Um livro é um mudo que fala, um surdo que responde, um cego que guia, um morto que vive. (Padre Antônio Vieira)

terça-feira, 24 de abril de 2018

Bom dia, Presidente!

Como se enxugasse gelo

Há dezesseis dias, Lula é um preso político do Estado de exceção que tomou o Brasil.

O resultado prático desta prisão, contudo, não foi bem avaliada nem pelo judiciário, nem pelos opositores políticos de Lula. O tão abominado "jeitinho" brasileiro, marca por muitos anos dos nossos políticos, agora é usado pela Justissa em sua cruzada moralista contra a esquerda. Mostra, pois, que qualquer crítica a este nosso traço cultural é apenas preconceito. Desde o primeiro grau, até Carmem Lúcia, a prisão de Lula foi concertada unicamente a partir do princípio do "eu posso, eu faço". Desde a falta de provas, apresentações espalhafatosas para a mídia, vazamentos ilegais até a decisão vergonhosa dos três desembargadores de Porto Alegre, havia ainda, internacionalmente, um fio de respeito pelas instituições brasileiras. Diversos jornais e analistas estrangeiros se postavam com cuidado para falar do tema. Era sim, o processo brasileiro, eivado de irregularidades e claramente político, mas era custoso ao mundo ocidental olhar para o Brasil e ver a história da Europa recontada. Tudo na lava a jato é semelhante às perseguições dos tribunais nazistas e fascistas. O Velho Mundo não estava preparado para aceitar que o fascismo estava de volta, e pelas mãos dos (supostamente) mais "educados" e "cultos".

A lava a jato perdeu de vez a luta pela narrativa internacional a partir do "jeitinho" de Carmem Lúcia, denunciado ao vivo em plenário por Marco Aurélio, Gilmar Mendes e Celso de Mello, em pautar o julgamento ao invés das ações de questionamento constitucional. Ficou ainda mais evidente a imensa diferença de capacidade técnica entre a procuradora-geral e os advogados de defesa. Aos observadores internacionais ficava patente que não havia sequer o convencimento institucional da culpa de Lula. E os que ali estavam a defender isto eram, ainda, péssimos atores. O desespero de Sérgio Moro, atropelando ritos e etapas formais do direito, para mandar prender Lula, lembra o estado de ejaculação precoce de adolescentes. Moro viu uma canela, um decote e não se aguentou. Aos observadores internacionais, que aprenderam que o Direito é composto igualmente por forma e conteúdo, as ações de Moro foram outra evidência de que a fascista lava a jato não tinha qualquer legalidade.

Lula se deu ao cárcere. Apesar da resignação incontida e brilhante de São Bernardo do Campo.

Na última semana, a Justissa brasileira vem perdendo ainda mais licitude. Uma juíza, cuja legitimidade resta inteiramente num concurso com três provas, achou por bem barrar um prêmio Nobel da Paz em seu intento de visitar Lula. Do alto do conhecimento social e histórico acumulado pela Juíza para passar em seu concurso, ela acreditou que não apenas proibir as visitas, mas espezinhar Pérez Esquivel seria uma boa mensagem da Justissa brasileira para o mundo. "O problema é dele" teria dito a juíza ao negar Esquivel e Boff. A foto de Leonardo Boff, com sua bengala e barbas brancas, sentado à frente do calabouço que enfiaram Lula, na República de Curitiba, é um míssil nuclear sobre o que restava de confiança na Justissa deste país.

Hoje, ao mesmo tempo que surgem outras notícias a respeito de mais negativas dada pela juíza a senadores, personalidades internacionais, candidatos à presidência, de dentro do calabouço aparecem narrativas redentoras. Policiais que têm contato diário com Lula publicam que, em quinze dias com o presidente, começam a "ter dúvidas" sobre a vilania do preso político. Um policial inclusive, relata que Lula é simples, educado e atencioso com todos. Este mesmo policial menciona que tinha "certeza" da culpa de Lula e hoje não tem mais.

Os resultados dos 16 dias de prisão política de Lula são assustadores, do ponto de vista interno e internacional. Internamente o Partido dos Trabalhadores assiste a uma onda de filiações que, em números relativos, supera os melhores momentos da presidência de Lula. A esquerda brasileira parece finalmente ter entendido que a união é o único caminho e até Ciro Gomes, vejam só, assina pedido de visita ao ex-presidente. Jovens trabalhadores pelo país inteiro mandam vídeos de apoio a Lula, cartas inundam o calabouço onde está preso. A vigília do acampamento à frente grita toda manhã "Bom dia presidente!", ao que fontes confiáveis dizem que Lula, com lágrimas nos olhos responde: "Bom dia meu povo"!.

Lula arrebenta o judiciário brasileiro. O MP racha e surgem grupos a assinar manifestações contra a flagrante prisão política. Os bravos magistrados da Associação de Juízes pela Democracia fazem o que a vergonhosa OAB de Lamachia se furta covardemente de fazer. Não surpreende a quem conhece a trajetória do presidente da OAB no RS. Advogados são desrespeitados em todo o país, o próprio Direito perde sua consistência e encontra na AJD a voz que a OAB trocou por rompantes políticos. Lula preso desmascara o "jeitinho" do STF, o populismo punitivista com "pitadas de psicopatia" de Barroso, Fux e Fachin. Lula preso, mostra que a Rosa foi sim vencida pelos canhões. E isto tudo via Twitter.

Como se não bastasse, surgem evidências de que a Odebrecht teria pago Cunha para sabotar Dilma. O Karma veio imediato, a empresa foi destruída e o neto do fundador preso. Aécio, que ombreia na adolescência com Moro, descobriu como é duro e custoso acabar com a democracia. Se não foi o "primeiro a ser comido", já está sendo cozinhado em fogo brando, juntamente com a desprotegida irmã. O MTST invade o famoso "muquifo do Guarujá" e mostra que as notas das "reformas" e "melhorias", usadas por Moro para tentar chegar a um montante crível de corrupção, são falsas. O apartamento é mal construído, mal pensado e com acabamentos que nenhum pedreiro, com um mínimo de competência, faria pior. O famoso elevador se resume a uma portinhola que este que vos escreve pensa não conseguiria entrar.

Mas o pesadelo não terminou. Temer, acossado cada vez mais internamente por sua conhecida trajetória com desconhecidas transações e empresas, não ganhou um milímetro de apoio interno ou internacional. As exportações brasileiras caem para a União Europeia ou são até proibidas. E para o observador desatento as desculpas dadas pelos europeus parecem "técnicas", mas são no exato modelo das condenações da lava a jato. O recado é claro, a cruzada moralista de Moro e seu culto de adoradores continuam a fazer mal ao Brasil, principalmente para a sua economia.

Nenhum candidato da direita tem chance no pleito que se segue. O primeiro colocado é Lula, que preso já ganha no primeiro turno. O próximo mais votado é "quem Lula indicar", segundo as pesquisas. O terceiro mais votado é um tal de "brancos e nulos", caso Lula seja proibido e decida não legitimar as eleições. O quarto mais votado é o mundialmente reconhecido "perigo para a Democracia", Jair Bolsonaro. Que recentemente descobriu que pode recuperar a economia brasileira explorando o leite de ornitorrinco da Amazônia.

Por qualquer ângulo que se veja a prisão de Lula, ela está sendo brutalmente devastadora para a Justissa brasileira. E, enquanto Moro for tomado como Sua Santidade do judiciário, todo este poder continua afundando. Não tardará para que o Legislativo exerça sua histórica revanche. Em menos de cinco anos diversas leis contra o poder e mordomias do judiciário serão silenciosamente aprovadas. E Moro terminará numa vara a julgar pensões e aposentadorias do INSS. Bem longe dos holofotes. O que será devastador para seu inflado ego.

Uma das mais odiosas formas de tortura e punição medieval era o "emparedamento". O prisioneiro era preso com correntes junto a um muro e outro muro de pedras era erigido na sua frente. Virtualmente se apagava o sofredor da vida material, não deixando sequer vestígios de sua existência material. A lava a jato tentou, mas é Lula quem empareda a Justissa brasileira. Prender Lula é como tentar enxugar gelo.

Bom dia, Presidente!

sexta-feira, 20 de abril de 2018

O Brasil real

A vitória de Gleici Damasceno, ontem no BBB 18, foi a vitória do Brasil Real sobre o país virtual.

 

Há um Brasil virtual, que se manifesta com especial voracidade nas redes sociais. 

 

Junto com Indonésia e Índia, o Brasil completa o grupo de países em desenvolvimento que superam em número de conectados as estatísticas dos países desenvolvidos. 

 

Excluindo-se os EUA, qualquer país desenvolvido entende ser uma perda de tempo e neurônios o uso de redes sociais. 

 

Preferem viver o mundo real ao invés de longe dele, distante, isolado em uma bolha onde você escolhe quem entra na sua vida, quem sai dela, aceita ou não solicitações de amizade, exibe de sua vida apenas o que quer. Escreve e dirige o roteiro do seu show, do seu próprio Big Brother Brasil. Um mundo seguro e sem acidentes, onde o acaso e o devir não têm vez.

 

O brasileiro que vive dentro bolha das redes sociais tem a ilusão de que nosso país é uma coisa que não é.

 

Exemplos: 

 

Quem acompanha as fotos dos outros em redes sociais, pensa que todo mundo é feliz. E que somos um país fitness, onde a maioria têm o abdômen definido e o mínimo de gordura no corpo.

 

Quem vê a lista dos youtubers brasileiros de sucesso pensa que não há negros no Brasil.

 

Quem vive em nossas redes sociais, pensa que o sonho de todo e qualquer brasileiro é viajar exclusivamente para os EUA e a Europa.

 

E de que que somos todos, absolutamente todos, anti-petistas e a fãs da figura exótica de Jair Bolsonaro.

 

Quem vive em nossas redes sociais, pensa que brasileiro não acorda cedo pra trabalhar, pega trem e ônibus pra chegar no serviço (confira você mesmo quantas pessoas não escrevem "Estou no busão" nas suas timelines), não passa o dia ralando no corre a ponto de... não ter tempo para redes sociais.

 

Quem vive nesse país onde aparentemente todos têm o luxo de ter tempo para viver nas redes sociais, conclui que a TV vai acabar. Que a TV aberta, principalmente a aberta, é coisa de gente brega e ultrapassada.

 

Quem vive na bolha, acha que o artista está com os dias contados. Que o mundo será é dos influenciadores digitais.

 

E assim, os usuários de redes sociais, presos em sua própria auto-ficção, no seu próprio BBB, vivem. 

 

Vivem?

 

Pois então. Milagres como Gleici Damasceno e, ironicamente, ferramentas como a TV aberta e, para lá da ironia, um programa que confina participantes em um mundo virtual, apresenta-lhes, enfim, a vida real. 

 

O país que de fato existe aqui fora.

 

Semana passada, confirmou-se em pesquisa do Datafolha que a maioria dos Brasileiros votariam hoje em Luís Inácio Lula da Silva. Que Bolsonaro é um fenômeno atípico, com a popularidade, em números, que desfrutava a rinoceronte Cacareco, candidata nas eleições municipais de São Paulo, em 1959.   

 

E ontem, no BBB, Gleici aconteceu. Acreana. A jovem que sonha em conhecer a África. A militante de esquerda. Como Marielle Franco, outra jovem com coragem suficiente para superar a toda a indução à anti-política que sofremos tornar-se veradora, e lutar a luta que todos os dias nos tentam convencer ser inglória.

 

O fenômeno anti-político é ainda mais perigoso do que o fascismo, justamente por, entre outras coisas, abrir portas para ele.

 

No país da bolha das redes sociais, há o militante menos corajoso, geralmente bem nascido nos grandes centros, que decidiu entrar para a política surfando na marola conservadora militando confortavelmente nos teclados e nos videos de YouTube. Adora fazer piadas com lugares como o Acre, dizendo que ele não existe.

 

Mas há os como Gleici e Marielle, que nasceram e viveram em periferias, e que resolveram de fato desafiar o poder (a milícia no Rio no caso de uma, a questão dos latifundiários do norte do país no caso de outra, a questão feminista no caso de ambas).

 

Um jovem vive o Brasil virtual, fotoshopado. Tem, lá dentro, o seu sucesso, e lá vive, sem ver nem viver o mundo aqui fora. O outro jovem, vive o real. 

 

Um, vive de treta de tweet. Outro, de trabalhar em dobro para honrar uns trocados e comprar o livro que o professor da faculdade indicou, chega correndo do trabalho e relaxa uma horinha jantando e vendo sua novela.

 

Trago novidades: a maioria dos brasileiros vive no Brasil real. A maioria vive fora da bolha. É que, como na Indonésia e na Índia, quem vive na bolha, vive apenas dentro dela. Logo, quem está dentro do invólucro virtual, acha-se não só maioria, mas serem os únicos que existem sob o sol.

 

Que existem nesse invólucro que os diz o tempo inteiro o que fazer. Onde tudo é controle através do medo: durma cedo, não conteste o valor do teu salário, não saia de casa, compre online, acredite nas notícias que te enviam pelo whatsapp, você está certo e todos estão errados...

 

A principal sensação que senti ao ir ao Acre palestrar na UFAC (Universidade Federal do Acre), foi a de estar fora da bolha, foi justamente a de estar mais perto do Brasil.

 

De que o Acre não é longe do Brasil. O Rio de Janeiro é que é.

 

E de que nós, ai de nós, isolados nos centros, estamos, sempre estivemos, longe de nosso país. Ai de nosso país.

 

Mas, na noite de ontem, por voto popular, pela tão machucada vontade popular, Gleici aconteceu.

 

E, ao menos por uma noite, estivemos um pouco menos distantes de nós mesmos.

(FOTO: Reprodução/BBB)

quinta-feira, 19 de abril de 2018

A direita vulgar

Recuso-me a chamar de extrema-direita um movimento que tem, em sua maioria, adolescentes rebeldes, influenciados por um programa de comédia chulo da TV aberta, que cansaram de ouvir os pais reclamarem. Recuso-me a chamar de extrema-direita, um movimento encabeçado por comediantes incompetentes, ex-atores de filmes pornôs e um velho de boca suja. Prefiro chamar de "direita vulgar", vem muito mais a calhar.

A extrema-direita tem um ingrediente que jamais será encontrado nessa direita vulgar: o nacionalismo. Vemos as manifestações dos europeus indignados com a enxurrada de imigrantes despertarem esse sentimento perigoso, já aqui, essa direita defende o entreguismo e a economia de mercado.

Esse movimento que busca lucrar politicamente usando e molestando uma gente desiludida com os rumos da modernidade (único aspecto em comum com a extrema-direita tradicional), inventa problemas que não são capazes de atender as necessidades reais pelos quais esses pobres coitados passam. Assim, se fazem de vítimas da modernidade, ou do que chamam de "politicamente correto". Enriquecem vendendo "guias do politicamente incorreto". A "desgraça desse país" como diz o deputado federal Jair Bolsonaro, "é o politicamente correto", uma doutrinação, segundo ele, que ensinou o povo a não se responsabilizar pelos seus atos.

Na verdade esse é de fato o discurso da direita vulgar. Ela diz para todo mundo ouvir: "Agora não se pode falar mais nada!"; "O policial é vítima da criminalidade"; "O branco é vítima de um sistema de cotas raciais"; "Essa heterofobia!"; "A criança é levada hoje em dia porque não se pode mais bater"; "O Brasil tá assim por causa do político ladrão"; "O mundo é uma merda por causa da esquerda"; "a mulher não quer mais cuidar da casa" etc.. Enfim, o maior vitimismo é o proferido pela direita vulgar. Ela nunca se responsabiliza. Parece que são seres fora da sociedade, indivíduos que não possuem parcela nenhuma de culpa das condições sociais claudicantes. Para eles "o inferno são os outros".

É a estratégia retórica da dissimulação. Eu acuso o outro de fazer o que na verdade sou eu o praticante de tal gesto. É a traição mais clássica, uma cena arrancada de um filme qualquer, onde um amigo trai o outro acusando-o de roubar um pedaço de biscoito depois de ele mesmo ter mastigado e engolido.

É esquizofrênico porque não existe nada disso. Nunca fomos tão livres expressivamente falando. O fato de não haver mais tolerância para o discurso nazista, de ódio, contrário à liberdade de expressão, não é o problema, pelo contrário.

O que essa direita faz é uma autofagia, uma forma de incompatibilidade discursiva. Nós aqui usamos a retorsão para compreender a retorsão usada por esses ideólogos. Segundo Chaim Perelman e Lucie Olbrechts-Tyteca, essa estratégia argumentativa, que na Idade Média era chamada de redarguitio elenchica, "é um argumento que tende a mostrar que o ato empregado para atacar uma regra é incompatível com o princípio que sustenta esse ataque". A direita vulgar usa o mesmo princípio que critica para sustentar as suas denúncias e fomentar o seu discurso de ódio. Ou seja, sua crítica é incompatível. Na verdade, "pressupõe-se um princípio que se rejeita, mas a estrutura do argumento é a mesma".1

Ao criticar que o politicamente correto pretendia criar uma ideologia vitimista, a própria direita se põe vítima da "ditadura do politicamente correto". O pastor Malafaia, em um encontro com Alckmin e Doria, disse sobre a suposta "ideologia de gênero": "Como a maioria num Estado de direito, vamos nos fazer prevalecer e isso é inegociável […] Quem quiser fazer graça com o politicamente correto vai embora, segue aí o seu caminho".2

Lógico que são conflitos superficiaisque, no fundo, tanto o politicamente correto quanto o politicamente incorreto são formas moralistas e ideológicas que tem o objetivo de nos cegar, de nos iludir, para que assim desprezemos as condições reais de existência. São explicações fantasmagóricas para questões materiais, sensíveis. No fim, os dois pólos dessa discussão infrutífera gera imensos lucros para a imprensa e para a indústria cultural, além de criar um inimigo vulgar para as esquerdas, abrindo espaço político para a verdadeira direita (PSDB, DEM, MDB etc.)

É exatamente como dizem Deleuze e Guatarri: "o que queremos dizer é que o capitalismo, no seu processo de produção, produz uma formidável carga esquizofrênica sobre a qual faz incidir todo o peso da sua repressão, mas não deixa de se reproduzir no limite do processo".3 O capitalismo vai produzindo esquizofrênicos que permitem a reprodução do sistema, pois vivem a pensar nas alucinações que ele produz, nunca nas suas bases vitais.

1 PERELMAN, Chaïm e OLBRECHTS-TYTECA, Lucie, Tratado de Argumentação: a nova retórica. Trad: Maria Ermantina de Almeida Prado Galvão, São Paulo: Martins Fontes, 2005. p. 232.

3 DELEUZE, Gilles e GUATTARI, Fêlix. O anti-édipo: capitalismo e esquizofrenia. Lisboa: Assírio e Alvim, 1972. p. 38.


quarta-feira, 18 de abril de 2018

Elite podre e ausência de civilidade


Não sou um Marcelino de Carvalho e nem tenho o "savoir faire" da Danuza Leão, mas quero falar sobre algumas regras básicas, coisas simples, naturais que sempre regularam as relações humanas, desde que descemos das árvores e passamos andar eretos.

E são em momentos de tensão, de conflitos, como os de hoje, que mais se exige civilidade, gentileza, enfim...boas maneiras.

No entanto, cada vez mais, convenço-me de que a polidez, o refinamento e a amabilidade não são próprios das classes que, em uma sociedade classes, são as classes dominantes, a minoria dominante.

Quando os conflitos sociais agudizam-se, as classes dominantes tendem a perder as estribeiras, os bons modos e destrambelham-se. O ódio de classes torna-se mais forte que todas as convenções humanas, sociais, políticas.

Os exemplos disso, ao longo de nossa história recente são frequentes, abundantes.

Lembro-me dos comentários grosseiros no "O Globo", nas décadas de 50 e 60, envolvendo Getúlio, Juscelino, Jango e seus familiares.

Fico imaginando o sucesso retumbante daquelas canalhices se houvesse a internet, naqueles tempos.

Mas hoje, é diferente?

Não! Pelo contrário, com a liberdade concedida pela rede mundial de computadores a toda sorte de idiotas, as boas maneiras, a lhaneza, a generosidade e o respeito no relacionamento humano tornaram-se coisas do alvorecer da civilização, tempos das cavernas, quando a nossa dependência do outro significava sobreviver ou perecer.

A prisão de Luís Inácio Lula da Silva dá a medida do que falo. Na verdade, isso vem de antes, bem antes, pois essas manifestações boçais contra o ex-presidente remontam-se à sua eleição, em 2002. Ainda mais que ele substituiu no Planalto o "príncipe dos sociólogos", o aparatoso Fernando Henrique Cardoso que, para orgulho dos bocós, dos colonizados, sabia até falar inglês....ou dizia que falava.

Na verdade, poucos como ele expressaram tão fortemente o preconceito das classes dominantes e dos abestados da classe média em relação à Lula e à Marisa.

Sempre que houvesse ocasião, o sociólogo referia-se ao fato de Lula não ter diploma universitário, não falar inglês, falar errado, não ter abotoaduras de ouro ou rendas nos punhos, para se relacionar com chefes de Estado de outros países.

E quando Lula triunfou nas relações externas o príncipe, morto de ciúmes, elevou o tom do despeito.

E a nossa gloriosa mídia comercial repastava-se, deleitava-se com as boutades do sociólogo.

O teórico da dependência queria que o retirante nordestino, o operário metalúrgico também se submetesse aos dominantes, como ele pretendia que fosse o destino do nosso país.

E disso nada mais é tão simbólico do que aquela famosa foto, em que Bill Clinton posta-se atrás de FHC, segura-lhe ombros, enquanto o presidente brasileiro derrete-se em sorrisos.

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O ex-presidente poderia ter jogado um papel importante para amortecer o ódio de classes, o preconceito, o despeito tanto dos dominantes quanto da classe média em relação a Lula.

Esse gesto moderador teria feito bem ao país.

Diz-se que a vaidade é o pecado preferido do diabo. E FHC cedeu à tentação. Não apenas ele: todo um círculo de acadêmicos, de uspianos, de intelectuais e jornalistas, supostos homens e mulheres de esquerda ou de "democratas de centro-esquerda" emprestaram seus altos saberes para desclassificar o governo do metalúrgico.

Poucas vezes vi tanto despeito, tanto dor de cotovelo, tanta irresponsabilidade. A satanização de Lula e do PT começou aí.

E o que me impressiona é que o PSDB caiu uma segunda vez na tentação, na sequência da derrota de 2014, quando, ressentido, amuado decidiu destampar a caixa de Pandora, com as consequências que sabemos.

Agora, não adianta proclamar inocência ou se dizer "ingênuo".

As políticas de inclusão, de promoção humana, a política do salário mínimo e dos aumentos reais para os aposentados, a política de geração de empregos que, tecnicamente, zerou o desemprego em nosso país, as políticas de abertura das universidades aos filhos dos trabalhadores, a política habitacional;

a redenção da agricultura familiar, a extensão dos benefícios da energia elétrica e do saneamento a amplas camadas da população, essas iniciativas todas da presidência de Luís Inácio tornaram visíveis dezenas de milhões de brasileiros, emersos do anonimato secular da pobreza, da fome, da miséria.

E a visibilidade dessa gente nos aeroportos, nas universidades, nas lojas, nos restaurantes, nos cinemas, nos shoppings, no trânsito das cidades provocou urticária em nossas classes dominantes e deixou os enfatuados da classe média incomodados, injuriados.

Mas, talvez a ocupação de assentos nos aviões pelos trabalhadores, pelos nordestinos, pelos mais pobres tenha sido a gota d'água para a explosão da impaciência com o Lula. A frase que mais se ouvia nos aeroportos de parte da classe média metida à besta, pernóstica era: "Isso daqui está parecendo uma rodoviária".

Coisas simples, como ter carro, casa, emprego, filhos nas universidades, andar de avião, frequentar shoppings, comer três vezes ao dia, gozar as férias viajando ou às praias ou ao exterior passaram a ser encaradas como ofensa pessoal ao status das classes dominantes e da pequena burguesia idiotizada.

Essa a tragédia existencial das classes médias. Elas não existiam no começo da formação da sociedade de classes e não têm futuro garantido em uma sociedade sem classes. Presas ao drama de nunca ascender e de estar sempre próximas de descer, elas odeiam os pobres.

Reproduzo aqui trecho de um artigo do jornalista Mário Magalhães, de dias atrás:

"No sábado em que Lula perdeu a liberdade, uma mulher mostrou a amigas um vídeo em que o antigo torneiro mecânico consola duas militantes que choram. A mulher estava numa padaria da Aldeota, bairro bacana de Fortaleza. Uma amiga pilheriou: "Tá chorando porque agora vai ter que trabalhar.

Vai acabar essa história de Bolsa Família! ". A mesa tremeu com as gargalhadas jubilosas. Um ouvido absoluto talvez percebesse ao fundo a voz gutural do "cidadão de bem" Justo Veríssimo (....) (dizendo) "Odeio pobre!".

Nesse mesmo dia sete de abril, a imprensa deu cobertura a uma festança comemorativa à prisão de Lula promovida por notório cafetão paulistano, dono de um famoso prostíbulo que parece não incomodar nem as senhoras de Santana e nem os santos governadores paulistas.

Afinal, à moda dos prostíbulos de Berlim e de Roma, à época da ascensão dos nazistas e dos fascistas, esse puteiro paulistano também é um "puteiro do bem", que apoia os bons costumes, combate à corrupção e o perigo comunista e defende Lava Jato.

E deu provas disso entronizando, na falta de fuhrers e duces, enormes cartazes com os retratos de dois ícones do poder judiciário..

E, sem que se visse qualquer reação, o gigolô – que se orgulha de suas conexões com juízes, procuradores, policiais e políticos-chegou a prometer um mês de cerveja de graça em seu puteiro, caso Lula fosse assassinado na prisão.

Isso não é estranho, pois sempre houve uma forte vinculação entre o submundo da prostituição, das drogas, do rufianismo com o nazifascismo. É aquela atração inelutável, invencível entre os moralistas e os amorais.

Como exigir, então, boas maneiras, finesse, urbanidade e polidez dessa gente?

Em verdade, não há diferença entre a reação da madame lá no bairro da Aldeota e a chulice do dono do puteiro.

Deus meu! Até o Baile da Ilha Fiscal degradou-se no Brasil.....

Agora que os trabalhadores, os assalariados, os mais pobres estão sendo arremessados de volta aos tormentos de onde foram resgatados, nada mais apropriado do que criminalizar o homem que teve a ousadia de propiciar a um matuto lá dos cafundós do Nordeste o prazer de uma viagem aérea ou de botar um canudo nas mãos de uma filha de operários.

O homem que deu aos pobres o luxo de três refeições diárias.

Parece que a nossa burguesia, as classes que dominam a mídia, o sistema financeiro e o governo, e se afiliam aos interesses globalistas e imperiais, parece que elas acreditam naquela conversa furada do fim da história, da derrota de qualquer sistema que se oponha ao capitalismo ou que tente reformá-lo.

Acreditam na cessação das contradições de classe. Acham, por exemplo, que chamar os empregados de "colaboradores" e os capitalistas de "empreendedores", fará com que desapareçam, magicamente, operário e patrão, trabalho e capital.

São os artrópodes da fábula "O Escorpião e O Sapo".

Vejam: nunca se vendeu tanta cerveja no Brasil como nos tempos do Lula e do primeiro mandato da Dilma. O pleno emprego, a política do salário mínimo, a correção das aposentadorias, os concursos públicos, tudo isso fez aumentar extraordinariamente o consumo em geral, e o consumo de bebidas.

No entanto, fiéis à sua natureza escorpiana, os maiores fabricantes de cerveja do país foram ativíssimos conspiradores conta Lula e contra Dilma. Financiaram os movimentos e as manifestações em favor do impeachment de Dilma. E hoje montam fundos para elegerem o presidente, deputados e senadores de sua confiança.

Da mesma forma, nunca se vendeu tanto tecido, nunca se vendeu tanta roupa de cama, mesa e banho e tantos enxovais como na presidência de Lula e nos anos iniciais do mandato de Dilma. Todavia, os fabricantes de tecidos, especialmente um deles, conspiraram o tempo todo contra Lula e Dilma.

Esse fabricante de tecidos que é hoje candidato à presidência, disse que no dia seguinte à queda de Dilma, aconteceria o espetáculo do crescimento, leite e mel jorrariam milagrosamente.

Uma dona de uma famosa rede de lojas, que leva ao seu nome, cansou de bendizer os anos Lula e Dilma, porque nunca vendera tanto, testemunhava.

No entanto, assim que a presidente foi apeada e começou o calvário de Lula, ela não teve dúvidas em tripudiar sobre a desgraça dos dois.

Temos ainda aquele famoso vendedor de remédios, talvez o dono das maiores redes de farmácias do país.

Enriquecido porque o pobre finalmente teve acesso a remédios, não teve escrúpulos em financiar a extrema direita na cruzada contra Lula e Dilma.

As senhoras e os senhores hão de se lembrar dele. Esteve aqui, neste plenário em um debate sobre a reforma trabalhista e tripudiou sobre os trabalhadores brasileiros.

Os donos da meia dúzia de bancos que monopoliza o setor financeiro do país não ficaram atrás do cervejeiro, do tecelão, do vendedor de remédios da dona do magazine. Mesmo que, nunca antes na história, tivessem lucrado tanto como nos governos Lula e Dilma, montaram também no sapo para atravessar o rio.

É claro, o consumo de cerveja caiu. A venda de tecidos caiu. A vende de remédios caiu. As vendas do magazine caíram. A compra de carros, geladeiras, televisões, computadores, máquinas de lavar, via crediário, pagando aos bancos juros lunares, caiu. Mas Lula e Dilma também caíram. Afundá-los era mais importante que o crescimento do país.

No meio do caminho, os escorpiões não resistiram ao chamado de suas naturezas, e sacrificaram o sapo. Fizeram o mal pelo bem, disseram. O mal para o povo, o bem para os dominantes, porque mesmo perdendo eles continuam ganhando.

Agora uma advertência, um aviso de utilidade pública: Os escorpiões amarelos são os mais venenosos.

Portanto, quando andarem por aí, pelas ruas, calçadas, praças de nossas cidades, no vão do MASP ou em frente à FIESP, lá na Paulista, cuidado com os amarelinhos. Como os patos, os escorpiões amarelos são perigosíssimos.

Ah, sim! As assinaturas de tv a cabo, de revistas e jornais, a compra de revistas e jornais, desabaram.

Mas, como dizem os donos da mídia: que se me dá que o muar claudique se meu desiderato é dar de relho, chicotá-lo?

Senhoras e senhores senadores.

Quando alguns sinais, quando alguns símbolos, quando expressões representativas da civilização, da convivência, das relações humanas apodrecem e se esfarelam; quando os limites da tolerância, da boa vizinhança, da cordialidade e do respeito começam a ser ultrapassados, é preciso –independentemente das posições políticas e simpatias ideológicas- é preciso bom senso, humildade, renúncia e sabedoria para evitar o rompimento das pontes que ainda fazem a sociedade se comunicar, interagir.

Claro, não se propõe diálogo com os extremistas de direita, com os fascistas que se abrigam nesses grupelhos que os cervejeiros, os tecelões, os vendedores de remédios, os banqueiros, e os industriais sem indústrias da FIESP financiam, à moda dos Thiessen, dos Krupp, dos Hugo Boss, dos Farben, dos Ferdinand Porsche, dos Agnelli, na Alemanha nazista e na Itália fascista.

Com essa gente não há interlocução.

Modus in rebus, Brasil.

Moderação na coisa.

Sensatez. Razoabilidade. Tino. Ponderação. Cautela. Engulam os seus preconceitos de classe. Deglutam o sapo barbudo. As lições da história estão aí. E os bárbaros estão chegando. Quem quer pagar para ver no que vai dar?

Boas maneiras, senhoras e senhores...

Será que o povo terá "boas maneiras", como os senhores, quando ele perceber o que está acontecendo?

sexta-feira, 13 de abril de 2018

política de ódio paranoica muito primitiva

Pode-se dizer tudo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, menos que não continua gozando de alta popularidade, mesmo julgado pela Operação Lava Jato e preso. Não à toa, as últimas pesquisas eleitorais para a corrida presidencial sempre o colocaram em primeiro lugar nas disputas e há grande expectativa para a próxima medição do Datafolha, prevista para ir a público no próximo domingo. Sua imagem, contudo, é, ao mesmo tempo, a de um herói e de um vilão. É o líder mais carismático do Brasil, mas também visto como a fonte dos problemas e discórdias do país por parte da população.

Para refletir sobre a imagem do ex-presidente e a simbologia por trás de sua prisão – e tudo que a antecedeu –, o EL PAÍS conversou com o psicanalista Tales Ab'Saber, professor da Unifesp e aberto crítico do Governo Temer e do impeachment que procura estudar a política de perspectivas diferentes da ciência política clássica. Autor dos livros Lulismo, Carisma Pop e Cultura Anticrítica e Dilma Rousseff e o ódio político, pela editora Hedra, agora está finalizando Temer e o Fascismo Comum, que completa uma espécie de trilogia dos últimos anos da política no Brasil. Leia abaixo a conversa.

Pergunta. Do ponto de vista simbólico da política, o que significará, daqui para frente, o ex-presidente Lula preso?

Resposta. É provável que, mesmo preso, em meio a um cenário estranho e excêntrico de judicialização da política que vem ocorrendo no Brasil – focado até agora quase exclusivamente no PT e no Lula –, os brasileiros que viveram e melhoraram de vida sob os dois primeiros Governos do ex-presidente, continuarão sonhando com ele. Talvez, a partir de agora, sonharão até mesmo com mais intensidade. Já que além da memória de uma época em que mudaram de vida, agora há o aspecto sacrificial e de perdas de perspectivas a que esses mesmos brasileiros foram lançados nos últimos anos – como decorrência de uma política econômica neoliberal, um esquema de corrupção por enquanto inatingível pela Justiça e o desprezo pela vida popular do Governo pós-impeachment.

P. De quem você fala especificamente quando diz desses brasileiros que continuarão a sonhar com ele? Apenas a esquerda militante que simpatiza com ele?

R. Não só, mas também daquele extrato da sociedade de pobres conservadores que o consideravam um risco lá atrás e que hoje são os 30% de brasileiros que lembram de Lula e seu bom Governo e simplesmente o elegeriam novamente presidente a qualquer momento. Eles, depois das políticas sociais que beneficiaram suas vidas e depois de um trabalho de 20 anos de investimento de uma legião de intelectuais e homens de esquerda para legitimar a figura de Lula, passaram a confiar plenamente no ex-presidente. Tornaram-se, assim, parte da narrativa de sucesso que os pobres alcançaram durante os Governos de Lula.

P. Como você viu o discurso de Lula no Sindicato dos Metalúrgicos, logo antes da prisão?

R. O ponto central foi a ideia de que, a partir de agora, ele é uma ideia. Quando ele fala em ser um ideia, que pertence a todos, ele evoca termos universais para repor a força do desejo político de cada um. Lula não é um demagogo comum, nem um manipulador regressivo, antidemocrático, como existem tantos por aí hoje. Ele é a encarnação viva, numa potência de corpo única, do conflito entre capitalismo e democracia, em um país periférico e incompleto. Como representante democrático e negociador do conflito de classes que sempre foi, ele tem razão ao dizer que é uma ideia. Isso porque essa ideia de um mediador entre os excluídos e a ordem econômica capitalista é algo que não morre, porque é estrutural do problema da vida social. Essa ideia é uma das faces da própria democracia e ele encarna isso. Lula está no núcleo estrutural dessa questão: a democracia em sociedade de mercado responde ou não responde aos interesses de pobres e excluídos? Ou é democracia apenas para os detentores do poder de mercado? A ideia da dialética política dos conflitos de classe, de modo democrático, que é a defendida por Lula, é uma virtualidade civilizatória da própria democracia. Então, se de fato houver democracia, essa ideia é necessária, e não morre.

P. Apesar da barba e da fala enérgica do líder sindical, Lula nunca foi um radical, não é estranho que essa imagem seja colada a ele agora?

R. Essa imagem só vale para a parte da direita mais grosseira brasileira, a que tem feito tanto estrago na vida nacional e constrangido todo o espírito democrático. É claro que Lula sempre se moveu em uma corda bamba política, na qual ele se equilibrava bem. Sempre ficou entre assumir e convocar os interesses sociais populares, que foram muito tardiamente representados no poder executivo brasileiro, e negociar condições políticas e força institucional real por meio da interlocução com os interesses reais do capital nacional. Seu projeto, muito longe de qualquer radicalismo, foi um modelo de capitalismo nacional, integrado aos fluxos globais. Um plano de desenvolvimento de economia produtiva e de mercado interno, que empregava, produzindo aumento constante da inserção no trabalho e no consumo – a única moralidade que o capitalismo conhece, segundo Keynes.

P. Mas o que explica, então, a eleição de Lula por parte da sociedade como o pior mal da nação?

R. O que se viu no Brasil nos últimos quatro anos – desde quando a crise econômica mundial se agravou durante o Governo de Dilma Rousseff, dando sinal para a guerra aberta que vimos em seu segundo mandato – não foi apenas um ataque de parte da sociedade ao Lula, mas algo que visou degradar toda a esquerda ao atacar sua imagem. Estamos vivendo um estado de guerra total em que há uma política de ódio paranoica muito primitiva em que o alvo é a esquerda democrática contemporânea. Não à toa, do nada, foi reinventado um anticomunismo delirante. Há uma massiva metafísica do mal, muito violenta, um desejo gnóstico negativo, que permite o desprezo total pelo inimigo imaginado que, no caso, é Lula, representando toda a esquerda. Foi assim que a direita brasileira, em um estado de paixão que, entre outras coisas, produziu toneladas de mentiras infindáveis em redes sociais, alcançou um grau de intolerância elevado. Ele é amado demais, e odiado demais também. Torna-se a obsessão de todos. E mesmo sendo um imenso democrata, como Lula é, será odiado. O sacrifício de Lula é social, realizado por grandes conflitos simbólicos de classe. O poder instituído não pode tolerar um homem que sozinho tenha tanto poder pessoal, carismático.

P. Você definiu o Lula como um "herói da luta de classes" no Brasil, mas sua imagem de radical ficou para trás faz muito tempo. Por que essa definição?

R. Lula fez um Governo entre as bolsas sociais para os brasileiros muito pobres, as desonerações de impostos básicos e o financiamento de consumo de bens fundamentais para boa parte da população que não podia consumir. Por outro lado, houve sempre o enriquecimento dos muito ricos com a garantia de um Governo desenvolvimentista. Nenhum contrato foi rompido, o superávit fiscal foi mantido e até ampliado, a inflação controlada e a vida econômica, com trabalho formal e com direitos trabalhistas, disparou o país. Assim, depois de seus dois mandatos bem sucedidos, Lula ficou imensamente poderoso. Era celebrado pelos pobres, que se sentiam contemplados de modo digno e raro no Brasil. Mas também foi celebrado pelos mercados que estavam aquecidos e que enriqueciam. Além disso, sua política sempre conciliadora aceitou o arcaísmo e a regra do jogo da corrupção universal, que foi mantida durante todo seu Governo.Assim, nessa época, ele era uma solução para todos.

P. Um "herói" pelo fato de ter conseguido conciliar diferentes brasis durante oito anos?

R. Mas também pela imagem que se acabou criando ao seu redor. Durante este período importante da vida de Lula, o de seus dois Governos, seu valor nos corações e mentes dos brasileiros cresceu muito a seu favor. Com a investidura simbólica do cargo de presidente e com a sua linguagem e performance pessoal hábil e rica, de caráter moderna e popular, além do seu habitus de classe renovado por sua própria história de ascensão e experiência, Lula se tornou um verdadeiro super-herói carismático, no país e no mundo. Ele se elevou ao nível mais fluido e universal do carisma político contemporâneo, o carisma pop, que aproximava e ligava o seu sucesso econômico, o seu charme pessoal, a sua habilidade de linguagem e presença de espírito com a própria excitação da vida animada do mercado mais comum que acontecia no Brasil. Tudo confluía para o seu poder e a sua propaganda, natural industrial.


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