Um livro é um mudo que fala, um surdo que responde, um cego que guia, um morto que vive. (Padre Antônio Vieira)

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Sobre a beleza

[...] Naturalmente todas as épocas tem todas as variedades de rostos; mas a moda destaca sempre um deles, fazendo-o modelo de felicidade e beleza, e os demais tentam imitá-lo; até as feias o conseguem com a ajuda de roupa e penteado, só as que nasceram para coisas especiais não o conseguem nunca – nelas manifesta-se sem concessões o ideal de beleza banido e aristocrático de tempos passados.
 

MUSIL, Robert. O homem sem qualidades. Tradução de Lya Luft e Carlos Abbenseth. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1989. p. 18

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

A arte da nuance

Nos anos da juventude, ainda veneramos e desprezamos sem a arte da nuance, que constitui nossa melhor aquisição na vida, e, como é justo, pagamos caro por atacar de tal modo com Sins e Nãos as pessoas e as coisas. Tudo se acha disposto para que o pior dos gostos, o gosto pelo incondicional, seja cruelmente logrado e abusado, até que o homem aprenda a pôr alguma arte nos sentimentos e, melhor ainda, a arriscar na tentativa do artificial: como fazem os veros artistas da vida. p. 38

 NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. Além do bem e do mal: prelúdio à uma filosofia do futuro. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

As melhores condições para que o amor se realize

FREIRE, Roberto. Sem tezão não há solução. 11. ed. Rio de Janeiro: Guanabara, 1987. 193 p.
 
Eu, quando estou amando, não penso sobre o amor, eu busco saber quais são as melhores condições para que o amor se realize. [...] é um coisa que se produz no ser humano como manifestação fundamental do fato de ele estar vivo. Mas independe de outras pessoas. O amor é produto de minha vida. Ele é um pedaço do meu ser. [...] ninguém produz em mim o amor. O máximo que pode acontecer é a pessoa se habituar a esse amor. p. 131
: ) *:

Do amor só se pode fazer a necrópsia

FREIRE, Roberto. Sem tezão não há solução. 11. ed. Rio de Janeiro: Guanabara, 1987. 193 p.
 
Estamos hoje certos de que o amor não foi feito para ser compreendido, mas apenas vivido. [...] do amor só se pode fazer a necrópsia, jamais a biópsia. (Utopia e paixão) p. 131
 
 

Só a atitude herética

FREIRE, Roberto. Sem tezão não há solução. 11. ed. Rio de Janeiro: Guanabara, 1987. 193 p.
 
[...] só a atitude herética  posta em prática pela ciência revolucionária marginal pode "curar" a "doença" autoritária institucional e oficializada.
 
"O termo heresia deriva do grego heresis,  que originalmente significou escolha... Por extensão foi aplicado em seguida ao conjunto das teorias de um filósofo e à escola que as ensinava. O termo permaneceu neutro até que a Igreja Católica lhe conferiu um sentido desfavorável. De fato, a Igreja acreditava ser o único depositário da Verdade Revelada, reservando para si o direito de a fazer conhecer... Desde então qualquer outra interpretação diferente da versão autorizada tornava-se, pois, herética no sentido novo e pejorativo do termo" (Enciclopédia britânica, 1973) p. 86
 
 

Necessidade de poder

FREIRE, Roberto. Sem tezão não há solução. 11. ed. Rio de Janeiro: Guanabara, 1987. 193 p.
 
Não resta mais dúvida alguma para mim que a necessidade de poder absoluto corresponde sempre a uma impossibilidade de se viver os prazeres relativos da existência cotidiana. A perda do prazer expontâneo cria nas pessoas, por mecanismos psicopatológicos de compensação perversa, a necessidade compulsiva de poder. Todo tipo de poder: o físico, o psicológico, o afetivo, o sexual, o econômico, o político. A forma de prazer que ainda sobraria nestas pessoas seria o de natureza sadomasoquista e paranóica: necessidade da dor alheia ou própria para se alcançar o prazer, necessidade essa comandada pelo fato de se sentirem pessoas superiores, especiais, e que por isso devem estar em constante estado de defesa e ataque contra inimigos, usando para isso o máximo requinte e crueldade e extrema violência. Assim, o prazer-dor de dominar, de mandar, de se apropriar e de explorar corresponde à dor-prazer de ser dominado, de ser mandado, de ser apropriado e de ser explorado. p. 35

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Nem pense

Pensar e não chegar,
Ah conclusão...
Nenhuma!
Que conclusão?

Sem pensar
poderia
bastar...
Nem pense!

Não chegar
a conclusão
nenhuma....

Nem mesmo através dos versos
Nem mesmo através dos gestos,
Nem mesmo através da vida.


f. foresti
13/11/2008

Minha companhia

Pensar e pensar e pensar
Para não chegar
A conclusão nenhuma.
Toda decisão é prematura,

Não conseguimos perceber nada,
A realidade nos trespassa,
A vida zomba de nós
E dá risada quando acabamos sós.

Mas eu sei que nunca estamos sozinhos...
Não que acredite em Deus ou em sonhos,
Apenas sei que não posso sair de mim mesmo.

Em minha companhia sempre estarei com apreço,
Conversando comigo mesmo e com os mortos,
Sobre livros e livros e livros.


f. foresti
13/11/2008



quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Lisbon Revisited

Lisbon Revisited, de Álvaro de Campos
http://www.pessoa.art.br/?p=417

Não: Não quero nada.
Já disse que não quero nada.

Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.

Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!
Tirem-me daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) —
Das ciências, das artes, da civilização moderna!(*)

Que mal fiz eu aos deuses todos?

Se têm a verdade, guardem-na!

Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?

Não me macem, por amor de Deus!

Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?

Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja da companhia!

Ó céu azul — o mesmo da minha infância —
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflete!
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.

Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo…
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!

A recompensa de não existir

Porque a recompensa de não existir é estar sempre presente.
 
Álvaro de Campos

terça-feira, 11 de novembro de 2008

THIRTY-CHERQUES. Sobreviver ao trabalho

THIRTY-CHERQUES, Hermano Roberto. Sobreviver ao trabalho. Rio de Janeiro: FVG, 2004. 184 p.
 
[...] o verdadeiro problema de quem trabalha é como manter a humanidade num mundo hostil e refratário ao que há de exclusivo no ser humano: a razão, a consciência que dá sentido e alegria ao viver. p. 14



THIRTY-CHERQUES, Hermano Roberto. O golem laborioso. In: ______ .Sobreviver ao trabalho. Rio de Janeiro: FVG, 2004. cap. II, p. 21-44.


VIDA E SISTEMA

Não há vida fora do sistema

O MUNDO DO SISTEMA

Dá o sentido da vida

SOBREVIVE

Quem integra o sistema

TRAÇO

Mentalidade de gueto: sujeição como condição da existência


O trabalhador-golem está longe de ser um indivíduo cuja existência foi truncada pelas necessidades da sobrevivência. Tampouco é um rebelde domado. É alguém a quem nunca ocorreu se rebelar. Alguém tão associado ao sistema que a ele aliena integralmente o espírito. Alguém que ambiciona pertencer, que quer ser reconhecido como útil à produção. [...] esse tipo de trabalhador desenvolve uma conduta de aceitação e conformidade. Manipulando e sendo manipulado, mitificando e crendo, ele é um excluído, um exilado do mundo que existe para além do trabalho. p. 22


A configuração socioeconômica que aí está [...] induz o florescimento da disposição de espírito do golem e dos seus avatares – o robô, o andróide e o cyborg – e encoraja a proliferação daqueles que dependem do sistema para sobreviver não só física, mas mental e socialmente. p. 22


[...] se realiza através das realizações do sistema. p. 24


Pode-se lamentar que seres humanos tenham cancelado os valores e as virtudes individuais. Que a sua esperança individual tenha chegado a se confundir com a esperança coletiva, e a fortuna da sua existência com a fortuna da produção. Mas a sobrevivência, tal como aqui colocada – coerência pessoal e resistência da psique ante as pressões do sistema -, impõe, para que possa se efetivar, uma lógica, uma explicação do mundo e da vida. p. 25


São duas as características de sua constituição: a mentalidade conformista e o desejo de alienar á outra instância a vontade e a decisão sobre o viver – o anseio de estar identificado com alguma estrutura social, seja ela qual for. A primeira deriva da sujeição como condição da existência. A segunda, da convicção ou da sensação de que a individualidade só existe enquanto parte. Ambas, da idéia de que cada um de nós é o que é somente em relação aos outros, aos grupos, às instituições, às organizações. Trata-se de uma exacerbação da idéia hegeliana do reconhecimento. Para o trabalhador-golem, ser não é apenas ser reconhecido. Ser é ser reconhecido como parte funcional, como subsistema. 25


[...] uma mistura de mentalidade de gueto e de vontade de inclusão. 26


O gueto é uma situação extrema, mas a "mentalidade de gueto" não. É até bastante comum. A primeira característica dessa mentalidade é a recusa em ver. [...] A segunda característica [...] é a insensibilidade como tática de sobrevivência. 27


[...] o alheamento do sistema significa a perda cada vez mais pronunciada do sentido da própria vida. [...] Mais e mais essas pessoas fazem seus os valores das organizações. Para elas, há cada vez manos vida fora do sistema. [...] toda a perspectiva da vida está limitada ao "pertencimento". p. 27


Quando os valores do sistema são tidos como valores da vida, sobrevivência torna-se tão controlável quanto controláveis são os fatores de mercado e o progresso técnico para o trabalhador na linha de produção, de forma que os trabalhadores-golem são triplamente alienados: alienam a sua força de produção [...]; alienam sua vontade [...] às forças de mercado; e alienam sua vida espiritual ao fortuito, ao aleatório, ao acaso do seu destino material. 28


[...] o trabalhador robotizado não sofre com a prisão de ferro porque não a enxerga. Simplesmente a integra. p. 31


A instrumentalização – da qual o andróide é vítima e promotor – advém das práticas administrativas de recursos humanos e não de um interesse individualizado. Tal como as técnicas de auto-ajuda, muitas das formas atuais das práticas de RH exploram facetas do extinto de sobrevivência. Elas se fundam na ilusão de conhecer o futuro e na esperança de melhorar ou prolongar a vida. [...] recomendam estratégias de sobrevivência baseadas na vigilância e na desconfiança. Essas estratégias derivam da literatura psiquiátrica e médica sobre resistência às enfermidades. p. 32


Com a intelectualização do trabalho, ele vem se especializando em uma espécie particular de manejo: o governo dos demais. Ele é um manipulado que manipula os objetos, os processos e os outros tabalhadores. p. 37


A automação, a irreflexão, levada às últimas consequências, privou o trabalhador da sensação de utilidade. O tédio e a insatisfação anularam a individualidade, mataram o espírito. O trabalho um dia foi a vida. Se não é mais, pelo menos podemos fingir que é. Podemos nos iludir. Podemos condicionar a nós mesmos [...] meio programados, meio amestrados. p. 38




THIRTY-CHERQUES, Hermano Roberto. Kafka assalariado. In: ______ .Sobreviver ao trabalho. Rio de Janeiro: FVG, 2004. cap. III, p. 45-60.


VIDA E SISTEMA

Não existe vida no sistema

O MUNDO DO SISTEMA

Não faz sentido

SOBREVIVE

Quem se desliga do sistema

TRAÇO

Estranhamento: separação entre o percebido e o que parecia lógico


Para Brentano [...] só o mundo interior tem verdadeiramente um caráter de realidade. O mundo exterior, embora não se negue que exista, não tem realidade. p. 50


É comum esses trabalhadores recusarem promoções, cargos, renunciarem a todo deslocamento que os faça mover para cima, para os lados ou para qualquer ponto que não seja o que já ocupam na estrutura organizacional. p. 51


Estranho no mundo do trabalho, cindido entre o viver e o poder viver, conformado à engrenagem, o assalariado kafkaniano nem mesmo vê como possibilidade a ascensão, o reposicionamento dentro da máquina produtiva. Não se esforça para isso porque não lhe parece lógico aspirar a ser uma peça dominante, a ser um objeto essencial do sistema. Não lhe parece racional ser um subalterno graduado. Resignado ao plebeísmo, para sobreviver ele se vê compelido ao trabalho ignóbil. p. 52


[...] convergência de ofícios desqualifica o trabalho no que ele tem de mais precioso e ligado à vida: sua individualidade. p. 53


A indiferença moral manifesta-se de quatro maneiras diferentes: a não-reação às mudanças do mundo exterior; a passividade ante as ameaças representadas pelas mudanças tecnológicas e pelas novas formas de organização; a conformidade consciente aos constrangimentos impostos pelo sistema; a ética como obrigação exclusiva do mundo da vida, que cessa ante os valores do sistema. p. 56


A passividade ante as ameaças aos valores do mundo da vida é o segundo modo da indiferença. A aceitação [...] aparece aqui como uma fraqueza. p. 56


O silêncio do palavra, o silêncio dos desejos, o silêncio dos pensamentos. É uma disciplina que leva à aparência de gravidade e sabedoria, mas não passa de uma defesa ante a ininteligibilidade da vida. Em um mundo onde a fala é a chave do êxito ou da punição, defende-se melhor aquele que não se manifesta, aquele que aparenta não ter dúvidas sobre o que acontece e sobre o que faz, aquele que finge saber por que está sendo julgado. [...] no mundo do trabalho melhor calar, porque não há como distinguir entre o sábio que cala e a besta que não fala. p. 57



THIRTY-CHERQUES, Hermano Roberto. Weber profissional. In: ______ .Sobreviver ao trabalho. Rio de Janeiro: FVG, 2004. cap. IV, p. 61-86.



VIDA E SISTEMA

A vida e o sistema compõem-se mas não se integram

O MUNDO DO SISTEMA

Tem um sentido diferente da vida

SOBREVIVE

Quem tolera o sistema

TRAÇO

Sociabilidade: destreza social para sobreviver no sistema



[...] a habilidade de conviver com o diverso e o mutante – a sociabilidade – veio a se tornar mais essencial para a sobrevivência no trabalho do que a atualização tecnológica, do que o conhecimento. p. 65


[...] dar de si o mínimo pelo máximo de de recompensa que puder obter. As afinidades entre o trabalhador e o trabalho são resultantes de uma combinação de interesses, de uma eleição, não da empatia, muito menos do afeto. p. 67


No mundo desencantado da racionalidade, na sociedade MacDonald, onde o significado do trabalho é medido pelo produto ou pelo serviço que se entrega no balcão da economia, a ponte entre a vida e o sistema foi levantada. O que aí está é uma porta que se entreabre para o provedor de resultados, para o trabalhador plug-and-play, para o profissional hello-and-bye, para todo o mundo, para qualquer um. p. 84-85



THIRTY-CHERQUES, Hermano Roberto. Maquiavel funcionário. In: ______ .Sobreviver ao trabalho. Rio de Janeiro: FVG, 2004. cap. V, p. 87-124.


VIDA E SISTEMA Viver é dominar o sistema

O MUNDO DO SISTEMA Só faz sentido como relação de poder e sujeição

SOBREVIVE Quem domina o sistema

TRAÇO Métis: a sagacidade política para dominar o sistema


Para chegarem ao poder [...] valem-se de fórmulas legitimadas pelos sistemas organizacionais contemporâneos, em que a deslealdade e a bajulação são habilidades que contam. p. 89


A apologia da padronização, que beira a anulação completa da individualidade, em favor da eficácia dos sistemas está no cerne dos pacotes de técnicas gerenciais. Tal como os carmelitas, que devem obedecer imediata, voluntária e alegremente, o empregado "moderno" deve pensar com a organização, ou melhor, não pensar. p. 90


Adorno (1969) aponta como marca da personalidade autoritária a disposição para a obediência, a adulação dos superiores, a arrogância, o desprezo pelos inferiores, a rigidez, o conformismo. A personalidade autoritária é intolerante em relação á ambigüidade e se refugia na ordem estruturada, fazendo uso de estereótipos e aceitando as convenções do grupo. p. 91


Com o tempo, entretanto, toda elite se intelectualiza, perde a garra, pouco a pouco vai descuidando de reconquistar a submissão. [...] vão-se formando novos grupos de pressão, que, feito leões, irão render a guarda, alijar dos postos antigos dirigentes, fechar o círculo e iniciar sua própria luta para manter-se no poder. p. 92


Quando nos isentamos de preconceitos e examinamos a realidade da luta que se desenrola sem cessar, vemos que as belas fórmulas da administração científica, dos preceitos de competência técnica, da gestão compartilhada – perfeitas em seus torneios lógicos – não correspondem à realidade, têm o defeito de não existir. O prêmio, o graal do poder e, grande parte das organizações está, tem estado, na dependência da agressividade fronteiriça à violência e da torpeza erigida em sagacidade. p. 93


Só existe uma lógica – a da elite -, e só uma razão – a da força . Ascendem os mais bem preparados, não os mais aptos. p. 93


Denomino "sobrevivência política" a capacidade de algumas pessoas de ingressar e se manter no mundo do trabalho pela via das artimanhas, das aparências, das espertezas. São especialistas em tarefas inúteis, peritos no trabalho que é ou se tornou supérfluo. São pessoas que produzem pouco ou nada, que vivem do esforço alheio, cujo trabalho consiste principalmente em se manter empregadas. p. 95


A métis serve a muitos propósitos. É um dos fundamentos da ação política, da inteligência maquiavélica. Consiste, em grande parte, no exercício de artimanhas. Desde a antigüidade, os manuais de sobrevivência política aconselham os mesmos estratagemas: absorver as ameaças virtuais à sobrevivência (casar com astúcia), cooptar o adversário potencial [...] entravar burocraticamente o acesso dos outros (criar e fazer cumprir as regras), jogar com a insegurança alheia (aparentar conhecer o futuro). Os que sobrevivem no trabalho pela via da política usam este tipo de inteligência. p. 96


A melhor síntese das regras básicas para influenciar, obter e manter o poder nas organizações ainda é a construída por Cohen e March (1974) sobre a liderança nos ginásios e universidades norte-americanas:


  1. gaste tempo

  2. persista

  3. troque posição por substância (por exemplo, troque status por reconhecimento social, posto por auto-estima)

  4. facilite a participação dos oponentes (não crie nem cultive inimigos)

  5. sobrecarregue o sistema (não de espaço para ociosidade)

  6. proponha projetos com os quais todos estejam de acordo (evite polêmicas)

  7. prefira resultado do que visibilidade (evite áreas sensíveis)


Ao convencer os outros:

a) apresente as metas como hipóteses (não force)

b) use a intuição como se tivesse certeza

c) trate a hipocrisia como algo temporário (seja hipócrita)

d) trate a memória como inimiga (esqueça)

e) trate a experiência prática como se tivesse base teórica (o que todos sabemos)


p. 100


A métis permite aos que não produzem se manter nas organizações, mas também dá aos que produzem a condição de sobreviver à trama de frivolidade, ganância e inveja que traspassa as relações humanas no mundo do trabalho. p. 104


O terceiro componente de sustentação política no trabalho é um composto de fé e mistificação. Fé no sentido de crer no próprio destino, ou melhor, de crer que se tem um destino especial, que se está predestinado. Mistificação no sentido de fazer crer aos outros que se tem o controle do próprio destino e da organização. p. 104


A par dos esquemas de ascensão e sustentação no poder e da inteligência política, o modo de encarar a sorte e o azar e de se aproveitar da crença ou ingenuidade alheia é essencial à sobrevivência política. p. 105


As projeções declaradas pelas organizações latinas têm um caráter fortemente cultural, isto é, estão fundadas naquilo que tem acontecido, enquanto as projeções das organizações de outras linhagens – americanas, asiáticas – voltam-se para o que pode acontecer. p. 109


Fazer crer que o que se passa não tem uma causa ou que essa causa é inalcançável e ir contra os efeitos, ou fazer crer que se conhecem e se controlam as causas quando isso não é verdade. A vacuidade das declarações de dirigentes e especialistas tem muitas vezes raiz nesse engodo. p. 109


Haveria um conduta ideal para alcançarmos a segurança dos postos mais altos, outra para neles nos mantermos, outra para retardar o declínio e outra ainda para nos restaurarmos após a queda. A conduta ideal é, na prática, a conduta conveniente a quem detém o poder ou quer alcançá-lo. p. 113


O trabalho não é, nem nunca foi, uma fonte segura de auto-realização. Nem sempre os homens tabalharam e grande parte dos que trabalham tem como razão e objetivo de vida justamente parar de trabalhar. p. 117


O vulgo, dizia Maquiavel, é sempre seduzido pela aparência e pelo êxito, e é o vulgo que faz o mundo. A manipulação de conceitos é certamente a forma mais insidiosa e eficaz de dominação. Doma as consciências, induz uma aparência de concordância entre os interesses políticos e os de produção. p. 122-123.


Somos Sísifo, condenados eternamente ao trabalho sem sentido, e somos o sonho de Marx, transformando o mundo, a história e a nós mesmos. Somos também Maquiavel, um funcionário mal remunerado que lutou toda a sua vida por reconhecimento. Em vão. p. 124



THIRTY-CHERQUES, Hermano Roberto. Borges inspetor. In: ______ .Sobreviver ao trabalho. Rio de Janeiro: FVG, 2004. cap. VI, p. 125-160.



VIDA E SISTEMAViver é estar ausente do sistema

O MUNDO DO SISTEMA Tira o sentido da vida

SOBREVIVE Quem é autônomo em relação ao sistema

TRAÇO Ausência: a indiferença em relação ao sistema


[...] "tolerância repressiva" de Herbert Marcuse. Ele demonstrou, ou pretendeu demostrar, que a tolerância com os dissidentes da sociedade liberal tem o propósito de servir não para a emancipação de grupos e pessoas explorados, mas para adormecer os impulsos libertários. Com isso, torna-se repressiva, embora sob a aparência de libertadora. p. 131


O liberalismo no mundo político é isso: pessoas iguais com concepções diferentes, encontram uma forma de convivência. As organizações são outra coisa: São formadas por pessoas diferentes interessadas em um objetivo igual. p. 134


O respeito em filosofia política é uma reverência perante uma razão superior. O respeito na linguagem cotidiana das organizações medeia entre a adminiração e o temor. Respeitar um concorrente ou respeitar um parceiro é admirar o que ele fez ou temer o que ele possa fazer. A cooperação, se e quando existe nas organizações, é condição, não resultado de um interesse comum dos cooperantes. p. 134-135


[...] a linha que limita a tolerância política nas relações entre empregado e empregador é dada pela renúncia a cooperar (cooperação) devida à divergência de interesses, pela perda de confiança (a fé compartilhada), pelo descrédito do empregado ou do empregador, pela ilegitimidade do móvel da tolerância. p. 135


Existem quatro fatores principais de ordem psicológica que levam à ruptura:

a) a percepção do trabalhador de que a organização lhe extrai sobretrabalho;

b) os traços de personalidade que não se encaixam na vida organizacional;

c) a tensão provocada pela falta ou distorção de informações;

d) a emocionalidade nas relações entre dirigentes e empregados. p. 138


A gestão científica é, de fato, um passo decisivo para a nova percepção do trabalho. O princípio que reza que o trabalho cerebral deve ser concentrado na mão dos gerentes [...] cria a gerência científica e supera o estudo fisiológico. Seus argumentos: de que o trabalhador tentará guardar os "segredos do ofício" para si e para seus amigos; de que o simples controle e o incentivo direto à produção não funcionam, porque o trabalhador tende a defender o emprego, seu e de seus colegas; e de que a racionalização é um atributo gerencial [...] são não apenas lógicos, como verdadeiros. Os fatos de que o monopólio do conhecimento sobre o trabalho pelo gerente provoque uma concentração de conhecimento em uns poucos e a execução cega do trabalho por muitos e de que o princípio de ajustamento das pessoas ao trabalho, via adestramento e especialização por tarefas, terminam por retirar a iniciativa do trabalhador não invalidam a constatação de que a escolha de métodos baseados em conhecimentos tradicionais, em habilidades pessoais, na inteligência e na solidariedade tem uma produtividade menor do que os métodos da produção em massa. Mas a execução mecânica de tarefas, a não-participação no destino do que se ajuda a produzir são intoleráveis para grande número de pessoas. Elas ou se retiram do emprego ou reagem – agem politicamente. p. 138


Os que tem espírito livre, os que pretendem mais do que simplesmente jogar o jogo banal do dar e receber, são incompatíveis com a vida nas organizações. p. 140


Quem se sabe único não sobrevive à privação de ser ele mesmo. A par da tolerância política e da tolerância psicofísica, cujos limites são elásticos, temos a tolerância ética, que é inelástica. p. 141


Um marido complacente entre nós é objeto de pena ou zombaria. Por que não se dá o mesmo em outras instâncias que não a do poder machista é um mistério para os antropólogos resolverem. O fato é que, em nossas organizações, a queixa, a busca do direito, é considerada falta de respeito, e a falta de respeito não pode ser tolerada sob pena de fazer ruir a tola disciplina organizacional ou a honra infantil de quem não leva desaforo para casa. p. 141


Quanto mais formal é o meio, mais "interpretada" se torna a informação. O conteúdo da mensagem é sempre decidido pelo receptor. p. 153


O que estamos vivenciando [...] é [...] o surgimento de novos tipos de organizações, virtuais, abertas, informais. Organizações de vinculação rarefeita, que favorecem o trabalho extra-organizacional, que valorizam o trabalhador solitário. p. 153


A transmissão e o acesso à informação dependem hoje mais do procura do que da oferta. p. 156


O trabalhador solitário com chances de sobreviver deve ser autárquico, autodidata, particular, único. Um trabalhador que se vincule à organização o estritamente necessário ao repasse de sua contribuição. Que se conecte, mas não se uma. p. 156


Foi Carlyle quem notou o paradoxo de um progressista ser sempre um conservador – ele conserva, ou quer conservar, a direção do progresso -, enquanto um conservador, um reacionário, é geralmente um rebelde: ele se rebela contra a direção do progresso. p. 158


[...] no futuro próximo, sobreviver ao trabalho continuará a ser pelo menos tão difícil quanto sobreviver à falta de trabalho. p. 163



GOLEM

KAFKA

WEBER

MAQUIAVEL

BORGES

VIDA E SISTEMA

Não há vida fora do sistema

Não existe vida no sistema

A vida e o sistema compõem-se mas não se integram

Viver é dominar o sistema

Viver é estar ausente do sistema

O MUNDO DO SISTEMA

Dá o sentido da vida

Não faz sentido

Tem um sentido diferente da vida

Só faz sentido como relação de poder e sujeição

Tira o sentido da vida

SOBREVIVE

Quem integra o sistema

Quem se desliga do sistema

Quem tolera o sistema

Quem domina o sistema

Quem é autônomo em relação ao sistema

TRAÇO

Mentalidade de gueto: sujeição como condição da existência

Estranhamento: separação entre o percebido e o que parecia lógico

Sociabilidade: destreza social para sobreviver no sistema

Métis: a sagacidade política para dominar o sistema

Ausência: a indiferença em relação ao sistema

 

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Regras básicas para influenciar, obter e manter o poder nas organizações

THIRTY-CHERQUES, Hermano Roberto. Sobreviver ao trabalho. Rio de Janeiro: FVG, 2004. 184 p.

A melhor síntese das regras básicas para influenciar, obter e manter o poder nas organizações ainda é a construída por Cohen e March (1974) sobre a liderança nos ginásios e universidades norte-americanas:

  1. gaste tempo

  2. persista

  3. troque posição por substância (por exemplo, troque status por reconhecimento social, posto por auto-estima)

  4. facilite a participação dos oponentes (não crie nem cultive inimigos)

  5. sobrecarregue o sistema (não de espaço para ociosidade)

  6. proponha projetos com os quais todos estejamd e acordo (evite polêmicas)

  7. prefira resultado do que visibilidade (evite áreas sensíveis)


Ao convencer os outros:

a) apresente as metas como hipóteses (não force)
b) use a intuição como se tivesse certeza
c) trate a hipocrisia como algo temporário (seja hipócrita)
d) trate a memória como inimiga (esqueça)
e) trate a experiência prática como se tivesse base teórica (o que todos sabemos) p. 100

terça-feira, 4 de novembro de 2008

A tolerância repressiva

[...] "tolerância repressiva" de Herbert Marcuse. Ele demonstrou, ou pretendeu demostrar, que a tolerância com os dissidentes da sociedade liberal tem o propósito de servir não para a emancipação de grupos e pessoas explorados, mas para adormecer os impulsos libertários. Com isso, torna-se repressiva, embora sob a aparência de libertadora. p. 131
 THIRTY-CHERQUES, Hermano Roberto. Sobreviver ao trabalho. Rio de Janeiro: FVG, 2004. 184 p.

Respeito nas organizações

O respeito em filosofia política é uma reverência perante uma razão superior. O respeito na linguagem cotidiana das organizações medeia entre a admiração e o temor. Respeitar um concorrente ou respeitar um parceiro é admirar o que ele fez ou temer o que ele possa fazer. A cooperação, se e quando existe nas organizações, é condição, não resultado de um interesse comum dos cooperantes. p. 134-135

THIRTY-CHERQUES, Hermano Roberto. Sobreviver ao trabalho. Rio de Janeiro: FVG, 2004. 184 p.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

O lugar da leitura e do leitor

CERTEAU, Michel de. Ler: uma operação de caça. In: ______ . A invenção do cotidiano: artes de fazer. 6. ed. Rio de Janeiro: Vozes, 2001. cap. XII, p. 259-273.

Com efeito, a leitura não tem lugar: Barthes lê Proust no texto de Stendhal; o telespectador lê a paisagem de sua infância na reportagem da atualidade [...] O mesmo se dá com o leitor: seu lugar não é aqui ou , um ou outro, mas nem um nem outro, simultaneamente dentro e fora, perdendo tanto um como o outro misturando-os, associando textos adormecidos mas que ele desperta e habita, não sendo nunca o seu proprietário. Assim, escapa também à lei de cada texto em particular, como à do meio social. p. 270

Sobre a credibilidade

CERTEAU, Michel de. A economia escriturística. In: ______ . A invenção do cotidiano: artes de fazer. 6. ed. Rio de Janeiro: Vozes, 2001. cap. X, p. 221-246.


Uma credibilidade do discurso é em primeiro lugar aquilo que faz os crentes se moverem. Ela produz praticantes. Fazer crer é fazer fazer. Mas por curiosa circularidade a capacidade de fazer se mover – de escrever e maquinar os corpos – é precisamente o que faz crer. p. 241

A douta ignorância

CERTEAU, Michel de. Foucault e Bordieu. In: ______ . A invenção do cotidiano: artes de fazer. 6. ed. Rio de Janeiro: Vozes, 2001. cap. IV, p. 111-130.

O uso do termo "estratégia" é [...] limitado. [...] Bordieu repete ao mesmo tempo que não se trata de estratégias propriamente falando: não há escolhas entre diversos possíveis, portanto "intenção estratégica"., [...] Não há previsão mas apenas um "mundo presumido" como a repetição do passado. Em suma, "como os indivíduos não sabem, propriamente falando, o que fazem, o que fazem tem mais sentido do que sabem". "Douta ignorância", portanto, habilidade que se desconhece. p. 124 (BORDIEU, 1970 apud CERTEAU, 2001, p. 124)

CERTEAU, Michel de. Sobre a memória

CERTEAU, Michel de. O tempo das histórias. In: ______ . A invenção do cotidiano: artes de fazer. 6. ed. Rio de Janeiro: Vozes, 2001. cap. VI, p. 151-166.

A memória – presença em meio à pluraridade dos tempos - é um princípio de economia: com o mínimo de força conseguir o máximo de efeito, multiplicando os efeitos pela rarefação dos meios.
Esta memória calcula e prevê as vias múltiplas do futuro, combinando as particularidades antecedentes ou possíveis [...] se introduzindo uma duração na relação de forças capaz de modifica-la [...] ficando escondida até o momento oportuno [...] o resplendor dessa memória brilha na ocasião. (CERTEAU, 1994, p. 156).

Isto implica em primeiro lugar a medição de um saber que tem por forma a duração de sua aquisição (CERTEAU, 1994, p. 158).

De I a II quanto menos força, mais se precisa de saber-memória;
De II a III, quanto mais há saber-memória, menos se precisa de tempo;
De III a IV, quanto menos tempo há, mais aumentam os efeitos.


Na composição de lugar inicial (I) o mundo da memória (II) intervém no momento oportuno (III) e produz modificações no espaço (IV). P. 160

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Máximas de Nietzsche

E reputemos perdido o dia em que não se dançou nem uma vez! E digamos falsa toda a verdade que não teve, a acompanhá-la, nem uma risada!

Nos malcasados, sempre encontrei as criaturas mais vingativas: fazem o mundo inteiro pagar por não mais poderem caminhar cada qual por sua conta.

Mais que todos, porém, é odiado quem voa.

Dinheiro e mulher

Dinheiro sendo gasto prodigamente com uma mulher é a mais impressionante exibição de poder que um homem pode fazer para ela. O pródigo exprime para a mulher beneficiária do seu esbanjamento o mesmo poder venerável que o seqüestrador, o torturador e o carrasco representam para sua vítimas. Mas há casos em que o sujeito não sendo podre de rico nem tendo soberania sobre a vida e a morte pode exercer um certo poder, mixuruca é verdade, sobre as mulheres: são os sujeitos que têm muita beleza, muito talento ou muita fama. Mas entre um poeta mavioso e um proprietário pomposo elas sempre escolhem o último p. 91.


FONSECA, Rubens. O buraco na parede. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Soneto espiritual

Mas que vida! Este mundo é o inferno!
Odeio trabalhar, o escritório é uma jaula
Onde ficam presos todos aqueles que não tem alma.
Deveríamos trazer conosco um cutelo

E ao final do expediente um ao outro atacar,
Para acabar com essa tortura que dizem que enobrece,
Este sentimento masoquista que a muitos apetece,
Esta coisa chata que é trabalhar.

Outro dia estava lendo sobre o mundo espiritual
E fiquei atordoado, pasmo de espanto:
Descobri que nem após a morte temos descanso.

No mundo espiritual também existe classe social,
Existem os menos e os mais evoluídos...
Apaguem a luz que eu não quero ser espírito!

f. foresti

Poema sem vontade

Um poema no início da tarde,
Uma poesia sem vontade,
Sem nada para dizer
Às treze e dezesseis...

Sim, é vera!
Não tenho nada a dizer,
Apenas quero escrever,
Assim, sem nada para contar.

f. foresti

LIPOVETSKY, Gilles. A felicidade paradoxal

LIPOVETSKY, Gilles. A felicidade paradoxal: ensaio sobre a sociedade do hiperconsumo. Tradução de Maria Lucia Machado. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. 402 p.


[...] a ambiência de estimulação dos desejos, a euforia publicitária, a imagem luxuriante das férias, a sexualização dos signos e dos corpos. Eis um tipo de sociedade que substitui a coerção pela sedução, o dever pelo hedonismo, a poupança pelo dispêndio, a solenidade pelo humor, o recalque pela liberação, as promessas do futuro pelo presente. p. 35

[...] a publicidade passou de uma comunicação construída em torno do produto e de seus benefícios funcionais a campanhas que difundem valores e uma visão que enfatiza o espetacular, a emoção, o sentido não literal, [...] significantes que ultrapassam a realidade objetiva dos produtos. p. 46

A ansiedade está [...] na origem do novo gosto dos jovens adolescentes pelas marcas. [...] Ostentar um logotipo, para um jovem, não é tanto querer alçar-se acima dos outros quanto não parecer menos que os outros. [...] levando à recusa de apresentar uma imagem de si maculada de inferioridade desvalorizada. [...] é por isso que a sensibilidade às marcas é exibida tão ostensivamente nos meios desfavorecidos. Por uma marca apreciada, o jovem sai da impessoalidade, pretende mostrar não uma superioridade social, mas sua participação inteira e igual nos jogos da moda, da juventude e do consumo. p. 50

Na sociedade de hiperconsumo, mesmo a espiritualidade é comprada e vendida. [...] Eis que a espiritualidade se tornou mercado de massa, produto a ser comercializado, setor a ser gerido e promovido. O que constituía uma barreira à explosão da mercadoria metamorfoseou-se em alavanca de seu alargamento. p. 132

O que antigamente era vivido como um destino de classe é experimentado como uma humilhação, uma vergonha individual. É assim que, no coração do planeta beestar, aumenta o sentimento de ser inútil no mundo, de ter sido usado e depois jogado fora, de ter falhado em tudo. p. 169

Uma nova etapa é transposta a partir dos anos 1920. Enquanto os suportes se multiplicam, os anúncios exploram temáticas e registros inéditos, que continuam em vigor em nossos dias: elogio da mulher moderna, maquiada e sedutora, culto da auto-realização, do conforto e dos lazeres, sacralização da juventude. p. 173

[...] a publicidade criou uma nova cultura cotidiana baseada numa visão mercantilizada da vida. p. 174

[...] o desaparecimento dos espaços desprovidos de signos comerciais. p. 175

[...] os objetivos da publicidade mostram-se mais ambiciosos; esta já não se contenta em ser o realce dos produtos, ei-la que exalta visões do mundo, passa mensagens, valores e idéias com vista à fidelização dos clientes. p. 175-176

A publicidade propõe, o consumidor dispõe: ela tem poderes, mas não tem todos os poderes. E, se ela provoca frustrações, é apenas nos limites do que corresponde aos gostos do consumidor. p. 178

A publicidade reflexo:
[...] alfabetizadas nas linguagens dos bens mercantis, alimentadas com o leite da mercadoria-espetáculo, as massas são de imediato consumistas, espontaneamente sedentas de compras e de evasões, de novidades e de maior bem-estar. p. 180

[...] a publicidade hipermoderna procura menos celebrar o produto que inovar, comover, distrair, rejuvenescer a imagem, interpelar o consumidor. p. 181-182

Ela educava o consumidor, agora o reflete. p. 182

[...] as prioridades do fazer vêm relativizar ou compensar as frustrações do ter. p. 189

Não existe mais subcultura análogo à dos guetos e da pobreza tradicional. Mesmo excluída do universo do trabalho, a população dos centros de cidade e dos subúrbios desqualificados partilha os valores individualistas e consumistas das classes médias, a preocupação com a personalidade individual e auto-realização. [...] importa cada vez mais, para o indivíduo, não ser inferiorizado, atingido em sua dignidade. É assim que a sociedade de hiperconsumo é marcada tanto pela progressão do sentimentos de exclusão social quanto pela acentuação dos desejos de identidade, de dignidade e de reconhecimento individual. p. 192

Desprezando a cultura operária e a cultura do trabalho, rejeitando a política e o sindicalismo, os jovens “marginalizados” constroem sua identidade em torno do consumo e da “grana”, da fanfarronada e da vigarice. p. 193

Se os desvios juvenis são uma das conseqüências da falência dos movimentos sociais, são também resultado de um mundo social desestruturado e privatizado pelo império do consumo mercantil, por novos modos de vida centrados no dinheiro, pela vida no presente, pela satisfação imediata dos desejos. p. 193

[...] os excluídos do consumo são eles próprios uma espécie de hiperconsumidores. Privados de verdadeira participação no mundo do trabalho, atormentados pela ociosidade e pelo tédio, os indivíduos menos favorecidos buscam compensações no consumo, na aquisição de serviços ou de bens de equipamento, mesmo que seja, [...] em detrimento do que é mais útil. p. 194

[...] não se sentem pobres apenas porque subconsomem bens e lazeres, mas também porque superconsomem as imagens da felicidade mercantil. p. 194

[...] o desemprego mudou de sentido: não sendo mais assimilado a um destino de classe, ele remete a um fracssso ou a uma insuficiência pessoal, freqüentemente acompanhada de auto-estigmatização. [...] Quanto mais as condições materiais gerais melhoram, mais se intensifica a subjetivização-psicologização da pobreza. p. 199-200

Em uma cultura entregue aos prazeres sensoriais e aos desejos de gozo aqui e gora, é toda a vida social e individual que, ao que nos dizem, está envolta num halo “orgiástico” [...] esgotamento do princípio de individualização e escalada correlativa da tribalização afetiva, das emoções vividas em comum, das sensibilidades coletivas. p. 209

Não é as novas epifanias do Mestre dos prazeres que nos é dado assistir, mas à encenação lúdico-hedonista de seus funerais. Nada de reencarnação dos valores orgiásticos, mas a invenção do cosmo paradoxal da hipermodernidade individualista. p. 211

O universo do lazer contemporâneo [...] é o da privatização dos prazeres, da individualização e da comercialização do tempo livre [...] a lógica que triunfa é a do tempo individualista do lazer-consumo. p. 212

O hiperindivíduo não é dionisíaco; consome ambiência dionisíaca instrumentalizando o coletivo com vista a satisfações privadas. p. 212

[...] se o lazer pode reafirmar coesão comunitária, é importante sublinhar-lhe o caráter lábil, efêmero, muitas vezes epidérmico. [...] o que o lazer refabrica é menos a preeminência do coletivo sobre o individual que uma divisão pacífica do social, feita de dispersão individualista dos gostos e dos comportamentos. p. 212-213

Os lazeres e os templos do consumo são fatores de comunhão? A verdade é que eles relacionam mais o indivíduo consigo mesmo do que provocam a união dos membros de uma mesma comunidade. p. 216

A felicidade não é, evidentemente, uma “idéia nova”. Nova é a idéia de ter associado a conquista da felicidade às “facilidades da vida”, ao Progresso, à melhoria perpétua da existência material. p. 217

Com os modernos, a felicidade da humanidade identifica-se com o progresso das leis, da justiça e das condições materiais de existência [...] não é mais a mudança de si que aparece como o caminho certo da felicidade, mas a transformação do mundo, a atividade fabricadora capaz de aliviar as penas, embelezar a vida, proporcionar cada vez mais satisfações materiais. p. 217

Centrado na acumulação dos bens, na eletrificação e na mecanização do lar, esse modelo de conforto é de tipo tecnicista-quantitativo e é sonhado como o que apaga as sujeições, como prótese miraculosa que traz higiene e intimidade, ganho de tempo e facilidade de vida, distração e entretenimento passivos. [...] Depois do conforto-luxo [...] o [...] conforto-liberdade (“a técnica liberta mulher”) [...] Vitrine do progresso técnico e da racionalização do cotidiano, instrumento de uma vida melhor, o conforto tornou-se a figura central da felicidade-repouso, dos gozos fáceis possibilitados pelo universo técnico-mercantil. p. 218-219

Alastra-se uma nova espécie de conforto que se identifica com a abundância informacional, as interações virtuais, a acessibilidade permanente e ilimitada. p. 227

[...] o design contemporâneo exibe uma nova predileção pelos objetos gordinhos, de linhas ovóides, criando um universo suave, maternal, acolhedor. [...] reconcilia-se com os arredondados. p.230

[...] a ambição do design não é mais tanto de erigir símbolos de modernidade triunfal quanto um meio ambiente acolhedor e reconfortante, um conforto hipermoderno que concilia o funcional e a experiência vivida emocional, a eficácia e as necessidades psíquicas do homem. p. 232

[...] Já não se fazem comilanças, fazem-se regimes. As prateleiras dos supermercados estão carregadas de alimentos biodinâmicos, de produtos com pouca gordura, “pró-bióticos” e outros alimentos saudáveis. Quanto as intermináveis refeições de domingo, elas nos causam horror. Comer com fartura [...] deixou de ser uma paixão popular, a época aprova as refeições equilibradas, a alimentação leve benéfica à saúde e à magreza. [...] Cada vez mais a alimentação é considerada como um meio de prevenção ou mesmo de tratamento de certas doenças: a saúde, a longevidade, a beleza tornaram-se os novos referenciais que enquadram a relação com a mesa. p. 233

No entanto, é nesse exato momento que se propagam como um maremoto as bulimias e outras anarquias alimentares. De um lado, os valores da magreza, de saúde e de equilíbrio alimentar [...] do outro, multiplicam-se as compulsões e frenesis do neocomedor. p. 235

Mas nada disso acena à alegria dionisíaca. Bem ao contrário. Os excessos à mesa eram de origem coletiva, os nossos são individuais; eram festivos, são neuróticos; constituíam uma figura da felicidade coletiva, agora culpabilizam os indivíduos, tomando um caráter vergonhoso e patológico em uma cultura que reconhece apenas o controle de si. p. 235

[...] vemos a alimentação conquistada, por sua vez, pela forma-moda, que transforma a refeição em [...] divertimento total, co comidas inéditas, [...] decoração design, música ao gosto do dia. p. 236

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Um livro é

Um livro é um mudo que fala, um surdo que responde, um cego que guia, um morto que vive.

VIEIRA, Padre Antônio

 

Eu desconfio de quem fala com a boca cheia

SANTOS, Joaquim Ferreira dos. Papo-Furado. Segundo Caderno. O Globo. Rio de Janeiro, 28 mar. 2005. Segundo Caderno. Disponível em: www.folha.com.br

Eu desconfio de quem fala com a boca cheia. Não de comida, que tem umas crianças lindas assim. Mas de boca cheia de palavras. Aprendi com o poeta que é preciso usar a faca afiada e enxugar a gordura verborrágica que, por nossa ignorância atávica, fomos acostumados a curtir nos deputados baianos, nos advogados paulistas, nos camelôs cariocas e nos pastores das universais do reino disso e daquilo. Uma das glórias nacionais é o sujeito que "fala bonito". Geralmente não passa de um perdulário das palavras. Gosta do volume que elas fazem na orelha do próximo. Dá preferência às mais complicadas do dicionário e gosta de juntá-las, uma atrás da outra, nem aí para o fato de não estarem significando senso algum. Então, o que que acontece?!... A grande platéia brasileirinha, que tem como requinte estético o malabarista de circo equilibrando garrafas, reconhece o pseudo-artista do verbo com a nova sardinha no focinho — e vibra invejosa de tanta falsa cultura.


Shinyashiki: Cuidado com os burros motivados

Em Heróis de verdade, o escritor combate a supervalorização da aparência e diz que falta ao Brasil é competência, e não auto-estima.

Roberto Shinyashiki
Report. Camilo Vannuchi (Isto é, 15/10/05)

"Hoje, como as pessoas não conseguem nem ser nem ter, o grande objetivo de vida se tornou parecer "

Observador contumaz das manias humanas, Roberto Shinyashiki está cansado dos jogos de aparência que tomaram conta das corporações e das famílias. Nas entrevistas de emprego, por exemplo, os candidatos repetem o que imaginam que deve ser dito. Num teatro constante, são todos felizes, motivados, corretos, embora muitas vezes pequem na competência. Dizem-se perfeccionistas: ninguém comete falhas, ninguém erra. Como Álvaro de Campos (heterônimo de Fernando Pessoa) em Poema em linha reta, o psiquiatra não compartilha da síndrome de super-heróis. "Nunca conheci quem tivesse levado porrada na vida (...) Toda a gente que eu conheço e que fala comigo nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho, nunca foi senão príncipe", dizem os versos que o inspiraram a escrever Heróis de verdade. Farto de semideuses, faz soar seu alerta por uma mudança de atitude. "O mundo precisa de pessoas mais simples e verdadeiras."

ISTOÉ - Quem são os heróis de verdade?
Roberto Shinyashiki - Nossa sociedade ensina que, para ser uma pessoade sucesso, você precisa ser diretor de uma multinacional, ter carro importado, viajar de primeira classe. O mundo define que poucas pessoas deram certo. Isso é uma loucura. Para cada diretor de empresa, há milhares de funcionários que não chegaram a ser gerentes. E essas pessoas são tratadas como uma multidão de fracassados. Quando olha para a própria vida, a maioria se convence de que não valeu a pena porque não conseguiu ter o carro nem a casa maravilhosa. Para mim, é importante que o filho da moça que trabalha na minha casa possa se orgulhar da mãe. O mundo precisa de pessoas mais simples e transparentes. Heróis de verdade são aqueles que trabalham para realizar seus projetos de vida, e não para impressionar os outros. São pessoas que sabem pedir desculpas e admitir que erraram.

ISTOÉ - O sr. citaria exemplos?
Shinyashiki - Dona Zilda Arns, que não vai a determinados programas de tevê nem aparece de Cartier, mas está salvando milhões de pessoas. Quando eu nasci, minha mãe era empregada doméstica e meu pai, órfão aos sete anos, empregado em uma farmácia. Morávamos em um bairro miserável em São Vicente (SP) chamado Vila Margarida. Eles são meus heróis. Conseguiram criar seus quatro filhos, que hoje estão bem. Acho lindo quando o Cafu põe uma camisa em que está escrito "100% Jardim Irene". É pena que a maior parte das pessoas esconda suas raízes. O resultado é um mundo vítima da depressão, doença que acomete hoje 10% da população americana. Em países como Japão, Suécia e Noruega, há mais suicídio do que homicídio. Por que tanta gente se mata? Parte da culpa está na depressão das aparências, que acomete a mulher que, embora não ame mais o marido, mantém o casamento, ou o homem que passa décadas em um emprego que não o faz se sentir realizado, mas o faz se sentir seguro.

ISTOÉ - Qual o resultado disso?
Shinyashiki - Paranóia e depressão cada vez mais precoces. O pai quer preparar o filho para o futuro e mete o menino em aulas de inglês, informática e mandarim. Aos nove ou dez anos a depressão aparece. A única coisa que prepara uma criança para o futuro é ela poder ser criança. Com a desculpa de prepará-los para o futuro, os malucos dos pais estão roubando a infância dos filhos. Essas crianças serão adultos inseguros e terão discursos hipócritas. Aliás, a hipocrisia já predomina no mundo corporativo.

ISTOÉ - Por quê?
Shinyashiki - O mundo corporativo virou um mundo de faz-de-conta, a começar pelo processo de recrutamento. É contratado o sujeito com mais marketing pessoal. As corporações valorizam mais a auto-estima do que a competência. Sou presidente da Editora Gente e entrevistei uma moça que respondia todas as minhas perguntas com uma ou duas palavras. Disse que ela não parecia demonstrar interesse. Ela me respondeu estar muito interessada, mas, como falava pouco, pediu que eu pesasse o desempenho dela, e não a conversa. Até porque ela era candidata a um emprego na contabilidade, e não de relações públicas. Contratei na hora. Num processo clássico de seleção, ela não passaria da primeira etapa.

ISTOÉ - Há um script estabelecido?
Shinyashiki - Sim. Quer ver uma pergunta estúpida feita por um presidente de multinacional no programa O aprendiz? "Qual é seu defeito?" Todos respondem que o defeito é não pensar na vida pessoal: "Eu mergulho de cabeça na empresa. Preciso aprender a relaxar." É exatamente o que o chefe quer escutar. Por que você acha que nunca alguém respondeu ser desorganizado ou esquecido? É contratado quem é bom em conversar, em fingir. Da mesma forma, na maioria das vezes, são promovidos aqueles que fazem o jogo do poder. O vice-presidente de uma das maiores empresas do planeta me disse: "Sabe, Roberto, ninguém chega à vice-presidência sem mentir." Isso significa que quem fala a verdade não chega a diretor?

ISTOÉ - Temos um modelo de gestão que premia pessoas mal preparadas?
Shinyashiki - Ele cria pessoas arrogantes, que não têm a humildade de se preparar, que não têm capacidade de ler um livro até o fim e não se preocupam com o conhecimento. Muitas equipes precisam de motivação, mas o maior problema no Brasil é competência. Cuidado com os burros motivados. Há muita gente motivada fazendo besteira. Não adianta você assumir uma função para a qual não está preparado. Fui cirurgião e me orgulho de nunca um paciente ter morrido na minha mão. Mas tenho a humildade de reconhecer que isso nunca aconteceu graças a meus chefes, que foram sábios em não me dar um caso para o qual eu não estava preparado. Hoje, o garoto sai da faculdade achando que sabe fazer uma neurocirurgia. O Brasil se tornou incompetente e não acordou para isso.

ISTOÉ - Está sobrando auto-estima?
Shinyashiki - Falta às pessoas a verdadeira auto-estima. Se eu preciso que os outros digam que sou o melhor, minha auto-estima está baixa. Antes, o ter conseguia substituir o ser. O cara mal-educado dava uma gorjeta alta para conquistar o respeito do garçom. Hoje, como as pessoas não conseguem nem ser nem ter, o objetivo de vida se tornou parecer. As pessoas parece que sabem, parece que fazem, parece que acreditam. E poucos são humildes para confessar que não sabem. Há muitas mulheres solitárias no Brasil que preferem dizer que é melhor assim. Embora a auto-estima esteja baixa, fazem pose de que está tudo bem.

ISTOÉ - Por que nos deixamos levar por essa necessidade de sermos perfeitos em tudo e de valorizar a aparência?
Shinyashiki - Isso vem do vazio que sentimos. A gente continua valorizando os heróis. Quem vai salvar o Brasil? O Lula. Quem vai salvar o time? O técnico. Quem vai salvar meu casamento? O terapeuta. O problema é que eles não vão salvar nada! Tive um professor de filosofia que dizia: "Quando você quiser entender a essência do ser humano, imagine a rainha Elizabeth com uma crise de diarréia durante um jantar no Palácio de Buckingham." Pode parecer incrível, mas a rainha Elizabeth também tem diarréia. Ela certamente já teve dor de dente, já chorou de tristeza, já fez coisas que não deram certo. A gente tem de parar de procurar super-heróis. Porque se o super-herói não segura a onda, todo mundo o considera um fracassado.

ISTOÉ - O conceito muda quando a expectativa não se comprova?
Shinyashiki - Exatamente. A gente não é super-herói nem superfracassado. A gente acerta, erra, tem dias de alegria e dias de tristeza. Não há nada de errado nisso. Hoje, as pessoas estão questionando o Lula em parte porque acreditavam que ele fosse mudar suas vidas e se decepcionaram. A crise será positiva se elas entenderem que a responsabilidade pela própria vida é delas.

ISTOÉ - É comum colocar a culpa nos outros?
Shinyashiki - Sim. Há uma tendência a reclamar, dar desculpas e acusar alguém. Eu vejo as pessoas escondendo suas humanidades. Todas as empresas definem uma meta de crescimento no começo do ano. O presidente estabelece que a meta é crescer 15%, mas, se perguntar a ele em que está baseada essa expectativa, ele não vai saber responder. Ele estabelece um valor aleatoriamente, os diretores fingem que é factível e os vendedores já partem do princípio de que a meta não será cumprida e passam a buscar explicações para, no final do ano, justificar. A maioria das metas estabelecidas no Brasil não leva em conta a evolução do setor. É uma chutação total.

ISTOÉ - Muitas pessoas acham que é fácil para o Roberto Shinyashiki dizer essas coisas, já que ele é bem-sucedido. O senhor tem defeitos?
Shinyashiki - Tenho minhas angústias e inseguranças. Mas aceitá-las faz minha vida fluir facilmente. Há várias coisas que eu queria e não consegui. Jogar na Seleção Brasileira, tocar nos Beatles (risos). Meu filho mais velho nasceu com uma doença cerebral e hoje tem 25 anos. Com uma criança especial, eu aprendi que ou eu a amo do jeito que ela é ou vou massacrá-la o resto da vida para ser o filho que eu gostaria que fosse. Quando olho para trás, vejo que 60% das coisas que fiz deram certo. O resto foram apostas e erros. Dia desses apostei na edição de um livro que não deu certo. Um amigão me perguntou: "Quem decidiu publicar esse livro?" Eu respondi que tinha sido eu. O erro foi meu. Não preciso mentir.

ISTOÉ - Como as pessoas podem se livrar dessa tirania da aparência?
Shinyashiki - O primeiro passo é pensar nas coisas que fazem as pessoas cederem a essa tirania e tentar evitá-las. São três fraquezas. A primeira é precisar de aplauso, a segunda é precisar se sentir amada e a terceira é buscar segurança. Os Beatles foram recusados por gravadoras e nem por isso desistiram. Hoje, o erro das escolas de música é definir o estilo do aluno. Elas ensinam a tocar como o Steve Vai, o B. B. King ou o Keith Richards. Os MBAs têm o mesmo problema: ensinam os alunos a serem covers do Bill Gates. O que as escolas deveriam fazer é ajudar o aluno a desenvolver suas próprias potencialidades.

ISTOÉ - Muitas pessoas têm buscado sonhos que não são seus?
Shinyashiki - A sociedade quer definir o que é certo. São quatro loucuras da sociedade. A primeira é instituir que todos têm de ter sucesso, como se ele não tivesse significados individuais. A segunda loucura é: "Você tem de estar feliz todos os dias." A terceira é: "Você tem que comprar tudo o que puder." O resultado é esse consumismo absurdo. Por fim, a quarta loucura: "Você tem de fazer as coisas do jeito certo." Jeito certo não existe. Não há um caminho único para se fazer as coisas. As metas são interessantes para o sucesso, mas não para a felicidade. Felicidade não é uma meta, mas um estado de espírito. Tem gente que diz que não será feliz enquanto não casar, enquanto outros se dizem infelizes justamente por causa do casamento. Você precisa ser feliz tomando sorvete, levando os filhos para brincar.

ISTOÉ - O sr. visita mestres na Índia com freqüência. Há alguma parábola que o sr. aprendeu com eles que o ajude a agir?
Shinyashiki - Quando era recém-formado em São Paulo, trabalhei em um hospital de pacientes terminais. Todos os dias morriam nove ou dez pacientes. Eu sempre procurei conversar com eles na hora da morte. A maior parte pega o médico pela camisa e diz: "Doutor, não me deixe morrer. Eu me sacrifiquei a vida inteira, agora eu quero ser feliz." Eu sentia uma dor enorme por não poder fazer nada. Ali eu aprendi que a felicidade é feita de coisas pequenas. Ninguém na hora da morte diz se arrepender por não ter aplicado o dinheiro em imóveis. Uma história que aprendi na Índia me ensinou muito.

O sujeito fugia de um urso e caiu em um barranco. Conseguiu se pendurar em algumas raízes. O urso tentava pegá-lo. Embaixo, onças pulavam para agarrar seu pé. No maior sufoco, o sujeito olha para o lado e vê um arbusto com um morango. Ele pega o morango, admira sua beleza e o saboreia. Cada vez mais nós temos ursos e onças à nossa volta. Mas é preciso comer os morangos.

Formas de pesquisa na web

CUNHA, Murilo Bastos da. Para saber mais: fontes de informação em ciência e tecnologia. Brasília: Briquet de Lemos, 2001. 168 p.
  1. BUSCA BOOLEANA (boolean search): tipo de busca que permite a utilização dos operadores E (AND, + ou &), NÃO (NOT, ou!), OU (OR) ou PRÓXIMO (NEAR ou ~) no sentido de incluir ou excluir documentos que contenham determinadas palavras ou termos;


  1. BUSCA DIFUSA (fuzzy search): busca de grafias alternativas de palavras fazendo combinações mesmo quando as palavras estão grafadas erradamente;


  1. BUSCA POR CONCEITO (concept search): busca de documentos que não contenham uma palavra específica mas que esteja relacionado conceitualmente com esta palavras;


  1. BUSCA POR FRASE (phrase search): busca por documentos que contenham uma frase ou sentença exata ou específica;


  1. BUSCA POR PALAVRA-CHAVE (keyword serach): estratégia de busca que requer que o resultado final contenha uma ou mais palavras especificadas;


  1. BUSCA POR PROXIMIDADE (proximity search): busca por documentos que contenham certas palavras perto de outra;


  1. ÍNDICE (índex): a lista de resultados da busca criado pelo macanismo de busca quando analisa sítios na web;


  1. RELEVÂNCIA (relevance): valor ou porcentagem de qualidade informativa de documentos recuperados de acordo com os termos de busca especificados previamente.


  1. BUSCA POR TRUNCAMENTO.


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