Um livro é um mudo que fala, um surdo que responde, um cego que guia, um morto que vive. (Padre Antônio Vieira)

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Poema do saco cheio

(ESCRITO NUMA NOITE DE LUA MINGUANTE E DURANTE UMA CRISE DE
PATRIOTISMO RECORRENTE PATOLÓGICO AGUDO POR

OSMAR COMDÊ NOPHYN

Estou cheio,

cheio de tudo.

cheio da vida, cheio do mundo,

cheio de mim mesmo.

Cheio de respirar sem parar,

de comer, de estudar, de andar,

de olhar, de beber, de mijar, de cagar,

sem jamais acabar de encher umas coisas

e esvaziar outras!

Cheio de ver o Sol passar de lá pra cá,

de lá pra cá, de lá pra cá,

e nunca, não sei por que, de cá pra lá!

Cheio de um dia passando atrás do outro,

ontem, hoje, amanhã, depois,

janeiro, fevereiro, março, abril,

segunda, terça, quarta, quinta,

quinta, quinta, quinta, quinta dos infernos...

E repetir todo dia essa chatura eterna:

"Bom dia", "Boa noite". "como vai?"

Cheio de abrir jornal cada dia que passa

e saber que Fulano matou a Beltrano,

que aquele outro roubou,

que tal preço subiu,

que a mulher do padeiro

la-la-ri com o leiteiro.

Guerra, revolução, jogo de futebol,

cheio de em todo jogo haver sempre

um que ganha, um que perde, um juiz que é ladrão.

Cheio de receber, de pagar, de comprar,

de pagar, de ganhar, de perder, de comprar,

de pagar, de pagar, de pagar, de pagar...

Cheio de só ver gente que

está sempre doente.

Cheio de ver gargantas, de ver línguas de fora,

de  ver cacos de dentes,

de bocas que fedem mais que bobó de gambá!

"Dói aqui?" "Dói ali?" "Dói acolá?"

Dói, sim. Tudo dói. Tudo está mal!

Cheio de vidros cheios de tumores,

de escarro, de sangue, de bosta.

Cheio da humanidade que passa

e repassa

e nasce, e cresce, e morre,

e não acaba nunca de nascer,

de crescer, de morrer, de morrer!

Como enche isso tudo!

Criança berrando e berrando e berrando.

Cheio de gente justa, gente boa, gente fina,

gente que diz "comigo é tudo no direito"

e de nunca encontrar essa gente na vida,

gente que já nasceu certamente enterrada:

"Aqui jaz Fulaninho, um primor de candura"

"Aqui jaz Fulaneco, a bondade em pessoa"

"Tutti buona genti, ma ladri!"

Cheio, cheio de fato

do que se diz, do que se lê, do que se escreve.

Cheio dessa poesia imbecil e concreta,

dessa música besta, dessa prosa idiota.

Cheio de precisar falar ao telefone,

aperte o dois, aperte o três, aperte o quatro,

e tome musiquinha,

onde está você, telefonista?

aperte o cinco, aperte o seis, aperte o sete,

e tome musiquuinha

até que a linha cai,

espere um pouco mais, insista, insista, insista

"Ora vá aporrinhar tua mãe

sua vigarista!"

Cheio das mentiras convencionais:

"Tive muito prazer em conhecê-lo"

Prazer?  Porque prazer? Prazer  horrível, é o que é!

E quer saber do que mais? Pois então, vá...

Oh! a angústia suprema do palavrão

que morre amordaçado na garganta!

Chato mundo, mundo chato, chato,

chaaaaaaaaaaato...

E ter de trabalhar todo dia,

trabalhar para  quê?

Ir para o trabalho,

voltar do trabalho,

ir para o trabalho,

voltar do  trabalho,

ir e voltar, ir e voltar,

ir e voltar, ir e voltar,

até que um dia, finalmente,

ir...e não voltar.

Cheio de precisar procurar

e falar e implorar aos

figurões

das repartições:

"Volte amanhã, cole mais um selo,

entre na fila, reconheça a firma,

volte amanhã, espere o chefe chegar do café,

hoje já fechou, volte amanhã,

siga os canais competentes,

pague o imposto, volte amanhã,

volte amanhã, volte amanhã,

não volte nunca mais, vá pro diabo!

Trabalhar no INSS

entrar para o INSS

sair do INSS

credenciar no INSS

brigar com o INSS

reatar com o INSS

sofrer, viver, respirar, comer, mijar INSS

pr ´um dia, finalmente,

faturar quarenta US,

Sentir que a vida passa e não se realiza,

sentir que esse bolero de Ravel não tem fim.

Nascer, chorar, crescer, crescer, crescer,

estudar, brigar, levar pau, crescer mais,

apanhar do papai, apanhar da mamãe,

apanhar do colega, apanhar da polícia,

apanhar resfriado, apanhar gonorréia

e depois trabalhar e lutar e casar

e levar a mulher pro doutor abortar,

e dormir, e acordar, e fugir do credor,

e dar golpes na praça e comprar o juiz

e juntar capital, e enfim enriquecer

na hora de morrer deixando alguém feliz.

Ora, p...a, direis, que já me estoura o saco!

Oh! chatura sem fim, oh! chatura infernal!

Estou cheio, estou cheio, estou cheio de tudo,

deste mundo, da vida, de mim mesmo talvez!.

De que vale trepar se o gozo é tão fugaz

e o que sobra, afinal, é um ardor por detrás!!!

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