta-feira, 14 de maio de 2010

As princesas incógnitas ficaram desconhecidas

Não venhas setntar-te à minha frente, nem a meu lado;
Não venhas falar, nem sorrir.
Estou cansado de tudo, estou cansado,
E só quero dormir.
 
Dormir até acordado, sonhando
Ou até sem sonhar,
Mas envolto num vago abandono brando
A não ter que pensar.
 
Nunca soube querer, nunca soube sentir, até
Pensar não foi certo em mim.
Deitei fora entre urtigas o que era a minha fé,
Escrevi numa página em branco, "Fim".
 
As princesas incógnitas ficaram desconhecidas,
Os tronos prometidos não tiveram carpinteiro.
Acumulei em mim um milhão difuso de vidas,
Mas nunca encontrei parceiro.
 
Por isso, se vieres, não te sentes ao meu lado, nem fales.
Só quero dormir, uma morte que seja
Uma coisa que não me rale nem com que tu te rales -
Que ninguém deseja nem não deseja.
 
Pus o meu Deus no prego. Embrulhei em papel pardo
As esperanças e as ambições que tive,
E hoje sou apenas um suicídio tardo,
Um desejo de dormir que ainda vive.
 
Mas dormir a valer, sem dignificação nenhuma,
Como um barco abandonado,
Que naufraga sozinho entre as trevas e a bruma
Sem lhe saber o passado.
 
E o comandante do navio que segue deveras
Entrevê na distância do mar
O fim do último representante das galeras,
Que não sabia nadar.
 
 
Pessoa, Fernando. Poesia: 1918-1930. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. p. 283
 
 

Do cais morto e do barco ido.

Uma só luz sombreia o cais,
Há um som de barco que vai indo.
Adeus! Não nos veremos mais!
A maresia vai subindo.
[...]
 
E no desdobre da memória
O viajante indefinido
Ou ve contar-se só a história
Do cais morto e do barco ido.
 
 
Pessoa, Fernando. Poesia: 1918-1930. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. p. 263

De mim é que estou cansado

Estio. Uma brisa ardida
Passa no ar abrasado.
Não estou cansado da vida:
De mim é que estou cansado.
 
E como na tarde sumida
O sol baço luz sem rir,
Tenho que sorrir à vida
Sem ter vida a que sorrir.
 
Pessoa, Fernando. Poesia: 1918-1930. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. p. 254

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Razões da crítica

OSORIO, Luiz Camillo. Razões da crítica. Rio de Janeiro: Zahar, 2005.


Introdução

O autor pretende por em discussão o papel e os lugares da crítica na atualidade. (p.7) Ele defende que a pluralidade como regra na arte contemporânea é razão maior para a necessidade da crítica e do juízo. (p.8)

O meio da arte é atravessado por hierarquias. Isso, segundo OSORIO, faz com que o artista limite sua poética dentro daquilo que o mercado e as instituições reconhecem e legitimam como válidas. (p. 8) Ocorre, dessa maneira, um reducionismo poético, modelos que se propagam e padronizam a criação. Para OSORIO, isso pede mais crítica. (p. 8) "O papel da crítica não é criar polêmica, mas procurar espaço para o confronto de idéias e a disseminação de sentidos para as obras de arte." (p. 9)

OSORIO defende a crítica procurando afastar seu sentido do de julgar e condenar ou enquadrar. (p. 9) Outro ponto de negação da crítica é a idéia de uma falsa liberdade. Porém, "não havendo mais nada a ser julgado, tudo é possível [...]". (p. .9) O autor defende a crítica contra esse reducionismo. (p.9) "Há que se julgar justamente porque não temos nenhuma certeza a priori sobre como uma obra cria sentido." (p. 9)

Pra discutir as razões da crítica, OSORIO relê textos filosóficos e de história da arte para pensar a contemporaneidade, começando por Kant. (p. 9) A filosofia de Kant é referência fundamental por ser o ato inaugural da estética moderna e da noção de crítica. (p. 10)


Crítica: fronteiras e interseções

A crise da crítica, tão falada atualmente, está relacionada, para OSORIO, com a "pulverização do público e ao sentimento de total desabrigo e desorientação diante da arte contemporânea". (p. 10)

A crítica está pressionada entre a desinformação geral e o isolamento provocado pela linguagem especializada, diz o autor. (p. 10) OSORIO relacionada a crise da crítica com a crise da política, ambas voltadas para o debate, pluralidade de vozes e o "vir a ser infinito da arte e do mundo." (p. 11)


"A crítica será vista aqui tanto como uma atividade específica dentro do circuito de arte que produz e dissemina sentidos para as obras, como também um exercício comum que põe as obras em questão ao pôr-se a si e ao mundo em questão." (p. 11)


O texto defende que toda recepção é uma forma de crítica, simultaneamente especializada e não-especializada, pois todos que visitam uma exposição de arte ou lêem uma crítica necessitam "julgar por si e avaliar a adequação entre sentimentos e palavras." (p. 11)

O autor pede o exercício do juízo e a liberdade de manifestação e dissenso para combater o anti-intelectualismo vigente dos que rejeitam a arte contemporânea diante da desorientação por ela provocada. (p.11 e 12.) "A crítica é a salvaguarda da desorientação." (p. 12)

O texto alerta para o que o autor entende como um falso dilema da arte: o de se adaptar à lógica do espetáculo ou se fechar da auto-referencialidade segregadora. (p. 12) Porém, é ultrapassando essa dicotomia "que a arte tem produzido seus melhores resultados." (p. 12) "O que se almeja para a crítica é que ela se reinvente como um canal de disseminação pública da arte e de suas questões mais urgentes." (p. 14)

OSORIO procura derrubar as idéias que o senso comum tem da crítica, tal como a de um artista frustrado que realiza um exercício de ressentimento ou a do teórico, "meio lunático, meio professor, que divaga na criação de sentidos mirabolantes para as obras analisadas". Tem também o político castrador que ajusta seu conhecimento livresco à obra. (p. 15) Deve-se pensar não em uma escrita sobre a obra e sim com as obras. (p. 16)

Outro aspecto que o texto trata de diferenciar é a confusão entre criticar e falar mal. Não que a crítica deva ser meramente apologética, "nem se neutralizar a veia mais contundente da crítica jornalística." (p. 16) […] "O intuito é alargar os modos de sua recepção." (p. 16) "Acrítica é escrita para o público, mas a serviço da arte." (p. 17) "O que se quer garantir é que a crítica esteja sempre atenta às transformações dos meios e das formas de arte, desconfiando das convenções e certezas adquiridas." (p. 17) "[…] há que se pensar a crítica deslocando-se da posição de juiz para a de testemunha." (p. 17)

OSORIO se apropria do termo do teórico Sarat Maharaj para dizer que a crítica é uma forma de deslocução das obras.


"Com isso quero dizer que a crítica procura dar-lhes uma outra voz e um outro lugar, ou seja, que ela deve assumir-se como um exercício explanatório, que vive uma experiência formal, uma invenção de linguagem e a transpõe ao texto de modo a deslocar-lhes os sentidos." (p. 18)


Porém, o autor alerta que não se trata de a crítica rivalizar com a obra. "São criações que se confundem e se potencializam." (p. 18)

O texto volta na história onde se funda o exercício da crítica, relendo o filósofo Kant. Ele trata da obra A crítica da faculdade do juízo, ou Terceira crítica, "onde se definiram, em grande parte, os termos da experiência moderna." (p. 19) OSORIO procura rever sua possível atualidade.


Crítica e estética em Kant: de volta ao começo.

"O aparecimento de uma atividade como a crítica no final do séc. XVIII dá-se a partir da superação de uma noção técnica da arte, da rejeição de uma poética enquanto normatização das práticas artísticas." (p. 22)


Então, "a experiência das obras vai se dar sempre em um território indefinido no qual se negociam os seus possíveis sentidos diante da indiferenciação da não-arte." (p. 22) "Para a experiência estética se efetuar não deve haver determinação do sujeito em relação ao objeto." (p. 22 e 23)


"A crítica de arte deixa de ser tomada no sentido normatizador que determinava o modo de ser das obras, e passa a ser um esforço reflexivo que busca qualificar uma experiência singular do mundo." (p. 24)


"Em Kant vemos a arte assumir sua autonomia enquanto experiência estética ao mesmo tempo em que começa a assumir sua indiferença 'poética' em relação à não-arte, ou seja, não vai ser pela especificidade dos seus procedimentos que a arte vai se definir. Na verdade, a impossibilidade de se definir o que seja arte passa a se tornar uma questão." (p. 25)


"O desinteresse que Kant sublinha no juízo estético, põe em xeque as perguntas 'por que' e 'como', no sentido de encontrar causas objetivas, que poderiam acompanhá-lo, restando para o sujeito apenas a admiração gratuita diante do fenômeno." (p. 28)


Se utilizando de Heidegger, OSORIO procura desfazer a incompreensão de Kant em relação ao desinteresse:


"O desinteresse seria para Heidegger justamente o que dá dignidade ao fenômeno, pois não o vincula a um interesse determinado pelo sujeito. Tanto os juízos teóricos quanto os práticos, o conhecimento e a moral, são movidos pelo interesse, que constrange o aparecer do fenômeno enquanto tal." (p. 28)


O autor também discute a autonomia do juízo estético como um ponto problemático e mal compreendido em Kant:


"Uma experiência autônoma significa apenas, e isto já é muito, que nada vai legitimar a arte de fora, mas isto não impede que ela esteja sempre ligada a um fora, apontando para além dela mesma, para um mundo em comum que é o território do sentido." (p. 31)


A arte como crítica e a crítica como arte.

Continuando a discutir Kant: "O vir-a-ser ada obra, que é o lugar da manifestação da verdade da arte, não se explica pelas intenções do artista, mas pela maneira como estas se transformam em obra." (p. 33)

Discute-se no texto o conceito de gênio em Kant: "O importante da descrição do gênio é a tensão entre a vontade do artista e a vontade da obra, entre a intenção e gratuidade, entre o ser arte e parecer natureza." (p. 33) "O ponto é pensar o ato criativo como uma intencionalidade sem intenção." (p. 33) "Se a criação for puramente intencional, ela é mero resultado de um saber fazer, de uma técnica." (p. 33)

Em seguida, OSORIO lista as quatro características fundamentais que Kant atribui ao gênio: "a originalidade, o exemplarismo, a autenticidade e um acordo secreto com as intenções da natureza." (p. 34)


"No artista, é a dialética originalidade-exemplarismo que deve ser enfrentada, e que pode ser traduzida enquanto uma compatibilização do dever de expressão para consigo mesmo com o anseio de comunicação frente ao público." (p. 36)


"Nesse movimento entre um 'eu' que pensa e um 'nós' que ajuíza, vai se formando o que Kant denomina gosto, que nada mais é do que a constituição de parâmetros de comparação. Ter um gosto é ter um quadro de referência a partir do qual cada um vai se habilitar a julgar." (p. 36 e 37)


OSORIO observa que para Kant o gosto não é uma faculdade produtiva, ou seja, não basta ter gosto para se tornar artista. O gosto é simplesmente uma faculdade de ajuizamento. E o autor vai além de Kant dizendo que o gosto não basta para se ajuizar as obras de arte, "sendo necessário uma disposição reflexiva, e até mesmo criativa, que ponha em movimento a imaginação, o entendimento e a sensibilidade." (p. 37) OSORIO conclui que a arte "só existe na medida em que é capaz de elaborar uma linguagem expressiva que crie significados e que ultrapasse a dimensão do gosto." (p. 38)


O lugar do juízo (e da crítica) na arte contemporânea

O texto defende que "podemos olhar os acontecimentos de fora, ou seja, desobrigados em relação às normas, aos resultados e as obrigações dos envolvidos no processo." (p. 43) Ele também desaprova a idéia de que só o produtor de arte tem condições de julgar a obra. (p. 43) Esclarece ainda que:


"Julgar é a capacidade propriamente humana de viver a diferença no meio do comum, em que a multiplicidade de sentidos pode gerar um mundo compartilhável sem se perder na relativização do cada um com seu sentido." (p. 45)


"Feito essas ressalvas, creio poder afirmar que a arte moderna e a contemporânea, ao assumirem positivamente a crise de uma tradição deixada sem testamento , em outras palavras, aceitando o fato de que tudo pode ser arte, sublinharam que só julgando cada obra na sua singularidade podemos decidir por sua validade." (p. 52)


A crítica genética e as transformações da arte.

"[…] a cada relação com as coisas, a cada vez que percebemos o mundo, levamos para a coisa percebida, sem imaginarmos, vivências, pensamentos, afetos, emoções, exemplos, imagens que estão entranhados em nossa memória e assim atravessam e informam a nossa percepção." (p. 54) "O viajante, o convalescente e a criança sabem das diferenças de tonalidade afetiva diante do mundo – o niilismo e o tédio são anestésicos impiedosos dessas diferenças." (p. 54)


"Deste modo, a arte é sempre algo aberto a tornar-se outra coisa, a inventar maneiras de ser distintas daquela que havia sido pensada pelo seu criador. Daí que a recepção da arte requer sempre algum tipo de exercício criativo, algum esforço interpretativo, alguma entrega espiritual." (p. 56)


Discute-se no texto a temporalidade das obras-processo que leva a discutir suas formas de exposição no museu e de recepção do público. (p. 58) Cabe, diz o autor, reivindicar formas de devir, e não permanência, para essas poéticas instáveis. "Aí é que entram os textos de artista, vídeos de performances, resíduos fotográficos, esboços, depoimentos, tomados como etapas que se articulam e se materializam em possibilidades poéticas." (p. 59)

O livro é concluído dizendo que "a arte não veio para explicar, ou para confirmar, nada, mas para nos fazer pensar e falar." (P. 64)



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quinta-feira, 8 de abril de 2010

Testamento

O que não tenho e desejo
É que melhor me enriquece.
Tive uns dinheiros - perdi-os...
Tive amores - esqueci-os.
Mas no maior desespero
Rezei: ganhei essa prece.
 
Vi terras da minha terra.
Por outras terras andei.
Mas o que ficou marcado
No meu olhar fatigado,
Foram terras que inventei.
 
Gosto muito de crianças:
Não tive um filho meu.
Um filho!... Não foi de jeito...
Mas trago dentro do peito
Meu filho que não nasceu.
 
Criou-me, desde eu menino,
Para arquiteto meu pai.
Foi-se-me um dia a saúde...
Fiz-me arquiteto? Não pude!
Sou poeta menor, perdoai!
 
Não faço versos de guerra.
Não faço porque não sei.
Mas num torpedo-suicida
Darei de bom grado a vida
Na luta em que não lutei!
 
29/01/1943
 
Bandeira, Manuel. Antologia Poética. 8 ed. Rio de Janeiro: Livraria José Olímpio, 1976. p. 119
 

A Estrela

Vi uma estrela tão alta,
Vi uma estrela tão fria!
Vi uma estrela luzindo
Na minha vida vazia.
 
Era uma estrela tão alta!
Era uma estrela tão fria!
Era uma estrela sozinha
Luzindo no fim do dia.
 
Por que da sua distância
Para a minha companhia
Não baixava aquela estrela?
Por que tão alta luzia?
 
E ouvi-a na sombra funda
Responder que assim fazia
Para dar uma esperança
Mais triste ao fim do meu dia.
 
 
 Bandeira, Manuel. Antologia Poética. 8 ed. Rio de Janeiro: Livraria José Olímpio, 1976. p. 110-111
 
 
 

Momento num café

Quando o enterro passou
Os homens que se achavam no café
Tiraram o chapéu maquinalmente
Saudavam o morto distraídos
Estavam todos voltados para a vida
Absortos na vida
Confiantes na vida.
 
Um no entanto se descobriu num gesto largo e demorado
Olhando o esquife longamente
Este sabia que a vida é uma agitação feroz e sem finalidade
Que a vida é traição
E saudava a matéria que passava
Liberta para sempre da alma extinta.
 
 Bandeira, Manuel. Antologia Poética. 8 ed. Rio de Janeiro: Livraria José Olímpio, 1976. p. 93

Poética

Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente protocolo e manifestações de apreço ao Sr. Diretor.
Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário o cunho vernáculo de um vocábulo

Abaixo os puristas
Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis

Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora de si mesmo.

De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário do manate exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes maneiras de agradar às mulheres, etc.

Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo do bêbedos
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clowns de Shakespeare

- Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.


Bandeira, Manuel. Antologia Poética. 8 ed. Rio de Janeiro: Livraria José Olímpio, 1976. p. 63-64

sábado, 3 de abril de 2010

O fim da lavadora de roupas

Máquina de lavar roupas é coisa do passado. Gasta muito tempo, água e energia elétrica. Ou seja, não é nem um pouco "ecofriendly". Veja aqui o método revolucionário que inventei, passo a passo:

1.Pegue um par de meias sujo. É melhor treinar com uma peça de roupa simples. Depois você pode fazer o mesmo com uma jaqueta
2.Jogue um pouco de sabão em pó dentro da privada. É importante e higiênico puxar a descarga antes
3.Coloque a meia dentro da privada. Mexa um pouco para fazer espuma
4.Puxe a descarga duas vezes. Uma para lavar e outra para enxaguar. Importante: segure a meia firmemente para que ela não entre pelo encanamento
5.Prontinho. Em segundos as meias estão limpinhas
6.Agora é só torcer e pendurar para secar.
 
 

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Madrigal Melancólico

O que eu adoro em ti,
Não é a tua beleza.
A beleza, é em nós que ela existe.
A beleza é um conceito.
E a beleza é triste.
Não é triste em si,
Mas pelo que já nela de fragilidade e de incerteza.
 
O que eu adoro em ti
Não é a tua inteligência.
Não é o teu espírito sutil,
Tão ágil, tão luminoso,
- Ave solta no céu matinal da montanha.
Nem é a tua ciência
Do coração dos homens e das coisas.
 
O que eu adoro em ti,
Não é a tua graça musical,
Sucessiva e renovada a cada momento,
Graça aérea como o teu próprio pensamento,
Graça que perturba e que satisfaz.
 
O que eu adoro em ti,
Não é a mãe que já perdi,
Não é a irmã que já perdi,
E meu pai.
 
O que eu adoro em tua natureza,
Não é o profundo instinto maternal
Em teu flanco aberto como uma ferida.
Nem a tua pureza. Nem a tua impureza.
O que eu adoro em ti - lastima-me e consola-me!
O que eu adoro em ti, é a vida.
 
Manuel Bandeira
11 de julho de 1920
 
Bandeira, Manuel. Antologia Poética. 8 ed. Rio de Janeiro: Livraria José Olímpio, 1976. p. 48-49

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