Um livro é um mudo que fala, um surdo que responde, um cego que guia, um morto que vive. (Padre Antônio Vieira)

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Somos todos uns filhos da puta

A Somália sofreu no último sábado (14) um dos atentados mais violentos da história. Na segunda-feira, o Twitter ferveu de questionamentos sobre a baixa cobertura midiática e a pouca comoção em torno das mais de 500 vítimas (entre mortos e feridos) do ataque ao centro da capital Mogadíscio. Representantes de ONGs, jornalistas e acadêmicos do mundo todo se perguntaram por que não surgiu rapidamente um "Je suis Somália" ou coisa do tipo.

Infelizmente, porque culturalmente naturalizamos o sofrimento de pobre, preto, muçulmano e africano. Mas ainda que houvesse forte resposta emocional a tamanha violência politicamente motivada, começaríamos a trilhar o caminho de evitar que ela se repetisse? Certamente, seria melhor do que a indiferença. Mas bastaria? Tendo a achar que precisamos de mais do que nossos corações; precisamos analisar, com a cabeça, como a violência sistêmica, objetiva e perene, se converte em banhos de sangue. Qual o efeito que cada modalidade de violência tem sobre nós e por quê.

A pouca manifestação solidária que houve seguiu um padrão de tentar formar uma corrente solidária pela via da exclusão. Como se, incapazes de sentir empatia genuína pelo sofrimento daquelas pessoas histórica e ideologicamente construídas como sub-humanas, tentássemos estabelecer, na repulsa pelo assassino, a ligação com a vítima. Nas declarações de condenação da comunidade internacional – que, via de regra, chegaram com dois dias atraso, como se a empatia também tirasse folga no fim de semana – abunda a palavra "bárbaro".

Embora hoje, associemos o termo a violento, desumano e cruel, "bárbaro" tem uma etimologia reveladora: vem do grego bárbaros, que quer dizer "estrangeiro". Ou seja, bárbaro é sempre o "outro", nunca nós mesmos. Ao atribuir este adjetivo a um atentado ou seu perpetrador, inconscientemente (ou não), o colocamos fora da comunidade humana; ele incorpora a figura do "outro" que, como tal, não é digno de identificação e, logo, empatia. Ou seja, esta comoção opera em chave negativa: a solidariedade com a vítima brota da negação da humanidade do algoz.

Será que o algoz é "outro" de fato? Ou criar o outro é o recurso psicológico que temos para lidar com a violência absoluta e, assim, nos abstermos de procurá-la dentro de nós mesmos? Não estou evocando uma solidariedade cristã do tipo "ame seu inimigo" a quem perpetrou tão covarde ato de violência contra civis inocentes. Estou dizendo que precisamos buscar meios de solidariedade positiva com as vítimas. E talvez, por culpa de anos de desconstrução da humanidade dessas pessoas, ela não venha pela via emocional. Talvez precisemos construir caminhos intelectuais de desenvolvimento da empatia.

Este exercício depende de uma análise um pouco mais profunda das condições somalis – sabendo que não vamos conseguir, sequer minimamente, apreender a complexidade da colcha de retalhos de descaso, imperialismo, colonialismo, racismo, diplomacia falha, crueldade institucional, ganância e hipocrisia que compõe a história recente da Somália (e da África, de forma geral). Trata-se de tentar fazer a solidariedade ultrapassar a comoção inicial para buscar ressignificar intelectual e objetivamente o jogo geopolítico que nos trouxe ao ponto em que estamos agora. Até porque, são grandes as chances de percebermos que o "bárbaro" e sua violência são menos estrangeiros do que parecem.

Foto: Mohamed ABDIWAHAB / AFP

Al-Shabaab e a marginalização da institucionalidade

O governo local e a comunidade internacional apontam como responsável pelo atentado a milícia Harakat al-Shabaab al-Mujahideen ("Movimento da Juventude Guerreira", em tradução livre), conectada à Al-Qaeda no Maghreb Islâmico (Aqmi) e ao grupo nigeriano Boko Haram. Mas, estranhamente, a organização não assumiu a autoria do atentado. De acordo com a rádio pública estadunidense NPR, que tem um correspondente in loco, há suspeitas de que a escala e a comoção causada pelo atentado tenham inibido o grupo, que não pode prescindir completamente das relações públicas em nome da hegemonização de sua leitura fundamentalista do Islã.

Isso porque, diferentemente do grupo Estado Islâmico, que apareceu como um relâmpago e dominou territórios distantes que eram estáveis até pouco antes, a Al-Shabaab foi um importante ator político dentro da precária institucionalidade de seu próprio país, onde a maioria da população nem se lembra do que é ter um governo de fato. Al-Shabaab foi um dos braços da União das Cortes Islâmicas, que governou e coordenou a aplicação da Sharia(lei islâmica) na maior parte do sul do país durante o ano de 2006.

Claro que para nós, ocidentais, a palavra Sharia causa calafrios. Imediatamente nos lembramos das decapitações, mãos decepadas, apedrejamento de mulheres "infiéis" etc. Mas há uma série de particularidades na história e na geografia da Somália que fizeram com que os tribunais religiosos fossem bastante populares entre a população do sul do país. A primeira, e mais óbvia, reside no fato de que a Somália vive em guerra civil desde 1991 – o que faz da lei (qualquer lei), um luxo.

Depois da queda de Siad Barre – que, com apoio soviético, se aferrou ao poder por mais de 20 anos, até ser derrubado por uma coalizão de grupos armados em 1991 -, o controle político, econômico e militar se dividiu entre chefes de clãs guerreiros. Em meio ao caos, intelectuais, líderes políticos e juristas de cidades importantes como a própria capital Mogadíscio formaram as Cortes Islâmicas para estabelecer algum controle político e social. Uma vez que não existia burocracia que pactuasse uma Constituição legítima, a religião era um ponto e convergência natural.

Como explica Stig Jarle Hansen, no livro Al-Shabaab in Somália, The History and Idelogy of a Militant Islamist Group, o caldo do islamismo militante já vinha fervendo no país desde a crise petrolífera do início dos anos 70, que enriqueceu a Arábia Saudita o suficiente para que Riad financiasse a expansão internacional de sua filosofia jihadista radical, o wahabismo.

Esta vertente do islamismo militante sunita, fundada e financiada pela dinastia Saud, que comanda a Arábia Saudita, prega a submissão do planeta inteiro à mais estrita interpretação da lei do profeta. É uma leitura fundamentalista e expansionista da Jihad islâmica, que inspira todas as frentes sunitas radicais, desde a Al-Qaeda até o Daesh. Ainda hoje, a Arábia Saudita financia qualquer imã (líder religioso) sunita que se disponha a abrir uma mesquita de linha wahabista, em qualquer parte do mundo.

E, claro, aplica sua filosofia domesticamente com precisão saudita – o que quer dizer que a família real e os negócios estão à margem da ira divina. Duzentas chibatadas é a pena para o consumo de álcool. Homossexualidade e adultério são passíveis de pena de morte. Mas quando o príncipe Majed al Saud infringiu todas as disposições da Sharia, não deu nada. Em setembro de 2015, ele promoveu uma festa regada a prostitutas, álcool e cocaína em Beverly Hills, que incluiu sexo gay, cárcere privado e ameaça de morte contra três funcionárias da mansão onde ele estava, que se recusaram a prestar-lhe favores sexuais.

Parêntese fechado, apesar da onipresença da doutrinação saudita, os petrodólares e o convite à guerra santa não foram suficientes para estabelecer na Somália, islamita milenar, a coesão em torno de uma corrente religiosa tão radicalmente exclusivista. A ainda mais antiga organização social em clãs impedia o pensamento monolítico.

Da organização política comunitária às afinidades pessoais, partes importantes da vida social somali passam pela relação patrilinear; pessoas que têm descendentes masculinos em comum se agrupam. Mas essa união em microestruturas é um obstáculo na formação da coesão macro-estrutural. Não à toa, tão logo conseguiu derrubar o presidente Barre, o movimento armado do início dos 90 se dissolveu nas lealdades familiares sem formar governo.

Duas administrações civis frágeis foram estabelecidas e ficou claro que viria guerra civil por tempo indeterminado. Com ela, chegou a fome, o risco de genocídio e o êxodo populacional – que gerou no vizinho Quênia, um mar de barracas chamado Dadaab, o maior campo de refugiados do mundo. Sob o pretexto de garantir a distribuição de alimentos da comunidade internacional à população e "fazer o trabalho de Deus" nas palavras do então-presidente George Bush (pai), Washington resolveu entrar em ação e comandar a Força Tarefa Unida da ONU.

Aproveitando que já estavam no terreno mesmo (e sem nenhuma relação com o fato de que a Somália possui a maior extensão costeira da África Oriental, com saída para o Oceano Índico e o Mar Vermelho), os Estados Unidos tentaram capturar um dos dois auto-proclamados presidentes do país, Mohamed Farrah Adid.

O resultado dessa tentativa improvisada de mudança de regime foi a batalha de Mogadíscio, retratada no filme Falcão Negro em Perigo – que, aliás, merece outro parêntese é. Para se ter ideia da carga de ideologia racista contida no longa, não há negros entre os marines; dos negros somalis, ninguém tem nome. Todos respondem pela alcunha skinny (magrelo), apelido no mínimo de mau gosto, em uma operação de combate à fome.  

O fato é que a batalha de Mogadíscio, por mais heroica que pareça pela lente hollywoodiana, foi um fracasso retumbante, que custou dois helicópteros e 18 soldados às forças invasoras. Bill Clinton, que acabara de assumir a Casa Branca, aproveitou a comoção em torno do vexame para retirar as tropas, em março de 1994. Com calculada emoção, o novo mandatário disse que os corpos de soldados que "só queriam dar de comer a pessoas com fome" foram "dessacralizados por gangues de somalis armados".

Durante o raro e breve período de ausência de ingerência militar externa que se seguiu, as milícias em guerra se dividiram em mais e mais facções, rachando de vez um país já ingovernável. Conforme alguns clãs tentavam criar um Governo Nacional de Transição (GNT), Mogadíscio sofria uma onda descontrolada de estupros, assaltos, saques e assassinatos, que levou à formação de uma força de paz da União Africana, capitaneada pela Etiópia.

Por se tratar um ex-império regional e um rival histórico, a participação etíope foi vista com péssimos olhos pela população, bem como o fato de que o outro governo (Governo Federal de Transição, GFT), tinha sido formado no Quênia, à revelia da população. Reconhecida pela comunidade internacional, a administração não tinha qualquer legitimidade interna. Percebendo a inquietação do povo, os islamitas impuseram uma política de tolerância zero com o crime e ainda compraram a briga contra a ingerência externa patrocinada pela ONU.

Mais do que a religião, foi este movimento institucionalista que empoderou os wahabistas. Formadas em meio a tamanho caos, as Cortes Islâmicas de aplicação da Sharia conquistaram a população ao virar a coisa mais próxima de um governo, ainda que funcionassem como ditaduras aristocráticas de um Judiciário fundamentalista.

Tão logo essas forças sentiram consolidada alguma hegemonia num país cindido pelos clãs, elas colocaram em prática a parte militante do wahabismo. Formou-se a União das Cortes Islâmicas (UCI). A nova organização engrossou a voz e declarou, no início de 2006, que as tropas de "manutenção da paz" seriam tratadas com hostilidade, fossem quenianas, etíopes, estadunidenses ou europeias. Em poucos meses, a organização já tinha conquistado grande parte do sudeste do país, incluindo Mogadíscio.

Depois de quase um ano de guerra total, tanques etíopes marcharam sobre Mogadíscio. No último dia de 2016, a UCI se viu obrigada a recuar em direção à fronteira queniana. A guerra – que contou, já nos estertores, com bombardeios norte-americanos – serviu para dissolver a ditadura das Cortes e restabelecer o Governo Federal de Transição.

Mas, já em fevereiro, ficou claro que, das sombras da clandestinidade, emergia uma guerrilha perigosa, quando cerca de 800 manifestantes saíram às ruas da capital para queimar bandeiras dos Estados Unidos, Etiópia e Uganda. No mesmo ato, homens mascarados fizeram ameaças de ataques a bomba contra Quênia e Etiópia.

Al Shabaab, precursor tático do grupo Estado Islâmico

Era o primeiro sintoma do nascimento da Harakat al-Shabaab, que inauguraria uma nova tendência do wahabismo militante: espalhar o terror de forma transnacional, como estratégia publicitária para reunir muçulmanos sunitas hostilizados e humilhados do mundo inteiro em torno da luta pela formação de um governo islâmico universal. Um califado que limparia o mundo dos infiéis e imporia a toda a humanidade uma interpretação fundamentalista e apocalíptica da lei do profeta.

O sucesso do Al-Shabaab nas relações públicas é inegável e certamente serviu de inspiração para o grupo Estado Islâmico. Prova disso é que, apesar d a invisibilidade midiática da jihad violenta na África – à época, ainda mais eclipsada pela Primavera Árabe e pela ascensão de outras milícias wahabistas no Oriente Médio -, sempre houve presença maciça de estrangeiros nas linhas da organização.

Um pesquisador citado por Stig Hansen recenseou militantes feridos em um hospital de Mogadíscio em junho de 2011 e descobriu 38 ocidentais e asiáticos, 125 africanos de outros países, um estadunidense e dois sauditas. Entre os mortos, a diversidade era ainda maior, com gente de Bangladesh às Ilhas Comores, passando por Grã-Bretanha, Bélgica, Suécia e Noruega. Descobriu-se, ainda, que entre as lideranças do grupo, havia veteranos da primeira Guerra do Afeganistão – ou seja, moujahadins ultra-radicais treinados diretamente pelo Pentágono para enfrentar a invasão soviética no final dos anos 70.

Pela metade de 2008, o grupo já havia feito o que o autoproclamado Estado Islâmico faria em 2015, deixando o mundo inteiro boquiaberto: aproveitar o colapso de um Estado para tomar de assalto vastas franjas de território, aliando geopolítica, publicidade, tática de guerrilha e a divulgação de atos de extrema violência pelas redes sociais. No ano seguinte, depois de vários atentados extremamente cruéis e midiatizados, a al-Shabaab seria declarada organização terrorista pelos Estados Unidos.

Apesar da clara ameaça que o grupo representava, apesar do fato de que suas táticas inspirariam outras jihads ultrarradicais, os Estados Unidos optaram por não declarar guerra. A força de ataque seria formada pela União Africana, supervisionada pela ONU e com "apoio tático" estadunidense.

Obama institui assassinato como política de Estado

Só que este "apoio tático" se transformou numa completa subversão das leis internacional – e mesmo estadunidense – sobre a hostilidade militar. De acordo com a Constituição dos EUA, um presidente não pode iniciar uma ação bélica sem o aval do Congresso; e consta no artigo 50 da Convenção de Genebra que, "se houver dúvida se uma pessoa é ou não combatente, ela deve ser considerada civil".

O departamento de Estado comandado por Hillary Clinton sob a gestão Obama aproveitou a situação somali – e a pouca atenção que o país desperta da opinião pública internacional – para tirar estes "empecilhos burocráticos" do caminho do império e da indústria armamentista que o sustenta. A Somália, junto com o Iêmen, outro semi-Estado esquecido, virou campo de testes da guerra secreta dos drones.

Embora o nome escolhido pela estratégia de relações públicas de Washington tenha sido clean – target killings ou mortes direcionadas, em tradução livre -, a prática transformou assassinato em política do Estado americano. Conforme revelou The Intercept, a partir de documentos vazados da inteligência estadunidense, apenas 10% das vítimas dos drones eram alvos designados. Os outros 90%, são absolutos desconhecidos – ou melhor, civis, seguindo a terminologia de Genebra.

Como se não bastasse, este tipo de assassinato é feito em um território contra o qual os Estados Unidos não declararam guerra. Ou seja, eles significam significam que potencialmente o presidente dos EUA pode matar qualquer pessoa do mundo como num jogo de videogame. Depois deste vazamento, Obama foi obrigado a se explicar. Contradizendo abertamente as estatísticas de sua própria administração, admitiu as mortes de 116 civis ao redor do mundo, entre 2009 e 2015. Mas um único ataque em Mogadíscio matou 150.

Além das milhões de implicações éticas desta nova-velha tática de assassinar quem se bem entende, há a questão da imensa insegurança jurídica que ela acarreta. Levando em conta que a Al-Shabaab segue uma lei escrita – por mais cruel que seja sua aplicação da Sharia –, qual o efeito psicossocial do abandono deliberado da mais alta lei internacional (a que impediu o holocausto nuclear durante a Guerra Fria) pelo governo que invade com a promessa restaurar a ordem? E, pior, qual esse efeito no caso da Somália, cujo único período de supremacia do direito foi durante a ditadura das cortes islâmicas?

Movimentações suspeitas às vésperas do atentado

A curto prazo, o provável reforço do Al-Shabaab e da retórica wahabista radical. No longo prazo, corre-se o risco da obsolescência completa da legalidade por meio da consolidação da lei do mais forte. Talvez a Somália já esteja nesta segunda etapa, infelizmente. Talvez o silêncio da Al-Shabaab sobre o atentado de sábado seja de fato a constatação calada de um erro estratégico em um momento de possível consolidação social da sua ordem de contorno fascista.

Ou talvez estas sejam duas suposições ingênuas, que perdem de vista – não por preguiça, mas por falta de elementos de análise – o verdadeiro jogo geopolítico em curso. Para quem quiser tentar caçar o pelo do ovo, talvez seja uma boa pesquisar dois acontecimentos aparentemente desconexos. O primeiro é que, na véspera do ataque, o ministro da Defesa da Somália, Abdirashid Abdullahi Mohamed, e o chefe do exército, gal. Mohamed Ahmed Jimale, pediram demissão.

E o outro, talvez mais conspiratório, mas também mais intrigante, é o fato de que a Turquia do autocrata Recep Tayyip Erdogan, primeiro país a disponibilizar leitos e transporte para as vítimas, abriu há apenas 15 dias sua maior base militar internacional, justamente em Mogadíscio.

Especialista em guerra de fachada contra organizações wahabistas, suspeito de ter permitido atentados contra seu próprio povo em nome de interesses políticos e econômicos, Erdogan está investindo US$ 50 milhões no treinamento de 10 mil soldados somalis para enfrentar a Al-Shabaab – que hoje domina apenas 10% do território que já teve. Não há nenhuma insinuação aqui, mas o investimento só retorna se o inimigo existir.

Se a violência vem de todos os lados, por que não nossa indignação?

A pergunta que surge de tudo isso é: se toda a geopolítica global se tornou uma teia de violência crua, por que nos incomoda a violência da Al-Shabaab, da Al-Qaeda e do tal Estado Islâmico enquanto ignoramos a da Arábia Saudita, dos Estados Unidos, da Europa e da Turquia, de onde emana a distopia? Por que vemos imundície completa nos massacres promovidos pelo "outro" imaginário, mas aceitamos que se varra para baixo do tapete a igualmente brutal violência daquele que identificamos como "um de nós"? Um palpite: por preguiça intelectual pré-condicionada. Porque estamos exageradamente condicionados a uma leitura não-racional do mundo.

A violência que nos impacta é a que vem de forma subjetiva e sensorial; é aquela que a gente vê, que tem cheiro, que tem lágrima desesperada. Se vier acompanhada de violino, ainda melhor. Choca aquela violência que é ressignificada pelo em nossa cabeça pela emoção e não pela razão. É óbvio que o Al-Shabaab não é o "outro"; a violência dele não está, de forma alguma, isolada deste mundo. Se ele para nós ele é o "outro", é de forma mistificada: estamos usando a existência do não-humano como parâmetro da nossa humanidade. E aí, necessitamos do "outro" como o Batman, aquele playboy fascista, precisa do lúmpen proto-anarquista Coringa. Precisa da desordem completa para justificar seu esforço paranoico-compulsivo de reorganização do mundo.

Por isso, criamos o "não-humano" o tempo inteiro.

Este longo texto pode parecer, mas não é insensível. É um apelo pelo compromisso com o potencial revolucionário da sensibilidade. Não basta que encontremos a melhor hashtag para expressar nossa solidariedade às vítimas do horror que assola a Somália. Precisamos buscar as raízes da nossa falta de compromisso com o estancamento do sangue. É só a partir daí, que conseguiremos enfrentar objetiva e intelectualmente a barbárie que nos é inerente.

Gabriel Rocha Gaspar é Jornalista e mestre em literatura pela Sorbonne Nouvelle Paris 3.

http://justificando.cartacapital.com.br/2017/10/17/o-que-extrema-violencia-na-somalia-pode-nos-ensinar-sobre-empatia/

Envenenamento em massa

O diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom, destacou o combate à obesidade na Conferência Mundial contra as doenças não-transmissíveis, que acontece até a próxima sexta-feira (20) em Montevidéu, no Uruguai.

Condições como o câncer e doenças cardiovasculares estão entre as mais letais doenças não-transmissíveis e estudos consistentes colocam a obesidade como um fator de risco para essas enfermidades.

Para Adhanom, "as empresas estão fazendo vista grossa" sobre a questão da obesidade. Ele defendeu a inserção de informações mais claras nos rótulos dos produtos, chamando a atenção para a alta taxa de açúcar.

"Em nome do livre comércio, nós permitimos que as empresas [alimentares] envenenem as pessoas. Em nome do entretenimento, as crianças assistem televisão e não brincam mais fora de casa", disse Adhanom.

"Quando tomaremos posição e pressionaremos os fabricantes desses produtos?", completou. De acordo com o diretor-geral, não se deve "fechar os olhos" para "os fabricantes que veem as crianças dos países pobres como uma oportunidade de mercado".

"Temos que ganhar as batalhas nas cozinhas, nos restaurantes e nos supermercados. Temos que ter coragem de promover essas políticas", completou.

https://g1.globo.com/bemestar/noticia/diretor-geral-da-oms-diz-que-empresas-alimentares-envenenam-pessoas-e-destaca-combate-a-obesidade.ghtml

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Suicídio do reitor ou da universidade livre?


 As universidades públicas brasileiras foram tomadas de estupor com o suicídio cometido pelo Dr. Luiz Carlos Cancellier Olivo, reitor da UFSC. A tragédia evidencia problemas éticos, científicos e políticos que marcam os tratos entre poder e conhecimento em nossa terra. O primeiro traço a chamar nossa memória encontra-se em algo que desagrega toda sociedade, em especial a reunida nos campi. Trata-se da abjeta delação que volta a ser empregada como instrumento repressivo por agentes do Estado, em setores midiáticos e na própria universidade. No caso em pauta, o estopim da crise reside numa delação contra o reitor. O dirigente foi preso e submetido ao escárnio público sem os mínimos requisitos de justiça, como o direito de ser ouvido antes de encarcerado. Os repressores e seus aliados da imprensa não se preocuparam um só instante com a sua honra e a dignidade do cargo por ele ocupado. Ele foi exposto à execração popular sem nenhuma prudência. Em país onde ocorrem a cada instante casos como o da Escola Base, os linchamentos reiteram a barbárie. 

Todos os pesquisadores e docentes que pensam e agem com prudência, recordam os procedimentos impostos à academia após o golpe de 1964. As cassações de funcionários, lentes, estudantes, anunciaram a posterior tortura, morte e aniquilação dos direitos. Delatores surgiram como cogumelos nas escolas de ensino superior, com os dedos em riste contra adversários ideológicos ou concorrentes bem sucedidos aos cargos, pesquisadores com maior notoriedade junto aos poderes públicos, à comunidade universitária mundial, ao público. O Livro Negro da USP traz relatos nauseantes de prática acusatória e anônima, na qual as baixezas emulavam a covardia. Quem foi delatado perdia tudo e foi tangido rumo às prisões ou exílio. O indigitado, não raro, era posto na "cadeira do dragão" e outros tormentos, após seguir o caminho de órgãos como o Dops em veículos oficiais, cedidos por dirigentes universitários ao aparato policial. 

De certo modo o Brasil, na ditadura e na aparente democracia atual, retoma a proeza que tornou infame parte da antiga democracia grega. Nela existiu uma lei, tida como exemplo de injustiça, que punia os "atimoi". Ao surgir um indivíduo com força para vencer eleições, os seus inimigos o acusavam de desvios comportamentais (por exemplo, de ter mantido relações eróticas com adultos, pagas por presentes). O candidato era destituído dos direitos cidadãos, condenado sem julgamento e passava a ser vítima dos piores abusos coletivos. Os processos registram em casos semelhantes: quem perdia assim os direitos, não tinha a sua culpa declarada pelos tribunais. Bastava a acusação, que trazia desconfiança, para definir a pena. Daí a tese de juristas nossos contemporâneos segundo a qual aquelas pessoas seriam na verdade apenados sem ter sido declarada sua culpa. Douglas M. MacDowell: (The Law in Classical Athens, Cornell Un. Press, 1978) diz que os acusados de prostituição deviam "evitar o exercício dos direitos de cidadania, ao serem tidos como "atimoi", pois eles seriam processados se ignorassem tal veto". A pena era a morte. Na dokimasia, exame para ingresso e saída dos cargos públicos, é assumido que "a atimia (perda dos direitos) pode caber como pena aos acusados de prostituição, mas só para os políticos, não para os cidadãos privados", segundo S.C. Todd (The Shape of Athenian Law, Oxford, Un. Press, 1993). Este "só" não tranquiliza, porque o grego é animal político. As penas de atimia também eram aplicadas aos magistrados que, sem deixar o cargo, não pagavam os seus débitos aos tribunais e à Assembleia. Também os cidadãos que, chamados para integrar o exército, não compareciam, eram submetidos à plena atimia. A honra e a desonra de um político eram entregues aos delatores, interessados na sua expulsão da cena pública. 

Na ditadura de 1964, os acusados eram tidos, ipso facto, como "sem honra", visto que tinham sido denunciados por "cidadãos honestos". Recordo o exemplo edificante de um indivíduo conservador, mas honesto, naqueles dias de bacanal acusatória. O bispo de Marília, Dom Hugo Bressane de Araújo, erudito especialista em Machado de Assis e pessoa facilmente ajustável "à direita", ao receber delatores que erguiam o dedo contra "comunistas" e "corruptos" pedia o seguinte: "o senhor (senhora) vá ao Cartório, escreva a sua denúncia, reconheça a firma e me envie, para que eu a estude". Desapareceram os acusadores anônimos da Cúria. Mas nem sempre autoridades religiosas e políticas, sobretudo as policiais, mantiveram tal retidão ética. E mesmo após o regime autoritário, a prática hedionda dos sicofantas se manteve. Ao ser reiterada em todos os ambientes, ela se transformou em ética cujo automatismo gera boa consciência nos desonestos. Afinal, imaginam, eles fazem tudo pelo bem do país ao denunciar, sem provas e sem fundamentos, os seus concorrentes, pares, adversários políticos ou ideológicos. Nos processos judiciais, a "delação premiada" corrói impedimentos éticos. Para garantir a diminuição de penas, a língua do prisioneiro articula frases cujo conteúdo, não raro, avança inverdades e calúnias. Quase todas a eles ditadas pelos proprietários do poder. 

Quando alguns procuradores da República, falando em nome de milhões mas sem mandato para tal múnus, apresentaram ao país as "Dez Medidas contra a Corrupção", fui chamado para a Comissão Especial da Câmara que analisava o projeto de lei resultante. Ali critiquei o uso dos delatores pagos – seu lucro, segundo o texto das Dez Medidas, seria de 5% sobre o butim amealhado – e recordei os sicofantas atenienses, genitores de todos os que delatam desde então. Ademais, indiquei o quanto era nociva a "sugestão" de armar processos a partir de provas ilícitas, mas elaboradas "de boa fé" (conferir o site oficial da Câmara dos Deputados: "Especialistas apontam falhas em medidas de combate à corrupção sugeridas pelo MP", 22/08/2016). 

Além do vício ético reunido no vocábulo "delator", usado e abusado para perseguir quem pensa de modo diferente ao costumeiro, com prisões espetaculares e reportagens idem, precisamos examinar a prática política no interior dos campi.  A Universidade Federal de Santa Catarina, a mesma do reitor falecido, tem uma história melancólica a ser exposta. Antes de indicar o caso concreto, uma premissa ética essencial. Se um reitor é alheio ao saber e ao ensino, e age tendo em vista os ditames do poder de Estado, ele representa apenas aquele poder no campus. Se traz para o interior da instituição universitária os interesses dos comprometidos de modo imediato com o poder (oligarquias, mercado, forças religiosas ou econômicas), ele é nocivo à universidade, pois na companhia daqueles interesses chegam a intolerância, ódio, falta de respeito aos outros, fanatismo. 

Na Universidade Federal de Santa Catarina, existiu durante longo tempo o vezo indicado acima. Tal procedimento trouxe para a instituição os mesquinhos interesses políticos do Estado federal, estadual, municipal. A rivalidade interna foi acrescida pelas técnicas empregadas para manter o controle da reitoria. Até data recente, nas eleições reitorais da UFSC, "todos os nomes sufragados pelas urnas pertenciam às forças políticas que vinham dirigindo a UFSC desde a sua criação e que mantinham com os governos militares uma convivência pacífica ou um apoio entusiasta (…) O processo eleitoral não possibilitou, portanto, como esperavam ou aspiravam as forças de oposição ao regime militar, neste caso as organizações dos docentes, servidores técnico-administrativos e estudantes, que grupos políticos não alinhados com as elites locais e nacionais pudessem ocupar os mais altos cargos da universidade" (Pedro Antonio Vieira, A armadilha das urnas: 20 anos de Eleições Diretas e de Continuísmo na UFSC, in Waldir José Rampinell (ed.): O preço do Voto. Os Bastidores de uma eleição para reitor. Florianópolis, Ed. insular, 2008). 

O costume viciado das delações, jungido aos interesses múltiplos presentes no campus, ajuda a compreender a morte do reitor. É tempo dos setores acadêmicos despertarem, antes que seja tarde, para a recusa das acusações sumárias, sem direito de defesa. É preciso, em nome da correta ética, impedir os delatores anônimos. Se tal coisa não for efetivada, logo voltaremos aos anos 60 ditatoriais, quando os sicofantas eram acarinhados pelo regime político, assumiam cargos que não mereciam, destruíam os vínculos de confiança e companheirismo que devem imperar na vida intelectual. Se os delatores não forem detidos e se continua a subserviência acadêmica aos poderes – Executivo, Legislativo, Judiciário e Mercado – logo todos os que não curvarem a cerviz aos inquisidores serão postos entre os "atimoi". A morte do reitor é um aviso sinistro. Saibamos aproveitá-lo.

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Chupa caretas otários

RIO - Substâncias psicodélicas são capazes de melhorar a plasticidade neural e as sinapses cerebrais, indica um estudo realizado por cientistas brasileiros e publicado ontem na revista "Scientific Reports", do grupo Nature. A pesquisa analisou um composto da família dimetiltriptamina (DMT), substância psicodélica encontrada em várias plantas. É ela, por exemplo, o princípio ativo da mistura do ayahuasca, chá utilizado em rituais do Santo Daime.

O composto em questão foi o 5-MeO-DMT. O grupo de pesquisadores pôs uma única dose desse psicodélico em contato com minicérebros — estruturas feitas com células-tronco que imitam cérebros humanos reais. O resultado foi que quase mil proteínas cerebrais mostraram alterações após serem expostas à substância. E proteínas importantes para a formação e a manutenção de sinapses estavam presentes em maior quantidade. Dentre elas, algumas envolvidas em fenômenos de aprendizado e memória, essenciais para o funcionamento do cérebro.

O Amanita muscaria é uma das espécies de cogumelo com efeitos alucinógenos
Cogumelo mágico é a droga recreativa mais segura, aponta estudo
Imagem mostra ativação de áreas do cérebro provocada por psicodélicosDrogas psicodélicas podem tratar Alzheimer e outras doenças mentais
— Nossos resultados ratificam o potencial clínico de substâncias banidas por questões políticas e que merecem total atenção da comunidade médica e científica — destaca o líder da pesquisa, Stevens Rehen, professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e diretor de Pesquisa do Instituto D'Or de Pesquisa e Ensino (IDOR).

 
O neurocientista ressalta que esta é a primeira vez que foi possível descrever alterações nas proteínas do tecido cerebral humano exposto a uma substância psicodélica.

— Tínhamos a expectativa da influência desse psicodélico [o 5-MeO-DMT] em vias metabólicas importantes do cérebro, mas os resultados superaram todas as nossas expectativas — conta Rehen.

Estudos recentes têm demonstrado que substâncias como LSD (dietilamida do ácido lisérgico), MDMA (metilenodioximetanfetamina) e DMT apresentam potencial terapêutico. Em particular, já era sabido que compostos da família da DMT estão relacionados à redução da resposta inflamatória e a efeitos antidepressivos.

Para desvendar os efeitos do composto 5-MeO-DMT sobre o cérebro, o time de pesquisadores mapeou quais proteínas foram alteradas e quais funções elas desempenham no cérebro humano. Além de uma melhor aprendizagem e memória, a conclusão a que os cientistas chegaram é que proteínas envolvidas com inflamação, degeneração e lesão cerebral foram encontradas em menor quantidade, indicando que esse composto é um neuroprotetor em potencial.

— Os resultados sugerem que psicodélicos clássicos são poderosos ativadores da plasticidade neural, uma ferramenta de transformação psicobiológica que apenas começamos a entender — comenta Sidarta Ribeiro, diretor do Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e coautor do estudo.

Rehen ressalta como o uso de minicérebros tem sido importante para o avanço das pesquisas nos últimos anos:

— Eles são avatares biológicos do cérebro humano. Seria impossível fazer esse tipo de estudo com pessoas vivas.


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Lula ladrão, roubou meu coração.

E foi desse jeito que o Lula, o homem que eu mais difamei me recebeu. Sou ansiosa e não consigo esperar pelas fotos oficiais, e para ser sincera esse post não é sobre fotos bonitas, mas sim sobre palavras sinceras e de escritas de coração.

Confesso que quando te vi, senti um frio na barriga. Não sabia como você iria reagir a toda situação. Passou de tudo na minha cabeça. Pensei que você não me receberia bem, ou sequer me receberia. Afinal eu fiz parte dos brasileiros hipócritas que te difamaram.

Mais uma fez, eu estava errada sobre você. Hoje foi a primeira vez que parei para te escutar, que te vi pessoalmente, e ao longo de toda a sua fala fiquei pensando como eu um dia fui contra uma pessoa que ajudou milhões de brasileiros a acessar a educação, que tirou o Brasil do mapa da fome. A hipocrisia cega, e eu fui cega durante anos.

Escutei diversas vezes, de homens machistas que lugar de mulher não é na política, e cheguei a acreditar nisso. E hoje, você, o ex presidente que mais fez pelo Brasil, olhou nos meus olhos e disse "você é forte". Acredite, eu jamais vou me esquecer desse momento. Jamais serei capaz de esquecer como você me olhou, como me abraçou e principalmente de como me deu forças para continuar.

Eu olhei nos seus olhos e te pedi desculpas. Porém sinto a necessidade de mais uma vez dizer: Me perdoa. Me perdoa por ter ido as ruas e ter sido a favor de um golpe. Me perdoe por compactuar com um governo que todos os dias retira os poucos direitos que resta do trabalhadores. Me perdoa por fazer o Brasil voltar para o mapa da fome. Me perdoe por colocar a nossa floresta Amazônica em jogo. Me perdoa por ter sido tola.

Eu tenho muita, mas muita certeza de que estou do lado certo. Lula seu ladrão, hoje mais do que nunca você roubou meu coração.

Com muito carinho, Patrícia Lélis.

http://www.diariodocentrodomundo.com.br/essencial/patricia-lelis-foi-desse-jeito-que-o-homem-que-eu-mais-difamei-me-recebeu/

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

ler para no morir

Foi abandonado, o mundo já não é maravilhoso. Como em um jet lag permanente, não consegue se conectar com a realidade que o envolve. Freud dizia que as palavras e a magia foram no princípio a mesma coisa. É por isso que continuamos procurando refúgio nos livros quando a vida nos prega uma brincadeira estúpida? Você, passageiro em momentos ruins, abre um romance e em suas páginas encontra algo parecido a um bote salva-vidas, um alívio balsâmico ao desassossego.

Os leitores vorazes sabem bem que as bibliotecas e as livrarias são uma panaceia eficaz à alma, como já se afirmava na Antiguidade. A ficção e a poesia, afirma a romancista Jeanette Winterson, são remédios que curam a ruptura que a realidade provoca em nossa imaginação. Como diz a máxima horaciana dulce et utile, nos ensinam prazerosamente. O eco das palavras, seu ritmo, e as imagens com uma grande carga emocional inundam e ativam os recônditos de nossa consciência. Quando lemos um texto literário inteligente e sedutor, o mundo se torna mais habitável.

Entre os benefícios de se ler ficção, o primeiro, por mais óbvio que pareça, é chegar a nos conhecer melhor. Proust, a quem hoje poucos negarão sua aptidão à ciência cognitiva, afirmava que cada leitor, quando lê, é o próprio leitor de si mesmo. Acrescentava que a obra do escritor não é mais do que uma espécie de instrumento ótico que este oferece ao outro para permitir-lhe discernir o que, sem esse livro, não seria capaz de ver por si mesmo. Entrar no universo dos romances é viver múltiplas vidas. Com um livro nas mãos se abre diante de nós um terreno para a experimentação de inúmeras circunstâncias. A biblioterapia é possível graças ao choque de identificação que se produz no leitor quando se vê refletido na história. Sentimos empatia por outras pessoas, outras formas de pensar. A leitura, além disso, é uma aventura intelectual trepidante. Para o Nobel de Literatura André Gide, ler um escritor não é só ter uma ideia do que ele diz, mas viajar com ele.

Ler nos coloca em um espaço intermediário: ao mesmo tempo em que deixamos em suspenso nosso eu, nos conecta com nossa essência mais íntima, um bem valioso para se manter certo equilíbrio nesses tempos de distração. A leitura, dizia María Zambrano, nos brinda com um silêncio que é um antídoto ao barulho que nos rodeia. Ela nos procura um estado prazeroso semelhante ao da meditação e nos traz os mesmos benefícios que o relaxamento profundo. Ao abrir um livro conquistamos novas perspectivas, pois a ficção divide com a vida sua essência ambígua e multifacetada. Uma vez que só podemos ler um número limitado de títulos, o que procuramos? Obras que reafirmem nossas crenças, ou façam com que essas balancem? Para Kafka era muito claro, só deveríamos nos adentrar nas obras que incomodam: "Um livro precisa ser um machado que abre um buraco no mar gelado de nosso interior".

FONTE: https://brasil.elpais.com/brasil/2017/10/09/cultura/1507563876_434538.html?id_externo_rsoc=FB_BR_CM

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Maior ladrão de livros do Brasil

Considerado pelas autoridades brasileiras o maior ladrão de livros raros do país, Laéssio Rodrigues de Oliveira entrou na minha vida em uma tarde de setembro de 2012, quando recebi uma ligação a cobrar vinda do complexo penitenciário de Bangu, na zona oeste da capital fluminense, com um pedido insólito: um exemplar da biografia de Carmen Miranda escrita por Ruy Castro. "Essa história toda começou por causa dela", resumiu.

O telefonema era uma resposta à primeira das dezenas de correspondências que trocaríamos ao longo das temporadas esparsas que Laéssio passaria em cadeias de São Paulo e do Rio de Janeiro. Desde 2004, ele já deu entrada cinco vezes no sistema prisional. Ao todo, contabiliza quase uma década atrás das grades, sempre acusado do mesmo crime: pilhar acervos de Norte a Sul do país à caça de todo tipo de papel antigo de alto valor.

O leque de obras furtadas atribuído a Laéssio impressiona pela raridade e pela variedade. Vai das fotografias do funeral de Dom Pedro 2º, inclui um dos primeiros atlas do Brasil feito por um cartógrafo holandês do século 17 e passa por primeiras edições autografadas por cânones da literatura nacional. O crème de la crème das obras roubadas, no entanto, são os originais de desenhos feitos por artistas como o francês Jean-Baptiste Debret e o alemão Johann Moritz Rugendas, que no século 19 viajaram o país para retratar paisagens e personagens do Brasil colonial. Hoje, um álbum completo de Debret, por exemplo, não sai por menos de US$ 300 mil. 

Na avaliação de Carlos Aguiar, procurador do Ministério Público Federal que conduziu as investigações de uma das duas ações que ainda correm contra Laéssio na Justiça Federal do Rio, sistemas de segurança falhos das bibliotecas, devido a orçamentos apertados, misturados com uma dose de desorganização das instituições, facilitaram os crimes.

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