Um livro é um mudo que fala, um surdo que responde, um cego que guia, um morto que vive. (Padre Antônio Vieira)

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Poesias sobre gatos

Baudelaire, Charles, 1821-1867. As flores do mal: edição bilíngue. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006.
 
 
O gato

Vem cá, meu gato, aqui no meu regaço;

Guarda essas garras devagar,

E nos teus belos olhos de ágata e aço

Deixa-me aos poucos mergulhar.

Quando meus dedos cobrem de carícias

Tua cabeça e o dócil torso,

E minha mão se embriaga nas delícias

De afagar-te o elétrico dorso,

Em sonho a vejo. Seu olhar, profundo

Como o teu, amável felino,

Qual dardo dilacera e fere fundo,

E, dos pés à cabeça, um fino

Ar sutil, um perfume que envenena

Envolvem-lhe a carne morena.

O gato

I

Dentro em meu cérebro vai e vem

Como se sua casa fosse

Um belo gato, forte e doce.

Quando ele mia, mal há quem

Lhe ouça o fugaz timbre discreto;

Seja serena ou iracunda,

Soa-lhe a voz rica e profunda.

Eis seu encanto mais secreto.

Essa voz que se infiltra e afina

Em meu recesso mais umbroso

Me enche qual verso numeroso

E como um filtro me ilumina.

Os piores males ela embala

E os êxtases todos oferta;

Para enunciar a frase certa,

Não é com palavras que fala.

Não, não existe arco que morda

Meu coração, nobre instrumento,

Ou faça com tal sentimento

Vibrar-lhe a mais sensível corda

Que a tua voz, ó misterioso

Gato de místico veludo,

Em que, como num anjo, tudo

É tão sutil quanto gracioso!

II

De seu pelo louro e tostado

Um perfume tão doce flui

Que uma noite, ao mimá-lo, fui

Por seu aroma embalsamado.

É a alma familiar da morada;

Ele julga, inspira, demarca

Tudo o que o império abarca;

Será um deus, será uma fada?

Se neste gato que me é caro,

Como por ímãs atraídos,

Os olhos ponho comovidos

E ali comigo me deparo,

Vejo aturdido a luz que lhe arde

Nas pálidas pupilas ralas,

Claros faróis, vivas opalas,

Que me contemplam sem alarde

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