Um livro é um mudo que fala, um surdo que responde, um cego que guia, um morto que vive. (Padre Antônio Vieira)

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Soneto do trabalho forçado

Mais um dia de trabalhos forçados,
Mais um dia para morrer mais um pouco,
Não suporto mais tanto trabalho,
De tanto trabalhar já estou ficando morto.

Quem se importa com a minha condição?
Ora! Eu, e é isso que importa,
Não espero ajuda de sindicatos ou mesmo de religião,
Mantenho-me em silêncio como uma porta.

Não há o que fazer,
Este mundo estranho não permite o ócio,
Temos de trabalhar para sobreviver.

Mas um dia eu fecho um bom negócio
E mando todo mundo se foder,
Depois chamo meu amor para ser meu sócio.

f. foresti

terça-feira, 29 de julho de 2008

Ego de artista

Tenho de escrever urgentemente,
Perdi meus versos em um acidente.
Foi tão duro ficar triste para escrever
E agora não consigo mais sofrer.

Preciso fingir urgentemente
Os sentimentos todos de toda gente,
Para que possa produzir algo de bom...
Porque a alegria não permite minha produção?

Gostaria tanto de escrever uns versos,
Fazer qualquer coisa, mesmo incerto,
Só para confortar meu ego de artista,

Somos todos tão vaidosos, tão egoístas.
De qualquer forma, escrevo qualquer coisa assim,
E ao final dou risada de mim.


f. foresti

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Geometria do amor

Você não respeitou
A pessoa que entre nós se colocava.
Pensou ser traição
Existir outro além de nós na relação.
Porém, lhe digo amor, é justo e natural.
Forçoso do ponto de vista conjugal
Que esse triângulo se estabeleça
Como geometria fundamental.
Porquanto não seja lógico,
Visto que resulta de dois pontos,
Entretanto note com atenção:
Cada ponto é um ponto,
Dois pontos juntos é um novo ponto então.

Fabiano Foresti

Poema para quem ousa escrever

A folha em branco espera
Que não seja apenas suporte da escrita
De algum escritor ou poeta.

Mas sim que seja escrita, apagada,
Reescrita, copiada, revista e ampliada,
Que enfim, não seja abandonada.

Não prive o mundo de suas impressões,
Experiências, amores, paixões.
Sê persistente, e maravilhas surgirão à sua frente.

Para quem ousa escrever,
Eu, a folha em branco, lhe digo:
Acabes o que começou, senão estarás perdido.

Pode parecer ameaça, mas não é.
De fato ocorrerá uma desgraça, a psicologia atenta:
O peso de uma folha em branco ninguém agüenta.

f. foresti em 27/10/2004

Soneto do operário de escritório

Como um pedreiro em meio ao mobiliário,
Tenta sentir-se seguro observando a pompa do seu local de trabalho,
Imaginando que um dia será beneficiado,
E que até ganhará aumento de salário.

No fundo ele sabe que não tem salário que pague:
Embrutece e morre todo dia um pouco,
No contato com a gente impaciente
Que só deseja o seu préstimo silente.

Através das palavras frias dos documentos,
Em meio às máquinas e os papéis sebosos,
Vai seguindo cego os procedimentos,

Ininterrupto, assina, carimba, despacha,
Expede, oficializa, protocola,
Tudo são nomes, datas, tudo tem hora.

Foresti, F. 19/10/2004

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