Um livro é um mudo que fala, um surdo que responde, um cego que guia, um morto que vive. (Padre Antônio Vieira)

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Crepúsculo dos ídolos, ou, como se filosofa com o martelo

NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. Crepúsculo dos ídolos, ou, como se filosofa com o martelo. Porto Alegre: L&PM, 2010. 144 p. (Coleção L&PM Pocket, v. 799). ISBN 978-85-254-1916-3

 

 

Há muitas coisas quem de uma vez por todas, não quero saber. - A sabedoria traça limites também para o conhecimento. p. 18

 

Ajuda a ti mesmo: então todos te ajudarão. Princípio do amor ao próximo. p. 19

 

Que não sejamos covardes em relação aos nossos atos! Que não os abandonemos uma vez consumados! – O remorso é indecente. p. 19

                                                             

Eis um artista tal como aprecio os artistas, modesto em suas necessidades: no fundo, só quer duas coisas, seu pão e sua arte. p. 20

 

Em busca dos primórdios, nos tornamos caranguejos. O historiador olha para trás; por fim, também acredita para trás. p. 22

 

O contentamento protege até de resfriados. Algum dia uma mulher que se soubesse bem vestida já se resfriou? – Suponho que ela mal estivesse vestida. p. 22

 

É de sair correndo quando a mulher possui virtudes masculinas; e quando não possui nenhuma virtude masculina, ela própria sai correndo. P. 22

 

O verme se encolhe quando pisado. Uma atitude prudente. Diminui assim a possibilidade de ser pisado outra vez. Na linguagem da moral: humildade. P. 23

 

Há um ódio à mentira e à dissimulação cuja origem está numa noção sensível de honra; há um ódio idêntico que provém da covardia, na medida em que a mentira é proibida por um mandamento divino. Covarde demais para mentir... p. 23

 

Quão pouco é preciso para ser feliz! O som de uma gaita de foles. – Sem música a vida seria um erro. P. 23

 

[...] Apenas os pensamentos caminhados têm valor. P. 23

 

Se nós, imoralistas, prejudicamos a virtude? – Tão pouco quanto os anarquistas prejudicam os príncipes. Apenas depois de serem alvejados é que eles sentam outra vez fortemente em seus tronos. Moral: deve-se alvejar a moral. P. 24

 

Corres à frente? – Fazes isso na condição de pastor? Ou de exceção? Uma terceira possibilidade seria o desertor... Primeiro caso de consciência. P. 24

 

És autêntico? Ou apenas um ator? És um representante? Ou a própria coisa representada? – No fim das contas, talvez sejas meramente a imitação de um ator... Segundo caso de consciência. P. 24

 

És alguém que observa? Ou que coloca mãos à obra? – Ou o que desvia o olhar e se afasta?... Terceiro caso de consciência. P. 24

 

Queres ir junto? Ou à frente? Ou andar sozinho?... Devemos saber o que queremos e que o queremos. Quarto caso de consciência. P. 25

 

Que importa que eu acabe por ter razão! Eu tenho razão demais. – E quem hoje ri melhor, também ri por último. P. 25

 

Fórmula de minha felicidade: um sim, um não, uma linha reta, um alvo. P. 25

 

[...] Não há sentido algum em fabular acerca de um outro mundo além deste se não houver um instinto de calúnia, de amesquinhamento, de suspeita em relação á vida nos dominando: nesse caso, nos vingamos dela com a fantasmagoria de uma outra vida, de uma vida melhor. P. 39

O fato de o artista dar mais valor á aparência do que à realidade não constitui objeção a essa tese. Pois, nesse caso, a aparência significa a realidade mais uma vez, só que selecionada, reforçada, corrigida... o artista trágico não é pessimista – ele justamente diz sim a tudo aquilo que é questionável e mesmo terrível; ele é dionisíaco. P. 39

A espiritualização da sensualidade se chama amor: ela é um grande triunfo do cristianismo. Um outro triunfo é a nossa espiritualização há hostilidade. P. 44

[...] tem mais necessidade de inimigos do que de amigos: é apenas no antagonismo que ele se torna necessário [...] só se é fértil ao preço de ser rico em oposições; só se permanece jovem se a alma não se espreguiça, não anseia pela paz [...]  nada nos causa menos inveja do que a vaca moral e a felicidade gorda da consciência tranquila. P. 45-46

A moral antinatural, ou seja, quase toda moral que até agora foi ensinada, venerada e pregada, volta-se, ao contrário, justamente contra os instintos da vida – ela é uma condenação desses instintos, ora secreta, ora sonora e  atrevida [...] o santo em quem Deus se compraz é o castrado ideal. A vida acaba onde o reino de Deus começa. P. 46

Tudo aquilo que é bom é instinto – e consequentemente leve, necessário, livre. A labuta é uma objeção [...] os pés leves são o primeiro atributo da divindade. P. 51

[...] o erro do espírito como causa confundido com a realidade! E transformado em medida da realidade! E chamado Deus! P. 53

O conceito de Deus foi até agora a maior objeção à existência... Negamos a Deus, negamos a responsabilidade em Deus: apenas assim libertamos o mundo. P. 59

A moral é apenas discurso por sinais, apenas sintomatologia: é preciso já saber do que se trata para tirar proveito dela. P. 60

Chamar a domesticação de um animal como melhoramento soa aos nossos ouvidos quase que como uma piada. Quem sabe o que acontece nas exposições de feras duvida que nelas a besta seja melhorada. Ela é enfraquecida, tornada menos daninha, transformada numa besta doentia através do afeto depressivo do medo, através da dor, dos ferimentos, da fome. – Não é diferente com o homem domesticado que o sacerdote melhorou. P. 61

[...] a de uma caricatura de homem, de um aborto: ele se transformou em um pecador, estava metido na jaula, fora trancado entre conceitos que eram todos terríveis... E ali estava agora, doente, miserável, malévolo contra si próprio; cheio de ódio contra os impulsos da vida, cheio de suspeita quanto a tudo que ainda era forte e feliz. [...] torna-la doente pode ser o único meio de enfraquecê-la. Isso a igreja entendeu: ela corrompeu o homem, ela o enfraqueceu. P. 61

[...] para fazer moral é preciso ter a vontade incondicional pelo contrário [...] nem Manu nem Platão, nem Confúcio nem os mestres judaicos duvidaram de seu direito à mentira. [...] até o presente, todos os meios pelos quais a humanidade deveria se tornar moral foram radicalmente imorais. P. 64-65

[...] a jovialidade é o que há de mais incompreensível em nós. P 69

Todas as grandes épocas da cultura são épocas de decadência política: o que é grande no sentido da cultura foi apolítico, mesmo antipolítico. P. 69

São necessários educadores que sejam eles próprios educados, espíritos superiores, nobres, provados a todo instante, provados pela palavra e pelo silêncio, culturas amadurecias, doces. P. 70

[...] não gostam de profissões, precisamente porque sabem que têm vocações... Eles tem tempo, tomam tempo para si, de modo algum pensam em ficar prontos [...] se é um iniciante, uma criança. P. 72

Deve-se aprender a ver, a pensar, a falar e a escrever [...] habituar o olho a calma, à paciência, a deixar que as coisas se aproximem; adiar o juízo, [...] não reagir imediatamente a um estímulo, mas lançar mão dos instintos que inibem e isolam [...] não querer [...] suspender a decisão. Toda falta de espiritualidade, toda vulgaridade, repousa sobre a incapacidade de resistir a um estímulo. P. 72

Para que exista arte [...] é imprescindível uma condição fisiológica: a embriaguez. [...] Todos os tipos de embriaguez, por mais distintamente condicionados que sejam, têm força para tanto: sobretudo a embriaguez da excitação sexual, a mais antiga e mais originária forma de embriaguez. Da mesma maneira, a embriaguez que segue todos os grandes apetites, todos os afetos intensos; a embriaguez da festa, da competição, da façanha, da vitória, todo movimento extremo; a embriaguez da crueldade; a embriaguez na destruição; a embriaguez influenciada por certas condições meteorológicas [...] ou influenciada por narcóticos; por fim, a embriaguez da vontade, [...] de uma vontade acumulada e intumescida. O essencial na embriaguez é o sentimento de plenitude e de intensificação da força. [...] O decisivo [...] é um colossal transbordar dos traços principais, de modo que os demais desapareçam. P. 82-83

Nesse estado enriquecemos todas as coisas com a nossa própria plenitude: o que se vê, o que se quer, é visto intumescido, apinhado, enérgico, sobrecarregado de força. O homem que se encontra nesse estado transforma as coisas até que reflitam o seu poder – até que sejam reflexos de sua perfeição. Esse ter de transformar em perfeição é – arte. [...] na arte, o homem goza a si próprio como perfeição. P.83

É preciso ser carente de espírito para adquiri-lo – ele se perde quando não se necessita mais dele. P. 88

Os homens mais espirituais, supondo que sejam os mais corajosos, também vivem, de longe, as tragédias mais dolorosas: mas justamente por isso eles honram a vida, por lhes oferecer a sua maior oposição. P. 90

Hoje, sem dúvida, é possível um número de convicções muito maior do que outrora: possível, ou seja, permitido, ou seja, inofensivo. Daí provém a tolerância em relação a si próprio – Essa tolerância permite várias convicções: elas vivem juntas pacificamente – elas evitam, como todo mundo hoje, se comprometer. Quando alguém se compromete hoje? Quando é consequente. Quando anda em linha reta. Quando suas palavras têm menos de cinco sentidos. Quando é genuíno... É grande meu medo de que o homem moderno simplesmente seja acomodado demais para alguns vícios: de modo que estes praticamente se extingam. Todas as coisas más que dependem da vontade forte – e talvez não haja coisas más sem a força da vontade – degeneram, na nossa atmosfera morna, em virtude... Os poucos hipócritas que conheci imitavam a hipocrisia: eram, como hoje em dia quase toda pessoa em cada dez, atores. P. 90-91

Nada repugna mais ao gosto de um filósofo do que o homem quando deseja [...] o filósofo despreza o homem desejante, também o desejável – e sobretudo todas as desejabilidades, todos os ideais do homem. Se um filósofo pudesse ser niilista, ele o seria porque encontra o nada atrás de todos os ideais do homem. Ou nem sequer o nada – mas apenas aquilo que não vale nada, aquilo que é absurdo, doentio, covarde, cansado, toda espécie de borra da taça esvaziada de sua vida... Como pode ser que o homem, tão venerável enquanto realidade, não mereça qualquer respeito tão logo deseje? Precisa expiar o fato de ser tão capaz como realidade? Precisa compensar seu agir, a tensão da inteligência e da vontade em todo agir, espreguiçando seus membros no âmbito do imaginário e do absurdo? – Até agora, a história de suas desejabilidades foi a partie honteuse do homem [...] o que justifica o homem é a sua realidade – ela o justificará eternamente. Quanto não será maior o valor do homem real se comparado com um homem meramente desejado, sonhado, um logro do princípio ao fim? Com algum homem ideal? E apenas o homem ideal repugna ao gosto do filósofo. P. 100-101

O homem liberto, e tanto mais o espírito liberto, pisoteia a espécie desprezível de bem-estar com que sonham merceeiros, cristãos, vacas, mulheres, ingleses e outros democratas. O homem livre é guerreiro. P. 110

A beleza não é um acaso. – Também a beleza de uma raça ou de uma família, sua graça e amabilidade em todos os gestos, é alcançada por meio de trabalho: [...] resultado final do trabalho acumulado de gerações. É preciso ter feito grandes sacrifícios ao bom gosto, é preciso ter feito e deixado de fazer muitas coisas por sua causa. P. 121-122

Tudo o que é bom é herança: o que não é herdado é imperfeito, é começo... p. 122

É a coragem para a realidade, afinal, o que distingue entre naturezas como a de Tucídides e Platão: Platão é um covarde frente á realidade – logo, ele se refugia no ideal; Tucídides é senhor de si; logo, também, é senhor das coisas... p. 131

[...] o próprio caminho que leva à vida, a geração, é considerado caminho sagrado... Só o cristianismo, com seu ressentimento contra a vida por fundamento, fez da sexualidade algo impuro: ele jogou lama no começo, no pressuposto, de nossa vida... p. 135

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