Um livro é um mudo que fala, um surdo que responde, um cego que guia, um morto que vive. (Padre Antônio Vieira)

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Ode à Noite

Vem, Noite
[...]
Vagamente
[...]
Sozinha
[...]
Vem, embala-nos [...] e afaga-nos
Beija-nos silenciosamente na fronte [...] que não saibamos que nos beijam
Senão por uma diferença na alma
E um vago soluço partindo melodiosamente
Do antiquíssimo de nós
Onde tem raiz todas essas árvores de maravilha
Cujos frutos são os sonhos que afagamos e amamos
[...]

Vem soleníssima [...] e cheia
De uma oculta vontade de soluçar,
[...]
Porque a alma é grande e a vida é pequena,
E todos os gestos não saem do nosso corpo
E só alcançamos onde o nosso braço chega,
E só vemos áté onde chega o nosso olhar.

Vem, Dolorosa,
Mater-Dolorosa das Angústias dos Tímidos,
Turris-Ebúrnea das Tristezas dos Desprezados,
Mão fresca sobre a testa em febre dos humildes,
Sabor de água sobre os lábios secos dos Cansados.
[...]
Vem e arranca-me
Do solo [...] de inutilidade
Onde vicejo.
Apanha-me do meu solo, malmequer esquecido,
[...]
E desfolha-me para teu agrado
[...]

Ó domadora hipnótica das coisas que se agitam muito!
[...]

Quando tu entra baixam todas as vozes.


CAMPOS, Álvaro de. Poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.
Dois excertos de odes (fins de duas odes, naturalmente), p. 90

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