Um livro é um mudo que fala, um surdo que responde, um cego que guia, um morto que vive. (Padre Antônio Vieira)

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Fernando Savater: a importância da escolha

[...] Agimos de acordo com conhecimentos imediatos, de cujas limitações podemos estar muito conscientes, e por isso nossa opção voluntária envolve também o risco parcial de não voluntariedade por ignorância... Nosso conhecimento é imcompleto, mas nossa vocação para a ação não pode ser adiada indefinidamente. E é isso, precisamente, que nossa vontade melhor sabe. p. 38

[...] Não se pode negar que existe escolha e portanto voluntariedade, mas é uma vontade forçada a optar por algo que só se quer contrariando um querer mais amplo e que não se teria escolhido em um contexto mais ameno. p. 39

[...] O acaso é uma face mágica e simples de algo estremamente intrincado [...] como o acaso não vai representar uma parte importante em nossas vidas, se vivemos por acaso? O acaso se encarrega de romper a voluntariedade de nossos atos até torná-la [...] irreconhecível: transforma [...] a ação em acidente. [...] nós mesmos somos acidentais [...] cada um é para si mesmo o “acidente absoluto”, a incerteza e a fatalidade essenciais com as quais devemos lidar. p. 41

[...] A humanidade autêntica não começa quando os antropóides conseguem fabricar uma panela de barro, mas quando a decoram com uma grinalda geométrica que não melhora em nada sua utilidade, mas realça sua elegância, ou quando enfeitam o rosto com um diadema de flores. p. 54

[...] todos [...] somos ”homens empreendedores” e, na medida de nossas forças, vivemos comprometidos com planos sobre o futuro. p. 55

[...] são bem vindas a experiência acumulada e a lembrança dos melhores mestres..., mas continuamos dependendo do bom tino do nosso espírito, pois estamos sozinhos. p. 61

[...] tudo que existe, na medida em que é, é divinamente, ou seja, tem algo de bom: “São o que são: o termo 'divino' expressa essa identidade. São tudo o que têm de ser, belos porque não precisam de nenhum retoque, perfeitos porque nada lhes falta...” p. 62

[...] o bom e o mal segundo o que (ou quem) e segundo o para que (ou para quem). Uma mesma coisa pode ser má para uns e boa para outros... p. 63

[...] a verdadeira objeção contra o livre arbítrio não é nossa impotência para fazer o bem (como supõem os superficiais), mas nossa impossibilidade de querer racionalmente o mal. p. 67

[...] Ortega disse “eu sou eu e minhas circunstâncias” , mas agora se diria que as circunstâncias configuram o eu e se impõem a ele. A sociedade medicalizada e paternalista permite converter em vício ou transtorno induzido qualquer transgressão das normas vigentes: a higiene e a clínica substituem a ética. A consciência se livra de más escolhas e acaba deixando de existir como consciência. p. 71

[...] para Sócrates, a virtude – ou seja, a disposição para agir bem – depende do conhecimento. Agir bem é a consequência direta de saber em que consiste o bom: quem conhece o bom o preferirá e agirá de acordo. p. 72

[...] algo bom a curto prazo [...] ganha mais peso do que bens ou males remotos no futuro. p. 75

[...] Há coisas que desejamos e, ao mesmo tempo, consideramos indesejáveis [...]; há coisas que não desejamos, mas desejaríamos desejar [...]; há coisas que nos empenhamos para desejar [...] Nosso querer é às vezes caprichoso e às vezes busca a excelência, às vezes é apetite e, outras vezes, cosnciência cidadã ou afã de santidade. p. 76

[...] santo Agostinho: “O que é essa monstruosidade? [...] A mente dá ordens ao corpo e é obedecida prontamente; a mente dá ordens a si mesma e encontra resistências e rejeições” p. 77

[...] as decisões absurdas são sempre coletivas, um trabalho de equipe; submetidas às relações de grupo as pessoas concordam com disparates que repudiariam se pensassem por si mesmas. p. 78

[...] o tempo e a morte formam nosso destino, o não escolhido que marca nossas escolhas e finalmente as cancela: não há como negar esse destino, nem tampouco livre arbítrio que permaneça sobre ele. [...] é nosso destino mortal que sustenta todos os nossos amores efetivos, dirigidos a criaturas por cuja sorte perecedoura nos desvelamos e enternecemos... pois somos livres para compartilhar com elas o destino, não para evitá-lo. p. 81

[...] a linguagem, a instituição humana por excelência e de importância não comparável a nenhuma outra, da qual depende a dimensão simbólica que se sobrepõe à nossa existência biológica e que condiciona esta. p. 88

Edgar Morin: “Como é possível que não se veja que o que é mais biológico – o nascimento, o sexo, a morte – é, ao mesmo tempo, o que está mais impregnado de símbolos e cultura? Nascer, casar, morrer são também atos fundamentalmente religiosos e cívicos. Nossas atividades biológicas mais elementares – comer, beber, dormir, defecar, acasalar – estão estreitamente associadas a normas, proibições, valores, símbolos, mitos, ritos, prescrições, tabus, [...] ao que há de mais especificamente cultural” entre A humanidade da humanidade. p. 91

[...] nossas convicções mais bem documentadas podem se revelar equivocadas, antes ou depois. [...] Como ensinou Popper, nossas verdades são aquelas afirmações congruentes com os fatos reais que resistem às tenativas de provar sua falsidade [...] ao contrário do que sustentou Spinoza, talvez seja precisamente o erro o indicador de si mesmo e do verdadeiro. [...] buscar a verdade é um exercício de modéstia. Pois efetivamente, como assinalou Ernest Gellnerm, trata-se de “indagar” e não de “possuir”. p. 109

Se não assumirmos esse exercício de modéstia, não estaremos mais livres [...] A maioria dos que dizem desconfiar da verdade [...] não costumam se caracterizar por não crer em nada [...] mas por acreditar em qualquer coisa. E, sobretudo, crêem em qualquer um: o que melhor encarna a moda dessa temporada, o que mais eficazmente seduz ou intimida. p. 109

No tu verdad: la verdad.Y vem comigo a buscarla.La tuya, guárdatela. Machado, Antônio.

[...] o prazer não é uma forma instrumental de conseguir nada, nem sequer é um fim em si mesmo, mas apenas evaporação gozoza da distinção entre fins e meios, sem antes nem depois. p. 114-115.

Segunda acusação: rebeldia. Buscar o gozo é rebelar-se frente à refinada obrigação social de compartilhar as dores impostas pela luta coletiva contra a necessidade. O sofrimento frutífero, o sacrifício solidário que nos proporciona ao mesmo tempo cicatrizes e prestígio são a base de qualquer moralidade pública que se preze. Os momentos de recreação costumam ser malvistos pelas pessoas decentes. p. 116

O espasmo de prazer está ao alcance de qualquer bicho vivente [...] mas os humanos inventamos o modo de estilizar essa doce convulção, transferindo-a dos órgãos sensoriais para a representação intelectual. p. 117-118

O sábio Lichtenberg advertiu que a abstinência é mais fácil, para a maioria, do que a temperança, porque esta admite e assume o dom da voluptuosidade, enquando que a primeira (abstinência) se horroriza impiedosamente ante sua ameaça. [...] Montaigne “Eu me defendo da temperança como antes me defendi da voluptuosidade. Leva-me muito para trás, às vezes até a estupidez insensível. Mas quero ser dono de mim, em todos os sentidos. A sensatez também tem seus exessos, e não precisa menos de moderação do que a loucura.” p. 119

Abstêmio: “pessoa de caráter fraco, que cede à tentação de se privar de um prazer”. (Ambrose Bierce, Dicionário do Diabo, p. 120)

De onde provém a má fama moral do prazer? [...] a aprovação moral, sempre tem sido mais fácil para os que fizerem outros sofrer [...] do que para os que se dedicaram a buscar sem travas o próprio gozo [...] são taxados de egoístas [...] resulta [...] mais repulsivo [...] do que o não menos evidente egoísmo dos que exigem o esforço alheio para produzir, acumular ou conquistar: a formiga [...] recebe melhor tratamento ético do que a devassa cigarra [...] . Admite-se a moralidade de quem adia o gozo em nome de fruturos desfrutes, de quem estabelece renúncias e aflições hoje para alegrar-se amanhã (ou para que amanhã outros se alegrem) e louva-se a boa disposição daquele que favorece os outros ou se sacrifica por sua satisfação... mas desconfia-se de quem se envolve em seu manto para vibrar a seu próprio gosto com doces espasmos. p. 121

Vivemos hoje a institucionalizão do hedonismo pela via do consumo: a diversão se tornou uma obrigação estética e política [...] enquanto que a lógica predominante é a propaganda dos bens que satisfazem todos os caprichos [...] mitigar os sofrimentos da vida terrena e convertê-la – se não exatamente no paraíso – pelo menos num parque temático [...] o excêntrico que rejeita as comodidades, a vertiginoza sucessão de eletrodomésticos e as colônias perfumadas se converte em um rebelde anti-social suspeito, quase um embrião de terrorista. p. 123

O deleite continua adiado e etiquetado; devemos gozar por meio da marca e converter a cega perturbação fruitiva em logotipo. [...] Os inquisidores que impunham caritativamente, até por meio da fogueira, a salvação da alma, foram substituidos por outros inquisidores que velam pela saúde pública dos corpos. p. 124

A política nem sempre é sequer boa, mas sua minimização ou desprestígio leva invariavelmente a um sintoma muito pior. p. 126

Pierre Manent: " A ambição da democracia é nos fazer passar de uma vida sofrida, recebida, herdada para uma vida desejada. A democracia é o predomínio do voluntarismo em todas as relações e em todos os vínculos". p. 131

O fanatismo é a única força de vontade de que são capazes os fracos. Nietzsche p. 148

A técnica é uma ferramenta, não um ideal em marcha. Deve estar a serviço dos nossos valores, e não ditá-los; o contrário não é progresso esclarecido, mas sim idolatria atávica mascarada. p. 160

Odo Marquard: " deveríamos praticar uma dieta do sentido e fazer um tratamento para emagrecer a ênfase". p. 166

Platão: nada convém menos ao bom e ao belo do que a inalterável eternidade. Sem contingência, não há ética que proteja nem estética que admire e desfrute. p. 168

Referência
SAVATER, Fernando. A importância da escolha. Tradução Paulo Anthero Barbosa. São Paulo: Planeta do Brasil, 2004. 183 p.

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