Um livro é um mudo que fala, um surdo que responde, um cego que guia, um morto que vive. (Padre Antônio Vieira)

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Nietzsche, Assim Falou Zaratustra

NIETZSCHE, Friedrich W. Assim falou Zaratustra: um livro para todos e para ninguém. Tradução de Mário da Silva. 12. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003. 381 p.

Corajosos, despreocupados, escarninhos, violentos – assim quer a sabedoria: ela é mulher e ama somente quem é guerreiro. p. 66-67

A vida é dura de suportar; mas, por favor, não vos façais de tão delicados! Não passamos, todos juntos, de umas lindas bestas de carga. p. 67

É verdade: amamos a vida, porque estamos acostumados não à vida, mas a amar. p. 67

Há sempre alguma loucura no amor. Mas há sempre, também, alguma razão na loucura. p. 67

Não é com a ira que se mata, mas com o riso. Eia, pois, vamos matar o espírito de gravidade. p. 67

Vós todos, que gostais do trabalho árduo e do que é rápido, novo, estranho – vós suportais mal vossas próprias pessoas: o vosso zelo é uma fuga e uma vontade de esquecer-vos de vós mesmos. p. 72

Deveis procurar o vosso inimigo, deveis fazer a vossa guerra e fazê-la pelos vossos pensamentos! E, se o vosso pensamento for vencido, que a vossa retidão lance, ainda assim, um grito de vitória! p. 73

A vós, não aconselho o trabalho, mas a luta. A vós, não aconselho a paz, mas a vitória. Que o vosso trabalho seja uma luta; e a vossa paz, uma vitória! p. 73

Ao trono, querem, todos, subir: é essa a sua loucura – como se no trono estivesse sentada a felicidade! Muitas vezes, é o lodo que está no trono – e, muitas vezes, também o trono no lodo. p. 77

Ainda está livre, para as grandes almas, uma vida livre. Na verdade, quem pouco possui, tanto menos pode tornar-se possuído: louvada seja a pequena pobreza! p. 77

É longe da feira e da fama que se passa tudo o que é grande; é longe da feira de da fama que moraram, desde sempre, os inventores de novos valores. p. 79

Contra eles não mais levantes o braço; inúmeros são eles e não nasceste para enxota-moscas. p. 79

Aquilo que conhecemos num homem é, também, o que nele inflamamos. Guarda-te, portanto, dos pequenos! p. 80

Não é melhor ir parar nas mãos de um assassino do que nos sonhos de uma mulher libidinosa? p. 81

Avaliar é criar [...] o próprio avaliar constitui o grande valor e a preciosidade das coisas avaliadas. Somente há valor graças à avaliação [...]. p. 86

Mais que todos, porém, é odiado quem voa. p. 90

E guarda-te, ainda, dos arroubos do teu amor! Por demais rápido é o solitário em estender a mão a quem encontra. p. 90

Vai para a tua solidão com o teu amor, meu irmão, e com a tua atividade criadora; e somente mais tarde a justiça te seguirá capengando. p. 91

Duas espécies de coisas , quer o verdadeiro homem: perigo e divertimento. Quer, por isso, a mulher, como o mais perigoso dos brinquedos. p. 92

Sempre cautelosos achei os compradores e, todos, com olhos espertos. Mas também o mais esperto deles ainda compra sua mulher como nabos em saco. Muitas breves tolices – a isso chamei amor. E vosso casamento acaba com as muitas breves tolices numa única e longa estupidez. p. 97

E todo aquele que deseja a fama deve, em boa hora, despedir-se das honras e exercer a difícil arte de, a tempo, ir-se embora. p. 99

De modo imaturo ama o jovem e de modo imaturo, também odeia o homem e a terra. Ainda presas e pesadas estão nele a alma e as asas do espírito. Mas o homem tem mais da criança do que o jovem, e menos tristeza: entende melhor da vida e da morte. [...] assim quero eu mesmo morrer, para que, meus amigos, por amor meu, ameis mais a terra; e à terra quero voltar, para ter paz naquela que me gerou. p. 100

O homem de conhecimento não deve poder, somente, amar seus inimigos, mas, ainda, odiar também seus amigos. Retribui-se mal um mestre quando se permanece sempre e somente discípulo. p. 105

Pior que tudo, porém, são os pensamentos mesquinhos. Na verdade, é ainda melhor proceder mal do que pensar mesquinhamente. p. 118

[...] suspeita- de todo aquele em que é poderoso o pendor para punir. [...] suspeitai de todos aqueles que falam muito de sua justiça! p. 130

Sim, até quando manda em si mesmo: também em tal caso deve ele expiar o seu mandar. Deve tornar-se juiz, víndice e vítma da sua própria lei. Como se dá isto? - assim me interroguei. Que induz o vivente a obedecer e a mandar e, ao mandar, praticar, ainda, a obediência? Ouvi a minha palavra, agora, ó os mais sábios dentre os sábios! Verificai seriamente se não me insinuei no coração da própria vida e até às raízes do seu coração! Onde encontrei vida, encontrei vontade de poder; e ainda na vontade do servo encontrei a vontade de ser senhor. [...] E, tal como o menor se abandona ao maior, para conseguir prazer e poder no menor de todos, assim também o maior se abandona a si mesmo e, por amor do poder – põe em risco sua vida. É esta a abnegação do maior: de que é risco e perigo e um lance de dados com a morte. [...] E este segredo a própria vida me confiou: “Vê”, disse, “eu sou aquilo que deve sempre superar a si mesmo” [...] Ainda prefiro o meu ocaso a renunciar a essa única coisa [...] Que eu deva ser luta e devir e finalidade e contradição das finalidades: ah, quem adivinha a minha vontade, certamente adivinha, também, que caminhos tortuosos ela deve percorrer. p. 145-146

Por quê? [...] eu não sou daqueles aos quais se tem o direito de indagar de seu porquê. É, acaso, de ontem, a minha experiência de vida? Há muito que eu vivi as razões das minhas opiniões. Não deveria ser eu um tonel de memória, se quisesse ter comigo também as minhas razões? Já é muito, para mim, reter mesmo as minhas opiniões; e mais de um pássaro alça vôo e vai-se embora. p. 158

Os maiores acontecimentos não são as nossas horas mais barulhentas, mas as mais silenciosas. p. 163

Deixai-vos derrubar para que volteis a vida. p. 164

[...] que eu não deva ter precauções. E aquele, entre os homens, que não quer morrer de sede, é preciso que aprenda a beber em todos os copos; e aquele, entre os homens, que quer permanecer limpo, é preciso que saiba lavar-se também com água suja. p. 175

Não sabes qual é o homem de que todos mais necessitam? Aquele que ordena alguma coisa grande. Realizar uma coisa grande é difícil, mas o mais difícil é ordenar alguma coisa grande. p. 179

São as palavras mais silenciosas que trazem a tempestade. Pensamentos que chegam com pés de pomba dirigem o mundo. p. 180

Aquele que sempre muito se poupou, acaba adoecendo de seu muito poupar-se. Louvado seja aquilo que enrijece! p. 188

É preciso aprender a desviar o olhar de si para ver muitas coisas. p. 188

Mas há uma coisa, em mim, à qual chamo coragem; e ela, até agora, sempre matou em mim todo o desânimo. [...] é que a coragem é o melhor matador – a coragem que acomete; porque em toda a acometida há um toque de clarim. p. 192

Desejar – já é, para mim, ter-me perdido. Eu vos tenho, meus filhos! Nesse ter, tudo deve ser certeza e nada, desejo. p. 198

A felicidade corre atrás de mim. Isso provém de que eu não corro atrás das mulheres. Mas a felicidade é mulher. p. 199

E quem não pode abençoar aprenda a maldizer! p. 201

Em toda a parte, vejo portas mais baixas [...] Oh, quando poderei voltar à minha terra sem mais precisar abaixar-me – abaixar-me diante dos pequenos! p. 203

Ainda semelho ao galo em capoeira estranha, que até as galinhas bicam; mas não guardo rancor a essas galinhas. Cortês, sou eu com elas, bem como paciente com todos os pequenos aborrecimentos: espinhar-se com o que é pequeno parece-me sabedoria de ouriço. p. 204

É que são modestos também na virtude – pois querem o bem estar. Mas somente uma virtude modesta condiz com o bem estar. p. 205

Escassa é, ali, a voronilidade: por isso, masculinizam-se suas mulheres. Pois somente quem for suficientemente varonil poderá, na mulher, redimir – a mulher. E esta é a pior hipocrisia que entre eles encontrei: que também os que mandam simulam as virtudes dos que servem. p. 205

Virtude é, para eles, o que torna modesto e manso; com isto, transformaram o lobo em cão e o próprio homem no melhor animal doméstico do homem. p. 206

Fazei, pois não, tudo o que quiserdes – mas sede, antes, daqueles que sabem querer. p. 208

Eu, alguém – que se encolhe? Nunca me encolhi nem rastejei, na vida, diante dos poderosos; e, se alguma vez menti, menti por amor. Por isto, estou contente também numa cama invernal. p. 210

Este ensinamento, porém, ó louco, eu te dou, como despedida: daquilo que não se pode mais amar, deve-se – passar além! p. 215

Em volta da luz e da liberdade esvoaçavam, outrora, como as mariposas e os poetas jovens. Um pouco mais velhos, um pouco mais frios: e já estão sentados perto da estufa, amigos da escuridão e do cochicho. p. 216

Caiu-lhes o coração aos pés porque a solidão me tragou como uma baleia? Por longo tempo e ansioso, ficou seu ouvido, em vão, à escuta dos meus toques de clarim e pregões de arauto? p. 216

-- Ah, são sempre apenas poucos, aqueles cujo coração guarda longamente a coragem e o entusiasmo; nesses, também o espírito se conserva paciente. O resto, porém, é covarde. p. 216
O resto: são sempre o maior número, o banal, o supérfluo, os muito-demais -- todos esses são covardes. -- p. 216

[...] os meios-termos estragam o todo inteiro. Que as folhas murchem – que há nisso a lamentar! Deixa-as cair e perder-se [...] e não o lamentes! É ainda preferível soprar no meio delas [...] para que tudo o que é murcho fuja ainda mais depressa para longe de ti! p. 217

Tudo, entre eles, fala, ninguém sabe mais compreender. Tudo vai por água abaixo, nada cai em poços profundos. p. 222

Àquele que vive entre os bons, a compaixão ensina-lhe a mentir. A compaixão torna abafado o ar para todas as almas livres. Porque a estupidez dos bons é incomensurável. p. 223

Cavam os coveiros suas próprias doenças. Debaixo do velho entulho, jazem mefíticas exalações. Não se deve revolver o lodo. Deve-se viver nos montes. p. 223

Onde houver força, também o número se tornará senhor: ele tem mais força. p. 224

Por que ponte vai o hoje a caminho do futuro? Que força obriga o alto a descer até o baixo? E o que manda o mais alto -- crescer ainda mais? -- p. 225

Outros cantores há, sem dúvida, para os quais somente a casa cheia torna a garganta melíflua, a mão eloqüente, os olhos expressivos, o coração desperto; -- não me assemelho a eles. -- p. 230

[...] Mas, quem deseja tornar-se leve e ave, deve amar-se a si mesmo [...] de uma amor sadio e saudável: para resistir no interior de si mesmo e não vaguear por aí. p. 230

[...] em verdade, não é um mandamento para hoje ou amanhã, o de aprender a amar-se a si mesmo. Ao contrário, de todas as artes, é a mais sutil, a mais astuciosa, a úlima e mais paciente. p. 231

[...] somente o homem é um pesado fardo para si mesmo! E isso procede de que carrega às costas demasiadas coisas estranhas. p. 231

O homem é difícil de descobrir e, mais difícil que tudo, descobrir-se ele a si mesmo. p. 232

[...] não gosto daqueles para os quais todas as coisas são boas e este é o melhor dos mundos. A esses chamo de onicontentes. Onicontentamento que sabe saborear tudo: não é o melhor dos gostos! Respeito as línguas e os estômagos rebeldes e exigentes, que aprenderam a dizer “eu” e “sim” e “não”. p. 232

Mais repelentes ainda [...] são os bajuladores; e o animal mais repelente que encontrei entre os homens batizei-o parasita: esse não queria amar e, ainda assim, pretendia viver do amor. p. 233

Em verdade, eu também aprendi, e a fundo, a esperar – mas somente a esperar por mim. E, acima de tudo, a prendi a ficar em pé e caminhar e correr e subir e dançar. Mas esta é a minha doutrina: quem quiser, algum dia, aprender a voar deverá, antes, saber ficar em pé e caminhar e correr e subir e dançar, - não se voa a primeira. p. 233

“este, agora, - é o meu caminho; - onde está o vosso?”; assim respondia eu aos que me perguntavam “o caminho”. Porque o caminho – não existe! p. 234

Entrementes, como alguém que tem tempo, falo comigo mesmo. Ninguém me conta nada de novo; assim, conto-me eu a mim mesmo. p. 234

Redimir o passado, no homem, e recriar todo o “foi assim” até que a vontade diga: “Mas assim eu o quis! Assim hei de querê-lo!” Supera a ti mesmo ainda no teu próximo; e um direito que podes arrebatar, não permitas que te seja dado! Aquilo que fizeres, ninguém poderá refazê-lo a ti. Não há recompensa nem castigo. Quem não sabe mandar deve obedecer. E há quem pode mandar em si mesmo, mas ainda lhe falta muito para que, também, obedeça a si mesmo! p. 237

É este o feitio das almas nobres: não querem nada de graça e, menos do que qualquer outra coisa, a vida. Quem é da plebe, esse quer viver de graça; nós outros, porém, a quem a vida se deu – meditamos sempre no que de melhor podemos dar-lhe em troca! E, na verdade, uma nobre eloqüência é a que diz: “Aquilo que a vida nos promete, é o que queremos, nós – cumprir em relação a vida!”. Não se deve querer gozar onde nada há para gozar. E – não se deve querer gozar! Porque gozo e inocência são o que há de mais pudico: nenhuma das suas coisas quer ser procurada. Deve-se tê-las – mas ainda é preferível procurar a culpa e a dor. – p. 238

Quem obedece não ouve a si mesmo. p. 239

[...] pois tem pouco valor tudo o que tem preço.

Não de onde viestes, seja, doravante, a vossa honra, mas para onde ireis! Que a vossa vontade e o vosso pé, que quer ir além de vós mesmos – sejam a vossa nova honra! p. 242

Ó meus irmãos, não para trás, deve olhar a vossa nobreza, mas para a frente! Expulsos devereis ser de todas as terras pátrias ou avoengas! p. 243

Conhecer: este é o prazer para quem tem a vontade do leão! Mas, quem ficou cansado, esse se tornará apenas um ser passivo, ao sabor de todas as ondas. p. 246

O querer liberta, pois querer é criar: assim ensino eu. E somente a criar deveis aprender. p. 246

Para onde quer, porém, que desejeis subir comigo, tratai de que não suba convosco nenhum parasita! Parasita: é um verme, um bicho rastejante, insinuante, que quer engordar à custa das vossas chagas secretas. E é esta a sua arte: que adivinha, nas almas que se elevam, o ponto em que estão cansadas; no vosso pesar e desânimo, no vosso delicado pudor, ali ele constrói o seu repelente ninho; o parasita mora onde o grande tem pequenos pontos feridos. Qual é, de todos o seres, a espécie mais alta e qual a mais baixa? O parasita é a espécie mais baixa; mas quem é da espécie mais alta alimenta a maioria dos parasitas. p. 248

Ai, se esses -- tivessem o pão de graça! Sabe-se lá por que outra coisa gritariam! Seu sustento – é o seu verdadeiro entretenimento. É preciso que a vida lhes seja difícil. [...] Melhores animais de rapina deverão, assim, tornar-se, e mais finos, mais sagazes, mais semelhantes aos homens: pois o homem é o melhor dos animais de rapina. A todos os animais roubou o homem as virtudes que lhes são próprias; e isto porque, de todos os animais, foi o homem que teve a vida mais difícil. p. 251

Assim quero o homem e a mulher: capaz para a guerra, um, capaz para a procriação, a outra, mas capazes ambos de dançar com cabeças e pernas. E reputemos perdido o dia em que não se dançou nem uma vez! E digamos falsa toda a verdade que não teve, a acompanhá-la, nem uma risada! p. 251

Nos malcasados, sempre encontrei as criaturas mais vingativas: fazem o mundo inteiro pagar por não mais poderem caminhar cada qual por sua conta. p. 252

Os bons -- sempre foram o começo do fim. – p. 254

Caminhai aprumados desde logo, meus irmãos, aprendei a caminhar aprumados! p. 255

Por que tão brandos e dóceis e condescendentes? Por que há tanto negar e renegar em vosso coração? E tão pouco destino em vosso olhar? p. 255

Ó vontade, transmutação de toda a necessidade, tu, minha necessidade! Reserva-me para uma grande vitória! p. 257

Como é agradável que existam palavras e sons; não são, palavras e sons, arco-íris e falsas pontes entre coisas eternamente separadas? [...] Não foram as coisas presenteadas com nomes e sons, para que o homem se recreie com elas? Falar é uma bela doidice: com ela o homem dança sobre todas as coisas. p. 259

Em cada instante começa o ser; em torno de todo o ‘aqui’ rola a bola ‘acolá’. O meio está em toda parte. Curvo é o caminho da eternidade. – p. 260

Foi presenciando tragédias, touradas e crucifixões que, até aqui, se sentiu mais satisfeito na terra; e, quando inventou o inferno, isso foi o seu paraíso, na terra. Grita de dor o grande homem, e já corre para lá o pequeno, com a língua de fora, babando-se de gosto. Mas chama-lhe ‘compaixão’. [...] O homem é o animal mais cruel contra si mesmo; e, em todos os que se dizem ‘pecadores’ e ‘penitentes’ e ‘portadores de cruz’, não vos passe despercebida a volúpia que há nesses lamentos e acusações! [...] o homem precisa , para o seu bem, de tudo o que tem de pior – p. 260-261

“Há muito que não viso à felicidade, viso á minha obra” 281

Antes, na verdade, viver entre eremitas e pastores de cabras do que com a nossa plebe revestida de ouro, falsa, empomadada e carminada -- ainda que se chame 'boa sociedade'? -- ainda que se chame 'nobreza'. Porque, nela, tudo é falso e podre, a começar pelo sangue, por motivo de velhas e más doenças e médicos ainda piores. O melhor para mim, hoje em dia, o que prefiro, é um sadio camponês, grosseiro, ladino, obstinado, resistente: é essa, hoje, a espécie mais nobre. p. 289

Não há pior desgraça, em todos os destinos humanos, do que quando os poderosos da terra não são também os primeiros dentre os homens. Tudo, então, torna-se falso, torto, monstruoso. p. 291

A verdade é que eu mesmo – ainda não vi nenhum grande homem. Para o que é grande, os olhos mais sutis são grosseiros, hoje em dia. É o reinado da plebe. p. 303

Todos os criadores são duros, todo o grande amor está acima da sua compaixão. p. 312

[...] somente agindo se aprende. p. 313

[...] há sempre uma coisa mais necessária do que a outra. p. 323

[...] o mais feio dos homens, porém, colocara uma coroa na cabeça e enrolara-se em duas cintas de púrpura, pois, como todas as pessoas feias, gostava de mascarar-se e enfeitar-se. p. 326

“[...] Aos meus e a mim cabe o que há de melhor; e, se não nos dão o melhor, nós o tomamos: -- a melhor comida, o céu mais puro, os pensamentos mais fortes, as mulheres mais bonitas!” -- [...] “É estranho! Já se ouviram, algum dia, tais coisas sensatas na boca de um sábio? E na verdade, o mais estranho, num sábio, é quando ele, além de tudo, é um homem inteligente e não um burro.” p. 333

Aprendei isto de mim, ó homens superiores: na praça do mercado, ninguém acredita em homens superiores. E, se quiserdes discursar por lá, pois não, à vontade. Mas a plebe piscará o olho: “Somos todos iguais”. p. 334

O que posso amar no homem, ó meus irmãos, é que ele é uma transição e um ocaso. p. 335

É que, hoje, os pequenos homens do povinho tornaram-se os senhores; pregam todos a resignação e a desambição e a cordura e a consideração pelos outros e o longo etecétara das pequenas virtudes. p. 335

Vamos! Coragem, homens superiores! Somente agora a montanha do futuro humano sente as dores do parto. Deus morreu; nós queremos, agora, -- que o super-homem viva. p. 334

Que o vosso querer não exceda as vossas capacidades; há uma maligna hipocrisia nos que querem o que está além das suas capacidades. p. 338

Se quereis atingir as alturas, usai as vossas próprias pernas! Não vos deixei levar para cima, não vos senteis nas costas e cabeças alheias! p. 339

Cresce, na solidão, aquilo que cada qual traz dentro de si, inclusive o seu animal interior. p. 341

Circundai-vos de pequenas coisas boas e perfeitas [...] sua dourada maturescência faz sarar o coração. A perfeição ensina a ter esperança. p. 342

O prazer, porém, não quer herdeiros, não quer filhos – o prazer quer a si mesmo, quer eternidade, quer retorno, que tudo eternamente igual a si mesmo. Diz a dor: “Despedaça-te, sangra, coração! Caminha, perna! Voa, asa! Para a frente! Para o alto! Oh, dor!” pois muito bem! Ânimo! Ó meu velho coração. -- A dor diz: “Passa momento!” p. 376

Dissestes sim, algum dia, a um prazer? Ó meus amigos, então o dissestes, também, a todo o sofrimento. Todas as coisas acham-se encadeadas, entrelaçadas, enlaçadas pelo amor. p. 376

[...] e também vós dizeis ao sofrimento: “passa momento, mas volta!” Pois quer todo o prazer – eternidade!

Um comentário:

  1. Demais, meu irmão. Desde a distância da minha alma eu reconheço e saúdo a distância da tua, em nosso amor comum por Zaratustra.

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