Um livro é um mudo que fala, um surdo que responde, um cego que guia, um morto que vive. (Padre Antônio Vieira)

terça-feira, 12 de junho de 2018

Consultor do Vaticano é impedido de visitar Lula: “É um claro caso de perseguição política”

Juan Gabrois, consultor do Conselho de Justiça e Paz do Vaticano e coordenador do Encontro Mundial de Movimentos Sociais e Diálogo com o Papa Francisco, esteve na tarde desta segunda-feira (11), na sede da superintendência da Polícia Federal, em Curitiba, mas foi impedido de visitar Lula.

"Vim aqui com muita esperança, para trazer uma mensagem ao ex-presidente Lula e, lamentavelmente, de uma maneira inexplicável, fui informado por funcionários da superintendência da Polícia Federal que eu não poderia visitá-lo. Devo dizer que estou muito preocupado com essa situação, pois considero que estamos frente a um claro caso de perseguição política, onde há a deterioração da democracia nesse lindo país que é o Brasil", declarou Gabrois.

Segundo o emissário do Vaticano, o que mais o surpreendeu foi o argumento usado para não permitir o encontro: "Falaram que não se tratava de um encontro religioso. Mas, de acordo com a doutrina católica, todos os batizados têm uma missão, o que invalida esse argumento. Trouxe um rosário enviado pelo Papa Francisco e sua palavra. Além disso, vim disposto a debater questões espirituais com o ex-presidente Lula. Esta inexplicável negativai é parte, também, de um processo de degradação institucional, que acontece não só no Brasil, mas em diversos países da América Latina".

Gabrois disse que saía triste, "pois vim de muito longe para dialogar com uma pessoa querida por grande parte do povo latino-americano. Saio com esse sentimento de que algo mais está se passando, pois minha visita foi impedida por razões de natureza política. Já visitei presos em situações similares em vários países e nunca encontrei uma negativa dessa natureza. Saio triste, mas com esperança de que a justiça prevaleça", completou.

quinta-feira, 24 de maio de 2018

Nota da Associação dos Engenheiros da Petrobrás (AEPET)

Nota da Associação dos Engenheiros da Petrobrás (AEPET)

A Petrobrás adotou nova política de preços dos combustíveis, desde outubro de 2016, a partir de então foram praticados preços mais altos que viabilizaram a importação por concorrentes. A estatal perdeu mercado e a ociosidade de suas refinarias chegou a um quarto da capacidade instalada. A exportação de petróleo cru disparou, enquanto a importação de derivados bateu recordes. A importação de diesel se multiplicou por 1,8 desde 2015, dos EUA por 3,6. O diesel importado dos EUA que em 2015 respondia por 41% do total, em 2017 superou 80% do total importado pelo Brasil.

Ganharam os produtores norte-americanos, os "traders" multinacionais, os importadores e distribuidores de capital privado no Brasil. Perderam os consumidores brasileiros, a Petrobrás, a União e os estados federados com os impactos recessivos e na arrecadação. Batizamos essa política de "America first! ", "Os Estados Unidos primeiro!".

Diante da greve dos caminhoneiros assistimos, lemos e ouvimos, repetidamente na "grande mídia", a falácia de que a mudança da política de preços da Petrobrás ameaçaria sua capacidade empresarial. Esclarecemos à sociedade que a mudança na política de preços, com a redução dos preços no mercado interno, tem o potencial de melhorar o desempenho corporativo, ou de ser neutra, caso a redução dos preços nas refinarias seja significativa, na medida em que a Petrobrás pode recuperar o mercado entregue aos concorrentes por meio da atual política de preços. Além da recuperação do mercado perdido, o tamanho do mercado tende a se expandir porque a demanda se aquece com preços mais baixos.

A atual direção da Petrobrás divulgou que foram realizados ajustes na política de preços com o objetivo de recuperar mercado, mas até aqui não foram efetivos. A própria companhia reconhece nos seus balanços trimestrais o prejuízo na geração de caixa decorrente da política adotada.

Outra falácia repetida 24 horas por dia diz respeito a suposta "quebra da Petrobrás" em consequência dos subsídios concedidos entre 2011 e 2014. A verdade é que a geração de caixa da companhia neste período foi pujante, sempre superior aos US$ 25 bilhões, e compatível ao desempenho empresarial histórico.

Geração operacional de caixa, US$ bilhões

2011 2012 2013 2014 2015 2016 2017

33,03 27,04 26,03 26,60 25,90 26,10 27,11

A Petrobrás é uma empresa estatal e existe para contribuir com o desenvolvimento do país e para abastecer nosso mercado aos menores custos possíveis. A maioria da população quer que a Petrobrás atue em favor dos seus legítimos interesses, enquanto especuladores do mercado querem maximizar seus lucros de curto prazo.

Nossa Associação se solidariza aos consumidores brasileiros e afirma que é perfeitamente compatível ter a Petrobrás forte, a serviço do Brasil e preços dos combustíveis mais baixos e condizentes com a capacidade de compra dos brasileiros.


quarta-feira, 16 de maio de 2018

Por que a personalidade das pessoas muda (muitas vezes para pior) nas redes sociais?

Em uma tarde de fevereiro deste ano, a professora Mary Beard postou uma foto no Twitter chorando. A célebre historiadora da Universidade de Cambridge, que tem quase 200 mil seguidores na rede social, estava desolada: após fazer um comentário sobre o Haiti, ela foi vítima de uma avalanche de insultos. 

"Eu falo com o coração (e, é claro, posso estar errada). Mas o lixo que eu recebo como resposta, não é justo, realmente não é", tuitou. 

Nos dias que se seguiram, Beard recebeu o apoio de diversas personalidades - independentemente de concordarem ou não com sua postagem inicial. E várias dessas pessoas também viraram alvo de agressões. Quando uma das críticas de Beard, a acadêmica Priyamvada Gopal, de ascendência asiática, publicou um artigo online em resposta ao tuíte original da historiadora, também recebeu uma enxurrada de ataques. 

Mulheres e representantes de minorias étnicas são desproporcionalmente as maiores vítimas de abusos no Twitter, incluindo ameaças de morte e de violência sexual. No caso em que há o cruzamento de ambos os indicadores de identidade, o assédio moral pode se tornar ainda mais acentuado - como mostrou a parlamentar britânica negra Diane Abbott, que recebeu quase metade de todos os tuítes hostis enviados a deputadas mulheres durante a campanha para as eleições gerais de 2017 no Reino Unido. Em média, as parlamentares negras e asiáticas receberam 35% mais mensagens impróprias do que suas colegas brancas, mesmo excluindo Abbott do total.

sexta-feira, 27 de abril de 2018

Dallagnol e Moro ainda vestem fraldas na ciência do Direito

Sou professor titular de Física numa universidade pública (Universidade Estadual de Maringá-UEM) desde 2001 e docente e pesquisador há quase 30 anos. Sou especialista em história e epistemologia da ciência, educação científica, além de processos de ensino-aprendizagem e análise de discursos. Orientei mais de 250 alunos de graduação, especialização, mestrado, doutorado e pós-doutorado, além de professores in-service. Conto tudo isso, como preâmbulo, não para me gabar, mas para salientar que li milhares de páginas de alunos brilhantes, medianos e regulares em suas argumentações de pesquisa.

Dito isso, passo a analisar duas pessoas que compõem o imaginário mítico-heróico de nossa contemporaneidade nacional: Sérgio Moro e Deltan Dallagnol. Em relação ao primeiro, Moro, trabalhei ativamente para impedir, junto com um coletivo de outros colegas, para que não recebesse o título de Doutor honoris causa pela Universidade Estadual de Maringá. Moro tem um currículo péssimo: uma página no sistema Lattes (do CNPq – Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico ligado ao extinto MCT – Ministério da Ciência e Tecnologia). Lista somente 4 livros e 5 artigos publicados.

Mesmo sua formação acadêmica é estranha: mestrado e doutorado obtidos em três anos. Isso precisaria ser investigado, pois a formação mínima regulada pela CAPES-MEC (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Ministério da Educação) é de 24 meses para Mestrado e 48 meses para o Doutorado. Significa que "algo" ocorreu nessa formação apressada.. Que "algo" é esse, é necessário apurar com rigor jurídico.

Além de analisar a vida acadêmica de Moro para impedir que ele recebesse um título que não merecia, analisei também um trabalho seminal que ele traduziu: "O uso de um criminoso como testemunha: um problema especial", de Stephen S. Trott. Mostrei que Moro não entendeu nada do que traduziu sobre delação premiada e não seguiu nada das cautelas apresentadas pelos casos daquele artigo. 

Se seguirmos o texto de mais de 200 páginas da condenação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e guiando-me pela minha experiência em pesquisa qualitativa, análise de discurso e fenomenologia, notamos claramente que parte significativa do texto consiste em Moro tentar apagar suas digitais, sem sucesso, ao desdizer que agiu com imparcialidade.

Nestas páginas robustas lemos uma declaração clara de culpa: Moro considera a parte da defesa de Lula em menos de 1% do texto total! E dos mais de 900 parágrafos, somente nos cinco finais alinhava sua denúncia e sentença sem provas baseada num misto frankensteiniano de "explanacionismo" (uma "doutrina" jurídica personalíssima criada por Deltan Dallagnol) e "teoria do domínio do fato", ou seja, sentença exarada sobre ilações, somente. Aqui uso a minha experiência como professor e pesquisador: quando um estudante escreve um texto (TCC, monografia, dissertação, tese, capítulo de livro, livro, ensaio, artigo), considero o trabalho muito bom quando a conclusão é robusta e costura de forma clara e argumentativa as premissas, a metodologia e as limitações do modelo adotado de investigação.

Dissertações e teses que finalizam com duas ou três páginas demonstram uma análise rápida, superficial e incompetente. Estas reprovo imediatamente. Não quero investigadores apressados, superficiais! Se Moro fosse meu aluno, eu o teria reprovado com esta sentença ridícula e persecutória. Mal disfarçou sua pressa em liquidar sua vítima. Em relação a outro personagem, o também vendedor de palestras Deltan Dallagnol, há muito o que se dizer. Angariou um título de doutor honoris causa numa faculdade privada cujo dono está sendo processado por falcatruas que o MP deveria investigar. O promotor Dallagnol não seguiu uma única oitiva das testemunhas de defesa e acusação de Lula, além daquela do próprio ex-presidente.

Eu trabalho em pós-graduações stricto sensu de duas universidades públicas: uma em Maringá e outra em Ponta Grossa. Graças a isso fui contactado por meio de um coletivo para averiguar a dúvida sobre a compra por parte de Dallagnol de apartamentos do Programa Minha Casa Minha Vida em condomínio próximo à UEPG (Universidade Estadual de Ponta Grossa). Visitei os imóveis guiado por uma corretora e me dirigi ao Cartório de Registro de Imóveis da cidade. Após algumas semanas, a resposta: os dois apartamentos modestíssimos, destinados a gente pobre, tinham sido adquiridos pelo Promotor e estavam à venda com um lucro líquido em menos de um ano de aquisição de 135 mil reais.

Reuni o material e disponibilizei para a imprensa livre (aqui a matéria do DCM). O promotor teve que admitir que comprou os apartamentos para ganhar dinheiro na especulação imobiliária, sem resquícios de culpa ou de valores morais em ter adquirido imóveis destinados a famílias com renda de até R$ 6.500,00 (Deltan chegou a ganhar mais de R$ 80.000,00 de salários – além do teto constitucional, de cerca de R$ 35.000,00; e mais de R$ 220.000,00 em suas suspeitosas palestras).

Bom, analisando os discursos de Dallagnol, notamos claramente a carga de preconceito que o fez construir uma "doutrina" de nome exótico, o "explanacionismo", para obter a condenação de um acusado sem prova de crime. Chega a usar de forma cosmética uma teoria de probabilidade – o bayesianismo – que ele nem sequer conhece ao defender a relativização do conceito de prova: vale seu auto-de-fé a qualquer materialidade de prova, corrompendo os princípios basilares do Direito. Como meu aluno, ou candidato a uma banca de defesa, eu também o teria reprovado: apressado, superficial e sem argumentação lógica.

Resumindo: Dallagnol e Moro ainda vestem fraldas na ciência do Direito. São guiados por preconceitos e pela cegueira da política sobre o Jurídico. Quando tornei-me professor titular aos 38 anos, eu o fiz baseado numa obra maturada em dezenas e dezenas de artigos, livros, capítulos, orientações de estudantes e coordenações de projetos de pesquisa. Infelizmente, estes dois personagens de nossa República contemporânea seriam reprovados em qualquer universidade séria por apresentar teses tão esdrúxulas, pouco argumentativas e vazias de provas. Mas a "Justiça" brasileira está arquitetada sobre o princípio da incompetência, da vilania e do desprezo à Democracia.

Neste contexto, Moro e Dallagnol se consagram como "heróis" de papel que ficariam muito bem sob a custódia de um Mussolini ou de Roland Freisler, que era o presidente do Volksgerichtshof, o Tribunal Popular da Alemanha nazista. Estamos sob o domínio do medo e do neo-integralismo brasileiro.

Marcos César Danhoni Neves é professor titular da Universidade Estadual de Maringá e autor do livro "Do Infinito, do Mínimo e da Inquisição em Giordano Bruno", entre outras obras

terça-feira, 24 de abril de 2018

Bom dia, Presidente!

Como se enxugasse gelo

Há dezesseis dias, Lula é um preso político do Estado de exceção que tomou o Brasil.

O resultado prático desta prisão, contudo, não foi bem avaliada nem pelo judiciário, nem pelos opositores políticos de Lula. O tão abominado "jeitinho" brasileiro, marca por muitos anos dos nossos políticos, agora é usado pela Justissa em sua cruzada moralista contra a esquerda. Mostra, pois, que qualquer crítica a este nosso traço cultural é apenas preconceito. Desde o primeiro grau, até Carmem Lúcia, a prisão de Lula foi concertada unicamente a partir do princípio do "eu posso, eu faço". Desde a falta de provas, apresentações espalhafatosas para a mídia, vazamentos ilegais até a decisão vergonhosa dos três desembargadores de Porto Alegre, havia ainda, internacionalmente, um fio de respeito pelas instituições brasileiras. Diversos jornais e analistas estrangeiros se postavam com cuidado para falar do tema. Era sim, o processo brasileiro, eivado de irregularidades e claramente político, mas era custoso ao mundo ocidental olhar para o Brasil e ver a história da Europa recontada. Tudo na lava a jato é semelhante às perseguições dos tribunais nazistas e fascistas. O Velho Mundo não estava preparado para aceitar que o fascismo estava de volta, e pelas mãos dos (supostamente) mais "educados" e "cultos".

A lava a jato perdeu de vez a luta pela narrativa internacional a partir do "jeitinho" de Carmem Lúcia, denunciado ao vivo em plenário por Marco Aurélio, Gilmar Mendes e Celso de Mello, em pautar o julgamento ao invés das ações de questionamento constitucional. Ficou ainda mais evidente a imensa diferença de capacidade técnica entre a procuradora-geral e os advogados de defesa. Aos observadores internacionais ficava patente que não havia sequer o convencimento institucional da culpa de Lula. E os que ali estavam a defender isto eram, ainda, péssimos atores. O desespero de Sérgio Moro, atropelando ritos e etapas formais do direito, para mandar prender Lula, lembra o estado de ejaculação precoce de adolescentes. Moro viu uma canela, um decote e não se aguentou. Aos observadores internacionais, que aprenderam que o Direito é composto igualmente por forma e conteúdo, as ações de Moro foram outra evidência de que a fascista lava a jato não tinha qualquer legalidade.

Lula se deu ao cárcere. Apesar da resignação incontida e brilhante de São Bernardo do Campo.

Na última semana, a Justissa brasileira vem perdendo ainda mais licitude. Uma juíza, cuja legitimidade resta inteiramente num concurso com três provas, achou por bem barrar um prêmio Nobel da Paz em seu intento de visitar Lula. Do alto do conhecimento social e histórico acumulado pela Juíza para passar em seu concurso, ela acreditou que não apenas proibir as visitas, mas espezinhar Pérez Esquivel seria uma boa mensagem da Justissa brasileira para o mundo. "O problema é dele" teria dito a juíza ao negar Esquivel e Boff. A foto de Leonardo Boff, com sua bengala e barbas brancas, sentado à frente do calabouço que enfiaram Lula, na República de Curitiba, é um míssil nuclear sobre o que restava de confiança na Justissa deste país.

Hoje, ao mesmo tempo que surgem outras notícias a respeito de mais negativas dada pela juíza a senadores, personalidades internacionais, candidatos à presidência, de dentro do calabouço aparecem narrativas redentoras. Policiais que têm contato diário com Lula publicam que, em quinze dias com o presidente, começam a "ter dúvidas" sobre a vilania do preso político. Um policial inclusive, relata que Lula é simples, educado e atencioso com todos. Este mesmo policial menciona que tinha "certeza" da culpa de Lula e hoje não tem mais.

Os resultados dos 16 dias de prisão política de Lula são assustadores, do ponto de vista interno e internacional. Internamente o Partido dos Trabalhadores assiste a uma onda de filiações que, em números relativos, supera os melhores momentos da presidência de Lula. A esquerda brasileira parece finalmente ter entendido que a união é o único caminho e até Ciro Gomes, vejam só, assina pedido de visita ao ex-presidente. Jovens trabalhadores pelo país inteiro mandam vídeos de apoio a Lula, cartas inundam o calabouço onde está preso. A vigília do acampamento à frente grita toda manhã "Bom dia presidente!", ao que fontes confiáveis dizem que Lula, com lágrimas nos olhos responde: "Bom dia meu povo"!.

Lula arrebenta o judiciário brasileiro. O MP racha e surgem grupos a assinar manifestações contra a flagrante prisão política. Os bravos magistrados da Associação de Juízes pela Democracia fazem o que a vergonhosa OAB de Lamachia se furta covardemente de fazer. Não surpreende a quem conhece a trajetória do presidente da OAB no RS. Advogados são desrespeitados em todo o país, o próprio Direito perde sua consistência e encontra na AJD a voz que a OAB trocou por rompantes políticos. Lula preso desmascara o "jeitinho" do STF, o populismo punitivista com "pitadas de psicopatia" de Barroso, Fux e Fachin. Lula preso, mostra que a Rosa foi sim vencida pelos canhões. E isto tudo via Twitter.

Como se não bastasse, surgem evidências de que a Odebrecht teria pago Cunha para sabotar Dilma. O Karma veio imediato, a empresa foi destruída e o neto do fundador preso. Aécio, que ombreia na adolescência com Moro, descobriu como é duro e custoso acabar com a democracia. Se não foi o "primeiro a ser comido", já está sendo cozinhado em fogo brando, juntamente com a desprotegida irmã. O MTST invade o famoso "muquifo do Guarujá" e mostra que as notas das "reformas" e "melhorias", usadas por Moro para tentar chegar a um montante crível de corrupção, são falsas. O apartamento é mal construído, mal pensado e com acabamentos que nenhum pedreiro, com um mínimo de competência, faria pior. O famoso elevador se resume a uma portinhola que este que vos escreve pensa não conseguiria entrar.

Mas o pesadelo não terminou. Temer, acossado cada vez mais internamente por sua conhecida trajetória com desconhecidas transações e empresas, não ganhou um milímetro de apoio interno ou internacional. As exportações brasileiras caem para a União Europeia ou são até proibidas. E para o observador desatento as desculpas dadas pelos europeus parecem "técnicas", mas são no exato modelo das condenações da lava a jato. O recado é claro, a cruzada moralista de Moro e seu culto de adoradores continuam a fazer mal ao Brasil, principalmente para a sua economia.

Nenhum candidato da direita tem chance no pleito que se segue. O primeiro colocado é Lula, que preso já ganha no primeiro turno. O próximo mais votado é "quem Lula indicar", segundo as pesquisas. O terceiro mais votado é um tal de "brancos e nulos", caso Lula seja proibido e decida não legitimar as eleições. O quarto mais votado é o mundialmente reconhecido "perigo para a Democracia", Jair Bolsonaro. Que recentemente descobriu que pode recuperar a economia brasileira explorando o leite de ornitorrinco da Amazônia.

Por qualquer ângulo que se veja a prisão de Lula, ela está sendo brutalmente devastadora para a Justissa brasileira. E, enquanto Moro for tomado como Sua Santidade do judiciário, todo este poder continua afundando. Não tardará para que o Legislativo exerça sua histórica revanche. Em menos de cinco anos diversas leis contra o poder e mordomias do judiciário serão silenciosamente aprovadas. E Moro terminará numa vara a julgar pensões e aposentadorias do INSS. Bem longe dos holofotes. O que será devastador para seu inflado ego.

Uma das mais odiosas formas de tortura e punição medieval era o "emparedamento". O prisioneiro era preso com correntes junto a um muro e outro muro de pedras era erigido na sua frente. Virtualmente se apagava o sofredor da vida material, não deixando sequer vestígios de sua existência material. A lava a jato tentou, mas é Lula quem empareda a Justissa brasileira. Prender Lula é como tentar enxugar gelo.

Bom dia, Presidente!

sexta-feira, 20 de abril de 2018

O Brasil real

A vitória de Gleici Damasceno, ontem no BBB 18, foi a vitória do Brasil Real sobre o país virtual.

 

Há um Brasil virtual, que se manifesta com especial voracidade nas redes sociais. 

 

Junto com Indonésia e Índia, o Brasil completa o grupo de países em desenvolvimento que superam em número de conectados as estatísticas dos países desenvolvidos. 

 

Excluindo-se os EUA, qualquer país desenvolvido entende ser uma perda de tempo e neurônios o uso de redes sociais. 

 

Preferem viver o mundo real ao invés de longe dele, distante, isolado em uma bolha onde você escolhe quem entra na sua vida, quem sai dela, aceita ou não solicitações de amizade, exibe de sua vida apenas o que quer. Escreve e dirige o roteiro do seu show, do seu próprio Big Brother Brasil. Um mundo seguro e sem acidentes, onde o acaso e o devir não têm vez.

 

O brasileiro que vive dentro bolha das redes sociais tem a ilusão de que nosso país é uma coisa que não é.

 

Exemplos: 

 

Quem acompanha as fotos dos outros em redes sociais, pensa que todo mundo é feliz. E que somos um país fitness, onde a maioria têm o abdômen definido e o mínimo de gordura no corpo.

 

Quem vê a lista dos youtubers brasileiros de sucesso pensa que não há negros no Brasil.

 

Quem vive em nossas redes sociais, pensa que o sonho de todo e qualquer brasileiro é viajar exclusivamente para os EUA e a Europa.

 

E de que que somos todos, absolutamente todos, anti-petistas e a fãs da figura exótica de Jair Bolsonaro.

 

Quem vive em nossas redes sociais, pensa que brasileiro não acorda cedo pra trabalhar, pega trem e ônibus pra chegar no serviço (confira você mesmo quantas pessoas não escrevem "Estou no busão" nas suas timelines), não passa o dia ralando no corre a ponto de... não ter tempo para redes sociais.

 

Quem vive nesse país onde aparentemente todos têm o luxo de ter tempo para viver nas redes sociais, conclui que a TV vai acabar. Que a TV aberta, principalmente a aberta, é coisa de gente brega e ultrapassada.

 

Quem vive na bolha, acha que o artista está com os dias contados. Que o mundo será é dos influenciadores digitais.

 

E assim, os usuários de redes sociais, presos em sua própria auto-ficção, no seu próprio BBB, vivem. 

 

Vivem?

 

Pois então. Milagres como Gleici Damasceno e, ironicamente, ferramentas como a TV aberta e, para lá da ironia, um programa que confina participantes em um mundo virtual, apresenta-lhes, enfim, a vida real. 

 

O país que de fato existe aqui fora.

 

Semana passada, confirmou-se em pesquisa do Datafolha que a maioria dos Brasileiros votariam hoje em Luís Inácio Lula da Silva. Que Bolsonaro é um fenômeno atípico, com a popularidade, em números, que desfrutava a rinoceronte Cacareco, candidata nas eleições municipais de São Paulo, em 1959.   

 

E ontem, no BBB, Gleici aconteceu. Acreana. A jovem que sonha em conhecer a África. A militante de esquerda. Como Marielle Franco, outra jovem com coragem suficiente para superar a toda a indução à anti-política que sofremos tornar-se veradora, e lutar a luta que todos os dias nos tentam convencer ser inglória.

 

O fenômeno anti-político é ainda mais perigoso do que o fascismo, justamente por, entre outras coisas, abrir portas para ele.

 

No país da bolha das redes sociais, há o militante menos corajoso, geralmente bem nascido nos grandes centros, que decidiu entrar para a política surfando na marola conservadora militando confortavelmente nos teclados e nos videos de YouTube. Adora fazer piadas com lugares como o Acre, dizendo que ele não existe.

 

Mas há os como Gleici e Marielle, que nasceram e viveram em periferias, e que resolveram de fato desafiar o poder (a milícia no Rio no caso de uma, a questão dos latifundiários do norte do país no caso de outra, a questão feminista no caso de ambas).

 

Um jovem vive o Brasil virtual, fotoshopado. Tem, lá dentro, o seu sucesso, e lá vive, sem ver nem viver o mundo aqui fora. O outro jovem, vive o real. 

 

Um, vive de treta de tweet. Outro, de trabalhar em dobro para honrar uns trocados e comprar o livro que o professor da faculdade indicou, chega correndo do trabalho e relaxa uma horinha jantando e vendo sua novela.

 

Trago novidades: a maioria dos brasileiros vive no Brasil real. A maioria vive fora da bolha. É que, como na Indonésia e na Índia, quem vive na bolha, vive apenas dentro dela. Logo, quem está dentro do invólucro virtual, acha-se não só maioria, mas serem os únicos que existem sob o sol.

 

Que existem nesse invólucro que os diz o tempo inteiro o que fazer. Onde tudo é controle através do medo: durma cedo, não conteste o valor do teu salário, não saia de casa, compre online, acredite nas notícias que te enviam pelo whatsapp, você está certo e todos estão errados...

 

A principal sensação que senti ao ir ao Acre palestrar na UFAC (Universidade Federal do Acre), foi a de estar fora da bolha, foi justamente a de estar mais perto do Brasil.

 

De que o Acre não é longe do Brasil. O Rio de Janeiro é que é.

 

E de que nós, ai de nós, isolados nos centros, estamos, sempre estivemos, longe de nosso país. Ai de nosso país.

 

Mas, na noite de ontem, por voto popular, pela tão machucada vontade popular, Gleici aconteceu.

 

E, ao menos por uma noite, estivemos um pouco menos distantes de nós mesmos.

(FOTO: Reprodução/BBB)

quinta-feira, 19 de abril de 2018

A direita vulgar

Recuso-me a chamar de extrema-direita um movimento que tem, em sua maioria, adolescentes rebeldes, influenciados por um programa de comédia chulo da TV aberta, que cansaram de ouvir os pais reclamarem. Recuso-me a chamar de extrema-direita, um movimento encabeçado por comediantes incompetentes, ex-atores de filmes pornôs e um velho de boca suja. Prefiro chamar de "direita vulgar", vem muito mais a calhar.

A extrema-direita tem um ingrediente que jamais será encontrado nessa direita vulgar: o nacionalismo. Vemos as manifestações dos europeus indignados com a enxurrada de imigrantes despertarem esse sentimento perigoso, já aqui, essa direita defende o entreguismo e a economia de mercado.

Esse movimento que busca lucrar politicamente usando e molestando uma gente desiludida com os rumos da modernidade (único aspecto em comum com a extrema-direita tradicional), inventa problemas que não são capazes de atender as necessidades reais pelos quais esses pobres coitados passam. Assim, se fazem de vítimas da modernidade, ou do que chamam de "politicamente correto". Enriquecem vendendo "guias do politicamente incorreto". A "desgraça desse país" como diz o deputado federal Jair Bolsonaro, "é o politicamente correto", uma doutrinação, segundo ele, que ensinou o povo a não se responsabilizar pelos seus atos.

Na verdade esse é de fato o discurso da direita vulgar. Ela diz para todo mundo ouvir: "Agora não se pode falar mais nada!"; "O policial é vítima da criminalidade"; "O branco é vítima de um sistema de cotas raciais"; "Essa heterofobia!"; "A criança é levada hoje em dia porque não se pode mais bater"; "O Brasil tá assim por causa do político ladrão"; "O mundo é uma merda por causa da esquerda"; "a mulher não quer mais cuidar da casa" etc.. Enfim, o maior vitimismo é o proferido pela direita vulgar. Ela nunca se responsabiliza. Parece que são seres fora da sociedade, indivíduos que não possuem parcela nenhuma de culpa das condições sociais claudicantes. Para eles "o inferno são os outros".

É a estratégia retórica da dissimulação. Eu acuso o outro de fazer o que na verdade sou eu o praticante de tal gesto. É a traição mais clássica, uma cena arrancada de um filme qualquer, onde um amigo trai o outro acusando-o de roubar um pedaço de biscoito depois de ele mesmo ter mastigado e engolido.

É esquizofrênico porque não existe nada disso. Nunca fomos tão livres expressivamente falando. O fato de não haver mais tolerância para o discurso nazista, de ódio, contrário à liberdade de expressão, não é o problema, pelo contrário.

O que essa direita faz é uma autofagia, uma forma de incompatibilidade discursiva. Nós aqui usamos a retorsão para compreender a retorsão usada por esses ideólogos. Segundo Chaim Perelman e Lucie Olbrechts-Tyteca, essa estratégia argumentativa, que na Idade Média era chamada de redarguitio elenchica, "é um argumento que tende a mostrar que o ato empregado para atacar uma regra é incompatível com o princípio que sustenta esse ataque". A direita vulgar usa o mesmo princípio que critica para sustentar as suas denúncias e fomentar o seu discurso de ódio. Ou seja, sua crítica é incompatível. Na verdade, "pressupõe-se um princípio que se rejeita, mas a estrutura do argumento é a mesma".1

Ao criticar que o politicamente correto pretendia criar uma ideologia vitimista, a própria direita se põe vítima da "ditadura do politicamente correto". O pastor Malafaia, em um encontro com Alckmin e Doria, disse sobre a suposta "ideologia de gênero": "Como a maioria num Estado de direito, vamos nos fazer prevalecer e isso é inegociável […] Quem quiser fazer graça com o politicamente correto vai embora, segue aí o seu caminho".2

Lógico que são conflitos superficiaisque, no fundo, tanto o politicamente correto quanto o politicamente incorreto são formas moralistas e ideológicas que tem o objetivo de nos cegar, de nos iludir, para que assim desprezemos as condições reais de existência. São explicações fantasmagóricas para questões materiais, sensíveis. No fim, os dois pólos dessa discussão infrutífera gera imensos lucros para a imprensa e para a indústria cultural, além de criar um inimigo vulgar para as esquerdas, abrindo espaço político para a verdadeira direita (PSDB, DEM, MDB etc.)

É exatamente como dizem Deleuze e Guatarri: "o que queremos dizer é que o capitalismo, no seu processo de produção, produz uma formidável carga esquizofrênica sobre a qual faz incidir todo o peso da sua repressão, mas não deixa de se reproduzir no limite do processo".3 O capitalismo vai produzindo esquizofrênicos que permitem a reprodução do sistema, pois vivem a pensar nas alucinações que ele produz, nunca nas suas bases vitais.

1 PERELMAN, Chaïm e OLBRECHTS-TYTECA, Lucie, Tratado de Argumentação: a nova retórica. Trad: Maria Ermantina de Almeida Prado Galvão, São Paulo: Martins Fontes, 2005. p. 232.

3 DELEUZE, Gilles e GUATTARI, Fêlix. O anti-édipo: capitalismo e esquizofrenia. Lisboa: Assírio e Alvim, 1972. p. 38.


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