Um livro é um mudo que fala, um surdo que responde, um cego que guia, um morto que vive. (Padre Antônio Vieira)

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

O homem quando deseja

Nada repugna mais ao gosto de um filósofo do que o homem quando deseja [...] o filósofo despreza o homem desejante, também o desejável – e sobretudo todas as desejabilidades, todos os ideais do homem. Se um filósofo pudesse ser niilista, ele o seria porque encontra o nada atrás de todos os ideais do homem. Ou nem sequer o nada – mas apenas aquilo que não vale nada, aquilo que é absurdo, doentio, covarde, cansado, toda espécie de borra da taça esvaziada de sua vida... Como pode ser que o homem, tão venerável enquanto realidade, não mereça qualquer respeito tão logo deseje? Precisa expiar o fato de ser tão capaz como realidade? Precisa compensar seu agir, a tensão da inteligência e da vontade em todo agir, espreguiçando seus membros no âmbito do imaginário e do absurdo? – Até agora, a história de suas desejabilidades foi a partie honteuse do homem [...] o que justifica o homem é a sua realidade – ela o justificará eternamente. Quanto não será maior o valor do homem real se comparado com um homem meramente desejado, sonhado, um logro do princípio ao fim? Com algum homem ideal? E apenas o homem ideal repugna ao gosto do filósofo. P. 100-101 

NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. Crepúsculo dos ídolos, ou, como se filosofa com o martelo. Porto Alegre: L&PM, 2010. 144 p. (Coleção L&PM Pocket, v. 799). ISBN 978-85-254-1916-3

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