Um livro é um mudo que fala, um surdo que responde, um cego que guia, um morto que vive. (Padre Antônio Vieira)

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

O que esperar de fascistas?

Manifestante ferido na cabeça durante confronto com os acampados pró-ditadura militar em Brasília conta como a Marcha das Mulheres Negras acabou em racismo, covardia e pancadaria

Marcha Mulheres negras fascistas

O que essa roupa manchada de sangue revela (imagem acima) é a face truculenta de um movimento que clama pelo retorno à ditadura militar. O movimento está acampado em frente ao Congresso Nacional, e é o mesmo que tinha entre eles um policial civil, que há poucos dias foi preso por porte ilegal de arma, e que ontem foi flagrado disparando tiros para o alto quando a Marcha se manifestava em frente ao Congresso.

O grupo entrou em confronto com a grande Marcha das Mulheres Negras, que teve como bandeira ser "contra o racismo, a violência, e pelo bem viver". Num momento de tumulto, ocasionado pelo incômodo do grupo fascista ao ver as milhares de mulheres e homens negras(os) em marcha, o grupo passou a lançar rojões e bombas de efeito moral contra a marcha, e incitar o confronto. Um dos homens dizia "queria ver vocês era no 'pau de arara'!!".

Num outro momento um homem branco, vestido com roupas pretas e um boné preto, agredia mulheres e homens da Marcha com um guarda-chuva grande, que a cada golpe quebrava a estrutura metálica podendo furar alguém.

Um manifestante da Marcha (foto) se aproximou para somar esforços às mulheres e homens que estavam ali e gritou para o fascista "Ninguém aqui vai bater em mulher negra!". Essa era uma das bandeiras da Marcha: o fim da violência contra mulheres, e é sabido que as mulheres negras representam 60% do total de agressões de violência de gênero, e que o total de homicídios contra mulheres negras aumentou 54% em uma década.

O homem que defendia a ditadura militar e que estava sendo contido por mulheres da Marcha deixou de bater com o guarda-chuva nas pessoas ao seu redor e se voltou contra o militante negro para agredi-lo, ao que este reagiu, mas pouco depois foi derrubado por outros acampados defensores da ditadura.

Pelo visto, o que abriu o ferimento na cabeça do militante da Marcha foi o ferro do guarda-chuva, causando-lhe um ferimento leve, mas o bastante para provocar a hemorragia mostrada na foto. O rapaz, que prefere não se identificar, passa bem, e afirmou que barrar a violência, a ditadura e o racismo é um caminho necessário para um mundo igualitário, e que apesar de ser ferido na cabeça, os ideais defendidos na Marcha seguem agora mais fortes ainda.

Relato e imagem enviados a Pragmatismo Político por um manifestante que prefere não se identificar a fim de preservar sua integridade

http://www.pragmatismopolitico.com.br/2015/11/o-que-esperar-de-fascistas.html

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Brasil x Inglaterra

Tim Vickery: Minha primeira geladeira e por que o Brasil de hoje lembra a Inglaterra dos anos 60

Tim Vickery*Colunista da BBC Brasil
  • 13 novembro 2015
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Eduardo MartinoImage copyrightEduardo Martino

Acho que nasci com alguma parte virada para a lua. Chegar ao mundo na Inglaterra em 1965 foi um golpe e tanto de sorte. Que momento! The Rolling Stones cantavam I Can't Get no Satisfaction, mas a minha trilha sonora estava mais para uma música do The Who, Anyway, Anyhow, Anywhere.

Na minha infância, nossa família nunca teve carro ou telefone, e lembro a vida sem geladeira, televisão ou máquina de lavar. Mas eram apenas limitações, e não o medo e a pobreza que marcaram o início da vida dos meus pais.

Tive saúde e escolas dignas e de graça, um bairro novo e verde nos arredores de Londres, um apartamento com aluguel a preço popular – tudo fornecido pelo Estado. E tive oportunidades inéditas. Fui o primeiro da minha família a fazer faculdade, uma possibilidade além dos horizontes de gerações anteriores. E não era de graça. Melhor ainda, o Estado me bancava.

Olhando para trás, fica fácil identificar esse período como uma época de ouro. O curioso é que, quando lemos os jornais dessa época, a impressão é outra. Crise aqui, crise lá, turbulência econômica, política e de relações exteriores. Talvez isso revele um pouco a natureza do jornalismo, sempre procurando mazelas. É preciso dar um passo para trás das manchetes para ganhar perspectiva.

Será que, em parte, isso também se aplica ao Brasil de 2015?

Leia as colunas anteriores de Tim Vickery:

Como um aventureiro no Brasil da Era Vargas 'inspirou' James Bond

Três mitos falsos e ultrapassados sobre o Brasil

'Achei que fosse apanhar na rua por críticas ao Brasil'

Não tenho dúvidas de que o país é hoje melhor do que quando cheguei aqui, 21 anos atrás. A estabilidade relativa da moeda, o acesso ao crédito, a ampliação das oportunidades e as manchetes de crise – tudo me faz lembrar um pouco da Inglaterra da minha infância.

Por lá, a arquitetura das novas oportunidades foi construída pelo governo do Partido Trabalhista nos anos depois da Segunda Guerra (1945-55). E o Partido Conservador governou nos primeiros anos da expansão do consumo popular (1955-64). Eles contavam com um primeiro-ministro hábil e carismático, Harold Macmillan, que, em 1957, inventou a frase emblemática da época: "nunca foi tão bom para você" ("you've never had it so good", em inglês).

É a versão britânica do "nunca antes na história desse país". Impressionante, por sinal, como o discurso de Macmillan trazia quase as mesmas palavras, comemorando um "estado de prosperidade como nunca tivemos na história deste país" ("a state of prosperity such as we have never had in the history of this country", em inglês).

Arquivo PessoalImage copyrightArquivo PessoalImage captionVickery volta ao local onde passou sua infância

Macmillan, "Supermac" na mídia, era inteligente o suficiente para saber que uma ação gera uma reação. Sentia na pele que setores da classe média, base de apoio principal de seu partido, ficaram incomodados com a ascensão popular.

Em 1958, em meio a greves e negociações com os sindicatos, notou "a raiva da classe média" e temeu uma "luta de classes". Quatro anos mais tarde, com o seu partido indo mal nas pesquisas, ele interpretou o desempenho como resultado da "revolta da classe média e da classe média baixa", que se ressentiam da intensa melhora das condições de vida dos mais pobres ou da chamada "classe trabalhadora" ("working class", em inglês) na Inglaterra.

Em outras palavras, parte da crise política que ele enfrentava foi vista como um protesto contra o próprio progresso que o país tinha alcançado entre os mais pobres.

Mais uma vez, eu faço a pergunta – será que isso também se aplica ao Brasil de 2015?

Alguns anos atrás, encontrei um conterrâneo em uma pousada no litoral carioca. Ele, já senhor de idade, trabalhava como corretor da bolsa de valores. Me contou que saiu da Inglaterra no início da década de 70, revoltado porque a classe operária estava ganhando demais.

No Brasil semifeudal, achou o seu paraíso. Cortei a conversa, com vontade de vomitar. Como ele podia achar que suas atividades valessem mais do que as de trabalhadores em setores menos "nobres"? Me despedi do elemento com a mesquinha esperança de que um assalto pudesse mudar sua maneira de pensar a distribuição de renda.

Mais tarde, de cabeça fria, tentei entender. Ele crescera em uma ordem social que estava sendo ameaçada, e fugiu para um lugar onde as suas ultrapassadas certezas continuavam intactas.

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GettyImage copyrightGettyImage caption'Parte da crise política da Inglaterra foi vista como protesto contra o progresso entre os mais pobres', diz Vickery

Agora, não preciso nem fazer a pergunta. Posso fazer uma afirmação. Essa história se aplica perfeitamente ao Brasil de 2015. Tem muita gente por aqui com sentimentos parecidos. No fim das contas, estamos falando de uma sociedade com uma noção muito enraizada de hierarquia, onde, de uma maneira ainda leve e superficial, a ordem social está passando por transformações. Óbvio que isso vai gerar uma reação.

No cenário atual, sobram motivos para protestar. Um Estado ineficiente, um modelo econômico míope sofrendo desgaste, burocracia insana, corrupção generalizada, incentivada por um sistema político onde governabilidade se negocia.

A revolta contra tudo isso se sente na onda de protestos. Mas tem um outro fator muito mais nocivo que inegavelmente também faz parte dos protestos: uma reação contra o progresso popular. Há vozes estridentes incomodadas com o fato de que, agora, tem que dividir certos espaços (aeroportos, faculdades) com pessoas de origem mais humilde. Firme e forte é a mentalidade do: "de que adianta ir a Paris para cruzar com o meu porteiro?".

Harold Macmillan, décadas atrás, teve que administrar o mesmo sentimento elitista de seus seguidores. Mas, apesar das manchetes alarmistas da época, foi mais fácil para ele. Há mais riscos e volatilidade neste lado do Atlântico. Uma crise prolongada ameaça, inclusive, anular algumas das conquistas dos últimos anos. Consumo não é tudo, mas tem seu valor. Sei por experiência própria que a primeira geladeira a gente nunca esquece.

*Tim Vickery é colunista da BBC Brasil e formado em História e Política pela Universidade de Warwick

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Já era

Acabou-se o que era doce

vale mariana MG tragédia capitalismo

André Falcão*

Era uma vez uma empresa de nome poético como a região onde fazia morada: Vale do Rio Doce. Considerada a maior empresa de mineração do mundo, pertencia a um país chamado Brasil. Um dia, um príncipe, que reinava naquele país embora o regime não fosse oficialmente monárquico, tanto que nele havia um parlamento com vários representantes do povo, mas que ao povo não representavam, salvo uma minoria bastante minoritária, entendeu que o tal do Brasil, que estava devendo a deus e ao mundo, desrespeitado e desacreditado internacionalmente, deveria vender tudo o que tinha. Seu argumento, defendido pela grande mídia que lhe era subserviente, entre outras razões porque desfrutavam de muitas benesses, e deviam satisfação ao grande patrão, chamado EUA, todos escravos voluntários do seu deus, o capitalismo, era o de que o Brasil necessitava vender o que tinha para melhorar o emprego, educação, saúde, segurança, agricultura, representados pelos cinco dedos da mão de Sua Majestade.

Leia aqui todos os textos de André Falcão

Aí então o príncipe passou a vender o que via pela frente, inclusive a VRD. Vendia muito barato. E ainda ajudava os interessados, emprestando-lhes o dinheiro do país, em condições de pai para filho, para que esses comprassem o que o país oferecia. Alguns dizem que assim foi porque o príncipe era ruim de matemática. Outros, que houve muita ladroagem, comprovadas ou comprováveis, mas não deve ser verdade, já que as denúncias eram arquivadas pelo assessor geral do príncipe, que certamente o fazia porque deviam ser descabidas. A própria polícia do príncipe trabalhou muito pouco naqueles oito anos de reinado: apenas 48 operações, sinal de que estava tudo certo. Porém, os problemas do país, mesmo com a liquidação promovida, agravaram-se, inclusive aqueles dos cinco dedos.

Enquanto isto, a Vale do Rio Doce, antes orgulhosa de seu nome, homenagem às águas que eram e davam vida, sob novos donos entendeu de rebatizar-se, excluindo-o. Passou a chamar-se apenas Vale.

Leia também: Da lama à ordem: Mariana e o jornalismo que não dá nome aos bois

O que não se esperava, salvo para aqueles que conhecem bem de perto o deus capitalismo, é que a nova Vale iria extirpar o rio também da vida de toda a população daquela região daquele país. Sob os auspícios do seu deus, o Capitalismo, matou o rio Doce. Morreram também o Claudio, o Sileno, o Waldemir, a Emanuely (cinco aninhos, ela tinha), o Thiago, o Marcos Xavier, o Marcos Aurélio, a Maria Elisa, a Maria das Graças, o Antonio… Já são onze. Desaparecidos outros tanto. Foi no Brasil, essa tragédia. No Brasil.

*André Falcão é advogado e autor do Blog do André Falcão. Escreve semanalmente para Pragmatismo Político

http://www.pragmatismopolitico.com.br/2015/11/acabou-se-o-que-era-doce.html

Manifestantes pedem intervenção militar e apanham da Polícia Militar

Manifestantes que defendem a intervenção militar são colocados para correr por aqueles que consideravam heróis. Alguns chegaram a experimentar o gosto dos sprays de pimenta na cara. Muitos deles eram os mesmos que tiraram selfies com policiais e cachorros na Paulista e em Copacabana. Uma traição?

manifestantes Brasília intervenção militar

Kiko Nogueira, DCM

As milícias de extrema direita que estão acampadas em frente ao Congresso Nacional passaram por um vexame no 15 de novembro que faria qualquer pessoa normal enfiar a viola no saco.

Mas eles não são pessoas normais — são guerreiros do povo brasileiro, certo?

Menos de 2 mil se juntaram ao MBL e ao Vem Pra Rua (cuja líder é uma moça que se acorrentou numa pilastra) para pedir o impeachment de Dilma.

Sem pai (Cunha) nem mãe (Aécio), contaram com Joice Hasselmann, a ex-apresentadora da TV Veja que agora precisa se virar de algum jeito. Joice, que já não falava coisa com coisa, continuar sem falar coisa com coisa, exatamente o que seus fãs querem ouvir.

Renan Haas, o líder do MBL, mentiu dizendo que ônibus foram impedidos de chegar. Marcello Reis, dos Revoltados On Line, foi um pouco mais longe e colocou uma foto de 2013 para comprovar a "emboscada".

Marcellão, valente como sempre, surtou quando viu meia dúzia de índios e aproveitou para mais uma vez pedir dinheiro, desta feita para "contratar seguranças". Um ambulante entrevistado pelo Estadão estava triste. "Num dia bom, faço uns mil reais com a venda dos meus produtos. Hoje acho que vai ser meio difícil", disse Antônio de Souza.

No meio da chuva, enfim, veio o golpe de misericórdia nos golpistas: tomaram um cacete da PM.

Os doentes da intervenção militar invadiram o espelho d'água, tentaram um putsch e foram colocados para correr por aqueles que consideravam heróis. Alguns ainda experimentaram o gostinho dos sprays de pimenta na cara.

Muitos deles eram os mesmos que tiraram selfies com policiais e cachorros na Paulista e em Copacabana. Uma traição. Não bastasse, naquele dia seu guru Olavo de Carvalho, cada vez mais xarope, tomava uma invertida do Exército no Facebook.

intervenção militar
Manifestantes de Brasília chegaram a pedir intervenção militar para as forças armadas dos EUA

Chamou o general Eduardo Dias da Costa Villas Bôas, comandante da instituição, de "canalha", "traidor nojento", entrou outras ofensas pesadas. Foi avisado de que seus "xingamentos, acusações sem provas e publicações de boatos" seriam "analisados na esfera jurídica" e banido da página.

intervenção militar
Houve protesto também no Paraná (Imagem: divulgação)

Como a estupidez dessa corja não conhece limite, é possível que os gatos pingados continuem ali, em nome de uma entidade abstrata ("nosso povo", "gente de bem" e por aí vai), apanhando de quem eles consideravam aliados e prestando um favor enorme à democracia ao dar uma nova dimensão à expressão "vergonha alheia".

http://www.pragmatismopolitico.com.br/2015/11/manifestantes-pedem-intervencao-militar-e-apanham-da-policia-militar.html

terça-feira, 17 de novembro de 2015

A TV dos trouxas

The New York Times faz crítica-denúncia à Rede Globo: "TV irrealidade que ilude o Brasil"

Globo New York Times

A jornalista Vanessa Barbara apresentou uma dura crítica à Rede Globo em sua coluna no The New York Times na última terça-feira (10).

No artigo traduzido e veiculado no Brasil pelo UOL, a também colunista do Estadão e editora do site literário "A Hortaliça", analisou um dia de programações da emissora e descreveu o ato de assistir ao canal como "se acostumar a chavões e fórmulas cansadas".

As críticas vão dos telejornais aos talk shows e novelas.

Veja o texto na íntegra:

No ano passado, a revista "The Economist" publicou um artigo sobre a Rede Globo, a maior emissora do Brasil. Ela relatou que "91 milhões de pessoas, pouco menos da metade da população, a assistem todo dia: o tipo de audiência que, nos Estados Unidos, só se tem uma vez por ano, e apenas para a emissora detentora dos direitos naquele ano de transmitir a partida do Super Bowl, a final do futebol americano".

Esse número pode parecer exagerado, mas basta andar por uma quadra para que pareça conservador. Em todo lugar aonde vou há um televisor ligado, geralmente na Globo, e todo mundo a está assistindo hipnoticamente.

Sem causar surpresa, um estudo de 2011 apoiado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) apontou que o percentual de lares com um aparelho de televisão em 2011 (96,9) era maior do que o percentual de lares com um refrigerador (95,8) e que 64% tinham mais de um televisor. Outros pesquisadores relataram que os brasileiros assistem em média quatro horas e 31 minutos de TV por dia útil, e quatro horas e 14 minutos nos fins de semana; 73% assistem TV todo dia e apenas 4% nunca assistem televisão regularmente (eu sou uma destes últimos).

Entre eles, a Globo é ubíqua. Apesar de sua audiência estar em declínio há décadas, sua fatia ainda é de cerca de 34%. Sua concorrente mais próxima, a Record, tem 15%.

Assim, o que essa presença onipenetrante significa? Em um país onde a educação deixa a desejar (a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico classificou o Brasil recentemente em 60º lugar entre 76 países em desempenho médio nos testes internacionais de avaliação de estudantes), implica que um conjunto de valores e pontos de vista sociais é amplamente compartilhado. Além disso, por ser a maior empresa de mídia da América Latina, a Globo pode exercer influência considerável sobre nossa política.

Um exemplo: há dois anos, em um leve pedido de desculpas, o grupo Globo confessou ter apoiado a ditadura militar do Brasil entre 1964 e 1985. "À luz da História, contudo", o grupo disse, "não há por que não reconhecer, hoje, explicitamente, que o apoio foi um erro, assim como equivocadas foram outras decisões editoriais do período que decorreram desse desacerto original".

Com esses riscos em mente, e em nome do bom jornalismo, eu assisti a um dia inteiro de programação da Globo em uma terça-feira recente, para ver o que podia aprender sobre os valores e ideias que ela promove.

A primeira coisa que a maioria das pessoas assiste toda manhã é o noticiário local, depois o noticiário nacional. A partir desses, é possível inferir que não há nada mais importante na vida do que o clima e o trânsito. O fato de nossa presidente, Dilma Rousseff, enfrentar um sério risco de impeachment e que seu principal oponente político, Eduardo Cunha, o presidente da Câmara, está sendo investigado por receber propina, recebe menos tempo no ar do que os detalhes dos congestionamentos. Esses boletins são atualizados pelo menos seis vezes por dia, com os âncoras conversando amigavelmente, como tias velhas na hora do chá, sobre o calor ou a chuva.

A partir dos talk shows matinais e outros programas, eu aprendi que o segredo da vida é ser famoso, rico, vagamente religioso e "do bem". Todo mundo no ar ama todo mundo e sorri o tempo todo. Histórias maravilhosas foram contadas de pessoas com deficiência que tiveram a força de vontade para serem bem-sucedidas em seus empregos. Especialistas e celebridades discutiam isso e outros assuntos com notável superficialidade.

Eu decidi pular os programas da tarde –a maioria reprises de novelas e filmes de Hollywood– e ir direto ao noticiário do horário nobre.

Há dez anos, um âncora da Globo, William Bonner, comparou o telespectador médio do noticiário "Jornal Nacional" a Homer Simpson –incapaz de entender notícias complexas. Pelo que vi, esse padrão ainda se aplica. Um segmento sobre a escassez de água em São Paulo, por exemplo, foi destacado por um repórter, presente no jardim zoológico local, que disse ironicamente "É possível ver a expressão preocupada do leão com a crise da água".

Assistir à Globo significa se acostumar a chavões e fórmulas cansadas: muitos textos de notícias incluem pequenos trocadilhos no final ou uma futilidade dita por um transeunte. "Dunga disse que gosta de sorrir", disse um repórter sobre o técnico da seleção brasileira. Com frequência, alguns poucos segundos são dedicados a notícias perturbadoras, como a revelação de que São Paulo manteria dados operacionais sobre a gestão de águas do Estado em segredo por 25 anos, enquanto minutos inteiros são gastos em assuntos como "o resgate de um homem que se afogava causa espanto e surpresa em uma pequena cidade".

O restante da noite foi preenchido com novelas, a partir das quais se pode aprender que as mulheres sempre usam maquiagem pesada, brincos enormes, unhas esmaltadas, saias justas, salto alto e cabelo liso. (Com base nisso, acho que não sou uma mulher.) As personagens femininas são boas ou ruins, mas unanimemente magras. Elas lutam umas com as outras pelos homens. Seu propósito supremo na vida é vestir um vestido de noiva, dar à luz a um bebê loiro ou aparecer na televisão, ou todas as opções anteriores. Pessoas normais têm mordomos em suas casas, que são visitadas por encanadores atraentes que seduzem donas de casa entediadas.

Duas das três atuais novelas falam sobre favelas, mas há pouca semelhança com a realidade. Politicamente, elas têm uma inclinação conservadora. "A Regra do Jogo", por exemplo, tem um personagem que, em um episódio, alega ser um advogado de direitos humanos que trabalha para a Anistia Internacional visando contrabandear para dentro dos presídios materiais para fabricação de bombas para os presos. A organização de defesa se queixou publicamente disso, acusando a Globo de tentar difamar os trabalhadores de direitos humanos por todo o Brasil.

Apesar do nível técnico elevado da produção, as novelas foram dolorosas de assistir, com suas altas doses de preconceito, melodrama, diálogo ruim e clichês.

Mas elas tiveram seu efeito. Ao final do dia, eu me senti menos preocupada com a crise da água ou com a possibilidade de outro golpe militar –assim como o leão apático e as mulheres vazias das novelas.

http://www.pragmatismopolitico.com.br/2015/11/the-new-york-times-detona-a-globo-tv-que-ilude-o-brasil.html

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terça-feira, 10 de novembro de 2015

A ascensão do fascismo no Brasil do Século 21

"Na primeira noite, eles se aproximam   e roubam uma flor do nosso jardim. E não dizemos nada

Na segunda noite, já não se escondem, pisam as flores, matam nosso cão.  E não dizemos nada.

Até que um dia, o mais frágil deles, entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a luz,  e,

conhecendo nosso medo,  arranca-nos a voz da garganta."

fascismo-4Ataques fascistas contra Sedes do PT, dirigentes e ministros do PT tem se tornado cada vez mais frequentes. No discurso dos atacantes, o mesmo viés moralista usado por Mussolini e Hitler para chegar ao poder: acusar os adversários da corrupção e das mazelas da sociedade, repetindo constantemente as mesmas falsas acusações até que "se transformem em verdades para o senso comum". E do outro lado, dos falsamente acusados e do Partido dos Trabalhadores, uma incompreensão do que de fato esta acontecendo. Se os fascistas repetem o mesmo caminho moralista, do lado esquerdo também se repete a triste sensação de que estas ações do fascismo não representam perigo por parecerem idiotas. Mas é exatamente aí que mora o perigo. O Lockout (greve de patrões) que se iniciou nesta segunda-feira é mais uma etapa das várias que os fascistas, com o apoio dos tucanos golpistas tem levado a efeito desde o fatídico junho de 2013, quando algumas forças de esquerda, iludidas, se renderam aos movimentos golpistas articulados pelas redes sociais através desites e perfis financiados pelo grande capital nacional e internacional.Todos os ataques a dirigentes e ministros e todas as mobilizações golpistas tem ampla e repetida repercussão midiática. Goebels esta presente: "uma mentira repetida mil vezes, vira verdade para o senso comum". Para responder aos ataques fascistas, não basta a resposta individual de cada um dos atacados, como fez corretamente Patrus Ananias ontem em Belo Horizonte. É preciso que a esquerda retome para si a bandeira do verdadeiro combate a corrupção. E vá para as ruas com cada vez mais vigor. A palavra de ordem "Fora Cunha" expressa o combate a verdadeira corrupção, construído através do financiamento privado das campanhas e do toma lá, da cá que há muito campeia no Congresso Nacional. E é preciso ter clareza que não se trata do moralismo barato dos fascistas, que não se importam com a corrupção do Cunha mas enxergam a corrupção só no PT. Este mesmo fascismo que viceja cada vez mais nas ruas, foi chocado e é alimentado diuturnamente pela grande mídia. É este fascismo que faz aprovar no congresso nacional leis cada vez mais retrógradas. O Fascismo esta nas ruas. E precisa ser combatido com a força da lei. Para os fascistas não cola o tal "republicanismo" de certos dirigentes e governantes. Uma multa de R$ 1.900,00 não calará quem tem financiamento interno e externo para fazer o que esta fazendo. Eles querem desestabilizar um dos países mais importantes dos BRICS. E dono de empresa que paralisa atividades essenciais por interesse próprio, não esta fazendo "greve". Esta fazendo Lockout. E Lockout  é crime. E crime é punido com cadeia. Tratar fascistas com desdém já esta custando caro para a nação desde 2013. E o desdém tem alimentado a serpente (e sustentado a grande mídia que a protege) e permitido que ela se reproduza. Fascistas e nazistas golpistas são bandidos e assim devem ser tratados. O fascismo e o nazismo foram banidos das terras que os geraram. Esta condescendência do Estado Brasileiro com estas aberrações, em continuando, vai levar o Brasil ao mesmo caminho do narrado pelo Poema de Maiakowsky. Acorda PT.Acorda povo. Acorda Brasil!!! O fascismo não esta mais só no portão.Eles já roubaram flores e estão pisoteando as demais do nosso jardim. Logo eles seguirão a narrativa do poema. A não ser que sejam barrados. E isto não acontecerá com multas ou com "republicanismo", mas sim com a força do povo nas ruas. E pra isso tem que haver também sinais claros do governo de que entendeu quem de fato o defende. É preciso sinalizar com a retomada das pautas sociais para mitigar esta estranha submissão temporária ao projeto do adversário eleitoral.

https://luizmullerpt.wordpress.com/2015/11/09/a-ascensao-do-fascismo-no-brasil-do-seculo-21/

Parabéns, atingimos a burrice máxima

A "baranga" Simone de Beauvoir e a importância de um livro que ensina a conversar com fascistas

Por Eliane Brum, no El País

A fogueira de Simone de Beauvoir a partir da questão do ENEM mostrou que a burrice se tornou um problema estrutural do Brasil. Se não for enfrentada, não há chance. Hordas e hordas de burros que ocupam espaços institucionais, burros que ocupam bancadas de TV, burros pagos por dinheiro público, burros pagos por dinheiro privado, burros em lugares privilegiados, atacaram a filósofa francesa porque o Exame Nacional de Ensino Médio colocou na prova um trecho de uma de suas obras, O Segundo Sexo, começando pela frase célebre: "Uma mulher não nasce mulher, torna-se mulher". Bastou para os burros levantarem as orelhas e relincharem sua ignorância em volumes constrangedores. Debater com seriedade a burrice nacional é mais urgente do que discutir a crise econômica e o baixo crescimento do país. A burrice está na raiz da crise política mais ampla. A burrice corrompe a vida, a privada e a pública. Dia após dia.

Recapitulando alguns espasmos do mais recente surto de burrice. O verbete de Simone de Beauvoir (1908-1986) na Wikipedia, conforme mostrou uma reportagem da BBC, foi invadido para tachar a escritora de "pedófila" e "nazista". A Câmara de Vereadores de Campinas, no estado de São Paulo, aprovou uma "moção de repúdio" à filósofa. O deputado Marco Feliciano (PSC-SP), da Bancada da Bíblia, descobriu na frase "uma escolha adrede, ardilosa e discrepante do que se tem decidido sobre o que se deve ensinar aos nossos jovens". Em sua página no Facebook, o promotor de justiça do município paulista de Sorocaba, Jorge Alberto de Oliveira Marum, chamou Beauvoir de "baranga francesa que não toma banho, não usa sutiã e não se depila". Como o tema da redação do ENEM era "a persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira", houve gente que estudou em colégios caros afirmando que este era um tema de esquerda, e portanto um sinal inequívoco de uma conspiração ideológica por parte do governo federal. Como sugeriu o crítico de cinema Inácio Araújo em seu blog, se defender que a mulher tenha o direito de andar sem ser perturbada, agredida e chutada é tema de esquerda, isso só pode significar que a direita vai muito mal.

Está cada vez mais difícil fazer humor no Brasil. Como nada do que foi relatado acima é piada, somos submetidos cotidianamente a uma experiência de perversão. Também não tem sido fácil escrever quando não se é humorista, por que o que se pode dizer, seriamente, diante de uma moção de repúdio à Simone de Beauvoir? Mas é preciso tratar com seriedade, porque talvez não exista nada mais sério do que a boçalidade que atravessa o país. Torna-se urgente, prioritário, fazer um esforço coletivo e enfrentar a burrice com o único instrumento capaz de derrotá-la: o pensamento.

Esta é a potência e a generosidade de um livro lançado pela filósofa Marcia Tiburi, escritora e professora universitária. O título vai direto ao ponto, afinal os tempos são graves demais para papinhos de salão:Como conversar com um fascista – reflexões sobre o cotidiano autoritário brasileiro (Record). Nas 194 páginas, Marcia enfrenta as várias faces do cotidiano atual com profundidade, mas de forma acessível a quem não está familiarizado com os conceitos. Faz o mais difícil: escrever simples sem simplificar. É um livro que se pretende para todos, e não para os seus pares. Quem acompanha a trajetória da filósofa conhece a sua coragem. E este é um livro de coragem, já que é tão difícil quanto arriscado escrever sobre o que está em movimento, sem a proteção assegurada pelo distanciamento histórico. Poucos são os intelectuais que se arriscam a sair do conforto de seus feudos para enfrentar o debate público com suas dúvidas. E por isso aqueles que se arriscam de forma honesta, sem ficar arrotando suas certezas e suas credenciais, ou usando-as para massacrar aqueles que já são massacrados, são tão preciosos.

"Eu queria saber por que dialogar é impossível", conta Marcia Tiburi, sobre a pergunta que a moveu nessa busca. Para enfrentar a ausência do pensamento, a filósofa propõe a resistência pelo diálogo. Este é um esforço de cada um –e de todos. Arriscar-se a deixar o "isolamento em comunidade", a forma atual da vida social e política, para confrontar o que ela chama de "consumismo da linguagem". Compreender o confronto atual como um confronto entre direita e esquerda, desenvolvimentistas e ecologistas, governistas e oposicionistas, machistas e feministas é, segundo ela, uma redução. O confronto atual seria mais profundo e também mais dramático: entre os que pensam e os que não pensam.

O exercício que faço, deste parágrafo em diante, é buscar compreender a fogueira em que Simone de Beauvoir foi jogada nos últimos dias, entre outros fatos recentes, a partir das ideias deste livro. Para começar, a seriedade do episódio do ENEM pode ser demonstrada neste trecho tão agudo: "Se levarmos em conta que falar qualquer coisa está muito fácil, que falamos em excesso e falamos coisas desnecessárias, um novo consumismo emerge entre nós, o consumismo da linguagem. O problema é que ele produz, como qualquer consumismo, muito lixo. E o problema de qualquer lixo é que ele não retorna à natureza como se nada tivesse acontecido. Ele altera profundamente nossas vidas em um sentido físico e mental. O que se come, o que se vê, o que se ouve, numa palavra, o que se introjeta, vira corpo, se torna existência".

Vale perguntar. Num país em que a preocupação com a educação é uma flatulência, em que a não educação é a regra, para onde vai o lixo e que tipo de impacto ele produz na tessitura do cotidiano, nos corações e mentes de quem o consome? O que acontece com a fogueira de Simone de Beauvoir num contexto em que aqueles que a jogaram no fogo possivelmente sequer a leram? Que restos dos discursos vazios sobre a filósofa permanecerão na memória de uma população que não tem seus livros na estante e que tipo de eco produzirão?

Como dimensionar a gravidade de um vereador eleito, pago com dinheiro público para legislar e, portanto, para decidir destinos coletivos, dizer que a escolha da frase de Simone de Beauvoir para uma prova do ENEM é algo "demoníaco", como afirmou Campos Filho (DEM)? E como enfrentá-la com a seriedade necessária?

Com a palavra, o autor da "moção de repúdio": "Foram buscar lá Simone de Beauvoir, lá pro ano de mil trocentos e pôco.... (...) A grande maioria é favorável à lei da natureza. Homem é homem. Mulher é mulher. (...) Cuidado com essa pulsão, essa pulsão pode levar à cadeia. O senhor pode passar na frente do caixa eletrônico e ter uma pulsão de vontade de roubar e vai preso. Pode ter uma pulsão de vontade de estuprar e vai preso. Então, tomem cuidado com essa pulsão, ah, hoje de manhã sou menina, agora à noite eu sou homem....".

O vereador nem sequer sabe em que século Simone de Beauvoir nasceu, viveu e produziu pensamento – "miltrocentos e pôco". Nem sequer tentou compreender o que a frase citada no ENEM significa. Não é engraçado. É a ruína causando mais ruína. O que interessa é fazer barulho, porque o barulho encobre o vazio de ideias. O que importa é perverter a palavra, usando o que sequer tentou entender para enclausurar o pensamento e reafirmar a certeza em nome de uma suposta "lei da natureza" que jamais existiu. A perversão do fascista é a de acusar o outro de manipulação ideológica quando é ele o manipulador. É acusar o outro de impor um pensamento quando é ele que empreende todo os esforços para barrar qualquer pensamento. É impedir o diálogo denunciando o outro pelo ato que ele próprio cometeu. É nessa repetição de boçalidades que seguem os discursos de outros vereadores, invocando clichês bíblicos, lembrando de Sodoma e Gomorra e Adão e Eva, abusando de Deus.

Para perverter a realidade, o fascista conta com o consumismo da linguagem. Trata-se, como aponta Marcia Tiburi, de um vazio repleto de falas prontas. Não é um vazio silencioso, espaço aberto para buscar o outro, o inusitado, o surpreendente. Mas sim um vazio barulhento, abarrotado de clichês, de frases repetidas e repetitivas, usadas para se proteger do pensamento. Os lugares-comuns, neste caso específico a constante invocação de Deus e de leis bíblicas, são usados como um escudo contra a reflexão. Todo o esforço é empreendido para não existir qualquer chance de pensamento, ainda que um bem pequenino.

Neste vazio, a filósofa acredita que os meios tecnológicos e a mídia desempenham um papel crucial. Repete-se o que é dito na TV, no rádio. Fala-se, muito, sem pensar no que se diz. No gesto do mero "compartilhar" sem ler, tão fácil quanto comprar com um clique pela internet, foge-se do pensamento analítico e crítico, trocando-o pelo vazio consumista da linguagem e da ação repetitiva. É assim que a burrice se multiplica em cliques, propagando-se em rede. O título deste artigo é esperançoso, mas não corresponde à realidade: a burrice não tem limites, ela sempre pode atingir patamares ainda mais extremos.

Episódios semelhantes à "moção de repúdio" à Simone de Beauvoir ocorriam esporadicamente em rincões afastados, e logo eram ridicularizados. Hoje, acontecem na Câmara de Vereadores de uma das maiores e mais ricas cidades do estado de São Paulo, no sudeste do Brasil, uma cidade que abriga várias universidades, entre elas a Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), uma das mais respeitadas do país. E cadê os intelectuais? Rindo dos burros nas cantinas universitárias? Será? Não era de se esperar mais iniciativas de busca do diálogo, de criação de oportunidades para explicar quem é Simone de Beauvoir e refletir sobre sua obra, ou mesmo a ocupação da Câmara, para produzir reação e movimento que permitisse o conhecimento e combatesse a ignorância?

Talvez o polêmico livro Submisssão (Alfaguara), do francês Michel Houellebecq, possa ter alguma ressonância maior por aqui. Nele, só para lembrar, o protagonista é um acadêmico desencantado que se depara com a vitória de um partido islâmico nas eleições da França. Depois de assistir ao desenrolar dos acontecimentos pela TV, já que não se sente motivado a participar de nenhum debate que não seja sobre a sua própria tese acadêmica (ou nem mesmo sobre ela), se choca com o resultado eleitoral. É o protagonista que não protagoniza –ou só protagoniza por omissão (ou submissão). Aos poucos, os novos donos do poder lhe acenam não só com a manutenção dos privilégios, mas com uma considerável ampliação dos privilégios. E ele, afinal, conclui que aderir pode não ser tão ruim assim.

Os burros estão por toda parte e muitos deles estudaram nas melhores escolas e, o pior, muitos ensinam nas melhores escolas. A "moção de repúdio" à Simone de Beauvoir foi aprovada pela Câmara de Campinas por 25 votos a cinco. Assim, os burros são a maioria. É preciso enfrentá-los com pensamento, fazer a resistência pelo diálogo. Ou, como diz Marcia Tiburi: "Sem pensamento não há diálogo possível nem emancipação em nível algum. Se não houver limites para a idiotice, resta isolar-se e estocar alimentos".

O promotor e professor universitário que reduziu Simone de Beauvoir a "uma baranga", ao comentar a questão do ENEM em sua página no Facebook, fez o seguinte comentário: "Exame Nacional-Socialista da Doutrinação Sub-Marxista. Aprendam jovens: mulher não nasce mulher, nasce uma baranga francesa que não toma banho, não usa sutiã e não se depila. Só depois é pervertida pelo capitalismo opressor e se torna mulher que toma banho, usa sutiã e se depila". Depois da repercussão negativa, o que incluiu uma nota de repúdio por parte da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), Jorge Alberto de Oliveira Marum apagou os posts e defendeu-se, em outra postagem, alegando que pretendia ter sido irônico: "Ironia, para quem não sabe, é uma figura de linguagem que consiste em afirmar o contrário do que se pensa". Interprete-se.

"Distorcer é poder" é o título de um dos capítulos do livro em que a filósofa enfrenta a prática amplamente difundida de esvaziar as palavras pela distorção. Como transformar a vítima em culpada, como se faz rotineiramente com as mulheres no falso debate do aborto, por exemplo, ou no tratamento do estupro. Ou distorcer para que aquele que detém os privilégios pareça ser o que têm seus direitos ameaçados: o branco, por exemplo, quando se apresenta como prejudicado pelo sistema de cotas raciais que busca reparar injustiças históricas cometidas contra os negros, ocultando assim que sempre foi o privilegiado; ou quando se invoca um suposto "orgulho heterossexual" na tentativa de mascarar a violência contra os homossexuais, alegando que querem privilégios, quando todos sabem que a heterossexualidade jamais foi contestada ou atacada, nem em sua expressão nem em seus direitos. E também é por essa conversão que os manifestantes de junho de 2013 foram tachados de "vândalos" por parte da mídia e, hoje, uma lei em discussão no Congresso ameaça converter quem protesta em "terrorista".

A própria "democracia" pode ser vista a partir da prática da distorção, já que há aquela, mais difundida, que é vendida pelo mercado. "De um lado, há uma democracia que deve parecer como realizada, contra outra democracia, que está na ordem do desejo e do sonho e que não teria preço". O capitalismo sequestra a democracia também como palavra, que passa a ser consumida, junto com outras: felicidade, ética, liberdade, oportunidade, mérito. Palavras que a filósofa chama de "mágicas", invocadas a serviço do ocultamento da opressão. "Antidemocrático, o capitalismo precisaria ocultar sua única democracia verdadeira: a partilha da miséria e, hoje em dia, cada vez mais, a matabilidade", afirma Marcia Tiburi.

Quando se invade o verbete de Simone de Beauvoir na Wikipedia é também disso que se trata: distorcer e replicar até virar "verdade". Aliena-se os fatos de seu contexto histórico para produzir rótulos. Assim, após o ENEM, a filósofa foi tachada de "pedófila" e de "nazista". Ambas as afirmações já foram retiradas da página pelo responsável, avisando que a manteria fechada até "que o furor acabasse e as pessoas perdessem o interesse em danificar o artigo". Entre as dezenas de distorções do verbete, segundo a matéria da BBC, um usuário disse que a filósofa havia escrito um "livro de estupro". Outro informou que Beauvoir era uma "antifeminista". Um terceiro disse ainda que ela era "muito conhecida por seu comodismo e pela luta na justiça por uma lei que proibia o trabalho das mulheres fora de casa".

As distorções servem à reprodutibilidade da burrice. Ao converter a filósofa no que é interpretado como o mais monstruoso – "pedófila" e "nazista" – o objetivo é tornar impossível refletir sobre o que ela escreveu: "uma mulher não nasce mulher, torna-se mulher". A ampla distorção das palavras serve, de novo, ao vazio do pensamento. Pede-se aos burros que a repliquem à exaustão em cliques histéricos. A linguagem, como escreve Marcia Tiburi, tem sido rebaixada à distribuição da violência – também pelos meios de comunicação e pelas redes sociais. "Vivemos no império da canalhice, onde a burrice, tanto como categoria cognitiva quanto moral, venceu", afirma. "Ela se transformou no todo do poder."

Aderir é viver. Esta parece ser a frase deste momento de orgulho da ignorância e exaltação da burrice. Aqui, a pergunta se impõe: "se a linguagem nos tornou seres políticos, a destruição da linguagem nos tornará o quê?".

Na semana passada, foi divulgado na página da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República um estudo que reuniu pesquisadores de diversas instituições, apresentado como o mais completo já feito no Brasil sobre os efeitos da mudança climática. Refletir seriamente sobre a mudança climática é urgente, mas há muito menos pensamento e ação do que o momento exigiria, apesar de estarmos às vésperas da Conferência do Clima em Paris. Assim, a divulgação de um estudo com as conclusões a que se chegou poderia ser uma oportunidade excelente para promover participação e diálogo. Mas, entre as tantas previsões que apontaram para um possível drama climático daqui a 25 anos, em 2040 – doenças, calor extremo, falta d'água e de energia etc –, uma foi destacada por diferentes veículos da imprensa: a possível perda de uma área imobiliária avaliada em R$ 109 bilhões no Rio de Janeiro, devido à elevação do nível do mar causada pelo aquecimento global.

Não as perdas humanas, não a corrosão da vida, não o aniquilamento dos mais pobres e dos mais frágeis. Não. O que se destaca é aquilo que se monetariza, é a perda do patrimônio material, no caso imobiliário. O que merece título é o cifrão. O episódio evoca um dos capítulos mais interessantes de Como conversar com um fascista: "O capitalismo é a redução da vida ao plano econômico. (...) O pensamento está minado pela lógica do 'rendimento'. Viver torna-se uma questão apenas econômica. A economia torna-se uma forma de vida administrada com regras próprias, tais como o consumo, o endividamento, a segurança pela qual se pode pagar. Tudo isso é sistêmico e, ao mesmo tempo, algo histérico. (...) As palavras funcionam como estigmas ou como dogmas que sustentam ideias orientadoras de práticas". Se a ordem do discurso capitalista é basicamente teológica, é porque ele funciona como uma religião no âmbito das escrituras e das pregações (em geral no púlpito tecnológico da televisão)". Se depois de tanto calarmos sobre a mudança climática, falarmos dela a partir da lógica monetária, estamos todos (mais) perdidos.

Mas é em outro episódio destes últimos dias que a perversão do Brasil atual se revelou em toda a sua monstruosidade: a Divisão de Homicídios da Polícia Civil do Rio de Janeiro concluiu em inquérito que o policial que matou um menino de dez anos agiu em "legítima defesa". Eduardo de Jesus brincava na porta da sua casa, numa das favelas do Complexo do Alemão, quando teve a cabeça atingida por um tiro de fuzil. Sua mãe encontrou parte do seu cérebro na sala. O inquérito isentou de qualquer responsabilidade os policiais envolvidos, por estarem supostamente em confronto com narcotraficantes. Eles teriam apenas "errado" o tiro.

Eduardo estava a cinco metros do policial que o matou. Terezinha de Jesus, a mãe do menino, afirma que não havia tiroteio naquele dia. "Eu parti para cima do policial. Gritei que tinha matado meu filho e ele me respondeu, com seu fuzil na minha cabeça, que igual que tinha matado ele poderia também me matar, porque o menino era filho de bandido. Nunca vou esquecer aquilo. Posso estar em qualquer lugar do mundo, que nunca esquecerei a cara daquele policial". Ao ser informada por jornalistas que a polícia concluiu que seu filho foi morto em legítima defesa, Terezinha disse que sentia vontade "de quebrar tudo".

Quando a perversão supera tal limite é porque estamos quase no ponto de não retorno. "Não acabaremos com o ódio pregando o amor", diz Marcia Tiburi. "Mas agindo em nome de um diálogo que não apenas mostre que o ódio é impotente, mas que o torne impotente."

Em Como conversar com um fascista, a filósofa defende a necessidade de começar a tentar falar de outro modo. O diálogo não como salvação, mas como experimento, como ativismo filosófico para enfrentar a antipolítica. A política, lembra a autora, "é laço amoroso entre pessoas que podem falar e se escutar não porque sejam iguais, mas porque deixaram de lado suas carapaças de ódio e quebraram o muro de cimento onde suas subjetividades estão enterradas".

Num país de antipolítica e antieducação generalizada como o Brasil é preciso se mover. É urgente aprender a conversar com um fascista, mesmo que pareça impossível. Expor ao outro aquele que não suporta a diferença. Revelar suas contradições e confrontá-lo pelo diálogo é um ato de resistência. Enfrentar a burrice com a única arma que ela teme: o pensamento.

É isso ou não vai adiantar nem estocar alimentos.

Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista. Autora dos livros de não ficçãoColuna Prestes - o Avesso da Lenda, A Vida Que Ninguém vê, O Olho da Rua, A Menina Quebrada, Meus Desacontecimentos, e do romance Uma Duas. Site:desacontecimentos.com Email:elianebrum.coluna@gmail.com Twitter:@brumelianebru

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Obsessão da mídia elegerá Lula em 2018

Obsessão da mídia elegerá Lula em 2018

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A denúncia da Época contra três ou quatro petistas, incluindo Lula, é inovadora em vários sentidos.

Em primeiro lugar, mostra a hipocrisia da imprensa.

Quando um dado bancário de tucano, ou de qualquer um ligado ao PSDB, é vazado, a imprensa invoca o sagrado direito ao sigilo, que estaria sendo conspurcado por algum bolchevique do PT.

Independente da denúncia, a imprensa vai atrás do vazador.

Quando as vítimas do vazamento são petistas, os escrúpulos em favor da importância do sigilo são todos jogados no lixo.

A segunda inovação é quanto ao cálculo dos valores.

Com objetivo de inflar o número, a Época - que pertence à Globo - fala em "movimentação financeira" de R$ 294 milhões. O valor real é metade disso, mas usa-se o conceito de movimentação para produzir um factoide político de maior efeito.

A meta é enganar o leitor, como sempre.

A troco de que juntar vários indivíduos numa denúncia só? A denúncia não aponta nenhuma conexão entre os três. Lula ganha dinheiro de um jeito. Palocci, de outro. Erenice, de outro.

O objetivo parece ser exclusivamente insuflar o ódio anti-PT. É um objetivo sujo, fascista, de estimular o ódio político e manipular a informação.

É uma tática malandra também, porque a Veja já tinha vazados os dados bancários de Lula meses atrás. A Época agora requenta a notícia, e junta outros petistas, para dar um ar de novidade.

É uma coisa doentia.

Junta várias pessoas.

Junta vários anos de arrecadação financeira.

Não usa o valor arrecadado e sim a "movimentação financeira", ou seja, duplica o valor, de maneira completamente estúpida no sentido jornalístico, porque soma o valor recebido à transferência daquele valor para outro banco.

Tudo para criar um factoide político.

Quando você vai ler a reportagem, descobre que a empresa de Lula faturou, de 2011 até hoje, R$ 27 milhões.

O que Lula está fazendo ao lado, portanto, do número de quase R$ 300 milhões mostrado pela Época?

Aí a Época fala em "movimentação" de R$ 52 milhões, porque soma o que Lula recebeu em sua conta com a transferência desse mesmo valor para outra conta.

É surreal.

Uma aposta incrivelmente alta na burrice do leitor.

Ora, a renda de Lula é praticamente pública.

Esses R$ 27 milhões, divididos por cinco anos e depois por 12 meses, dá R$ 450 mil por mês, ou um pouco mais de US$ 100 mil dólares por mês, e isso para sustentar as atividades políticas da maior figura política do Brasil, seu instituto, além de sua família.

Ora, qualquer um com um mínimo de noção financeira, sabe que celebridades auferem esses valores com facilidade.

Ou eles são tão alienados que duvidam que Lula seja a maior celebridade de todas?

Sem contar que os valores não correspondem a lucro líquido. Lula ainda tem de pagar uma boa parte desse valor à Receita Federal, além de todos os custos do seu trabalho, que inclui os transportes, as hospedagens, a alimentação, consultores, seguranças privados, etc, tudo isso não só para ele, mas para todo o seu staff.

É uma renda perfeitamente compatível com o status de Lula, um dos homens mais famosos e mais respeitados em todo mundo, e com o seu trabalho como palestrante, consultor e liderança política mundial.

Na verdade, chega a ser engraçado: a Veja já publicou os extratos bancários de Lula. A Época agora traz dados do Coaf.

Telefonemas e emails de Lula estão sendo vazados pela polícia política da Lava Jato.

Lula, que hoje, em tese, é apenas um cidadão, no gozo de seus direitos políticos, tornou-se a pessoa mais transparente do país.

Em 2018, o povo terá a tranquilidade de escolher um governante cuja vida já foi completamente devassada pela mídia - e não se encontrou nenhuma irregularidade - e um ou outro tucano cercado de mistério e blindagem.

A mídia, em seu afã para destruir Lula, está construindo a sua plataforma de campanha.

Lula, um homem transparente.

O que estamos vendo é uma caça desavergonhada, inescrupulosa, sem limites, ao ex-presidente, tentando criminalizá-lo de todas as formas, e inviabilizá-lo politicamente.

E para que juntar Lula com Palocci e Erenice?

Por que o Coaf não vaza e a Época não publica então o quanto Serra, Aécio, FHC, e mais um ou dois tucanos de alta plumagem ganharam desde 2011, não junta tudo num só pacote, e usa o conceito de movimentação financeira, para dobrar o valor efetivamente recebido por todos, e, com isso alardear um número impressionante qualquer?

Ah, a matéria também cita Pimentel, que entra na história porque teria retirado R$ 150 mil em espécie alguns dias após o final de sua campanha.

Ora, mais uma vez, vemos o desrespeito absoluto em relação ao sigilo de qualquer cidadão que não seja da turminha da mídia.

Mas fica a dúvida: porque Pimentel entrou nesse bolo? O que tem a ver o seu saque de R$ 150 mil com Erenice Guerra, etc?

É porque são petistas? É assim?

Por que então a Coaf, que pelo visto entrou na onda do golpismo, não quebra logo o sigilo de todos os petistas do Brasil, e só do petistas, e age logo como uma entidade nazista?


http://www.ocafezinho.com/2015/11/02/obsessao-da-midia-por-lula-ajudara-petista-a-se-eleger-em-2018/?utm_source=dlvr.it&utm_medium=twitter

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