Um livro é um mudo que fala, um surdo que responde, um cego que guia, um morto que vive. (Padre Antônio Vieira)

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Rubem Fonseca: O buraco na parede

Chega meu chapa. (Vira as costas para José Roberto e caminha lentamento em direção à pia.) Nunca machuquei ninguém. Esta faca é só para fazer farol... para impressionar os trouxas... (Solta a faca, que cai ao chão.) Meu negócio é dar felicidade para os outros. (Volta o rosto para José Roberto, cansado e melancólico.) Para as mulheres, principalmente. Silas abre a torneira. Apóia-se na pia. Baixa a cabeça. Deita-se no chão. p. 55

Não interessa dizer como foi que um bancário desempregado como eu conheceu uma mulher como Paula, mas eu vou contar. p. 73

O que é caro sempre é bom, mesmo que seja ruim, essa é a regra de ouro dos consumistas. p. 89

A casa da pessoa pode ser uma coisa sem graça, a casa da maioria das pessoas é uma coisa sem graça, mas elas sempre querem transformá-las numa vitrine. O casamento é isso, duas pessoas se associam para fazer uma vitrine. A gente se mete dentro da vitrine junto com as bugigangas. Fazem parte da vitrine os dentes tratados, as boas roupas e os bons sapatos, as unhas manicuradas, a silhueta enxuta, os eletrodomésticos, as alianças, o perfume, a modulação da voz e a imponência das palavras, o rosto sem verruga (eu falei que tirei uma verruga do rosto?); e quanto mais ornamentada é a vitrine, maior é o nosso contentamento. Exibicionismo, eu entendo disso p. 89-90.

Dinheiro sendo gasto prodigamente com uma mulher é a mais impressionante exibição de poder que um homem pode fazer para ela. O pródigo exprime para a mulher beneficiária do seu esbanjamento o mesmo poder venerável que o seqüestrador, o torturador e o carrasco representam para sua vítimas. Mas há casos em que o sujeito não sendo podre de rico nem tendo soberania sobre a vida e a morte pode exercer um certo poder, mixuruca é verdade, sobre as mulheres: são os sujeitos que têm muita beleza, muito talento ou muita fama. Mas entre um poeta mavioso e um proprietário pomposo elas sempre escolhem o último. p. 91

[... ] O que mais existe é aborteiro neste país de gente fingida onde aborto é crime mas eles arrancam milhões de fetos por ano dos úteros de mulheres obedientes que emprenharam na marra, ou na apatia como vacas de estábulo, e depois querem se livrar do feto e até podem te dar um de graça... p. 116.

[...] Talvez os prazeres devam ser gozados dessa maneira secreta e para os homens de Deus a hipocrisia seja um imperativo. Que sei eu? p. 141

O Clube dos Democráticos ficava perto da nossa casa [...] O baile estava cheio de gente pulando no salão. Ainda faltava muito para o carnaval mas aquele era um clube carnavalesco e as pessoas pulavam e cantavam, principalmente as mulheres. Nunca tinha ido a um baile na minha vida. Senti pena das mulheres, suadas, pulando e saracoteando e gritando. Os homens causaram-me algum desprezo. p. 143

Na Biblioteca fiquei um tempo enorme procurando um livro para ler. Como tinha tantos livros para escolher, às vezes ficava na dúvida. Pesquisei assuntos no computador, vendo o que havia para ser consumido, como se fosse um menu de um restaurante. Ler era melhor do que comer. Ler era melhor do que andar. Ler era melhor do que criar sonhos conscientes. Ser surdo era melhor do que ser cego. Ser cego era melhor do que ser paralítico? Ensinei um rapaz estudante de curso noturno a encontrar um livro que o colégio mandara pesquisar, ele não entendia os comandos do computador. Eu gostava de ajudar as pessoas, gostava de mexer no computador, se tivesse dinheiro comprava um computador. Bem que gostaria de trabalhar na Biblioteca, seria o homem mais feliz do mundo se pudesse trabalhar ali. p. 147

Os homens se apaixonam pelas sereias porque elas não tem vagina, são asseadas e impenetráveis, e assim podemos ter com elas um vínculo imaculado. Pureza, limpeza, inexpugnabilidadse, esse o segredo das sereias. p.148


Referência

FONSECA, Rubens. O buraco na parede. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

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