Um livro é um mudo que fala, um surdo que responde, um cego que guia, um morto que vive. (Padre Antônio Vieira)

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Adeus ao corpo

LE BRETON, David. Adeus ao corpo: antropologia e sociedade. Tradução de Marina Appenzeller. Campinhas/SP: Papirus, 2003. 240 p.

O homem dispõe do mesmo corpo e dos mesmos rcursos físicos que o homem do neolítico [...] nunca como hoje em nossas sociedades ocidentais os homens utilizaram tão pouco seu corpo, sua mobilidade, sua resistência. O consumo nervoso (estresse) susbstituiu o consumo físico. Os recursos musculares caem em desuso [...] e toma em seu lugar a energia inesgotável fornecida pelas máquinas. Até as técnicas corporais mais elementares – como caminha, correr etc. - recuam consideravelmente e só são sollicitadas raramente na vida cotidiana como atividades de [...] manutenção de saúde. Subempregado, incômodo, inútil, o corpo torna-se uma preocupação. p. 20

O corpo é uma carga tanto mais penosa de assumir quanto seus usos se atrofiam. Essa restrição das atividades físicas e sensoriais não deixa de ter incidências na experiência do indivíduo. Desmantela sua visão de mundo, limita seu campo de iniciativas sobre o real, diminui o sentimento de constância do eu, debilita seu conhecimento direto das coisas e é um móvel permanente de mal estar (LE BRETON, 1990) p. 21

Mudando o corpo, pretente-se mudar sua vida. Esse é o primeiro grau de suspeita do corpo. p. 22

A vontade está na preocupação de modificar o olhar sobre si e o olhar dos outros a fim de sentir-se existir plenamente. Ao mudar o corpo, o indivíduo pretende mudar sua vida, seu sentimento de identidade. A cirurgia estética [...] opera [...] no imaginário e exerce uma incidência na relação do indivíduo com o mundo [...] oferece um exemplo impressionante da consideração social do corpo como artefato da presença e vetor de uma identidade ostentada. p. 30

Essa paixão individualista pelo corpo é uma consequência da estrtuturação individualista de nossas sociedades ocidentais, sobretudo em sua fase narcisista [...]. p. 53

Não se trata mais apenas de uma medicalização do sofrimento existencial, mas também de uma fabricação psicofarmacológica de si, modelação química dos comportamentos e da afetividade que manifestam uma dúvida fundamental com relação ao corpo que convém manter à nossa mercê por meio da molécula apropriada. p. 65

O homem é moralmente reduzido apenas ao estado de seu corpo [...] pela maneira como aparece aos olhos dos outros. A anatomia tem aqui valor de destino. Fala-se, aliás, de “deficiente”, como se fosse da natureza da pessoa “ser um deficiente” mais do que “ter” uma deficiência [...] O homem que tem uma deficiência visível lembra com força a precariedade da condição humana, desperta a fantasia da fragmentação do corpo que habita muitos pesadelos. p. 87

Uma fantasia de onipotência desenvolve-se em uma sociedade liberal que faz da saúde um marketing sem precedente, modificando o tempo todo sua definição para englobar novas características que produzem, dessa maneira, novos sofrimentos e, portanto, novas solicitações médicas corretivas. [...] A repercussão no sistema de valores das nossas sociedades é grande e se fecha como uma armadilha sobre qualquer indivíduo um dia portador de diferença aos olhos do humano normal, após um acidente, uma doença, ou simplesmente as sequelas do envelhecimento. (LE BRETON, 1990, apud LE BRETON, 2003, p. 95)

Uma forte tendência do mundo contemporâneo é considerar toda forma viva como uma soma organizada de mensagens. A informação iguala os níveis de existência, esvazia coisas de sua substância própria, de seu valor e de seu sentido a fim de torná-las comparáveis. p. 101

[...] que coloca provisoriamente em contato indivíduos afastados no tempo e no espaço e que às vezes ignoram tudo deles mesmos. Um mundo em que as fronteiras se misturam e em que o corpo se apaga, em que o outro existe na interface da comunicação, mas sem corpo, sem rosto. p. 142

A generalização das técnicas de simulação e de representação virtual vai provavelmente ser acompanhada de uma miopia filosófica e moral que tenderá a ocultar a diferença de natureza entre o real e o virtual. (QUÉAU, 1993, p. 74, apud LE BRETON, 2003, p. 15)

Milhares de contadores de história, contistas, escritores, artistas etc. criaram universos e nenhum se considerou um deus. Ao contráro, é impressionante ver como essa autoproclamação se banaliza hoje na bologia, na medicina ou na cultura cibernética. p. 157

Ainda não houve manifestação de robôs e de computadores, mas muitos defensores já se precipitaram para socorrê-los prevendo crueldades inelutáveis que os homens lhes infligirão. Em um mundo em que a insignificância do homem não pára de aumentar, a dignidade e a importância das máquinas adquirem uma dimensão casda vez maior. p. 160

É uma atitude estranha considerar todas as coisas vivas como insatisfatórias. Dizem que sociopatas – torturadores ou assassinos – são caracterizados por uma tarefa cega, uma impossibilidade de imaginar que suas vítimas são reais. É possível a noção de obsolescência do corpo remeter a tal atitude? (STEPHAINE MILLS apud LE BRETON, p. 45)

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